17 EDIÇÃO - JORNAL ESTADO DE DIREITO

 

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17 EDIÇÃO - JORNAL ESTADO DE DIREITO

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Estado de Direito 15 de novembro, três anos do Jornal! Pipeline: “...são no fundo as patentes que estão no tubo e estão a aguardar o registro por parte das entidades responsáveis, porque esse registro demora muito tempo e porque são precisos experiências...” PORTO ALEGRE, NOVEMBRO E DEZEMBRO DE 2008 • ANO III • N° 17 Veja também Página 06 Há três anos estamos intervindo na realidade de muitas pessoas, com apoio de renomados profissionais e das empresas que financiam as nossas ações, comprometidos eticamente com um sistema jurídico para o bem comum, criamos um referencial de cultura integrando atividades como mostra de cinema, núcleo de prática jurídica, palestras em livrarias e palco de Shopping Centers desmistificando a complexidade do Direito como ciência distante da realidade do cidadão. Nessa 17ª edição comemorativa, vamos acompanhar a entrevista do ilustre professor Canotilho, um dos mais respeitáveis constitucionalistas da atualidade, que esteve em Brasília, para o lançamento de seu livro que trata das Pipelines – patentes farmacêuticas - e das relações entre Países, especialmente no Brasil. Veja página 12. DIVULGAÇÃO Primeiro compro, depois me arrependo Fernando Gaburri explica o que é um contrato de adesão e destaca a necessária clareza que esse tipo de documento necessita, em detrimento da plena compreensão do consumidor. Página 8 Direito à saúde Bruno Espiñera Lemos questiona, qual o papel que o judiciário exerce atualmente quanto à garantia do acesso universal igualitário à saúde. Para ele, o contexto atual demonstra que existe um direito de eficácia duvidosa. Menos ações judiciais ao Ministério da Saúde e mais atenção à construção de uma política pública eficaz, são os caminhos apontados. Página 04 Guarda compartilhada Rolf Madaleno apresenta os benefícios da guarda compartilhada e a importância da mesma para a formação, a educação e a estabilidade dos filhos, bem como para a preservação dos valores familiares. Página 16 A criminalidade compensadora Pedro Soares Martínez. através de uma análise histórica expõe a luta dos povos, através dos tempos, na tentativa de garantir segurança e paz. O autor ainda expõe as principais causas da criminalidade compensadora, o princípio da igualdade e os privilégios primitivos. Página 21 Do meu bem aos meus bens Maria Berenice Dias aborda os benefícios da Lei Maria da Penha, como “uma definição legal de família”. Para ela, a referida lei preenche uma importante lacuna do Código Civil, pois considera o mesmo limitado quanto às questões relativas à família. A advogada atenta para a constituição da família com base no afeto e no respeito e não apenas na divisão e na constituição do patrimônio. Página 09 A conciliação no sistema de Justiça do Quebec Louise Otis relata as razões que orientaram a instauração da conciliação judicial e as características de integração dentro do sistema de justiça. Página 22 José Joaquim Gomes Canotilho Doutor em Direito e Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e Professor visitante da Faculdade de Direito da Universidade de Macau. Considerado um dos nomes mais relevantes do Direito Constitucional da atualidade. Ações de indenização Maurício de Carvalho Góes relata as dificuldades enfrentadas pela Justiça do Trabalho diante dos efeitos sociais causados por ações de indenização por danos morais e materiais, oriundos de acidentes de trabalho frente à promulgação da emenda Constitucional 45/2004.

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2 Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 Estado de Direito Estado de Direito Comunicação Social Ltda. CNPJ 08.583.884/0001-66 Porto Alegre - RS - Brasil Rua Conselheiro Xavier da Costa, 3004 CEP: 91760-030 - fone: (51) 3246.0242 e 3246.3477 Nextel ID: 84*97060 e-mail: contato@estadodedireito.com.br internet: www.estadodedireito.com.br Diretora Presidente Carmela Grüne carmela@estadodedireito.com.br | carmelagrune@via-rs.net Diretor Financeiro Renato de Oliveira Grüne CRC/RS 45.039 Jornalista Responsável Patrícia Araujo - MTb 11686 Colaboraram nesta Edição Bayard Fos, Diego Moreira Alves, Fábio Lino, Edgar Garcia Lira Junior, Juliana Gomes Braggio, Luciano Gazineu, Carlos Bailon, Silvia de Nadal e Michelle Bós Grüne Redação redacao@estadodedireito.com.br Anúncios teleanuncios (51) 3246.0242 comercial@estadodedireito.com.br Diagramação Carmela Grüne Tiragem: 40.000 exemplares Pontos de distribuição PORTO ALEGRE Livraria Saraiva Shopping Praia de Belas 1001 Produtos e Serviços de Informática: Matriz - Rua São Luís, 316 - Santana - 3219.1001 Menino Deus - Shopping Praia de Belas - Térreo - 3026.7585 Centro - Andradas,1273, lj. 003 - Galeria Edith - 3224.4119 Nossa Livraria Pernambuco e Alagoas Maceió: Av. Moreira e Silva, 430 - Farol Maceió: Rua Íris Alagoense, 438-A - Farol Maceió: Rua Durval de Guimarães, 1217 - lojas 03 e 08 Ponta Verde Recife: Rua do Riachuelo, 267 Recife: Av. Cais do Apolo, 739 - TRT Recife: Av. Dantas Barreto, 191 lojas 22 a 24 - TJ Recife: Rua da Aurora, 325 loja 01 Santa Catarina Nas salas da OAB/SC, com apoio da Caixa de Assitência aos Advogados Editora Revista dos Tribunais São Paulo: Rua Conde do Pinhal, 80 - Liberdade Curitiba: Rua Voluntários da Pátria, 547 - Loja - Centro Rio de Janeiro: Rua da Assembléia, 83 - Centro Porto Alegre: Rua São Nicolau, 955 Belo Horizonte: Rua Paracatú, 304 - Loja 02 - Barro Preto Brasília Asa Sul: SHC Sul - CL quadra 402 bloco A loja 21 - Asa Sul Goiania Central: Avenida Goiás, 60 - Qd2 Lt8E - Loja 03 - Setor Central Goiânia Setor Sul: Rua 101 n.º 123 Qd F17 Lt11E - Sala 01 - Setor Sul Rio Verde: Rua Edmundo de Carvalho, 905 - sala 01 Setor Central, Rio Verde - GO Anápolis: Avenida Sen. José Lourenço Dias, 1362 - Sala 03 Setor Central, Anápolis - GO Recife: Rua Barão de São Borja, 62 lojas 1, 2 e 3 PAÍSES Através de nossos colaboradores, consulados e escritores o jornal Estado de Direito chega a Portugal, Itália, México, Venezuela, Alemanha, Argentina, Ucrânia e Uruguai Você faz parte dessa cultura Já temos uma pequena história de conquistas, nesta décima sétima edição o Jornal Estado de Direito comemora três anos de trabalho pela Cultura Jurídica. Nesse tempo, contamos com o apoio de tantos profissionais, empresas e instituições e a grata satisfação de ver que estamos fazendo algo de muito importante para que se consolide cada vez mais o Estado de Direito em nosso País. São 40.000 mil exemplares distribuídos em Faculdades, Empresas e Órgãos Públicos, em mais de 90 pontos, abrangendo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas e Distrito Federal/Brasília e através das embaixadas países da Europa e Américas. Nossa meta é despestar o interesse em conhecer o Direito na sua forma preventiva, desmistificando a idéia de que o Direito é para uma elite intelectual, que é um conjunto de regras e leis complexas, acreditamos que o Direito deve ser encarado como cultura para todos, sem exceção. Para despertar o interesse de toda a comunidade, o projeto “Conhecer o Direito é Desenvolver a Cidadania”, além do Jornal, realizamos eventos, mostra de cinema com enfoque jurídico, entrevistas que são disponibilizadas no YOUTUBE, com uma linguagem simples para que o público tenha gosto pelo assunto e possa formar sua opinião com base em estudiosos de notórios conhecimentos jurídicos. O I Encontro Internacional Estado de Direito, nos dias 13,14 e 15 de agosto de 2008, promovido pelo Jornal Estado de Direito em pareceria com o Conjunto Nacional de Brasília, participaram mais de um mil pessoas. Com temas atuais, palestrantes de alto nível e convidados internacionais, o objetivo do Encontro foi plenamente alcançado e o II Encontro está sendo confirmado por palestrantes e pelas embaixadas, que viram o entusiasmo e a seriedade com que realizamos as palestras, os debates, as oficinas e a mostra de cinema internacional. O II ENCONTRO NACIONAL ESTADO DE DIREITO, realizado no dia 21 de outubro de 2008, obteve igualmente o mesmo sucesso e para 2009 teremos eventos mensais no Palco das Artes do Shopping em Porto Alegre. A todos nosso abraço pelo interesse e carinho demonstrados pessoalmente e por inúmeros E-mails de agradecimento e elogios. Acreditamos que levar o direito através de ações que apóiem o Jornal é interagir de forma equilibrada e comprometida fazendo diferença na vida de cada um. Agradeço àqueles que já se decidiram a colaborar e convido a todas as Instituições Públicas e Privadas virem conosco e juntos mantermos essa obra gratuita de cidadania. Os esforços para trazer mais parceiros para compartilhar bens culturais, conhecimentos e marcar presença de forma positiva nesse trabalho é um desafio diário e com certeza teremos uma grande história pela frente. Vale a pena! Forte abraço, Carmela Grüne Diretora do Jornal Estado de Direito Justiça instantânea para adolescentes infratores e o ato infracional Christian Nedel * A idéia de desenvolver um artigo relacionando a experiência emergente da Justiça Instantânea, com seus mecanismos de integração operacional, visando à celeridade, rapidez, agilidade, presteza e imediatidade no atendimento inicial ao adolescente autor de uma conduta infracional, com os mecanismos hoje existentes relativamente à responsabilização criminal do adolescente infrator, que fazem parte, dentro de um contexto maior e majoritário, do chamado Direito Penal Juvenil, surgiu a partir da experiência prática, pessoal e profissional do autor na área da infância e da juventude, pois labuta há mais de oito (08) anos, desde maio de 2000, junto ao complexo “Justiça Instantânea”, atuando como Delegado de Polícia do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente. O Estatuto da Criança e do Adolescente, no Livro II, Parte Especial, ao tratar da Política de Atendimento na área da Infância e da Juventude, disciplina, em seu artigo 88, V, como diretriz basilar, “integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social, preferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilização do atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional”. Trata-se da chamada Justiça Instantânea, que é a “porta de entrada” para o Sistema de Administração da Justiça Juvenil. O Estado do Rio Grande do Sul teve precedência quanto à instalação e funcionamento do chamado Sistema Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente, com a concretização da Justiça Instantânea, em 1996, nas instalações da antiga FEBEM, atual FASE, situada na Av. Padre Cacique, 1372, nesta Capital. Atualmente, na Capital, a Justiça Instantânea funciona no Centro Integrado de Atendimento da Criança e do Adolescente, situado na Av. Augusto de Carvalho, 2000, uma edificação com aproximadamente 2700 m2, que foi inaugurada em 22/01/2004 e que somente foi viabilizada em razão de uma inovadora parceria efetivada entre o Poder Executivo Estadual, Poder Judiciário e Ministério Público. Dentro deste sistema articulado, congregando diversas instituições em um mesmo espaço físico (Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública, Juizado da Infância e da Juventude etc.), são desencadeados mecanismos de responsabilização infracional nas fases policial, ministerial e judicial. Delegado de Polícia Titular da Primeira Delegacia de Polícia para o Adolescente Infrator, do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente, da Polícia Civil do RS (1ª DPAI/DECA/PC). Coordenador na Academia de Polícia Civil do RS (ACADEPOL) da disciplina Direito da Criança, do Adolescente, da Mulher e do Idoso. Mestre em Ciências Criminais pela PUCRS, junto ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito. Peça a lista dos locais em que o Jornal Estado de Direito é divulgado para comercial@estadodedireito e consulte os mais de 85 pontos de distribuição! *Os artigos publicados nesse jornal são responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Jornal e informa que os autores são únicos responsáveis pela original criação literária. Apoio

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Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 3 O escritório Arruda Alvim Wambier Advocacia e Consultoria Jurídica realiza assessoria e consultoria jurídica a pessoas físicas e corporações nacionais e internacionais - tanto na esfera contenciosa quanto na consultiva. Com escritórios em Curitiba, Ponta Grossa, Porto Alegre e Florianópolis e coligações com escritórios em todas as regiões do país, o que possibilita estender o atendimento personalizado de sua matriz por todo o território nacional. OAB nº 345. CURITIBA 55 (41) 3336-1323 55 (41) 3301-3800 PONTA GROSSA 55 (42) 3225-5532 55 (42) 3311-1100 FLORIANÓPOLIS 55 (48) 3225-2628 55 (48) 3733-3700 PORTO ALEGRE 55 (51) 3232-9902 55 (51) 4009-2500 www.aawambier.com.br CURSO DE EXTENSÃO EM DIREITO. PORQUE NA FEEVALE, O APERFEIÇOAMENTO DO PROFISSIONAL É LEI. VENHA ENTENDER. Congresso de Direito Tributário Período: 07 a 08 de maio de 2009 CONHEÇA NOSSOS CURSOS DE EXTENSÃO EM DIREITO: Formação em Consultoria Tributária Período: 23/10/08 a 10/12/08 Regimes Próprios de Previdência Social e Previdência Privada Período: 11/11/08 a 26/11/08 II Seminário de Direito e Processo do Trabalho Período: maio de 2009 Terceirização de Serviços Contínuos na Administração Pública Período: 18/11/08 a 26/11/08 Gestão Tributária Empresarial Período: março e abril de 2009 Palestra: A proibição aos efeitos de confisco no Direito Tributário Período: 13/11/08 Especialização em Direito do Trabalho, Previdenciário e Processual do Trabalho Período: 10/11/08 a março de 2009 A Feevale está desenvolvendo o calendário de cursos e eventos na área do Direito para 2009, e a sua participação é muito importante. Envie suas sugestões para o e-mail desenvolvecorp@feevale.br. PARA MAIS INFORMAÇÕES, ACESSE: www.feevale.br/extensao

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4 Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 FABIO RODRIGUES POZZEBOM ABR Direito à saúde O Professor de Direito Constitucional, Mestre em Direito pela UFBA, Bruno Espiñeira Lemos, analisa o Direito a Saúde como tema recorrente diante da dimensão da sua importância e dos velhos e novos elementos essenciais para uma dialética do exequível Bruno Espiñeira Lemos* “Ao contrário do que preconizam alguns juristas e homens públicos, a Constituição jamais poderá ser concebida como uma obra acabada, pois a realidade social cambiante, as mutações advindas especialmente da sua interpretação, a transformam, além do seu conteúdo corporificado, em um “ser” imaterial sem prazo de validade.” Em um passado recente tive o prazer de abordar neste periódico o tema da saúde pública e a necessidade da observância do paradigma do “cuidado” com a coisa pública, especialmente, enfocando a atuação do advogado público. Digo prazer, pois considero sempre um momento agradável e prazeroso da minha modesta existência colaborar com o Jornal Estado de Direito, elemento difusor de cultura, não apenas jurídica, coordenado pela querida e denodada Carmela que reflete sua inquietude saudável, necessária e cidadã no processo de caminhar de uma sociedade esclarecida. Aliás, como se sabe, depois que se descobre a luz, dificilmente o indivíduo aceita viver na escuridão. Parece-me sedimentada a discussão da “dupla função” dos direitos fundamentais, em perspectiva tão bem exposta pelo Tribunal Constitucional alemão no célebre caso Luth. Ou seja, além da dimensão subjetiva dos direitos fundamentais que se direciona para o indivíduo, há uma dimensão objetiva, neste caso, dirigindo-se para a sociedade, em sentido amplo, aí se incluindo entre outros sujeitos, o Estado. Pois bem. Um aspecto que muito tem me incomodado no atual momento de intensa “atuação” do Poder Judiciário é o esvaziamento quanto ao uso desmedido e muitas vezes inaplicável do universal princípio da dignidade humana. Panegírico ilimitado, pretexto inescusável para “concessões”, em detrimento do Erário, de pretensões desproporcionais e irrazoáveis. Explico-me melhor. É inafastável do cenário atual de conquistas constitucionais em solo brasileiro, que o direito à saúde, com sua compreensão de direito fundamental de segunda geração ou dimensão, não pode ser encarado como um direito de eficácia duvidosa, ao menos no que diz respeito à superação do carma programático em detrimento da sua razoável aplicabilidade imediata. E nesse caminhar evolutivo, devo destacar a importância daquele mesmo Poder que se aponta como pródigo. Vale destacar que a referida aplicabilidade imediata não significa dizer desconsideração dos meios e dos recursos disponíveis, muito menos, autorização para transcender os protocolos clínicos oficiais pautados em elementos técnico-científicos, em detrimento de “experimentalismos” patrocinados pela trilionária indústria farmacêutica, protocolos aqueles, que têm alcançado bons frutos, o que se dizer então, quando o Judiciário perde o norte e a ótica do razoável e autoriza tratamentos na Rússia ou em outros países, ordenando mesmo a importação de um determinado medicamento em fase de testes para determinada doença, para a qual o sistema único de saúde já possui em seu rol de medicamentos excepcionais e de alto custo, ao menos quatro outros fármacos destinados ao mesmo mal. Nesse instante, o Poder Judiciário e quem assim o provoca, perde de vista que a própria vontade constitucional direciona o direito à saúde ao foco do seu acesso universal igualitário, cuja execução é planejada por políticas sociais e econômicas. Malgrado a latência histórica reprimida pelos anos de chumbo, que afetaram a sociedade brasileira e manietaram os Poderes Legislativo (este último ainda adormecido por opção) e Judiciário, não se pode olvidar que os fatos pos- suem força própria e o fenômeno jurídico não pode tudo. Ao contrário do que preconizam alguns juristas e homens públicos, a Constituição jamais poderá ser concebida como uma obra acabada, pois a realidade social cambiante, as mutações advindas especialmente da sua interpretação, a transformam, além do seu conteúdo corporificado, em um “ser” imaterial sem prazo de validade. É necessário que tornemos mais claro em nossa dinâmica social respaldada em solo tão bem constitucionalizado, a quem cabe a formulação de políticas públicas; quais são os limites entre a “passividade” do gestor e a sua possibilidade de escolha legítima diante de verbas públicas não vinculadas; em que medida uma cultura “judiciarista” confunde os reais destinatários das legítimas cobranças por políticas públicas em uma sociedade democrática, trazendo por conseqüência inafastável o enfraquecimento dos demais Poderes ou funções do Estado. Merece reflexão profunda o atual exercício de individualismo construtivista por parte de muitos juízes (aplicação da lei X construção de “legislação complementar” e administração de interesses), bem como, a intencional ignorância quanto à “lógica da escassez”, que tão bem se equipara a um “governo dos juízes”. Por fim, roga-se que os senhores magistrados, diante da pressa desproporcional e em desacordo com o tempo e com a nossa evolução histórica, não deixem de analisar o sistema único de saúde tal como concebido, pois, a se permanecer retirando-se pequenos “tijolos” e às vezes nem tão pequenos alicerces de um sistema em construção, em um futuro próximo, não haverá qualquer política pública eficaz de saúde e em seu lugar o caos nosso de cada dia perdurará indefinidamente. Senhores magistrados, em nome do respeito e do “cuidado” republicano imputável a cada um de nós, se Vossas Excelências não são técnicos ou versados em medicina ou em políticas públicas de saúde, quando se depararem com um pleito tratando do tema, seria de todo aconselhável, antes da adoção de qualquer ato que implique em ônus para os “nossos” cofres, com medidas que apenas tranqüilizam vossas consciências, mas com potencial destrutivo sobre todo um sistema (individual X coletivo), que tomassem a iniciativa, de ofício, de instar os gestores do sistema único de saúde na esfera federal e lhes indagar quanto à razão para não utilizarem determinado medicamento ou tratamento e mesmo, saber se ele foi efetivamente negado a quem então requer em juízo. Certamente, receberão respostas técnicas e convincentes e se assim não for, concedam com tranqüilidade vossas liminares ou antecipações de tutela, já com a consciência republicana e tranqüila diante do caso concreto e da própria satisfação que se deve à coletividade que será onerada. Afinal é bom que se diga, com base em dados colhidos do Ministério da Saúde, as ações judiciais fizeram aumentar nos últimos 3 (três) anos os gastos com processos de aquisição de medicamentos em 1.920% (mil novecentos e vinte por cento), sendo que o orçamento de 2008 com medicamentos do SUS é de R$ 5,4 bilhões de reais. * Advogado. Procurador do Estado da Bahia. Mestre em Direito pela UFBa. Professor de Direito Constitucional. Ex-Procurador Federal.

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Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 5 Aborto e suas implicações Antônio Baptista Gonçalves* A polêmica e a controvérsia que envolve a questão do aborto impossibilitam que o assunto tenha um posicionamento pacifico e, a cada manifestação, seja favorável ou contrária, a discussão novamente se avoluma e se inflama. Não existe uma declaração que agrade unissonamente os dois lados da discussão, pois questões como essas produzem idéias radicais. Se adotarmos a posição da igreja católica teremos uma repugnância visceral sobre qualquer possibilidade do aborto, porque, segundo os dogmas católicos, o ideal é o casamento entre duas pessoas com fins específicos de reprodução e ampliação da espécie. Uma visão um tanto quanto conservadora e que trata o sexo como um pecado, exemplo da questão foi o caso bíblico de Adão e Eva, através da parábola da maçã e do paraíso. Segundo a visão católica, o fruto inerente ao casamento é o herdeiro e, se houver mais de um pouco importa, pois esta foi a vontade do criador, não sendo possível a utilização de preservativos ou de qualquer outro controle artificial de natalidade. Para os contrários a essa ótica, casos como a gravidez decorrente de estupro, o anencéfalo, ou seja, o feto com problemas graves congênitos, é justificável para a prática do aborto. Fora os casos especiais previstos em lei, a prática do aborto, no Brasil, é considerada como homicídio doloso, visto que o agente sabia e pretendia obter o resultado. O resultado prático é que enseja a discussão do tema, já que envolve aspectos psicológicos, sociais e familiares. O primeiro trata da mulher que não deseja ter o filho, ou por não ter maturidade suficiente, ou por não querer alterar o seu corpo, ou por não desejar ser mãe; já o segundo é decorrente do processo de natalidade, ou seja, o casal já possui mais filhos do que pode sustentar. E, por fim, a ótica familiar, por entender que a filha é muito nova para assumir tal compromisso e que tal responsabilidade ficará a cargo dos avós, etc. De acordo com a justiça brasileira os casos autorizados por lei são: estupro, risco de morte para a mãe e, mediante autorização judicial, nos casos de fetos anencéfalos. No entanto, existe um terceiro interessado nessa questão que torce avidamente pela não legalização: O Estado. E por qual motivo? Explicaremos mais adiante, mas numa discussão inicial é função precípua do Estado a informação, o fornecimento de educação, saúde, etc. Entretanto, o que é concedido à população? De forma adequada, nenhum desses itens. O escopo da não legalização do ponto de vista estatal é o viés religioso, afinal, no maior País católico seria até incongruente posicionamento diverso. Todavia, estaria a máquina estatal apta a enfrentar realmente a questão? Existe um serviço clínico preparado para auxiliar uma grávida? Todo esse debate é interessante, mas, a nosso ver, falta a voz da maior interessada na questão: a futura mãe. Uma mulher que se sujeita a enfrentar a clandestinidade de uma clínica para praticar o aborto, ou pior, inserir utensílios domésticos em seu próprio ventre não pratica tal ato de forma inocente ou leviana. Portanto, a voz da mulher em questão deve ser preponderante. De que adianta o estado proibir, a igreja condenar, se a própria pessoa não está convencida da gravidez e não a deseja. A censura à privação de uma vida e com isso o debate sobre quando começa a vida do feto é louvável, no entanto, quem irá conviver diariamente com a criança será sua mãe. Se desde a origem a criança não é desejada como será a relação materna? Esse terreno é altamente perigoso, porque se não tratado com seriedade pode banalizar o bem maior que é a chegada de um ser humano. Então como determinar a possibilidade ou não de um aborto? Ao se analisar a questão num País com desenvolvimento social elevado e grande estrutura social e no campo da saúde, a ser fornecida pelo Estado, a discussão é inócua, pois existem todas as condições para informação e prevenção. De tal sorte, que alguns países europeus ao invés de enfrentar problemas com controle de natalidade se deparam com o caminho inverso, qual seja: o envelhecimento da população. O foco central da questão do aborto é se a justificativa da desinformação ou, ainda, a tratativa de evitar que uma nova vida chegue a uma família que não tem a menor condição de sustento. Sobre esse aspecto o enfoque deixa de ser religioso ou moral e passa a ser analisado do ponto de vista social e, seria essa a melhor solução? Seguramente esse texto irá enfrentar grande resistência, como já esperado, mas, o que é pior: uma criança nascer sem condição de sustento ou uma mãe correr risco numa operação clandestina? Ambos os casos são abomináveis e, num mundo ideal nada disso deveria existir, o que não remonta ao caso brasileiro, por isso a discussão deve ser social, sim. O que resulta da opinião da pessoa diretamente envolvida, assim não haverá demagogia ou falso moralismo sobre a questão, o que não pode ocorrer é a banalização do aborto como um capricho, porque as conseqüências a serem enfrentadas pela mãe não são pequenas. A primeira delas é a psicológica, pois, não raro a mulher se arrepende ou cria traumas psicológicos em decorrência de um ato impensado ou precipitado. A segunda é uma conseqüência física porque não é garantido que a gestante consiga engravidar novamente. E, ao contrário do que pode parecer, o nosso posicionamento é que a decisão deve ser muito considerada, porém, não ser exclusividade de um juiz ou terceiro não envolvido na gestação, a mãe deve ser consultada e as razões ponderadas. Se o substrato for favorável ao aborto que o Estado se aparelhe decentemente e não mascare uma vez mais uma situação de completo despreparo e aparelhagem tanto para campanhas de conscientização quanto para a realização dos procedimentos cirúrgicos adequados. Seguramente o dissenso será enorme e polêmica, como foi dito na abertura somente irá fomentar ainda mais a discussão, por isso o debate deve continuar até que, se possível, ocorra uma conclusão definitiva sobre o tema, o que hoje, parece longínqua. * Doutorando em Filosofia do Direito e Mestre em Filosofia do Direito - PUC, Conselheiro Federal da Ordem dos Parlamentares do Brasil. Autor do livro Quando os avanços parecem retrocessos publicado pela Editora Manole. O sujeito de Direito sitiado na Síndrome de Perseu Ricardo Aronne* O espaço privilegiado pela regulação do Direito Privado tradicional, cujas raízes vorazes estenderamse até a Pós-Modernidade e corporificam-se em nova tardia codificação civil, é ocupado por um sujeito abstrato, mitêmico, virtualizado e solipcista; no jargão de textos culturalmente franciscanos, o denominado Homem Médio. Esse “Homem” sem mirada e, intencionalmente, nunca concretizável (NIETZSCHE), nasceu com o Direito Civil, na Modernidade ocidental. Dando maior juridicidade, em algum sentido, ao sujeito (reduzindo-o bem mais à condição de sujeitado), em mesma medida que, noutro sentido, retirava-lhe humanidade (PASCAL). Paradoxal é o fato de que esse Homo Economicus, singular por excelência (DERRIDA), no radical iluminista da solidão caracterizadora de suas modernizantes liberdades (KANT), resta caracterizado ou reduzido por uma relação qualificada. A relação jurídica que protagoniza o roteiro codificado da vida burguesa, entrincheirando seus quatro personagens principais: Marido, Contratante, Proprietário e Testador. Paradoxalmente também, esse sujeito não tem rosto, conforme estatui normativamente na sua razão patrimonial, para constituir-se em uma máscara (FACHIN); do italiano persona. Se, conforme o art. 1º da codificação, pessoa é todo àquele capaz de direitos e obrigação, perde essa condição àquele cuja capacidade apontada, seja ou esteja vulnerável ou impossibilitada. Daqui emergem conseqüências de violência real e simbólica (FOUCAULT), cujos sentidos transpassam a sociedade brasileira, replicando-se e se reproduzido na historicidade econômico-social, cujo primeiro enfrentamento deve apoiar-se na vaga constitucional ora vintenária (TEPEDINO); do qual em muitos aspectos importa em um negativo dessa realidade, a ser revelado em novos e mais humanistas matizamentos (MOLINARO), sob pena de reduzirmos o território ao mapa (BOUDRILLARD) perdendo a noção de onde vivemos e situamo-nos. Esse simulacro constituinte da relação jurídica, ocupa a condição da existência sempre que reduzimos o Sistema Jurídico à Lei (HEIDEGGER) e o Direito Civil ao respectivo Código, assustadoramente apontado como reunificador do Direito Privado (!!!!), ou mesmo como Constituição do Homem Comum (??). Qual ??? Afinal o Positivismo facilmente constituiu um Direito Privado que apenas consegue andar no asfalto dos grandes centros, refutando as suas periferias para um limbo jurídico. Essa patologia civil, reproduz a patologia do homem contemporâneo (BAUMAN). Um homem descartável e descartante, obrigado a ser feliz e mergulhado em uma Sociedade do Espetáculo ofuscante e multiplicadora da falta de existência do ser e que diariamente entrega ao mercado novas essências, não menos descartáveis, para que o Homo Sacer (AGAMBEN) consuma e se consuma ao final do processo. Mesmo a televisão (caracterizadora da Modernidade Líquida) teve seu produto retificado na Pós-Modernidade recente. Se outrora vendia uma grade de programação, vende, há muito, audiência como produto. Nós... Nascidos signatários do pacto fáustico (GOETHE); caracterizador do Contratualismo (LOCKE) contemporaneamente reinventado. Isso reflete nossa dificuldade com o outro (ARENDT). Com a alteridade e, assim, com a diversidade. O rosto do outro (LEVINAS) é sempre um desafio para nossa subjetividade (FREUD), produzindo uma fuga platônica para um mundo de essências incapaz de nos constituir porém apto ao imanescimento. Resta reproduzido em nossas relações diárias e virtualizadas, mediadas por imagens e simulacros. Imaginamos o outro à nossa imagem. Um outro ideal (LACAN), produzido em nosso interior e absoluto em nossa singularidade que refuta existência a tudo que possa ser externo e dotado de sua própria subjetividade. Assim, a diferença nos apavora. O inferno são os outros (SARTRE). Preferimos nos relacionar com a imagem do outro em detrimento dele propriamente dito. Na mesma medida em que afirmamos que a Internet aproxima as pessoas... vamos perdendo-as em brumas de ontologia. HUSSERL, radicalizando BRENTANO, já inaugurara a Fenomenologia no Século XIX, afirmando que devemos voltar às coisas nelas mesmas. Isso porque, dissolvemos o outro com nossa baba branca de ontologia, transformando-o em algo que idealizamos. Negando-lhe existência. Negando-lhe sonhar outro sonho (SHAKESPEARE). Nos relacionamos com imagens. Simulacros. A Sociedade Líquida está sempre em movimento. Em descarte. Qual DESCARTES, inaugurando a Modernidade. Temos medo de que o outro nos imobilize, petrifique, e assim lhe negamos existência. Não lhe olhamos nos olhos, enxergando-o através das imagens que fazemos ou compramos no mercado. Perseu enfrentara a Medusa, única das irmãs górgonas capaz de ser morta, mas que transformava em pedra todo àquele que olhasse em seus olhos. Recebera de sua deusa protetora, Athena, um reluzente escudo que usou como espelho para conseguir superar a titã, decepando-a sem petrificar. Nunca lhe olha diretamente nos olhos. Apenas o reflexo de sua imagem no espelho. Como nós. Perdidos em nosso medo de petrificar, apenas nos relacionamos com a imagem que fazemos do outro. Mas nunca diretamente com ele. Reduzido a uma essência, imagem, simulacro, o outro é nadificado por nós. Em nós e entre nós (LEVINAS). Esquecemos que nossa natureza está em nossas escolhas, condenando-nos à liberdade (SARTRE). O Direito não se reduz à Lei tanto quanto o outro não pode se reduzir aos oceanos de ontologia que o Positivismo lhe recobre. Recobre a nós... Encobrindo ao outro e a nós mesmos e perdendo-nos entre todos e cada um de nós. Sitiando a consciência através do servilismo e simulacro, envolvendo o ser em uma Síndrome de Perseu. * Doutor em Direito Civil e Sociedade (UFPR), Mestre em Direito do Estado (PUCRS), Pós-Graduado em Direito Processual Civil (PUCRS), Professor Titular da Faculdade de Direito da PUCRS, Líder do Grupo de Pesquisa Prismas do Direito CivilConstitucional (CNPq) desde 1997 e Advogado no RS.

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6 Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 Primeiro compro, depois me arrependo: o drama do contrato de adesão Fernando Gaburri* Quando uma pessoa se dirige a determinada loja, depara-se com vitrines repletas de novidades, que lhe chamam a atenção, e a convidam a comprar. Então ela entra, escolhe, experimenta, agrada e, finalmente, resolve adquirir aquela coisa, que certamente tornará sua vida mais agradável e feliz. Contudo, muitas vezes a pessoa não sabe que por traz desses simples atos do dia-a-dia existe uma grande quantidade de normas jurídicas que os regulamentam. Uma dessas regras refere-se ao contrato de adesão. Será que o consumidor poderá escolher as cláusulas do contrato, assim como escolheu o produto que decidiu comprar? Certamente que não, pois o contrato já está pronto, faltando apenas ser assinado. Contrato de adesão é aquele em que apenas um dos contratantes redige as cláusulas contratuais, e ao outro contratante, chamado de aderente, só resta a opção de pegar ou largar. Nesses contratos, o aderente não tem a oportunidade de modificar as cláusulas contratuais, porque a atual rapidez do mercado de consumo não permitiria que uma grande loja fizesse um contrato personalizado para cada cliente que a ela se dirige. Se João, José e Lucas querem adquirir cada qual uma geladeira nas Casas Cearenses S/A, por exemplo, o contrato será igual para todos eles, havendo apenas um espaço em branco, onde serão inseridos os dados pessoais de cada um. Desde a vigência do Código de Defesa do Consumidor – CDC – em 11.01.1990, houve uma preocupação em regulamentar esse tipo de contrato, pois o vendedor ou fornecedor de serviços detém conhecimento técnico aprofundado sobre o produto que vende ou o serviço que presta, possui um corpo de juristas preparados para defendê-lo e ostenta condição econômica mais vantajosa do que a do consumidor, que em geral é pessoa física, sem muita instrução escolar e de poucos recursos financeiros. Grande parte dos desentendimentos entre fornecedor e consumidor ocorre porque a redação do contrato de adesão é confusa e ambígua, quando deveria ser feita em termos claros, para facilitar sua compreensão pelo consumidor. Assim, se o contrato permitir mais de uma interpretação, deverá prevalecer aquela que for mais favorável ao consumidor aderente. Uma outra grande queixa dos consumidores diz respeito ao tamanho da letra desses contratos, que geralmente é minúscula, o que cria dificuldade para sua leitura e compreensão. Diante disso, o consumidor acaba preferindo assinar sem ler, obrigando-se a cumprir um contrato cujo teor desconhece. Por causa disso, a Lei n. 11.785, de 22.09.2008, alterou o CDC, para exigir que os contratos de adesão sejam redigidos em letra cujo tamanho não seja inferior ao corpo 12. Como a lei nada fala sobre o estilo da fonte, isso poderá ser livremente escolhido pelo fornecedor, desde que não dificulte a compreensão e a leitura do consumidor. MARCELO CASAL JR. ABR Por fim, existe uma cláusula que está sempre presente nesses contratos, e que recebe o nome de cláusula de eleição de foro. Por exemplo, uma das cláusulas do contrato que tenho com meu provedor de Internet diz o seguinte: “as partes elegem o foro de Porto Alegre para dirimir eventuais demandas advindas deste contrato, renunciando a qualquer outro, por mais privilegiado que seja.” Isso significa que eu teria que me dirigir ao juiz de Porto Alegre para discutir o contrato, sendo que moro em salva- dor! Essa cláusula é nula, quando inserida em um contrato de adesão, porque dificultaria por demais o acesso do consumidor à justiça. No exemplo da internet, posso ignorar a cláusula e reclamar perante o juiz de Salvador, porque segundo o CDC, o juiz competente é o do domicílio do consumidor. * Professor de Direito Civil na UFBA e na AREA1FTE, em Salvador-BA

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Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 7 Os desafios do ensino jurídico frente à complexidade do Direito Haide Maria Hupffer* O Curso de Direito, ao longo das últimas décadas, perdeu o espaço institucional de colocar-se como ator privilegiado na discussão do que é Direito. Quer-se chamar a atenção ao fato de a complexidade do Direito poder desafiar a Universidade a ser um espaço de educação emancipatória, alicerçada no referencial dialógico, crítico e reflexivo e com o compromisso de enfrentar questões planetárias que envolvam as gerações futuras, formando profissionais comprometidos eticamente com um sistema jurídico para o bem comum. Uma das alternativas é a opção pela transdisciplinaridade na formação do estudante de Direito, como possibilidade de superar um ensino que apenas repassa o conhecimento gerado, principalmente do tipo conceitual ou procedimental, e de atitude disciplinar ou interdisciplinar, avançando na direção de construir um novo modo de (re)orientar o aluno a aprender e compreender as implicações das decisões jurídicas na economia, na política, nas relações internas entre cidadãos, nas relações entre organizações e entre países e de outras infinitas que são afetadas pelo Direito. O Direito Positivo exegético-normativista abomina a complexidade em suas reflexões; ele gosta de simplificar. Quanto mais simplifica, mais perde em realidade, em mundo; ao contrário, quanto mais complexo, mais se ganha em realidade. A opção por ênfases e temas transdiciplinares permite: superar as insuficiências das análises reducionistas da divisão positivista e disciplinar da hierarquização que o Direito é refém; romper barreiras entre professores, pesquisadores e acadêmicos dos mais diversos cursos, de profissionais nas suas mais diversas funções; modificar hábitos arraigados; romper com paradigmas já consagrados; engajar pessoas; aceitar os limites pessoais abrindo-se para acolher outras contribuições; flexibilizar; demonstrar disposição de romper o monólogo em favor de uma prática dialógica; transcender o conhecimento, enfim, abrir espaço para experienciar o diálogo entre grupos de pesquisadores, professores e alunos, como encontro de saberes que têm sustentação na linguagem e na historicidade como perspectiva que neutraliza o efeito redutor do positivismo exegético-normativista. Essa tarefa terá o sentido positivo de pôr sob nova luz a disciplinaridade, considerada central no paradigma positivista. Somente assim será possível trabalhar o Direito Penal articulando-o com o Direito Constitucional, com a Sociologia, a Psiquiatria, a Medicina, a Psicologia, a Economia e outras áreas de conhecimento. Isso implica transgressões, pois oferece a possibilidade de romper com a departamentalização e a fragmentação de saberes ao mostrar que existem outras formas de olhar o Direito e de olhar o mundo. Daí a necessidade de se ter presente que romper fronteiras exige uma permanente atitude investigativa para que se geste a partir do mundo, da vida, dos saberes das diferentes áreas a produção de conhecimentos novos, que estão em movimento e têm de ser constantemente (re)pensados, mas, ao mesmo tempo, tendo um forte vínculo com a complexidade das relações jurídicas da pós-modernidade e a necessidade de alargar a visão positivista, exegética e normativista. A opção pela transdisciplinaridade sinaliza a idéia de transgressão. Sua construção pode estar na passagem do conhecimento disciplinar para o transdisciplinar, que se dá pelo caminho da problematização dialógica. Aqui não cabe o saber do especialista, que vai ao encontro dos outros como quem já sabe, e sim de um saber que se precisa e que nenhuma ciência isoladamente pode oferecer. *Doutora em Direito. Professora na Feevale. A proibição constitucional aos tributos com efeito de confisco Cassiano Menke* O aumento gradual das restrições provocadas pelas normas tributárias sobre os direitos fundamentais do indivíduo é uma realidade inegável. O Estado precisa cada vez mais de recursos visando à realização dos seus objetivos institucionais. Para obtê-los, valese, principalmente, da instituição e da majoração de tributos, bem como da edição de medidas capazes de conferir eficácia à arrecadação tributária. Ocorre, contudo, que, em não raras vezes, da aplicação das normas tributárias que veiculam deveres de pagar quantia certa e de fazer ou de não fazer algo em proveito do Fisco resultam restrições excessivas aos direitos dos sujeitos passivos de tais obrigações, sobretudo aos direitos à liberdade, à propriedade e à existência humana digna. Nesse cenário é que assume relevo o estudo da proibição constitucional de instituição e de cobrança de tributos com efeito de confisco, prevista no art. 150, IV da Constituição Federal de 1988. Tal limite ao poder de tributar consiste num postulado normativo aplicativo que proíbe que as normas tributárias venham a causar a ineficácia dos direitos fundamentais, assim entendida a circunstância em que, por conta da aplicação das referidas normas, o titular do direito fundamental resta impedido ou cerceado de exercê-lo ou, ainda, nos casos em que o direito não é capaz de produzir um mínimo do estado de coisas que o justifica como tal. Os casos já julgados pelo Supremo Tribunal Federal ajudam a esclarecer a aplicação desse postulado. No julgamento do Recurso Extraordinário nº. 413.782-8-SC, o STF declarou a inconstitucionalidade de parte do Regulamento do ICMS do Estado de Santa Catarina que permitia ao contribuinte inadimplente utilizar em suas operações apenas notas fiscais avulsas. O Ministro Marco Aurélio advertiu que “na dinâmica da própria atividade desenvolvida, fica inviabilizada a atuação se aquele que a implementa necessita, caso a caso, de recorrer ao Fisco, para a obtenção de nota fiscal avulsa.” Concluindo o julgamento, o Tribunal assentou que as restrições provocadas em decorrência da aplicação da legislação tributária não podem “inviabilizar o exercício, pela empresa devedora, de atividade econômica lícita”. Noutro caso, o Recurso Extraordinário nº. 18.976-SP, o STF afirmou que “todo imposto que torne praticamente proibitiva a exploração de um comércio lícito deve ser considerado inconstitucional”. Já no julgamento do Recurso Extraordinário nº. 18.331-SP, o STF reconheceu a proibição imposta ao Estado de consumir a “quase totalidade” dos lucros de uma empresa por meio da tributação. E, finalmente, ao julgar inconstitucional a cobrança de multa de mora tributária em valor elevado, o Tribunal destacou que “a atividade fiscal do Estado não pode ser onerosa a ponto de afetar a propriedade do contribuinte, confiscando-a a título de tributação.” Todas essas decisões têm os seguintes elementos em comum: a) normas tributárias sendo aplicadas e gerando efeitos sobre o âmbito protegido pelos direitos fundamentais da liberdade e da propriedade; b) a intensidade desses efeitos provocando a restrição ao titular do direito sobre a disponibilidade de bens essenciais à sua eficácia mínima e, com isso, impedindo, cerceando ou dificultando o exercício do direito; c) a conseqüente proibição de que tais efeitos oriundos das normas tributárias sejam produzidos. É exatamente com esses elementos que a proibição aos efeitos de confisco no direito tributário encontra a sua identidade e é neles que está o seu conteúdo. Cuida-se de um postulado que orienta a aplicação das normas tributárias de modo que elas não provoquem os mesmos efeitos econômicos que o confisco geraria em relação à propriedade e ao patrimônio em geral, isto é, a ineficácia do direito. Ele, contudo, serve à proteção não somente da propriedade, mas da liberdade, da existência humana digna e de todo direito fundamental eventualmente restringido pela atividade tributária, conforme demonstrado pelas decisões do STF. O seu papel no ordenamento jurídico brasileiro, portanto, é bastante claro: vedar que as normas tributárias impeçam o titular do direito fundamental por elas afetado de fruir minimamente do estado de coisas que o direito deve promover. Dois são os exames inerentes à proibição aos efeitos de confisco no direito tributário, a saber: a essencialidade e a causalidade.O primeiro envolve a identificação dos bens jurídicos indispensáveis à manutenção da eficácia mínima ao direito fundamental. É que há bens essenciais à produção de um nível básico de utilidade individual do direito ao seu titular. Por exemplo, nos casos acima destacados, o STF reconheceu que a emissão de notas fiscais em número suficiente à dinâmica do negócio é um bem essencial à liberdade de exercício de atividade econômica, assim como também o é uma parte do lucro das empresas. Por outro lado, o exame da causalidade reclama a identificação de um nexo causal entre a aplicação das normas tributárias e a eliminação ou a obstaculização dos bens essenciais antes referidos. Portanto, para que exista o efeito de confisco é preciso que a norma tributária dê causa à indisponibilidade de um bem essencial à eficácia mínima dos direitos fundamentais restringidos. O que o STF fez nos casos citados anteriormente foi exatamente isso. Ele reconheceu obrigações tributárias causando tais efeitos sobre os direitos afetados. E, por isso, os proibiu. Identificados, pois, o conteúdo e o modo pelo qual se aplica a proibição em exame, é possível utilizá-la concretamente em diversos casos para limitar o poder de tributar. Quanto à liberdade de exercício de atividade econômica, por exemplo, parte do lucro auferido pelo empresário deve restar imune aos efeitos das normas tributárias, assim como deve ser protegida a liberdade de circular mercadorias, de produzir e de implementar uma atividade produtiva, por serem bens essenciais ao direito fundamental. Em relação à existência humana digna, devem ser resguardadas das obrigações tributárias as quantias necessárias à moradia, à alimentação, à educação, à manutenção da saúde, ao lazer, ao transporte, dentre outros bens igualmente essenciais, de modo que a parte da renda auferida pela pessoa física que servir à manutenção de tais bens não seja onerada pelo imposto sobre a renda. E se o contribuinte, por hipótese, auferir apenas essa quantia destinada à manutenção da sua existência digna, então os demais tributos, dentre eles o imposto cujo ônus econômico está embutido no custo dos produtos e dos serviços por ele adquiridos (imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços, por exemplo), não poderão onerar tal valor, sob pena de produzirem efeitos de confisco. Enfim, a proibição constitucional ora apresentada é um instrumento de inegável utilidade na busca pelos limites às normas tributárias. Por meio dele, é possível estabelecer um controle racional diante dos casos em que as obrigações tributárias de pagar e/ou de fazer ou de não fazer algo eliminam ou obstaculizam bens essenciais à eficácia mínima dos direitos fundamentais. O seu fundamento lógico foi esclarecido pelo STF: o poder de tributar somente pode ser exercido dentro dos limites que o tornem compatível com a liberdade de trabalho, de comércio e de indústria e com o direito de propriedade (Recurso Extraordinário nº. 413.7828-SC). Imagine-se, então, um círculo. Dentro dele estão aqueles bens protegidos pelos direitos fundamentais, que passam a ser restringidos progressivamente pela eficácia interventiva decorrente da concretização das normas tributárias. A cada intervenção sofrida, o círculo experimenta uma restrição ao seu conteúdo. A cada manifestação concreta do poder de tributar, o âmbito protegido pelos direitos é pressionado e comprometido parcialmente. Mas, no seu âmago, na sua parte mais interna e central, no seu núcleo essencial, residem bens irrestringíveis, haja vista a sua indispensabilidade à eficácia do direito. Essa é, portanto, a proibição aos efeitos de confisco no direito tributário. * Mestre em Direito Tributário pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professor do curso de pós-graduação em Direito Tributário da UFRGS, professor de Direito Tributário e Constitucional da FEEVALE, advogado e parecerista, autor do livro “A proibição aos efeitos de confisco no direito tributário”, Editora Malheiros, 2008.

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8 Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 Alguns apontamentos sobre a guarda compartilhada Rolf Madaleno* A Lei 11.698, de 13 de junho de 2008 alterou os artigos 1.583 e 1584 do Código Civil de 2002, para instituir e disciplinar a guarda compartilhada. Conforme o art. 1.584 do Código Civil, a guarda compartilhada poderá ser requerida por qualquer dos pais e decretada pelo juiz, em atenção ao convívio dos filhos com o pai e com a mãe. Contudo, ressalva o § 2° do mesmo art. 1.584 do Código Civil, que se não houver acordo entre os pais quanto à guarda do filho, sempre que possível, ela será compartilhada. De longo tempo, pais visitantes clamavam pela repartição da custódia, cujo entusiasmo não era compartido pelas mães detentoras da tradicional custódia unilateral, o que na prática estabelecia uma situação em que só um dos genitores se convertia no verdadeiro pai, outorgando ao outro ascendente a condição de visitante. Esse movimento pró custódia compartilhada teve início no começo de 2005, através de manifestações populares atribuídas à associação britânica Fathers 4 Justice e, na atualidade, são inúmeras as entidades que congregam pais separados que promovem, principalmente em páginas da Internet, sua luta por uma guarda dividida. Embora a custódia compartida seja de recente adoção no Brasil, na Espanha ela foi aprovada pela Lei 15, de 08 de julho de 2005, pela qual foram modificados artigos do Código Civil Espanhol e da Lei de Processo Civil em matéria de separação e divórcio, merecendo especial destaque a alteração do artigo 92 do Código Civil daquele país, item 8, que estabeleceu, excepcionalmente, por requerimento unilateral de um dos pais, havendo parecer favorável do Ministério Público, a guarda compartilhada. Em muitos países da Europa, como a França, Alemanha, Dinamarca e Suécia, a custódia compartilhada é preferencial, aplicada como standard, contudo, entre nós, tal qual ocorre na Espanha, segue sendo alvo de luzes e sombras, havendo razões contrárias e favoráveis. Compartilhar a guarda é estabelecer a co-responsabilidade comum, não podendo, sob forma alguma, ser confundida com a guarda alternada, na qual o tempo de permanência dos pais com seus filhos é mais bem dividido, sendo ampliada a estadia do outro genitor com sua prole e fazendo desaparecer a habitual custódia monoparental. Falar em guarda alternada também não representa dividir por metade o tempo de estadia dos pais com seus filhos, pois é de todo falsa esta idéia que não carrega em seu bojo, uma sadia opção de repartir a carga familiar na formação e educação da descendência de primeiro grau. Na guarda alternada o tempo deve ser dividido entre os pais de acordo com o tempo livre de cada um deles e conforme a idade dos seus filhos, até mesmo porque até os sete anos os filhos não têm memória da sua infância, devendo ser alargado o tempo de permanência na medida em que a criança vai crescendo e passando dessa idade. Aos defensores da guarda dividida, sua adoção se apresenta como uma forma de liberar as mulheres da carga exclusiva de cuidado para com os filhos, conciliando com mais facilidade a vida familiar que não se desfaz com a separação ELZA FIÚZA ABR do casal, porquanto a família continua e se apresenta mais unida diante da adoção da guarda conjunta. Questionam os defensores da guarda conjunta como podem ser considerados maus pais quando vêem muito pouco seus filhos quando estão casados, e serem bons pais quando separados, seguem vendo sua prole em muito pouco tempo. Para aqueles contrários à guarda compartilhada, o sistema olvida o real interesse do menor, que é necessitado de maior proteção, não existindo qualquer possibilidade de estabelecer a custódia compartida por imposição judicial, como, nesse sentido se identificam as leis da Espanha e do Brasil acerca da custódia compartilhada e nessa direção tem se encaminhado a jurisprudência dos dois países, que tem sido considerada como uma medida excepcional, sendo difícil compartilhar uma guarda entre aqueles que não mais vivem juntos, pois adotá-la, faria supor uma invasão na esfera privada de um genitor em relação ao outro, num contínuo peregrinar dos filhos de um lugar ao outro. Concluiu a Sección 24ª da Audiência Provincial de Madrid e como nesse mesmo rumo vem apontando a jurisprudência pátria, como sucedido no Agravo de Instrumento n. 70025244955, da 7ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ao julgar inviável deferir pedido unilateral de guarda compartilhada, quando ausente qualquer harmonia entre o casal, faltando por conta desse dissenso, as condições favoráveis de atenção e apoio na formação da criança, porque a custódia compartida só poderá ser adotada quando ambos os genitores estão de acordo em levá-la a efeito, sendo imprescindível uma boa e saudável comunicação entre ambos, trocando informações sobre os filhos comuns e suas necessidades, de modo a unificar suas pautas de comportamento dos filhos e, desse modo ofertar-lhes uma estabilidade emocional. * Advogado com exclusividade na área do Direito de Família. Atualmente, leciona Direito de Família e Sucessões na graduação e Pós-Graduação na PUC/RS. Autor do livro Curso de Direito de Família publicado pela Editora Forense. Obrigação alimentar nas relações homoafetivas Conrado Paulino da Rosa* Caracterizado como uma das áreas mais dinâmicas do Direito, o Direito de Família passou por inúmeras mudanças nas últimas décadas. Após o advento da Constituição Federal, o conceito de família, até então extremamente taxativo, reconhecendo tão-somente o casamento como entidade familiar, passou a apresentar um conceito plural. A partir do momento em que o afeto passou a merecer reconhecimento jurídico, a conseqüência não poderia ser outra: não são mais as leis ou a Justiça que determinam quais são as entidades merecedoras da proteção do Estado, mas sim o sentimento existente entre duas pessoas, independentemente de sua orientação sexual, raça, religião ou quaisquer outras designações. Apesar de nossos legisladores insistirem em não albergar as relações homoafetivas, avanços significativos foram possíveis graças ao pioneirismo de integrantes da magistratura, principalmente gaúcha, que possibilitaram travar essa verdadeira locomotiva do preconceito. Tendo em vista o direito à livre orientação sexual e, em conseqüência, aos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade, qualquer desrespeito a um ser humano, em função da orientação sexual, se mostra totalmente desarrazoado e descabido. Afinal, o direito a tratamento igualitário independe da tendência afetiva, já que a orientação sexual é traço constitutivo da individualidade de cada cidadão. Não existe modelo a ser seguido, mas uma felicidade a ser buscada. Aliás, esse direito à felicidade não pode ser negado pelo Estado. A partir da inserção da homoafetividade no conceito de entidade familiar, o silêncio da lei acarreta na aplicação das normatizações aplicáveis às uniões estáveis tendo em vista a similitude dos vínculos. Assim, imperioso se mostra assegurar o direito aos alimentos nos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, afinal, quem poderá arcar com o bônus decorrente do fim da relação, também deverá participar com o ônus. Entre os conviventes, tal obrigação se originará do dever de mútua assistência e também do dever de solidariedade social. Extinta a relação entre os companheiros e verificada a necessidade de um dos integrantes, é imperiosa a fixação da verba alimentar de acordo com a possibilidade de quem será obrigado ao pagamento. Nos casos de filiação homoafetiva, a qual pode ser decorrente tanto de métodos artificiais de reprodução humana ou de adoção concedida ao casal, quanto de prole advinda de outro casamento por parte de um dos companheiros, não se pode admitir que, por puro preconceito, com a dissolução do vínculo entre o par, fique o infante sem a assistência material que merece. É necessário repensar o direito acima de conceitos estigmatizantes, afinal a sociedade deve aprender a aceitar as diferenças e conviver com elas. Queiramos que um dia, em uma sociedade mais justa e menos preconceituosa, as paradas do Orgulho Gay sejam freqüentadas como uma festa da diversidade e não como um apelo pelo fim do preconceito e pela luta do reconhecimento dos direitos. Aliás, este é o principal papel de cada operador do Direito: garantir a concretização da justiça para aqueles que toda a sociedade relega a segundo plano ou a singela invisibilidade. *Advogado com atuação em Direito das Famílias e das Sucessões, Direito Homoafetivo e Mediação. Mediador Familiar. Professor, Mestrando em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC, Membro da Diretoria Executiva do Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM / Secção Rio Grande do Sul.

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Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 9 Do meu bem aos meus bens Maria Berenice Dias* Agora é lei: família é uma relação íntima de afeto. É o que diz a chamada Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06, art. 5º, inc. III). Ainda que se trate de legislação que visa a coibir e prevenir a violência doméstica, passou a existir uma definição legal da família. Como o sistema jurídico é único, os conceitos servem para todos os fins, não tendo significado restrito à lei em que se encontra. Com esta tomada de posição do legislador – trazendo para a lei o que está na vida – fica suprida a omissão do Código Civil, que trata da família sem a definir. Limita-se a regular as questões patrimoniais do casamento. No mais, pouca coisa há sobre a união estável e nada, absolutamente nada, é dito sobre as famílias monoparentais, reconhecidas como entidade familiar pela própria Constituição. A grande preocupação sempre foi o destino dos bens, quer durante o casamento, quer depois de sua dissolução. Daí o cardápio de regimes de bens a ser eleito via pacto pré-nupcial, além da possibilidade de sua alteração durante o casamento. Mantendo-se omissos os noivos no que diz com os bens, a lei impõe regime que tem nítido conteúdo ético: o da comunhão parcial, em que os bens particulares pertencem a seus titulares, se comunicando os amealhados durante o casamento, em face da presunção de ter havido esforço comum na sua aquisição. A tentativa de preservar o patrimônio familiar sempre foi – e ainda é – muito acentuada. Tanto quem elabora a lei como quem a aplica revela a clara intenção de manter os bens no âmbito da família, sem atentar às conseqüências de tal postura. Nunca se vislumbrou o mínimo constrangimento em comprometer até a própria sobrevivência de quem ameaça a integridade patrimonial. Nem alimentos eram assegurados. Basta lembrar que os filhos chamados de ilegítimos não podiam ser reconhecidos. Durante décadas as uniões extramatrimonias eram identificadas como sociedades de fato e, até hoje, há enorme resistência em admitir a existência de famílias paralelas ao casamento. A nada esses intrusos faziam jus. Sempre foram condenados à invisibilidade e à fome quem pode comprometer a indivisão dos bens da família constituída pelos “sagrados” laços do matrimônio. Mas, no momento em que surge um conceito legal de família tendo por tônica o vínculo de afetividade, impõe-se um novo paradigma para a identificação de responsabilidades. É necessário estabelecer conseqüências ao afeto também na esfera patrimonial. Chamar alguém de “meu bem” não é uma simples manifestação de carinho. Tem um sentido de propriedade da pessoa que se tornou “objeto” do amor. Mas, quando o afeto gera um vínculo de mútuo compromisso, o envolvimento tem reflexos de outra ordem: o que é meu passa a ser nosso; os meus bens são também seus bens. A titularidade do patrimônio adquirido durante o período de convivência, em que há investimento de ambos na construção de um núcleo de natureza familiar, gera um estado condominial. Assim, impõe-se a co-titularidade dos bens de conteúdo econômico amealhados durante o período de convivência. Deixar de chamar alguém de “meu bem”, não pode transformar os “nossos bens” em “meus bens”! *Advogada especializada em Direito Homoafetivo, Famílias e Sucessões, Ex-desembargadora do Tribunal de Justiça do RS, Vice-Presidente Nacional do IBDFAM. www. mariaberenice.com.br A concepção contemporânea dos Direitos Humanos César Augusto S. da Silva* A concepção contemporânea de direitos humanos com pretensões globais é inaugurada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial. São trinta artigos que estabelecem solenemente, naquele novo contexto mundial, direitos aos seres humanos aos quais os Estados e suas sociedades deveriam se comprometer e proteger. Se em 1948 eram pouco menos do que cinqüenta nações que se comprometiam, já em 1993, na esteira da realização da II Conferência Mundial de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, este número havia subido para mais de cento e noventa nações, demonstrando o vertiginoso aumento da importância política dos direitos humanos, em busca da universalização. Ainda que a Declaração tenha sido preparada em momento histórico no qual os Estados reafirmavam não terem as Nações Unidas em geral ou a recém criada Comissão de Direitos Humanos – CDH, em particular, poder para agir em relação às queixas contra violações de direitos humanos e não se dispusessem a aceitar obrigações decorrentes de tratados internacionais nessa matéria, é considerado de forma tal que é um documento ímpar ao reagir à barbárie produzida pelos regimes políticos totalitários no contexto da Segunda Guerra Mundial. Se nenhum Estado quis o comprometimento global imediato com a Declaração ao mesmo tempo nenhum dos Estados votou contra a aprovação do documento na Assembléia Geral da ONU. Tal instrumento internacional, mesmo com estas limitações, e considerada uma “soft law” no ambiente internacional, inaugura o novíssimo direito internacional dos direitos humanos como um ramo do direito que estabelece uma dinâmica jurídica específica já preconizada pelo filósofo Immanuel Kant, duzentos anos antes, em sua “Paz Perpétua”, ou seja, o chamado direito cosmopolita. As instituições internacionais e não-governamentais de direitos humanos cuja criação vem aumentando desde o surgimento da Organização das Nações Unidas, pareceram absorver esta filosofia kantiana e desde então procuram colocá-la em prática ao monitorarem as atividades dos Estados nesta área: relatórios, classificações e monitoramentos a respeito da cultura e implementação destes direitos, em uma orientação para uma política cosmopolita dos direitos humanos. Os direitos humanos em sua idéia contemporânea têm concepção histórica e moral, e por isso, devem também ser justificados a partir do ponto de vista moral, e assim se aplicaria o princípio da universalidade. Neste sentido, leve-se em conta o raciocínio de que os direitos humanos implicam em direitos básicos mínimos, um chamado mínimo ético universal propagada pela doutrina dos direitos fundamentais. Há mais de duzentos anos Kant refletia em favor de um direito civil universal superior aos ordenamentos jurídicos nacionais; porém, ele não estabelecia isso ao lado da supressão da miríade de Estados em favor de um Estado único mundial. O que ele parecia realmente pretender era dar uma resposta política e jurídica à interdependência complexa que se considerava inexorável naquele momento histórico de final do século XVIII, marcado pelo movimento político e cultural do Iluminismo e pelas revoluções burguesas. Na linha de Kant, na ordem cosmopolita os Estados nacionais não desapareceriam por completo, somente perdendo a condição de centros exclusivos de legitimidade dentro de suas fronteiras, sendo redefinidos como elementos do ordenamento democrático global ao lado de outros corpos políticos da sociedade civil organizada. Precisa-se avançar em alguns aspectos no que tange ao desenvolvimento do direito internacional e das normas nacionais de proteção aos direitos humanos. O direito internacional dos direitos humanos é um ramo do direito internacional que se transforma em um verdadeiro processo em marcha no sentido da busca de um consenso universal em torno de seus valores e sua implementação no ordenamento jurídico nacional dos Estados configurando regimes internacionais e regionais de proteção ao ser humano no contexto das relações internacionais contemporâneas. Este direito no sentido amplo configura-se na proteção global do ser humano colocando-o como sujeito de direito e deveres internacionais possuindo normas de direito internacional dos direitos humanos, de direito internacional dos conflitos armados e de direito internacional dos refugiados em consonância para a proteção última do ser humano, retomando o pensamento original dos doutrinadores fundadores da disciplina do direito internacional público em torno de um jus gentium universal. O pensamento kantiano de um direito cosmopolita mundial na conformação de uma democracia cosmopolita, as históricas declarações de direitos do mundo ocidental, assim como os valores das maiores religiões monoteístas do mundo e a doutrina do direito natural informam os antecedentes históricos do documento normativo global fundador do direito internacional dos direitos humanos, ou seja, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, que supera a dicotomia entre a idéia do direito natural e as concepções históricas de construção de culturas separadas ao procurar enriquecer uma concepção com a outra, tornando-as complementares, e verificando-se que tal compreensão se confirmou nos documentos normativos posteriores, como a Proclamação de Teerã de 1968 e a Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993. Para além das expectativas jurídicas e políticas da mobilização para o cumprimento de normas internacionais e regionais de direitos humanos, somente a mudança de cultura e de mentalidades ao longo de gerações pode efetivamente dar o salto de qualidade para o progresso humano em direção ao respeito à diversidade, à tolerância, ao projeto de paz perpétua sonhado há duzentos anos por Kant e à implementação efetiva de todos os direitos humanos. O pensamento kantiano deveria ser uma linha diretriz na busca do desenvolvimento e respeito aos direitos humanos nas sociedades e organizações contemporâneas. Diretrizes que necessitariam ser racionalizadas principalmente no espaço público das sociedades democráticas e ordenadas por meio de normas que deveriam ser produto da argumentação racional entre seres humanos em sociedades livres. *Mestre em Direito e Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Graduado pelo XXIV Curso Interdisciplinar de Direitos Humanos do Instituto Interamericano de Direitos Humanos (IIDH), de San Jose da Costa Rica. Coordenador e Professor da PósGraduação em Direitos Humanos da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) – Mato Grosso do Sul.

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10 Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 A persistência dos racismos, 20 anos depois César Augusto Baldi* Findo o período colonial e, pois, desde a independência- e tal processo intensificou-se no Estado Novo- a sociedade brasileira imaginou-se dotada de uma cultura evidentemente européia, à qual teriam contribuído, em parcelas ( e, portanto, “nichos” específicos), negros e índios, sem, contudo, perder a centralidade branca, européia, heterossexual e católica. Vista em espelho muito particular teve a si mesma refletida como mestiça, portadora de uma “democracia racial”, isenta de “racismos”, preconceitos de todas as espécies e profundamente “religiosa” ( respeitado o Estado “laico”). À sua maneira. A Constituição de 1988, pela primeira vez, reconhece uma diversidade étnico-cultural em patamar distinto das anteriores e rompe, em parte, com uma influência grande da Igreja. Vinte anos depois seria necessário verificar até que ponto esta imagem refletida em espelho rompeu ou não com os padrões do colonialismo. Ou seja: repensar estes parâmetros agora num espelho “pós-colonial”. Alguns projetos entabulados e outros sequer iniciados merecem destaque. Primeiro, porque, tendo sido incompleto o pretendido processo de “embranquecimento”, a democracia racial, que era teoria, permaneceu um funesto processo disfarçado de racismo. Assim, quando a Constituição cominou ao “racismo” tanto o cumprimento mais severo da pena ( a reclusão) quanto as características de inafiançabilidade e imprescritibilidade, reforçou a necessidade de combatê-lo em todas as suas formas, incluídas as modernas- a xenofobia, o anti-semitismo, a islamofobia, a negrofobia e outras formas correlatas de intolerância racial. Segundo, porque entendido o racismo nesta visão alargada que compatibiliza conceitos etimológicos, etnológicos, sociológicos, antropológicos e biológicos, afasta-se a noção de “sangue” ( não é o “sangue” índio ou negro que dá ou retira direitos), fortalecendo o combate às representações sociais heterodefinidas. Daí porque pouco sentido tem o discurso do “DNA negro” para combater as ações afirmativas (e se todos são negros, não existe “racismo”, não é verdade?) ou “sangue” índio para desqualificar as pretensões territoriais, inclusive dos chamados “índios ressurgentes” ( como se todos aceitassem viver com os usos, costumes, tradições e cosmologias indígenas). A insistência no critério de autodefinição ( como previsto na Convenção nº 169-OIT) é outro elemento questionador do etnocentrismo da sociedade - os critérios de “classificação social” são, em geral, fruto de “heterodefinição” ( “homossexual” é outro exemplo). Terceiro, porque isto implica, pois, a necessidade, no aspecto negativo, de impedir qualquer conduta, prática ou atitude que incentive, prolifere ou constitua racismo e, no aspecto positivo, um mandamento constitucional de tomar as medidas cabíveis e possíveis para erradicação de tal prática, dentro da previsão de promover o bem de todos, “sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” ( art. 3º, inciso IV, CF). Quarto, porque a “mestiçagem” incentivada só o que enquanto reforce os tipos caucasóides e obscureça características indígenas ou negras. São os “caboclos” a invisibilizar processos de etnogênese indígena, e “mulatos” a embranquecer, de uma forma ou outra, as classificações sociais. Um racismo tão sutil que pode conviver com fachadas de anti-racismo e, conforme a mudança de ambiente- universidade, família, laços de parentesco- ser absolutamente invisibilizado. Daí se segue que algumas situações ainda careELZA FIÚZA ABR cem de melhor equacionamento: 1. o processo civil, de perfil individualista e atomizado, tem dificuldade de lidar com coletividades como comunidades indígenas ( quando lhe reconhece capacidade titulatória) ou as distintas “comunidades tradicionais” ( quilombolas, incluídos) e mais ainda- com as próprias formas específicas de organização social e política ( incentivando uma matriz “associativa”) 2. a diversidade lingüística do país ( são mais de 180 línguas indígenas, por exemplo) não se reflete na sua utilização em documentos oficiais,exceção feita a São Gabriel da Cachoeira/AM, que declarou cooficias o tucano, o baniwa e o nheengatu. Há, pois, que “descolonizar” a linguagem oficial dos poderes constituídos, como forma de maior transparência e possibilidade participativa, bem como o próprio ensino de história ( a introdução de história africana e indígena é intento parcial e realizado ainda com muita resistência). 3. o declarado “laicismo” estatal conviveu, sem maiores percalços, com o estabelecimento de feriados municipais religiosos de matriz cristã, ignorando, invisibilizando ou mesmo menosprezando as religiões de matriz africana ( festas de Oxum, Oxóssi, Ogum, etc) ou indígenas ( o torém dos Tremembé, o kuarup da região xinguana). Há, pois, que revisar a matriz dos feriados religiosos e mesmo das datas comemorativas, que devem refletir a diversidade cultural ( o 20 de novembro é, em parte, uma resistência à matriz etnicamente dominante). 4. os atores jurídicos ainda continuam a tratar comunidades tradicionais e indígenas dentro do perfil assimilacionista das Constituições anteriores e da Convenção 107-OIT, trabalhando com “integração” na “comunhão nacional”. Pouco importa se “aculturados”, “isolados” ou “puros” indígenas, devem ser levadas em conta suas cosmologias e a adoção de medidas que possibilitem sejam compreendidos e se façam compreender em procedimentos legais, de forma eficaz ( art. 12 da Convenção 169-OIT). Um “tradutor cultural” se faz necessário em todas as hipóteses ( em especial quando envolvidos conflitos com as visões de mundos ocidentais e quando necessária a produção de depoimento pessoal e testemunhal). 5. as terras indígenas são sempre de propriedade da União, ainda que às comunidades seja assegurada a posse permanente. Estão em jogo, sempre, terras públicas e não “apropriação” por “poucos indivíduos”: os poderes constituídos devem, pois, inverter o raciocínio de sua atuação. 6. em muitos casos, as comunidades são afastadas de territórios que reivindicam sob pretexto de que os moradores da região são contrários à presença ( como se viu em Gaspar/SC com os guaranis e no Morro do Osso/RS, com os kaingangs). Nestas hipóteses, há que se incentivar- em especial pelo Ministério Público- adoção de providências no sentido de trabalhar os necessários valores constitucionais de repúdio ao racismo ( art. 4º, VII e art. 5ª, XLII), pluralismo de idéias ( art. 206, III), defesa e valorização da memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira ( art. 216), valorização da diversidade étnica e cultural ( art. 215, §3º, V) e promoção do bem de todos, sem preconceitos de raça e cor e quaisquer outras formas de discriminação ( art. 3º, IV), seja por meio de “termos de ajustamento de condutas”, seja por meio de ações do Poder Legislativo, seja por meio de cursos. 7. a sociodiversidade não é, em princípio, antagônica com a biodiversidade. Por trás de alegações de defesa ambiental, muitas vezes está escondido um “racismo ambiental”. As “brigadas indígenas” de combate aos incêndios nas florestas são um exemplo que rompe com tal preconceito. Uma revisão da legislação de unidades de conservação quando incidentes sobre áreas indígenas e de “comunidades tradicionais” é premente. Na cosmologia “Saterê Maué”, do Pará e do Amazonas, os jovens introduzem as mãos numa luva de fibras onde estão inseridas formigas, que lhes aplicam ferroadas ( “waumat”). A luta contra o racismo também é um ritual doloroso. Mas é preciso que seja iniciada. *Mestre em Direito ( ULBRA/RS), doutorando Universidad Pablo Olavide ( Espanha), chefe de gabinete no TRF-4ª Região,é organizador do livro “Direitos humanos na sociedade cosmopolita” ( Ed. Renovar, 2004).

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Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 11 União homossexual ou homoafetiva: perspectivas do julgamento da ADPF nº 132 Pedro Lenza* NELSON TOLEDO Nos termos do art. 226, a família é a base da sociedade e terá especial proteção do Estado. Assim, podemos afirmar que o conceito de família foi ampliado pelo texto de 1988, visto que, para efeito de proteção pelo Estado, foi reconhecida como entidade familiar também a união estável entre o homem e a mulher, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. Embora fique clara a preferência do constituinte pelo casamento entre homem e mulher (uma vez que estabelece que a lei deverá facilitar a conversão da união estável em casamento), destacamos a importância deste novo preceito constitucional (união estável), ampliando o conceito de entidade familiar. Aprimorando o sistema anterior, que só reconhecia a sociedade biparental (filhos de pai e mãe, tanto que as mães solteiras eram extremamente marginalizadas), fundado em ultrapassado modelo patriarcal e hierarquizado (Código Civil de 1916), a Constituição de 1988 reconheceu a família monoparental. Nesse sentido, nos termos do art. 226, § 4.º, entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. O Estado, então, deverá assegurar proteção especial para as mães solteiras, os pais solteiros, a comunidade de pai ou mãe separados ou divorciados e eventuais filhos, as famílias instituídas por inseminação artificial, produção independente etc. Prioriza-se, portanto, a família socioafetiva à luz da dignidade da pessoa humana, com destaque para a função social da família, consagrando a igualdade absoluta entre os cônjuges (art. 226, § 5.º) e os filhos (art. 227, § 6.º). Avançando a nossa análise, a grande questão que se coloca é a discussão sobre o reconhecimento, como entidade familiar, da união homossexual ou homoafetiva (união estável entre pessoas do mesmo sexo), especialmente diante do histórico julgamento que deve ser definido na ADPF nº 132 pelo STF. Parte da doutrina observa que vários são os requisitos para a configuração da união estável, sejam eles de ordem subjetiva (convivência more uxorio; affectio maritalis: ânimo ou objetivo de constituir família) ou de ordem objetiva (diversidade de sexos; notoriedade; estabilidade ou duração prolongada; continuidade; inexistência de impedimentos matrimoniais; relação monogâmica) (cf. Carlos Roberto Gonçalves, Direito civil brasileiro, 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2006, v. VI, p. 539-540). Nesse contexto, parte da doutrina classifica a união entre pessoas do mesmo sexo (parceria homossexual ou união homoafetiva) como ato inexistente, estando a matéria excluída do direito de família, devendo ser analisada como contrato de sociedade (art. 981, caput, do CC) e gerando apenas efeitos de caráter obrigacional. Com o máximo respeito, contudo, não concordamos com esse posicionamento. Deve ser feita uma interpretação mais ampla do art. 226, § 3.º (que discorre sobre a união estável entre homem e mulher), à luz do caput, que prestigia a proteção da família, e, especialmente, do princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1.º, III, da CF/88). Não temos dúvida de que o direito tem de evoluir para disciplinar a realidade social das uniões homoafetivas, assegurando o direito de herança, previdência, propriedade, sucessão e, quem sabe, no futuro, de acordo com a evolução da sociedade, de adoção de crianças e qualquer outro direito assegurado à união estável como entidade familiar. Nesse sentido, conforme argumenta Maria Berenice Dias, mostra-se “… impositivo reconhecer a existência de um gênero de união estável que comporta mais de uma espécie: união estável heteroafetiva e união estável homoafetiva. Ambas merecem ser reconhecidas como entidade familiar. Havendo convivência duradoura, pública e contínua entre duas pessoas, estabelecida com o objetivo de constituição de família, mister reconhecer a existência de uma união estável. Independente do sexo dos parceiros, fazem jus à mesma proteção…” (Maria Berenice Dias, União homossexual: o preconceito e a justiça, 3ª ed., Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006, p. 97). No STF, destacamos o voto do Min. Celso de Mello no julgamento da ADI 3.300, ajuizada pela Associação da Parada do Orgulho dos Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo e pela Associação de Incentivo à Educação e Saúde de São Paulo, que buscava o reconhecimento pelo STF das uniões estáveis entre homossexuais como entidade familiar e, assim, a declaração de inconstitucionalidade do art. 1.º da Lei n. 9.278/96, o qual só estabeleceu como entidade familiar “a união estável entre o homem e a mulher”. Por questões formais, o Min. Celso de Mello extinguiu a ADI, pois a norma impugnada, antes do ajuizamento da referida ADI, já havia sido revogada pelo Novo CC (que continuou abordando a união entre um homem e uma mulher — art. 1.723). Contudo, em obter dictum (comentários laterais ou de passagem que não influem na decisão de mérito), o Ministro destacou a importância de discutir o tema das uniões estáveis homoafetivas, inclusive para efeito de sua subsunção ou não ao conceito de entidade familiar (o que, segundo aponta, poderia ser discutido em ADPF). Em seu voto, conforme estabelece, seguindo “… o magistério da doutrina, apoiando-se em valiosa hermenêutica construtiva, utilizando-se da analogia e invocando princípios fundamentais (como os da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da autodeterminação, da igualdade, do pluralismo, da intimidade, da não-discriminação e da busca da felicidade), tem revelado admirável percepção do alto significado de que se revestem tanto o reconhecimento do direito personalíssimo à orientação sexual, de um lado, quanto a proclamação da legitimidade ético-jurídica da união homoafetiva como entidade familiar, de outro, em ordem a permitir que se extraiam, em favor de parceiros homossexuais, relevantes conseqüências no plano do Direito e na esfera das relações sociais. Essa visão do tema, que tem a virtude de superar, neste início de terceiro milênio, incompreensíveis resistências sociais e institucionais fundadas em fórmulas preconceituosas inadmissíveis, vem sendo externada, como anteriormente enfatizado, por eminentes autores, cuja análise de tão significativas questões tem colocado em evidência, com absoluta correção, a necessidade de se atribuir verdadeiro estatuto de cidadania às uniões estáveis homoafetivas…”. Por sua vez, em decisão monocrática, o Min. Marco Aurélio, então presidente do STF, confirmou a decisão proferida pela Juíza Simone Barbisan Forte, da 3.ª Vara Previdenciária da Justiça Federal no RS, (ação civil pública nº 2000.71.00.009347) mantida pelo TRF da 4.ª Região, e determinou que passasse o INSS a considerar o companheiro ou companheira homossexual como dependente preferencial (art. 16, I, da Lei n. 8.213/91), possibilitando a inscrição de qualquer deles diretamente nas dependências da Autarquia (inclusive nos casos de segurado empregado ou trabalhador avulso) e estabelecendo, ainda, que o INSS passasse a processar e a deferir os pedidos de pensão por morte e auxílio-reclusão realizados por companheiros do mesmo sexo, desde que cumpridos pelos requerentes, no que couber, os requisitos exigidos para os companheiros heterossexuais (arts. 74 a 80 da Lei n. 8.213/91 e art. 22 do Decreto n. 3.048/99) (Petição nº 1.984-9/RS). Parece, então, por todo o exposto, que a união homoafetiva, à luz do princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1.º, III — regra-matriz dos direitos fundamentais), do direito à intimidade (art. 5.º, X), da não-discriminação, enquanto objetivo fundamental do Estado (art. 3.º, IV), da igualdade em relação ao tratamento dado à união estável entre um homem e uma mulher (art. 5.º, caput), deva ser considerada entidade familiar e, assim, ter o tratamento e proteção especial por parte do Estado, exatamente como vem sendo conferido à união estável entre um homem e uma mulher. * Mestre e Doutor pela USP . Advogado e Professor, Autor, dentre outros de Direito Constitucional Esquematizado, 12ª Ed., SARAIVA, 2008 e de Teoria Geral da Ação Civil Pública. 3ª ed., rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008. http://www.saraivajur.com.br/pedrolenza

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12 Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 MARESSA VILELA Entrevista Constituição e Pipeline O jurista e professor catedrático português José Joaquim Gomes Canotilho proferiu palestra no dia 25 de agosto, no Instituto Camões, em Brasília, sobre questões constitucionais, no âmbito do lançamento do livro “A Questão da Constitucionalidade das patentes Pipeline à Luz da Constituição Federal brasileira de 1988”. Na ocasião o professor Canotilho concedeu entrevista, registrada pelo repórter Edgar Garcia, especialmente para o Jornal Estado de Direito, sobre aspectos do regime de Governo de Portugal e das patentes Pipeline. Professor, o senhor poderia falar um pouco sobre o regime de Governo de Portugal e sobre a Constituição Portuguesa, considerando as mudanças ocorridas, após a Revolução dos Cravos na década de 70? É um tema muito vasto, o regime jurídico quanto à forma de governo é uma coisa, quanto ao tipo de Estado é outra, quanto ao perfil do Estado definido na Constituição é outra. Portanto, quanto à forma de governo é substancialmente diferente da do Brasil. O Brasil é um sistema, uma forma de governo presidencialista, portanto um pouco, segundo o figurino, em alguma medida, dos Estados Unidos. O sistema de governo Português é o que nós designamos um sistema parlamentar presidencial, o que isso significa? Que o governo é parlamentar, que há primeiro ministro, há dependência da sobrevivência do governo no parlamento. O Presidente da República é eleito também pelo sufrágio direto universal, tem importantes poderes, digamos formais de nomear o governo com base nos resultados eleitorais, pedir o controle da constitucionalidade das leis, submeter a referendo determinadas propostas, determinadas iniciativas, mas não governa, não faz parte, não preside com os seus ministros, não pode convocar conselho de ministros, nunca. Mas diferentemente dos sistemas presidenciais, pode dissolver a assembléia da República e que implica também a demissão do governo, ou seja, tem importantes poderes formais, típicos precisamente do Estado de Direito, em que a forma de governo tem que obedecer a regras definidas na Constituição quanto a sua sobrevivência e quanto ao controle subjetivo dos órgãos, mas verdadeiramente é um presidente que não governa, tem limites completamente diferentes do sistema brasileiro. Quanto ao tipo de Estado previsto na Constituição, é um tipo de Estado como o que significa no Brasil, um Estado intervencionista que começou por ter amplos poderes no setor público, dito nacionalizações de muitas indústrias. Hoje, tendo em conta a própria integração européia, praticamente é um Estado que privatizou de novo essas indústrias e setores nacionalizados. Sobretudo, um Estado incentivador, negociador, garantidor, mas já não é um Estado produtivo, já não tem indústrias, tem poucas empresas e daí que hoje o sistema em vigor no País é um sistema substancialmente diferente daquele que foi inicialmente conformado no texto original de 1976. Com a entrada de Portugal na Comunidade Européia, o que mudou na Constituição em relação à economia e demais setores da sociedade? Bem, quanto a Por tugal, mudaram bastantes coisas, primeiro a nível da própria idéia de soberania, soberania nacional, soberania estatal é hoje uma soberania com poderes e competências partilhadas, como diz a própria Constituição, alguns Países falam mesmo de transferências de soberanias, Portugal fala de poderes partilhados, de competências. Os estados ainda continuam os donos dos tratados e dessas mesmas competências, mas de qualquer modo temos que reconhecer que muitas das competências, sobretudo em termos de políticas, política agricultura, política do comércio, agora inclusive a política de imigração, já são diretivas comunitárias, que condicionam enormemente o próprio País, portanto, isso logo, a nível dos órgãos soberania. Depois no nível de direitos fundamentais, em vez de termos direitos fundamentais econômicos, sociais e culturais, além dos tradicionais direitos de liberdade, o que se desenvolveu foi a lógica dos direitos de liberdade econômica, liberdade de circulação, de pessoas, de serviços, de mercadorias, isso é que estruturou inicialmente a União Européia e como vê a primazia era cumprida, liberdades econômicas e não as liberdade pessoais, políticas e democráticas. O que implica uma grande transformação do próprio sistema. Em terceiro lugar, isso foi sobretudo agitado na proposta do tratado da Constituição Européia que como sabe não vingou. O que “significava” era isto, o que restava para os estados como a Constituição européia, quais eram os déficits de dimensão democrática e como é que se podia recortar com rigor a chamada cidadania Européia e todos esses são problemas que ainda não foram resolvidos. Mas poderemos dizer que hoje Portugal é um País em que muitas das iniciativas econômicas e políticas, estão condicionadas pela integração dentro da União Européia, portanto o País mudou muito, até porque também recebeu muito da União Européia em termos de fundos comunitários. Quais os princípios basilares que norteiam o Direito Português? Os princípios basilares, eu costumo sintetizar isso em termos Estado de direito democrático de duas formas, ou a partir de duas premissas. Primeiro, os princípios fundantes, que eu costumo designar é o princípio da dignidade da pessoa humana e o princípio da autodeterminação democrática. Sem esses dois princípios, ou seja, a pessoa como pessoa, não com objeto, quer poderes privados, quer poderes públicos e a pessoa com dignidade e reconhecimento por parte dos outros é verdadeiramente fundamental para termos uma cidadania em qualquer País do mundo. Em segundo lugar, a autodeterminação, no fundo se não houver autodeterminação democrática, pode não ser independência, mas se não houver autodeterminação dos povos também não podemos prover a dignidade como povo. E não podemos afirmar nossa identidade como pessoas e como pessoas de identidade como povo e esta idéia de autoformatação das nossas próprias volições, ou seja, dos nossos próprios desejos, quanto a uma comunidade organizada e quanto aos direitos que devem estar aí enraizados. Nessa medida, eu diria que esses são os dois pressupostos fundamentais. Depois, evidentemente, a vinculação do poder a regras jurídicas ou princípios da juridicidade, “que deliberadamente” o Estado de Direito, em termos tradicionais. A idéia que um poder pode justificar a divisão vertical em termos territoriais, regionais e locais, penso que isso é importante para um País, para uma estrutura democrática, a própria separação dos poderes e evidentemente outras dimensões que caracterizam de várias formas o estado. Mas eu diria que, sobretudo o princípio da socialidade quanto aos direitos econômicos, sociais e culturais, o princípio da paz, o princípio da hospitalidade nas relações internacionais, no fundo isso são premissas mínimas digamos assim, mas de qualquer modo princípios fundantes e princípios estruturantes de um Estado de Direito democrático constitucional como é o português e como é o brasileiro. O senhor poderia fazer um comentário sobre as desloca- ções do Estado de Direito democrático e social para um Estado de regulação social? O Estado de regulação social está associado a várias outras dimensões, o “livre arbítrio”, a globalização e a privatização e, portanto a idéia da regulação aparece para explicar que o Estado tenha se retirado primeiro da produção direta de bens e para efetivação de direitos sociais e que depois tenha renunciado a própria regulação direta de determinados setores. Podemos ver direitos que tem a ver com as liberdades, por exemplo, o direito de comunicação social, que é uma entidade reguladora da comunicação social. O direito tem a ver com setores econômicos particularmente relevantes, por exemplo, na concorrência, as águas, a eletricidade os transpor tes. Também são hoje entidades privadas a fornecerem esses bens econômicos essenciais, mas o Estado no fundo retirou-se da produção dos bens da direção dessas atividades para assumir o aspecto que, do Estado que regula as próprias regulações, mas ele próprio deixou de ter intervenção direta nisso. “...” É um pouco isso, no Brasil não é tão evidente, mas nos Países da Europa isso é hoje uma dimensão muito clara na evolução do Estado. E por isso nós dizemos que além de ser o Estado garantidor, é um Estado negociador, é um Estado acionista, é um Estado regulador, é um Estado supervisor, mas tudo são adjetivos para tentar explicar as mudanças que houve na compreensão do próprio Estado. Em sua opinião o que representa o Estado de Direito? O Estado de Direito, eu ensinei este ano aos meus alunos do primeiro ano, que o Estado de Direito está sob estresse. Está sob estresse porque aquilo que ensinamos aos alunos são os princípios da juridicidade estatal, a vinculação do poder a regras do direito, autonomia da pessoa, a divisão dos poderes, a autonomia local, os princípios da proibição do excesso, “da articulação, da caducidade”, da proporcionalidade, mas hoje se reconhece que isso é insuficiente. É insuficiente porque a deslocação de poderes no sentido de prevalência, em virtude de opções, no nosso caso a União Européia, e do esquema global que acentua a dimensão “escutivística”, ou seja, perturbando claramente a separação de poderes. Depois mesmo a nível das articulações locais e territoriais, há hoje perturbações, porque muitas vezes tendem a deslocar-se lógicas de federalismos competitivos em que os territórios mesmo dentro do próprio País umas comunidades, umas regiões, tentam elas próprias desenvolver-se à revelia das outras. O que perturba claramente também esta lógica do Estado de Direito, tal como igualdade e por outro lado uma lógica do Estado de Direito que tem a ver muito com os fenômenos denunciados a nível nacional e internacional e que, sobretudo a corrupção. A corrupção que há documentos nas Nações Unidas a prever esse fenômeno que perturba o Estado de Direito, perturba os direitos sociais, perturba os direitos fundamentais e perturba a própria democracia. Sabemos que agora o senhor teve o lançamento de um livro e que é de patentes e se chama Pipeline. Pipeline é o mecanismo em que a patente expedida no exterior é reconhecida no Brasil apenas até o tempo em que ela leva para expirar no País de origem. Mas, primeiramente, gostaríamos que o senhor explicasse o termo Pipeline, cuja tradução para o português

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Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 13 seria tubulação, a que se refere, nas questões das patentes Pipeline? Pipeline são no fundo as patentes que estão no tubo e estão a aguardar o registro por parte das entidades responsáveis, porque esse registro demora muito tempo e porque são precisos experiências, muitas vezes as entidades de controlo exigem mais experiências, sobretudo quando se trata de produtos em seres humanos e verdadeiramente eles não podem ser colocados no mercado. E daí que o produto já existe, já está registrado, mas ainda não está em circulação. E o que acontece é que há essa exigência das próprias empresas farmacêuticas, em vir tude de muitas vezes não terem culpa da demora do registro e da autorização do produto, chegam a um acordo com os próprios governos, tipo o governo dos Estados Unidos, “olha vocês demoraram quatro anos para licenciar este produto, pelo menos devem nos dar mais algum prazo. Porque esse produto esteve no tubo, mas verdadeiramente nós não podemos comercializar”. Isso equivale em geral a dois anos e meio, uma vez é mais rápido, outras vezes menos, mas em geral são as próprias entidades, que querem que façam mais experiências “ainda não estamos satisfeitos” e portanto é um pouco essa lógica de que os internos, os vinte anos ou quinze, mas de qualquer modo há sempre um prazo entre quinze a vinte anos, para as patentes. Hoje, isso é quase universal esse prazo exclusivo, digamos assim, é quando se acrescenta mais algum tempo para nos beneficiarmos de um tempo esse ativo da vigência da patente e não propriamente de vinte anos, menos três, que foi o que demoraram no controlo do produto. Ora bem, isso é estender retroativamente às patentes, é no fundo aumentar o prazo da patente, não? Compreende, ainda razoavelmente é mentir o tempo real da patente durante esses quinze ou vinte anos, por tanto é um pouco esta problemática que existe aqui. E agora o problema das patentes é outro, como tenho denunciado, há um discurso dimencialmente dicotômico em torno dessas questões, por um lado quem tem patente é defensor do capitalismo das farmacêuticas, por outro lado quem defende quem é contra as patentes é amigo da saúde pública. Penso que não é assim que se colocam as coisas, é por um lado, a Constituição brasileira garante a propriedade intelectual, onde está a propriedade industrial e o direito exclusivo. Direito exclusivo é uma fórmula que eu não gosto muito porque é o direito do autor, que se beneficiam num certo tempo, como eu próprio, durante um certo ponto em virtude do meu trabalho, da minha criatividade, da minha investigação, portanto, eu penso que isso não é crime nenhum, tanto acho que é rasoável. No caso das farmacêuticas, é óbvio que hoje, não há sábios, não há pessoas individuais a investigar, há grandes equipes, há grandes indústrias a investigar e, portanto sintetizar produtos e descobrir implica muitos investimentos, muitos anos e, portanto acho que a lógica do comércio internacional no tríplice da Organização Mundial do Comércio é por aqui. E eu gostaria que os Países, à medida que pudessem, começassem também a entrar nesse jogo, porque é sinal de evolução de desenvolvimento tecnólogico. Evidentemente cabe não só “...lógicas”, digamos, as licitações, as autorizações compulsórias e permito portanto soluções “ligatórias”, quando em vir tudes prementes, evidentes e inadiáveis das cidades é preciso soluções mais flexíveis que não são compatíveis com o prazo das patentes e portanto preciso dizer que no Brasil, claro não é muito uma forma não muito rigorosa, mas é nesse sentido, arranjar um jeito flexível, muitas vezes para dizer isso “olha vocês têm a patente reconhecemos, mas tem que ser liberadas porque há problemas especulativos em termos de saúde, grave, tipo, no combate à SIDA no Brasil, na África, na África do Sul” e aqui também está previsto, portanto a definição em termos do Estado de Direito dos pressupostos normativos dessas funções. Em rigor, em rigor o que às vezes acontece é que estamos à espera da caducidade das patentes, para fabricar os genéricos. Pois bem, os genéricos são produtos de qualidade em grande quantidade, mas que nasceram nas investigações anteriores das patentes e, penso que um País não se desenvolve muito, embora seja uma boa regra também, digamos ter patentes dos últimos produtos, ter genéricos também das mais recentes evoluções, depois das caducidades das patentes. Mas não fará mal, eu acho, esse é um desafio dirigido ao Brasil, que Países que fabricam aviões, também podem fazer investigações a nível de farmacêuticas. Gostaria que o senhor frisasse a importância da patente Pipeline e quais os benefícios para a sociedade? As patentes Pipeline não são outra coisa do que patentes e, portanto é que as patentes demostram hoje uma superioridade para os Países que gastam dinheiro, que têm equipes, inovação e conhecimento. À medida que os medicamentos são mais sofisticados, mais apurados e, em termos de saúde pública, um medicamento desses presupõe, por partes das entidades de controlo muitos testes, muitas experiências, que não são efetivadas pelas cópias, porque as cópias tentam capitar qual é a substância ativa, mas não fazem as experiências. E daí que muitas vezes as funções patenteadas presupõem essa investigação, presupõem as experiências e evidentemente que tentam acrescentar alguma coisa, a esse progresso coletivo que deriva da investigação na indústria farmacêutica. Cabe frisar, a grande parte do progresso, por exemplo, nos sistemas de transplantes de órgãos, de coração, rins, uma parte dos pulmões, deriva de produtos farmacêuticos, seja quanto à rejeição do órgão, quanto mais eficazes, mais eficientes, mais desenvolvidos, tanto melhor. “...” Eu penso que hoje o Brasil que conheço não o que conheci, quando vim pela primeira vez foi em 1979, precisamente representar o Portugal democrático, ainda na época dos generais, da ditadura, portanto. De modo que o Brasil é outro, completamente, outro País, de maneira que eu não gostaria de colocar tons muitos pessimistas, o Brasil está hoje capaz de tomar decisões, opções políticas, e são evidentemente os próprios brasileiros que devem valorar essas coisas e não é um estrangeiro que vem aqui também vender moralidades políticas e constitucionais, como compreenderá, não é. O Senhor pode comentar a tendência atual da proteção intelectual em relação aos modelos alternativos de incentivo à inovação? Eu penso que nesse aspecto é assim, nós hoje temos um programa comunitário de apoio de 21,5 bilhões de euros, precisamente para inovação e conhecimento, já não é para estradas, já não é para convergência econômica, por um lado para coesão, mas por outro lado está lógica que só posso competir com os Estados Unidos melhorando em inovação e conhecimento. E daí que uma boa parte dos investimentos que se querem fazer é para laboratórios associados, para projetos de inovação em termos informáticos para, por exemplo, projetos de nanotecnologia em termos da medicina, porque são esses projetos que vão se candidatar a fundos europeus. E sobre essa perspectativa, não é só já da propriedade, da propriedade autoral individual e com direitos do autor, mas também essa lógica de que essa inovação em termos excepcionais, por exemplo, através das universidades, através de equipes, não sendo só uma pessoa, mas a par, os produtos delas, estão sempre associados às patentes. A nossa Universidade de Coimbra que não estava muito atenta a isso, agora para qualquer inovação e qualquer produto que trata, já tem um setor próprio de patentes. Portanto como vê não são mecanismos contraditórios, embora me pareça que para termos patentes é preciso ter um montante, era o que eu estava frisar a pouco, inovação e conhecimento, e daí que, por exemplo, eu próprio já teria uma patente, dentro dos meus temas, o tribunal universitário e europeu, que agora o governo emanou uma lei a prever tribunais universitários. Mas eu pude dizer, a patente é minha, porque tive a iniciativa, vou fazer isso, embora o governo através da lei tenha reconhecido as outras universidades por esta capacidade de inovação dentro dessa perspectiva, de uma forma inovadora de melhorarmos o nosso nível de justiça, logo o nível universitário para os alunos e para a justiça. Portanto, eu penso que é preciso outro esquema de diálogo nessas questões, porque não devemos ter essa visão econômica, essa visão dicotômica de amigo-inimigo em questões que não devem ser pautadas por essas imagens. Para encerrar, o senhor poderia falar um pouco sobre o livro “A questão da Constitucionalidade das Patentes “Pipeline” à luz da Constituição Federal Brasileira de 1988”, publicado pela editora Almedina de autoria conjunta com os também professores portugueses Jónatas Machado e Vera Lúcia Raposo? Quanto a esses colaboradores, o Jónatas Machado que foi o meu discípulo e agora é meu colega, porque ele é uma pessoa de direito internacional e também direito constitucional, mas direito internacional, hoje as patentes têm um regime internacional que é da Organização Mundial do Comércio era importante trazê-lo. A Vera Lúcia é uma investigadora que tem passado um tempo nos Estados Unidos, por tanto está a par dessas instituições das patentes nos últimos tempos, ela tem investigado isso. Quanto à menção da Constituição brasileira, o problema que se põem, é que aqui há um problema no Brasil, que diz que as patentes são inconstitucionais, não só as Pepiline, mas as patentes. Portanto é norma que me cabe explicitar e que me cumpre, digamos assim, de uma forma sistemática, racional e convincente procuro em termos jurídicos, “o que significa quando a Constituição brasileira diz: é garantida a propriedade intelectual, propriedade industrial e o direito exclusivo nos termos definidos por lei”. Pois bem, o que significa aber tura da Constituição brasileira agora essa de 1988. Os direitos do autor, a propriedade intelectual, a propriedade industrial ou o que vocês chamam exclusivo, o exclusivo é porque dentro desse período a um direito exclusivo dos autores, dos inventores, dos inovadores. E, portanto o discurso deixa muitas vezes essas premissas mais políticas, mais globais, para se concentrar na leitura concreta do texto constitucional da lei magna, porque, nos nossos termos de Estado de Direito, ainda uma das dimensões fundamentais é o princípio da constitucionalidade é isso que eu trato numa certa parte do livro, sobre essa questão problemática. “Pipeline são no fundo as patentes que estão no tubo e estão a aguardar o registro por parte das entidades responsáveis, porque esse registro demora muito tempo e porque são precisos experiências, muitas vezes as entidades de controlo exigem mais experiências, sobretudo quando se trata de produtos em seres humanos e verdadeiramente eles não podem ser colocados no mercado.”

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14 Estado de Direito, novembro e dezembro de 2008 Rigidez, flexibilidade e reforma do CPC Teresa Arruda Alvim Wambier* Nos últimos tempos, tem-me preocupado de maneira acentuada a pouca atenção que se tem dado no Brasil ao princípio da isonomia. Levar a efeito de forma plena o princípio da isonomia implica que a mesma lei seja aplicada de idêntica forma a situações iguais. A desuniformidade da nossa jurisprudência num mesmo momento histórico e a rapidez com que ocorrem as ditas “viradas” da jurisprudência já pacificada é surpreendente, assustadora, indesejável e nociva. Os Tribunais de 2.º grau não seguem a jurisprudência dos Tribunais Superiores. Existem divergências jurisprudenciais intensas entre órgãos fracionários de um mesmo tribunal. Os Tribunais Superiores divergem entre si. Exemplo expressivo desta divergência é o termo inicial para o prazo da ação rescisória, quando há duas decisões de mérito num mesmo processo. O STJ tem entendido que o termo inicial deste prazo é a última coisa julgada. Já no STF, tem-se entendido que há vários prazos, cada um com um termo inicial diferente. Ou seja, havendo duas coisas julgadas, formadas em momentos diferentes, haveria dois prazos e duas ações rescisórias. Outro caso que chamou a atenção nos últimos tempos foi o que diz respeito à incidência de ISS sobre leasing. O STJ chegou a sumular a questão e hoje entende que se trata de questão constitucional! Sabe-se que o prequestionamento é outro assunto sobre o qual não concordam entre si os nossos Tribunais Superiores. Com certeza, o caso do Cofins, bem recente, também é um exemplo expressivo. Enquanto a jurisprudência não se tornar mais estável, enquanto continuar a haver grandes viradas e se a jurisprudência dos Tribunais Superiores não for respeitada (a começar por eles mesmos!) não se poderá falar em respeito ao princípio da isonomia. Não me refiro a hipóteses em que o tempo deve gerar mudanças interpretativas. Há casos em que é saudável a alteração do entendimento da jurisprudência, como, por exemplo, aqueles em que se discutem questões de família. Felizmente, por outro lado, parece que o legislador já se apercebeu desta realidade: da necessidade de estabilidade da jurisprudência e de respeito aos precedentes dos Tribunais Superiores. Então criou a nova redação do art. 557, que prestigia súmula e jurisprudência dominante! Temse também o art. 285-A, que deve ser entendido, na interpretação que consideramos correta, como um dispositivo que prestigia a idéia de segurança jurídica, não permitindo que prevaleça a jurisprudência “pessoal” do juiz Evidentemente, os arts. 543-B e C só terão rendimento se houver respeito à jurisprudência consolidada De fato, os sintomas de que o legislador se apercebeu desta necessidade são muitos. No entanto, e isso pode soar paradoxal, para que se leve a efeito de forma plena o princípio da isonomia, considerado em seu sentido essencial no processo, a fungibilidade deve ser aplicada de forma ampla. O sentido deste princípio é o de que não se pode prejudicar a parte, quando não há uma verdade estabelecida a respeito de qual seja o caminho correto para se chegar a um ponto no processo, para se formular um pedido. Sabe-se que, tradicionalmente, o âmbito de aplicação deste princípio é o dos recursos. Mas acredito que não deve haver esta restrição. Constava do art. 810 do CPC 1939, mas sua formulação expressa foi suprimida no CPC de 1973. Porém, logo se viu que seria necessário. Penso que a razão de ser do princípio indica que não há porque restringir seu âmbito de aplicabilidade aos recursos. O CPC não é mais um sistema, no sentido mais puro da expressão. A forma sistemática do Código vem sendo imprimida com habilidade, pelos seus intérpretes. Mas, com a mais absoluta certeza, hoje já não se pode dizer que só há um meio de se atingir uma finalidade determinada. Há, sim, vários modos possíveis de se chegar a resultados equivalentes. O legislador reconheceu isso e até mencionou a fungibilidade que deve existir entre as espécies tutela de urgência, no art. 273, § 7.º. As dúvidas são muitas. É sentença a decisão que concede “antecipação de tutela”, quanto a pedido incontroverso? Desta decisão cabe agravo? Apelação? Ou apelação por instrumento? Como se deve fazer o depósito para suspender a exigibilidade de crédito tributário? Por meio de ação cautelar? De mandado de segurança? Ou se trata de mera medida administrativa? De quem é a competência para conceder o efeito suspensivo para a apelação, nos casos do art. 520? Do juízo “a quo”? Do juízo “ad quem”? Por meio de medida cautelar? Há uma decisão monocrática, do Min. Cezar Peluso, acerca de qual seria o modo “correto” para se “destrancar” o recurso extraordinário retido. Este regime foi criado pela Lei 7.956/98 que não menciona nenhuma exceção. Os advogados têm sido criativos. Mas qual seria o caminho realmente adequado? Mandado de segurança? Cautelar? Agravo (interposto de pedido negado, feito no juízo “a quo”)? Reclamação? Nesta decisão, considerou-se indiferente o meio escolhido, pois há apoio dogmático para todos os caminhos. A grande lição desta decisão diz respeito à desnecessidade de conversão de uma medida na outra! Como “fecho” destas reflexões, que quis compartilhar com a comunidade jurídica, eu diria o seguinte: levar às últimas conseqüências a regra de que cada juiz tem que decidir o mérito de acordo com a sua convicção e não aplicar o princípio da fungibilidade, no plano do processo, quando este deve ser aplicado, no fundo são fruto do mesmo problema: cada juiz quer que prevaleça a sua opinião. Mais do que reformar o CPC, é preciso reformar mentalidades. * Livre-docente, doutora e mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP . Professora nos cursos de graduação, especialização, mestrado e doutorado da mesma instituição. Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual - IBDP (tesoureira), do Instituto Ibero-Americano de Direito Processual, da Academia de Letras Jurídicas do Paraná e São Paulo, do Instituto dos Advogados do Estado do Paraná - IAPR e do Estado de São Paulo - IASP , do Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM e do Instituto Panamericano de Derecho Procesal. Considerações sobre a incorporação e as medidas de proteção aos credores das sociedades envolvidas Ana Cláudia Redecker* A incorporação, que nada mais é do que uma forma das sociedades se reorganizarem, é uma operação extremamente relevante para a vida das sociedades e, por isso, está sujeita a um procedimento próprio previsto tanto na Lei nº 6.404/76 (LSA), quanto na Lei 10.406/2002 (CC/02). De acordo com o art. 277 da LSA, “A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outras, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações”. As mais variadas razões justificam a realização do processo de incorporação, sendo algumas estruturais e outras conjunturais. As estruturais, normalmente, têm origem na empresa, ou nas empresas, ou ainda na forma como elas são concebidas. Por exemplo: uma sociedade constitui-se com objetivo de desenvolver uma determinada empresa para atuar em certo mercado, e outra, detida direta ou indiretamente pelos mesmos sócios, ou por um ou alguns deles, para atuar em mercado análogo ou paralelo. Neste caso, a estrutura societária pode revelar-se inadequada, na medida em que ambas as sociedades incorrem, certamente, nas mesmas despesas, tais quais de aluguel de sedes, serviços de apoio, departamento financeiro e de recursos humanos etc. As conjunturais podem ser: (1) eliminar concorrente; (2) adquirir marca com prestígio junto ao público; (3) possibilitar melhor abordagem do mercado etc. A LSA e o CC/02, ao regularem a incorporação objetivam conciliar o interesse das sociedades envolvidas na operação com a proteção dos direitos dos sócios, a garantia dos credores e a segurança de terceiros. O procedimento de incorporação na LSA está previsto nos arts. 224, 225 e nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 227; no CC/02, no art. 1117. Em relação aos credores a LSA tratou de protegê-los no art. 232; o CC/02, no art. 1122 [o teor dos dois artigos diferem apenas no prazo decadencial previsto para os credores se manifestarem, enquanto nesse é de 90 (noventa) dias, naquele é de 60 (sessenta)]. Esse artigo prevê que, “até noventa dias após publicados os atos relativos à incorporação, fusão ou cisão, o credor anterior, por ela prejudicado, poderá promover judicialmente a anulação deles”. Assim, se a operação de incorporação resultar em prejuízo para os credores, o art. 1.122 do CC/02 concede ao credor que se sentiu prejudicado a faculdade de pleitear judicialmente a anulação da operação. O prazo para exercer esse direito, sob pena de decadência, é de 90 dias contados da publicação dos atos relativos à incorporação. A prova da publicidade é feita mediante anotação nos registros da Junta Comercial à vista da apresentação da folha do Diário Oficial, ou do jornal onde foi feita a publicação (art. 54 da Lei nº 8.934/1994). A incorporadora, para evitar o prosseguimento da ação anulatória, pode consignar em pagamento o valor relativo ao crédito do credor que tenha sido prejudicado (art. 1.122, §1º do CC/02). Se a dívida for ilíquida, a incorporadora poderá garantir a execução, suspendendo-se o processo de anulação (art. 1.122, § 2º do CC/02). Prevê ainda que, na falência da sociedade incorporadora, qualquer credor anterior, mesmo que não tenha sido prejudicado com a operação de incorporação, terá o direito de pedir a separação dos patrimônios das sociedades, para o fim de serem os créditos pagos pelos bens das respectivas massas (art. 1.122, § 3º do CC/02). Desta forma, caso não se verifique nenhuma das hipóteses anteriores, os credores da sociedade incorporada passam, em decorrência da sucessão universal, a serem garantidos pelo patrimônio da incorporadora. Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça já decidiu que “a empresa incorporadora sucede a incorporada em todos os seus direitos e obrigações, de modo que a indenização por esta devida em processo já em fase de execução constitui obrigação a ser satisfeita pela incorporadora” (Recurso em Mandado de Segurança n° 4949-3 – Minas Gerais. DJU 13.03.1995, Seção I, p 5284). Em conclusão, é fundamental destacar que todas essas regras previstas na LSA e no CC/02 direcionadas à incorporação acabam por criar um importante sistema de proteção aos credores cujo propósito é atender, sobretudo, ao princípio da segurança jurídica, informador de todo o ordenamento jurídico brasileiro. Pode-se dizer, assim, que a razão fundamental dessas regras é permitir aos credores que, ao negociarem com as sociedades, tenham uma garantia mínima: a de que seus direitos não serão substancialmente alterados e prejudicados por operações impulsionadas pela vontade exclusiva das sociedades e de seus sócios. *Doutoranda em Ciências Jurídicas-Económicas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Mestre em Direito pela PUC/RS, professora de direito da PUC/RS, UniRitter, IDC, CETRA, Retorno Jurídico e advogada.

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