Revista Mineração & Sustentabilidade - Edição 16

 

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Política Mineral revistamineracao.com.br . Outubro . Junho de 2013 Setembro Maio 2014 . Especial Edição 12 Edição 16 .. Ano 2 3 Pará lança Plano Estadual de Mineração Mercado dá início à produção de vanádio Bahia Entrevista Comunidade Consultor Batalha da inovação premia universitários brasileiros Jacques Moszkowicz fala sobre o panorama da mineração de ferro no país O PODER DA COOPERAÇÃO Exemplos de parcerias bem sucedidas entre mineradoras, governos e sociedade mostram que grandes problemas devem ser enfrentados em conjunto

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clique Divulgação Alívio para a Amazônia O desmatamento na Amazônia Legal diminui 24% entre agosto de 2013 e maio de 2014, informa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). De acordo com o levantamento obtido pelo sistema Deter, que monitora em tempo real a região, foram suprimidos 1.771,86 quilômetros quadrados de floresta no período, área superior ao território da cidade de São Paulo. Mato Grosso continua sendo o campeão de desmate, com 717 quilômetros quadrados. EXPEDIENTE Diretor Geral Wilian Leles diretor@revistamineracao.com.br Diretor de relações institucionais Francisco Stehling Neto francisco@revistamineracao.com.br Editor Geral Thobias Almeida REG. 12.937 JPMG edicao@revistamineracao.com.br Redação Márcio Antunes, Joyce Afonso Bruna Miranda, Marcos dos Anjos Fransciny Alves, Ívina Tomaz redacao@revistamineracao.com.br Projeto Gráfico, Editoração e Design Leopoldo Vieira Anúncios / Comercial Natália Sousa + 55 (31) 3544 . 0040 comercial@revistamineracao.com.br Distribuição e Assinaturas atendimento@revistamineracao.com.br Impressão Gráfica O Lutador Tiragem 8 mil exemplares Circulação Esta publicação é dirigida ao setor minerário, siderúrgico e ambiental, além de governos, fornecedores, entidades de classe, consultorias, instituições acadêmicas e assinantes. Foto da capa iStockphoto On-line www.revistamineracao.com.br revista@revistamineracao.com.br Conselho Editorial Eduardo Costa Jornalista Rádio Itatiaia / Rede Record José Mendo Mizael de Souza Engenheiro de Minas e Metalurgista J. Mendo Consultoria Marcelo Mendo de Souza Advogado Mendo de Souza Advogados Associados Rua Guaicuí, 82 . Brasileia Betim . MG - 32.600.456 + 55 (31) 3544 . 0040 | 3544 . 0045 Acompanhe Não são de responsabilidade da revista os artigos de opinião e conteúdos de informes publicitários. 4 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 /RevistaMineracao @RevMineracao

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Estante Aço Brasil – Uma viagem pela indústria do aço Osias Ribeiro e Marina Mesquita Escritório de Histórias Arthur Pinto Chaves e colaboradores Oficina de Textos Entre os mais vendidos das publicações da editora, o segundo volume da coleção Teoria e Prática do Tratamento de Minérios traz a abordagem das diversas áreas do Tratamento de Minérios, indo desde conceitos elementares até operações mais sofisticadas. Teoria e prática do tratamento de minérios João Furtado e Eduardo Urias Ibram Este livro propõe, por meio do estudo de experiências internacionais e da análise de indicadores socioeconômicos, de ciência e de tecnologia, pensar a mineração em uma perspectiva dinâmica, apontando caminhos de cooperação entre os setores público e privado que impulsionem as atividades mineradoras a contribuir de forma efetiva para o desenvolvimento do Brasil. • 311 p. • 1ª Edição • ISBN: 978-85915804-08 Disponível para download: www.ibram.org.br Meio Ambiente Recursos Naturais e Desenvolvimento Da chegada da família Real ao Brasil, aos dias atuais, a publicação traz as principais histórias envolvendo a indústria do aço no país. A produção ficou a cargo do Ministério da Cultura, Escritório de Histórias e Instituto Aço Brasil. • 192 p. • 1ª edição • ISBN 978-8587981-48-6 Disponível para download: http://www.acobrasil. org.br/site/portugues/biblioteca/ LIVRO_ACO_BX.pdf • R$ 70 • 14 X 21 cm • Brochura • 242 p. • Volume 2 • 4ª edição • ISBN: 978-8579750-72-4 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 5

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sumário revistamineracao.com.br Maio . Junho de 2014 Edição 16 . Ano 3 36 O poder da cooperação Parcerias bem sucedidas entre mineradoras, governo e sociedade são exemplos para o setor 10 Entrevista Jacques Moszkowicz fala sobre o panorama da mineração de ferro brasileira 30 Produto Final Potássio, o mineral do campo 32 Política Mineral Pará lança planejamento de longo prazo para a mineração 46 22 Comunidade Internacional A força da mineração canadense Votorantim Metais incentiva a inovação em concurso para universitários Seções 7 Editorial 8 Panorama 10 Entrevista 14 Sustentabilidade 20 Mercado 22 Internacional 6 26 26 30 32 36 44 46 Cidades Minerárias Produto Final Política Mineral Capa Cetem Comunidade 50 52 54 56 58 Artigo Especial Surpreenda-se Tecnologia Agenda Cidades Minerárias Rosário do Catete, a capital brasileira do potássio 56 Tecnologia A evolução do uso de explosivos na mineração Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014

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Editorial Parcerias campeãs A edição 16 de Mineração & Sustentabilidade traz um reconhecimento ao valor das parcerias na busca por resultados. Com dois exemplos bem sucedidos de união de esforços, ambos em Minas Gerais, a publicação apresenta os avanços obtidos em áreas distintas como a preservação ambiental e a capacitação de mão de obra. O Vetor Sul da Região Metropolitana de Belo Horizonte é uma região rica tanto em minérios quanto em diversidade natural. Com relevo e paisagens características, marcadas pelas serras da Moeda e do Rola Moça, e lar de importantes espécies animais e vegetais, a região abriga também intensa atividade mineradora. Assim, empresas, poder público e entidades da sociedade civil decidiram sentar-se para abrir o diálogo. O grupo de trabalho criou e chancelou uma carta compromisso que norteará o uso e ocupação do solo na área, com vistas à preservação de patrimônio tão caro ao estado e ao país. Outro modelo de parceria uniu companhias concorrentes em busca de um mesmo objetivo: garantir a oferta de mão de obra qualificada para a mineração e metalurgia. Assim, 15 grandes empresas construíram o Consórcio Mínero Metalúrgico, que desde 2007 traça estratégias e executa ações para alavancar a formação profissional de qualidade em Minas Gerais. A iniciativa pretende auxiliar na capacitação de mais de 16 mil jovens até 2016, para que eles preencham as vagas abertas pelo setor no período. O Consórcio age de forma articulada com os governos estadual e federal, além de manter proximidade com a academia e instituições de ensino técnico. Esta edição também está recheada de bons exemplos no quesito sustentabilidade. Um deles é o investimento de R$ 240 milhões da Vale na recuperação da Mina de Águas Claras, em Nova Lima (MG), incrustada na moldura natural da capital mineira, a Serra do Curral. Já a Samarco colocou em operação o bilionário projeto de quarta pelotização, o P4P, anunciado como o primeiro empreendimento minerário do Brasil a conseguir zerar a emissão de CO2 durante a fase de implantação. Há ainda uma matéria especial sobre os 25 anos da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam-MG), órgão que entra em uma nova fase, com proposta de uma agenda mais moderna e voltada para questões atuais como mudança climática e reconversão de territórios. Diretor de Relações Institucionais Francisco Stehling Neto A iniciativa pretende auxiliar na capacitação de mais de 16 mil jovens até 2016 para que eles preencham as vagas abertas pelo setor Nas páginas verdes, o entrevistado da vez é Jacques Moszkowicz, gerente sênior de estratégia da consultoria Accenture e gerente, economista e geólogo do Departamento de Insumos Básicos do BNDES. O especialista é coautor do estudo setorial Minério de Ferro. O levantamento traz como um dos destaques a constatação de que a mineração brasileira de ferro é a mais competitiva do mundo quando se leva em conta os custos de produção. Além disso, o estrategista avalia como a sustentabilidade foi incorporada pelo setor e conversa sobre o panorama atual e futuro do mercado minerário. Em outro pilar da sustentabilidade, o Com mais de 45 anos de experiência no jornalismo, atuou nas sucursais mineiras dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo, além de 17 anos na editoria política do Estado de Minas. Foi também Secretário de Comunicação da Prefeitura de Belo Horizonte e Superintendente de Comunicação Empresarial da Cemig. social, a editoria Comunidade mostra o prêmio de inovação promovido pela Votorantim Metais que busca incentivar a formulação de novas ideias para o uso do zinco no agronegócio. O concurso é uma extensão do modelo criado em 2006 na Holanda, chamado Battle of Concepts, e já distribuiu mais de R$ 500 mil no Brasil. Vale a pena também a leitura da reportagem da editoria Tecnologia que traça um quadro evolutivo do uso de explosivos na mineração. O conteúdo mostra como o aprimoramento de materiais e técnicas tornou as detonações mais seguras ao longo dos anos. Boa leitura! Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 7

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panorama Acervo Projeto Manuelzão Projeto Apolo cada vez mais distante A criação do Parque Nacional da Serra do Gandarela continua a impedir a Vale de colocar de pé o Projeto Apolo, em Minas Gerais. O empreendimento prevê investimentos de R$ 4 bilhões em uma mina de minério de ferro, com produção estimada de 24 milhões de toneladas por ano. A empresa entrará com o processo de licenciamento ambiental somente após a definição da área do parque. Em abril, a prefeitura de Rio Acima oficializou o tombamento de 1,1 mil hectares da serra, o que representa 20% da área planejada para o Projeto Apolo. Em fevereiro, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e com outras instituições, reservou uma área de 34,3 mil hectares para criação do Parque Nacional da Serra do Gandarela. Foram destinados ao Projeto Apolo 1,7 mil hectares, ao passo que o plano original previa 5,3 mil hectares. Museu das Minas e do Metal em nova fase A Gerdau e o governo de Minas Gerais apresentaram em maio o novo Museu das Minas e do Metal. Foram anunciadas melhorias de infraestrutura e manutenção do prédio que abriga o museu, além da alteração da marca e do nome, que passou a se chamar MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, em alusão à nova mantenedora. Outra novidade foi a inauguração do Espaço Gerdau, que oferece aos visitantes, de forma interativa, conceitos sobre os três pilares da sustentabilidade. O espaço também trará uma exposição temporária sobre a história e atuação da empresa. O plano de trabalho assinado pela Gerdau prevê investimentos de R$ 11,5 milhões nos próximos cinco anos. Prefeitos black blocs Prefeitos de cidades mineradoras de Minas Gerais ameaçam fazer um piquete de duas a três horas em estradas e ferrovias caso o Novo Marco Regulatório da Mineração continue parado no Congresso. O projeto foi enviado aos parlamentares pelo Executivo há um ano. O protesto, marcado para o início de agosto, foi acertado entre os mais de 40 prefeitos que compõem a Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig). Os prefeitos esperam um aceno do Palácio do Planalto que indique, pelo menos, um esforço para aprovação do novo código. No entanto, mineradoras e municípios ainda questionam pontos do texto original. 8 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014

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Influência chinesa no preço do ferro O preço da tonelada do minério de ferro no mercado à vista chinês chegou ao menor valor em quase dois anos, baixando a US$ 91,5 (minério com 62% de teor de ferro). Fatores como os estoques elevados do país asiático, consequência da desaceleração econômica, motivam a queda. O preço médio do minério no mercado spot, entre janeiro e abril de 2014, foi de US$ 118,9 a tonelada, contra US$ 145,5 no mesmo intervalo de 2013, queda de 18%. No final de maio, o volume estocado nos principais portos chineses atingiu o recorde de 113 milhões de toneladas. Uma das maiores preocupações é com o fraco desempenho do mercado imobiliário da China. Mineradoras cortam na carne e no cafezinho O cenário de 2014, adverso para as mineradoras, incita medidas que podem ser vistas até como cômicas. Enquanto os trabalhadores da Kinross na Mauritânia, África Ocidental, veem partir as máquinas de café Nespresso, os empregados da Rio Tinto assistem à redução das tortas de carne servidas pela mineradora. A ordem é reduzir custos, a todo custo. A Rio Tinto economizou US$ 60 mil dólares com o “emagrecimento” das tortas e enroladinhos de salsicha. Já a Kinross, depois de adotar máquinas de café que usam coador e grãos moídos, mais em conta do que as caras cápsulas apreciadas por George Clooney, espera economizar US$ 80 mil por ano. Reforço do Minas-Rio A Anglo American espera que, a partir de 2016, o Projeto Minas-Rio adicione de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão ao caixa anual da sexta maior mineradora do mundo. A previsão refere-se à capacidade plena de produção, de 26,5 milhões de toneladas anuais de minério de ferro. O grupo estima levar a commodity até a China e ao Oriente Médio a um custo de US$ 35 a tonelada, preço considerado competitivo no mercado internacional. A multinacional planeja atingir um retorno sobre capital de 20%. A meta é chegar a no mínimo 15% até 2016 e a entrada em operação do Minas-Rio é fundamental para que a meta seja alcançada. A mineradora mantém para dezembro de 2014 o início da operação do empreendimento. Instituto Aço Brasil Produção brasileira de aço em baixa O Brasil produziu em maio 2,9 milhões de toneladas de aço bruto, queda de 4,3% ante o mesmo mês em 2013. Tratando-se de laminados, a produção do último mês reduziu-se 11,2%, caindo para 2,1 milhões de toneladas. O acumulado de 2014 registra produção de 14 milhões de toneladas de aço bruto e 10,5 milhões de toneladas de laminados, queda de 0,8% e 2%, respectivamente, sobre o mesmo período de 2013. As exportações de produtos siderúrgicos atingiram 545 mil toneladas em maio, o que representa US$ 452 milhões em vendas. O comércio externo, até maio, totalizou 3,2 milhões de toneladas (US$ 2,4 bilhões), declínio de 18% em volume e de 7,9% em valor na comparação com o mesmo período de 2013. Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 9

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entrevista Divulgação Jacques Moszkowicz Mineração competitiva e sustentável Estrategista da consultoria Accent e coautor do estudo Minério de Ferro, publicado em parceria com o BNDES, avalia que o setor pode continuar a crescer mesmo em tempos adversos Thobias Almeida 10 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014

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Na visão de Jacques Moszkowicz, a mineração brasileira é competitiva e, assim como em outros países, tem potencial para continuar a crescer, mesmo que em um ritmo mais acanhado do que o vislumbrado antes da crise de 2008. Moszkowicz, gerente sênior de estratégia da consultoria Accenture e gerente, economista e geólogo do Departamento de Insumos Básicos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), é um dos autores do estudo setorial intitulado Minério de Ferro, produzido em parceria pelo banco de fomento e a empresa e lançado em maio de 2014. É primordial destacar um dado apresentado pelo texto: o Brasil tem o menor custo de mina do mundo. Custos de minas englobam gastos efetivos para extração e beneficiamento do minério e “são bastante determinantes para a competitividade da indústria”, ressalta o trabalho. Pagamento de royalties também entram na conta. A mineração brasileira extrai a tonelada métrica seca de minério por 41,1 centavos de dólar. Na Austrália, segunda colocada no ranking, esse valor sobe para 51,72 centavos de dólar, 20% mais caro. Já a média mundial está na casa dos 80 centavos de dólar. Os cálculos se referem ao ano de 2012. Moszkowicz não desmerece os entraves que freiam o dinamismo do setor no Brasil, porém, argumenta que a qualidade do minério de ferro nacional, “premium”, é uma vantagem competitiva considerável. O especialista revela também que os líderes da mineração brasileira, apesar de a atividade não atravessar os melhores dias, mantêm a confiança em alta. Os executivos acreditam que a China, mesmo em ritmo de desaceleração econômica, ainda tem muito o quê comprar, “tanto que todas as mineradoras entrevistadas mantiveram seus planos de investimento ou seus projetos que estavam em andamento”, justifica. Moszkowicz também fala sobre o foco que as mineradoras mantêm na sustentabilidade. O estrategista explica a evolução dos mecanismos de controle, motivada pela mineração predatória do passado, e avalia que, atualmente, valorizar a responsabilidade socioambiental é pré-requisito fundamental para dar início a qualquer empreendimento minerário. Mineração & Sustentabilidade O estudo do qual o senhor é coautor aponta que a mineração de ferro no Brasil é competitiva, quando se analisam os custos de produção. Porém, as empresas reclamam do chamado “Custo Brasil” , qual seja, impostos elevados, infraestrutura deficiente, energia cara, dentro outros. Qual a opinião do senhor para esse suposto paradoxo? Jacques Moszkowicz O minério produzido no Brasil é classificado como minério de qualidade premium. Ele tem um alto teor de ferro, então é considerado um minério de alta qualidade e é utilizado pelas siderurgias de todos os lugares do mundo. As siderúrgicas que usam minério com a qualidade que a gente observa no Brasil, e Austrália também, têm uma menor necessidade de empregar outros volumes de minério, porque ele já vem com uma pureza maior naturalmente, não há necessidade de nenhum processo diferenciado. Então, é um minério que já tem uma qualidade superior. No Brasil, esse minério com qualidade superior existe em grande escala, com custo de extração muito baixo, tornando-o bastante competitivo comparado a outras regiões do mundo. Obviamente, o fato de o Brasil estar longe do principal mercado con- sumidor, que é o mercado asiático, a China, não é vantagem. Mas, mesmo com esse custo logístico, o Brasil ainda tem um minério bastante competitivo se comparado aos grandes players internacionais. É certo que os custos de energia e mão de obra são significativos para a indústria e aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Mas, como o Brasil tem um grande volume de minério de alta qualidade, de alto teor de ferro, com custo de extração relativamente baixo, ele permanece competitivo comparado aos outros produtores do planeta. M&S Em que a mineração de ferro brasileira peca e em que ela se destaca? JM Eu não sei se a palavra “peca” é muito apropriada. Eu acho que o desafio da mineração não está restrito ao Brasil. Acho que o grande desafio da mineração hoje é o fato de o número de novas reservas de minério estar cada vez mais baixo, são difíceis de serem encontradas, e quando encontradas se localizam em regiões inóspitas ou em lugares com instabilidade política e econômica. Há essa dificuldade de exploração mineral em regiões mais inóspitas. Por tabela, você tem um custo de infraestrutura significativo para conseguir escoar essa produção. Esse é o grande desafio da indústria da mineração, não acho que esteja restrito ao Brasil. Obviamente que no Brasil, dependendo de onde a jazida estiver localizada, há uma série de outras questões relacionadas à velocidade de implantação do projeto, das aprovações necessárias. Porém, creio que não é exclusivo do Brasil, é um desafio da indústria. Com relação às vantagens do Brasil, acho que é o grande volume de reservas de minério com alto teor de ferro, um produto premium. É o grande diferencial. Além de ser a maior reserva de minério de ferro do mundo, é um minério de ferro de altíssima qualidade. É o grande diferencial do Brasil sob esse aspecto. M&S No trabalho, o senhor traz entrevistas com executivos de grandes mineradoras. Como eles avaliam o atual momento e o que eles esperam para os próximos anos? JM Gostaria de fazer uma ressalva: as entrevistas foram feitas em agosto do ano passado. À época, estávamos com preço do minério num patamar em torno de US$ 130 dólares por tonelada. Já era um patamar um pouco abaixo do que tínhamos observado em 2012, de US$ 150, US$ 160. Todos os executivos entrevistados, sem exceção, têm uma Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 11

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visão bastante alinhada que, por mais que a economia chinesa esteja desacelerando, o volume a ser consumido é bastante significativo, o que vai continuar impulsionando a demanda por minério de ferro nos próximos anos. No momento da entrevista, todos tinham uma expectativa bastante alinhada de que a demanda continuaria aquecida, tanto que todas as mineradoras entrevistadas mantiveram seus planos de investimento ou seus projetos que estavam em andamento. M&S Vivemos hoje um momento delicado com relação à atividade minerária no Brasil? JM O momento da indústria, globalmente falando, é delicado. Nos últimos anos a indústria vinha apresentando um crescimento significativo, obviamente impulsionado pela indústria chinesa, e no último um ano e meio os sinais da desaceleração da economia da China vêm impactando de forma significativa o setor. Isso se reflete principalmente no preço do minério de ferro, que vem caindo nos últimos meses. Até 2012 tínhamos um boom no preço do minério, que estava chegando a altas históricas. Atualmente, ele está num patamar bem mais baixo. O consenso entre os especialistas é de que aquele momento de boom não vai se refletir nos próximos anos. Não acho que é especifico do Brasil, acho que é questão global. A desaceleração da economia chinesa e de outras grandes economias como dos Estados Unidos e da Europa, que ainda não se recuperaram após a crise de 2008, acaba refletindo na indústria de mineração. M&S Há uma corrente que defende a transformação do minério de ferro em terras brasileiras, o que agregaria valor à commodity, ao invés do modelo vigente de se vender matéria prima. Qual a opinião do senhor? Eu não tenho uma opinião sobre esse aspecto. Você agregar valor no produto localmente significa você ter investimentos associados. Qual vai ser o retorno gerado sobre isso? É necessária uma análise mais detalhada sobre quais 12 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 são os custos associados e quão competitivo esse produto deveria tornar-se, calcular o valor agregado para o Brasil se comparado a outras regiões e onde ele seria enriquecido. No Brasil, esse minério com qualidade superior existe em grande escala, com custo de extração muito baixo, tornando-o bastante competitivo M&S Em linhas gerais, como o senhor avalia a extração de minério de ferro no Brasil no que se refere à sustentabilidade? JM Em todas as entrevistas com os executivos mencionamos a questão da sustentabilidade. A indústria de mineração carrega uma cobrança mais exigente na comparação com outras indústrias, em função da característica exploratória que ela teve no passado. Determinada mina era explorada e a produção era escoada sem atenção ao que está no entorno das operações, como se fossem colônias de exploração. Venho, exploro e vou embora. Mecanismos e cobranças dos órgãos ambientais responsáveis foram impostos aos novos projetos das mineradoras. Todos entendem que essa prática não adequada empregada no passado incentivou o surgimento de uma série de novas exigências. Hoje, o assunto sustentabilidade acaba tomando conta da agenda dos líderes da empresa, não só pelo aspecto ambiental, mas também pelo aspecto social, ou seja, como envolvo, como asseguro que aquela comunidade no entorno da operação estará engajada e se desenvolverá na mesma proporção que minha operação? Como consigo influenciar essa sociedade para inseri-la no desenvolvimento da região? Como evitar a criação de bolsões de pobreza, como o exemplo brasileiro de Belmonte, onde vemos um aumento dos níveis de violência e alcoolismo na população que vive ao redor do empreendimento. Como as operações conseguem, de certa forma, ser responsáveis não só pelo lado ambiental, respeitando todas as questões de fauna e flora, mas também pelo lado social de desenvolver, educar, capacitar a mão-de-obra no entorno. Todas as empresas entrevistadas possuem programas de responsabilidade social, algumas já fazem um reporte de indicadores sociais. Isso é uma tendência global da indústria, como se fosse um pré-requisito de licença para operar. Sem isso, as chances de ter problemas como greves, fechamento de operações e fechamento de ferrovias é algo bastante provável. Ainda assim, presenciamos episódios negativos isolados. Imagine se não fossem feitos programas com focos estruturados como os que vemos? M&S Qual a visão do senhor sobre o novo marco regulatório do setor? JM A discussão sobre o marco precisa acontecer, ela faz parte da evolução da indústria, assim como em outros países essa discussão já foi feita, ou seja, é um movimento natural de maturidade da indústria. O meu entendimento é de que não há dúvidas sobre a necessidade de se revisar essa regulamentação do código mineral, que, de certa forma, está defasada. A grande dúvida, não só minha, mas do mercado, das pessoas que acompanham a indústria, é como esse código será operacionalizado, como serão colocados em prática uma série de pontos que vêm sendo discutidos. Acredito que esses pontos vão ser amadurecidos e, uma vez votados, será debatido não só o que fazer, mas como fazer. M&S E sobre os royalties, o senhor vê como justo a aumento do índice de cobrança? JM Eu não tenho opinião formada, se é justo ou não. Acho que outros lugares, outras partes do planeta, aumentaram os royalties da atividade mineradora por razões distintas. M&S O ideal é se discutir bem a realidade, avançar nesse sentido.

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Entrevista com Jacques Moszkowicz Agência Vale JM É uma agenda politica sobre a qual, obviamente, o governo tem seus interesses. Acho que isso deveria ser o ponto mais discutido entre governo e mineradoras, encontrar um denominador comum é a melhor solução. Creio que deve ser levado em consideração o aumento de royalties. Não vou entrar no mérito se faz sentido ou não, mas creio que a competitividade também deve ser avaliada, quais desses royalties podem vir a afetar a competitividade do Brasil no mercado mundial de mineração. Até porque a atividade mineradora, no Brasil, tem um peso importante no cálculo do PIB. Então, acho que várias considerações devem ser levadas em conta. M&S Hoje nós temos o Quadrilátero Ferrífero, Carajás e Corumbá como as grandes fronteiras de explotação de ferro. Há possibilidade de serem encontradas novas grandes jazidas? JM A exploração de minério não é uma atividade trivial, hoje estes são os grandes centros de concentração de reservas no Brasil. Mas não tenho acompanhado outros estudos de geologia que estão sendo conduzidos com foco em grandes reservas. Não sei é possível encontrar outra grande reserva como Carajás. Creio que a grande última reserva significativa que surgiu no mundo foi a do continente africano. Outras grandes reservas podem surgir, sem a menor dúvida, a questão é onde e como. M&S Qual o cenário do Brasil no plano de pesquisa, prospecção e mapeamento de jazidas? Precisamos avançar nessa área? JM Tem-se uma necessidade recorrente de se capacitar a força de trabalho, de se fazer estudos de mapeamento geológico, não só para identificar novas reservas, mas também qual a melhor maneira de explorar a mina, de forma a não exaurir rapidamente o minério com maior qualidade. Como explorar de maneira equilibrada e, de certa forma, melhorar a vida útil da mina. Enfim, esse investimento faz parte dos investimentos correntes das mineradoras. M&S Fale um pouco sobre a realização do Estudo do Minério de Ferro. JM Esse estudo faz parte de uma publi- cação do BNDES. É um estudo feito duas vezes ao ano, e sempre tem um capítulo dedicado ao setor minério-siderúrgico. Este ano o trabalho selecionado para publicação desse setor foi o minério de ferro, assim como em outros anos já tiveram outras commodities cobertas. A gente começou a discutir essa parceria entre a Accenture e o BNDES há mais ou menos nove meses atrás, entre definir qual seria a estrutura do estudo, o que abordaríamos, a realização das entrevistas e também o processo interno do BNDES, aprovação do conselho responsável e a publicação do livro propriamente dita. O trabalho foi feito em conjunto com a área de pesquisa do BNDES, que tem uma equipe grande dedicada a diversos setores. Eles já têm essa expertise para fazer diferentes análises setoriais e a Accenture também tem um conjunto de outras fontes complementares. Foi uma junção de esforços das duas partes. Creio que não tivemos grandes dificuldades, pelo contrário. Desde o momento que trouxemos essa visão do mercado, através das entrevistas com os executivos das mineradoras, todos foram muito abertos à ideia e abriram a agenda. Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 13

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Sustentabilidade comunidade O projeto de quarta pelotização da Samarco (P4P), um dos maiores da iniciativa privada no país, com investimento de R$ 6,4 bilhões, foi inaugurado há dois meses nas unidades de Germano, em Mariana (MG), e de Ubu, em Anchieta, Garapari e Piúma (ES). O empreendimento permitirá à empresa dar um salto de 37% na produção. Além do gigantismo, outro ponto que chama a atenção é o fato de o P4P ser o primeiro projeto minerário carboneutro do Brasil, como garante a empresa. Durante a fase de implantação, foi compensada a emissão de 152 mil toneladas de CO2 equivalente. A Samarco assinou três convênios com consultorias e institutos da área ambiental (GAmbiental, Amda e Instituto Terra) e investiu R$ 1,7 milhão para mitigar as emissões de gases do efeito estufa do empreendimento. Em parceria com a GAmbiental promoveu o plantio de seringueiras em uma área de 20 hectares na região de Guarapari e a obtenção do selo “Seringueira Ambiental”, que prevê o uso da árvore como fonte de renda para comunidade local. P4P Emissões zeradas Joyce Afonso Primeiro projeto minerário brasileiro classificado como carboneutro, a implantação da quarta pelotização da Samarco é exemplo para o setor Marcelo Araújo 14 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio Março . Junho . Abril de 2014

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A Samarco monitorou sete variáveis socioeconômicas nas cidades impactadas diretamente pelo P4P Marcelo Araújo Impactos Monitorados Outra inovação do projeto foi a realização de um levantamento que permitiu apontar os reflexos positivos no Espírito Santo e Minas Gerais. Para tanto, a Samarco monitorou, por meio de indicadores socioeconômicos, as interferências do P4P nos sete municípios de influência direta. Foram avaliados e monitorados os se- guintes eixos temáticos: saúde, educação, segurança pública, mobilidade, trabalho, renda e geração de tributos municipais, estaduais e federais. De acordo com o diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, os resultados da medição são surpreendentes. “Estamos compartilhando isso com a população das cidades. Antes já o fizemos com as prefeituras e estamos agora no processo de compartilhar isso com a população para que todos tenham noção do real impacto de um projeto des- sa magnitude. É uma iniciativa pioneira e de grande valor”, salienta. Uma das conclusões importantes desse levantamento foi a de que 51% da mão de obra no período foi representada por membros da comunidade local. “Tentamos ao máximo contratar mão de obra local. Investimos em vários cursos de treinamento para formação de mão de obra específica. Temos um percentual muito acima da média para reduzir essa pressão que existe dentro das regiões”, afirma Kleber Terra. O convênio com a Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente (Amda) tem por objetivo reabilitar 15 hectares do Parque Estadual da Serra do Rola Moça, em Brumadinho (MG), com espécies nativas da Mata Atlântica. A partir da parceria com o Instituto Terra, foi recuperada uma área de cerca de 140 hectares, localizada na proprie- dade do próprio instituto, em Aimorés (MG). A iniciativa possibilitou o plantio de espécies nativas da Mata Atlântica e a compensação de aproximadamente 65 mil toneladas de CO2. Ações ambientais e sociais Além da carboneutralização da quarta pelotização, a Samarco investiu cerca de R$ 250 milhões em ações ambientais ao longo do projeto de expansão. As iniciativas focaram em temas como biodiversidade, resíduos, água, poluição atmosférica e educação ambiental. Além das inversões em projetos ambientais, o P4P direcionou R$ 20 milhões para atividades de impacto social. “Voluntariamente decidimos empregar Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2014 15

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