42 EDIÇÃO - JORNAL ESTADO DE DIREITO

 

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42 EDIÇÃO - JORNAL ESTADO DE DIREITO

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Em busca da Igualdade de Direitos Nesta 42ª edição, com a contribuição de articulistas, palestrantes, fotógrafos, partir da efetivação do acesso à Justiça pelos múltiplos atores que compõem o músicos, patrocinadores e demais colaboradores voluntários, é possível cotidiano da prestação jurisdicional, no processo sem volta de transformação analisar a longa jornada que temos para garantir a igualdade de Direitos, a do Poder Judiciário brasileiro. Leia o artigo de José Renato Nalini, página 10. valter campanato abr Estado de Direito brasil • N° 42 • Ano VIII • ISSN 2236-2584 “A participação popular foi alçada à categoria de condição de possibilidade do projeto democrático” José Renato Nalini Desafios da Homoparentalidade Maria Berenice Dias disserta sobre a omissão do reconhecimento à paternidade homoparental, em flagrante inconstitucionalidade aos princípios, direitos e garantias fundamentais. Página 4 Desigualdade e seus muitos nomes Jefferson Carús Guedes aborda o estágio de reconhecimento de desigualdades no Brasil e aos desafios alarmantes que necessitam de compensações, para a redução da pobreza e acesso à educação básica. Página 5 Regulamentação das eleições na OAB Bruno Espiñeira Lemos analisa como as eleições nas seccionais vem se constituindo em horrendas competições, nas quais impera o abuso do poder econômico e o estímulo a inimizades, propondo a regulamentação das eleições. Página 9

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2 Estado de Direito n. 42 Estado de Direito Nasce o Instituto Cultural Estado de Direito Carmela Grüne* ISSN 2236-2584 Edição 42 • VIII • Ano 2014 Estado de Direito Comunicação Social Ltda. CNPJ 08.583.884/0001-66 Porto Alegre - RS - Brasil Rua Conselheiro Xavier da Costa, 3004 CEP: 91760-030 - fone: (51) 3246.3477 skype: estadodedireito e-mail: contato@estadodedireito.com.br site: www.estadodedireito.com.br Diretora Presidente Carmela Grüne Jornalista Responsável Cármen Salete Souza MTb 15.028 Consultoria Jurídica Renato de Oliveira Grüne OAB/RS 62.234 Anúncios teleanuncios (51) 3246.3477 (51) 9913-1398 comercial@estadodedireito.com.br Organização de Eventos (51) 9913-1398 contato@estadodedireito.com.br Diagramação Jornal Estado de Direito Tiragem: 50.000 exemplares Pontos de Distribuição em 20 Estados brasileiros Acesse http://www.estadodedireito.com.br/distribuicao Porto Alegre Rédito Perícias: Rua dos Andradas, 1270, sala 21 Livraria Saraiva Porto Alegre Rua dos Andradas, 1276 - Centro Av. Praia de Belas, 1181 - 2º Piso - Loja 05 Rua Olavo Barreto, 36 - 3º Piso - Loja 318 e 319 Av. João Wallig, 1800 - 2º Piso - Loja 2249 Av. Diário de Notícias, 300 - loja 1022 Caxias do Sul: Rodovia RSC, 453 - Km 3,5 - nº 2780 - Térreo Curitiba: Av. Candido de Abreu, 127 - Centro Florianópolis: Rua Bocaiuva, 2468 - Piso Sambaqui L1 Suc 146, 147 e 148 Acesse www.livrariasaraiva.com.br confira os demais endereços das lojas em que você poderá encontrar o Jornal Estado de Direito. Livraria Revista dos Tribunais Acesse o site www.rt.com.br confira os endereços lojas da Editora RT em que o Jornal Estado de Direito é distribuído gratuitamente. Associação Nacional dos Procuradores Federais http://www.anpaf.org.br Ordem dos Advogados do Brasil - Rio Grande do Sul http://www.oabrs.org.br PAÍSES Através de Organismos Internacionais, professores e colaboradores o Jornal Estado de Direito chega a Portugal, Itália, México, Venezuela, Alemanha, Argentina, Ucrânia e Uruguai São mais de 400 pontos de distribuição. Contate-nos, distribua conhecimento e seja um transformador da realidade social! D esde a fundação da Estado de Direito Comunicação Social Ltda., em 15 de novembro de 2005, tivemos a preocupação em unir ações práticas e reflexivas, para promover idéias e ideais de cidadania e dos direitos humanos. Nessa trajetória, desenvolvemos importantes trabalhos sociais como Jornal Estado de Direito, Direito no Cárcere, Desmitificando o Direito, Samba no Pé & Direito na Cabeça, Ciclo de Estudos Estado de Direito. Recebendo as seguintes láureas: • Prêmio Agente Jovem da Cultura, do Ministério da Cultura, pelo projeto Samba no Pé & Direito na Cabeça, em 2012; • Prêmio Juíza Patrícia Acioli de Direitos Humanos, da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), segundo lugar com a Prática Humanística do Direito no Cárcere, em 2013; • Prêmio Estadual de Direitos Humanos, da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, categoria Divulgação dos Direitos Humanos, pelo Jornal Estado de Direito, em 2013; • Medalha da Cidade, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, pelo projeto Direito no Cárcere, em 2014; • Prêmio Diversidade RS, da Secretaria de Estado de Cultura do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, categoria Cultura dos Direitos Humanos, pela Estado de Direito Comunicação Social Ltda., em 2014. Com intuito de pontecializar e ampliar as ações sociais existentes nasce o Instituto Cultural Estado de Direito - ICED, tendo como objetivos: I- promover a defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao setor socioeducativo, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos; II- promover a assistência social, a segurança pública, a saúde, a educação, a qualificação profissional, a geração de trabalho e renda, com projetos e ações que visem a proteção da identidade física, social e cultural do cidadão seja ele jovem ou adulto, com recursos próprios ou advindos de convênios ou outras formas jurídicas; III- estimular a parceria, o diálogo local e a solidariedade entre os diferentes segmentos sociais, participando de atividades voltadas a promoção da justiça, da dignidade, do bem comum, inclusive com outras entidades. IV- popularizar as ciências jurídicas através de: a) ações culturais em praças, parques, shoppings, instituições com população privada do convívio social, como presídios e abrigos de menores; b) matérias e artigos nos jornais Estado de Direito e Estado de Exceção, assim como outros veículos de comunicação que se identifiquem com os objetivos do ICED; V- manter a instituição apartidária; VI- participar de discussões/ações políticas, econômicas, jurídicas, socioculturais e ambientais, em especial, aquelas direcionadas às populações de baixa renda e socialmente desfavorecidas de oportunidades; VII- promover a integração ao mercado de trabalho, implementar programas de geração de renda; VIII- promover a pesquisa, o ensino e o desenvolvimento institucional, por meio da elaboração e execução de projetos; IX- realizar cursos, encontros, seminários, congressos, feiras, workshops e eventos artísticos e culturais destinados a promover o desenvolvimento de temas institucionais na sua área de atuação; X- promover e estimular a regionalização da produção cultural e artística brasileira, com valorização de recursos humanos e conteúdos locais; XI- prestar suporte e/ou apoio técnico e administrativo às atividades desenvolvidas pelos órgãos da Administração Pública direta ou indireta; XII- realizar intercâmbios e promover iniciativas conjuntas com entidades e organizações públicas ou privadas, nacionais e estrangeiras, as quais devem ser norteadas pelos princípios do ICED; XIII- adquirir bens móveis e imóveis e angariar recursos financeiros; XIV- concentrar esforços no convívio pacífico, respeitando as diversidades, credos, cor, religião e gênero. Com a participação coletiva práticas sociais existentes são fortalecidas e potencializadas. Faça parte do ICED! Seja um protagonista na construção dessa nova etapa. www.estadodedireito.com.br. Um abraço e boa leitura! * Diretora Presidente do Jornal Estado de Direito. Presidente do Instituto Cultural Estado de Direito. Membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RS. Advogada. Jornalista. Autora dos livros “Participação Cidadã na Gestão Pública” e “Samba no Pé & Direito na Cabeça” (obra coletiva), ambos publicados pela Saraiva. *Os artigos publicados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião desse Jornal. Os autores são os únicos responsáveis pela original criação literária.

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4 Estado de Direito n. 42 Homoparentalidade Maria Berenice Dias* A omissão inconstitucional valter campanato abr C om o surgimento da manipulação genética e dos métodos reprodutivos de fecundação assistida, o sonho de ter filhos se tornou realidade para todos. Agora qualquer pessoa, independente da capacidade procriativa, vivendo sozinho ou sendo casado, mantendo união estável hétero ou homossexual, todos têm a possibilidade de concretizar o sonho de constituir uma família. O afeto, elemento identificador das entidades familiares, passou a servir de parâmetro também para a definição dos vínculos parentais. A jurisprudência começou a atentar ao melhor interesse da criança e do adolescente e a reconhecer o vínculo de filiação a quem eles consideram pai e que os ama como filhos. Tal fez surgir uma nova figura jurídica, a filiação socioafetiva, que se sobrepõe tanto à realidade biológica como a registral. Vínculos Das presunções legais de paternidade, chegou-se à plena liberdade de reconhecimento de filhos e à imprescritibilidade das ações para perquirir os vínculos de parentalidade, mesmo na hipótese de adoção. Está assegurado o direito ao conhecimento da ascendência genética, ainda que, desarrazoadamente tal reconhecimento não gere direitos de natureza alimentar ou sucessória. Sequer se admite a alteração do registro de nascimento caso seja demonstrada a existência de uma filiação de natureza afetiva com quem registrou o filho como seu. Indispensável reconhecer que crianças e adolescentes vivem e sempre viveram em lares de pessoas do mesmo sexo. A maior aceitação das famílias homoafetivas tornou impositivo o estabelecimento do vínculo jurídico paternofilial com ambos os genitores, ainda que sejam dois pais ou duas mães. Não reconhecer a paternidade homoparental é retroagir um século, ressuscitando a perversa classificação do Código Civil de 1916, que, em boa hora, foi banida pela Constituição Federal de 1988. Além de retrógrada, a negativa de reconhecimento escancara flagrante inconstitucionalidade, pois é expressa a proibição de quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. Rejeitar a homoparentalidade afronta um leque de princípios, direitos e garantias fundamentais. Para o estabelecimento do vínculo de parentalidade, basta que se identifique quem desfruta da condição de pai, quem o filho considera seu pai, sem perquirir a realidade biológica, presumida, legal ou genética. O critério deve ser a afetividade, elemento estruturante da filiação socioafetiva. Pretender excluir gays e lésbicas do direito a terem filhos é postura discriminatória com nítido caráter punitivo. Situação que surge com frequência é quando o casal faz uso da reprodução assistida. Será o pai ou a mãe somente quem se submeteu ao procedimento procriativo? O parceiro ou a parceira, que não forneceu material genético, fica excluído da relação de parentesco, mesmo que o filho tenha sido concebido por vontade de ambos? Legalmente, pai ou mãe será somente um deles, o genitor biológico, ainda que o filho tenha sido concebido por desejo dos dois. Mas permitir exclusivamente que a verdade biológica identifique o vínculo jurídico é olvidar tudo que a doutrina vem sustentando e a Justiça vem construindo. É gaúcha a decisão que, pela vez primeira, e isso no ano de 2005, reconheceu o direito à adoção a um casal formado por pessoas do mesmo sexo. Os filhos haviam sido adotados por uma das parceiras, vindo à outra a pleitear a adoção em juízo. A sentença foi confirmada pelo Tribunal de Justiça e pelo Superior Tribunal de Justiça. Homoparentalidade De lá para cá muito se avançou, ao se admitir a habilitação do par à adoção, procedendo ao registro em nome de ambos. Também é assegurado o duplo registro, quando uma gesta o óvulo da outra, fecundado em laboratório. Mesmo quando uma das mães não fornece material genético vem sendo reconhecida a dupla maternidade. Negar reconhecimento à homoparentalidade, que se estabelece fora da realidade biológica, é gerar irresponsabilidades e inaceitáveis injustiças que não mais se conformam com as garantias constitucionais de respeito à dignidade da pessoa humana. A definição da paternidade é condicionada à identificação do desejo do casal, nada mais do que o reconhecimento prévio da posse do estado de filho. A identificação da dupla paternidade independe de ter havido a participação de algum deles no processo reprodutivo. O Conselho Federal de Medicina (Resolução 2.013/2013) expressamente admite o uso das técnicas de reprodução assistidas nas uniões homoafetivas. Mas, de forma para lá de desarrazoada, impõe o anonimato às concepções heterólogas, o que veda identificar a filiação genética. Ou seja, os vínculos de filiação não podem ser buscados na realidade biológica. No entanto, existindo um núcleo familiar, presente a vontade do par pela filiação, imperioso permitir que os pais elejam o doador do material genético, o que não gera qualquer confronto ético. Ao menos garante ao filho o direito de conhecer sua ancestralidade, se assim o desejar. Para assegurar a proteção do filho, os dois pais precisam assumir os encargos decorrentes do poder familiar. Vetar a possibilidade do duplo registro, antes do nascimento, só traz prejuízo ao filho, que não terá qualquer direito com relação a quem também desempenha a função de pai ou de mãe. Comprovado o consenso do casal quanto à procriação, seja pela assinatura conjunta do Termo de Consentimento Informado, seja por qualquer outro meio de prova, deve a identidade de ambos os pais constar na Declaração de Nascido Vivo e no próprio registro de nascimento. Registro Mas, ao contrário do que acontece com o casamento, não existe qualquer norma, nem ao menos de natureza administrativa, admitindo que o registro seja levado a efeito quando do nascimento. Assim, se faz necessária a propositura de uma demanda judicial e, até o trânsito em julgado da sentença – que pode demorar muito tempo – a criança permanece sem direito à identidade, ao nome de um dos genitores, o que lhe subtrai a condição de dependente para todos os efeitos, quer previdenciários, quer sucessórios. Deste modo, no atual estágio, os grandes desprotegidos pela ausência de uma legislação são as crianças que, ironicamente, deveriam ser alvo de proteção integral com prioridade absoluta, como determina a Constituição Federal. *Advogada; Presidenta da Comissão da Diversidade Sexual do Conselho Federal da OAB; VicePresidenta do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito das Famílias; www.mariaberenice.com.br

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Estado de Direito n. 42 5 Desigualdade e seus muitos nomes Jefferson Carús Guedes* M uito se fala em desigualdade nos últimos anos, tanto no Brasil como em outros países. Nesses últimos meses duas obras de economistas tem acentuado o debate: a primeira do americano Joseph Stiglitz, “O preço da desigualdade”, e a segunda do francês Thomas Piketty, “O Capital no Século XXI”. Ambas estão repletas de dados estatísticos e apontam para as desvantagens da desigualdade e suas sérias consequências sociais, tal como o desestímulo ao crescimento e ao desenvolvimento. Ambas possuem certo viés distributivo e tonalidades políticas, capazes de produzir reações que surgem de diversos pontos do hemisfério norte, num tiroteio que ganha contornos políticos e ideológicos. Educação básica Mas esse debate não corresponde ainda ao nosso estágio de reconhecimento de desigualdades no Brasil e aos desafios que se apresentam aqui, neste momento. Ainda temos níveis alarmantes de desigualdades que necessitam de compensações, em que pesem os esforços governamentais dos últimos 20 anos na redução da pobreza econômica, da desigualdade de renda e de acesso à educação básica. Ainda temos um extremado temor em tratar da desigualdade e este é o ponto deste artigo: atribuímos nomes diversos para um mesmo fenômeno, a desigualdade. Por medo não pronunciamos a palavra “desigualdade” com clareza e bom tom, dizemos parte e vamos contornando-a com eufemismos e outras técnicas linguísticas. Chamamos a desigualdade de pobreza, miserabilidade, exclusão, vulnerabilidade, desvantagem, deficiência ou déficit, desequilíbrio, assimetria, desproporcionalidade, inequitatividade, discriminação, desequiparação, desfavorecimento, marginalização, diferença, multiculturalidade ou multiculturalismo. Vejam-se os exemplos presentes na Constituição, nas leis, na jurisprudência ou na doutrina brasileiras: Pobreza é descrita como desigualdade, por ser sua forma mais visível da carência econômica; por essa razão a Constituição Federal propõe a sua erradicação. Miserabilidade é descrita como desigualdade quando as leis estabelecem planos como Comunidade Solidária (anos 1990), Fome Zero (anos 2000) e Brasil sem Miséria (anos 2010), com finalidade de atenuar desigualdade no acesso aos bens básicos como alimentos. Exclusão é descrita como desigualdade no Estatuto da Igualdade Racial, diante do tratamento desigual dado historicamente a negros e brancos no Brasil ou quando se estabelece o público alvo da Defensoria Pública. Vulnerabilidade é descrita como desigualdade também quando se organiza a Defensoria Pública e estabelece que ela se dedicará a defender grupos sociais classificados como vulneráveis. Desvantagem é descrita como desigualdade quando se trata de consumidores frágeis e de benefícios a cooperativas sociais. Deficiência ou déficit são descritas como desigualdade em Convenções e Tratados de proteção Desfavorecimento é descrito como desigualdade quando a Constituição Federal se propõe a combater a pobreza e os fatores de marginalização a deficientes; também na Constituição Federal e em leis, em geral quando se trata de redução de capacidade física, mental ou sensorial. Desequilíbrio é descrito como desigualdade no plano tributário e como fundamento para compensações a regiões ou a contribuintes. Assimetria é descrita como desigualdade no Estatuto da Igualdade Racial, num claro desvio à evidente desigualdade de tratamento a negros, pardos e indígenas. Desproporcionalidade é descrita como desigualdade na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, quando se trata de acesso a vagas em universidades e cotas raciais. Inequitatividade é descrita como desigualdade, embora apareça na versão positiva, como equitativo. Discriminação é descrita como desigualdade na Constituição Federal, associada a diferenciações subjetivas não-razoáveis e injustificadas. Desequiparação é descrita como desigualdade pela doutrina, principalmente, sempre com sentido de diferenciação. Desfavorecimento é descrito como desigualdade quando a Constituição Federal se propõe a combater a pobreza e os fatores de marginalização. Marginalização é descrita como desigualdade na Constituição Federal, associada à pobreza e com vistas reinserção social, cultural ou econômica. Diferença é descrita como desigualdade especialmente na doutrina, como um direito a tratamento proporcional de indivíduos ou de grupos alijados da maioria. Multiculturalidade ou multiculturalismo são descritos como desigualdade e reconhecidos diretamente na jurisprudência do STF quando examinou a possibilidade de regulamentação da rinha de galos e indiretamente na Constituição Federal. Quais serão as razões de se atribuir tantos nomes a um mesmo fenômeno? Por que usar tão engenhosa ginástica comunicacional e separar uns e outros? Por que tratar tão desigualmente os que são igualmente desiguais? Eis aí algumas questões! *Professor da Graduação, Mestrado e Doutorado do UniCEUB (Brasília); Doutor e Mestre em Direito Processual Civil (PUC-SP). Advogado da União.

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6 Estado de Direito n. 42 Marco Civil da Internet: seja bem vindo! George Salomão Leite* O dia 25 de março do ano em curso entrou para a história da vida políticojurídica do País: foi aprovado o Marco Civil da Internet! A lei 12.965, promulgada em 23 de abril, dispõe sobre os princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Participação O Marco Civil da Internet talvez tenha sido a primeira Lei brasileira que resultou do mais amplo debate e intensa participação da sociedade civil brasileira. É possível dizer, sem receio de cometer equívocos, que o Marco Civil é a lei mais essencialmente democrática que temos atualmente. Em 29 de outubro de 2009, a Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, em parceria com a Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas/RJ, lan- çou o projeto para a construção colaborativa do Marco Civil. A finalidade era receber sugestões relacionadas à construção do texto normativo, seja presencialmente ou através de plataforma criada na própria rede para atingir tal mister. Após dois anos de trabalho, o site constituído para tal finalidade e que continha o texto do então anteprojeto recebeu aproximadamente 160 mil visitas, resultando em mais de 2.300 contribuições advindas de toda sociedade brasileira. Além disto, a Comissão Especial constituída na Câmara dos Deputados para pronunciar-se sobre o projeto de Lei que resultou no Marco Civil, promoveu, no decorrer de sua tramitação, sete (07) audiência públicas e seminários em várias capitais brasileiras, contando, para tanto, com a participação de especialistas dos mais diversos segmentos profissionais, a exemplo de juristas, músicos, professores, representantes de empresas televisivas, provedores de internet etc. Governança Em 23 de abril, a Presidenta da República Dilma Roussef, durante o NETMundial ocorrido em São Paulo, evento que teve por objeto discutir o futuro da Governança da Internet e que contou com a presença de representantes de mais de 80 Países, sancionou o Marco Civil. Na solenidade, estava presente o Sr. Tim Berners-Lee, criador da web. Deste modo, o Marco Civil ingressa no mundo jurídico com uma elevada dose de simbolismo. Constituição No decorrer de sua tramitação, o Marco Civil foi rotulado pela mídia e especialistas no assunto de “Constituição da Internet”. Tal designação não é desmerecida. Ao contrário, o Marco Civil traz em si uma verdadeira pauta de princípios, direitos, deveres e garantias fundamentais que, materialmente, são de índole constitucional. Em outras palavras, o Marco Civil é bastante generoso no tocante ao rol de direitos e garantias fundamentais. Liberdade, igualdade e privacidade constituem a base do Marco Civil. Em breve o Marco Civil entrará em vigor! A lei fixou um prazo de vacância correspondente a 60 (sessenta) dias. Resta verificar como o Marco Civil será interpretado pelas empresas de telecomunicação, provedores de internet, governo, sociedade civil e poder judiciário, pois o que prevalecerá efetivamente não é a letra da Lei, mas o resultado da interpretação que dela se faz! *Doutorando em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de Buenos Aires – UCA. Mestre em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Presidente da Escola Brasileira de Estudos Constitucionais – EBEC. Horror e ostentação no crime Alexandre Morais da Rosa* O horror permeia o campo do direito e do processo penal. A partir da noção de horror e sua ostentação, pode-se repensar as coordenadas em que o sistema de controle social é pensado e aplicado. A onda de linchamentos, condenações, prisões, séries de televisão, enfim, toda uma gama de produtos da indústria do entretenimento se baseiam nas figuras monstruosas, construídas a partir de sujeitos de carne e osso. Predadores sexuais, anormais, zumbis, fantasmas, personalidades que encarnam a maldade humana (macabras, possuídas, etc.), todos fazem parte do elenco em que os programas “escorre sangue” apresentam. O sistema de controle social passou a ser, nos últimos anos, uma verdadeira caça às bruxas. O medo passa a ser a pedra de toque da política, ou seja, da arte de nos manter em fila. Daí o efeito normatizador do sistema de controle social. O criminoso é sempre apresentado por imagens e figuras de gênero capazes de ocasionar o consenso em que podemos ser objeto ou vítima dele; que deveríamos reconhecer que ele existe, sim, e, infelizmente, que nós não podemos impedi-lo de existir. E, se ele estivesse em outro lugar, no outro, próximo ou muito longe, pouco importaria, mas não dentro das nossas próprias muralhas, não na nossa própria cidade, não alojado em nosso próprio corpo!” E a manifestação do ódio que nos habita se faz ver na vida cotidiana (na agressividade, na cólera, no tom de voz, nos silêncios, falsas amabilidades, no politicamente correto, nos pensamentos), nos (des)encontros com os outros, com os quais a vontade e a impossibilidade de dominar se apresenta pela via da linguagem. Toda uma geração acompanhou os filmes/ documentários que reproduzem a intolerância com o diferente, não raro tachado de anormal, o qual, por sua existência e ações, ameaça nosso equilíbrio imaginário de paz social. Basta ver os filmes desde o Exorcista, passando por Tubarão e chegando em Tropa de Elite, por exemplo – os quais reproduzem o imaginário de ameaça e apresentam a violência legitimada como o lenitivo coletivo. Daí que o gosto e a atração pelo horror são manifestadas no contexto das audiências que aguardam – ansiosamente – por novos bárbaros, criando toda uma estética do horror. A narrativa do horror se dá pela distinção entre os lados, ou seja, mocinhos contra bandidos. Flávio Kothe aponta que a narrativa trivial encena a vitória do bem contra o mal, girando toda produção sobre a mesma tônica. Essa doutrinação faz com que os preconceitos e estereótipos do senso comum tenha acolhida, sejam legitimados e auratizados, salvando-se os bons e condenando-se os maus, servindo para reforçar a crendice popular e mitigar a necessidade de repensar os fundamentos dos fundamentos. Controle social O giro no sistema de controle social se deu pela encarnação das figuras sobrenaturais, as quais perseguem vítimas comuns e inocentes, assumindo aspecto realista e psicológico do desvio. O horror que isso proporciona causa, no público que se acredita à milhões de quilômetros do mal, a compaixão pela vítima e o desprezo pelo criminoso. O medo passa a ser a pedra de toque da política, ou seja, da arte de nos manter em fila. Daí o efeito normatizador do sistema de controle social. O criminoso é sempre apresentado por imagens e figuras de gênero capazes de ocasionar o consenso. Se o horror deixa os espectadores apavorados e é desagradável, qual a chave para se entender tanto interesse nele? Para responder esse questionamento, todavia, precisaremos pensar sob novas bases e acolher a violência que é constitutiva e tão próxima, de nós mesmos. *Doutor. Professor de Processo Penal (UFSC UNIVALI). Juiz de Direito (TJSC). Ódio As coordenadas simbólicas que a atual geração foi construída se deu a partir de filmes que geraram grande impacto maneira pela qual a violência e seus protagonistas se fazem ver. Como se a violência não fosse constitutiva da sociedade e não dissesse respeito ao sujeito. Há, por assim dizer, certa exclusão do ódio que habita o sujeito. Jean Pierre Lebrun chega a dizer que “como seria bom para nós, se o ódio não nos habitasse, se não estivesse em nós, se ele não nos tivesse construído. O que acontece é que ele nos concerne, sim, eventualmente, na medida

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Estado de Direito n. 42 7 Preço sugerido: Preço sugerido: Preço sugerido: Preço sugerido: R$ 159,00 R$ 98,00 R$ 120,80 R$ 74,00 CRIMES FEDERAIS José Paulo Baltazar Junior 9ª edição CURSO DE DIREITOS HUMANOS André de Carvalho Ramos 1ª edição DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA INTERNACIONAL Flávia Piovesan 5ª edição CRIMINOLOGIA FEMINISTA – NOVOS PARADIGMAS (SÉRIE IDP) Soraia da Rosa Mendes 1ª edição Preço sugerido: Preço sugerido: Preço sugerido: R$ 48,00 R$ 79,00 OBRA VENCEDORA DO PRÊMIO R$ 89,00 ADA PELLEGRINI GRINOVER DIGNIDADE HUMANA – VISÃO DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL FEDERAL ALEMÃO, DO STF E DO TRIBUNAL EUROPEU (SÉRIE IDP) João Costa Neto 1ª edição PRIVACIDADE, PROTEÇÃO DE DADOS E DEFESA DO CONSUMIDOR – LINHAS GERAIS DE UM NOVO DIREITO FUNDAMENTAL (SÉRIE IDP) Laura Schertel Mendes 1ª edição TEORIA GERAL DOS DIREITOS HUMANOS NA ORDEM INTERNACIONAL André de Carvalho Ramos 4ª edição

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8 Estado de Direito n. 42 As complexas atividades da Advocacia Pública O anuário da advocacia pública do Brasil – 2014 Rui Magalhães Piscitelli* Advocacia Pública foi guindada, pelo Constituinte de 1988, à categoria de Função Essencial à Justiça. Isso significa, no âmbito da hermenêutica constitucional, que a Advocacia Pública não deve ficar submetida a nenhum dos Poderes da República (até porque não é prevista na estrutura de nenhum deles, no texto da Carta Maior), e, sim, atuar, assim como o Ministério Público, na referida condição de Função Essencial à Justiça. A Governantes O Constituinte foi sábio ao conferir tal tratamento à Advocacia Pública. Ou seja, bem sabia que, muitas vezes, os interesses dos Governos, que passam (característica básica do regime republicano) vão de encontro aos propósitos do Estado, este permanente. Dessa maneira, o controle jurídico no âmbito da Administração Pública com certeza ficaria comprometido se tais agentes especiais do Estado, os Advogados Públicos, tivessem relação subordinada aos Governantes “de plantão”. Essa atuação da Advocacia Pública, de controle jurídico no âmbito do Estado brasileiro, é muito bem demonstrada pela sua atuação na área consultiva, diuturnamente elaborando pareceres previamente à celebração de convênios ou à realização dos Editais de licitação, estes últimos, visando a selecionar a proposta mais vantajosa para várias vezes já se manifestou que o exercício de tais atividades somente pode ser exercida por Membros nomeados em decorrência de concursos específicos que, de regra, contam com provas objetivas, discursivas, orais, de títulos, dentre outras. Ou seja, são concursos altamente qualificados. A propósito, tenha-se o assentado na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4.261: 2. A atividade de assessoramento jurídico do Poder Executivo dos Estados é de ser exercida por procuradores organizados em carreira, cujo ingresso depende de concurso público de provas e títulos, com a participação da Ordem dos Advogados do Brasil em todas as suas fases, nos termos do art. 132 da Constituição Federal. Preceito que se destina à configuração da necessária qualificação técnica e independência funcional desses especiais agentes públicos. 3. É inconstitucional norma estadual que autoriza a ocupante de cargo em comissão o desempenho das atribuições de assessoramento jurídico, no âmbito do Poder Executivo. Precedentes. 4. Ação que se julga procedente. AGU Firmado esse cenário, anunciamos o lançamento do Anuário da Advocacia Pública do Brasil, pela Revista Consultor Jurídico, em 2014. Dessas poucas linhas, então, já podemos concluir: aos Advogados Públicos é necessária autonomia funcional e administrativa para bem elaborarem seu trabalho, não em prol de governos, nem da Administração Pública elaborarem seu trabalho, não em prol de governos, nem da Administração Pública, mas em prol do Estado brasileiro, permanentemente. Ocorre que carece de harmonização o texto constitucional, uma vez que, inserindo a Advocacia Pública como Função Essencial à Justiça, como o fez com o Ministério Público, não previu para aquela os meios de que dispõe este. Anote-se que a Defensoria Pública, também guindada à Função Essencial à Justiça, obteve sua autonomia completa somente recentemente, via Emenda Constitucional. É, então, o momento de que a “PEC DA PROBIDADE” como vem sendo conhecida, a Proposta de Emenda Constitucional nº 82, possa harmonizar o status que a Constituição conferiu desde 1988 à Advocacia Pública com suas garantias de funcionamento (da mesma maneira, repita-se que, recentemente, a Defensoria Pública também já conseguiu, via Emenda Constitucional). Só assim, com a autonomia funcional e administrativa, a Advocacia pública não sofrerá mais a ingerência administrativa, e, consequentemente, política, de que é alvo. E, assim, de fato com as garantias que já possuem as outras 2 Funções Essenciais à Justiça, quais sejam, Ministério Público e Defensoria Pública, possam os Advogados Públicos ainda mais contribuir pra o Estado, repita-se, independentemente da linha política do Governo do momento. É o quê se espera ! * Vice Presidente Administrativo e Financeiro da Associação Nacional dos Procuradores Federais. Mestre em Direito. Professor de graduação e de pós-graduação em Direito. Por fim, a atuação proativa da Advocacia pública se dá nas ações por ela ajuizadas visando ao ressarcimento ao Erário, de valores dispendidos indevidamente, muitas vezes, por ordem dos governantes mesmo a Administração Pública poder celebrar os contratos administrativos. Mas não para por aí: no âmbito do assessoramento jurídico, quaisquer ações dos Governantes contam com a colaboração dos Advogados Públicos, ainda que essa atuação seja em reuniões ou em outros meios não formalizados em processos administrativos. Ainda, no contencioso, é a Advocacia Pública que representa em juízo os 3 Poderes da República, evitando condenações indevidas do Estado brasileiro. É um trabalho que foi feito de fôlego pela Revista Consultor Jurídico, que mapeia a Advocacia Pública brasileira, sobretudo no âmbito federal. Vale a pena destacar alguns dos números lá apontados relativamente ao ano de 2013, da AGU: Quase 158 bilhões de reais é o somatório entre os valores arrecadados e economizados com a atuação da AGU; 2.109 ações foram ajuizadas no combate à corrupção; 1.215 ações foram ajuizadas como execução de decisões do Tribunal de Contas da União; Foram realizados 117.252 acordos para solver conflitos entre órgãos e entidades da Administração Pública Federal. É bem de ver que, muitas vezes, a atuação da AGU pode desagradar governante bem como servidores públicos. Um exemplo disso é o índice de cerca de 60 porcento de êxito entre decisões favoráveis e parcialmente favoráveis perante o Supremo Tribunal Federal. Dessas poucas linhas, então, já podemos concluir: aos Advogados Públicos é necessária autonomia funcional e administrativa para bem Improbidade Por fim, a atuação proativa da Advocacia Pública se dá nas ações por ela ajuizadas visando ao ressarcimento ao Erário, de valores dispendidos indevidamente, muitas vezes, por ordem dos governantes mesmo. Nesse campo, tanto ações civis públicas como ações de improbidade administrativa são também diuturnamente manejadas pelos Advogados Públicos. Veja-se, assim, essa complexa atividade pelos Advogados Públicos exercida. Tanto é assim que o Supremo Tribunal Federal por

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Estado de Direito n. 42 9 OAB sem abuso de poder econômico Bruno Espiñeira Lemos* O s Advogados brasileiros encontram-se hoje diante de uma oportunidade única de terem eleições no âmbito das suas seccionais pautadas em elementos transparentes e sem os efeitos excludentes do abuso de poder econômico. Eleições Tramita no Conselho Federal da OAB o Protocolo n. 49.0000.2014.005332-4 (https:// www.facebook.com/oabsemabusodepodereconomico) no qual se pleiteia a regulamentação das eleições no âmbito das seccionais da OAB, pugnando-se por eleições mais democráticas, sem o abuso de poder econômico, com isonomia e paridade de armas para todos e o financiamento das campanhas sob a responsabilidade da OAB. Como se afirma no referido Protocolo, o simples ato de comparecer hoje a um local de votação nas eleições das seccionais nos faz depararmo-nos com um verdadeiro “circo” que se monta e cujo idêntico triste espetáculo no âmbito das eleições tradicionais partidárias sempre foi objeto de luta em sentido contrário por parte da própria OAB, causando-nos constrangimento e indignação, sentimento que é compartilhado pela maioria dos advogados. São bocas-de-urna com centenas de contratados estranhos à advocacia, contratações milionárias de “marqueteiros”, impressão caudalosa de material de campanha com custos exorbitantes e outras práticas condenáveis. É a constatação inspirada em Nietzsche de que “somos mais corretos em relação a outros do que em relação a nós mesmos”, ou seja, a OAB tem tratado melhor os de fora do que os seus membros. As eleições nas suas seccionais vêm se constituindo em horrendas competições, nas quais impera o abuso do poder econômico e o estímulo a inimizades que beiram à primariedade dos grêmios estudantis, na busca do poder pelo poder. Os grupos derrotados criam um distanciamento sabático por três anos das dependências físicas da OAB, como que a imaginar que a simples presença ali estaria legitimando e fortalecendo o grupo adversário. As eleições nas suas seccionais vêm se constituindo em horrendas competições, nas quais impera o abuso do poder econômico e o estímulo a inimizades dinheiro em campanha, na qual buscam doar o que têm de melhor por sua classe, portanto, não fazendo sentido que ainda paguem para fazê-lo, e outros tantos, estes a maioria, que não dispõem concretamente de poder econômico para disputar uma eleição da OAB. O que vem acontecendo então, diante da apontada e visível omissão da OAB? Voltamos ao tempo do Império, com uma eleição censitária, na qual só podem almejar a honrosa missão de lutar por sua classe e pela cidadania, os advogados ricos e abastados ou quem eventualmente conte com “patrocinadores” que ao final sempre apresentam suas “faturas”. Em palavras simples e diretas, a OAB, em matéria de eleição nas suas seccionais, tem permitido que se faça valer a velha máxima popular da “casa de ferreiro, espeto de pau”. Briga-se por “eleições limpas” no âmbito partidário e permite-se que se realizem eleições fisiológicas e clientelistas no seu seio. Para prosseguir com outro adágio popular: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Triste advocacia, que dessa maneira vem perdendo sua legitimidade de defensora da cidadania e afastando os melhores quadros dos seus processos eleitorais. Conclamamos a todos os Advogados do Brasil que acreditam nessas bandeiras e em outras igualmente democráticas e isonômicas que acessem a página mencionada no começo do presente artigo e habilitem-se como interessados no referido Protocolo em trâmite no CFOAB para que ele não seja engavetado e tenhamos no próximo ano mais um triste espetáculo eleitoral que contraria os valores democráticos e republicanos. * Advogado, procurador do Estado da Bahia, mestre em Direito (UFBA), pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal (IDP), ex-membro da Comissão de Ciências Criminais e Segurança Pública da OAB/ DF, ex-membro da Comissão Nacional de Acesso à Justiça do Conselho Federal da OAB, membro efetivo do IADF e sócio do IBCCrim, ex-procurador federal. Campanhas políticas É público e notório que em diversas seccionais gasta-se dezenas de milhões de reais, o que faz da OAB cúmplice desse cenário triste e dantesco, contraditório ao extremo com todas as suas bandeiras democráticas. A contradição é visível quando a OAB “para fora” prega aos quatro ventos a moralização e racionalização das campanhas políticas, a “ficha limpa”, o financiamento público de campanha. E o que faz internamente? Permite que se crie uma casta de advogados abastados, que abusam explicitamente do poder econômico e que preterem mais de 90% (noventa por cento) da categoria, seja porque não concordam em gastar Últimos dias! Até de desconto para matrículas em maio 30 % * 2º semestre Escolha um curso e garanta o seu Prepare-se para as Carreiras: • Jurídicas • Nível Médio • Trabalhistas • Policiais • Fiscais • Analistas Turmas de Julho e Agosto 2014 LFG.com.br/concursos Matricule-se já! Conhecimento e conquista *Desconto não cumulativo com outras promoções e válido até 31/05/2014, apenas para matrículas nos cursos que iniciam em julho e agosto de 2014. Oferta não válida para Cursos OAB, Retas Finais, MBAs e Cursos Online (exceto Pós-Graduação Jurídica). Início do curso após a efetivação do pagamento. Consulte condições, disponibilidade de cursos e o quórum mínimo definido pela unidade local ou em edital. Informações sujeitas a alteração sem aviso prévio.

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10 Estado de Direito n. 42 A Justiça do Século XXI José Renato Nalini* entrada em vigor da Constituição da República Federativa do Brasil, em 05 de outubro de 1988, inaugurou um novo período no relacionamento entre Estado e sociedade civil. O documento, denominado “Constituição Cidadã”, tinha a difícil missão de propiciar a criação de espaços institucionais de interlocução suficientemente fortes e duradouros, que servissem, também, como mecanismos de defesa contra possíveis retrocessos autoritários. A participação popular foi alçada à categoria de condição de possibilidade do projeto democrático, conforme dispõe expressamente o parágrafo único do art. 1o da Carta Constitucional. E, também, como verdadeiro cânone hermenêutico, a irradiar seus efeitos sobre os demais dispositivos da Constituição e por todo o ordenamento jurídico. Enorme a revolução pretendida pelo legislador originário e, embora os críticos por vezes se apressem em diagnosticar os problemas da democracia brasileira, a verdade é que ela é, ainda, um projeto em construção. Durante muito tempo, porém, o Poder Judiciário se manteve alheio a esse novo horizonte relacional. Seja por suas características específicas - afinal, juízes de direito são recrutados pela via do concurso público, e não por sufrágio universal, o que garante alguma estabilidade à consecução de seu mister - seja por apego a A injustificáveis anacronismos, a Justiça era vista como caixa preta da República, composta por servidores públicos e magistrados mais preocupados em conservar prerrogativas funcionais e vantagens pecuniárias do que em se comportar de maneira transparente e acessível frente ao jurisdicionado, seu verdadeiro patrão. O desafio não é simples. Mudar estruturas engessadas é sempre mais difícil do que estimular novas posturas e mentalidades São absolutamente inéditas as iniciativas destinadas a ouvir os múltiplos atores que compõem o cotidiano da prestação jurisdicional, nossa atividade-fim. Instituiu-se, nesses termos, o Conselho Consultivo Interinstitucional, que pretende racionalizar o diálogo entre as instituições parceiras da Justiça (Defensoria Pública, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Procuradoria do Estado, Poderes Executivo e Legislativo), além de representantes de juízes de direito e servidores públicos, eleitos por seus pares – em pleito que inaugura espaço institucional para esses segmentos, nunca antes representados – e 11 personalidades da sociedade civil organizada, escolhidos entre intelectuais, representantes de movimentos sociais e entidades setoriais. Sem mencionar o Canal Direto com o Presidente, destinado ao público interno, além das redes sociais (Facebook, Twitter) e de e-mail, além dos grupos de trabalho dedicados a discutir temas de interesse da Justiça, como o desenho das varas especializadas e câmaras reservadas em conflitos fundiários urbanos e agrários, além de comissões específicas compostas por desembargadores, juízes de direito e servidores, que imprimem um sentido de colegialidade a esta gestão. Todos com missões específicas e prazos a serem cumpridos, de modo que a participação não se converta em palavrório vazio, destituído de qualquer concretude. Esse e outros desafios serão encarados com coragem pela atual gestão. Conclamo todos os interessados em edificar a Justiça do Século XXI a contribuírem com a continuidade do ciclo virtuoso que ora se aprofunda! * Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Professor permanente do Programa de Mestrado da UNINOVE, além de ministrar aulas na Escola Paulista da Magistratura. CNJ A criação do Conselho Nacional de Justiça, por força da Emenda Constitucional n. 45/2004 serviu para dar início a um processo sem volta de transformação no Poder Judiciário brasileiro. Ao articular iniciativas antes atomizadas e instituir programas de metas, suscetíveis de certa forma ao controle social, acenou para um novo patamar de atuação, condizente com o que determina, entre outros, o caput do art. 37 da Constituição. O desafio não é simples. Mudar estruturas engessadas é sempre mais difícil do que estimular novas posturas e mentalidades. Nada obstante, ele deve ser enfrentado e assumido como uma providência que anda em paralelo com a construção do novo. Ciente desse desafio, a atual gestão do centenário Tribunal de Justiça Bandeirante tem se esforçado para inaugurar um novo e duradouro ciclo virtuoso em terras de Piratininga. Estado nacional míope versus cooperação jurídica internacional Alexandre Coutinho* pós o colapso representado pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918), passou-se a verificar a insuficiência dos Direitos nacionais e do próprio Estado soberano para a manutenção do mais básico dos Direito Humanos Fundamentais: a paz. Não bastassem a desarticulação política e o derramamento de sangue da Primeira Guerra, outros eventos de triste memória mostraram ao mundo a necessidade de se criar uma nova sociedade internacional, mais ativa; advieram então os fatos históricos do Crash da Bolsa de Nova Iorque (1929), a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o Holocausto nela ocorrido, a expansão da União Soviética – não menos violenta – de Joseph Stalin, as ditaduras de Franco (Espanha) e Salazar (Portugal), e, por fim, os regimes de exceção no Brasil e em outros países da América Latina. A paz – em particular – e os Direitos Humanos – em geral – regrediam em pleno tempo de crescimento industrial, coincidência paradoxal porque enquanto as economias avançavam o próprio Direito estatal se mostrava míope, atrasado, egoísta, provinciano e insuficiente para acompanhar as novas situações da uma sociedade global altamente tecnológica em que os Estados mais poderosos se sobrepunham aos mais acanhados econômica e militarmente. Os eventos históricos acima mencionados são apenas alguns dos que fizeram do século XX aquele em que se testemunhou uma pujança econômica jamais vista versus morte em massa, A guerra, pobreza, fome e desrespeito às liberdades individuais e aos direitos sociais. Não foi por outra razão que o mesmo século XX apresentou uma solução alternativa, pois foi também o tempo em que se multiplicaram as Organizações Internacionais criadas em tratados constitutivos ratificados por Estados soberanos, a começar pela Organização Internacional do Trabalho (OIT, Genebra, 1919), depois pelas Nações Unidas (ONU, 1945), pela Organização dos Estados Americanos (OEA, Washington, 1948), a União Europeia (a partir de 1951) e o Mercado Comum do Sul (Mercosul, 1991). Os Direitos Humanos também superaram as fronteiras e os dogmas do Estado nacional e passaram a ser protegidos internacionalmente Humanos (1981). A cooperação jurídica internacional se tornou então um imperativo do mundo novo, e isso se refletiu igualmente na economia (Fundo Monetário Internacional – FMI – Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio – OMC). E, a partir da consideração de que o próprio Direito já se cosmopolitanizara, foros jurisdicionais internacionais permanentes também se concretizaram: desde a semente estabelecida em 1945 pela Carta da ONU, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) começou a funcionar em 1946 (como sucessora da Corte Permanente de Justiça Internacional); são exemplos da mesma envergadura e significância a Corte Europeia de Direitos Humanos (Estrasburgo, 1959), a Corte Interamericana de Direitos Humanos (cuja criação progressiva se iniciou em 1979) e o Tribunal Penal Internacional (Haia, 2002). Normas imperativas Os Direitos Humanos também superaram as fronteiras e os dogmas do Estado nacional e passaram a ser protegidos internacionalmente, e hoje são considerados como os verdadeiros e insuperáveis jus cogens (normas imperativas de Direito Internacional). E tais direitos não ficaram somente nas pranchetas dos arquitetos jurídicos de uma nova ordem mundial; eles realmente se efetivaram por significativos instrumentos jurídicos tais como a Declaração Universal dos Direitos do Homem (ONU, 1948), a Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais (Conselho da Europa, Roma, 1950), o Pacto de São José da Costa Rica (OEA, 1969) e a Carta Africana de Direitos pelo Estado nacional isolado, e as razões para tal novidade são simples e são três: (i) na União Europeia já há um procedimento comum (internacional e comunitário) de cooperação jurídica no controle das contas e finanças dos seus vinte e oito países-membros; (ii) no Brasil queremos ser os pioneiros na observância da normativa internacional – principalmente aquela atinente aos Direitos Humanos – também pelos Tribunais de Contas; (iii) o Direito Internacional e a cooperação jurídica internacional nos apetecem em termos de difusão e de aprofundamento científicos de um Direito vocacionado “À Paz Perpétua” pensada por Immanuel Kant. * Pós-Doutor em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, orientado pelo Professor-Catedrático Jorge Miranda e pelo ProfessorDoutor Jorge Reis Novais. Doutor e Mestre em Direito do Estado pela PUC/SP. Professor Titular do Mestrado em Direito da UNIT. Hoje em dia, até as contas públicas de um país não são mais fiscalizadas somente com base numa normativa doméstica positivada

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Estado de Direito n. 42 11 (In)sustentabilidade Reflexões a partir do cenário constitucional sul-americano Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino* S ugere-se ao(à) leitor(a) uma provocação, na qual possibilitará (ou não) uma progressiva caminhada para “fora da caverna” da qual Platão demonstrou na sua obra “A República”: Existe sustentabilidade nas ações humanas? Dito de outro modo: Compreende-se o que é sustentabilidade a fim de se garantir o desenvolvimento das presentes e futuras gerações? A resposta é clara (e sonora): Não. Os documentos internacionais que têm insistido na “preservação ambiental” não abandonaram suas posturas utilitárias e antropocêntricas diante da Natureza. Para os seres humanos, imbuídos de valores “moralmente adequados”, desenvolvimento – acompanhado de qualquer adjetivo possível: sustentável, ecológico, verde, entre outros – é apenas uma expressão sinônima para crescimento. Os avanços econômicos, sociais, culturais, tecnológicos, devem “salvar a humanidade e o planeta”. Essa salvação é muito bem observada, ainda, pela tecnologia, embora a mencionada palavra – “salvação” - seja estranha para a condição (e natureza) humana. A salvação virá pelo progresso, pelo crescimento desmedido, infinito. Ora, como é possível conceber “Sustentabilidade” como crescimento sem limites num planeta visivelmente finito? Como é possível acreditar que “Sustetabilidade” destina-se apenas à preservação do Humano, sejam as presentes ou futuras gerações? Novamente, a insistência da arrogância humana sobre os outros seres vivos – não-humanos – os quais habitam a Terra. Oliveira e Lourenço (2012, p. 315), aliás, ressaltam: “[...] a sustentabilidade antropocêntrica é egoísta, continua instrumentalizando a vida não-humana; [...]. Nesta esteira, sustentabilidade pode traduzir a estratégia de preservar para coisificar”. Indaga-se: Preservase o que para quem? Pacha Mama A Sustentabilidade, nessa concepção, não pode ser uma expressão antropocêntrica, mas de compreensão biocêntrica. Sustentabilidade é um modo de autoregulação e autopreservação da Terra, independente da ação humana. É a sinfonia entoada, segundo a tradição andina, pela Pacha Mama para cuidar e preservar todos os seres vivos no seu interior. A propósito, a poesia de Galeano (1999, p. 38) é apropriada: “No planalto andino, mama é a Virgem e mama é a terra e o tempo. Fica zangada a terra, a mãe terra, a Pachamama, se alguém bebe sem lhe oferecer. Quando ela sente muita sede, quebra a botija e derrama o que está ali dentro. A ela se oferece a placenta do recém-nascido, entre as flores, para que a criança viva; e para que o amor viva, os amantes enterram cachos de cabelos. A deusa terra recolhe nos braços os cansados e os maltrapilhos que dela brotaram, e se abre para lhes dar refúgio no fim da viagem. Lá embaixo da terra, os mortos florescem.” Aos poucos, esse cenário insustentável (e insuportável), modifica-se. A expressão das utopias carregadas de esperança registra-se nos diversos documentos que constituem a intenção de elaborar uma comunidade sul-americana, desde as Constituições do Equador (2008) e Bolívia (2009) até a Declaração Universal dos Direitos da Mae-Terra (Cochabamba, Bolívia, 2010). Os artigos 71 da Constituição do Equador e 8º da Constituição da Bolívia enunciam essa mudança de paradigma exclusivamente antropocêntrico. “Art. 71. A natureza ou Pacha Mama, onde se reproduz e se realiza a vida, tem direito a que se respeite integralmente a sua existência e a manutenção e regeneração de seus ciclos vitais, estrutura, funções e processos evolutivos. Toda pessoa, comunidade, povoado, ou nacionalidade poderá exigir da autoridade pública o cumprimento dos direitos da natureza. [...].” Artículo 8: I. El Estado asume y promueve como principios ético-morales de la sociedad plural: ama qhilla, ama llulla, ama suwa (no seas flojo, no seas mentiroso ni seas ladrón), suma qamaña (vivir bien), ñandereko (vida armoniosa), teko kavi (vida buena), ivi maraei (tierra sin mal) y qhapaj ñan (camino o vida noble). II. El Estado se sustenta en los valores de unidad, igualdad, inclusión dignidad, libertad, solidaridad, reciprocidad, respeto, complementariedad, armonía, transparencia, equilibrio, equidad social y de género en la participación, bienestar común, responsabilidad, justicia social, y distribución y redistribución de los productos y bienes sociales para vivir bien. As utopias para se viver um momento presente desejável, as quais reflitam esse vínculo entre seres humanos e não-humanos, se iniciaram. É uma compreensão irreversível, embora ainda não visível, nem clara para todos. Tratase de uma tarefa histórica a ser vivenciada, esclarecida, para além dos horizontes (limitados) econômicos ou tecnológicos. Caso contrário, todos, novamente, criaram uma bela expressão “Sustentabilidade” cujo significado denota tão somente uma mentira existencial. * Doutor em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI (2013), Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI (2007), Especialista em Administração pela Universidade Independente de Lisboa em convênio com a Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC (2005), Graduação em Direito pela pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI (2003). A emergência do direito à cidade Betânia de Moraes Alfonsin* pauta que emergiu das ruas em 2013, embora portadora de grande diversidade temática, tem um componente muito claro que ainda não foi devidamente analisado: a emergência do “direito à cidade” ou do “direito à cidade sustentável” tal como o mesmo foi introduzido no Estatuto da Cidade em 2001. Ao estabelecer as diretrizes para a Política Urbana este diploma legal asseverou o seguinte objetivo: “garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações”. O tema está profundamente imbricado com as mobilizações ocorridas no país. A que mesmo depois da redução da tarifa em R$0,20, as mobilizações continuaram, já que a pauta dos organizadores dos eventos não era uma mera diminuição da tarifa, mas a conquista do passe livre. Protestos Da mesma forma, as questões de acesso à terra, à moradia e à infraestrutura também estiveram presentes nos protestos, especialmente daqueles que mobilizaram as populações atingidas por despejos necessários à abertura de avenidas nas cidades-sede da Copa. Essas reivindicações estão ligadas ao núcleo jurídico-axiológico do direito à cidade, trazendo à tona a questão da função social da propriedade, princípio fundamental da Política Urbana. Novamente entra em cena a consciência cidadã sobre um conteúdo jurídico solenemente desprezado pelos municípios, mesmo depois do Estatuto da Cidade. Neste sentido, os protestos realizados em função da copa trazem para o centro do debate as violações de direitos humanos perpetradas por diferentes esferas governamentais para garantir a realização do megaevento no Brasil, fato que foi denunciado às Nações Unidas, pela violência dos despejos. O “direito à cidade”, ainda desconhecido do grande público, é um direito coletivo e plural, já que abriga vários “direitos a serem exercidos na cidade”. Pode-se afirmar que o ciclo de protestos de 2013 marca a emergência Novamente entra em cena a consciência cidadã sobre um conteúdo jurídico solenemente desprezado pelos municípios, mesmo depois do Estatuto da Cidade do direito à cidade na pauta de reivindicações da população brasileira. Essa faceta das manifestações precisa ser desvelada como forma de agregar consistência jurídico-política àquelas manifestações. Para o Direito Urbanístico, que tem a tutela do direito à cidade como seu objeto epistemológico central, há uma historicidade no momento presente e uma oportunidade única de difundir a agenda pelo reconhecimento do direito à cidade como um direito humano no plano internacional. Trazer à tona essa perspectiva analítica dos protestos contribui para a interpretação dos fatos ocorridos em 2013, claramente em disputa no Brasil. Como o direito à cidade está inscrito no ordenamento jurídico sob a forma de DIRETRIZ da política urbana e implica o direito de participar dos processos de tomada de decisão sobre a cidade, a legitimidade dos protestos fica ainda mais marcada. Além disto, a anamnese do direito à cidade tem três consequências importantes: (i) faz com que governantes sejam forçados a ver a cidade em sua totalidade e não como um conjunto de segmentos e demandas fragmentadas; (ii) remete a análise às causas sistêmicas que fazem com que a cidade seja uma “cidade para poucos”, diretamente relacionadas ao modelo capitalista de urbanização adotado pelo Brasil; e, finalmente, (iii) nos lembra que “outra cidade é possível”, como espaço político em que os habitantes da urbe podem lutar pela transformação dela em uma “cidade para todos/as”, que talvez seja exatamente a reivindicação maior dessas mobilizações, ainda que a própria população que foi às ruas ainda não tenha consciência da importância e do significado histórico do movimento que protagonizou para o processo de construção da cidadania no país. * Doutora em Planejamento Urbano e Regional. Professora das Faculdades de Direito da FMP – Fundação Escola Superior do Ministério Público do RS e da Pontíficia Universidade Católica do RS. Funções sociais O direito coletivo à cidade sustentável abarca um feixe de direitos dos habitantes das cidades e os bens mencionados na definição legal acima constituem o seu núcleo, podendo ser considerados como as “funções sociais da cidade”, tal como mencionadas na Constituição Federal. Note-se que a questão do transporte coletivo, motor das jornadas de 2013, integra as funções sociais da cidade e implica o direito à mobilidade e ao acesso ao território da cidade como um todo, de forma a garantir a liberdade de ir e vir e de desfrutar do espaço público de forma plena. Lembremos

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12 Estado de Direito n. 42 Mulheres brasileiras no mercado de trabalho Patrícia Tuma Martins Bertolin* Desigualdades que persistem Constituição Brasileira de 1988 estabeleceu a igualdade entre homens e mulheres nas mais variadas searas, inclusive no trabalho, ao prever a impossibilidade de discriminação em aspectos como a admissão e o salário. Contudo, 25 anos depois da edição do texto constitucional, verificamos sua insuficiência para tornar concreta a igualdade pretendida. supera a dos homens, em mais de um ano. De acordo com o IBGE (2012), 47,9% dos homens, entre 18 e 24 anos, possuíam 11 anos ou mais de escolaridade, enquanto a média para as mulheres chegava a 60,6%. A Constituição proibiu a discriminação e foi mais além, ao prever a discriminação positiva, possibilitando “a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos A mentalidade machista dos gestores é certamente um deles: aquela convicção (nem sempre manifesta, porque “politicamente incorreta”) de que à mulher deveria ser reservado o espaço doméstico Destaquemos, por exemplo, a forte presença de mulheres no trabalho informal, onde perfazem mais de 56,8% dos que ali trabalham, segundo o IBGE (Síntese dos Indicadores Sociais, 2012). Também é mais frequente o trabalho feminino nas atividades precárias e a tempo parcial, conforme amplamente divulgado em pesquisas diversas. específicos” (art. 7º, XX), onde a presença feminina fosse insuficiente ou desqualificada. Discriminar positivamente é compensar uma discriminação nefasta, promovendo a inclusão dos membros de um grupo discriminado. Alguns fatores podem explicar – embora não justificar – essas assimetrias. A mentalidade machista dos gestores é certamente um deles: aquela convicção (nem sempre manifesta, porque “politicamente incorreta”) de que à mulher deveria ser reservado o espaço doméstico. Mas essa é só a ponta do iceberg. Muitos hesitam em contratar mulheres em idade reprodutiva, por temer longos afastamentos e eventuais ausências, decorrentes das demandas da maternidade. Ainda que se reconheçam iguais direitos a homens e mulheres no ordenamento jurídico, segundo o IBGE, o tempo gasto pelas mulheres nos cuidados com a casa e a família, independentemente de estarem submetidas a trabalho remunerado, é 2,5 vezes maior que o dispendido pelos homens, o que estabelece uma evidente desigualdade na sobrecarga das mulheres (que acabam arcando com uma jornada dupla, e mesmo tripla, quando envolve estudo), e também no tempo dedicado ao lazer. Além disso, os homens entrevistados não percebem as atividades por ele desempenhadas na esfera doméstica como trabalho e sempre se referem a elas como tendo o caráter de “auxílio”. Assim, as mulheres encontram-se submetidas a um moto-contínuo e injusto, que desconsidera que estamos no século XXI, que a Constituição consagrou amplamente a igualdade (com respeito às diferenças), que já faz muito tempo que os salários das mulheres não têm caráter complementar ao orçamento Mulher negra Quanto ao salário, as mulheres auferem cerca de 73,3% do que ganham os homens, gap que se aprofunda quando se examina a condição da mulher negra, a que se encontra na situação mais vulnerável no mercado de trabalho, assim como nas demais esferas da vida social. Apesar de constituírem 51,5% da população brasileira, as mulheres estão longe de se equiparar aos homens na alta hierarquia das empresas. Pesquisa do Instituto Ethos (2010), entre as 500 maiores empresas do país, mostrou que, no quadro executivo, apenas 13,7% dos profissionais eram do sexo feminino. Nos níveis de gerência e supervisão, as mulheres ocupavam 22,1% e 26,8% das vagas. Isso possibilita que se identifique uma espécie de “teto de vidro” que as mulheres encontram para ascender: embora invisível, ele não permite que elas o transponham, para consagrar, na prática, o previsto no artigo 7º, inciso XXX, da Constituição. Escolaridade Essa desigualdade, que persiste na realidade brasileira, a despeito das muitas e sofisticadas normas antidiscriminatórias, torna-se ainda mais impressionante quando se constata que a escolaridade das mulheres familiar – o que, no passado, justificou que fossem menores – até porque cerca de 30% dos domicílios brasileiros são hoje chefiados por mulheres. * Doutora em Direito do Trabalho pela Universidade de São Paulo; Vice-Diretora da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. marcello casal jr abr A

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Estado de Direito n. 42 13 Confira os últimos lançamentos da revista dos tribunais, sua atualização profissional Começa aqui! marCo Civil da internet Lei 12.965/2014 Coordenadores: Fabiano del Masso, Juliana abrusio, Marco aurélio Florêncio Filho O Marco Civil da Internet, ato recém-sancionado pela presidente Dilma Rousseff, Lei 2.965/2014. O livro traz os textos controversos referentes à espionagem, liberdade de expressão, censura, privacidade na internet, responsabilidade de buscadores de pesquisa e produtores de conteúdo veiculado e outros temas. o stJ enquanto Corte de preCedentes Recompreensão do sistema Processual da Corte suprema 2.a edição Luiz Guilherme Marinoni A distinção teórica entre texto e norma, bem como o desenvolvimento da teoria da argumentação, evidenciaram que as Cortes Supremas têm uma responsabilidade particular diante da tarefa que a jurisdição assumiu no Estado Constitucional. conheça também: apliCação do direito e Contexto soCial 3.a edição Plauto Faraco de azevedo Constituição federal Comentada 5.a edição nelson nery Junior e Rosa Maria de andrade nery Curso de direito aGrário 2.a edição arnaldo Rizzardo direito JurisprudenCial – v.2 Coordenadores: aluisio Gonçalves de Castro Mendes, Luiz Guilherme Marinoni e Teresa arruda alvim Wambier limites e JustifiCação do poder do estado 2.a edição Plauto Faraco de azevedo TeLeVendas 0800-702-2433 Homoafetividade e os direitos lGbti 6.a edição Maria Berenice dias responsabilidade Civil do estado 5.a edição Yussef said Cahali RT/LV/TV-eC-VJ/OFF/JUL/14 paraná • Curitiba • Cascavel • Londrina • Maringá • Pato Branco • Ponta Grossa • Umuarama • distrito federal • Brasília • Goiás • Goiânia • Rio Verde • minas Gerais • Belo Horizonte www.livrariart.com.br | www.rt.com.br/lojas ou www.livrariart.com.br/lojas compartilhe e fique por dentro das novidades Anúncio_Estado_de_Direito_Julho_2014.indd 1 6/24/14 4:19 PM

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14 Estado de Direito n. 42 Reserva de vagas em concursos públicos para índios e negros Vander Ferreira de Andrade* constitucional a previsão de reserva de vagas em concursos públicos para índios e negros? A questão das reservas de vagas em concursos públicos destinadas a índios e afrodescendentes, longe de se apresentar como uma pretensão de caráter consensual, guarda imensas dúvidas e discussões quanto a sua legitimidade, pertinência, legalidade e constitucionalidade. De fato, a vigente ordem constitucional inaugurou um profundo debate na sociedade ao criar a reserva de vagas para portadores de necessidades especiais em 1988, resguardando a verificação casuística da natureza e da especificidade dos cargos públicos, culminando por consolidar um amplo panorama de consenso social, de modo que atualmente, pouco se discute a respeito desse benefício relativo aos deficientes, conquanto ainda existam problemas circunstanciais decorrentes sobretudo quanto ao conceito e alcance das denominadas “necessidades especiais” ou “deficiências físicas”, cuja análise deixaremos para uma próxima oportunidade. Com efeito, verificam-se atualmente ao longo das diversos ordenamentos jurídicos, sejam eles estaduais ou municipais, ou mesmo no nível federal, previsões de caráter legal estabelecendo percentuais diversos de reserva de vagas para pessoas de descendência ou origem indígena e africana ; a título de exemplo, o Instituto Rio Branco, responsável pela formação de Diplomatas no Brasil, prevê 30 vagas na segunda fase do certame especialmente destinada para negros. Desigualdade Os incipientes questionamentos que vieram a desaguar na justiça, receberam do Poder Judiciário a manifestação de consonância com a ordem constitucional do direito de afrodescendentes e índios de ter previstas tais reservas de vagas em concursos públicos; assim é que em ação específica que buscava a declaração de inconstitucionalidade de lei estadual que previa tal benefício, o Superior Tribunal de Justiça se pronunciou afirmando que “a reparação ou compensação dos fatores de desigualdade factual com medidas de superioridade jurídica constitui política de ação afirmativa que se inscreve nos quadros da sociedade fraterna que se lê desde o preâmbulo da Constituição de 1988. A Lei Estadual que prevê a reserva de vagas para afro-descendentes em concurso público está de acordo com a ordem constitucional vigente”. A reparação ou compensação dos fatores de desigualdade factual com medidas de superioridade jurídica constitui política de ação afirmativa que se inscreve nos quadros da sociedade fraterna direito de acesso aos cargos públicos, tanto assim que o artigo 39 do EIR preceitua que “o poder público deve promover ações para assegurar a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para a população negra, inclusive mediante a implementação de medidas, visando a promoção da igualdade nas contratações do setor público”. originariamente se justificava como um direito legítimo para se tornar um pérfido privilégio. Estado Social No estado de Mato Grosso do Sul, a declaração do candidato é submetida ao crivo de uma comissão especial a quem incumbe analisar a fidedignidade dos dados informados; destarte, os candidatos que se declararam negros são analisados conforme o seu genótipo e fenótipo e os que se afirmam indígenas passam a depender de uma confirmação a ser proferida administrativamente pela Fundação Nacional do Índio - Funai; verificando-se incorreções ou inexatidões nas declarações, o candidato fica sujeito à exclusão do certame ou à demissão, esta última na hipótese de já ter tomado posse, mas em ambas as situações, poderá ser processado criminalmente por delito de falsidade material ou ideológica. Nosso entendimento é o de que a reserva de vagas em concursos públicos, seja para Declaração do candidato Uma das questões que ainda albergam profundas dificuldades na consubstanciação e consolidação de tais direitos reside na forma de verificação da condição de índio ou mesmo na de afrodescendente; isso porque, mormente, tais constatações se perfazem através de mecanismos frágeis e vulneráveis, tais como os da “autodeclaração”, as quais por si só, podem se demonstrar inconsistentes, demandando da Administração Pública à adoção de medidas complementares de confirmação do alegado, para não desvirtuar aquilo que afrodescendentes, seja para índios, possui pleno amparo e guarida constitucional, eis que o Brasil possui uma imensa dívida histórica para com essas populações que se viram privadas nos últimos séculos de ter acesso a todos os bens da vida, demandando do Estado Social a adoção de medidas forjadas no âmbito das ações afirmativas, para o fim de corrigir ou minimizar essas graves distorções. Importante frisar que mesmo antes do advento do Estatuto da Igualdade Racial, estados-membros da federação, tais como Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul adotaram em suas legislações a reserva de vagas para candidatos descendentes da população negra, o mesmo ocorrendo com diversos municípios do Brasil, tais como Piracicaba (SP) e Vitória (ES); outras cidades como Londrina vieram posteriormente a estabelecer os critérios para usufruir de tais benefícios; outras unidades federativas caminham na mesma direção. * Advogado especializado em concursos públicos e membro de diversas bancas examinadoras de concursos públicos em todo o país. Especialista em Direito Público, Mestre e Doutor em Direito do Estado pela PUC-SP. Atualmente é Coordenador do curso de pós-graduação em Segurança Pública e Direitos Humanos da USCS, Consultor do Ministério da Justiça junto ao Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), Coordenador do Curso de pós-graduação em Direito Público do Curso Êxito (São José dos Campos), Professor de Direito Penal e Administrativo do IOB Concursos e Coordenador do Curso de Direito da Faculdade Zumbi dos Palmares. Igualdade Racial Tais medidas obtiveram maior reforço a partir da edição da Lei 12.288 de 2010, a qual ficou conhecida como o “Estatuto da Igualdade Racial”, cujo escopo firmou por garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, através da adoção de programas e políticas de ação afirmativa que tenham por desiderato a tutela dos direitos fundamentais, incluindo-se nesse diapasão o marcelo camargo abr É

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Estado de Direito n. 42 15 De um junho a outro: o que pensar? César Augusto Baldi* s jornadas de junho do ano passado causaram profunda surpresa entre os cientistas sociais. Como já havia sido no caso da “Primavera Árabe”, do “Occupy” e também dos “Indignados”, o caldo de insatisfação que permitiu uma mobilização permanente não foi captadoou, pelo menos, sua intensidade sequer foi apreciada ou sugerida - até o momento em que o fato estava consumado. No caso do Brasil, o que parecia um movimento contra o aumento de passagens foi assumindo pautas diversas, desde os gastos para a realização da Copa do Mundo, melhorias na mobilidade urbana, na saúde e na educação, mas, também, manifestações contra ações afirmativas, partidos políticos e um grau de “moralismo” contra “tudo de errado que está por aí”. A Direitos Humanos De um ponto de uma política de direitos humanos, a questão dos direitos urbanos, do direito à cidade e - neste ponto, os serviços públicos e mobilidade urbana - ganharam uma dimensão de participação, de reivindicação e de politização (não de partidarização) das pautas, de uma forma que há muito não se assistia. Curiosamente, as mobilizações dos indígenas, que já havia iniciado em abril e que ganharam ímpeto com a ques- tão da “Aldeia Maracanã” foram, em parte, invisibilizadas. Paradoxalmente: porque se tratava do antigo Museu do Índio, do tempo do extinto Serviço de Proteção do Índio e onde foram localizadas, ao fim, as sete mil páginas do Relatório Figueiredo, que se julgava desaparecido, que apurou matanças, torturas e crueldades contra comunidades inteiras, em pleno período da ditadura. Isso permitiu, por um lado, que as Comissões da Verdade (nacional e estaduais) começassem a se debruçar sobre as violências cometidas contra os indígenas e, por outro lado, iniciar um movimento, por parte das comunidades, de criação de uma universidade intercultural. O silenciamento das mobilizações permitiu, no entanto, a visibilização de lutas que foram ignoradas ou tidas como inexistentes. O reconhecimento, por parte de movimentos sociais, de que as obras de infraestrutura, em especial as da Copa e Olimpíadas, estavam potenciando um processo de especulação imobiliária, desalojamentos forçados e de déficit democrático, no campo das lutas urbanas, era a outra face vivenciada pelas populações indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Para estas, o direito à consulta livre, prévia e informada, prevista em convenções internacionais, era solenemente descumprida ou realizada como mera formalidade, quando tratava-se, O silenciamento das mobilizações permitiu, no entanto, a visibilização de lutas que foram ignoradas ou tidas como inexistentes paços públicos, aí incluídos os recursos naturais (água, petróleo, subsolo, terra, alimentos, etc); c) o questionamento do processo de desenvolvimento, que, ao fim, é insustentável e trabalha numa lógica de expropriação da “Pacha Mama”, devendose experienciar outras formas de “criar, fazer e viver”; d) o reconhecimento de que a biodiversidade não é incompatível com a sociodiversidade e que os processos de “desenvolvimento” sempre incorreram em “higienização”, racismos institucionais e violações ao princípio da isonomia. E Espaços públicos que as lutas contra o sexismo, racismo, colonialismo (interno e externo) e todas Neste sentido, mais que qualquer coisa, as formas de discriminação estão entrelaas jornadas de junho devem ser vistas, jun- çadas, no campo e na cidade, nos espaços tamente com as reivindicações dos povos locais, nacionais e globais. originários, quilombolas e comunidades tradicionais como: a) uma ampliação do * Mestre em Direito (ULBRA/RS), doutorando caráter democrático - não somente em Universidad Pablo Olavide (Espanha), servidor do termos representativos e participativos, TRF-4ª Região desde 1989,é organizador do livro mas também de demodiversidade; b) uma “Direitos humanos na sociedade cosmopolita” (Ed. luta contra a apropriação privada dos es- Renovar, 2004). em parte, de um exercício de deliberação democrática, mas fundamentalmente de autodeterminações dos destinos dessas coletividades. E o direito ao seu espaço usurpado, mais que uma propriedade, permanentemente violado, era o reconhecimento de um feixe de direitos culturais e espirituais, uma questão também de igualdade de gênero, de direito à moradia e de acesso à alimentação adequada como “soberania alimentar”. Uma nova configuração, em caráter intercultural, de um “direito à terra”.

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