19 EDIÇÃO - JORNAL ESTADO DE DIREITO

 

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19 EDIÇÃO - JORNAL ESTADO DE DIREITO

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Estado de Direito PORTO ALEGRE, MARÇO E ABRIL DE 2009 • ANO III • N° 19 Os valores como fundamento da Constituição É com satisfação que apresentamos a 19ª edição do Jornal Estado de Direito, que tem o compromisso de estimular o desenvolvimento da cultura jurídica como forma de inclusão social. O Jornal é feito com a esperança de que as pessoas abram suas páginas e se sensibilizem para a importância de somar esforços no sentido de mudarmos a men- Veja também Página 04 Direito de Matar? Manoel Augusto Santos questiona a coerência de lutar pelos direitos humanos e o dever do Estado de proteger e tutelar os direitos dos mais fracos, especialmente o fundamental direito à vida Página 07 Artigo 225 Constituição F e d e r a l : “ To d o s t e m direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo...” talidade e passarmos a conhecer o direito pela forma preventiva, com dignidade, consciência e solidariedade. O destaque dessa edição é o artigo do Professor Wellington Pacheco Barros com o tema dos mais importantes na atualidade, o nosso Meio Ambiente, esclarecendo a questão da responsabilidade do Estado por dano ambiental. Leia na página 13. CARLOS BAILON Corregedoria Nacional de Justiça José Paulo Baltazar Júnior relata as atribuições da Corregedoria Nacional de Justiça e questiona como os Tribunais podem colaborar no processo de mudança para uma justiça mais célere e eficaz Página 10 Direito à Educação Bráulio Junqueira faz um breve histórico sobre as origens do Direito à educação a partir da inclusão nas Constituições de alguns países como a França, o México, a Alemanha, a Irlanda e a Itália. Página 08 A Testemunha no Processo Penal José Osmir Fiorelli e Rosana Mangini fazem um retrato dos fatores psicológicos e culturais que diferenciam a percepção das testemunhas no processo penal e a importância da psicologia jurídica Página 18 Valores Constitucionais Kelly Alflen faz uma análise dos valores fundamentais na consolidação da justiça e sobre a importância de assegurar a efetiva tutela dos Direitos Humanos expressos na Constituição. Página 14 A Lei dos Recursos Repetitivos no STJ Bruno Espiñeira Lemos fala sobre as novas técnicas de “aceleração dos procedimentos” diante da lei dos recursos repetitivos no STJ Página 22 O Interrogatório por Videoconferência Antônio Alberto Machado aborda os prós e contras do interrogatório por videoconferência, adotado este ano pelo processo penal brasileiro. Questiona os discursos resistentes às conquistas tecnológicas, mas lembra que nem tudo que a Ciência conquistou foi empregado em benefício do ser humano. Página 16 Wellington Pacheco Barros Natural da cidade de Propriá, no Sergipe, advogado, professor, atuou como Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. ONGs e Governos Bruno Mattos e Silva analisa a complexa relação entre as ONGs e o Estado, a ausência de uma legislação que controle eficazmente as organizações que recebem recursos públicos

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2 Estado de Direito, março e abril de 2009 Estado de Direito Estado de Direito Comunicação Social Ltda. CNPJ 08.583.884/0001-66 Porto Alegre - RS - Brasil Rua Conselheiro Xavier da Costa, 3004 CEP: 91760-030 - fone: (51) 3246.0242 e 3246.3477 Nextel ID: 84*97060 e-mail: contato@estadodedireito.com.br internet: www.estadodedireito.com.br Diretora Presidente Carmela Grüne carmela@estadodedireito.com.br | carmelagrune@via-rs.net Diretor Financeiro Renato de Oliveira Grüne CRC/RS 45.039 Relações Institucionais - Internacional França Karlo Tinoco | karlotinoco@hotmail.fr Jornalista Responsável Esteban Rey Fontan - MTb 8856 Colaboraram nesta Edição Bayard Fos, Diego Moreira Alves, Luciano Gazineu, Sue Ellen Siqueira de Albernaz, Carlos Bailon, Renata Borges, Cláucia Piccoli Faganello Luis Spadoni e Edgar Garcia Redação redacao@estadodedireito.com.br Anúncios teleanuncios (51) 3246.0242 comercial@estadodedireito.com.br Diagramação Carmela Grüne Tiragem: 40.000 exemplares Pontos de distribuição PORTO ALEGRE Livraria Saraiva Shopping Praia de Belas 1001 Produtos e Serviços de Informática: Matriz - Rua São Luís, 316 - Santana - 3219.1001 Rédito Perícias Andradas, 1270, sala 21 - Centro - 3013.9090 Nossa Livraria Pernambuco e Alagoas Maceió: Av. Moreira e Silva, 430 - Farol Maceió: Rua Íris Alagoense, 438-A - Farol Maceió: Rua Durval de Guimarães, 1217 - lojas 03 e 08 Ponta Verde Recife: Rua do Riachuelo, 267 Recife: Av. Cais do Apolo, 739 - TRT Recife: Av. Dantas Barreto, 191 lojas 22 a 24 - TJ Recife: Rua da Aurora, 325 loja 01 Santa Catarina Nas salas da OAB/SC, com apoio da Caixa de Assitência aos Advogados Com o apoio das empresas patrocinadoras, colaboradores e professores o Jornal Estado de Direito é distribuido em Repartições Públicas, Foros, Tribunais, Cartórios, Tabelionatos e Faculdades: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, itiba, Recif Recife, Maceió, Mato Grosso do Sul, Belo Horizonte, Espirito Santo, Bahia e Rio Grande do Sul. Você tem interesse em levar o Jornal para sua região? Contate-nos e seja um transformador da realidade social! PAÍSES Através de nossos colaboradores, consulados e escritores o jornal Estado de Direito chega a Portugal, Itália, México, Venezuela, Alemanha, Argentina, Ucrânia e Uruguai Investir em Conhecimento Inicio agradecendo especialmente aos Patrocinadores pela possibilidade de apresentar a 19ª edição do Jornal Estado de Direito. Sou muito grata pelo que fazem, o retorno sempre virá pela divulgação como mantenedor de um Jornal que veio para ficar e como exemplo que dão investindo na propagação da cultura jurídica. Se abro o coração é porque faço com amor o Jornal e acima de tudo espero que as pessoas abram as mentes sobre aquilo que valorizam. Falta cultura jurídica preventiva. Ajudar o Jornal com anúncios, logística e transporte é alimentar a minha esperança e a de milhares de pessoas de colaborar com um mundo diferente. Trabalhamos incansavelmente para ampliar nossas ações. Lembrem-se o Jornal e os eventos são gratuitos e temos como fonte de renda para manutenção das atividades as empresas e instituições que divulgam produtos e serviços através de anúncios. No ano de 2005 lançamos o Jornal Estado de Direito com oito mil exemplares - hoje possui a tiragem de 40 mil, distribuídos gratuitamente em nove Estados no Brasil. Para promover os ideais do Jornal estamos buscando mais apoiadores, a fim de fortalecer a equipe de trabalho, ampliar o número de exemplares e aumentar número de eventos. Peço a cada leitor que seja nosso apoiador – leia, divulgue e recomende! Os benefícios são coletivos, a solidariedade é vital para viabilizar mais eventos jurídicos em Shoppings, Livrarias, programas de rádio e televisão que aproximem a população com o Direito. Vejam os eventos apresentados em fevereiro e março, já estão no You Tube: Karla Sampaio, no Espaço Papos & Idéias, do Jornal Estado de Direito, na Saraiva Mega Store, no Praia de Belas Shopping Center, com a Palestra “As Recentes Alterações no Rito do Júri” e Wellington Pacheco Barros com a Palestra “Direito Ambiental: os efeitos jurídicos da ação humana na natureza”, no Café com Justiça do Estado de Direito, Fórum de Eventos da Fnac, no Barra Shopping Sul, em Porto Alegre, que abrilhantaram com carisma e inteligência, propiciando momentos de reflexão com simplicidade e firmes em suas convicções. Eu acredito que cada leitor é um transformador social, uma pessoa que leva essa mensagem e propaga novos valores. Hoje poderíamos encher um estádio de futebol com os leitores do Jornal, mas ainda é pouco, pois o desafio é grande... Mudar a realidade começa dentro de casa, se existe violência, falta de respeito, de educação e de amor, como vamos crescer? Todos somos capazes, basta ter força de vontade e a lembrança que você é diferente porque tem a oportunidade de ler esse Jornal e mudar a realidade ao seu redor. Eu acredito! Um abraço, Carmela Grüne Temas Marcantes do V Forum Mundial de Juízes Jaime Piterman* O encontro realizado em Belém distinguiu a temática, o JUDICIÁRIO, o MEIO AMBIENTE e os DIREITOS HUMANOS. As atenções foram divididas entre a América Hispânica e o Brasil na abordagem dos Direitos Humanos e Crimes contra a Humanidade. Destacou-se a ampliação da responsabilidade do Juiz moderno que tem a preocupação do coletivo e está voltado a decidir políticas públicas. No painel relativo à Amazônia evidenciou-se a necessidade de uma visão planejada, integrando as dimensões econômica, ambiental e social. Trata-se de resignificar o modelo de desenvolvimento preservando as próximas gerações de forma a fazer com que o crescimento econômico atual não venha a comprometer a gama de oportunidades das gerações futuras. A responsabilização dos agentes públicos violadores de direitos humanos durante a ditadura militar brasileira – tema exposto pelos procuradores Eugência FÁVERO e Marlon WEICHERT – polarizou a atenção dos participantes. Os palestrantes desenvolveram um histórico dos crimes durante o período de exceção (1964 a 1985) apontando a existência de 30.000 brasileiros torturados. Pelas recomendações da ONU o Brasil não deve se restringir a realizar a justiça como indenização no âmbito cível, mas deve buscar a responsabilização pessoal dos culpados. Essa orientação advém dos princípios de Justiça Universal na medida em que os crimes contra a humanidade não se enquadram em leis de anistia e não se sujeitam à prescrição de leis locais ou estaduais. A carta de Belém em suas proposições afirmou a necessidade de que o Ministério Público promova a persecução criminal para a responsabilização dos autores de crimes contra a humanidade praticados durante a ditadura militar no Brasil, com a criação de força tarefa para este fim. *Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul Apoio Peça a lista dos locais em que o Jornal Estado de Direito é divulgado para comercial@estadodedireito e consulte os mais de 90 pontos de distribuição! *Os artigos publicados nesse jornal são responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Jornal e informa que os autores são únicos responsáveis pela original criação literária.

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Estado de Direito, março e abril de 2009 3 A formação policial e os Direitos Humanos Anita Maria Klein da Silva* As polícias sempre foram consideradas instituições de repressão e, durante os períodos de regime ditatoriais no Brasil, constituíram-se em importantes instrumentos dos governos para impedir as manifestações contrárias ao poder. Para cumprir as determinações dos governos, as polícias cometiam arbitrariedades, praticavam abusos e ignoravam os direitos das pessoas. Com esta trajetória histórica as polícias conservaram a imagem de poder autoritário e arbitrário e, embora o país encontre-se inserido em período de estado democrático de direito, ainda são registradas situações de violação aos direitos humanos. É inegável a profunda modificação que ocorreu na atuação das polícias nos últimos vinte anos, fundamentalmente em decorrência da promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil em outubro de 1988, cujos princípios constitucionais passaram a garantir uma série de direitos fundamentais ao cidadão promovendo transformações em todos os segmentos da sociedade. No entanto, as adaptações ocorrem de forma lenta e as instituições policiais resistem a mudanças, talvez em decorrência da própria formação. O Brasil consagrou a positivação dos direitos humanos com a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil em 05 de outubro de 1988, ao elencar no capítulo destinado aos direitos e garantias fundamentais de todas as pessoas, uma série de direitos individual, coletivos, sociais e transindividuais. “Há, assim, um Direito brasileiro pré e pós- manos embora a temática constitua uma impor88 no campo dos direitos humanos. O Texto tante fonte de estudos por várias organizações Constitucional propicia a reinvenção do marco governamentais e não governamentais em todo jurídico dos direitos humanos, fomentando o mundo. extraordinários avanços nos âmbitos da normatiUm dos poucos trabalhos existentes no país vidade interna e internacional.” Esta é a firmação sobre o assunto foi realizado por Ponciani (2005) de Piovesan (2008) ao analisar os direitos huma- que analisa o ensino e a formação profissional nos na atual Constituição Brasileira. desenvolvida nas academias de polícia civil e Em relação à cooperação universal, o Brasil militar do Rio de Janeiro. Com base na docuparticipa de todos os tratados e pactos que são mentação relativa aos currículos de formação a firmados para garantia dos direitos humanos. autora destaca entre os resultados da pesquisa, Exemplo disso é que em cumprimento à Confe- a permanência do “modelo profissional policial rência Mundial de Direitos tradicional” e currículo Humanos que ocorreu em direcionado basicamente “Grupos formados por Viena em 2003, o Brasil ao controle do crime. instituiu o I Programa Na- pesquisadores e policiais estão Ainda na mesma cional de Direitos Humanos temática, trabalhos bise engajando na propagação em 1996 e o II Programa bliográficos acerca da Nacional de Direitos Hurelação polícia e direitos da urgente necessidade de manos em 2002. humanos estão surgindo mudança de paradigma na No entanto, embora no Brasil e conduzindo disponha de uma das mais a uma necessária conscultura de violência policial.” democráticas Constituiciência de modificação ções, a operacionalização de conduta das forças dos direitos humanos encontra-se distante da repressivas. Grupos formados por pesquisadores proposição das normas constitucionais. Essa é e policiais estão se engajando na propagação da uma constatação recente, pois segundo relatório urgente necessidade de mudança de paradigma de 2007 da Human Right Watch, “A violência na cultura de violência policial. policial continua sendo um dos problemas de Assim se manifesta Barros (2007) ao analisar direitos humanos mais difíceis de resolver no a formação policial: “O quadro geral fica insusBrasil”. tentável quando se adiciona um senso comum de Inexistem fartos trabalhos que investiguem se fazer “justiça” com as próprias mãos, com as a formação policial civil frente aos direitos hu- demonstrações de racismo e preconceito, e de ignorância sobre o papel político-social da polícia, resultado de uma formação que não os habilita a atuarem como mediadores de conflitos responsáveis pela segurança pública, tendo como função central a garantia dos direitos humanos”. Observa-se que cresce o engajamento de instituições voltadas à vigilância do cumprimento dos direitos fundamentais dos seres humanos em todas as esferas da sociedade, inclusive nos organismos que atuam diretamente nas forças de segurança pública, o que aumenta a responsabilidade dos agentes responsáveis pela segurança pública das comunidades em cumprir e fazer cumprir os direitos individuais e coletivos dos cidadãos. No entanto, é necessário compreender que as modificações em prol da melhoria de relacionamento entre policias e comunidade dependem de transformações no nascedouro da capacitação policial. Manifestou-se dessa forma a Ministra de Seguridad Pública de Costa Rica ao falar sobre policía y derechos humanos: “Así, nuestro empeño en profesionalizar la policía nos lleva a definir como prioridades de formación el conocimiento sobre principios básicos de actuación policial: Al amparo de la ley, fuerte pero no autoritaria; efectiva pero no irregular; disciplinada pero no cruel”. *Delegada Titular da Décima Terceira Delegacia de Polícia de Porto Alegre. Professora da ACADEPOL/RS. Especialista em Direito Penal PUC/RS e Mestranda em Docencia Universitaria UTN/Buenos Aires.

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4 Estado de Direito, março e abril de 2009 Direito de matar? Manoel Augusto Santos* Causou grande perplexidade e revolta o grave e complexo drama sucedido em Pernambuco acerca de uma menina de nove anos, estuprada por seu padrasto e grávida de gêmeos. É a polêmica questão do aborto voltando a sacudir a opinião pública nacional e internacional. É uma questão que, inexoravelmente, implica e interroga aspectos médicos, psicológicos, éticos, jurídicos e religiosos. O que é o aborto provocado? É a eliminação provocada de uma vida humana, de um ser humano em gestação no útero materno. No abortamento mata-se um ser vivo humano, que está se desenvolvendo e necessitando apenas de tempo e nutrição para vir à luz. Não se trata, portanto, de uma extirpação de um simples aglomerado de células da mãe, de um apêndice ou tumor. É o homicídio de um ser humano inocente, inconsciente e indefeso. Dentre todos os crimes que o homem pode praticar contra a vida, apresenta características que o tornam particularmente grave, um crime abominável. Elimina-se um ser humano que de mais inocente há, frágil e privado de qualquer forma mínima de defesa. Alguns querem discutir se o feto já seria humano, qual seria o momento da passagem do infra-humano para o humano. Não cabe à Igreja responder isso, mas à ciência. Como revela a ciência, desde a fecundação tem a sua individualidade genética estabelecida. Com três semanas o seu minúsculo coração já palpita e estão esboçados os seus braços, pés, cabeça e cérebro. Com dois meses já está quase terminado: mãos, pés, cabeça, órgãos, tudo está no seu lugar e só tem que desenvolver-se através da nutrição. Já se podem ver as linhas da mão e as impressões digitais e reage a estímulos ao ponto de mexer os braços, o corpo e a cabeça. Se o homem nascido e vivo é sujeito de direito à vida, por que não o seria aquele que ainda está por nascer? Discute-se o caso do aborto no caso da gravidez resultada de estupro e também da gravidez com risco para a mãe. Sem dúvida, o estupro é um crime grave e hediondo, mas o aborto provocado é a morte intencionalmente provocada, e de um inocente indefeso, por isso é mais grave e mais hediondo. Ora, o bebê não é culpado do crime de seu pai biológico, o qual deve ser punido. Um crime não justifica o outro. No que se refere ao direito à vida, cada ser humano inocente é absolutamente igual a todos os demais, não existem privilégios nem exceções para ninguém. Quando se debate o aborto, em geral, deixa-se de lado a supressão da vida do feto, para reduzir-se ao risco da mãe. Considera-se, exclusivamente, o problema da mulher e esquece-se o direito do bebê. A decisão deliberada de privar um ser humano inocente da sua vida é sempre má, e nunca pode ser lícita nem como fim, nem como meio para um fim. Um fim bom nunca justifica meios maus. Ninguém pode autorizar que se dê a morte a um ser humano inocente, seja feto, embrião, criança ou adulto. Alguns afirmam que a mulher seria “dona de seu corpo” e, por isso, teria o “direito de decidir” entre continuar ou não a gestação. O nascituro não é parte do corpo da mulher, que é uma habitação provisória, é um ser vivo independente da mãe, e ninguém pode matar um ser humano, mesmo se ele está doente, paralítico ou deformado. Algumas mulheres praticam o aborto pura e simplesmente por rejeição à maternidade, considerando-se no direito de decidir soberanamente sobre a vida do feto que lhes pertenceria como um mero apêndice. Chamam de “direito” o que é exercitado contra um nascituro que sequer foi ouvido. E defender apenas o direito do nascituro desejado e amado implica em admitir como conseqüência: visto que não te amo ou não te desejo, tenho o direito de te matar. Seria a regra: eliminar as pessoas indesejadas. É dever do Estado proteger e tutelar os direitos dos mais fracos, especialmente o fundamental direito à vida. Isso não deveria ser privilégio de qualquer religião ou da Igreja Católica, faz parte do patrimônio racional da humanidade, compreensível a qualquer homem de boavontade. É indecente uma lei de matar o inocente indefeso. E o direito à vida é o mais básico dos direitos. Cabe defender a vida, não apenas em abstrato, mas cada vida humana. A Igreja defende a vida de cada embrião já concebido como sujeito de direitos humanos, possuindo a dignidade de imagem e semelhança de Deus. Portanto, o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Pela gravidade, prescreve o Código de Direito Canônico, no cânon 1398: “Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae” (automática). A excomunhão automática recai sobre todos aqueles que cometem esse crime com conhecimento da pena, incluindo também cúmplices, sem cuja contribuição o aborto não se teria realizado. Portanto, nem todos os católicos que cometem aborto estão excomungados, mas somente os que sabiam antes que havia uma pena de excomunhão. E a finalidade da pena de excomunhão é tornar plenamente consciente da gravidade de um determinado pecado e, consequentemente, favorecer a adequada conversão e penitência. Uma questão chave: o problema do aborto provocado é uma questão de religião e, por isso, não envolveria os não-religiosos? Ora, antes e acima de tudo, o aborto é uma questão de humanidade. Se a vida humana começa com a fecundação, deve ser protegida desde aí, e até mais especialmente na gravidez devido à situação MARCELLO CASAL JR/ABR própria de vida inocente, inconsciente e indefesa. É uma questão de direitos humanos. No aborto, sempre morre alguém: o bebê, ou seja, o mais fraco. Abolir a proibição do aborto significa reconhecer o direito de matar. E nesse caso o poder de matar um inocente indefeso. Cabe lembrar que somente é a favor do aborto provocado alguém cuja gravidez foi respeitada. Se as mães dos militantes “pró-aborto” tivessem pensado como seus filhos, quando da gestação deles, talvez não estivessem aqui para falar e reivindicar o direito de matar. *Doutor em Teologia e Professor da PUCRS. Propriedade Intelectual Proposta de extensão da duração dos direitos de artistas intérpretes na UE, quem se beneficia? Karlo Fonseca Tinoco* O questionamento acerca da duração dos direitos de propriedade intelectual é um dos temas que inquieta os pesquisadores e operadores da área há algum tempo, tendo como auge as discussões que se sucederam à publicação do Copyright Term Extention Act nos Estados Unidos . Levando em conta tal questionamento, a Comissão Européia, órgão central do sistema institucional da União Européia, propôs em 16 de julho de 2008 uma Diretiva visando prolongar a duração de proteção dos artistas intérpretes de fonogramas, alterando-a de 50 anos para 95 anos. As justificativas para tal prolongação da proteção estão elencadas na Exposição de Motivos da Diretiva . Constam entre as justificações primordiais: a) a necessidade de melhorar a situação social dos artistas intérpretes, levando-se em consideração que é habitual que a proteção de suas execuções se extingue antes da morte do artista , b) a constatação que os artistas intérpretes, e em especial os músicos contratados, estão entre aqueles que percebem os menores rendimentos na Europa, mesmo tendo estes uma considerável contribuição para o dinamismo da diversidade cultural européia; c) o fato que a atual regulamentação da profissão e as condições em que são empregados a maioria dos artistas intérpretes não são muito compensadoras, sendo que apenas os artistas de renome, que tem um contrato com uma grande editora discográfica, conseguem ganhar sua vida pelo exercício de sua profissão. A maioria dos artistas intérpretes depende de outras profissões paralelas para garantir o seu sustento. Considera-se que apenas 5% dos artistas intérpretes custeiam sua vida apenas com os frutos de sua profissão artística ... Porém, antes mesmo da proposição da Diretiva, especialistas da área já haviam se manifestado sobre a desnecessidade de ampliação da proteção através de um estudo realizado a pedido da própria Comissão. No mesmo sentido, outros especialistas por toda a Europa continuaram a se posicionar contra a alteração, criticando arduamente a opção da Comissão Européia Ainda, mesmo uma extensão de proteção aos artistas intérpretes é questionável, uma vez que estes estão vinculados às gravadoras através de um contrato de trabalho. Ainda, por mais que haja uma expressão da personalidade do artista intérprete na música interpretada, não seria este argumento suficiente para que lhe seja dada uma proteção ainda maior através do direito da propriedade intelectual. Constata-se que a proposta em nada ajuda a melhorar a condição dos artistas intérpretes, o que poderia ser feito através de proteções durante a fase contratual, tais como as proteções aos autores nos contratos que tem por objeto a cessão ou licenciamento de seus direitos patrimoniais . Pode-se dizer que tal proposição tem por objetivo salvar as empresas do mundo fonográfico, que tiveram uma brusca redução em seu faturamento pelo aumento de downloads pela internet, o que a Comissão não faz questão de esconder, referindo-se a situação de empresas como a Universal e EMI . Finalmente, se a Comissão tinha como interesse melhorar a condição de vida dos artistas intérpretes no seio da União Européia, equivocou-se na maneira de concretizar tal interesse, pois de nada adianta prolongar a duração de seus direitos se os beneficiários desta ação serão as potências do mundo fonográfico e os poucos artistas intérpretes de renome, deixando marginalizada a maioria que deveria ser beneficiada. *Mestre em Direito da Propriedade Intelectual pelo CEIPI – Université Robert Schuman (Strasbourg III) e Doutorando em Direito Privado pela Université de Strasbourg – França, Sócio de Martignoni e Tinoco Advogados Associados. www. mtadvogados.com.br.

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6 Estado de Direito, março e abril de 2009 O princípio supremo da moralidade de Kant Um reencontro possível para repensar a essência dos valores morais na atualidade. Haide Maria Hupffer* Kant nos faz (re)encontrar a confiança na grandeza do destino do homem. Suas obras são ainda mais belas porque, por trás de suas palavras, desponta sua fé inabalável pelo ser humano e uma vontade de construir uma sociedade a partir de critérios morais, onde o “outro” é contemplado. Elabora sua teoria buscando alicerçar as relações sociais através de um princípio fundador da sociedade, que ele elege como “princípio supremo da moralidade”. Para Kant, este princípio é o cimento da sociedade e está alicerçado em duas máximas: a primeira diz que nós devemos nos comportar de forma que nossa ação possa ser transformada em lei universal que vai guiar o comportamento de todos; a segunda máxima nos diz que não basta nossa ação ter se transformado em lei universal, mas também é necessário que nossa ação seja considerada como uma finalidade em si mesma e não apenas como instrumento da minha vontade. Com Kant o “outro” passa a ter uma finalidade moral. Ao incluir o “outro” no meu julgamento, eu materializo um valor moral, saio da zona de conforto e passo a contribuir para uma nova ordem jurídica que não apenas defende os meus direitos, mas que também me projeta em direção à sociedade no seu todo. E a beleza desta afirmativa de Kant está na construção do “Princípio da Dignidade Humana”, em conse- para o ser humano, pois o Kant sinaliza é que deveqüência, o princípio da solidariedade, articulado mos nos resguardar da nossa preferência excessiva com a noção de direitos humanos. por nós mesmos. A voz da consciência moral é Kant constrói sua teoria mostrando que só pela valorada por Kant quando a ação é praticada por autonomia da vontade pura, formal de autônoma é um profundo senso de dever. possível dar eticidade às ações dos seres racionais. Ao desenvolver o exercício da autonomia, Kant Ao defender que “a propriedade que a vontade diz que é a vontade que cria o ato moral e lhe dá possui de ser lei para si existência, pois ela é a causamesma (independente lidade livre e continua livre “Ao desenvolver o exercício da natureza dos objetos ao se submeter a lei moral. da autonomia, Kant diz que é do querer)”, isso não Liberdade para Kant é autosignifica que essa vontade a vontade que cria o ato moral nomia, e só o ser que pode é o único bem, o bem agir sob a idéia de liberdade e lhe dá existência, pois ela é integral, mas sim, que ela é verdadeiramente livre. deve ser o bem supremo. Estudar o tema da autoa causalidade livre e continua Dito de outro modo,a nomia em Kant é sempre inslivre ao se submeter a lei vontade deve ser a contigante, pois leva a lançar o dição da qual dependem olhar sobre esse ser humano moral.” os outros bens, inclusive do século XXI que está agrua aspiração à felicidade. E pado em um “não lugar”, ou esse bem de que Kant fala não é a prática do bem seja, que esta à margem das grandes decisões éticas por inclinação, mas, sim, movido por um profundo e morais da sociedade contemporânea. Por isso a sentido de dever, que nos é dado a priori. A posição atualidade de Kant, ao preconizar que a moralidade de Kant se torna mais clara, quando ele assevera que diz respeito inicialmente ao indivíduo – pois na sua a prática do bem não tem valor moral se praticada essência ele tem obrigações morais para consigo por inclinação. Esta talvez seja a parte mais difícil mesmo – e, em um segundo momento, abarca toda a humanidade que deve ser reconhecida não apenas na pessoa do indivíduo, mas também na de todos os seres humanos, devendo assim contribuir para a realização de uma sociedade mais justa e fraterna. Kant, sem dúvida buscou demonstrar que é possível a cada ser humano tomar a si a responsabilidade de aperfeiçoar o mundo, aperfeiçoando-nos a nós mesmos. Aí está a contribuição vigorosa do pensamento kantiano: sua extraordinária investigação filosófica e a insistência em fundamentar o princípio supremo da moralidade na vontade humana autônoma. Kant ensinou a ver, em cada tema por ele desenvolvido, aquilo que é essencialmente humano. É no íntimo de cada ser humano, em sua essência, que está a resposta; é ali que ele pode sentir a condição de uma vontade boa em si, significando que o valor moral da ação não está na cão exterior que se vê, mas, sim, nos princípios internos que moveram essa ação e que podem ser vistos. *Doutora em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Professora e Coordenadora de Formação Continuada da Feevale, advogada, Pesquisadora, Autora do livro “Ensino Jurídico: Um novo Caminho a partir da Hermenêutica Filosófica”. Fala, AGU! Gabriel Felipe de Souza* Rui Magalhães Piscitelli** Da origem da figura do Ouvidor em terras brasileiras: Desenvolvimento Constitucional: Tomé de Souza foi o 1º Governador-Geral do Brasil, regime esse instituído pela metrópole portuguesa para passar a melhor controlar e colonizar as recém-descobertas terras brasileiras, cedendo lugar somente quando da chegada da Comitiva Real de Dom João VII nessas terras, em 1.808. Em 17 de dezembro de 1.548, o Rei D. João III assinou um Regimento para disciplinar essa nova forma de administração de sua colônia brasileira. Desse documento, destacamos a criação do Cargo de Ouvidor-Mor, cuja competência estava afeta aos negócios administrativos e da Justiça, sendo, desta, a maior Autoridade. Também, entre suas funções, estava a de colher da população reclamações em face de Servidores da Coroa. Ao seu lado, o Governador-Geral contava com o auxílio do Capitão-Mor, responsável pela defesa do território e do Provedor-Mor, competente para os negócios da Fazenda Pública. “Eu o Rei faço saber a vós Tome de Souza fidalgo de minha casa ... E pela muita confiança que tenho em vós que em caso de tal qualidade e de tanta importância me sabereis servir com aquela fidelidade e diligência que se para isso requer hei por bem de vós enviar por governador às ditas terras do Brasil no qual cargo e assim no fazer da dita fortaleza tereis a maneira seguinte da qual fortaleza e terra da Bahia vós haveis de ser capitão. Em cada uma das ditas capitanias praticareis juntamente com o capitão dela e com o provedor-mor de minha fazenda que convosco há de correr as ditas capitanias e assim com o ouvidor da tal capitania e oficiais de minha fazenda que nela houver e alguns homens principais da terra sobre a maneira que se terá na governança e segurança dela e ordenareis que as povoações das ditas capitanias que não forem cercadas se cerquem e as cercadas se reparem e provejam de todo o necessário para sua fortaleza...” Sendo a Suécia o primeiro País a implantar a figura da Ouvidoria em seu Texto Maior, em 1.809, a Constituição brasileira de 88 assim tratou timidamente da matéria, no § 3º do seu art. 37: “As reclamações relativas à prestação de serviços públicos serão disciplinadas em lei.”. Menos timidamente, a Emenda Constitucional de nº 19, de 04 de junho de 1998, assim deu nova redação ao § 3º, criando, inclusive 3 incisos, abaixo: A lei disciplinará as formas de participação do usuário na administração pública direta e indireta, regulando especialmente: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998). I - as reclamações relativas à prestação dos serviços públicos em geral, asseguradas a manutenção de serviços de atendimento ao usuário e a avaliação periódica, externa e interna, da qualidade dos serviços; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) II - o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos de governo, observado o disposto no art. 5º, X e XXXIII; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) III - a disciplina da representação contra o exercício negligente ou abusivo de cargo, emprego ou função na administração pública. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) Com tristeza, todavia, constatamos que, mais de 20 anos após a sua promulgação, ainda não há lei disciplinando tal regramento; contudo, muitos órgãos e entidades da com isso não se contentaram, criando suas próprias Ouvidorias. No âmbito da União, cabe à Controladoria-Geral da União, centralizar a atividade no âmbito da Administração Pública Federal brasileira, forte na Lei de nº 10.683, de 28 de maio de 2003, da qual destacamos trecho de seu art. 17: À Controladoria-Geral da União compete assistir direta e imediatamente ao Presidente da República no desempenho de suas atribuições quanto aos assuntos e providências que, no âmbito do Poder Executivo, sejam atinentes à defesa do patrimônio público, ao controle interno, à auditoria pública, à correição, à prevenção e ao combate à corrupção, às atividades de ouvidoria e ao incremento da transparência da gestão no âmbito da administração pública federal. (Redação dada pela Lei nº 11.204, de 2005) §1o A Controladoria-Geral da União tem como titular o Ministro de Estado do Controle e da Transparência... (Redação dada pela Lei nº 11.204, de 2005) A instituição da Ouvidoria da AdvocaciaGeral da União: núncia, é identificar o órgão competente para tratar a questão – interna ou externamente - e acompanhar o andamento da demanda até a sua conclusão, zelando para que o Interessado seja informado sobre o seu andamento, sempre que possível. Até o mês de setembro de 2008 a OuvidoriaGeral da AGU recebeu um total de 4.972 demandas internas e externas, entre denúncias, reclamações, solicitações, elogios e sugestões. O atendimento dessas demandas possibilitou a realização de diagnósticos que já trouxe resultados positivos para a Instituição, tanto em termos de gestão, como em relação à qualidade das relações interpessoais e com o público externo. O quê podemos esperar da Ouvidoria da Advocacia-Geral da União: No âmbito da AGU, o Ato Regimental de nº 3, de 15 de agosto de 2007 instituiu a Ouvidoria, do que destacamos o caput de seu art. 4º: “Qualquer pessoa, física ou jurídica, poderá, diretamente ou mediante representação, apresentar reclamação, sugestão, elogio ou denúncia ao Ouvidor-Geral.” A Ouvidoria-Geral da AGU é uma ouvidoria mista, ou seja, recepciona demandas dos membros das suas carreiras jurídicas e dos seus servidores técnico administrativos, estagiários e colaboradores, além das demandas daqueles que fazem uso dos serviços prestados pela Instituição ou pelos órgãos a ela vinculados. Em virtude da sua natureza, a Ouvidoria-Geral da AGU é um instrumento de gestão e participação popular, que possibilita tanto a realização do controle interno da Instituição como o controle social. As demandas recebidas por carta, email, atendimento pessoal e por meio do 0800 e, mais recentemente, via sistema, representam um termômetro da atuação institucional, tanto para o público interno como para o externo. A Ouvidoria-Geral da AGU não atua como um órgão correicional. Essa atribuição é exclusiva da Corregedoria-Geral da Advocacia da União. Ela também não se investe de um caráter investigativo. Assim, sua função, ao receber uma de- Para o ano de 2009, a Ouvidoria-Geral da União pretende aperfeiçoar e aumentar ainda mais sua inserção institucional. No princípio de fevereiro, inclusive, as Associações de Membros e Servidores da AGU foram chamadas a colaborar em projetos conjuntos, dentre eles a elaboração de ações para aumentar a harmonia interna entre todos, bem como o início de projetos sociais, tanto a Terceirizados desta Casa, como à comunidade carente, com projetos de esclarecimento de seus direitos e de oferecimento de cursos temáticos. Ainda, a Ouvidoria pretende, ainda no ano de 2.009, descentralizar suas atividades, para as 5 Regiões do País, fazendo com que sua participação se torne cada vez mais próxima de seu público que lhe demanda. A todos os Parceiros, queremos convidá-lo a falar, e, também, a participar deste importante instrumento democrático da nossa Instituição. *Ouvidor-Geral da Advocacia-Geral da União **Procurador Federal, Professor Universitário em Brasília e em Porto Alegre. Diretor Nacional do Centro de Estudos Jurídicos da Associação Nacional dos Procuradores Federais - ANPAF.

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Estado de Direito, março e abril de 2009 7 Corregedoria Nacional de Justiça José Paulo Baltazar Júnior* Instituído pela EC n° 45, o Conselho Nacional de Justiça conta, para o cumprimento de sua missão de controle externo do Poder Judiciário, entre outros órgãos, com a Corregedoria Nacional de Justiça, sendo o cargo de Corregedor Nacional ocupado por um Ministro do Superior Tribunal de Justiça, eleito entre seus membros para o desempenho dessa função, secundado por Juízes Auxiliares convocados, além de um quadro de servidores. A Corregedoria Nacional de Justiça recebe administrativo, ou seja, para os casos em que a atuação do juiz representa uma falta funcional. Eventualmente essa falta poderá estar concretizada em uma decisão judicial irregular, que deverá, ainda assim, ser objeto do recurso próprio no processo, sem prejuízo da representação administrativa. Quando é evidente que a matéria tem cunho exclusivamente jurisdicional, a reclamação é arquivada. As reclamações que chegam à Corregedoria Nacional de Justiça são classificadas em Representações por Excesso de Prazo (REP) ou Reclamações Disciplinares (RDs). As primeiras dizem respeito apenas a atraso na prolação de decisões, enquanto nas segundas há imputação de faltas disciplinares de outra ordem a magistrados. Em casos de número excessivo de REPs em relação a um determinado juiz ou tribunal, é feita uma verificação das razões do atraso generalizado, buscando-se uma solução junto ao Tribunal ou juízo local, pois o atraso poderá decorrer de desequilíbrio na distribuição territorial ou por competência, falta de servidores ou equipamentos, um longo período sem juiz na unidade, etc. Em outros, a solução depende da adoção de novos métodos de trabalho. Já nas reclamações disciplinares, a regra, em se tratando de reclamações contra atos de servidores ou juízes de primeiro grau, é o encaminhamento às Corregedorias locais, dos próprios tribunais, mais capilarizadas, mais próximas do local dos fatos e mais conhecedoras das particularidades locais. Nesses casos, a Corregedoria Nacional acompanha o procedimento, sendo fixado um prazo para comunicação à Corregedoria Nacional sobre o resultado das medidas adotadas. Caso se entenda insuficiente a atuação da Corregedoria local, a Corregedoria Nacional pode atuar supletivamente. Mesmo em caso de instauração de Processo Administrativo Disciplinar no Tribunal local, este poderá ser avocado pelo CNJ. Cabe, ainda, revisão disciplinar, pelo CNJ, de ofício ou a requerimento dos interessados, das decisões disciplinares adotadas pelos tribunais, no prazo de um ano. Não há impedimento à atuação direta da Corregedoria Nacional, o que se dá especialmente em casos de reclamações disciplinares contra desembargadores, bem como nos casos em que a Corregedoria local, procurada pelo interessado, manteve-se inerte, ou ainda em razão da relevância do caso, à critério do Corregedor Nacional. Havendo fundamentos suficientes e necessidade de aprofundamento, a reclamação disciplinar poderá ser transformada em sindicância, que é uma apuração preliminar dos fatos, levada a efeito na própria Corregedoria Nacional, por um dos Juízes Auxiliares, durante a qual poderão ser feitas diligências como a tomada de depoimentos e juntada de documentos. A sindicância, a seu turno, poderá resultar em arquivamento ou em uma proposta de instauração de Procedimento Administrativo Disciplinar contra o magistrado, levada ao Plenário do CNJ pelo Ministro Corregedor. Decidindo o plenário do Conselho pela instauração de PAD, o feito é distribuído a um relator sorteado dentre os Conselheiros, o qual será encarregado da instrução do processo, ao término do qual poderão ser aplicadas sanções como advertência, censura, disponibilidade ou aposentadoria compulsória. Em casos mais graves, o magistrado poderá ser afastado da função por ocasião da instauração do processo. Todo procedimento disciplinar é realizado com a dupla preocupação da efetividade na apuração, aliada ao oportunidade de dirigir-se diretamente ao Ministro Corregedor. Simultaneamente, é feito atendimento ao público por servidores que tomam por termo, reservadamente, reclamações e queixas. Segue-se o trabalho de inspeção propriamente dito, que é feito, por amostragem, incluindo varas do interior e da Capital, gabinetes e setores administrativos dos Tribunais, além dos serviços extrajudiciais. As visitas permitem complementar, com dados qualitativos e impressões pessoais, o quadro da Justiça Nacional apresentado à Corregedoria mediante os expedientes que lá chegam e o acompanhamento estatístico proporcionado por sistemas como o Justiça Aberta. Muitas informações são colhidas no contato direto com magistrados, servidores e usuários, buscando-se apreender o quanto possível da realidade local. Após a inspeção é elaborado um Auto Circunstanciado, apresentado ao Plenário, com determinações e recomendações ao Tribunal, com prazo de cumprimento, visando ao aprimoramento dos serviços, dentro do foco da inspeção, que não é punitivo. Bem por isso, também são identificadas as boas práticas, adotadas pelo próprio tribunal inspecionado ou por outros tribunais, sugerindose medidas de melhoria, não raro adotadas na vara ao lado ou na cidade vizinha. Enfim, cuida-se de um processo de diálogo entre aqueles que tem o conhecimento de quem está vivendo diariamente os problemas da realidade local com o estranhamento de quem chega de fora e tem uma visão diferente, fazendo com que todos saiam da zona de conforto e, em alguns casos, da acomodação. É de esperar que o trabalho do Conselho e da Corregedoria Nacional de Justiça, aliado ao engajamento e à boa receptividade que o trabalho tem tido por parte dos Tribunais possa resultar em um virtuoso círculo de mudança para uma justiça mais célere e eficaz. *Mestre e Doutorando em Direito (UFRGS), Juiz Federal Titular da 1ª. Vara Criminal de Porto Alegre, especializada em Crime Organizado, Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e Lavagem de Dinheiro. Atualmente convocado como Juiz Auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça. Professor de Direito Penal na ESMAFE-RS. Entre os livros publicados - Crimes Federais (4ª. Ed., 2009), pela Editora Livraria do Advogado, e Sentença Penal, pela Editora Verbo Jurídico, atualmente na 3ª. Edição. “A reclamação pode ser feita diretamente pelo interessado, mesmo sem a representação por advogado.” reclamações sobre o funcionamento de todos os tribunais e todos os ramos do Poder Judiciário, a saber, Justiça Estadual, Federal, Trabalhista, Eleitoral, Militar, incluindo os serviços extrajudiciais, os cartórios notariais e de registros. A exceção é o STF, que não está sujeito a controle por parte do CNJ. São requisitos formais para o conhecimento de uma reclamação na Corregedoria Nacional de Justiça a assinatura, qualificação e identificação da parte, que deve instruir o pedido com cópia de seu documento de identidade. A reclamação pode ser feita diretamente pelo interessado, mesmo sem a representação por advogado. Caso a opção seja a constituição de advogado, este deverá receber procuração com poderes específicos para a representação. Tais medidas não constituem mera formalidade, mas a preocupação em evitar denúncias irresponsáveis ou forjadas. Caso o pedido não atenda a esses requisitos, ou não seja compreensível, é concedido um prazo para regularização, findo o qual o pedido será arquivado. O Conselho Nacional de Justiça não é um tribunal, não tendo poderes para alterar decisões tomadas pelos juízes e tribunais, quanto ao seu conteúdo. Caso a parte não se conforme com a decisão tomada, o caminho é o recurso. O mesmo vale para casos de impedimento ou suspeição de magistrado. O controle exercido pelo CNJ é “Muitas informações são colhidas no contato direto com magistrados, servidores e usuários, buscando-se apreender o quanto possível da realidade local.” respeito à independência, à dignidade e ao direito de defesa do magistrado. Além do controle disciplinar, outro foco da atuação da Corregedoria Nacional é o aprimoramento do serviço judiciário, especialmente através de medidas propostas após a realização de inspeções junto às Justiças locais. Na atual gestão, foram objeto de inspeção as Justiças Estaduais da Bahia, Maranhão, Pará, Amazonas e Piauí, além da Justiça Militar do Rio Grande do Sul. A inspeção é aberta, normalmente, com uma audiência pública na qual entidades convidadas ou interessadas, bem como cidadãos inscritos tem a Esperança Notícias 2ª edição com Mauro Sérgio Ouça de segunda à sexta das 16h às18h no 1390 AM www.radioesperanca.com.br

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8 Estado de Direito, março e abril de 2009 Breve histórico do Direito à Educação Bráulio Junqueira* Não é inovação de nosso século e nem de nosso sistema jurídico-normativo o enaltecimento cada vez maior do direito á educação. Não apenas no seu aspecto mais precário, formal, mais sim o direito á educação já verdadeiramente efetivado. Por esta razão cotejo alguns aspectos jurídicos e históricos sobre este singular direito. França Na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, não se encontra a palavra ‘educação’. Ausente também nas Declarações Americanas de Direitos. A Constituição francesa de 1791 – a primeira – que tinha à cabeça a Declaração de 1789, previa no Título Primeiro, Disposições Fundamentais Garantidas pela Constituição: “Será criado e organizado um estabelecimento geral de Assistência Pública, para educar as crianças abandonadas, ajudar os enfermos pobres e fornecer trabalho aos pobres válidos que não tenha podido encontrá-lo. Será criada e organizada uma Instrução pública comum a todos os cidadão, gratuita no que concerne às partes do ensino indispensáveis a todos homens; seus estabelecimentos serão distribuídos gradualmente, numa proporção adequada à divisão do reino [...]” Já dois anos mais tarde, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Constituição de 1793, encontramos o seguinte: “Artigo Primeiro. A finalidade da sociedade é a felicidade comum. – O governo é instituído para garantir ao homem a fruição de seus direitos naturais e imprescritíveis. Artigo 22. A instrução é uma necessidade de todos. A sociedade deve favorecer, com todos os seus poderes, os progressos da instrução pública, bem como pôr a instrução ao alcance de todos os cidadãos.” E o Artigo 122 do texto constitucional garantia “uma instrução comum”. Esta mesma Declaração, com que abria a Constituição de 1795, omitia a instrução, mas o texto constitucional dedicava o seu Título X (com poucos e curtos Artigos) à Instrução pública, em que nomeadamente se constatava a existência de “escolas primárias onde os alunos aprendem a ler, a escrever, os elementos do cálculo e os da moral” (Artigo 296), bem como “escolas superiores às escolas primarias” (Artigo 297). Reconhecia-se também “o direito de formar estabelecimentos particulares de educação e de instrução” (Artigo 300) O preâmbulo da Constituição de 1848 proclamava que “a República deve (...) pôr ao alcance de cada um a instrução indispensável a todos os homens” (VIII). No Capítulo II (Direitos dos cidadãos garantidos pela Constituição), o Artigo 9 enunciava: “O ensino é livre. – A liberdade de ensino exerce-se segundo as condições de capacidade e de moralidade determinadas pelas leis e sob a vigilância do Estado. – Esta vigilância estende-se a todos os estabelecimentos de educação e de ensino, sem exceção alguma” Continuou o Artigo 13, dispondo ainda, que “a sociedade favorece e encoraja o desenvolvimento do trabalho pelo ensino primário gratuito a educação profissional (...)”. Já, no século XX, a Constituição da França de 1946, no seu preâmbulo, reafirmava solenemente os direitos e liberdades proclamados em 1789, mas proclamava também, entre “os princípios políticos, econômicos e sociais” considerados “como particularmente necessários ao nosso tempo”, que “a Nação garante o igual acesso da criança e do adulto à instrução, à formação profissional e à cultura. A organização do ensino público gratuito e laico , em todos os graus é um dever do Estado” México clandestinamente, em 1906, um manifesto de ampla repercussão, no qual se apresentaram propostas que viriam a ser as linhas – mestras do texto constitucional de 1917: proibição de reeleição do Presidente da República (Porfírio Diaz havia governado mediante reeleições sucessivas, de 1876 a 1911), garantia para liberdades individuais e políticas (sistematicamente negadas a todos os opositores do presidente – ditador), quebra do poderio da Igreja Católica, expansão do sistema de educação pública, reforma agrária e proteção do trabalho assalariado. A notável Constituição dos Estados Unidos Mexicanos, prescrevia, no seu Artigo 3 (Título primeiro, Capítulo primeiro), que “a educação primária será obrigatória”. O critério da educação pública “manter-se-á absolutamente afastado de qualquer doutrina religiosa e, baseando nos resultados do progresso científico, lutará contra a ignorância e os seus efeitos, as servidões, os fanatismos e os preconceitos. Além disso (...) contribuirá para uma melhor compreensão humana” Notório, além do direito à educação per se, é a nítida não vinculação da doutrina religiosa com a preocupação de educar do Estado. Alemanha A fonte ideológica da “Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos”, promulgada em 5 de fevereiro de 1917, foi a doutrina anarcossindicalista, difundida no último quartel do século XIX em toda Europa, mas principalmente na Rússia, na Espanha e na Itália. O pensamento de Mikhail Bakunin muito influenciou Ricardo Flores Magón, líder do grupo Regeneración, que reunia jovens intelectuais contrários à ditadura de Porfírio Diaz. O grupo lançou Consagrando a evolução ocorrida durante o século XIX, e que contribuiu decisivamente para a elevação social das camadas mais pobres da população em vários países da Europa Ocidental, atribuiuse precipuamente ao Estado o dever fundamental de educação escolar. A educação fundamental foi estabelecida com a duração de oito anos, e a educação complementar até os dezoito anos de idade do educando. Em disposição inovadora, abriu-se a possibilidade de adaptação do ensino escolar ao meio cultural e religioso das famílias (Artigo 146, segunda alínea). Determinou a Constituição que na escola pública, em ambos os níveis – o fundamental e o complementar –, o ensino e o material didático fossem gratuitos (Artigo 145, in fine). Ademais, previu-se a concessão se subsídios públicos aos pais de alunos considerados aptos a cursar o ensino médio e superior (Artigo 146, última alínea). ROGER LEMOYNE, ONU A famosa Constituição alemã de Weimar (1919), no seu artigo 120 (segunda secção), declarava: “A educação das jovens gerações, com vista a fazerlhes adquirir as qualidades físicas, intelectuais e sociais, é o primeiro dever e o direito natural dos pais; a sociedade política vigia o modo como eles o cumprem” Segue abaixo, os artigos da Quarta Seção que nos envolvem: “Quarta Secção – Educação e Escola Art. 145. A escolaridade é obrigatória para todos. Ela é realizada, fundamentalmente, pela escola popular em pelo menos oito anos letivos e pela anexa escola complementar, até os dezoito anos completos. O ensino e o material didático, na escola popular e na escola complementar, são gratuitos. Art. 146. A instrução pública é estruturada de forma orgânica. Para cada escola primária comum organiza-se uma escola média e uma escola superior. Para essa organização, o determinante é a pluralidade das vocações de vida, sendo que, para a admissão de uma criança em determinada escola, são levadas em conta suas aptidões e inclinações; não a situação econômica, aposição social ou religiões de seus pais. No âmbito municipal, porém, são instruídas, a pedido das pessoas responsáveis pela educação das crianças, escolas populares adaptadas à sua confissão religiosas ou à sua visão de mundo, desde que o ensino, no sentido do disposto na primeira alínea deste artigo, não seja prejudicado. A vontade das pessoas encarregadas da educação das crianças deve ser, tanto quanto possível, levada em consideração. As particularidades locais determinam a legislação dos Estados federados (die Landesgesetzgebung), respeitados os princípios de uma lei nacional (Reichgesetz). Para o acesso das pessoas de poucos recursos às escolas médias e superiores, subsídios públicos são oferecidos pelo Estado central (Reich), os Estados federados (Länder) e os Municípios, para os pais de crianças que seja considerada aptas a cursar a escola média e a escola superior, até o final de seus estudos.” República da Irlanda País que ocupa cerca de quatro quintos da mais ocidental das ilhas Britânicas. Tendo permanecido neutra durante a Segunda Guerra Mundial, a Irlanda abandonou a Comunidade das Nações (Commonwealth) e foi reconhecida como República Independente em 1949. Na Constituição de 1942 da República da Irlanda, assim está marcada: “o Estado reconhece a Família como unidade PB, ONU

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Estado de Direito, março e abril de 2009 – determinava que: “a escola é aberta a todos. A instrução primária, dada durante oito anos, pelo menos, é obrigatória e gratuita. Os alunos dotados e merecedores, mesmo que não disponham de meios de existência, têm o direito de atingir os graus mais elevados de estudo. A República torna este direito efetivo por meio de bolsas de estudo, subsídios às famílias e outras disposições, que devem ser atribuídas por concurso”. Conclusão ESKINDER DEBEBE, ONU 9 outras palavras, quantas ‘revoluções’ mais serão necessárias para que todos nós, seres humanos, tenhamos esses direitos materialmente e amplamente implementados? Nos dias correntes direito à vida afastado do direito à educação torna-se um direito incompleto. *Doutorando em Direito das Relações Sociais na Universidade Pontifícia Católica de São Paulo. Mestre em Direito das Relações Sociais e Direito das Relações Econômicas e Internacionais pela Pontificia Universidade Catolica de São Paulo. Membro da Comissão de Defesa da República e da Democracia OAB/SP . Membro do IBDC - Instituto Brasileiro de Direito Constitucional. Autor de vários artigos científicos e do livro “A Institucionalização Política da União Européia”, publicado pela Editora Almedina. ESKINDER DEBEBE, ONU Foi necessária a humanidade caminhar quase vinte um séculos para nos vermos formalmente o imprescindível direito à educação sendo reconhecido; segue agora outra questão, quanto mais de tempo será preciso levar para que toda a humanidade possa sentir o direito à educação? Em grupo natural primário e fundamental da sociedade, e como instituição moral que possui direitos inalienáveis e imprescritíveis, anteriores e superiores a qualquer direito positivo” . A Família é “o educador primário e natural da criança” (Artigo 41), mas o Estado, “como garante do bem comum” pode exigir “que as crianças recebam um certo mínimo de educação moral, intelectual e social ” (Artigo 42). O legislador da Constituição da Irlanda foi extremamente feliz, no que tange à educação, pelo menos nessa parte destacada. Define com uma precisão os deveres primários e subsidiários. Define com precisão os deveres dos responsáveis pela educação infantil, assim como, precisamente também, o deve do Estado. Itália Quando após o término da Segunda Grande Guerra Mundial, mesmo antes da criação da Carta das Nações Unidas, segundo Verdoodt, muitas ou- tras Constituições garantiam a liberdade de ensino e a escolaridade elementar. Verdoodt refere-se que o direito à instrução era reconhecido em quase quarenta Constituições na posse da Divisão dos Direitos do Homem das Nações Unidas, quando começaram os trabalhos preparatórios da Declaração Universal dos Direitos do Homem. No entanto, somente em 1947, na Constituição da Itália, em seu precioso Artigo 38 que se usa pela primeira vez o termo: Direito à Educação, que aliás a utiliza apenas para reconhecer aos “inaptos e àqueles que sofrem de uma inferioridade” o “direito à educação e à preparação profissional” ao passo que declara expressamente que “a República protege a saúde como direito fundamental do indivíduo e interesse da coletividade” (Artigo 32). O Artigo 34 da Constituição italiana de 1947 – Parte primeira (Direitos e deveres dos cidadãos), Título II (Relações ético-sociais)

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10 Estado de Direito, março e abril de 2009 Aspectos psicológicos da testemunha no Processo Penal José Osmir Fiorelli* Rosana Cathya Ragazzoni Mangini** “Você viu aquilo?” perguntou a senhora à filha. Para sua surpresa, a garota não havia percebido nada de excepcional no rapaz de nariz adornado de anéis metálicos, que praticamente trombou com elas no corredor do shopping center. O inusitado dos adereços despertou a atenção da mãe, por afrontar seus padrões estéticos; para a filha, esse tipo de demonstração situa-se no campo da corriqueira normalidade e passa desapercebido. Esse fenômeno exemplifica algo que já se demonstrou à exaustão: as pessoas percebem de acordo com padrões inscritos em suas estruturas mentais. Uma cabeleireira mostra-se atenta aos detalhes do penteado; uma esteticista, à maquiagem; um vendedor de roupas, à vestimenta e assim por diante. As pessoas percebem os acontecimentos por meio de um complexo processo de ajuste e interpretação entre o que se pode ver, ouvir, cheirar, tatear, degustar e os registros pré-existentes em suas mentes. Consequência: diferentes expectadores percebem, um mesmo acontecimento, das mais diversas maneiras. Diferenças de conhecimento e de cultura acentuam essas diferenças de percepção, ampliadas ainda mais por fatores psicológicos fundamentais, entre os quais se destacam: - emoções anteriormente vividas em relação a estímulos iguais ou semelhantes. Uma pessoa que tenha sido vítima de agressões, violência sexual, maus tratos, perceberá tais acontecimentos sob ótica muito diversa de outra que jamais tenha sido submetida a essas ocorrências; portanto, as experiências anteriores possuem grande significado na formação da percepção dos acontecimentos e seria ilusório acreditar que o indivíduo pudesse interpretar abstraindo-se desses conteúdos intrapsíquicos; na prática, não há como falar em neutralidade; o que se pode perseguir é a eqüidistância; - preconceitos a respeito dos acontecimentos e ou daqueles que nele se envolveram, agentes ou pacientes. O preconceito, poderosa força de fundo psíquico, faz com que as pessoas percebam intenções inexistentes; ampliem ou reduzam as dimensões de um fato ou de suas conseqüências; neguem óbvias evidências; tirem conclusões a partir de meros indícios ou suspeitas infundadas; - expectativas do observador em relação ao que os fatos possam lhe trazer de danos ou benefícios, presentes ou futuros; as expectativas, além de receberem influência direta dos fatores anteriormente citados, são vulneráveis às mensagens recebidas de terceiros (inclusive da mídia) a respeito dos acontecimentos e sua evolução; - conceitos, princípios e valores éticos e morais do observador, que funcionam como filtros do psiquismo. Eles afetam os processos mentais por meio dos quais as pessoas valoram, interpretam, relativizam, acentuam e potencializam dados e informações em relação a seus paradigmas pessoais, sejam estes rudimentares ou extremamente sofisticados. Existe, pois, uma questão de extrema relevância no testemunho, que é a formação dos registros mentais dos acontecimentos, porque esta vem impregnada de elementos que o psiquismo incorpora aos estímulos recebidos pelo corpo, por meio dos sentidos, para somente então interpretá-los – e o faz de maneira subjetiva. A realidade pertence a cada um. Daí o célebre “assim é, se lhe parece”, de Pirandello. Até aqui, tratou-se da configuração da informação. Existem, entretanto, duas etapas adicionais no que se refere ao papel da testemunha, o qual MARTINE PERRET, ONU consiste, essencialmente, em devolver a informação a respeito dos fatos sob a forma de linguagem falada ou escrita. A primeira etapa compreende a manutenção da informação no cérebro e sua posterior recuperação por meio da memória. Os processos mentais são de extrema complexidade e quanto maior for a carga emocional que circunscreve o acontecimento, tanto maiores serão as forças conscientes e inconscientes que afetarão a informação registrada. O tempo, neste processo, desempenha papel crucial. Quanto mais distante um acontecimento encontra-se do momento em que se apela para a memória com o objetivo de descrevê-lo, tanto mais as informações estarão sujeitas a distorções decorrentes de composições, modificações, adições ou reduções provocadas pela semelhança ou diferença com informações pré-existentes e outros fatores decorrentes de variados mecanismos psicológicos, cuja complexidade não permite discorrer a respeito deles nos limites deste artigo. Os efeitos psicológicos, ocasionados pelo tempo, sobre os registros da memória, vão muito além do poder do indivíduo em administrá-los, por maior que seja a sua intenção de manter-se fiel à informação original. O inconsciente tem razões que a razão desconhece e a história de vida de cada indivíduo concorre para escrever a forma e escolher parâmetros e variáveis dessa sofisticada equação. Em síntese, a memória é inimiga natural da qualidade de um testemunho. Em especial, as emoções afetam-na profundamente, tanto mais, quanto maior suas intensidades; elas fazem com que as pessoas privilegiem as memórias que as ratificam e, por isso, são poderosas fontes de distorção. Pesquisas indicam que o indivíduo tende a lembrar com mais exatidão os fatos mais significativos para si próprio; assim, tão “A palavra prende-se à garganta; pensa-se uma coisa, fala-se outra ou de maneira insatisfatória; as contradições (ainda que involuntárias) complicam o estado emocional. Resultado: um depoimento, de repente, transforma-se em sessão de suplício.” mais forte será a lembrança daquele que vivenciou um fato, quanto mais o estímulo tenha lhe afetado significativamente. A segunda etapa é o impacto do processo judicial sobre os mecanismos mentais das testemunhas. A sofisticada liturgia jurídica, percebida como algo muito distante da vida cotidiana – o que se confirma pelo cerimonial que cercam os atos do poder judiciário – influencia os mecanismos de memória, pensamento e linguagem das pessoas submetidas a esses procedimentos. A maneira de interrogar; a agressividade que permeia muitos interrogatórios; as idealizações a respeito do que acontece antes, durante e depois dos atos jurídicos; o impacto causado desde a chegada à delegacia a, até mesmo, o cenário e as explanações ocorridas em uma sessão de júri, ritual este enigmático, vez que praticamente desconhecido do cidadão comum e que, de per si, já causa certa ansiedade, afetam o equilíbrio emocional da testemunha. Incluem-se aqui a relação com outras testemunhas e com a parte adversária, a natureza do que se encontra em questão e outros fatores que contribuem para que a informação, ainda que bem estruturada e sujeita a uma recuperação satisfatória, esbarre em dificuldades de comunicação para ser transmitida com qualidade. A palavra prende-se à garganta; pensa-se uma coisa, fala-se outra ou de maneira insatisfatória; as contradições (ainda que involuntárias) complicam o estado emocional. Resultado: um depoimento, de repente, transforma-se em sessão de suplício. A emoção também pode transformá-lo em instrumento de vingança, até mesmo de maneira inconsciente, tornando a testemunha prisioneira do próprio ódio, esse eficiente manipulador da razão. As questões psicológicas que envolvem as testemunhas e, também, aqueles que com elas interagem, encontram-se sempre presentes quando se trata da complexa obtenção de dados e informações testemunhais. Conclui-se que a psicologia jurídica, ao lidar com as relações interpessoais que envolvem as pessoas em conflito, constitui um campo de saber de notável interesse para advogados, promotores, juízes e todos os profissionais que lidam com esse tipo de questão. Na atualidade, esse saber encontra-se em franca evolução e proporciona instrumentos de grande utilidade para aqueles que se encontram empenhados em aumentar a produtividade e atuar ancorados em procedimentos cientificamente testados na área de relacionamento interpessoal. Esse conhecimento também propicia ao profissional do direito identificar situações e momentos em que lhe convém a assessoria especializada para lidar com as questões psicológicas. *Professor titular da Universidade Tuiuti do Paraná. ** Psicóloga do sistema prisional paulista desde 1.990. Mediadora na Defensoria Pública do Estado de São Paulo, 2007/2008. Autores de Psicologia Jurídica, publicado pela Editora Atlas.

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Estado de Direito, março e abril de 2009 11 Imputação objetiva - pequena síntese Daniel Sperb Rubin* Ainda é incipiente a difusão da teoria da imputação objetiva no Brasil, mas já não se pode dizer que seja assunto totalmente desconhecido. Com efeito, a teoria já é objeto de algumas obras lançadas, bem como já consta do conteúdo programático de concursos públicos. Mas, objetivamente, do que trata tal teoria? Segundo Roxin, a teoria enuncia o conjunto de pressupostos genéricos que fazem da causação um causação objetivamente típica. O art. 13 do nosso Código Penal, adotou a teoria da equivalência dos antecedentes causais, segundo a qual é causa do resultado a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. A doutrina da primeira metade do século XX reduzia o tipo à causalidade. Com o advento do finalismo, avançou-se, acrescentando-se ao tipo subjetivo uma face subjetiva (o dolo, ou finalidade da ação). O tipo objetivo, porém, permanecia intocado. Com a teoria da imputação objetiva, há uma radical mudança na análise do tipo objetivo. A causação de um resultado continua sendo importante, mas não é mais suficiente. Para que determinada conduta seja considerada causa de um resultado, pela teoria da imputação objetiva, não basta a constatação de que se tal conduta não existisse o resultado igualmente não existiria. É preciso mais. E a teoria da imputação objetiva afirma que este plus consiste em: a) criação de um risco juridicamente desaprovado; b) concretização deste risco num resultado. Com relação ao primeiro requisito, criação de um risco juridicamente desaprovado, tomemos o seguinte exemplo, de facílima compreensão: aquele que, conduzindo um veículo, não respeita o sinal vermelho, a toda evidência cria um risco juridicamente desaprovado, pela simples razão de que as normas de trânsito proíbem tal conduta. Note-se que a teoria fala em risco juridicamente “desaprovado”. Existem, portanto, riscos juridicamente permitidos. E o próprio trânsito é um exemplo disso. Dirigir é um risco. Mas é um risco que o ordenamento jurídico permite, desde que o condutor do veículo observe as normas do trânsito. Embora comumente sejam utilizados exemplos de criação de risco em condutas culposas, a teoria é aplicável aos crimes dolosos também. Aquele que, dolosamente desfere tiros contra o desafeto cria um risco juridicamente desaprovado (o risco de causar a morte de seu desafeto, via de regra risco juridicamente desaprovado). Se o risco criado for juridicamente irrelevante, não haverá imputação objetiva. Se o agente, desejando a morte de seu desafeto, compra-lhe uma passagem de avião, e o convence a viajar no avião, na esperança de que a aeronave caia e seu desafeto morra, o agente criou um risco, mas tal risco é irrelevante (no sentido de que apenas muito remotamente poderia se concretizar), e portanto, se a aeronave cair e o desafeto morrer, o tipo objetivo do homicídio não poderá ser imputado ao agente. Também não há imputação objetiva em situações em que o risco é diminuído pelo agente. Se A, armado com um bastão, dirige o instrumento contra a cabeça de B, na tentativa de dar-lhe uma paulada, e C, que presencia o fato, desvia o golpe de A em direção ao braço de B, que resta com lesão nesta parte do corpo, C, na verdade, atuou para diminuir o risco, e não para criar um risco juridicamente desaprovado. Portanto, o resultado lesão no braço de B não pode ser imputado a C (nosso sistema também beneficia C, mas por uma excludente de ilicitude – estado de necessidade – e não pelo afastamento do tipo objetivo). A doutrina elenca, ainda, o princípio da confiança, como fundamento para afastar a criação de um risco juridicamente desaprovado. É que, se nós observamos as regras e nos comportamos de acordo com elas, podemos confiar que os outros se a participar de uma autocolocação em perigo da igualmente terão tal comportamento. Assim, o motoris- própria vítima. No ordenamento jurídico alemão, tal ta que avança ao sinal verde do semáforo pode confiar decisão é bastante razoável, na medida em que não se que outro motorista que trafega pela via perpendicular pune a participação em suicídio. Ora, se não se pune e está prestes a chegar ao cruzamento, irá parar ao o que é mais grave (a participação em suicídio) não se sinal vermelho do semáforo. Se, todavia, tal motorista pode punir o que é menos grave (a participação em não observar esta regra e avançar no cruzamento, uma conduta perigosa). Todavia, no Brasil, pune-se a desrespeitando o sinal vermelho, e causar a colisão participação em suicídio, então o fundamento há que entre ambos, o eventual resultado lesivo no motorista ser outro, talvez a circunstância de o autor não poder que não respeitou o sinal, não poderá ser imputado ao ser transformado em tutor daquele que, voluntariamotorista que atravessava o cruzamento ao sinal verde mente, se coloca em perigo. (o princípio da confiança não é absoluto, admitindo Se concluirmos que o autor criou um risco juridiexceções, pela simples razão de que determinadas camente desaprovado, cumpre examinar se este risco pessoas não podem receber esta confiança, tais como concretizou-se num resultado, pois se tal não ocorreu, crianças e doentes mentais, e, ainda, porque o caso não se pode imputar o tipo objetivo ao autor. concreto pode evidenciar que determinada pessoa deu Exemplificando: alguém pode criar um risco todos os sinais de que não respeitaria a regra, como, juridicamente desaprovado (cruzar o sinal vermelho), por exemplo, o motorista que, mas se o risco criado não se diante de um sinal vermelho concretizou num resultado “...o princípio da confiança acelera e buzina, “avisando” (atropelamento de alguém, não é absoluto, admitindo que não respeitará o sinal). por exemplo), não haverá Um último fundamento imputação do tipo objetivo exceções, pela simples razão para o afastamento do risco ao autor. de que determinadas pessoas juridicamente desaprovado Por vezes, o autor pode ainda traz alguma controvérsia, criar um determinado risco não podem receber esta especialmente diante do ordejuridicamente desaprovado, confiança, tais como crianças namento jurídico brasileiro. mas o resultado não ocorre Trata-se da contribuição em razão deste risco. Por e doentes mentais, e, ainda, da vítima para uma autocoloexemplo: A desfere tiros porque o caso concreto pode cação em perigo. A teoria da contra B, que, levado a um imputação objetiva sustenta hospital, morre em razão de evidenciar que determinada que aquele que se limita a um incêndio. O risco juridipessoa deu todos os sinais de camente desaprovado que participar de um comportamento perigoso realizado pela A criou foi que B morresse que não respeitaria a regra...” própria vítima não pode ser em razão dos ferimentos punido se as coisas terminam mal. Exemplo: A con- provocados pelo disparo, e não asfixiado em razão de vence B a participar de uma maratona, e B falece em um incêndio no hospital. Portanto, o tipo objetivo razão do cansaço. A não poderá ser responsabilizado, do homicídio não pode ser imputado a A, pois o risco ainda que, secretamente, tivesse o desejo de que B que ele criou não foi o risco que, efetivamente, se morresse. É famoso o leading case da jurisprudência concretizou (em nosso ordenamento jurídico, tal caso alemã no qual a vítima, viciado em heroína, não mais é resolvido pelo § 1º do art. 13 do CP). consegue adquirir seringas para injetar-se a droga, por Em outras ocasiões, o autor cria um risco juridicajá ser conhecido de todos como um viciado. Recorre mente desaprovado, mas o resultado não se realiza prea vítima, então, a terceiro, que lhe compra a seringa. cisamente em razão do risco criado. Embora de difícil Ambos, juntos, drogam-se, mediante a aplicação de visualização, tal pode ocorrer quando, no caso concreheroína nas veias. Todavia, desta vez, a vítima morre to, o risco não permitido simplesmente não influi no em razão de overdose. Entendeu-se que o autor (que resultado. É conhecido o caso da jurisprudência alemã, comprou a seringa para a vítima) não teria criado um no qual o gerente de uma fábrica de pincéis entrega aos risco juridicamente desaprovado, em razão de limitar- trabalhadores pêlos de cabra chineses, sem submetê-los a desinfecção. Os trabalhadores são infectados por um bacilo e morrem. Posteriormente, uma investigação comprova que, ainda que os pêlos tivessem sido submetidos a desinfecção, tal de nada adiantaria, pois o bacilo era desconhecido na Europa. Não há dúvida de que o autor criou um risco juridicamente desaprovado, ao não desinfectar os pincéis. Mas também é fato que o resultado não pode ser atribuído à não desinfecção, pois, ainda que tal medida fosse tomada, o resultado ocorreria exatamente como ocorreu. Nestes casos, portanto, afasta-se a imputação do tipo objetivo ao autor. Por fim, há casos em que o resultado, embora possa ser atribuído a um risco juridicamente desaprovado criado pelo autor, não está coberto pelo fim de proteção da norma que o autor violou. A doutrina costuma citar o caso de jurisprudência alemã, no qual dois ciclistas dirigem no escuro, um atrás do outro, sem ligar os faróis de suas bicicletas. Em razão da ausência de iluminação, o ciclista da frente é atingido e lesionado por um terceiro ciclista, que vinha em sentido oposto. O resultado lesão não teria ocorrido, se o ciclista de trás estivesse com os faróis de sua bicicleta acesos, pois isto permitiria que o ciclista da frente fosse visualizado pelo ciclista que vinha em sentido oposto. Assim, podemos dizer que o ciclista de trás criou um risco juridicamente desaprovado, e que este risco concretizou-se num resultado. Todavia, a norma que o ciclista de trás violou (andar com os faróis acesos à noite), não tem por objetivo fazer com que a bicicleta do autor ilumine uma bicicleta que vai à sua frente para que um terceiro ciclista que vem em sentido contrário possa visualizá-la e, assim, evitar o choque frontal. Não é este o fim de proteção da norma. O fim de proteção da norma que manda os ciclistas andarem com os faróis das bicicletas acesos à noite é fazer com que os próprios ciclistas sejam vistos por todos, a fim de que não lesionem terceiros. Portanto, como no caso em tela, o resultado verificado (lesão em um ciclista que ia a frente de outro que, por sua vez, não acendeu os faróis de sua bicicleta) não está coberto pelo fim de proteção da norma violada pelo autor, tem-se que não se pode imputar o tipo objetivo ao ciclista. Esta, em apertadíssima síntese, é a teoria da imputação objetiva. *Promotor de Justiça no RS e Professor de Direito Penal da Escola Superior do Ministério Público e da Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul.

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12 Estado de Direito, março e abril de 2009 Para que serve a reserva legal? Maria Luiza Machado Granziera* Se há uma questão que explicita de forma candente os conflitos que subjacentes ao desenvolvimento sustentável, a Reserva Legal é sem dúvida uma delas. O Código Florestal determina que um percentual das propriedades ou posses rurais seja reservado para a proteção da biodiversidade, permitido, nesses espaços, o manejo sustentável, mas proibido o corte raso da vegetação. O objetivo é a proteção da biodiversidade. Os números para a Amazônia Legal consistem em 80% em áreas de floresta e 35% em área de cerrado. Para as demais regiões do País, 20% é o que deve ser destinado à preservação. As leis estaduais, como é o caso de São Paulo, avançam na busca da efetividade das leis ambientais, inserindo o georreferenciamento como potente ferramenta de fiscalização. A atuação do Ministério Público e ONGs, assim como os órgãos e entidades públicas exigem cada vez proteção ambiental, fator intrínseco a ser considerado. A Reserva Legal, assim como as áreas de preservação permanente, constitui a forma encontrada pelo direito brasileiro de conter um desmatamento ilimitado, na busca imediatista de novas fronteiras agrícolas, que desconsidera o meio ambiente como um valor de todos. A proteção dos espaços configura a observância de dispositivos constitucionais conquistados pela sociedade brasileira há mais um quarto de século. Do mesmo modo, outras conquistas sociais oneram a produção: a saúde do trabalhador, o descanso remunerado, a aposentadoria, a obrigação de dar destino adequado aos resíduos industriais perigosos. Trata-se de avanços e não de retrocessos. A sociedade ganha com essas conquistas. O mercado se adapta a essas inovações, a ponto de muitas empresas buscarem na proteção ambiental meios de melhorar a própria imagem, certificando seus produtos. Os custos da Reserva Legal são arcados pelos proprietários e posseiros. Essa é uma realidade. Assim como a indústria é obrigada a construir estações de tratamento de efluentes, as residências devem fazer ligações de esgoto na rede, e todos são obrigados ao pagamento de impostos. Não é possível haver uma sociedade em que apenas alguns arquem com o custo social. Meio ambiente é um problema de todos e as soluções a todos beneficiam. Se todos observam a lei, ninguém é prejudicado e a sociedade ganha. A concorrência se mantém. O que não pode haver é uma parcela da produção respeitar a Reserva Legal e outra não. Aí, sim, haverá desequilíbrio. O que é fundamental, então, é que todos cumpram a lei. E que o Estado exija esse cumprimento, sem exceções, em nome da sociedade brasileira. Segundo o Relatório Brundtland, documento que orientou as discussões da Conferência das Nações Unidas Eco/92, “o desenvolvimento sustentável não é um estado permanente de harmonia, mas um processo de mudança na qual a exploração dos recursos, a orientação dos investimentos, os rumos do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão de acordo com as necessidades atuais e futuras”. Conforme esse relatório, não se trata de “um processo fácil, sem tropeços. Escolhas difíceis terão de ser feitas.” A crise econômica que atravessamos, e que coloca o sistema capitalista de pernas para o ar, não estaria apontando para a necessidade de se considerarem outros fatores que não apenas o lucro imediato? Se isso pode ser válido para bancos, não o seria para os setores produtivos, já que o uso indiscriminado do solo o exaure e o torna improdutivo, diminuindo o valor das terras para as futuras gerações dos próprios proprietários e posseiros? Não seria a destruição do que resta da biodiversidade nas propriedades e posses um tiro no pé dos produtores rurais? A Reserva Legal não pode ser considerada um entrave à produção. Ao contrário, esse espaço pode viabilizar a continuidade do agronegócio. Tenha-se em conta que se procura aproximar fisicamente a Reserva Legal das áreas de preservação permanente, como as margens de rios e topos de morros, e outros espaços protegidos, com vistas a formar os corredores ecológicos. Será que a biodiversidade, hoje não contabilizada no valor da terra, não poderia vir a valer mais que o solo produtivo no futuro? É importante lembrar que o produtor, no FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM, ABR “A crise econômica que atravessamos, e que coloca o sistema capitalista de pernas para o ar, não estaria apontando para a necessidade de se considerarem outros fatores que não apenas o lucro imediato?” mais a demarcação da Reserva Legal, ou seja, o cumprimento da lei. Diante desse quadro, os setores produtivos vêm buscando formas alterar o Código Florestal visando “flexibilizar” ou mesmo excluir a Reserva Legal. Esse quadro enseja algumas reflexões. Juridicamente, a Constituição é clara quando assegura o direito à propriedade, desde que cumpra sua função social, que é definida, entre outros fatores, pela “utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente”. A Constituição, ao tratar da ordem econômica, exige que se observe a defesa do meio ambiente. Sem falar no direito todos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, direito humano de terceira geração. Ou seja, não há dúvida quanto à obrigação de os empreendedores incluírem no custo de seus processos produtivos, inclusive aqueles relacionados com o uso do solo agrícola, a FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM, ABR caso de inexistência de área coberta de vegetação nativa em sua propriedade ou posse, não é obrigado a restituir essa vegetação (Reserva Legal) de imediato: o Código Florestal prevê mecanismos flexíveis de reposição, que podem durar até 30 anos. Outros mecanismos de compensação ambiental previstos possibilitam a Reserva Legal seja efetuada em outro imóvel, do mesmo proprietário ou ainda de terceiro. E se prevê também a possibilidade de negociação das Cotas de Reserva Legal, tema ainda não regulamentado, mas que pode constituir uma fonte de negócios. Além disso, nos espaços destinados à Reserva Legal é permitido o manejo sustentável da floresta. A lei, portanto já é flexível. Cabe cumpri-la. Na discussão que se coloca, a proteção da biodiversidade é importante demais para ao final haver simplesmente um perdedor e um ganhador. Há que buscar um acordo, em que todos entendam os problemas reais e encontrem soluções razoáveis. Os órgãos ambientais, a quem cabe aprovar a localização da Reserva Legal em cada propriedade, assim como as formas de reposição florestal, têm papel fundamental na solução desse conflito. As decisões devem ter embasamento técnico, com procedimentos consolidados no País, considerando as diferenças e necessidades. Cabe destacar ainda o papel do Estado no apoio ao desenvolvimento de tecnologias que propiciem um melhor e mais produtivo uso do solo, tanto para a agricultura como para a pecuária, sempre de forma sustentável. E no oferecimento de linhas de crédito para a aplicação dessas novas tecnologias. Há toda uma cadeia de obrigações e responsabilidades, que congregam os produtores, o Estado e a sociedade, na busca de soluções adequadas e razoáveis para a Reserva Legal. Como se disse no Relatório Brundtland há mais de duas décadas atrás, meio ambiente não é questão sem problemas. Mas é problema de todos. *Advogada, consultora jurídica, mestre e doutora em direito, professora do programa de Mestrado em Direito Ambiental da Universidade Católica de Santos – UNISANTOS e autora dos livros Direito de Águas e Direto Ambiental, da Editora Atlas.

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Estado de Direito, março e abril de 2009 13 Dano ambiental como responsabilidade administrativa do Estado Wellington Pacheco Barros* Algumas questões em direito ambiental são muito faladas e pouco entendidas, mesmo para os experts que o estudam. Imagine-se a dificuldade que isso representa para o homem comum que, como primado de excelência do direito positivo brasileiro, tem o dever de conhecer não só as regras jurídicas ambientais, mas todas as regras do País, já que a ninguém é dado desconhece-las. E uma delas diz respeito com a dimensão jurídica do dano ambiental e sua responsabiem que moravam não teve dúvidas: trouxe o bode pai de chiqueiro para a pequena sala da casa e viajou por um mês. A vida que já era ruim ficou péssima. O cheiro do bode era insuportável. Após este período, o matuto recolocou o bode no chiqueiro. Seus filhos se convenceram que suas vidas eram as melhores do mundo sem o bode na sala). Pois bem. Ocorre que, por força constitucional, o Estado tem o dever de defender e preservar o meio ambiente – art. 225 da Constituição Federal (Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendelo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações). Assim, diante desta obrigação constitucional, o IBAMA, na órbita federal, a FEPAM, no Estado do Rio Grande do Sul, e o Município, na sua órbita, como detentores de um dever sobre o meio ambiente, são, em princípio, co-responsáveis pelos danos que terceiros vierem a lhe causar, por omissão em não preveni-los (princípio da precaução). Diante do preceito constitucional, o atributo de legitimidade que tem toda manifestação administrativa padece de dúvida razoável quando se trata de dano ambiental, e a prova de que a agressão ocorreu independentemente da vontade estatal em preveni-lo é de cada um, o que impõe, pelo princípio da motivação, que o ato administrativo acusador assim o declare. No campo do processo para apuração da responsabilidade administrativa esse descaso CARLOS BAILON “Não teria havido dano ambiental também por omissão estatal a ser punido administrativamente?” lização administrativa estatal. Inicialmente, em análise dedutiva, para se quantificar um dano ambiental é preciso que, antes, fique delimitado qual o meio ambiente que sofreu a agressão. Mas, o que é meio ambiente? (O leitor sabe? Meus cumprimentos! Porque não é fácil). O bem jurídico meio ambiente (portanto, estrutura completamente diferente daquela definida pela ecologia) é daqueles conceitos de moldura que precisa de uma pintura para existir juridicamente. E a pintura define que o solo, o ar, a água, a flora, a fauna, a cidade e o trabalho são elementos que integram o seu conceito. De outro lado, o dano ambiental não é coisa abstrata. Assim, delimitado que esse ou aquele elemento do meio ambiente foi danificado, é preciso quantificar-lhe a extensão. Afinal de contas, em direito, as coisas são e não que deveriam ser como na filosofia. Fixado qual o meio ambiente agredido e a exata dimensão dessa agressão, é preciso responsabilizar-se o causador, entre outras, administrativamente. E nisso, a primeira resposta que surge é a aplicação de sanção ao autor direto. Aquele que praticou a ação danosa. Conclusão correta. Porém incompleta. Primeiro porque, se o causador do dano é pessoa jurídica, a responsabilização atingirá também seus diretores de forma solidária. E segundo, o tema deste artigo, é a de responsabilização, muitas vezes tergiversada, resultante da inércia do Estado em prevenir a prática do dano. E quanto a isso, há muita manobra dispersiva e muito bode na sala. (Dizem que esta parábola é de origem chinesa, outros de origem árabe, mas acredito que ela seja nordestina. O matuto, depois de ouvir as lamúrias de seus muitos filhos sobre as precárias condições “... o Rio Grande do Sul já presenciou a colocação de um bode na sala com a mortandade de peixes no Rio dos Sinos em 2006.” tem produzido consequência preocupante: o de ser o ente público ambiental juiz administrativo de si mesmo, atentando quanto ao princípio do devido processo legal do art. 5º, inciso LIV, da Constituição Federal. Ou seja, não tem legitimidade para punir administrativamente alguém que também é réu na causa. Portanto, além de ilegal isso também é imoral (princípio da moralidade – art. 37, caput, também da Constituição Federal). Aliás, o Rio Grande do Sul já presenciou a colocação de um bode na sala com a mortandade de peixes no Rio dos Sinos em 2006. Punição administrativa para as empresas poluidoras? Perfeito! Aplausos! Luzes na ribalta! E quanto aos inúmeros Municípios que jogaram suas cloacas no rio, qual a precaução que tomou o ente estadual responsável pelo meio ambiente no Estado na esfera administrativa? Não teria havido dano ambiental também por omissão estatal a ser punido administrativamente? Quem guardou o guarda ambiental? Quanto a isso, retirou-se o bode da sala. Apagaram-se as luzes do teatro. Desembargador aposentado do TJ/RS, advogado do Wellington Barros Advogados Associados, professor da ESM e autor de diversas obras, entre elas: “Curso de Direito Ambiental” e “Licitações e Contratos Administrativos”, publicados pela Editora Atlas. “Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida...”

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14 Estado de Direito, março e abril de 2009 Os valores como fundamento da Constituição e Justiça Constitucional Material Kelly Susane Alflen* 1.1 Justiça Constitucional e Polícia Legislativa AGÊNCIA BRASIL A posição das Cortes Constitucionais é a mais delicada no âmbito do “paralelogramo das forças políticas”, no sentido de que as relações entre justiça constitucional e poder político representam um ponto delicado, porém comum a todos os ordenamentos contemporâneos que tem introduzido formas de controle de legitimidade constitucional das leis. Deste modo, uma gama tipológica de decisões declaratórias de inconstitucionalidade permite a introdução no ordenamento de novas normas extraíveis da mesma disposição. Não obstante, essa possibilidade de enfrentamentos é co-natural à mesma decisão de introduzir no ordenamento jurídico normas sem um órgão supremo, pois isso garante, de certo modo, a distribuição de competências e a articulação dos poderes estabelecidos pela Constituição. Essa possibilidade é co-natural à opção de opor um “contrapoder” jurídico à atividade política do legislador, de prever uma mediação jurisdicional para resolver conflitos entre os poderes políticos. Com isso, pode-se afirmar, que, a justiça constitucional, desde o momento que tem quebrantado o dogma da onipotência da lei reconduzindo dentro dos limites do princípio da legalidade também aos atos normativos primários dos supremos órgãos do Estado, não tem pretendido limitar o princípio democrático da soberania popular, porém, sim, o critério absolutista da onipotência da maioria política. Isso, porque nos sistemas jurídicos contemporâneos a lei não pode ser considerada expressão homogênea da vontade popular ou do interesse nacional, já que a lei tende, cada vez mais, a se transformar de ato de escolha a resultado de uma complexa mediação de expressão de uma exigência geral a momento de tutela de interesses setoriais. Nesse sentido, uma contribuição fundamental ao estabelecimento de sistemas de justiça constitucional e dos valores fundamentais da Constituição tem sido a existência concreta de tribunais constitucionais, na medida em que, longe de alterar a via das instituições desenvolve uma positiva ação de racionalização e de consolidação do ordenamento jurídico. Particularmente, no entanto, em sede de sistemas jurídico-políticos nos quais há a existência concreta de tribunais constitucionais, estes já não se apresentam mais como questão de debate, pois as reformas têm como objeto muito mais do que a limitação da autonomia nas relações com o poder político, mas propriamente, versam sobre os aspectos jurisdicionais dos procedimentos constitucionais. Logo, os tribunais têm adquirido assaz relevância nos modernos sistemas constitucionais e nos diversos regimes políticos, sem se descurar que as atribuições dos tribunais constitucionais parecem constituir a consagração e o desenvolvimento de alguns postulados fundamentais que caracterizam a forma de Estado contemporâneo, tal como Democrático e de Direito. A justiça constitucional valora o princípio da legalidade, em virtude do qual todo os atos das autoridades constituídas devem encontrar seu fundamento em uma norma legal prévia que não podem contrapor. Assim, a justiça constitucional estabelece o alcance desse princípio a mesma atividade legislativa, bem como, a amplos setores da área estritamente política, das relações entre os máximos órgãos do Estado, convertendo em judicial, por meio da competência para julgar os conflitos das atribuições entre os poderes do Estado, a repartição do supremo poder estatal entre uma pluralidade de órgãos diversos, entre eles reciprocamente equiparados e independentes, na qual de per si se pode fazer consistir uma garantia à democracia. Além disso, a justiça constitucional realiza, em relação aos direitos humanos fundamentais, uma função de garantia procedimental contra os abusos do próprio legislador, já que os tribunais constitucionais não limitam a autonomia do poder político, mas contribuem a frear o absolutismo das maiorias governamentais. 1.2 Os Valores como Fundamento da Constituição Ademais, os sistemas vigentes de justiça constitucional aportam ao Estado Social o encargo de regular a pluralidade dos interesses constitucionalmente tutelados, o que conduz, hodiernamente, a uma concepção da constituição como pacto, como manifestação contratual que expressa o consenso em torno de alguns valores, princípios ou regras fundamentais de comportamento. E, é a própria presença no texto constitucional de um complexo de valores, que enfatiza o encargo do Supremo Tribunal Federal, no caso do sistema jurídico e judicial brasileiro, como garante do pacto constituinte, bem como de sua vigência. Assim sendo, sua atuação assume uma natureza arbitral-discricionária, eis que intenta solucionar os conflitos tendo como base os valores expressados normativamente que têm dado vida ao processo constituinte. Particularmente, o caráter arbitral-discricionário do controle de constitucionalidade se torna assaz solar se considerarmos que, ao menos, o juiz constitucional, ao decidir com base na interpretação conforme a Constituição de uma lei, não somente deve levar em conta uma mera valoração de consonância entre uma norma constitucional e uma disposição de lei, mas também deve realizar uma ponderação entre as diversas disposições constitucionais que contém valorações tais como as relativas aos valores sociais (direitos fundamentais sociais) e econômicos (direitos econômicos), ou ainda, entre valores individuais da pessoa humana (direitos individuais, tais como o de liberdade) e os valores da coletividade (direitos coletivos). É dizer, com isso, que as Constituições não albergam, unicamente, um conjunto de normas, porém, contêm a afirmação de princípios e valores que, produzem uma unidade jurídico-política e social . E, por tal razão, o atual juiz constitucional tem um dever dinâmico de produzir, na medida do possível, não só uma integração social no Estado, mas também de garantir a unidade substancial do ordenamento, indo muito além, em sua atuação, de uma contribuição de sopesamento do absolutismo das maiorias governamentais. Diante disso, deve-se ter em consideração que a justiça constitucional tem representado – e, representa – uma das principais e mais eficientes respostas do Estado Democrático de Direito à exigência de assegurar uma tutela efetiva dos direitos humanos fundamentais garantidos pela Constituição Federal. Portanto, constitucionalismo e justiça constitucional constituem hoje um binômio indissociável, com razão a fortiori, quando os direitos da pessoa humana se associam à atividade judicante-constitucional, não só porque esses direitos se constituem em limites à própria Administração executiva e judicial, mas também para o próprio legislador. 1.3 Justiça e Valores Constitucionais Tribunal Constitucional que leva a se situar na tutela judicial constitucional o elemento principal que distingue os direitos da pessoa humana enquanto categoria e a sua efetiva judicialidade como parâmetro que serve para diferenciar os direitos humanos fundamentais daqueles que assim não podem ser considerados como tais. Trata-se de uma tutela orgânica dos direitos reconhecidos e garantidos, eis que necessitam de uma justiça constitucional que se efetiva por uma interpretação “... os tribunais constitucionais não limitam a autonomia do poder político, mas contribuem a frear o absolutismo das maiorias governamentais.” conforme aos tribunais . Então, quando um juiz constitucional decide sobre recurso e, no caso do Brasil, sobre ação constitucional estritamente, e recurso extraordinário, ele efetiva um direito concretizando-o por uma interpretação que introduz, de certo modo, uma regra que pode atuar como orientação de comportamentos futuros tanto do juiz constitucional quanto de juízes ordinários e do legislador. Pode-se afirmar, pois, em certo sentido, que o direito vivo está constituído não tanto pelas disposições abstratas codificadas nos catálogos constitucionais, mas pelas normas concretas derivadas da interpretação conforme aos tribunais, da concretização que juízes constitucionais têm estabelecido das disposições constitucionais e legais . É pela interpretação judicial que se distingue o âmbito semântico e lingüístico de uma disposição do âmbito normativo, sendo este último resultante de uma interpretação estruturante em modelo dinâmic o. Assim, é das interpretações concretas das disposições constitucionais em Em muitos ordenamentos jurídicos a atividade dos tribunais se caracteriza por sua jurisprudência em matéria de direitos da pessoa humana, podendo o juiz constitucional, inclusive, ser considerado como juiz da liberdade. O mencionado liame existente entre constitucionalismo e justiça constitucional, e entre o reconhecimento de um direito e a tutela jurisdicional por parte de um

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Estado de Direito, março e abril de 2009 matéria de direitos humanos fundamentais, especialmente, que se pode assegurar uma constante síntese entre disposições constitucionais e valores contemporâneos, i.e., entre direito e história, entre direito e tradição. O processo constitucional de per si se caracteriza por uma significativa flexibilidade das regras processuais, não tanto porque faltem normas significativas sobre o processo constitucional, porém porque o juiz constitucional possui uma notável margem de interpretação e de aplicação das regras processuais. Em virtude de tal discricionariedade, pode inovar o próprio comportamento a respeito da práxis precedente, bem como derrogar a normativa vigente com a finalidade de obter da melhor forma possível o resultado institucional almejado, consistem na plena atuação dos valores constitucionais, Ou seja, diversos caracteres da disciplina processual se submetem à aplicação precedente no Tribunal Constitucional. O juiz constitucional – apesar de ser um juiz, no sentido de que aplica a norma constitucional a uma questão específica e concreta (representada por uma questão de constitucionalidade) - realiza uma função eminentemente interpretativa, devendo individualizar entre os muitos possíveis significados normativos aquele mais adequado e coerente com as disposições de lei. Logo, a atividade do juiz constitucional tem uma vida substancialmente vinculante para os operadores do direito semelhante característica do juízo de constitucionalidade atribui às decisões dos Tribunais Constitucionais um alcance particular, bem diverso das sentenças de outros juízes: a de produzir efeitos similares aos das fontes do direito. constitucionais em matéria de direitos humanos fundamentais. Muito além de seu papel educativo, ainda cumprem um destacado papel informativo, considerando-se que a jurisprudência em matéria de direitos humanos fundamentais constitui um espelho emblemático da realidade social, de suas contradições e suas mutações. Os juízes constitucionais, portanto, exercem um papel determinante na modernização e democratização do ordenamento jurídico. 1.5 Considerações Conclusivas 15 CARMELA GRUNE 1.4 Corte Constitucional e Valores Constitucionais Desse modo, no caso do Brasil, o Supremo Tribunal Federal, consoante sua competência constitucional precípua não é só julgador, porém também, criador de normas jurídicas. Esse resultado se tem conseguido conjugando duas características fundamentais e típicas das decisões constitucionais: por uma parte, sua natureza de coisa julgada com eficácia erga omnes, e, por outra parte, a adoção de uma gama tipológica de decisões nas quais a declaração de inconstitucionalidade permite a introdução no ordenamento de novas normas extraíveis da mesma disposição. Nessa atuação interpretativa é relevante que a jurisprudência dos tribunais tenha em consideração fundamentalmente os valores constitucionais – e tais quais são percebidos pelo corpus social – acima da lógica interna do processo de decisão política, especialmente, porque a jurisdição constitucional está muito mais próxima aos ideais discursivos do que ao processo político conducente à lei. É dizer, que a jurisprudência dos tribunais [constitucionais] desenvolve uma assaz importância na tutela dos direitos humanos fundamentais, mas também no que diz respeito aos cidadãos e à coletividade, em geral, pois contribui para a promoção, na realidade cotidiana e social, do respeito aos princípios do Estado Democrático de Direito. Em outros termos, os juízes constitucionais cumprem uma função cívica, de educação para o exercício da cidadania democrática por intermédio de sua capacidade consistente em instaurar a cultura dos direitos humanos fundamentais, por tornar perceptível diante da opinião pública o significado e o valor contido nas disposições É, particularmente, numa jurisdição constitucional tal qual a jurisdição brasileira, que tem raízes judiciais formadas nos contextos anglo-americano e europeu-continental, que, levar os valores constitucionais em consideração como fundamento da Constituição via judicial, antes de configurar qualquer “ativismo judicial” num sentido prejuístico, consagra o exercício da interpretação constitucional conforme os tribunais, o que é próprio de um sistema constitucional que tem raízes anglo-americana e europeu-continental . Mais ainda, é no âmbito de uma jurisdição constitucional, que o juiz constitucional tem possibilitado não só o desenvolvimento dos valores que fundamentam a Constituição, os quais são detidamente de ordem humanitária-fundamental, mas também, o desenvolvimento do próprio direito constitucional jurisprudencial, haja vista, neste aspecto, para o instituto da repercussão geral e o instituto da súmula vinculante, ambos introduzidos pela EC. N. 45/2004 na Constituição Federal Democrática de 1988. E, se há ponto de convergência entre o sistema anglo-americano e o europeu-continental, encontrase nisto: no desenvolvimento jurídico-jursprudencial pela interpretação dos valores constitucionais pelos juízes constitucionais, consagrando-se uma cultura dos direitos humanos fundamentais e uma garantia à própria Constituição democrática, na medida em que leva a efeito, dentre os valores constitucionais, o valor e princípio da dignidade da pessoa humana, que não só é vetor interpretativo, mas uma filosofia a ser seguida na Ciência Jurídica. *Advogada. Professora do Curso de Direito da Universidade Luterana do Brasil. Mestre em Direito Público (UNISINOS). Doutoranda em Direito. Avaliadora do MEC/Inep. Autora de livros e artigos jurídicos no Brasil e no exterior. Autora de Hermenêutica Jurídica y Concreción Judicial. http://www. alflensilvaadvogados.com. Direito constitucional e colonialismo interno César Augusto Baldi* Enumerem-se os seguintes casos: 1. Duas jovens são impedidas de entrar em boate de bairro de classe média alta por serem negras. A Corte Constitucional entende ser caso de racismo e, pois, de violação do direito à igualdade e à não-discriminação racial e determina arbitramento de indenização, em virtude da humilhação e da afronta a seus direitos. 2. O mesmo Tribunal entendeu incluir “parceiras de mesmo sexo” na expressão “companheiro permanente”, existente em vários artigos constitucionais, com isto alterando a interpretação de mais de 50 artigos da legislação, de forma a amparar tais parcerias, dentre outras hipóteses, nos casos de delitos de desaparição forçada, genocídio e violência intrafamiliar, aquisição de nacionalidade desde que a convivência seja superior a dois anos, inclusão como dependente em planos de saúde das Forças Armadas e para fins de benefício em seguro de vida, impenhorabilidade da propriedade de parceiras. A Corte, contudo, entendeu estar inibida para estabelecer um conceito de “família”. Em outra decisão de primeira instância, por sua vez, um homossexual recluso ganhou tutela judicial para poder vestir-se de mulher no presídio. 3. A mesma Corte entendeu que, em delito envolvendo embriaguez, para fins de garantia do devido processo (legalidade da pena) ao autor da ação, bem da autodeterminação jurisdicional da comunidade indígena, se reencaminhava a esta o caso para que decidisse se julgava novamente o autor-réu , impondo uma das sanções tradicionais (a comunidade aplicara uma outra penalidade), ou se abdicava da jurisdição, preferindo que o caso fosse resolvido pela justiça ordinária. 4. As prefeituras, em conformidade com a legislação nacional, nomeiam etnoeducadores, para que as crianças, na escola, “aprendam, entendam e valorem os aportes dos povos afro” à construção e formação da nacionalidade. Nenhuma das situações narradas e das decisões proferidas provêm da Corte Européia de Direitos Humanos, nem da Corte Internacional de Justiça, tampouco se encontram amparadas na interpretação da Constituição do Canadá, dos Estados Unidos ou de algum país europeu. São todas, sem exceção, provindas da Colômbia, um país que o “colonialismo interno” de parte dos constitucionalistas brasileiros insiste em não prestar atenção ou citar como jurisprudência para análise de casos similares na nossa Constituição. Os casos envolvem direitos de minorias, indígenas e populações negras ou palenqueiras (os “quilombos” de lá), em país também de semiperiferia, com desafios gigantescos na área de direitos econômicos e sociais, com grau exacerbado de violência e de incremento de políticas de segurança. Mas é também o reconhecimento de que os países da América do Sul são indo-afro-latinos (e não somente descendentes de europeus) e têm a possibilidade de esclarecer, de forma diferenciada, a persistência do racismo e do colonialismo nas sociedades. A tradição européia sempre procurou dissociar modernidade e colonialidade e, portanto, a não reconhecer que as declarações burguesas lá proclamadas eram negadas, nas colônias, com a escravidão de negros e de índios e com todo o aparato do estatuto colonial. Aliás, as revoltas em Guadalupe e Martinica recordam, mais uma vez, que lá se trata não de um passado colonial- mas de um presente- marginalizando populações negras em “territórios ultramarinos” franceses (na América do Sul, a persistência das restrições aos habitantes da Guiana Francesa é outra evidência). Os precedentes citados se tornam mais importantes quando se recorda que os relatórios internacionais salientam a falta de capacitação dos atores jurídicos na área de direitos humanos, em especial os direitos consagrados em tratados internacionais e no reconhecimento do racismo institucionalizado. Relembre-se, por exemplo, que, até o presente momento, os votos proferidos no julgamento da demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol sequer apreciaram a questão dos tratados internacionais de direitos humanos (no caso das células-tronco, os Ministros citaram declarações e convenções internacionais), nem qualquer pronunciamento de outro país com população indígena (e abundam decisões e trabalhos doutrinários na Colômbia, Equador e Bolívia, em termos de interculturalidade, diversidade cultural e pluralismo jurídico). Seria alvissareiro que os ventos do constitucionalismo latino-americano pudessem estabelecer novas visões para o julgamento- ainda pendentedo Decreto nº 4.887/2003- envolvendo as mais de duas mil comunidades quilombolas (Nicarágua, Equador e Colômbia têm dispositivos constitucionais expressos, e este último país, decisões judiciais específicas). Ganhariam os dois julgados do STF em termos de reconhecimento de direitos culturais e de diversidade da formação da nacionalidade. Wangari Maathai, a primeira africana a receber o Prêmio Nobel da Paz, em 2004, em seu discurso de agradecimento, ressaltava que “historicamente, nosso povo tem sido persuadido a acreditar que, por ser pobre, carece não apenas de capital, mas também de conhecimento e habilidades para enfrentar seus desafios” e, pois, foi condicionado a crer que as soluções para seus problemas devem vir “de fora”. Uma grande parte dos constitucionalistas brasileiros pensa o mesmo (alguns até o dizem). Ignoram o trabalho teórico, jurisprudencial e de defesa dos direitos humanos dos seus vizinhos e também os conhecimentos negros e indígenas. Da mesma forma que a compreensão do mundo excede a compreensão européia do mundo, o mesmo ocorre com os direitos humanos. Há muito que fazer, ainda, para romper com este “colonialismo interno”. *Mestre em Direito ( ULBRA/RS), doutorando Universidad Pablo Olavide ( Espanha), chefe de gabinete no TRF4ª Região,é organizador do livro “Direitos humanos na sociedade cosmopolita” ( Ed. Renovar, 2004). Comodato�de�Impressoras Laser�para�Profissionais da�Área�Jurídica Recargas�em�Cartuchos Tinta�e Toner�p/�impressoras NBR�ISO�9001 Manutenção�de�Impressoras Laser,�Jato�de Tinta, Multifuncionais Tele-entrega (51) 3219-1001 A melhor�taxa�de�entrega�do�mercado a tendimentoaocliente@1001.com.br

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