JORNAL O MARISCO 186

 

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Edição especial em homenagem ao Mestre Julinho que se foi ao som dos tambores praieiros encontrar seus ancestrais.

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Flor da Are a Ano XI Nº 186 ponto de cultura Balneário Pinhal RS Casa da Cultura do Litoral

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E o vento se fez breve. quase mudo. Chiado. As ondas se ergueram, prá depois se deixaram escorregar pelas areias, dormentes. As dunas ficaram imóveis, perenes, soberanas a refletir. E o sol veio anunciar que naquele dia um “Mestre” sairia da vida pra ganhar lugar na natureza. Compondo e Recompondo. Os pássaros cantaram a passagem em transição sonora. Rápidos e avoados! O ciclo estava completo. Já ensinou o que havia para ser ensinado. Já mostrou o que havia prá ser mostrado. Já cantou o que havia prá ser cantado. Já tocou o que precisava ser tocado. Já tocou em quem precisava ser tocado. Já ouviu o que precisava ser dito. Já falou o que precisava ser ouvido. Então desceu a noite infinita trazendo mais uma estrela no céu de todos. Valeu Mestre Julinho! MESTRE JULINHO Infelizmente os mestres se vão, mas tornamse imortais nos seus ensinamentos, na sua arte. Deixam legados e histórias. Nós da Casa de Cultura sempre teremos as melhores risadas do Mestre Julinho, as melhores piadas e com certeza é assim que ele ficará em nossas falas. Aquele negro guerreiro, pescador de sonhos, cantor e músico que ensinou quem teve a sensibilidade de compreendê-lo. E agora temos mais um Maestro da Areia pra dançar e cantar em nossas rodas. Um viva para o Mestre Julinho! BOIZINHO DA PRAIA Que rufem os tambores porque vai começar a brincadeira de boi. Os alunos da Escola Herlita e comunidade poderão participar das oficinas de arte, dança e música com o objetivo de construir uma ópera popular. Mais um belo projeto em parceria com a Casa de Cultura do Litoral e o Ministério da Cultura, agora contemplando a Escola. Vamos brincar de Boi? ELEIÇÕES E foi dada a largada para as eleições. Mais um vez teremos a oportunidade de mudar as coisas através do voto. Portanto pense bem: se tu queres apenas garantir uma vantagem pra ti, procure o candidato que tem mais dinheiro . Mas se tu queres mudanças para tua família, para a tua cidade, estado ou país, vote no candidato que tem propostas. Já que não podemos mudar esse sistema imediatamente, procure conhecer o passado e o presente desse candidato e como foi construído seu patrimônio. Pense bem, vote bem. FESTEJOS FARROUPILHAS Mais um setembro se aproxima e o Sul se prepara para os festejos farroupilhas. Como será por aqui? A tradição vai dar lugar, mais uma vez, á cultura de massa? As vezes é difícil não usar clichês, porque parece que tudo o que importa é pão e circo para camuflar a corrupção e os desmandos, quando a festa termina os problemas aumentaram na mesma proporção em que as contas públicas são desaprovadas. Mas que importância tem isso mesmo? Nenhuma, se tiver baile todo dia. Se não te movimentas, não sentirás as correntes que te prendem. (Rosa Luxemburgo) VALEU MESMO Valeu Mestre Julinho. Valeu pela vida, pelos ensinamentos e pelo exemplo de vida. A matéria termina mas a essência fica. A História permanece e o exemplo de vida nos acompanhará para sempre. Companheiro de várias gauchadas, sem querer, estava sempre nos ensinando algo, com exemplos e comportamento. Que tua família lembre de ti, como eu me lembrarei, pelas belas palavras, belos exemplos e pela História de Vida. Valeu mesmo. Minhas homenagens ao MESTRE, COM CARINHO. P.S. Aos que sempre prejudicaram ou tentaram prejudicar o Mestre Julinho e foram chorar no velório, cuidado com os pés, pois o mestre é forte. PARABÉNS BRUNO No dia oito de agosto, comemoramos os quarenta e oito anos do Bruno. Parabéns Bruno. Bela festa no Galpão quase novo e quase pronto. Teus amigos estavam lá. Que Festão, bêbado dava para matar de pelego. Aguardamos os Cinquenta anos. Que festão. ENCONTRO DA FAMÍLIA LUZ No dia quatorze de setembro próximo, se realizará, em São Leopoldo, minha terra natal, a reunião da família LUZ. Será na casa da Ana Maria. Este encontro promete. Vamos apertar os laços familiares e isto é muito bom. Vai ter gente saindo pelo ladrão. Estou aguardando ansiosamente. Dizem até que a tia Rosa e o tio Coló, estarão presentes. Será? VAMOS VOTAR CERTO Logo alí, em outubro, teremos que votar, para Presidente e Vice, Senador, Deputado Federal e Estadual. Vote em quem você pode confiar. Vote certo, o teu voto não muda somente a tua vida, mas muda a vida de todos nós. Se o candidato é conhecido por suas maracutaias, não vote nele. Se já foi eleito e foi um mau prefeito, vereador e/ou deputado, não vote nele. Se já é conhecido como racista, discriminador, homofóbico, corrupto e sabese mais o que, não vote nele. O teu voto atinge a todos nós. Não nos prejudique. Vote certo para não se arrepender depois. TUDO IGUAL As coisas não mudam em Cidreira. A Administração continua demorando a examinar e despachar a documentação. Ainda não tem a Guia de ITBI para os contribuintes, não tem fiscais para as obras e quando tem, não tem carro para transportá-los. E, as demandas dos contribuintes, ficam sem respostas. Até quando? MAIS UMA DO MTG Dizem alguns que o MTG está tentando terminar com as ENTRADAS e SAÍDAS, nas Danças Tradicionais. Só faltava isto, pois as Danças Tradicionais são sempre iguais e não tem graça nenhuma. O que salva as apresentações das Invernadas são a criatividade e as livres expressões dos participantes. A minha dúvida é: Para que serve, afinal o tal de MTG., Só para atrapalhar? Eu tenho visto coisa! SOU CIDREIRENSE E NÃO DESISTO NUNCA Edição N°186 - II de Inverno 22 de agosto de 2014 jornalomarisco@gmail.com Insc. Municipal N°008/06 - Insc. Estadual: Isento /jornalomarisco /jornalomarisco /jornalomarisco Rua Caubi da Silveira, 286 - Praia da Cidreira - RS - CEP: 95.595-000 51.3681.3456 51.9981.5593

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* Mestre Julinho que ensinou uma levada diferente prá quem quis aprender! Mestre Julinho que ensinou o povo da praia a dançar. Valeu Mestre Julinho! Ivan Therra e Grupo de Cultura Popular Kikumbí. * Hoje tem festa praieira no céu ! Mestre Julinho juntamente com Ivan Therra são os grandes responsáveis por hoje eu ser uma historiadora. Ritinha Pinheiro. * Obrigado por tudo o que fez de mim. Acredito no reencontro. Jociel Lima. * Mais um maestro da areia que ensinou muita gente tocar e a cantar, um baita de um guerreiro. Vai em paz irmão MESTRE JULINHO. Pelego. * Seremos eternamente gratos por tudo que nos ensinou! Lutiano Weiss. * O legado deixado por Mestre julinho permanecerá conosco. Professora Maria Faistauer. * #MestreJulinho meu amigo, meu parceiro, meu irmão, lá da praia de Cidreira os tambores do céu estão em festa. Chris Peres. * Temos mais um amigo lá no céu. Circe Vasconcelos * Foste Mestre Julinho e não foi por acaso. Meu grande amigo, que honra ter te conhecido e ter tanta coisa pra lembrar. Fecho os olhos e posso ouvir a tua gargalhada... hihihihi. Martielli Weiss. * Grande músico e grande pessoa! Faz jus ao título de "Mestre". Com esse parceiro aprendi a jogar pião quando era piá! Rafael Alonso. * Eterno Maestro da Areia descanse em paz. Gabrielle Purin. * Eu estava em um dos almoços toda enjoada e logo o Mestre Julinho foi falando "Hummm, segunda vez que não quer comer frango assado, só pode estar grávida" e realmente nosso filho Yohann Weiss estava a caminho. Mileni Weiss. * Meus sentimentos. Que o Mestre descanse em paz! Mário Tressoldi. * Mestre Julinho, uma grande perda sem duvida nenhuma para a praia de Cidreira! Moacir Roberto Santos. * Baita fera da nossa cidade. Mano te guardarei sempre, parando prá te dar um oi na beira da praia, sempre de bem, kkkkkkkkkkkk, o verdadeiro marisqueiro. Geraldo Prior Jr Ganso. * Faço parte destes pupilos do Mestre Julinho, "chora cavaco e papai iôiô" não só na musica mas ensinamentos de vida, de um jeito manso e tranquilo de um verdadeiro Mestre. Marcelo Maresia. * Que os anjos sigam tocando... Andrea Ritter. * Que a música lhe acompanhe... E que todos reconheçam as coisas extraordinárias que o Mestre Julinho fez. Jasmine Barbosa de Vasconcelos * Vai com Deus Mestre Julinho e que lá em cima tu continues ensinando todo o teu conhecimento para os anjinhos. Rosilene Regina da Silva. * Foi-se um ícone de nossa cultura. Vou guardar na lembrança o sorriso manso ,o silencio e a imagem do mestre dos tambores. Ivete Purin. * Vai deixar saudade porque pessoas como ele são exemplo de vida. Rosangela Jorge Lopes. * Partiu para iluminar outras esferas. Valeu Mestre Julinho! Flora Rodrigues * Quando vamos aprender a dar valor ao coração das pessoas? Quando vamos parar de julgar as pessoas pela cor de sua pele? Quando vamos parar de pensar que as pessoas são apenas votos a serem amontoados? * Quando vamos entender que existem outros tipos de conhecimento, passado de pai para os filhos e filhas, da mãe para os filhos e filhas, passado da boca pro ouvido dos mais velhos para os mais novos! * Sabedoria popular, todos sabem que existe, mas pouco sabem do valor dos que aprenderam a lidar com ela. * Quando teremos uma justiça que não seja servil e canalha? Uma justiça que atenda de modo tão baixo a interesses políticos e econômicos, esquecendo totalmente os direitos universais de igualdade. * Quando será que vamos ter um entendimento um pouco mais aprofundado do que significa possibilitar o acesso a dignidade e que esta mesma dignidade é um direito de todos e todas? * Por quanto tempo ainda vamos tratar as pessoas diferentes com tanta indiferença? Por quanto tempo ainda vamos querer tudo para nós e nada para todos? * Até quando a cultura imperialista branca e rica vai continuar tratando a todos e todas como se as verdades fossem de propriedade de um elite construída para servir ao individualismo, a acumulação e a ganância. * Enquanto pessoas humildes sofrem para manterem-se vivas, alguns poucos desgraçados pensam que tem o direito de viver às custas do trabalho dos outros. * Eventos vazios, sem outro propósito que não seja o de desviar dinheiro para alguns bolsos, não colaboram em nada para o desenvolvimento da cidade. Servem apenas para enganar os incautos e pobres de espírito de sempre. * Muito gozado ver antigos asseclas, que por algum motivo torpe, agora foram desprezados e alijados das rodas poderosas, reclamando do modo de agir que eles mesmos sempre praticaram! Muito gozado! * E o pavoroso inverno está chegando ao fim! Mas a cidade tem pouco para festejar, as perspectivas não são boas. A invasão das áreas verdes por famílias em situação de risco social continua. E não há programas de auxílio para estas pessoas. Nossa Cidreira continua doente! * Prostituição nas imediações da Escola Ildo Meneghetti. E...? Maria Farofa Em nome da... Bicharada do Mar... Valeu Mestre Julinho! Valeu Mestre Julinho! Em nome dos... Pescadores e Pescadoras... Valeu Mestre Julinho!

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“Não fale de amor... sem falar do mar Não fale de amor... sem falar de mim” Da música “Sem falar do Mar” de Mestre Julinho em parceria com Ivan Therra e Jociel Lima Daí então me contaram que aqui na praia tinha um músico conhecido como Julinho, do “Pagode do Julinho”, que tocava no famoso Bar João. Então fui lá para conhecer o Julinho com a idéia de formar uma associação de músicos de Cidreira, para fortalecer as demandas da classe musical na cidade. Conversei por longo tempo com o Julinho que me apresentou seus músicos: Irani no baixo, seu irmão Totonho na bateria, Denilson Ferreira na percussão, Claudinho nos teclados e Jociel Lima no violão, esta era a formação do “Pagode do Julinho” na época. As conversas foram boas e em pouco tempo estávamos, em grupo, promovendo a “Sexta Nobre” no CPC, evento que ficou célebre pela participação de várias bandas de Cidreira e arredores, tudo isso com o apoio da Tia Sandra que servia os melhores pastéis da praia, acompanhados do sorriso mais bonito do mundo. No final do evento, ficávamos nós: Ivan Therra, o Julinho, o Gito, filho da Tia Sandra e também músico, o Marcelo Melo, o Martielli Weiss, o Cris Peres, entre outros, enfim, os mais chatos e insistentes, na cozinha da Tia Sandra, conversando sobre a música, a praia, a cidade, sobre cada um de nós e sobre todos ao mesmo tempo. Naquelas noites, durante aquelas conversas estava se solidificando a idéia do coletivo de artistas praieiros que veio a formar a Casa da Cultura do Litoral que hoje é uma instituição premiada nacionalmente. Naquelas noites começávamos, eu e o Julinho a conversar sobre as coisas da cultura do litoral. Eu, muito pela pesquisa da cultura litorânea que havia me dado a vitória na Tafona da Canção com a música “Coberta de Alma” em parceria com o Elton Saldanha e o Julinho falava de suas vivências pois nasceu na beira da praia e desde sempre viveu as culturas praieiras. As vivências do Julinho que, de pequeno ia levado pela mão na festa dos Maçambiques, foi me instruindo e construindo uma percepção diferenciada sobre o que significa ser da beira da praia. Conversando comigo Julinho foi aos poucos abrindo as cortinas sobre as riquezas das culturas da região praieira e me fazendo conhecer mais sobre o assunto. Julinho sabia das cantorias, das danças, dos tambores, das batidas rituais, sabia de tudo. Sabia porque viveu tudo isso. Eu fiquei sabendo porque o Julinho contou. Depois, levado pelo Julinho, fui conhecer de perto o povo Maçambique, suas cores, alegrias, tambores e fé. Por toda a história, pela luta e pela resistência é que me tornei amigo e admirador dessa gente maçambiqueira. Foi daí que inventei de criar o Grupo de Cultura Popular Kikumbí, um grupo musical dedicado exclusivamente aos ritmos e temas originais da nossa região praieira gaúcha e convidei o Julinho para tocar a ideia prá frente. Convidamos o Daniel Maíba, o Martielli Weiss, a Mileni Weiss, a Carla Zuchetto, o Zé Adams, o Eraldo Almeida e o Cris Peres e faltava um batera. Então o Julinho disse que havia conhecido um guri do Túnel Verde que tinha talento e prometia muito. É claro que confiei no julgamento do Julinho e disse prá ele convidar o tal guri. E foi assim que chegou no Kikumbí o Joel Carvalho que em pouco tempo se tornou o Badá do Túnel. O Grupo Kikumbí ganhou destaque no cenário musical estadual ao participar e ser premiado em vários festivais. Cada vez mais o povo foi entendendo o que era aquela levada diferente, o que era aquele jeito único, aquela batida sem igual. E o Julinho, por ter tido a generosidade de ensinar o que sabia para muita gente ganhou de todos o reconhecimento. E o título de “Mestre” uniu-se ao seu nome. Mestre Julinho. Então aquele Julinho passou a ser conhecido no cenário musical do nosso estado como Mestre Julinho. E todos os sujeitos culturais do Rio Grande do Sul passaram a admirar aquela “levada diferente”, aquela batida única, aquele riso escondido e aquele jeito praieiro. Mestre Julinho foi corajoso, foi bondoso e sempre será meu irmão, meu grande amigo. Valeu Mestre Julinho dos Kikumbís! Ivan Therra

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Jamais poderíamos imaginar que um dia a nossa gente da cultura, cheia de idéias com gosto de maresia, estaria fazendo um filme de uma história original da nossa praia. A h i s tó r i a é d o M a e s tr o d a A r e i a , u m personagem real da história de Cidreira. O roteiro e a direção é de Ivan Therra, o projeto foi contemplado no II Revelando os Brasis IMA e financiado pelo Ministério da Cultura. Para fazer o papel principal foi convidado o Mestre Julinho que fez o papel do Seu Tobias, seu pai. Tia Vera Teixeira, esposa do Mestre Julinho, fez o papel da esposa do Seu Tobias, a mãe do Mestre Julinho. O filme que foi exibido em rede nacional pelo Canal Futura, para o Brasil inteiro ver, mostrou um personagem negro, de beira de praia, que sabia fazer instrumentos musicais, completamente diferente de tudo o que já havia sido produzido em termos de cinema gaúcho. Nascia um cinema diferente no Estado do RS, com gosto de maresia. Mestre Julinho e a Tia Vera, reconhecidos pelo carinho com que sempre receberam os artistas da praia, formaram o casal que protagonizou o filme. Uma ação inédita, que exigiu muito desprendimento e coragem, pois estavam, de modo inédito, incluindo na cena do cinema nacional um povo gaúcho diferente do que sempre foi apresentado. Mestre Julinho e Tia Vera brilham no Cinema nacional.

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Mestre Julinho por várias vezes concedeu entrevista aos meios de comunicação do estado e do país, para falar sobre as singularidades da cultura popular da região praieira gaúcha. Quando entrevistado para o Programa Tele Domingo da RBS TV, Mestre Julinho falou sobre os tambores praieiros e as batidas e levadas diferentes originais das comunidades que vivem na beira do mar dos gaúchos. MESTRE JULINHO E A COMUNIDADE Mestre Julinho por várias vezes foi às escolas públicas para ter com a gurizada da praia e a cada uma criança que encontrava, parecia que estava encontrando a si mesmo, a cada ensinamento, a cada batida, Mestre Julinho também socializava o entendimento sobre o que é ser da praia. Como poderia ser bem melhor ser da praia se nos entendêssemos enquanto sujeitos de uma comunidade com riquezas e valores a serem descobertos, identificados, registrados, valorizados e divulgados. Mestre Julinho esteve com a rapaziada, ensinando toques de tambor e dando toques de vida. Sempre daquele jeito, humilde, calmo e paciente, Mestre Julinho foi conquistando o respeito e o carinho de todos que tiveram a oportunidade de ouvi-lo. MESTRE JULINHO É MÚSICA NA ESCOLA Durante a aplicação do Projeto Música na Escola, iniciativa do então diretor municipal de cultura, Jociel Lima, foi que os estudantes e toda a juventude de nossa cidade teve a oportunidade de ouvir e aprender com Mestre Julinho. O projeto propiciou à nossa gurizada o acesso aos ensinamentos de cultura popular, ritmos, temas e construção de instrumentos originais da nossa região praieira gaúcha. Mestre Julinho, com o seu encanto natural conquistou a gurizada da praia e conseguiu espraiar conceitos de pertencimento, de grupo, de riqueza cultural e de coisas que são de todos ao mesmo tempo. Mestre Julinho ensinou. MESTRE JULINHO E A DIVERSIDADE CULTURAL Não foi apenas com a Música da Praia e com a Cultura Praieira que o Mestre Julinho contribuiu para o desenvolvimento da cultura popular da nossa cidade. No Serra e Mar, conjunto criado pelo Professor Guido Weiss foram os pioneiros de Cidreira em festivais. O Pagode do Julinho, totalmente formado por músicos da praia fez muito sucesso e animou o veraneio de muita gente no famoso Bar João. Com a gurizada do Ká entre Nós fez a festa e arrebentou nos carnavais da praia. Com os amigos Batista, Solismar e Adroaldo faziam uma música das mais lindas e a gauchada dançava até o amanhecer no CTG Piazito. Mestre Julinho era de todas as tribos, de todas as cores, de todos os ritmos, Mestre Julinho era de todos. rádio 98.9FM

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Os valores que a sociedade construiu com base na lei do mercado e na lei do consumo, criaram culturas de gabinete, cultura de poucos para poucos, culturas fabricadas para o consumo rápido, indústrias culturais e culturas de massa, excluindo as culturas populares, os conheceres e os saberes dos mais antigos, dos povos diferentes, os saberes da diversidade. Tudo tem que ser igual, tudo tem que ser uma cópia para ser vendável. Esqueceram do valor das cantigas dos pretos velhos, das ervas maceradas pelas sabedoria das mulheres, das rezas e das preces cochichadas nas benzeduras, por isso volta e meia encontramos um Mestre Julinho, que vem ao mundo para nos ensinar sobre os valores a serem resgatados na humanidade. É o Meu Fim – Estou no fim, infelizmente ou felizmente chegou minha hora. Não vou lutar contra, ela é poderosa, cria em nossas mentes pensamentos incompreensíveis, faz você se sentir alguém diferente. Mas esta é a vida, este é o final! Vou para este fim de cabeça erguida com a certeza de ter feito a coisa certa! E depois de tudo, se este for o meu castigo, então, que seja, pode vir a mim, aposentadoria! Lixão – Na rua treze (13) esquina com a RS784, criou um novo lixão, os moradores já não aguentam mais a proliferação de ratos, cobras e outros animais, que invadem suas casas. Se nem em ano político resolvem! Quando será o dia da nossa sorte? Eleições – Faltam pouco mais de 30 dias para a eleição e parece que ainda não começou a campanha. Também do jeito que anda a política partidária, com escândalos de corrupção e a justiça fazendo que não vê, tal situação. E pior quando condena ainda solta, dando à aqueles, as vantagens que o cidadão não tem. Buracos – O DAER fez a sua parte e áreas mais críticas foram consertadas, mas ainda deixou a desejar na qualidade do asfalto, que com as chuvas já saiu em alguns locais. Buracos II – E a prefeitura quando irá assumir a parte dela, ou será que esta gastando o dinheiro somente na campanha do chefe. Afinal marionete é assim faz só o que lhe mandam. Candidatos – Meu candidato à presidência morreu e meu candidato ao senado, agora é vice de Marina Silva. Tenho que repensar meu voto, afinal serão mais quatro anos de governo e precisamos tratar do voto com a seriedade de quem irá definir o seu próprio futuro. Alceu – Após mais uma derrota na justiça, o deputado agora entrou com recurso especial no STJ em Brasília. Muito bem, estamos preparados e temos a certeza da vitória, porque a verdade tem que ser dita e mantida. Maquiné – Fui escalado para cobrir as férias de um colega nesta cidade e está sendo para mim uma grata surpresa. Cidade pequena, limpa e trabalhadora. Uma paisagem linda e digna de ser visitada. Áreas ecológicas, morros, cascatas e muita natureza. Tudo aqui bem pertinho de nós. Visite, vale a pena! Fidelidade – Como ser fiel a quem lhe é fiel, como ajudar se você sempre foi usado. Nas relações partidárias é assim! Usam-te, não te favorecem em nada e ainda te exigem a tal da fidelidade partidária, no final do ano me aposento também da vida política partidária para a alegria dos que não gostam de ser contrariados, dos que querem se beneficiar da coisa pública, daqueles que vivem e enriqueceram através da política e se beneficiando dela. Mas estarei sempre de olho, afinal o dinheiro publico, também é meu! Da Frase -"O preço a pagares pela tua não participação na politica é seres governado por quem é inferior”. Platão. Assim como acontece em todo o nosso Estado, aqui na beira da praia, as comunidades negras também não eram tratadas de modo igualitário. A Vila da Fumaça e a Vila da Viola, reduto de moradia das pessoas de raiz africana em nossa praia, era um lugar pobre de pessoas pobres, ali morava o Julinho quando guri. Passado o tempo trabalhou de pedreiro, de pintor, foi funcionário da obra na prefeitura, foi segurança e zelador do prédio da antiga SAPC, de modo covarde foi despejado ficando com a sua família e seus pertences na rua. então ser acolhido pelo seu irmão Totonho. Por seu esforço e com o apoio de amigos conseguiu erguer sua casa, onde foi morar com a família. Quando a sociedade cidreirense se deu conta, o “nego Julinho” já era reconhecido em todo o estado e no país como “Mestre Julinho”, por suas vivências e por seu conhecimento da cultura popular praieira. Mestre Julinho conquistou a sua dignidade e muitos dos que lhe tratavam com desdém, passaram a respeitá-lo e a sua família, pela sua arte e pela sua cultura. “Mestre Julinho” é o abre alas do movimento negro praieiro, um exemplo para os que lutam e sofrem com os preconceitos e discriminações da sociedade. da SAPC, onde morou e juntamente com a Tia Vera criou seus filhos, o Cristiano e a Cristiane. O Mestre Julinho teve pouco acesso aos estudos, mas sabia ler e escrever. Mestre Julinho era trabalhador braçal, uma pessoa humilde e como tal a sociedade o tratava, pela cor da pele, chamavam-no o ”nego Julinho”. Sempre foi discriminado social e economicamente e durante a Gestão Custódia, sofreu uma ação judicial da Prefeitura para sair

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Boizinho da Praia Olha o Mestre Julinho Olha o Mestre chegou Olha o Mestre Julinho Olha o Mestre tá aí Se tu pede prá ele Ele vai te ensinar a dançar Maçambique a dançar Kikumbí Olha na beira da praia Onde a onda vem brincar Vem de lá Mestre Julinho Com segredos prá contar O tambor de couro santo Ele ensina a tocar O chá chá da massacaia Ele ensina a tocar O tim ti li lin dos guizos Ele ensina a toca E a levada diferente Essa tem que conquistar Olha na beira da praia Olha com chapéu de palha Vem de lá Mestre Julinho Balançando as massacais Olha na beira da praia Onde a areia vem dançar Chega bem devagarinho Que é pro mar não se agrandar Olha por cima das ondas Não precisa ajoelhar E pede “bença” Mestre Julinho Que ele vai te abençoar Todos os estudantes, funcionários e professores receberam um convite especial feito pela diretora historiadora Valquíria Ferreira e pelo cientista social Ivan Therra para participar do Projeto Boizinho da Praia, contemplado pelo Programa Mais Cultura nas Escolas e totalmente financiado pelo Governo Federal através do Ministério da Educação em parceria com o Ministério da Cultura. O Boizinho da Praia é um auto folclórico original da nossa região praieira e que há muito caiu em desuso, sendo fruto de pesquisa antropológica realizada por Ivan Therra da Casa da Cultura do Litoral e do Ponto de Cultura Flor da Areia. O Boizinho da Praia pode ser entendido como uma Ópera Popular que será encenada pelos estudantes, funcionários e professores da Escola Estadual Herlita Teixeira que quiserem participar do projeto. Os brincantes, como são chamados os participantes do auto, irão contar a história da Dona Catirina que por desejo de grávida exigiu do Seu Chico que fosse buscar a língua do boi premiado do patrão para que ela matasse seu desejo de comer língua de boi. Seu Chico saiu para satisfazer o desejo da Dona Catirina temendo que seu filho nascesse com cara de boi. O Cientista Social Ivan Therra, coordenador do Projeto Boizinho da Praia, esteve com a direção, professores e estudantes, trocando ideias sobre as formas de implantação do projeto na Escola. Todos estão aprofundando os conhecimentos sobre as riquezas da nossa cultura popular praieira e contribuindo para o desenvolvimento coletivo.

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