Revista O PROFESSOR - Edição 18

 

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Revista do Sindicato dos Professores do ABC - 1º semestre de 2014

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Edição Especial 1º semestre de 2014 - Número 18 Entrevista com o filósofo João Vicente Goulart O PROFESSOR 1 Revista

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Editorial 1964: É preciso relembrar e reagir Revista O PROFESSOR Publicação do Sindicato dos Professores de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano Sul Ano VI - Número 18 - 2014 SINPRO ABC - Gestão 2012/2015 ISSN 1807-7994 ão é difícil encontrar análises conservadoras sobre o período da ditadura civilmilitar no Brasil, há desde as mais “ingênuas”, que apenas lembram o milagre econômico e a falsa sensação de segurança, sem olhar para a repressão, para o endividamento externo e aumento da dependência econômica que marcaram o período, até as análises revisionistas, que buscam colocar a culpa nas vítimas e reduzir a gravidade do período de exceção, aderindo à teoria da “ditabranda” da Folha de São Paulo, como se a manutenção de mecanismos democráticos durante o período pudesse minimizar o assalto da democracia realizado pelos militares e patrocinado por parte interessada da elite empresarial. Nessa história, o ABC costuma ser lembrado positivamente pela intensificação da atividade sindical durante o período da abertura, nos anos 80, mas pouca gente conhece outras histórias, mais dramáticas, como a dos irmãos Carvalho, um grupo de cinco irmãos que, como muitos, vieram para a região em busca de trabalho na indústria local, e dos quais três foram assassinados por agentes da ditadura. Ou a história da atuação dos religiosos da região protegendo militantes perseguidos, tão bem narrada pelo Padre Mahon nesta edição. Por tudo isso é importante não apenas lembrar esses 50 anos do golpe, mas aproveitar a data para combater as teorias conservadoras, levar o debate às novas gerações e homenagear nossos mártires. É esse o espírito desta primeira edição especial da revista “O Professor”. N Expediente Presidente do SINPRO ABC - José Jorge Maggio Secretária de Imprensa - Jorge Gonçalves Secretário de Imprensa suplente - Denise Filomena Lopes Marques Jornalista responsável e reportagem - Débora Ferreira (MTb 49.139) Projeto Gráfico: Débora Ferreira e Israel Barbosa Capa: Israel Barbosa Tiragem: 4.000 exemplares Gráfica: Yangraf Gráfica e Editora 11 2095-7722 SINPRO ABC - Rua Pirituba, 61/65 - Bairro Casa Branca - Santo André CEP 09015-540 - São Paulo www.sinpro-abc.org.br • imprensa@sinpro-abc.org.br • facebook.com/sinproabc Os artigos assinados nessa publicação não expressam, necessariamente, a opinião do Sindicato. www.revistaoprofessor.com.br Revista O PROFESSOR 3

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O PROFESSOR Sindicato dos Professores do ABC Edição 18 - 2014 Revista Especial Educação O Golpe que quis calar o País Conheça relatos dramáticos de situações que aconteceram no Grande ABC 10 Lousa, Giz e Chumbo Em meio a um emaranhado de fusões, o ensino superior privado segue de vento em poupa 20 E mais Entrevista com João Vicente Goulart Nacional: O Golpe Empresarial-Militar Como fotografar uma ausência 8º Congresso do SINPRO ABC Artigo "A Mídia e o Golpe Militar de 64" "A Ditadura Militar no Brasil e o futebol "O Golpe Militar de 64 e os trabalhadores" Plebiscito Poupular: as mudanças no Brasil são necessárias! Sala de Aula Charge 4 O PROFESSOR Revista 05 16 18 24 26 28 30 32 33 34

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Entrevista As marcas do Golpe Civil-Militar vistas sob o olhar do filho do ex-presidente Fotos: Israel Barbosa Em entrevista exclusiva ao Sindicato dos Professores do ABC (SINPRO ABC), realizada na cidade de Campinas, em São Paulo, o filósofo João Vicente Goulart, 57 anos, filho mais velho do ex-presidente João Goulart, o Jango, com Maria Thereza, fala um pouco sobre suas lembranças do Golpe CivilMilitar e a perda de seu pai, político brasileiro e o 24° presidente do Brasil, de 1961 a 1964. Revista O PROFESSOR 5

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OP - Qual sua lembrança "Na época, ele disse impediu, em 1954, com a imolação da própria vida. Na época, ele sobre o Golpe Civil-Militar, que o povo que havia declarou que o povo que havia ainda há feridas que não sido escravo não sido escravo não seria escravo de cicatrizaram? João Vicente - A minha seria escravo de mais mais ninguém, e que não repetiria o exílio e, assim, impediu o Golpe lembrança visual é muito pouca, ninguém..." com o seu suicídio, que por isso eu tinha apenas 7 anos de idade foi adiado. Era algo planejado no Golpe de Estado, então, é uma contra as conquistas sociais dos lembrança de criança, que viu trabalhadores, que vinham desde Getúlio, por coisas e dias diferentes, malas indo e voltando, isso o Golpe foi adiado em 10 anos e caiu no tendo que sair correndo de Brasília, no Distrito colo do Presidente da República João Goulart, Federal, que era o nosso lar e não poder levar o Jango. Um golpe, evidentemente, dado nem os cachorros, enfim, foi uma lembrança contra as conquistas sociais dos trabalhadores muito esporádica, e hoje, após 50 anos, a no Brasil e contra o Partido Trabalhista lembrança ainda continua assim. A realidade Brasileiro (PTB) da época, que vinha crescendo, do Golpe Civil-Militar nós só viemos a entender vertiginosamente, em suas conquistas sociais depois, já no exílio, onde aquelas memórias se e na ação parlamentar, porque o PTB da tornavam, na verdade, uma grande tragédia, época, pelo tamanho do Congresso Nacional, não somente para a família, como também para também à época, foi e é, até hoje, o partido a nação brasileira, ou seja, nós fomos crescendo que conquistou sozinho o maior número de em países diferentes, nos acostumamos a ser congressistas no País, inclusive, mais que o aves migratórias, porque, à medida que as Partido dos Trabalhadores (PT), em números democracias foram caindo na América Latina, proporcionais na atualidade, e a renúncia do fomos sendo perseguidos, saímos de um país presidente Jânio Quadros revela, realmente, a para outro, e outro, e, essa foi a constituição intenção de seus três ministros militares em do exílio; assim as lembranças visuais, em si, dar o Golpe. Isso não foi possível, porque o muito escassas. Eu, agora, estou até escrevendo Congresso aprovou a renúncia, e aí vem toda um livro, para a Civilização Brasileira, sobre a crise de 1961, decorrente da renúncia de fragmentos de memórias, frações de relatos, Jânio, quando Brizola levanta a legalidade, mas nada que seja uma pesquisa histórica nem também impedindo o Golpe de ser consumado dados oficiais, pois isso fica por conta dos naquele momento. Quando retiram os poderes historiadores, e eu, na verdade, vou fazer uma presidenciais do Jango, mas ele reconquista recopilação desses fragmentos familiares. 87% desses poderes através do Plebiscito, e parte para as reformas, é que vem o Golpe OP - Você avalia que o Golpe CivilCivil-Militar em 1964. Militar foi planejado antes mesmo de seu pai, Jango, tomar posse da Presidência da OP - Qual o impacto na educação? República? João Vicente - O impacto na educação João Vicente - Sem dúvida, e eu vou até é tremendo até hoje, acho, inclusive, que foi mais além, acho que o Golpe estava programado um dos choques mais dramáticos que temos contra o presidente Getúlio Vargas, só que ele 6 O PROFESSOR Revista R evi ista t

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como reminiscência da Ditadura em nossa sociedade, porque se pensava, em 1964, em uma universidade humanista, a sociedade brasileira queria criar universidades independentes, a Universidade de Brasília (UnB), criada por Jango e Darcy Ribeiro, foi o primeiro plano piloto de uma universidade desse tipo, que buscava formar pessoas que pensassem no Brasil e não em si mesmas. A Lei 5.540 (Lei da Reforma Universitária - veja na página 21) fragmentou todo o progresso educacional no País, pois o Brasil passa a ter uma educação tecnicista, voltada para o modelo dos Estados Unidos e criou-se, durante a Ditadura, o esquecimento do que era uma universidade humanista, que construísse pessoas e não interesses, assim a educação se torna, no Brasil, uma educação dirigida para interesses empresariais. A gravidade de tudo isso é que, por falta de debates, ou seja, pela omissão das informações em duas gerações que estudaram naquele momento, não de criou a cultura de que pensar no Brasil é mais importante que pensar em si mesmo, o que gerou esta meritocracia que temos, instalada, incrustada, criandose castelinhos nas mentes dessa nossa classe média, que se interessa apenas pelo sucesso do filho. Em razão disto penso que o grande prejuízo que a Ditadura produziu na educação foi, exatamente, esse pensamento de instituir que tudo é mérito, que em nome desse mérito vale tudo, e quem não puder que fique para trás. Criou-se a mentalidade de que se a pessoa quer ficar rica tem que ser médico, quando deveria ser o contrário, se quiser ser médico é para atender a população, esta distorção gera uma confusão de princípios fundamentais, que em filosofia chamamos de princípios inadjetiváveis, porque se você fala em “liberdade” e em “humanismo” não pode falar em “excessos”, então, são conceitos unívocos que no Brasil se tornaram adjetiváveis, impulsionando o processo educacional competitivo, fundamentado pela Lei 5.540. Acredito que essa foi a grande tragédia do Brasil no campo da educação que gerou a alienação das gerações da classe média brasileira subsequentes, resultando na necessidade de implementação de programas como o “Mais Médicos”. OP - No exílio, como seu pai se sentia não podendo voltar para o Brasil? João Vicente - Ele dizia que o exílio era uma invenção do demônio, porque mantinha as pessoas vivas e respirando sem ter as condições de participar da sua própria vida, ou seja, ficar com sua família, seus amigos, em sua terra, bandeira, hino, músicas, cultura, assim, penso que o exílio é uma experiência muito dramática, pela qual passamos e ele não pôde voltar, portanto o destino o torna o único Presidente, constitucional, do Brasil a morrer no exílio, mas lutando pela democracia, liberdade e justiça social, seu destino foi esse, pois lutar pela pátria não é pouca sorte para ninguém, e morrer por ela , muito menos. OP - De que maneira a família ficou sabendo sobre o falecimento de Jango? A suspeita da família já era diferente da versão oficial? João Vicente - Nós morávamos na Inglaterra, justamente porque a perseguição era muito grande, à época ele tinha problemas cardíacos e pensamos que poderia ter sido Revista O PROFESSOR 7

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infarto. Suspeitas vieram depois, o porquê de não ter sido feita a autópsia, por que fecharam o caixão, por que teve que sair de lá e ser enterrado e agora, recentemente, nós tivemos declarações, liberações de documentos, que formam um conjunto de indícios que nos levam à suspeitas claras, mas que temos que averiguar. E, por isso, se cria o Instituto João Goulart e pedimos a investigação à Procuradoria Geral da República, que a encaminhou ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul e que ainda está em processo. OP - Foi a família que pediu a exumação do corpo de Jango? João Vicente - Nós, desde o começo, autorizamos a exumação através desse pedido, mas eu quero deixar bem claro uma coisa, a exumação que nós autorizamos é um dos meios para se chegar à verdade. Nós temos plena consciência de que, pelo tempo, ela poderá ser inconclusiva. Há outros dois meios que tentamos, que constam no pedido da família: que o Ministério Público ouça os agentes que participaram da operação, como já fizeram no Chile e Espanha e que peça a desclassificação dos documentos relativos a esse episódio que existem no Departamento de Estado Americano e podem ser liberados após 50 anos. Mas como isso não foi feito e nem foi levado adiante pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, esperamos que o Ministério tenha dignidade, soberania e altruísmo para instaurar uma ação cautelar, que se faz necessária para que um juiz assuma esse pedido, e vá aos Estados Unidos falar com os agentes do Departamento de Estado que precisam ser ouvidos, como outras pessoas já fizeram. No Chile já foi feito. OP - Como foi conviver durante esses anos com as dúvidas a respeito da morte dele? João Vicente - Bom, nós convivemos até hoje. Esse é um desafio muito grande para a família, mas temos a certeza de que estão se esgotando todos os recursos disponíveis ao nosso acesso. E quero dizer mais, se o Ministério Público do Brasil não abrir a ação cautelar, que é obrigação deles, vamos entrar com o pedido, através da Argentina, por orientação da doutora Gilda de Carvalho, que está à frente de nosso pedido. Será vergonhoso para o Brasil que a Argentina faça o nosso dever de casa. OP - Em uma ocasião, o senhor entrevistou o agente Neira Barreiro, que teria participado da operação que assassinou seu pai. Com que sentimento encarou essa passagem e em isso te serviu? João Vicente - Me preparei por muito tempo. A questão envolvendo o Neira Barreiro foi a seguinte: a primeira investigação, em uma Comissão Parlamentar do Congresso Externo, solicitada pelo Brizola, que tinha grandes desconfianças sobre a morte do meu pai, foi encaminhada através do Miro, que à época era o líder do PDT, que estabeleceu uma comissão de investigação externa. O Neira Barreiro não depôs nessa comissão, porque não se conhecia bem esse teor, só em 2002, quando um jornalista uruguaio, Roger Rodrigues, ligado aos Direitos Humanos, foi à Porto Alegre, para receber um prêmio, e realizou uma entrevista com o Neira devido a um processo uruguaio, no qual ele estaria envolvido, junto a um dos médicos legistas do Uruguai, Carlos Milles, conhecido como Capitão Adones, que serviu à Ditadura em operações clandestinas; estando os dois envolvidos, também, na morte da mulher do Senador Herbert, do partido nacional, pois segundo consta ele envenenou alguns vinhos no Uruguai e distribuiu por correio, às casas das pessoas, em uma data próxima, não me lembro qual, Natal ou Páscoa, e a mulher do Herbert tomou e caiu dura. O Roger soube disso no meio da conversação, quando o Neira Barreiro relatou ao Roger, também, sobre a operação escorpião, que consistia no monitoramento 8 O PROFESSOR Revista

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e extermínio do presidente OP - O que precisa "Hoje ainda tem Jango. Quando conheci o Roger acontecer que ainda não foi outros problemas feito? ele me disse que tinha um cara que tinha dito isso, e quando que é o controle da João Vicente - Tanta coisa através do Instituto fomos fazer, (risos). Eu acho que o conjunto de mídia. Jango, na com a TV Senado, o segundo reformas políticas, econômicas época, não tinha filme do Jango, eu disse para o e sociais do País ainda não foi jornalista para irmos até lá, por implementado. Estão paradas internet." conta da declaração, foi então as reformas Agrária, Urbana, que ele começou a falar com os Bancária e a Educacional. Hoje jornalistas, e no meio da conversa ainda tem outros problemas disse que o João Vicente não queria nada, não ligados ao controle da mídia. Jango, na época, queria investigar, eu informei que era o João não tinha internet. Hoje temos como furar um Vicente, assim ele começou falar. Eu mostrei bloqueio de informação, mas 90% dos meios pro Tarso Genro, que na época era Ministro de comunicação estão concentrados nas mãos da Justiça, que disse que iria informar a Polícia de seis famílias, então seis famílias sopram as Federal, e tomou isso oficialmente. O agente informações a 200 milhões de pessoas. Penso Neira declarou muito mais para à Polícia que não pode ser assim, temos que ter uma Federal, dando detalhes da operação e isso foi mídia alternativa. Acredito que como ocorre na o que possibilitou ao Instituto entrar com uma Alemanha, na Argentina, e em outros países, ação de esclarecimentos relacionados à figura temos que socializar, porque queira ou não de Jango, pois declaramos Jango como um bem estamos falando de concessão pública do povo cultural e material da nação brasileira através brasileiro, portanto que 33% dessa concessão do Instituto. Se nós tivéssemos feito o pedido ao seja das televisões comunitárias, que 33% Ministério Público, através da família, como a seja das televisões educacionais e 33% dos nossa Lei de Anistia não tem volta, ela prescreve empresários. Agora, temos 90% em poder de com 20 anos, teríamos, sem dúvidas, recebido seis famílias, não só divulgando as notícias, uma resposta lacônica, de que não haveria mas relatando sua própria versão sobre os investigação porque a Lei não permitia. fatos. OP OP - Qual a importância de Jango ser lembrado ainda hoje? João Vicente - Eu acho que é de uma importância fundamental. Quando a Ditadura pensava que durante 20 anos ia escondê-lo, o Jango surge, hoje, como um líder que realmente lutou pelo Brasil e aqueles que pensaram que o derrotaram estão vendo a sua vitória, eu digo isso sempre. Qual a maior vitória de Jango? Não ter se permitido manter o poder pelo poder, quando ele viu que não tinha condições de resistir, pois isso criaria uma guerra civil, já que a quarta frota americana ia desembarcar na costa brasileira, e invadir o país para declarar Minas Gerais capital provisória, o que dividiria o Brasil, sua atitude foi de estadista. Penso que a grande vitória de Jango, e por isso, atualmente tanto se fala e se debate sobre ele, foi a de não querer conservar o poder pelo poder, para não levar os brasileiros a uma guerra civil e, principalmente, para conservar o território brasileiro unido como está hoje. Detalhes sobre a concentração da mídia em todas as regiões do País podem ser obtidos no site http://donosdamidia.com.br Revista O PROFESSOR 9

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Especial Foto de Evandro Teixeira/1964 Protestos contra a Ditadura no Rio de Janeiro, 1964 O Golpe que quis calar todo o País. No ABC, sofreram 10 O PROFESSOR Revista muitos foram os que

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Golpe Civil-Militar no Brasil, assim intitulado pela historiografia brasileira, pois não foi exclusivamente Militar, ocorrido na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964, foi responsável por encerrar o governo do, então presidente eleito democraticamente, João Goulart, o Jango. Naquela época, grandes proprietários rurais, a burguesia industrial paulista e parte das classes médias urbanas apoiaram o Golpe, que estabeleceu um regime autoritário, e marcou o início de um período de profundas modificações na organização política do País, bem como na vida econômica e social. Tendo durado até 1985, quando Tancredo Neves foi eleito, indiretamente, o primeiro presidente civil desde 1964, o regime militar perseguiu professores, estudantes, obrigou centenas a saírem de suas casas sem levar nada e a se exilarem. Além disso, censurou livros, atacou editores, escritores e fez também com que diversos pensadores da época deixassem o País em busca de socorro. Segundo o filósofo João Vicente Goulart, filho de João Goulart, o Jango, o Golpe causou um impacto tremendo na educação, pois criou o esquecimento do que era uma universidade humanista, que construísse pessoas e não interesses, e assim a educação se tornou, no Brasil, um ensino dirigido para interesses das empresas. (Veja sua entrevista na íntegra na página 5). A Ditadura também interferiu, em grande escala, na vida intelectual do povo brasileiro, por meio de prisões, torturas, entre outros tipos de repressão que causaram marcas permanentes, e, por esses e outros motivos, não há razões para ter saudade do que passou. Os efeitos dessa intervenção violenta se fazem sentir até hoje. Mas, enquanto muitos saíram do País, outros eram recém-chegados. “Eu sou francês, estudei na França e me formei por lá. Quando eu tinha 35 anos de idade, o superior disse que iria mandar alguns padres para o Brasil e perguntou a minha disponibilidade e eu disse que sim. Não conhecia nada do País, nunca nem tinha saído da Europa. Cheguei aqui no dia 1º de dezembro de 1961, estava com 35 anos, e o Jânio Quadros tinha renunciado no mês de agosto, e, em seu lugar tinha chegado o João Goulart. Eu me lembro muito bem que O no dia 8 de dezembro, exatamente uma semana depois que eu cheguei, teve um grande comício na Praça do Carmo, em Santo André, com a presença de João Goulart e Dom Jorge Marcos de Oliveira, bispo da Diocese. Tinha muita gente, muitos jovens, e eu não entendi nada, porque não falava a língua, mas eu percebi que havia uma movimentação política”, relembra o padre José Mahon, 87 anos, referência regional de resistência à Ditadura (foto abaixo). Segundo Mahon, no dia 13 de março de 1962, houve uma grande movimentação na sede de um Sindicato, localizado na Rua Siqueira Campos, em Santo André. “Era uma declaração do João Goulart, os primeiros passos da Reforma Agrária no Brasil, o que chamavam naquela época de Reformas de Base. E isso causou um impacto, pois o País sempre foi dominado pelos ricos, tanto na política como na economia, e quando o presidente, que era um homem de esquerda, começou a falar de Reforma Agrária, eles resolveram caçá-lo. O exército foi convocado e foi preparado o Golpe Civil-Militar. Mas, para esse Golpe Civil-Militar ter êxito, eles inventaram, na segunda quinzena do mês de março, uma maneira de atrair o povo a favor deles, foi quando aconteceram as marchas das famílias com Deus pela liberdade, que se realizaram em todas as grandes cidades e, que na verdade não tinha nada de família, nem de Deus, muito menos de liberdade, pelo contrário. O bispo da Diocese, Dom Jorge Marcos de Oliveira, percebeu que era uma farsa e se recusou a participar”, descreve. No dia 1º de abril, não se tinha nenhuma notícia do que estava realmente acontecendo. Nos rádios, só se ouvia a música militar. Fotos: Israel Barbosa Revista O PROFESSOR 11

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A censura no jornal começou a se tornar constante. Todos os dias havia censores que iam às redações, liam os artigos e o que eles achavam que não ia ao encontro das ideias da Ditadura, simplesmente, mandavam cortar. Em decorrência, os jornais começaram a aparecer com colunas inteiras em branco. De acordo com o relato de Mahon, ficava chato ver o jornal assim, foi então que obrigaram os veículos a escrever alguma coisa no lugar. “O Estado de São Paulo, o Estadão, começou a publicar ‘Os Lusíadas’ para preencher o espaço deixado pela repressão. A população não podia nem falar mais nada. No telefone a polícia estava sempre ouvindo tudo, foi então, que eu e os mais próximos inventamos um código durante as ligações. Quando um encontro seria marcado para depois de amanhã, por exemplo, às 19h, na casa de uma pessoa, então, telefonavam dizendo: Você soube que o Mathias faleceu e a missa de sétimo dia será depois de amanhã, às 7h da noite? Então, a pessoa já sabia que ia ter uma reunião”, detalha. A polícia política tentava fazer armadilhas para prender a qualquer custo. “Nós tínhamos combinado que, quando alguém pedisse uma coisa para o outro, deveria entregar um papel com uma assinatura. Um belo dia, alguém que não era de meu conhecimento, chegou em casa dizendo que uma pessoa com o nome de Antunes perguntou se eu não poderia acolhêlo durante alguns dias. Perguntei se ele tinha mandado um papel, alguma coisa, e disseram que não. Percebi que era uma cilada e, a fim de me safar, discursei que eu era um padre estrangeiro e por isso não deveria acolher alguém que não conhecia e recusei”, conta o Padre. Mahon conta que permaneceu na Igreja da Santa Terezinha, em Santo André até 1971, e logo depois foi transferido para Mauá, no Bairro Jardim Zaíra e Parque das Américas. “Lá havia um grande grupo de jovens que faziam panfletos para denunciar a Ditadura. Produzíamos o material durante a noite e distribuíamos pela manhã. É claro que, de vez em quando, o papel chegava às mãos da polícia, que procurava saber de onde vinha. Por isso, desconfiados, eles mandaram um jovem policial, que se disse estar interessado em participar do grupo de jovens e inclusive foi morar no Bairro do Zaíra. Ele conseguiu entrar no grupo e acabou conhecendo o nome de cada um. Quando foi no final de 1969, começo de 1970, a polícia chegou preparada e pegou muitos, mais de vinte e dois rapazes, moças e alguns adultos, e levaram todos de nós.” Os impressos serviam de alerta, diziam que o povo não podia saber a verdade, já que a Ditadura escondia tudo, mas que havia muitas pessoas presas, sendo torturadas e que não havia mais liberdade no Brasil e, principalmente, faziam um apelo para que o povo se organizasse para resistir. E foi dessa maneira que a população percebeu que realmente existiam problemas e que era necessária uma mobilização por parte de todos. Em Mauá, no dia 2 de novembro de 1973, Dia de Finados, houve um fato marcante. “Havia dois cemitérios na cidade, no Bairro Santa Lídia, outro na Avenida da Saudade, na Vila Vitória, e para uma mobilização mais abrangente foram produzidos panfletos, pois acharam que o melhor seria distribuir nesses locais estratégicos, pelo grande número de pessoas. Então, um jovem foi distribuir folhetos no cemitério do Santa Lídia, mas a polícia chegou e o levou. A mãe foi avisada e veio falar comigo, pois eu era o padre da Paróquia e ele estava sem os documentos. Eu disse que iria até a polícia para entregar e ver o que poderíamos fazer. Quando fui à delegacia, vieram me falar que no cemitério da Vila Vitória outro rapaz também havia sido preso e ambos haviam sido levados para São Paulo, no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Então, eu fui até o local, que ficava entre a Estação da Luz e Júlio Prestes, em um prédio grande que ainda existe”, descreve Mahon. Segundo o padre, chegando lá, sozinho, 12 O PROFESSOR Revista

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mais ou menos sete e meia “O policial pediu os operários se encontravam, pelo menos uma vez ao dia, para saber e da noite, ele se identificou na recepção e falou o porquê de para eu segui-lo que discutir o que estava acontecendo. estar lá. “O policial pediu para ele iria me levar ao Foi um marco, um momento de eu segui-lo que ele iria me levar escritório do chefe. conscientização da classe operária. É claro que os movimentos da ao escritório do chefe. Rezei Rezei muito para igreja, comunidades eclesiais de muito para que o Espírito Santo me iluminasse. Falei que eu era que o Espírito Santo base, classes operárias, a ação católica, também eram fortes, mas um padre francês, porque já me iluminasse." juntos eram grupos pequenos impressionava um pouco por eu comparados ao grande número ser estrangeiro, pois se tivesse de operários da região”, descreve algum problema poderia chegar o padre. ao consulado e ninguém queria isso. Expliquei Durante o período tenebroso da Ditadura que o rapaz estava distribuindo algo que aconteciam também os comícios relâmpagos, talvez nem soubesse o que era, e que ele não nos quais um grupo de vinte e cinco pessoas, tinha documentos. Ele me escutou, olhou os entre jovens e adultos, ia para a estação do documentos, e falou que iria soltar o rapaz. Brás, em São Paulo, e quando estava cheio de Aproveitei e mencionei sobre o outro, e ele pessoas eles colocavam caixotes de frutas no perguntou se eu o conhecia, e apesar de tê-lo chão, alguém subia, chamavam a atenção do visto apenas duas vezes, disse que sim. Ele povo sobre a situação do Brasil, e enquanto um abriu uma porta grande e pediu para que eu protegia aquele que falava, os outros faziam a visse se era ele. Havia um rapaz sentado num distribuição de panfletos para as pessoas. Essa banco, que escondia o rosto com as mãos, rezei atuação demorava cerca de dois minutos, e e disse que era ele. Sentei-me ao seu lado e quando a polícia chegava as pessoas tinham disse que era o padre e que tinha ido lá para se dispersado e já não havia mais ninguém ajudá-lo, que não era pra reagir, nem retirar as suspeito nas redondezas há muito tempo. mãos da face. Eu, na verdade, não sabia quem Para os que passaram pelas prisões, as era. O chefe abriu a porta e perguntou se era ele marcas deixadas ficaram, além da memória, mesmo, eu falei que sim e o soltaram. Saímos no próprio corpo. Havia muitos tipos de de lá quase nove e meia da noite. Lembro-me tortura, especialmente para obter informações que na volta não tinha quase ninguém no trem, envolvidas com a luta armada, como choques fomos sentados, e quando chegamos por volta elétricos, afogamentos, mas uma em especial, da estação de Utinga, em Santo André, foi que a do telefone, era realmente cruel. Os militares o rapaz começou a acordar, mas não foi capaz de explicar o que tinha acontecido. Quando chegamos a Mauá, ele já estava restabelecido. Ficamos muito felizes. Se eu não tivesse ido lá, provavelmente, eles teriam sido levados às cadeias do DOPS e teriam sido torturados.” No Grande ABC, a resistência se intensificou nos anos 80. “Começaram as greves. Na época, os dirigentes sindicais do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo não podiam mais entrar na sede. Existia uma Lei que dizia que quando o Sindicato não agradava a autoridade, a mesma podia caçar a direção do Sindicato e colocar um interventor nomeado pelas autoridades políticas do País, e foi o que eles fizeram. Quando ocorreram essas greves, os operários precisavam de lugar para se reunir, então, Dom Claudio pediu que todos os padres deixassem as igrejas abertas, e Revista O PROFESSOR 13

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torturadores batiam nos ouvidos dos presos até provocar um buraco no tímpano. Muitos até hoje são surdos, porque tiveram os dois tímpanos estourados. Relatos indicam que os suplícios eram duradouros, e prolongavamse por horas. Os gritos podiam ser ouvidos de longe. “Eu não sofri nenhum tipo de tortura física, tive sorte, mas conheço muitos que sofreram”, conclui Mahon. Após 21 anos de repressão e medo, o Brasil estava tão despedaçado pela Ditadura que acabou deixando todos esses crimes de lado. “O maior erro foi a não punição dos torturadores na época. Por isso, hoje, após 50 anos as famílias estão pedindo para que eles sejam punidos, mesmo sem ter vivido isso. O Golpe Civil-Militar no País foi um negócio fantástico para as multinacionais, que ganharam muito dinheiro, principalmente na Amazônia”, conta Adriano Diogo, presidente da Comissão Nacional da Verdade. Segundo ele, no Brasil, a principal característica da Ditadura Civil-Militar era a tortura sistemática, muito mais do que o assassinato, por isso a diferença entre o número de mortos no Brasil e em outros países da América Latina. "Durante 50 anos foi proibido falar sobre isso. Nos livros da escola só se fala sobre a parte econômica e, inclusive, com o termo ‘Revolução de 64’. Investir no esclarecimento do professor é o melhor que podemos fazer, pois ele é formador de opinião”, finaliza. “Toda a luta de resistência a um governo de Ditadura provoca cicatrizes” Outro importante nome para a memória da resistência à Ditadura no ABC é o do militante Derly José de Carvalho, que perdeu três irmãos durante o período. “Comecei a minha militância política e sindical em 1961, na Associação dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, que um ano depois se transformou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (SMSBD), atual SMABC. Eu fui diretor fundador da primeira diretoria cassada no Golpe CivilMilitar, em de março de 1964. Os meus irmãos, Devanir, Daniel, motorista e operário, e Joel José, gráfico, eram militantes e foram vítimas”, lembra Derly José de Carvalho, 75 anos, nascido em Muriaé, em Minas Gerais. No começo da década de 60, o mundo vivia ainda o impacto da 2º Guerra Mundial, que teve como resultado a divisão política internacional entre dois modelos de sociedade, a Capitalista, com os Americanos no comando e a Socialista, com a União Soviética e China na liderança, com o agravante da Guerra do Vietnã e da Revolução Cubana, estes conflitos tiveram uma grande influência naquelas gerações. “No caso do Brasil, nós defendíamos as reformas de base do governo João Goulart e não dava para ficar em cima do muro na luta de classes entre os interesses das oligarquias e dos trabalhadores, e lógico que eu e meus irmãos nos engajamos na luta da classe trabalhadora. Com o Golpe Militar, fomos para a clandestinidade e nos engajamos na resistência contra a Ditadura”, conta Carvalho. Segundo Derly, na época, ele já morava em Diadema (SP) e por conta do Golpe mudou-se para cidade de São Paulo, e em seguida para o Rio de Janeiro. “Apenas em 1968 voltei para São Paulo. Meus irmãos e meus pais moravam em São Bernardo do Campo. No começo do Golpe a população vivia apreensiva e, em especial, sem informação por causa da censura. Só a partir da década de 70 reorganizou-se o movimento Sindical, principalmente dos Metalúrgicos, e vieram as greves e a participação política dos trabalhadores, veio também a conquista da Lei da Anistia, em 79, e o reflexo da organização política e sindical dos trabalhadores, que foi a eleição de um Operário Metalúrgico para Prefeito de Diadema, em 1982. Eu me filiei ao Partido Comunista Brasileiro, em 61, e em 65 fui para o Partido Comunista do Brasil. E foi só em 1967 que fundamos a Ala Vermelha do PC do B.” Em maio de 1969, Derly e seus irmãos, 14 O PROFESSOR Revista

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Imagens da internet Daniel, Joel e o Jairo, o irmão mais novo de cinco, foram presos pela repressão e ficaram detidos no presídio Tiradentes, localizado na capital paulista, que abrigou presos políticos na Era Vargas e no Regime Militar. “Nós quatro fomos libertados no sequestro do embaixador Suíço, que aconteceu no dia 13 de Fevereiro de 1971, e assim, fomos deportados para o Chile. O Devanir continuou na clandestinidade e, até por isso, foi assassinado em abril de 71. Com o Golpe no Chile, em 11 de setembro de 73, nós fomos para a Argentina, em julho de 1974. O Daniel e o Joel se juntaram a um grupo e caíram em uma infiltração da Operação Condor, que foi uma aliança político-militar criada com o objetivo de coordenar a repressão a opositores dessas Ditaduras, eliminar líderes de esquerda instalados nos países do Cone Sul, e, por isso, estão desaparecidos até hoje. Já o Jairo foi para Portugal, depois eu o levei para a França em 1977, onde permanece por lá, casado”, relembra. No dia 1º de abril de 64 Derly abandonou sua casa. “Levei minha companheira e nossos três filhos, que na época estavam com, respectivamente, 1, 2 e 3 anos de idade, para clandestinidade. A perseguição só terminou em dezembro de 1980. A questão da tortura faz parte da natureza das Ditaduras Civis e Militares, e a brasileira foi uma das mais violentas da América Latina, com a conivência das empresas, da mídia e da classe dominante. Todos os resistentes ao regime militar que foram presos foram torturados, uns morreram, outros estão desaparecidos e a maioria sobreviveu. Eu faço parte dos sobreviventes”, conta ele. Segundo ele, toda a luta de resistência a um governo de Ditadura provoca cicatrizes, a maior delas é a luta pelos direitos dos trabalhadores e pela liberdade, mas a pior é a da omissão, da covardia, e do oportunismo de não ter participado e receber os benefícios da luta. A liberdade e os direitos que os trabalhadores têm hoje, e também os que as gerações futuras terão, são o resultado da luta dos que foram mortos, torturados, desaparecidos e exilados. “Nós sabíamos que a luta valia a pena, tínhamos a consciência de que era justa e isto apagou as cicatrizes e as perdas, e ainda, nos dá a oportunidade de levar estas experiências às novas gerações para que as Ditaduras não voltem a acontecer”, finaliza. OP Revista O PROFESSOR 15

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