COMENTÁRIO NT CHAMPLIN - TIAGO

 

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COMENTÁRIO NT CHAMPLIN - TIAGO

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O NOVO TESTAMENTO INTERPRETADO VERSÍCULO POR VERSÍCULO por Russell Norman Champlin, Ph. D . Volum e 6 TIAGO I PEDRO II PED RO IJO Ã O II JOÃO III JOÃ O JUDAS APOCALIPSE ★★★ ★★★ ★★★ Direitos Reservados MAGNOS Editora Hagnos Rua Belarmino Cardoso de Andrade, 108 Cidade Dutra - São Paulo - SP - CEP 04809-270

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C opyright © 2002 por Editora Hagnos C oordenadora editorial: Marilenc G. Tcnengui C oordenador de produção: Mauro W. Terrengui 10a reim pressão - D ezem bro de 1998 I a edição - Editora Hagnos - Janeiro de 2002 5000 exem plares R eim pressão - O utubro de 2003 - 3000 exem plares R eim pressão - Fevereiro de 2005 - 5000 exem plares Editoração, fotolito, im pressão e acabam ento: Imprensa da fé D ados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (C âm ara B rasileira do Livro, SP, Brasil) Cham plin, R ussell N orm an, 1933 O N ovo Testam ento Interpretado: versículo por versículo: Volume 6: Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João, Judas, A pocalipse / Russell N orm an Cham plin. São Paulo: H agnos, 2002. 1. B íblia N.T. - C rítica e interpretação I. Título 01-5625 índices para cátalogo sistemático: 1. N ovo Testamento: Interpretação e crítica 225.6 CDD-225.6 ISBN 85-88234-32-7 Todos os direitos desta edição reservados à: Editora H agnos Ltda R ua Belarm ino Cardoso de A ndrade, 108 São Paulo - SP 04809-270 Tel/Fax: (X X I 1)5668-5668 E-m ail: hagnos@ hagnos.com .br w w w .hagnos.com .br

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TIAGO INTRODUÇÃO I. CONFIRMAÇÃO ANTIGA E AUTENTICIDADE II. AUTORIA III. DATA, PROVENIÊNCIA E DESTINO IV. FONTES E INTEGRIDADE V. TIPO LITERÁRIO E RELAÇÕES VI. O CRISTIANISMO JUDAICO VII. PAULO E TIAGO VIII. PROPÓSITOS E ENSINAMENTOS EX. LINGUAGEM X. CONTEÜDO XI. BIBLIOGRAFIA Tiago é um dos livros problemáticos do N.T., em que quase todos os seus principais aspectos têm sido disputados. Não há um consenso geral acerca da natureza da maioria dos itens alistados nesta introdução. A principal dificuldade tem sido a indisposição dos intérpretes examinarem o livro com honestidade, porquanto têm sentido ser necessário harmonizar Tiago com Paulo. Essa ten tativ a de harmonização tem obscurecido os propósitos e os ensinamentos de Tiago. Quão facilmente os intérpretes cristãos deslizam para a defesa da teologia sistemática a qualquer preço! Certamente deve ter ocorrido à maioria dos intérpretes que Tiago é um documento que representa o «cristianismo legalista»; mas esse «pensa­ mento chave», que podería servir para que se compreenda claramente o livro, tem sido negligenciado pela grande maioria dos intérpretes. Eles pensam antes que o livro, na realidade, não pode contradizer a Paulo; e passam a expressar muitas interpretações dúbias e errôneas de seu conteúdo. Ter-nosíamos esquecido que, no primeiro século, o problema legalista nunca foi solucionado, e que uma boa porção da igreja cristã, que sofria a influência do judaísmo, nunca abandonou seus antigos caminhos, porém buscou incorporar o novo nos antigos? Ter-nos-íamos esquecido que o décimo quinto capítulo do livro de Atos m ostra claram ente que muitos crentes, em áreas judaicas, chegavam a crer que a circuncisão era necessária para a salvação, subentendendo que a lei era igualmente necessária? Até mesmo nas áreas gentílicas, os judaizantes obtinham notáveis progre&sos e chegaram a controlar até mesmo igrejas gentílicas, constituídas essencial­ mente de elementos gentilicos. A epístola de Paulo aos Gálatas é prova disso. Até mesmo a igreja em Roma contava com os seus judaizantes , que exerciam grande autoridade, como o conteúdo da epístola aos Romanos certamente o indica. E outro tanto se dá no caso da primeira e da segunda epístolas aos Coríntios, onde uma das principais facções era aquela que fazia de Pedro o seu herói, e que, não há que duvidar, tinha uma atitude «legalista». A mesma coisa ocorria na igreja dos filipenses, a julgar pelo trecho de Fil. 3:1-8. A fastados agora tantos séculos daquele agudo conflito (embora ele esteja bem vivo na igreja, até hoje), esquecemonos da sua magnitude. Ê fato brutal que Paulo nunca foi aceito pela igreja cristã judaica, mas antes, sempre foi encarado com suspeita, como destruidor da verdadeira religião. Isso ficamos sabendo através de Atos 21:21 e ss. Ê verdade que alguns dos líderes principais reconheciam a sua missão e o seu ofício apostólicos (ver Gál. 2:9 e ss.), mas é destituída de fundam ento a suposição que a sua aceitação se tornou generalizada. O partido da circuncisão (ver notas expositivas a respeito, em Atos 11:2) tinha um poder grande demais para perm itir que sua reputação fosse outra coisa senão algo totalmente negativo ou duvidoso para os membros comuns da igreja judaica. Os caminhos e costumes antigos fenecem mui lentamente; e sempre será verdade que novas verdades não triunfam por conquistarem a geração contemporânea, mas porque conquista uma nova geração, até que a antiga, finalmente, perece. De fato, conforme disse Alfred North Whitehead: «Se voltarmos a atenção para as novidades do pensamento em nosso próprio período de vida, veremos que quase todas as idéias realmente novas se revestem de certo aspecto de insensatez, quando são apresentadas pela primeira vez». l REIS BOOK DIGITAL Havia muitos cristãos judeus que recebiam sinceramente a Cristo como seu M essias e Salvador, crendo no valor expiatório de sua morte, bem como no poder vivificador de sua ressurreição, mas que tinham plena certeza que essas crenças podiam ser injetadas no judaísmo antigo, cuja lei (excluindose os sacrifícios) e cuja circuncisão, conforme eles, continua­ vam plenamente em vigor, sem interrupção ou abrandamento. (Ver as notas expositivas em Atos 10:9 quanto à descrição da «questão legalista na Igreja primitiva»). Assim sendo, muitos pensavam que a idéia paulina de «justificação exclusivamente pela fé» era uma perversão da verdade, e não um degrau mais alto da verdade. Apesar de reconhecerem a importância e até mesmo a necessidade da fé vital, viam isso como um acompanhamento da fé, e, de fato, como uma maneira de cumprir a lei, e não como algo que suplantava a lei, exatamente conforme está expresso no livro de Tiago 2:14-26, que é uma linguagem plenamente legalista, tão clara como se podería encontrar em qualquer documento judaico e não-cristão. Por que se pensaria ser estranho que vários autores tivessem deixado documentos, expressando as idéias da facção judaica da Igreja primitiva, e que um desses documentos, a epístola de Tiago, por causa de suas qualidades inerentes, finalmente tenham vindo a fazer parte do N.T.? É a aceitação desse pensamento que facilita a interpretação da epístola de Tiago, eliminando a necessidade de se buscar uma harmonia desonesta com os escritos de Paulo. A epístola de Tiago não era conhecida e nem foi usada na Igreja cristã durante três séculos; e mesmo depois disso sempre foi um livro disputado, e isso pela razão simples que muitos reconheciam, sem evitá-lo, o verdadeiro problema, que consiste em como reconciliar Paulo com Tiago, fazendo com que, no N.T. tenhamos um documento legalista que, quanto a certos aspectos, está fora de lugar. Bem entendido, está fora de lugar para vários grupos protestantes, apesar de ser alegremente aceito, exatamente como está, na Igreja Católica Romana, que retém aspectos legalistas em sua doutrina. Qualquer outra abordagem a esse livro, além daquela que aqui é sugerida, envolve o intérprete em desonestidade, ainda que creia pessoalmente estar exercendo bom juízo e não tenha consciência de que perverte certos Versículos. Lutero escreveu: «Em suma, o evangelho de João e a sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, sobretudo aquelas aos Romanos, aos Gálatas, aos Efésios, e a primeira epístola de Pedro—esses são os livros que mostram Cristo e nos ensinam tudo quanto é necessário e bem-aventurado conhecer, embora não vejamos ou não ouçamos qualquer outro livro ou doutrina. Portanto, a epístola de Tiago é uma epístola de palha, em comparação com aqueles, porquanto não exibe o caráter do evangelho». (Lutero, Introdução â Epístola de Tiago). Todavia, embora ele tivesse essa baixa opinião sobre o caráter doutrinário do livro, nem por isso o rejeitou completam ente, e nem proibiu o seu uso, dizendo: «Por conseguinte, eu não o terei em minha Bíblia entre seus principais livros, mas nem assim pretendo a quem quer que seja de colocá-lo ali e de exaltá-lo como melhor lhe convier, pois contém muitas coisas boas». Assim sendo, em sua Bíblia impressa, Lutero separou a epíst. aos Heb., juntamente com Tiago, Judas e Apocalipse

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2 TIAGO atribuindo-lhes um lugar no fim do volume, e não os fazendo figurar na tabela de conteúdo. Dessa maneira, na Bíblia em alemão im pressa através dos séculos, essa ordem acabou sendo conservada, embora, finalmente, recebessem lugar na tabela de conteúdo. O autor deste comentário acredita que Lutero designou uma posição baixa demais a Tiago e falhou no reconhecimento do lugar vital que ocupa no «Canon» cristão. Podemos não apreciar certos aspectos da teologia de Tiago, nem tão pouco a maneira com que expressa determinadas coisas, influenciado, como foi, pelo legalismo, mas o que acaba por dizer é uma mensagem de im portância tão extrem a, que podemos desculpar o modo de expressão. Tiago merece lugar no «cânon» porque levanta um importantíssimo problema—o da relação entre as obras e a fé, reconhecendo intuitivamente que há um sentido em que as obras fazem parte da salvação, embora o livro não expresse com exatidão como isso pode ser. A fé é um princípio vital, que produz obras, e não um produto, mas uma «auto-expressão» da graça; porquanto as «obras», espiritualmente compreendidas, na realidade, são produtos ou frutos do Espirito Santo em um homem, a auto-expressão do princípio da graça, operante no íntimo. De acordo com definições espirituais, por conseguinte, as obras e a graça são sinônimos, ja que ambas as coisas são divinamente inspiradas e infundidas no ser humano. (As notas expositivas em Efé. 2:8 esclarecem esse conceito). È crença do autor do comentário que o judaísmo, tal como Tiago, que foi apenas um porta-voz de idéias mais antigas, reconhecia intuitivamente esse principio. Mas, faltando-lhe uma melhor revelação, expressava o princípio sem habilidade, isto é, legalisticamente, e não «misticamente» (o Espirito é o autor das verdadeiras obras espirituais, mediante o seu contacto genuíno com os homens). A expressão desse princípio é o cerne mesmo do judaísmo. Infelizmente, a interpretação legalista obscureceu a verdade. Mas nos escritos de Paulo essa verdade é claramente expressa, em Fil. 2:12; e o princípio da graça divina transparece com clareza em Fil. 2:13: «Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença... desenvolvei a vossa salvação... porque Deus é quem efetua em vós tanto o guerer como o realizar, segundo a sua boa vontade». O décimo segundo versículo expressa a verdade das «obras»; e o décimo terceiro expressa a verdade da «graça». Não podemos interpretar o décimo segundo versículo como «desenvolvei aquilo que já foi operado em vós», como se tudo quanto estivesse em foco fosse «expressar com ações externas» a graça que opera no íntimo. E ssa é uma interpretação errônea. Antes, é-nos ordenado que «efetuemos» nossa própria salvação, tornando-a real. Isso depende de buscar o Espírito e de permitir-lhe produzir seu fruto em nós, santificando-nos ele e transformando-nos segundo a imagem de Cristo, que expressa a salvação em sua inteireza. O termo grego envolvido na idéia de «efetuar» é katergadzomai , que significa «obter», realizar, «produzir». Em sentido real, pois, produzimos a nossa própria salvação, isto é, da maneira que acaba de ser sugerida. Não obstante, isso seria impossível a menos que sejamos inspirados pelo Espírito de Deus, que nos capacite a tanto—primeiramente, desejando-o, e então, realizando-o. O valor da epístola de Tiago, pois, tem o mesmo valor que havia no judaísmo. Um homem sabe intuitivamente que deve fazer algo, ser algo, produzir alguma coisa, a fim de que tenha uma busca espiritual válida. Esse discernimento é expresso de forma legalista no judaísmo e na epístola de Tiago, o que é um equivoco; porque tal verdade deveria ser expressa mistica­ mente, ou seja, através da submissão e do cultivo do poder do Espírito Santo em nós, para operarmos, nos esforçarmos e efetuarm os ou pôr em funcionamento a nossa própria salvação. Porém, o próprio fato que Tiago tenta expressar essa verdade, ainda que desajeitadamente, e razão suficiente para aceitarmos essa epístola no «cânon»; pois a verdade assim ressaltada é vital, e certamente não deve ser olvidada na igrejà evangélica moderna, com a sua crença fácil. Portanto, que soe a mensagem de Tiago; e que, com a ajuda de Paulo, possamos fazer com que seu tom seja alto e claro. Tendo dito isso, atribuím os à epístola um elevado lugar, e muito mais importante que aquele que lhe foi atribuído por Lutero. A intuição: Intuitivamente reconhecemos que a salvação deve incluir o ser e o fazer, e não a mera anuência a um credo. Pela revelação bíblica sabemos que há graus diversos de glorificação, que dependem de nossas obras (ver II Cor. 5:10); e a glorificação é o nível mais elevado da salvação (ver Rom. 8:29,30). Portanto, se forem corretamente entendidas, as «obras» estão plenamente envolvidas na salvação. Mas essas obras não são legalistas; são misticamente produzidas, como a auto-expressão da graça divina, que opera sobre a alma humana. É na «direção» dessa intuição que Tiago dirige a sua mensagem, embora de uma maneira com a qual não possamos concordar inteiramente. O próprio fato que a epístola aponta para essa verdade é motivo suficiente para lhe conferir uma parcela importante na nossa literatura e pregação, ao mesmo tempo que melhoramos alguns de seus pontos, com o auxílio de revelações maiores e melhores, extraídas dos escritos dos apóstolos Paulo e Pedro. O paradoxo: A maioria das principais doutrinas do cristianismo apresenta algum paradoxo. Como é que Cristo pode ser, ao mesmo tempo, Deus e homem, é algo em que cremos, mas que não temos maneira fácil e clara de explicar. Como é que o determinismo e o livre-arbítrio se encontram nas páginas do N.T. é algo em que igualmente cremos, mas sem podermos reconciliar esses princípios. Por semelhante modo, a fé e as obras, apesar de parecerem princípios contraditórios, quando nos referimos a «meios» de salvação, são apenas dois lados de uma grande verdade; mas, como harmonizá-los, não sabemos dizê-lo, embora façamos algumas sugestões, como aquelas que aparecem nos parágrafos acima. Os paradoxos resultam de nossa falta de compreensão; e a falta de compreensão resulta de nossa atual baixa posição, como espíritos aprisionados em corpos. Contudo, algum dia os paradoxos serão explicados, e deixarão de ser paradoxos. I. CONFIRMAÇÃO ANTIGA E AUTENTICIDADE Apesar de que normalmente, neste comentário, as questões de autoria e data são discutidas em primeiro lugar, no caso da epístola de Tiago, é mais sábio iniciarmos o estudo com o problema da confirmação antiga, que influenciará o que acreditamos sobre outras questões. ♦ A discussão abaixo procura mostrar que Tiago é um tratado ou panfleto religioso (na forma de epístola, e não de uma missiva comum), que escapou à atenção de todas as secções da Igreja primitiva por quase dois séculos. Orígenes, na primeira metade do século III D.C., foi o primeiro dos pais da igreja a identificar expressamente o livro, conferindo-lhe importância. Não é livro citado pelos pais da igreja anteriores a ele. É incrível (segundo alguns intérpretes) que se Tiago, apóstolo e irmão de Jesus, tivesse escrito alguma coisa, que tal escrito tivesse sido desprezado por tantos decênios, ao ponto de permanecer no olvido até aos dias de Orígenes! 1. Clemente e os primeiros livros: Nos escritos dos mais antigos pais da igreja, como Clemente de Roma, Inácio, Policarpo e Justino Mártir, bem como nos escritos dos apologistas do segundo século, não há qualquer referência clara ao livro de Tiago. E nem se acha citado ou claramente aludido nos primeiros escritos, isto é, II Clemente (escrita em nome de Clemente de Roma, embora não fosse, realmente, de sua autoria), a Epístola de Bamabé, o Ensino dos Doze Apóstolos e a. Epistola a Dioneto. Nos escritos de Clemente de Roma há temas similares que envolvem o estudo sobre Abraão, nos capítulos décimo, décimo sétimo e trigésimo primeiro, e sobre Raaca, no décimo segundo capítulo. Existem coincidências de expressão nos capítulos treze, vinte e três, trin ta , trin ta e oito e quarenta e seis. Porém, em todos esses casos, as similaridades são do tipo que se encontram na literatura judaica da época, expressões e idéias que foram reproduzidas, e que não eram originais e nem distintivas nesta epístola a Tiago, pelo que não se pode demonstrar qualquer dependência dos escritos de Clemente aos escritos de Tiago, o que certamente Clemente teria feito, se tivesse conhecido e Usado esta epístola. Quase todos os eruditos modernos concordam ser fraco o argum ento que Clemente usou a epístola de Tiago. Tal posição é insustentá­ vel. 2. Policarpo, Inácio e Justino Mártir: As evidências de que qualquer desses conhecia e usou a epístola de Tiago ainda são mais fracas que no caso de Clemente. Similaridades ocasionais são devidas ao uso de idéias e expressões comuns ao judaísmo helenista. Não há coisa alguma, nos escritos desses pais da igreja, que possa ser claramente derivado da epístola de Tiago. 3. O Pastor de Hermas (cerca de 150 D.C.):

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TIAGO 3 Esse foi um trabalho literário simbólico, cujo intuito era o de despertar uma igreja lassa e chamar ao arrependimento os crentes que houvessem pecado. Alguns segmentos da igreja aceitavam essa obra como canônica, e ela aparece no códex Sinaíticas do N.T. Essa obra tem vários pontos de semelhança com a epístola de Tiago, muito mais do que os livros e os pais acima mencionados. Porém, quando esses pontos de semelhança são examinados, vê-se que sob hipótese alguma este livro reflete algo exclusivamente pertencente ao livro de Tiago, o que certamente teria ocorrido, se seu autor tivesse usado essa epístola. Por exemplo, nada aparece acerca da famosa passagem sobre a «justificação», em Tia. 2:14-26. E até mesmo quando há certo paralelismo de idéias, a linguagem e a atitude são diferentes. Assim, pois, nenhum empréstimo diretamente feito de Tiago pode ser demonstrado, mesmo ao ser apresentado material semelhante. O paralelo mais notável é em Hermas Mand. ix, onde aparece o tema da «duplicidade de propósitos». Ali somos informados que devemos orar sem «duvidas» e sem «hesitações». Também nos é prometido que Deus responderá à oração da fé, porquanto Deus não guarda ressentimentos. Tudo isso é paralelo ao trecho de Tia. 1:5-8; mas o mais provável é que esse tipo

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4 TIAGO tinho Speculum (350 D.C.), essa epístola é incluída, mas evidentemente como se fora um panfleto patrístico, e não como parte de qualquer N.T. em latim. De fato, nenhum manuscrito latino contém essa epístola, senão já cerca de uma geração mais tarde. O exemplo mais antigo de citação da epístola de Tiago, em latim, é o de Hilário de Poitiers, de Trin. iv. 8 (358 D.C.), e mesmo assim apenas como parte de vários textos que os arianos perverteram para suas próprias finalidades, embora não cite o livro de Tiago de modo a autenticá-lo, e nem demonstre qualquer respeito especial pelo mesmo. Ambrosiastro (382 D.C.) demonstra ter conhecimento do livro, como também o fez Prisciliano (386 D.C.). As traduções da Vulgata latina que começaram a incluir a epístola de Tiago começam a fazê-lo em cerca de 384 D.C. O fato que Agostinho (430 D.C.) e Jerônimo (420 D.C.) finalmente aceitaram o livro como canônico, fez a Igreja Ocidental seguir a prática; e assim , os líderes cristãos subseqüentes dessa parte do mundo passaram a aceitar a epístola, embora certas vezes emitissem dúvidas, aqui e acolá. (Isidoro de Sevilha, em 636 D.C., menciona a existência de tais dúvidas). Não obstante, a autoridade do livro prevalecia de modo geral, diferentemente do que sucedia na igreja síria, onde sempre houve protestos vocíferos contra tal inclusão. 11. Na história posterior-. Na Reforma-. Os comentários acima demonstram a natureza da história da epístola de Tiago desde o século V até à época de Erasmo. Na igreja grega, quase não havia disputa; na igreja ocidental, menos ainda; na igreja siria continuava havendo forte resistência contra sua inclusão; nos dias imediatamente antes da Reforma, Erasmo novamente levantou a questão da autenticidade do livro, sua canonicidade e seu direito à autoridade, entre os escritos sagrados. Erasmo revisou as antigas razões para a reserva acerca da epístola de Tiago, e acrescentou algum as razões pessoais. Ele argum entou principalmente com base em questões de linguagem e estilo, e indagou, com razão, se qualquer dos apóstolos (judeusgalileus) poderia tê-la escrita. Não obstante, aceitava-a, talvez como filho obediente da igreja. No tocante à Igreja Católica Romana, as opiniões de Jerônimo e Agostinho eram seguidas de m aneira geral, pelo que nunca foram coerentemente levantadas objeções sérias. Todavia, no Concilio de Trento, alguns falaram acerca da «incerteza» de sua autoridade apostólica. A despeito disso, a 8 de abril de 1546, por decreto do citado concilio, a epístola de Tiago foi aceita juntamente com os outros vinte e seis livros de nosso presente N.T. Outrossim, seu autor foi declarado «apóstolo». Esse decreto foi confirmado pelo Concilio do Vaticano, de 24 de abril de 1870. No Concilio de Trento, entretanto, surgiu certa distinção (que continua a ser observada entre os católicos romanos), entre aqueles livros tidos como sempre aceitos e aqueles cuja aceitação foi gradual. Dentro dessa últim a categoria, naturalmente, foi situado o livro de Tiago. Mas isso é mera distinção histórica, que não visa atribuir valores diferentes aos livros. No lado Protestante: Posto que o protestantismo não foi forçado a concordar sobre o que dizia a hierarquia de organizações eclesiásticas, e nem de aceitar automaticamente as opiniões dos primeiros pais da igreja, houve muito maior oposição à inclusão da epístola do Tiago no «cânon». As epístolas de Hebreus, Tiago, II Pedro, II e III João, Judas e Apocalipse sempre foram livros disputados, e isso assim continuou sendo até dentro do período da Reforma. Lutero fez o evangelho de João, I Pedro e Romanos o seu «padrão» de julgamento; por essa causa, rejeitava a epístola de Tiago como canônica e autoritativa, chamando-a de «epístola de palha» (na sua Introdução à Epístola de Tiago), embora nem por isso tivesse proibido outros a usarem-na ou a pensarem dela o que bem entendessem. Em sua Bíblia vertida para o alemão, ele a colocou, juntamente com Heb., Judas e o Apo., no fim da coletânea dos livros do N.T., não dando a esses livros posição na tabela de conteúdo. A Bíblia alemã preservou essa ordem, mas, fínalmente, alistou-os em sua tabela de conteúdo. Carlstadt, o ciumento opositor pessoal de Lutero, admitia que o livro era disputado e de menor dignidade, mas nem por isso o excluiu do «cânon» de livros autoritativos. Melancthon pronunciou-se em favor dele, sem limitações pessoais, embora reconhecesse que outros líderes demonstravam escrúpulos sobre a questão. Após o ano de 1600. porém, a maioria dos luteranos admitia a autoridade da epístola de Tiago. Calvino, Zwínglio e Beza aceitavam a epístola de Tiago como canônica, mas disputavam a sua autoria. Na Inglaterra, os pontos de vista de Lutero exerceram influência. Assim, no N.T. de Tyndale (1525 D.C.), foi adotado o arranjo da Bíblia em alemão, até ao ponto de não haver número das páginas dos livros disputados, na tabela de conteúdo. O próprio Tyndale aceitava a epístola, mas não ignorava a aura de dúvidas que a rodeava. As Bíblias de Coverdale (1535), Matthew (1537), Taverner (1539) também preservaram a ordem de livros da Bíblia alemã. Mas as Bíblias Grande (1539), «Bispos» e King James preferiram a ordem de livros que aparece na Vulgata, ignorando a disputa. As Bíblias em holandês, em dinamarquês, em sueco (do século XVI) e da Suíça, seguiram a ordem apresentada por Lutero. A igreja anglicana, nos seus Trinta e Nove Artigos (artigo vi), e a Confissão Westminster (1647), aceitaram a epístola de Tiago sem disputa. (Quanto ao «cânon do N.T.», ver o artigo de apresentação desse assunto, na introdução ao comentário). Pode-se ver, com base nisso, bem como com base na discussão anterior, que, depois do livro de Apocalipse, a epístola de Tiaço foi o livro mais disputado do N.T., e com grande hesitação e que recebeu lugar no «cânon», no período pos-apostólico, nunca lhe tendo sido atribuída autoridade nos dois primeiros séculos da história da igreja. II. AUTORIA Tendo visto claramente as dificuldades que circundam este livro, no tocante à sua autoridade e canonicidade, podemos mais facilmente dizer algo de significativo sobre a questão do próprio autor. O livro identifica algum «Tiago» como seu autor. Mas, qual Tiago está em foco, que nos seja conhecido no N.T.? Ou tratar-se-ia de um Tiago desconhecido? Ou seria este livro uma pseudepígrafe, isto é, escrito em nome de um. famoso Tiago do N.T., mas não na realidade? Essa prática era comum nos primeiros séculos da era cristã, havendo mais de cem escritos dessa natureza que chegaram até nós, supostamente de famosos cristãos primitivos, mas certamente sem que isso seja verdade. E esses são os escritos acerca dos quais temos algum conhecimento, pelo mènos através de fragmentos, ou títulos mencionados por outros pais da igreja. Deve ter havido um número muito maior de casos. Tal prática não era reputada desonesta, naqueles dias; era uma prática comum, usada tanto na literatura profana como na sagrada. Ós vários Tiagos do N. T .: (Ver notas expositivas mais completas sobre esses personagens em Atos 12:2. Notas expositivas adicionais são dadas acerca de «Tiago, irmão do Senhor», que subseqüentemente se tomou bispo de Jerusalém, em Atos 12:17 e 15:13). 1. Tiago, filho de Zebedeu, irmão de João, incluído em todas as quatro listas sobre os doze apóstolos. Foi decapitado a mando de Herodes Agripa I, em 44 D.C. ou pouco antes. (Ver Atos 12:2). 2. Tiago, filho de Alfeu, um dos doze apóstolos. (Ver Mat. 10:3; Marc. 3:18; Luc. 6:15 e Atos 1:13). 3. Tiago, irmão do Senhor. (Ver Gál. 1:19; 2:9,12; I Cor. 15:7; Atos 12:17; 15:13 e 21:18). Ficou convicto do caráter messiânico de Jesus, evidentemente através de apariação pessoal a ele, após a ressurreição de Cristo. Subseqüente­ mente, tornou-se o líder principal da igreja de Jerusalém, uma figura de estatura sumo sacerdotal, muito respeitado entre judeus e cristãos, igualmente. 4. Tiago, o Menor (uma alusão à sua pequena estatura, a fim de distingui-lo de outros personagens do mesmo nome). (Ver Marc. 15:40; Mat. 27:56; Luc. 24:10). Muitos identificam esse Tiago com o filho de Alfeu. 5. Tiago, pai ou irmão de Judas, um dos doze apóstolos (ver Luc. 6:16 e Atos 1:13). Ao invés desse Judas (não o Iscariotes), nas listas dos evangelhos de Marcos (capítulo terceiro) e de Mateus (capítulo décimo), aparece o nome de Tadeu ou Labeu. 6. Tiago, autor da epístola, que possivelmente, pode ser com um ou outro dos Tiagos mencionados acima. 7. Tiago, irmão de Judas (ver Jud. 1), por meio de quem a epístola de Judas teria sido escrita. Dentre esse número, os Tiagos de posição prim eira, segunda, terceira e sétima têm sido identificados como o autor

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TIAGO 5 da epístola. Os argumentos típicos contra a idéia de que qualquer Tiago do N. T. escreveu este livro: 1. É uma provação de fé, e não um ponto de fé, supormos que qualquer figura importante, e até mesmo apóstolo de Cristo, pudesse ter escrito algum a coisa e isso ficasse inteiramente desconhecido na igreja cristã, até aos tempos de Orígenes, isto é, já nos meados do século III D.C. 2. Seria virtualmente impossível a qualquer dos apóstolos, aldeões e pescadores galileus como eram, ter produzido uma obra em grego dotada de tal linguagem e estilo. Os aldeões galileus simplesmente não poderíam ter conhecido e usado o grego dessa maneira. Poder-se-ia argumentar que escreveram em aramaico, e que alguém, ato contínuo, traduziu a obra. Mas as traduções sempre trazem sinais de serem traduções. Não há mesmo qualquer indício de que temos aqui uma tradução. Pelo contrário, trata-se de um escrito original, com um grego de tão alto naipe que só perde para a epistola aos Hebreus, em todo o N.T. Também se podería argumentar que 0 Espirito Santo ajudou esse Tiago a ter um grego impecável. Mas esse mesmo Espírito não ajudou a Marcos ou o autor do livro de Apocalipse a escrever em grego superior ao «grego de rua», o que explica seus barbarismos. Nas páginas do N.T. se encontram muitos níveis de grego, alguns se aproximando do clássico (como a epístola aos Hebreus), e outros em bom estilo literário koiné (como os escritos de Paulo), havendo outros de inferior qualidade. É um argumento eivado de preconceitos aquele que afirma que, neste único caso (na epístola de Tiago), um autor foi ajudado pela inspiração para «escrever acima» de sua capacidade no idioma. Acresça-se a isso o fato que o autor estava familiarizado com as minúcias de estilo helenista, com artifícios retóricos, com aliterações, com diatribes e com a terminologia dos filósofos éticos-estóicos e cínicos da época, o que dificilmente podería fazer parte do vocabulário de judeus da Galiléia. 0 que queremos asseverar é que o autor sagrado exibe os sinais de ter sido homem bem-educado na tradição helenista. A família imediata de Jesus e os seus discípulos, dificilmente teriam recebido tão formal educação. 3. Ademais, note-se que Tiago é o «menos cristão» e o mais judaico de todos os livros do N.T. Há quase total ausência das doutrinas distintivam ente cristãs, e o próprio Jesus _ é mencionado apenas por duas vezes (em Tiago 1:1 e 2:1). É impossivel crermos que qualquer apóstolo que tivesse passado tanto tempo com Cristo, e especialm ente um irmão seu, pudesse ter escrito tão pouco sobre a sua pessoa. 4. A data da epístola certamente deve ser assinalada em depois do tempo de Tiago," filho de Zebedeu, que foi martirizado em 44 D.C. (Ver as notas expositivas sobre a «Data» desta epístola, na secção III da introdução à mesma. Assim, esse Tiago fica eliminado ao menos devido a essa consideração. 5. Qualquer declaração em prol da autoria de qualquer desses três personagens é pura conjectura. A própria epistola não identifica o «Tiago». Qualquer identificação deve residir na tradição; e, nesse caso, a tradição é distintamente contrária à idéia de que qualquer deles tenha sido o autor, a menos que admitamos aquela tradição iniciada em meados do século III D.C. Todavia, a tradição do próprio século III em diante se contradiz consigo mesma. Aqueles que conjecturavam que Tiago, o irmão do Senhor, é quem escreveu essa epístola, meramente conjecturavam; e isso é verdade no tocante às demais identificações específicas. Não há qualquer evidência de que qualquer deles escreveu o livro. A observação que há algum acordo verbal entre esta epístola e o discurso de Tiago, no décimo quinto capítulo do livro de Tiago—Atos 15:23 com Tia. 1:1; Atos 15:17 com Tia. 2:7; Atos 15:14,26 com Tia. 2:7 e5:10,14; Atos 15:14comTia. 1:27 e Atos 15:19 com Tia. 5:19,20—não é mais convincente que dizer que o mesmo autor escreveu a primeira epístola de Pedro, por causa de uma lista similar de semelhanças, que se pode traçar entre esses dois livros, a saber, I Ped. 1:1 com Tia. 1:1; 1 Ped. 1:6 com Tia. 1:2; I Ped. 1:23 com Tia. 1:18; I Ped. 1:24 com Tia. 1:10; I Ped. 2:1 com Tia. 1:1; I Ped. 4:8 com Tia. 5:20; I Ped. 5:5 com Tia. 4:8 e I Ped. 5:9 com Tia. 4:7. A epístola de Tiago exibe semelhanças assim em relação a vários outros escritos, totalmente não-cristãos. O Tiago desconhecido: É possível que um Tiago inteira­ mente desconhecido tenha sido o autor da epístola. Contra tal opinião, porém, talvez corretam ente se possa dizer que o simples título, «Tiago», tinha por intuito ser reconhecido como autoritário. Isso está de acordo com o costume da época, quando alguém poderia escrever um livro «no nome» de outrem, a fim de garantir tanto o prestígio como a distribuição de sua obra. Pode-se supor, pois, que o autor sagrado queria que seus leitores pensassem em uma figura «apostólica», ao lerem o livro, como se tivesse sido escrito sob a autoridade de tal personagem, promovendo a sua doutrina. Ou Tiago, o apóstolo, filho de Zebedeu, ou então Tiago, irmão do Senhor, poderíam ser assim indicados. Trata-se (alguns dizem) de uma pseudepígrafe: Em outras palavras, foi escrita a epístola sob o nome de Tiago, filho de Zebedeu, ou sob o nome de Tiago, irmão do Senhor (não sabemos dizer qual deles o autor sagrado queria dar a entender). Na realidade, entretanto, o autor não foi nem um e nem outro. Essa era uma prática comum naqueles dias; e isso explicaria por que os primeiros pais da igreja não lhe deram qualquer atenção. Sem dúvida, por onde quer que a epístola fosse distribuida e conhecida, era reconhecida não como produção de um verdadeiro apóstolo, e, portanto, sem autoridade. Somente em época posterior é que gradualmente começou a ser reconhecida, devido a certos elementos de valor próprio, intrínseco. É natural que quando a epístola adquiriu certo prestígio, que tivesse solidificado essa vantagem adquirindo autoridade apostólica. Ê posição de muitos intérpretes modernos, que, embora a epístola certamente não seja de origem apostólica, nem por isso deixa de merecer lugar no «cânon» neotestam entário, somente por causa dos problemas de crítica que ela levanta; antes, merece tal posição devido o fato de ser uma digna composição literária. Evidentemente foi escrita por um homem aítamente espiritual, que tinha discernim ento suficiente para merecer nossa atenção, mesmo que possuísse uma revelação inferior àquilo que, de modo geral, fora revelado ao apostolo Paulo. Mui provavelmente era ele um judeu, embora treinado na cultura helenista, sendo homem de consideráveis habilidades literá­ rias. Os cansativos esforços de alguns intérpretes, por descobri­ rem quem teria sido o «Tiago» que escreveu esta epístola, têm sido baldados, porquanto lhes falta qualquer apoio na igreja apostólica e imediatamente posterior, onde os demais livros do N.T. são abundantemente autenticados. O resultado líquido desses esforços se resume em quem devemos supor que escreveu o livro. Em outras palavras, os autores desses estudos meramente querem que suponhamos que um certo famoso «Tiago» escreveu o livro. É a autoridade do mesmo, pois, que esses autores desejam trazer para detrás do livro, sendo perfeitamente possível que ele houvesse apresentado fielmente os pontos de vista desse Tiago. Argumentos em favor do caráter genuíno de Tiago (com isso se entende que, de fato, foi escrito ou pelo apóstolo Tiago, ou por Tiago, irmão do Senhor, o que significa que tem autoridade apostólica e deve ser considerado como livro canônico): Primeira discussão, extraída do comentário de Lange: «A. Informes que pressupõem existência rem ota e o acolhimento da epistola em Clemente, Romanus, Ep. 1, cap. x; no P astor de Hermas, Sim ilit. viii.6; em Irineu, adv. Haeres. iv. 16; Abraham amicus Dei (Jacob ii.23); em Tertuliano, adv. Judaeus, cap. ii; Abraham amicus Dei... (Deve-se admitir que a maioria dos estudiosos vêem agora que as supostas «citações» acima, extraídas de Tiago, não passam de coincidências verbais, pois nada contêm distintamente pertencente a Tiago). B. Testemunhos: A antiga versão siríaco Peshitto contém esta epístola. Clemente de Alexandria a conhecia, conforme Eusébio, História Eclesiástica vi. 14. Ele também alude a Tia. 2:8 em Stromat. vi. Orígenes menciona a epístola de Tiago em Rom. 19 sobre João, e ocasionalmente a chama de divina Jacobi Apostoli Epistola. Homl. 13 em Gên., etc. Dionísio de Alexandria apela para ela em vários lugares, e Dídimo de Alexandria escreveu um comentário a seu respeito. Cirilo de Alexandria e Jeronimo, Cat. 3, consideravam-na genuína. (Após descrever dúvidas, antigas e modernas, sobre Tiago, o citado comentário tenta falar de modo favorável, respondendo, em parte, as dúvidas levantadas): «A circunstância da epístola não ser geralmente conhecida pela igreja antiga em qualquer data remota, pode ser explicada pelas seguintes considerações:

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6 TIAGO 1. Foi dirigida a judeus cristãos, pelo que já figura na versão Peshitto, porque na Síria, em particular, havia muitos judeus cristãos. 2. A epístola, em sua tendência, apresentava apenas poucos pontos dogmáticos, ao passo que a igreja antiga reverteu especialmente para pontos dogmáticos. 3. A ausência da designação apostólica no título e coisas similares. Lange alude a uma discussão, feita por outro autor. Usualmente, acerca da suposta «humildade» do autor, que seria o «irmão do Senhor», levou-o a om itir qualquer tal declaração, e, embora não fosse um «apóstolo» no sentido estrito, ele foi uma figura apostólica. «Alford: No seu todo, sobre quaisquer princípios inteligíveis de acolhimento canônico dos escritos, antigos, não podemos negar a esta epístola lugar no cânon. Que tal lugar lhe foi dado desde o principio em porções da igreja; que apesar de muitas circunstâncias adversas, gradualmente obteve aceitação em outros lugares; que, quando devidam ente considerada, é coerente e digna de seu caráter e da posição daquele cujo nome ela traz; que ela está assinalada por tão forte linha de distinção de outros escritos e epístolas que nunca tiveram lugar no cânon—todas essas são considerações que, embora não sirvam mais de dem onstração do que noutros casos, contudo, fornecem, quando combinadas, uma prova difícil de ser resistida, de que o lugar que ela ocupa agora no cânon do N.T. é merecido, pois a providência divina guiou a igreja para atribuir-lhe tal posição». Segunda discussão, extraída do comentário de Jamison, Fausset e Brown: «Canonicidade: Não é de adm irar que epístolas não dirigidas a igrejas particulares (particularmente a de Tiago, aos crentes israelitas dispersos) fossem menos conhecidas por algum tempo. A primeira menção à epístola de Tiago, por seu nome, ocorre no começo do século III D.C., em Orígenes (Comentário sobre João 1.29,4,306; nasceu cerca de 185 e morreu em 254 D.C.). Clemente Romano (Primeira epístola aos Coríntios, cap. x; comparar com Tia. 2:21,23; cap. xi; cf. Heb. 11:31 e Tia. 2:25) o cita. Assim.também o faz o Pastor de Hermas, que cita 4:7. Irineu (Heresias iv. 16.2) parece aludir a Tia. 2:23. Clemente de Alexandria comentou sobre a mesma, de acordo com Cassiodoro. Efraem Siro (Opp. Grac.iii.51) cita Tia. 5:1. Uma forte prova de sua autenticidade é dada na antiga versão siriaca, que não contém qualquer outro dos ‘livros disputados’ (‘Antilegom ena, Eusébio iii.25), exceto a epístola aos Hebreus. Eusébio diz que os livros disputados são ‘reconhecidos pela maioria’ (Gnorima homos tois pollois). Diz ele que a epístola de Tiago era lida publicam ente na maioria das igrejas como obra genuína. Nenhum pai latino, antes do século IV D.C., a cita; mas logo depois do concilio de Nicéia, ela foi admitida como canônica, pelo Oriente e pelo Ocidente, e foi especificada como tal nos concílios de Hipona e Cartago (397 D.C.). Isso é o que já se poderia esperar, um escrito que a princípio era conhecido apenas em parte, até que subsequentemente obteve circulação mais lata; e tornou-se melhor conhecida nas igrejas apostólicas, onde havia homens dotados de discernimento de espíritos, que os qualificava para discriminar entre escritos inspirados e disputados, passando a ser universalm ente aceita. (Ver I Cor. 14:37). Em bora postos em dúvida por algum tempo, pelo menos os livros disputados (Tiago, II e III João, Judas e Apocalipse) foram universalmente aceitos... a objeção de Lutero... se deveu a idéia equivocada, de que o segundo capítulo se opõe à justificação pela fé, não segundo as obras, ensinada por Paulo». Se a epístola foi escrita por Tiago, irmão do Senhor, sua data deve ser fixada antes de 62 D.C., pois é evidente que, naquele ano, ou perto de seu térm ino, esse Tiago foi martirizado por apedrejamefito. Poucos consideram que essa epístola foi escrita pelo apóstolo Tiago, martirizado em 55 D.C. Conclusão: 1. Já que o livro não identifica o «Tiago» que é chamado seu autor, e já que não nos é possível descobrir que Tiago está em pauta, para todos os propósitos práticos, o livro é anônimo. Supor que uma figura apostólica é frisada, não passa de sugestão. Nenhuma prova contra ou a favor, em absoluto, pode ser oferecida. 2. De modo nenhum, pois, a aceitação ou rejeição do livro como «apostólico» pode servir de base de ortodoxia ou heterodoxia, e nem pode isso servir de prova de fé cristã. O próprio livro não afirma ser apostólico. Podemos apenas supor que seu autor queria que entendéssemos que o livro se baseia sobre a tradição apostólica. Tiago, o irmão do Senhor, não foi um apóstolo, estritamente falando, embora fosse uma figura apostólica, um poder apostólico. 3. Lutero dizia: «...para dm minha opinião franca, embora sem preconceitos para com outrem, não suponho que seja o escrito de um apóstolo. E estas são as minhas razões: ...opõe-se diretam ente a Paulo e a outras Escrituras, ao atribuir a justificação às obras, ao passo que Paulo ensina que Abraão foi justificado pela fé, independentemente das obras, esse Tiago nada faz além de impor-nos a lei e suas obras, escrevendo de modo tão confuso e desconexo que a mim parece que algum homem piedoso se apossou de certo número de declarações dos seguidores dos apóstolos e as lançou no papel; ou provavelmente foi escrito por alguém, conforme a pregação do apóstolo» (Prefácio a Tiago e João). Não são poucos os intérpretes protestantes que têm seguido essa avaliação de modo geral. Cremos que tende a subestimar o valor de Tiago, embora enfrente com franqueza certos problemas apresentados por este livro, o que alguns comentadores modernos só têm feito com relutância. 4. O problema real: O problema crítico que enfrentamos, quando consideramos esta epístola, não é «qual Tiago a escreveu?» Aceitamo-la como canônica e inspirada, pelo que aquele que fez mover-se a pena, afinal, foi o próprio Espírito Santo. Contudo, ele não movimentou homens deixando de lado as suas idéias e expressões naturais. Portanto, em expressão, o autor contradiz a Paulo. Mas, quanto à «essência do significado», ele dá apoio a uma importantíssima doutrina paulina: é m ister que o crente seja transform ado na justificação e na santificação; a mera crença não basta. Se o autor se encontrasse com Paulo, certam ente havería um debate. Ele era bom representante dos «crentes judeus» de Jerusalém, isto é, dos «legalistas». Estes jamais concordariam com certas crenças paulinas. Mas, por detrás da controvérsia,» destaca-se a grande verdade que a graça deve transformar; que a «crença fácil» é uma mentira. Tiago mostra ser uma coluna contra a mentira e o engodo da crença fácil, mesmo que o autor não se tenha expressado conforme Paulo faria, se falasse sobre o tema. O real problema que enfrentamos aqui, portanto, é: «Temos entendido o absurdo que é a ‘crença fácil’!» Tiago, sem importar quem foi ele, compreendeu isso, e faríamos bem em buscar discernir a sua idéia. Sob a secção VII desta introdução, temos m ostrado que Paulo e Tiago discordam do mesmo modo, e acerca das mesmas coisas, como fazem o «sistema da graça» e o «sistema legalista». Tiago representa o ponto de vista legalista da fé religiosa. Lutero viu isso claramente, e muitos bons intérpretes não têm temido destacar o fato. Contudo, de um ponto de vista da «compreensão espiritual», não há contradição entre Tiago e Paulo, tal como não há diferença entre as «obras» e a «graça», quando ambas são entendidas de um ponto de vista realmente espiritual. A graça em ação é obras, e sem esse tipo de obras não houve salvação. Tiago, de modo cru, talvez, viu isso. E faríamos bem em vê-lo também. 5. Se nossa disposição é aceitar o testemunho da maioria dos antigos pais da igreja, então cumpre-nos rejeitar a autoridade apostólica deste livro. Se aceitarmos a opinião da igreja, a começar do século III D.C., afirmaríamos que Tiago, irmão do Senhor, o escreveu, ou então que seu autor foi o apóstolo Tiago; e nesse caso aceitaríam os o livro como canônico. Apesar do que pensamos sobre sua autoria, não há motivo para rejeitar sua autoridade e canonicidade. Ele nos apresenta importantíssima mensagem. O antinomianismo tem como fruto a «crença fácil», e esse sentim ento é muito mais generalizado na igreja moderna do que ousamos adm itir. Tiago se opõe a tal desenvolvimento, e sua mensagem deve ser ouvida. III. DATA, PROVENIÊNCIA E DESTINO Porquanto a questão de autoria é tão indefinida, é difícil afirmarmos qualquer coisa, de forma absolutamente certa, sobre essas questões. Pelo menos, podemos eliminar algumas idéias «piores», chegando a uma espécie de aproximação da verdade. Data: O que se acredita sobre esse particular varia desde uma data não-fixada, A.C., até 150 D.C. A própria data mais antiga poderia ser correta, se a epístola não é um documento cristão, que foi adotado para uso cristão, com o acréscimo de alguns poucos toques cristãos, como a menção do nome de

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TIAGO 7 Cristo, em Tia. 1:1 e 2:1. O nome «Tiago» e o nome «Jacó» na realidade procedem de um só nome hebraico, pelo que esse tratado «não-cristão» podería ter sido intitulado «Discurso de Jacó», com base em idéias sugeridas pelo quadragésimo nono capítulo do livro de Gênesis, ou algo similar. (Ver a explicação dessa teoria, com maiores detalhes, na IV secção, que envolve a «integridade» da epístola). Contrariamente a essa idéia temos o fato que a passagem central do livro, Tia. 2:14 e ss., é definidamente um ataque contra certas idéias de Paulo, ou contra certa forma corrompida das mesmas, que foram surgindo na igreja, na era pós-paulina. Isso é mais que um toque cristão; é o coração, o âmago mesmo da epístola, e só podería ter sido escrito depois que os ensinamentos de Paulo se propalassem, porquanto, no judaísm o, não havia qualquer debate que pusesse em choque a fé e as obras. Não pode haver dúvidas que os pensamentos que Paulo trouxera à fé religiosa estão em pauta, naquele capítulo. Por conseguinte, a epístola tem de ser pós-paulina. Poderiamos supor que a passagem de Tia. 2:14 e ss. e obra de um editor cristão subseqüente; mas, apesar disso ser perfeitamente impossível, tal idéia nunca obteve grande aceitação entre os eruditos do N.T. Seria o livro mais antigo do N.T.-. Alguns eruditos raciocinam que a epístola a Tiago é o livro mais antigo do N .T., mormente porque lhe faltam as grandes revelações cristãs, o que significaria que «deve» refletir uma data recuada, antes das revelações mais profundas se terem tomado ensinamento comum da igreja primitiva. Porém, a mesma objeção que é levantada contra a teoria pré-cristã pode ser aplicada aqui. O trecho de Tia. 2:14 e ss. combate conceitos paulinos; portanto, a epístola deve ser de data pós-paulina. Seria um panfleto religioso pás-paulino e posterior a Tiago: A epístola foi escrita após ter sido escrita a epístola aos Romanos (porquanto se opõe principalmente a seu quarto capítulo); e também após a morte do apóstolo Tiago, irmão do Senhor, porquanto e improvável que alguém presum isse escrever em seu nome, enquanto ele ainda vivesse. Tiago faleceu em cerca de 60 - 66 D.C. Portanto, devemos apontar para uma data logo posterior a isso. Se a escolha do autor de um nome sob a égide de quem escrevería, foi influenciada pelo livro de Atos, então ele deve ter escrito após o ano 70 D.C. Se a datarmos em 70 - 90 D.C., provavelmente não estaremos longe do alvo. Os trechos de Tia. 5:1-6 e 8,9 indicam que as expectações apocalípticas continuavam bem vivas, e o retomo de Cristo ainda era esperado para breve; por conseguinte, poderiamos supor que o período de «esfriamento», no tocante a esses eventos, que ocorreu do segundo século da era cristã em diante, ainda não chegara. Proveniência: Não há maneira de determinarmos «de onde» foi escrita essa epístola. Alguns defendem Roma, outros, Jerusalém, e outros ainda, Alexandria. Cesaréia também tem sido conjecturada, na suposição que esse ou algum outro lugar fora da corrente principal do cristianismo tenha sido o lugar de sua composição, o que explicaria o fato que o tratad o permaneceu desconhecido até à época de Orí^enes, que o redescobriu, e por meio de quem adquiriu prestigio na igreja grega, a qual, por sua vez, influenciou, primeiramente, as igrejas ocidentais, e, então, a igreja síria, para que o aceitasse. Um bom alvitre é Jerusalém, especialmente se pensarmos que Tiago, irmão do Senhor, foi seu autor genuíno. Há indícios, na própria epístola, que demonstram que o autor estava familiarizado com a vida à beira-mar (ver Tia. 1:6 e 3:4), que ele vivera em uma terra onde abundava o azeite, a vinha e os figos (ver Tiago 3:12), estando familiarizado com o sal e com as fontes amargosas (ver Tia. 3:11,12). Além disso, ele vivera em uma região onde a chuva e o estio eram questões devitalimportância (ver Tia. 3:17,18), eele alude às primeiras e às últimas chuvas do ano (ver Tia. 5:7). Tudo isso parece indicar a região da Palestina. Porém, apesar de que escreveu com as condições daquela região em vista, isso não indica que ele estivesse necessariamente no local quando escreveu, e nem essas condições de vida se reduzem exclusivam ente à Palestina. A habilidade do autor, em seus escritos helenistas, cheios de artifícios próprios daquela cultura, pode indicar um erudito centro do judaísm o, fora da Palestina, como Alexandria. Destino-. Alguns estudiosos têm argumentado que não há destino expresso no caso desta epístola, nenhuma comunidade especial está em vista. Isso, provavelmente, é correto. Tiago é, verdadeiramente, uma epístola «católica» ou «universal», que visa a igreja cristã inteira. O endereço, as «doze tribos» (ver Tia. 1:1), pode ser reputado como indicação de «cristãos judeus»; mas há quem pense que isso significa a «igreja cristã», e não o povo de Israel. Ê verdade que estão ausentes «problemas gentílicos» distintivos, nas várias repreensões e exortações existentes neste tratado. Não há qualquer alusão à idolatria, a escravos, à lassidão sexual—em suma, os perigos e vicios do paganismo, conforme poderiamos esperar em uma epístola dirigida para cristãos gentílicos, ou mesmo para a igreja em geral, onde havia a mistura de elementos judeus e gentios. E ssa observação favorece a idéia que toma a expressão «doze tribos» como suposição que a epístola foi literalmente escrita a judeus da dispersão. Notemos, em Tia. 2:2, que a palavra «sinagoga» é usada, ao invés de «igreja»; e bastaria isso para mostrar-nos a mentalidade «judaica» do seu autor, e, talvez, a mesma coisa, por parte dos endereçados da epístola. Outrossim, apropria epístola tem numerosas alusões judaicas, que um autor não havería de esperar. que gentios compreendessem, mas somente os judeus. A ênfase sobre as esmolas (ver Tia. 2:14-16) e sobre a visita dos anciãos aos enfermos (ver Tia. 5:15 e ss.), são toques tipicam ente judaicos, talvez visando principalmente os crentes judeus. A despeito dessas coisas, alguns bons intérpretes contendem pela verdadeira catolicidade ou universalidade da epístola, isto é, por toda a parte, onde estivesse a igreja cristã, composta de judeus ou de gentios, era destinada a epístola. A epístola não indica condições calamitosas, não havendo qualquer alusão à destruição de Jerusalém , o que quase certamente ocorreu antes de sua composição. Isso pode indicar um lugar distante de Jerusalém, e, talvez, fora mesmo da Palestina. A escolha parece ficar reduzida a: 1. Crentes judeus da dispersão, que seriam seus principais endereçados; 2. a igreja universal, composta de judeus e gentios. Seja como for, nenhuma comunidade local parece estar em foco. Não há saudações e nem informes pessoais. IV. FONTES E INTEGRIDADE A escolha de idéias parece girar entre duas possibilidades: 1. O livro é um documento cristão, dotado de forma essencialm ente como foi originalm ente escrito; mas com muitos empréstimos e citações diretas, além do refraseado segundo moldes judaico-helenistas, e tudo revestido nas formas retóricas do grego. 2. Ou o livro, em sua maior parte (se falarmos do volume total ali contido), é não-cristão, uma composição judaica anterior aos tempos cristãos, mas que foi refraseada por um editor cristão. Neste caso, também teria sofrido a influência da erudição e da retórica gregas. Consideremos, em primeiro lugar, a segunda dessas possibilidades. Ambas as possibilidades dizem respeito à «integridade» da epístola, que é um termo usado pelos eruditos para falar sobre o estado intocável e sobre a «unidade» de uma obra literária qualquer. A epístola se encontra segundo a sua forma original, ou sofreu modifica­ ções, desde que foi escrita originalmente? A epístola é produto de um único autor, ou algum editor combinou uma ou mais fontes, juntamente com suas próprias adições? As evidências textuais favorecem o argumento que o livro é conhecido, hoje em dia, tal e qual foi originalmente escrito; mas é possível que incorpore algum documento judaico, e que a isso várias porções foram acrescentadas por algum editor cristão. Nos fins do século XIX, o erudito francês L. Massebieau («L’épitre de Jacques est-elle Foeuvre d'un Chrétien?», págs. 249-283), levantou a questão se a epístola de Tiago conta ou não com um documento judaico que a escuda. Escrevendo independentemente, o erudito alemão Friedrich Spitta (Der Brief des Jacobus, 1896) levantou idêntica especulação; e ambos supunham que a leve adição, em Tia. 1:1 e 2:1, que menciona o nome de Cristo, fez desse documento um tratado cristão. De fato, no trecho de Tia. 2:1 surge uma grande dificuldade gramatical (ver as notas expositivas, in loc.), a qual seria solucionada de pronto se supuséssemos que esse versículo foi uma interpolação feita por algum editor posterior. Sem essas duas interpolações, esses citados escritores encaravam o documento como próprio da literatura judaica, e nada mais. Porém, tal posição recebe golpe fatal com o trecho de Tia. 2:14 e ss., que e a porção central do tratado, em torno do que a questão inteira é edificada, e que foi especificamente escrita para com bater ou certas idéias de Paulo ou certa perversão de idéias paulinas, o que significa que a epístola deve ser pós-paulina. A mensagem ou perversão do quarto capítulo da epistola aos Romanos certamente está em foco,

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TIAGO nessa mencionada passagem, com o que concordam pratica­ mente todos os eruditos modernos. Tal teoria, apesar de manuseada com respeito, não conseguiu obter aderentes. Então, Arnold Meyer (Das Ratsel des Jabusbriefes, 1930) não somente reviveu a idéia geral, mas também a elaborou. Ele observou que os nomes «Tiago» e «Jacó», na realidade, são apenas duas formas diferentes de um só apelátivo hebraico, «Jacó». Portanto, a saudação poderia ser lida como «Jacó, servo de Deus, às doze tribos da dispersão, saudações». O editor, portanto, teria acrescentado somente as palavras (servo) «do Senhor Jesus Cristo». Meyer concordou com os dois eruditos acima mencionados, no sentido que os trechos de Tia. 1:1 e 2:1 envolvem interpolações; mas adicionou a idéia que o trecho de Tia. 5:12,14 também pertence a essa natureza. Poucos eruditos modernos o têm seguido com exatidão; mas certo número deles tem adotado, pelo menos, a sua idéia de um «documento judaico »,como teoria básica. É possivel que a principal contribuição de Meyer tenha sido a sua tentativa em explicar o estilo literário da epístola, em sua possível forma original. No capítulo quarenta e nove do livro de Gênesis encontramos o discurso de Jacó acerca das doze tribos; e, com,base nesse «precedente», o autor sagrado pode ter desenvolvido o seu livro. Naquele citado capítulo cada tribo de Israel é devidamente caracterizada, suas virtudes e seus vícios particulares são descritos. Filo seguiu essa sugestão, equiparando cada tribo com alguma virtude ou vício especial. Meyer cria que, de maneira bem mais sutil, cada tribo também recebe seu louvor ou repreensão, no tratado de «Tiago». Abaixo encontramos a descrição de como ele via essa questão; Tia. 1:2-4 falaria de Isague como «Alegria», de Rebeca como «Constância» e de Jaco como «Perfeição» mediante as tribulações. Tia. 1:9-11 falaria de Aser como «Rico», que seria um mundano; Tia. 1:12 falaria de Isacar como «Homem de Deus», pleno de boas obras; Tia. 1:18 falaria de Rubem como as «Primícias»; Tia. 1:19,20 falaria de Simeão como «Ira»; T ia .1:26,27 falaria de Levi como «Religião»; Tia. 3:18 falaria de N aftali como «Paz»; Tia. 4:1,2 falaria de Gade como «Homem de Guerra e de Lutas»; Tia. 5:7 falaria de Dã como «Aquele que aguarda a salvação» e como «Paciente»; Tia. 5:14-18 falaria de José como «Oração»; Tia. 5:20 falaria de Benjamim como «Morte e Nascimento». Além disso, havería algumas alusões mais obscuras, adicionadas em Tia. 1:22-25, em que Levi aparecería como o «Ativo», isto é, homem de ação; em Tia. 2:5-8 teríamos Judá como o «Majestático»; em Tia. 5:12 teríam os Zebulom como um «Juram ento». Por conseguinte, a «epístola de Jacó» (supostamente a porção principal do livro que atualmente denominamos «epístola de Tiago», na realidade era um documento judaico, servindo de meio para louvar ou repreender as doze tribos de Israel. Ê possível que Meyer tenha obtido essa idéia das comparações ao observar que há muitos paralelos de idéias e expressões entre os Testam entos dos Doze Patriarcas e a epístola de Tiago. Alguns desses paralelismos aparecem no ponto terceiro da secção V desta introdução. Essa teoria, a despeito de atrativa, certamente é por demais elaborada, não podendo ser submetida a teste; mas, por ser tão sutil, toma-se imediatamente suspeita, segundo o conceito da maioria dos eruditos. De modo algum podemos eliminar o elemento «cristão» da epístola com o simples expediente de apagar da mesma os trechos de Tia. I :l ;2 : l; 5 : 1 2 e 5 : 1 4 . Alguns estudiosos modernos, seguindo, em termos gerais, o que foi explanado acima, descobrem ainda outras interpola­ ções feitas pelo suposto «editor» cristão, especialmente na passagem de Tia. 2.14 e ss. Se a teologia judaica discutia as relações entre a fé e as obras, nunca houve uma polêmica que pusesse em campos opostos a «fé» e as «obras»; pelo que também, a passagem de Tia. 2:14 e ss. é, distintivamente, um produto da era cristã. Eruditos posteriores têm salientado passagens como Tia. 3:1-12; 1:6-8 e 2:7,8,12 como outras possíveis interpolações. Alguns deles frisam que essas adições têm um único objetivo, ao passo que o resto do livro, que teria «fundo judaico», se comporia de muitas declarações miscelâ­ neas, mais ou menos ao estilo do livro de Provérbios. O quadro se toma ainda mais confuso devido à suposição que algumas das porções «judaicas», foram, na realidade, adicionadas pelo editor cristão, embora se tivesse alicerçado em m aterial «pré-cristão», principalmente de fundo judaico. Outrossim, até mesmo as chamadas «porções judaicas» poderíam ter sido elaboradas e reescritas pelo editor, para dar à totalidade da epístola (que mais se parece com uma colcha de retalhos) a aparência de unidade e de solidariedade. Entretanto, esse alvo não foi conseguido com perfeição, pelo cjue nos grupos diversos de declarações, conforme se vê nos capítulos terceiro, quarto e quinto (mas, especialmente, neste último), não há seqüência na apresentação do assunto, de um versículo para outro, mas antes, o livro salta de um tema para outro bruscamente. A própria complexidade das diversas teorias nos deixa inteiramente no terreno das especulações. Quando muito, as teorias dessa natureza poderíam acertar com a verdade daquilo que chamamos de «Tiago», ou seja, que essa epístola é formada de blocos de material tomados por empréstimo de uma ou mais fontes judaicas. Entrar em maiores detalhes dp que sugerir quais passagens talvez reflitam esses emprésti­ mos, é algo precário, talvez não sendo uma especulação muito frutífera. A maioria dos eruditos defende a idéia que o livro é, essencialmente, um documento cristão, dotado de forma tal e qual foi originalm ente escrito, embora contenha muito material emprestado, como citações diretas e refraseados de material judaico-helenista, revestido nas formas retóricas gregas. Nada existe no livro que não possa ser explicado segundo essa teoria geral. Portanto, sendo seu autor um cristão, deixou de lado questões legalistas como preceitos dietéticos, ritos judaicos, circuncisão e os muitos regulamen­ tos sobre a vida diária que os fariseus acrescentaram a um ritual já bastante complicado. Um documento puramente judaico certamente teria alguns desses aspectos. Obviamente, poder-se-ia argum entar que o editor cristão apagou tal material, existente na obra original. Portanto, sem importar a teoria proposta, podem ser levantadas várias objeções. Mas, se tivermos de escolher entre «teorias», aquela apresentada neste parágrafo é a mais provável do que as anteriores. Em adição a empréstimos judaicos, o autor sagrado podería ter tomado em prestado m aterial estóico-cínico, acerca dos pecados da lingua (ver Tia. 3:1-12), porquanto tal passagem conhece paralelos naqueles escritos ético-filosóficos, e o autor , sagrado, evidentemente alguém dotado de educação grega liberal, assegurou-nos que estava familiarizado com as várias escolas éticas filosóficas dos seus dias. O estudo abaixo, sobre «Tipo Literário e Relações», dá-nos um quadro ainda mais claro sobre as fontes possíveis. V.TIPO LITERÁRIO E RELAÇÕES 1. A diatribe é um desenvolvimento baseado na retórica grega. Esse método de ensino e de discursar se derivou dos sofistas, dos filósofos pragmáticos da época de Sócrates. De fato, o próprio Sócrates, que tendo começado sua carreira com eles, posteriormente os abandonou, preservou algo desse método de discursar, segundo se vê em certas porções dos diálogos de Platão. A diatribe se caracteriza por exortações e repreensões severas, do que, algum as vezes, abusa. Nos escritos dos filósofos helenistas estóicos e cínicos, esse método é muito usado. Sêneca e Epicteto são os mais famosos entre tais filósofos. Ás sátiras de Horácio, Pérsio, Juvenal, as orações de Dio de Prusa, os ensaios de Plutarco, os tratados de Filo, contêm todos esse elemento. Paulo, em Atenas (ver o décimo sétimo capítulo do livro de A tos), talvez tenha procurado imitar propositadamente as diatribes dos filósofos, para obter a atenção de seus ouvintes. As diatribes incorporavam perguntas retóricas que o próprio autor passava a responder, ou que deixava sem resposta declarada, quando esta era óbvia. (Ver Tia. 2:18 e ss. e 5:13 e ss. quanto a esse estilo). Além disso, as diatribes com freqüência começavam com expressões como «Não vos enganeis» (ver Tia. 1:16), «Queres saber...?» (ver Tia. 2:20), «Vedes» (ver Tia. 2:22), «Queproveito...?» (Ver Tia. 2:14,15), «Pelo que diz» (ver Tia. 4:6, apresentando citações), «Eis que» (ver Tia. 3:4,5 e 5:4,7,8,11). Assim sendo, na epístola de Tiago, as transições são feitas do mesmo modo em que os escritores usavam diatribes, isto é, levantando alguma objeção (ver Tia. 2:8), fazendo alguma pergunta (ver Tia. 2:14; 4:1 e 5:13), ou por «age» (termo grego que significa «ir para», em Tia. 4:13 e 5:1). Os imperativos são abundantes nas diatribes, pelo que, na epístola de Tiago, em cento oito versículos, há sessenta imperativos. Os que usavam diatribes lançavam mão das metáforas de negociantes, ricos, pobres, remadores, freio, e tc ., bem como ilustrações baseadas em vidas de pessoas famosas (como Tiago, Abraão, Raabe, Jó e Elias). As diatribes com freqüência empregam um paradoxo para introduzir uma idéia, conforme se vê em Tia. 1:2,10 e 2:5; ou falam com ironia, segundo se vê em Tia. 2:14-19 e 5:1-6. Todos

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TIAGO 9 esses artifícios, naturalm ente, se encontram em toda e qualquer literatura, mas a reunião de todos, em um único documento, é o que caracteriza a diatribe. Não se pode duvidar que nas sinagogas, nos tempos helenistas, pelo menos alguns se utilizavam dessa maneira de discursar. A literatura judaica dos tempos helenistas se utiliza do método; mas não com a intensidade com que o vemos na epístola de Tiago. 0 primitivo ensinamento cristão, todavia, abunda do mesmo; e isso era apenas natural, pois a igreja cristã se desenvolveu em lugares onde a maneira de falar em público era desse caráter. (Ver Crisóstomo, Homília sobre João 3:3, como um exemplo). 2. O protréptico ou panfleto perenético. A primeira dessas palavras se deriva do termo grego «protrepo», «persuadir», «exortar». A segunda vem do vocábulo grego «paraineo», «avisar», «recomendar», «aconselhar». Esse estilo literário, portanto, consiste essencialmente de uma fileira de exortações e conselhos. Os primeiros exemplos que temos desse método se encontram nas obras de Isócrates (até 338 A.C.), em suas obras «Ad Niccoclem» e «Nicoles». Esse tipo de literatura tende por preservar muitas declarações sábias e espirituosas, com freqüência em uma série, sem qualquer conexão especial entre elas, mais ou menos como se vê em porções dos capítulos terceiro, quarto e quinto da epístola de Tiago. Posidônio, Aristóteles, Galene, e vários dos filósofos estóicos produziram obras dessa natureza. Os filósofos morais escreveram «folhetos» que eram, essencialmente, convites a que seus leitores adotassem meios filosóficos sérios na sua vida, que èram formas do estilo literário «protréptico». 3. Tiago e a literatura de sabedoria, no A.T. Apesar de que o estilo de Tiago e da literatura de sabedoria seja diferente, contudo, há m uitas idéias e afirmações que parecem ser tomadas de empréstimo desta última. Por isso, há coisas que sç assemelham com Provérbios, com E clesiástico e com a Sabedoria de Ben Siraque. Tia. 4:6 cita Pro. 3:34, e outros paralelos podem ser encontrados, como: Tia. 3:18 (ver Pro. 11:30); 1:13 (ver Pro. 19:3); 4:13 (ver Pro. 27:1); 1:3 (ver Pro. 17:3 e 27:21); 1:19 (ver Pro. 29:20). Os paralelos com a Sabedoria de_Ben Siraque e com Eclesiástico são ainda mais numerosos. Ê possível que o autor sagrado não conhecesse qualquer dessas obras; mas certamente estava familiarizado com a prédica, nas sinagogas, que empregavam as idéias e as declarações ali achadas. Há tópicos, no livro de Eclesiástico, que são paralelos próximos daqueles selecionados por Tiago. Assim é que Ecl. 19:6 e ss.; 20:18 e ss.; 28:13 e ss.; 35:7 e ss. falam da sabedoria como um dom de Deus (ver Tia. 1:1-10); Ecl. 1:27 alude às orações feitas por um coração dividido (ver Tia. 1:16); ao orgulho, em Ecl. 10:7-18 (ver Tia. 4:6); à incerteza da vida, em Ecl. 10:10 e 11:16,17 (ver Tia. 4:14), ao lançar a culpa em Deus, em Ecl. 15:11-20 (ver Tia. 1:13 e ss). Os deveres para com as viúvas, para com os órfãos e as visitas aos enfermos, que figuram em Ecl. 4:10; 7:34 e 13:19 ess., têm paralelos em Tia. 2:14 e ss. e 1:27. O livro Sabedoria de Salomão conta com alguns paralelos menos notáveis na epístola de Tiago, a saber, Sab. 1:11 corresponde a Tia. 4:11 e 5:9; Sab. 2:4 corresponde a Tia. 4:14; Sab. 2:10-20 corresponde a Tia. 5:1 e ss. e 5:8, repreendendo o orgulho e as riquezas. No entanto, em nenhum desses casos, fica subentendida a dependência, apesar de que o autor sagrado pode ter usado diretam ente outras porções do livro de Eclesiástico. Além desses casos, paralelos de idéias e expressões abundam, com base nos escritos de Filo; havendo também algumas sim ilaridades com o quarto livro de Macabeus. Clemente de Roma e Hermas exibem empréstimos similares e métodos de expressão, ainda que também possam ter sofrido a influência indireta, de alguma fonte, como sucedeu no caso do autor da epístola de Tiago. Apesar de que o autor da epístola de Tiago seja mais educado que o autor dos Testamentos dos Doze Patriarcas (100 A.C.), podem ser observados alguns paralelos de idéias, com algumas coincidências verbais. Por exemplo, sobre Benjamim, o Tes. 6:5 se parece com Tia. 3:9,10; sobre Naftali, o Tes. 8:4 se parece com Tia. 4:7; sobre Daniel, o Tes. 6:2 se parece com Tia. 4:8; sobre Zebulom, o Tes. 8:3 se parece com Tia. 2:13; sobre José, o Tes. 2:7 se parece com Tia. 1:2-4; e sobre Benjamim, o Tes. 4:1 se parece com Tia. 5:11. 4. Tiago e outros livros do N. T.: A maior parte dos eruditos concorda sobre o fato que Tiago não parece ter feito empréstimos diretos de qualquer dos livros do N.T. N aturalm ente, há m aterial sim ilar. Os trechos de Heb. 11:8-10,17-19 e 11:31 falam sobre Abraão e Raabe, tal como se vê nas epístolas aos Romanos e de Tiago; mas não há qualquer «dependência» entre uns e outros. A influência mais notável é a exercida pelo quarto capítulo da epístola aos Romanos, sobre a «justificação», e que Tia. 2:14 e ss. reverte enfaticamente, ao invés de confirmar. Mas o autor desta epístola podería estar combatendo certas idéias que tinham surgido na igreja por influência de Paulo, sem estar combatendo a Paulo diretamente, através de sua epístola aos Romanos. A relação mais próxima entre a epístola de Tiago e qualquer outro livro do N.T., é com a primeira epístola de Pedro. Esta últim a, dentre todos os livros do N .T ., é a que ipais se assemelha com aquela, dentre todos os livros não-paulinos, A epístola de Tiago e a prim eira epístola de Pedro m ostram pontos curiosamente idênticos, quanto a frases e idéias, a saber: I Ped. 1:1 (ver Tia. 1:1); I Ped. 1:6 e ss (ver Tia. 1:2 e ss); I Ped. 2:1 (ver Tia. 1:21); I Ped. 4:8 (ver Tia. 5:20); I Ped. 5:5 e ss. (ver Tia. 4:8); I Ped. 5:9 (ver Tia. 4:7). Dentre essas passagens, I Ped. 1:24; 4:8 e 5:5 são citações extraídas do A.T., a saber, respectivamente, de Isa. 40:6-9; Prov. 10:12 e 3:34, pelo que não se pode pensar que Tiago as tomou por empréstimo da primeira epístola de Pedro, ou vice-versa. Seja como for, não se pode proveu: ter havido qualquer dependência. Tudo quanto se pode dem onstrar é que tanto o autor da epístola de Tiago como o autor da primeira epístola de Pedro se basearam em influências religiosas e literárias idênticas. 5. Tiago e o Antigo Testamento: Tal como qualquer livro do N.T., Tiago citou diretamente ou fez alusões ao A.T. Por exemplo: Tia. 1:5 (ver Pro. 2:3-6); Tia. 1:10 (ver Isa. 40:6,7); Tia. 1:12 (ver Dan. 12:12); Tia. 1:19 (ver Ecl. 7:9); Tia. 1:26 (ver Sal. 34:13); Tia. 2:8 (ver Lev. 19:18); Tia. 2:9 (ver Deut. 1:17); Tia. 2:11 (ver Êxo. 20:13); Tia. 2:12 (ver Deut. 5:17,18); Tia. 2:21 (verGên. 22:10,12); Tia. 2:23 (ver Gên. 15:6 e II Crô. 20:7); Tia. 2:25 (ver Jos. 2:4,15 e 6:17; Tia. 3:8 (ver Sal. 140:3); Tia. 3:9 (ver Gên. 1:27); Tia. 4:5 (ver Êxo. 20:3,5); Tia. 4:6 (ver Jó 22:29); Tia. 4:8 (ver Zac. 1:3 e Isa. 1:16); Tia. 4:13 (ver Pro. 27:1); Tia. 4:14 (ver Sal. 39:5,11); Tia. 5:3 (ver Pro. 16:27); Tia. 5:4 (ver Lev. 19:13; Deut. 24:14; Mal. 3:5; Isa. 5:9 e Jó 31:38-40); Tia. 5:6 (ver Pro. 3:34, LXX e Osé. 1:6, toe); Tia. 5:7 (ver Deut. 11:14; Joel 2:23; Zac. 10:1 e Jer. 5:24); Tia. 5:11 (ver Dan. 12:12; Jó 1:21,22; Sal. 103:8 e 111:4); Tia. 5:13 (ver Sal. 50:15); Tia. 5:16 (ver I Reis 17:1); Tia. 5:18 (ver I Reis 18:42); Tia. 5:20 (ver Sal. 51:13 e Pro. 10:12). YI. O CRISTIANISMO JUDAICO A epístola de Tiago certam ente é um documento que representa o cristianismo judaico; e não erramos por dizer, representa o cristianismo legalista. Esse ponto já foi frisado e discutido amplamente, na declaração introdutória, no começo mèsmo da introdução ao livro. Por que se pensaria ser estranho que ao menos um dos documentos legalistas finalmente veio a fazer parte do «cânon» do N.T.? Uma vez que admitam os que isso é exatam ente o que sucedeu, a interpretação do trecho de Tia. 2:14 e ss. se toma clara, não havendo qualquer necessidade de reconciliar essa passagem com os escritos de Paulo, mediante interpretações engenhosas, mas nem por isso menos infrutíferas e até mesmo desonestas. Esse livro, provavelm ente, representa fielmente o que a maioria dos membros da igreja de Jerusalém pensava sobre a «justificação». Paulo jamais foi aceito por esse seguimento da igreja, e as suas doutrinas da «justificação pela fé» e da «graça divina», como instrumentos da salvação, na realidade nunca foram bem compreendidas e nem aceitas. É verdade que alguns dos principais lideres cristãos aceitavam-nas, mas mesmo assim as m isturavam com questões legalistas, embotando o seu brilho (segundo se depreende de Gál. 2:12). No texto de Gál. 2:12 não temos o direito de pensar que aqueles que «vinham da parte de Tiago» agiam por sua própria autoridade, e não por autoridade de Tiago. E o décimo quinto capítulo do livro de Atos m ostra-nos que muitos cristãos nunca viram bom senso nas doutrinas paulinas distintivas, nunca lhes tendo prestado lealdade. Esses viam Jesus como o Messias, talvez como o maior de todos os profetas; criam na ressurreição como prova da validade de sua missão divina; mas jamais imaginaram que Moisés seria removido, junta­ mente com sua lei, sua circuncisão e seu cerimonial. Portanto, consideravam Paulo um herege perigoso, porquanto seus ensinam entos da graça e da fé se opunham à lei e seu cerimonialismo. A passagem de Atos 21:18 e ss. mostra-nos isso claramente, e a história do período apenas confirma tal verdade. Paulo jamais convenceu ao segmento judaico da

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10 TIAGO igreja sobre o fato que Cristo ultrapassou e substituiu a Moisés, incorporando em si mesmo tudo quanto realmente se revestia de significado espiritual em Moisés e seu sistema. Pode-se notar que, em Atos 21:20, os crentes de Jerusalém são descritos como «zelosos da lei». Isso mostra, claramente, sem necessidade de m aior elaboração, onde se colocavam aqueles crentes sobre as questões da justificação, da fé e das obras, etc. O vigésimo primeiro versículo mostra-nos que eles continuavam a circuncidar a seus filhos, sem dúvida crendo que isso era um ato meritório, e que lhes conferia as bênçãos próprias do pacto abraâmico. As novas idéias nunca triunfam porque conquistam as mentes da geração mais idosa; antes, vencem cativando as novas gerações, enquanto a geração mais antiga falece. Assim também sucedeu entre os cristãos primitivos, no tocante às doutrinas paulinas distintivas; no entanto, até mesmo na igreja cristã moderna, um maior número crê na necessidade de obras para a salvação do que aqueles que não crêem. Mesmo admitindo a plena força do concilio de Jerusalém, isto é, que Lucas não fez o quadro mais risonho do que realmente era, deveriamos observar que as concessões feitas no décimo quinto capítulo do livro de Atos foram para os gentios, e não para a comunidade cristã judaica. Não há razão para supormos que foi conseguida qualquer grande diferença senão muitas gerações mais tarde. Não há que duvidar que m uitas das comunidades cristãs judaicas encaravam as concessões feitas aos gentios como «heresias pecaminosas», como se fossem transigências a novidades destruidoras. A amargura com que Paulo escreve em Gálatas (ver também Fil. 3:1 e ss.) mostra-nos com que vigor ele era combatido nas igrejas gentílicas que contavam com um forte elemento judaico. Portanto, nem mesmo todas as igrejas gentílicas eram «paulinas». Quando o autor da segunda epístola de Pedro (ver II Ped. 3:16) falou sobre coisas «difíceis de entender» nas epístolas de Paulo, falava em prol de um grande segmento da igreja. As inovações de Paulo eram encaradas com suspeita, aceitas com cautela e rejeitadas com malícia. Naturalmente, a epístola de Tiago não toma a posição mais extrema contra Paulo, promovendo a circuncisão e a continuação da lei cerimonial. Contudo, postava-se definida­ mente do lado «legalista» do campo. Pensar que Paulo somente fala acerca da lei «cerimonial» de Moisés, como algo que foi eliminado em Cristo, é negar ou ignorar os claros ,ensinam entos das epístolas aos Romanos e aos G álatas. Aquelas epístolas tratam de questões de «salvação», e não de ritos e observâncias religiosas; portanto, a «lei moral» está em primeiro plano; pois era na base da obediência aos m andam entos centrais que os judeus esperavam obter a salvação. Outrossim, a distinção moderna entre as leis morais e cerimoniais seria algo totalmente estranho para os judeus. Para eles, as leis cerimoniais eram perfeitamente morais, e algumas de suas provisões eram consideradas como importan­ tes tanto quanto o próprio decálogo. A circuncisão aparecia em primeiro lugar, entre essas questões. Mas havia outras questões, como a fimbria das vestes usadas pelos homens (de uma certa tecedura e cor), as lavagens cerimoniais, os batismos, etc., que eram reputadas de extrema importância entre os judeus, como se fossem questões im perativas. (Quanto a notas expositivas que desenvolvem esse tema, ver acerca do «partido da circuncisão», em Atos 11:9; e acerca da «questão legalista», que houve no seio da igreja cristã primitiva, ver Atos 10:9). VII. PAULO E TIAGO É apropriado que agora alistemos vários modos como os escritos e as idéias de Paulo têm sido tentativam ente reconciliados com a epístola de Tiago: 1. Obviamente as palavras são contraditórias. Comparar Ram. 4:1-5 com Tia. 2:14,21. Pouca dúvida há que Tiago foi escrito para refutar idéias paulinas específicas, contidas no quarto capitulo da epístola aos Romanos, sem importar se essa epístola era conhecida ou não do autor. Não admira, pois, que as duas epístolas se contradizem entre si. Os intérpretes que se recusam a reconhecer isso, supõem que Paulo e Tiago possuem diferentes definições para as palavras chaves «justificação», «obras», «fé» e várias outras. 2. Segundo nos dizem, a «justificação», na epístola de Tiago, incluiría o processo inteiro da salvação, ao passo que, em Paulo, indica somente a retidão inicial, imputada. (As notas expositivas em Rom. 3:24-28 mostram que o uso que Paulo fez da palavra «justificação» é tão amplo quanto o de Tiago). A justificação é «de vida» (ver Rom. 5:18), o que certamente inclui mais do que mera declaração forense de retidão. Tanto Tiago como Paulo se preocupam com a «correta posição» diante de Deus, o que resulta em salvação. A justificação é a «declaração» de uma correta posição diante de Deus, em Cristo, mas essa correta posição também outorga ao crente a santidade que ratifica aquela posição e a torna etemamente válida. Seja como for, na epístola de Tiago, ser «justificado por obras» não significa que «a fé deve produzir obras, como seu resultado», conforme a questão é popular­ mente esclarecida. Para ele, segundo se vê claram ente afirmado no texto, isso significa que é necessária a combinação de «fé-obras» para a justificação, e que a fé não pode fazer sozinha o seu papel. A fé é «aperfeiçoada» pelas obras da fé (ver Tia. 2:22); pelo que um homem é justificado por «obras, e não somente por fé» (ver Tia. 2:24); e isso significa que «a fé sem obras, é morta» (ver Tia. 2:26). 3. Segundo nos dizem, a «fé» é um termo que indica coisas diferentes para Paulo e para Tiago. Para este último seria o mero monoteismo, conforme se pode subentender de Tia. 2:19. Mas os intérpretes que assim fazem não observam que o resto do estudo sobre a «fe» não se limita a isso. A fé é um princípio ativo, copulada às obras que produzem a justificação. «Abraão creu em Deus»; e essa «fé» lhe foi «lançada na conta» como retidão (ver o vigésimo terceiro versículo). Certamente não é fé aquela que não vai além de crer que «só existe um Deus». No judaísmo helenista não havia conflito entre a fé e as obras. Não temos razão de supor que Tiago vai além do contexto judaico helenista, o qual via tanto a fé como as obras como algo necessário para a obtenção do favor diante de Deus. Para os judeus, a fé nunca consistia da mera aceitação da crença monoteísta. Ê verdade, porém, que Tiago não focaliza a fé na expiação feita por Cristo, ou não focaliza a fé como uma dotação divina, mediante o Espírito Santo (ver Rom. 5:11; Gál. 5:22 e Efé. 2:8 no tocante a esses elementos, nos escritos de Paulo). Paulo tinha uma visão mais ampla da «fé» do que Tiago; mas, para Tiago, a fé era uma outorga ativa às mãos de Deus, como um princípio espiritual (conforme se deu no caso de Abraão), e não apenas uma crença de qualquer natureza. Assim sendo, se algumas diferenças podem ser vistas quanto ao prisma como a fé é reputada, nos escritos de Paulo e de Tiago, as considerações acima não solucionam a controvérsia, pois a idéia central de fé transparece nos escritos de ambos. Tiago simplesmente ensina que a fé deve vir ligada às obras; e com isso ele entende a lealdade e a obediência à lei mosaica (ver Tia. 2:8, Lev. 19:19; 2:9, Lev. 19:15; e 2:11, Êxo. 20:13,14). A posição de Tiago é que o judaísmo ordinário nunca contemplou a doutrina que diz, «fé somente». A história da teologia deles é uma prova clara sobre isso. Por que se pensaria estranho que Tiago tomou a posição judaica normal sobre essa questão? È óbvio que esse ponto de vista teológico normal do judaísmo não estava de acordo com a teologia paulina. Por que se pensaria estranho, pois, que Tiago contradisse a Paulo? Se o judaísmo contradizia a Paulo (e quem pode duvidar disso?), então, igualmente, Tiago contradizia a Paulo. 4. Alguns dizem que Paulo e Tiago usaram diferentemente a palavra obras. Novamente, Paulo tinha um discernimento mais profundo sobre a natureza das «obras», mas tanto ele como Tiago usam o termo normalmente, indicando obediência à lei mosaica e suas implicações. Tiago insiste que isso faz parte da salvação; Paulo afirma o contrário. Tiago assume a posição judaica normal do «mérito» adquirido pelas obras; Paulo já havia abandonado tal posição, quando recebera suas revelações superiores da parte de Cristo; mas ambos os escritores usam o vocábulo «obras» da mesma maneira. Em Fil. 2:12 Paulo usa a definição «espiritual» das «obras», isto é, «aquilo que o Espirito Santo realiza em nós»; e, nesse caso, o termo se torna simples sinônimo da «graça ativa». Esse conceito é explicado em Efé. 2:8, bem como na referência que acabamos de dar. Porém, se Paulo tinha um ponto de vista mais alto acerca das verdadeiras «obras espirituais», por outro lado não é com esse sentido que ele aplica a expressão nas secções polêmicas de Romanos e de Gálatas. Ali ele falava sobre os «méritos» da obediência legalista; e foi exatamente assim que Tiago usou o termo, em sua epístola. Esse era o ponto de vista judaico normal acerca das obras; eles criam sinceramente que um homem obtém o favor de Deus mediante a obediência a sua lei; Tiago compartilhava dessa crença. Faltavam-lhe as revelações cristãs superiores, que poderíam ter modificado sua maneira de pensar. A definição paulina das «obras», que faz delas um sinônimo da «graça», foi um

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TIAGO li discernimento da qual não participa a epíst. de Tiago. Assim sendo, Tiago não ensina que pela operação intima do poder do Espírito Santo, forma-se no crente a natureza moral de Jesus Cristo, que então se expressa na forma de boas obras. Antes, dizia ele que a obediência à lei produz mérito. Suas «obras», pois, que justificam, eram «obras de observância da lei», e não as operações místicas do Espirito no intimo, chamadas de «fruto do Espirito», em Gál. 5:22,23. 5. A contradição era apenas aparente, segundo afirmam alguns, e com base na falta de melhor entendim ento dos escritos paulinos por parte de Tiago. Isso faz supor que Paulo aceitava a posição de Tiago, de que a, obediência à lei obtém favor diante de Deus, o que é um absurdo. Não tenham os dúvidas, entretanto, que essa é a posição tomada por Tiago, nesta epístola. Supostamente, incorporado na fé de Paulo, havia o princípio das obras; e isso é verdade mesmo que façamos alusão à atuação mistica do. Espirito. Porém, será algo totalmente falso se aludirmos a como a fé se expressa, levando a pessoa a agradar a Deus mediante obras legalistas, que era a posição de Tiago. 6. Antes, a contradição é real, porque as posições teológicas dos dois são diferentes, tal como Paulo, em contraste com o judaísmo ordinário, era diferente. Nem pode isso ser explicado com base nos ataques de Tiago contra as «perversões» feitas nos ensinamentos paulinos, uma espécie de liberalismo ou antinomianismo exagerados, e não na verdadeira doutrina paulina. Ê bem possível que m uitos pervertessem os ensinamentos de Paulo, como os gnósticos, que pensavam que o que faziam com seus corpos não fazia qualquer diferença, pois o espírito ficava livre de toda a mácula, «por causa da expiação de Cristo». Certamente Tiago ataca esses extremis­ tas, não havendo, porém, provas de que atacasse somente a eles. Antes, atacou a todos quantos supunham que «basta a fé», como se a obediência aos princípios morais da lei de Moisés fosse algo desnecessário e não m eritório quanto à salvação. Se ao menos pudermos ver que a epístola de Tiago representa o judaísmo, no que concerne à fé e às obras, sendo também uma expressão do cristianismo legalista, então todos os problemas de reconciliação, os mistérios e as dificuldades de interpretação seriam imediatamente solucionados. Por que suporíamos que quando Tiago escreveu sobre essas questões, dizendo as mesmas coisas que se acham nos dócumentos judaicos (aqueles citados nas secções IV e V desta introdução), que ele queria dizer algo diferente do que eles diziam? Ora, se ele dizia as mesmas coisas que eles, então discordava de Paulo, que abandonara a teologia judaica quanto a esse particular. O maior problem a de todos, e que os intérpretes falham em solucionar, é que tentam harmonizar Tiago e Paulo, quando a verdade é que Tiago discorda de Paulo, pondo-se ao lado da teologia judaica. Portanto, como poderia alguém dizer que Tiago discorda da teologia judaica, se diz as mesmas coisas que disseram vários escritores judeus? Porventura ele poderia dizer as mesmas coisas que eles disserem, sem concordar com eles? Ele disse as mesmas coisas sim plesm ente porque defendia os mesmos pontos de vista teológicos. E, defendendo a mesma teologia, automaticamente ele contradizia a Paulo. De fato, ele escreveu para deixar bem clara essa contradição. 7. A questão é claramente delineada. Ou Paulo estava com a razão, ou a razão estava com Tiago. A salvação ou inclui ou não inclui as observâncias legalistas da lei mosaica. Nisso é que consistia toda a disputa. (Ver Atos 10:9, quanto ao «problema legalista» da primitiva igreja cristã). 8. O ponto de vista paradoxal. De alguma maneira, tanto Tiago como Paulo estariam com a razão. A salvação é pela fé somente, m ediante a graça de Deus, segundo ela é demonstrada em Cristo. Contudo, as obras são essenciais a ela—e como esses pensamentos podem ser reconciliados entre si, não sabemos dizer. As grandes tradições religiosas têm representado ambos os lados, e bem faríamos em respeitar a ambos. 9. Não há contradição final: Podemos afirmar que Tiago levanta uma questão vital: sabemos, intuitiva e racionalmente, bem como através da revelação, que «devemos ser algo; devemos fazer algo». Sabemos que a fé religiosa deve ser ativa, produtiva e frutífera. Sabemos que a fé deve ser a fonte do carater justo e das ações, pois, do contrário, não será a verdadeira fé, pois esta consiste na outorga da própria alma aos cuidados de Cristo, para que possamos ser transformados segundo sua imagem moral, em primeiro lugar, e então, em sua imagem m etafísica (ver Rom. 8:29 e II Cor. 3:18), mediante o que chegaremos a participar de toda a plenitude de Deus (ver Efé. 3:19) e da própria natureza divina (ver II Ped. 1:4). Assim, apesar de que Tiago de fato contradiz a Paulo, porquanto lhe faltavam as revelações recebidas por este último, não tendo ainda sido desmamado de Moisés e do legalismo judaico comum, sabemos intuitivamente, todos nós, que deve haver «obras» de alguma ordem, uma revolução e um a renovação m oral e espiritual, sem a qual não haverá salvação sob hipótese alguma. Tiago expressou essa intuição sem grande maestria, já que seguia as expressões legalistas a que estava afeito, através de anos de treinamento. As obras, quando são reputadas como as obras do Espirito, insufladas no intimo, são vários aspectos de seu fruto (ver Gál. 5:22,23), são necessárias à salvação. E desse modo as obras se mesclam com a «graça», porquanto esses tipos de obras são meras expressões dà graça ativa. São expressões, mas também são a alma mesma do principio da graça, atuante no intimo. Portanto, as «obras» de natureza espiritual não são apenas «resultados» da fé, conforme popularmente se diz; fazem parte da natureza inerente da graça, que tem como seu objetivo a transformação do ser humano na natureza moral de Cristo, de forma que os homens podem vir a participar da mesma santidade e das mesmas perfeições de Deus (ver Rom. 3:21; Heb. 12:14 e M at. 5:48). Podemos dizer, pois, que Tiago contradiz a Paulo porque tinha um ponto de vista legalista sobre as obras, e não uma idéia «mística». Faltava-lhe o discernimento que encontramos em Fil. 2:12,13. Contudo, enquanto lhe faltava esse «discernimento», não lhe faltava a intuição que as «obras», segundo determinadas considerações, são necessárias para a justificação e para a salvação. Podemos desculpá-lo por sua expressão desajeitada dessa intuição, porquanto levantou ele uma questão vital, de que muito se precisa na igreja evangélica moderna, onde domina a «crença fácil». Deveriamos aprender, da epístola de Tiago, ainda que não concordemos com seu modo de expressão, que um homem precisa assumir a imagem de Cristo, duplicando a vida de Cristo em sua própria vida; é mister que Cristo viva por seu intermédio; é preciso que consiga a vitória moral; é necessário que seja transformado, porquanto, de outra maneira, nem ao menos ter-se-á convertido. Não basta alguém aceitar certo credo para im aginar, tolam ente, que isso obriga Deus a aceitá-lo, por causa de sua «correta opinião». Precisamos possuir aquela fé que transforma :a vida inteira, espiritualizan­ do-a segundo os moldes de Cristo, formando em nós a vida de Cristo (ver João 5:25,26 e 6:57). Ê como se Tiago houvesse dito em tons sarcásticos: «A correta opinião a ninguém pode salvar». (Comparar com Tia. 2:19). Somente a vida transformada nos pode conduzir realmente à salvação (ver II Tes. 2:13). 10. Paulo, Tiago e Jesus: Talvez o problema mais vexatório do N.T. é o que indaga: «Onde ficava Jesus, nessa controvérsia?» Visto que ele falou antes do surgimento da mesma, não há qualquer Escritura a respeito. Apesar de que, nas citações que temos de Jesus, em regra geral parece que ele tomava a posição judaica comum sobre o meio de salvação, devemos supor que não lhe faltava a compreensão paulina sobre as «obras espirituais» em contraste com as «obras legalistas». Portanto, apesar de que não usou a exata terminologia empregada pelo apóstolo dos gentios, quanto às idéias, podemos ter a certeza que Cristo concordava com a abordagem paulina. E já que Paulo pôde afirm ar que os demais apóstolos concordavam com ele, no tocante à natureza do evangelho (ver Gál. 2:2 e ss.), precisamos crer que Pedro e os demais apóstolos não viam nenhuma contradição básica entre o que Paulo e Jesus ensinavam. Sem dúvida, se Paulo tivesse entrado em qualquer contradição relativa a Jesus, Pedro e os demais ter-se-iam colocado ao lado de Jesus e contra Paulo. Portanto, Paulo deve ter ensinado de acordo com a realidade das obras espirituais, contradizendo o ordinário sistema judaico de «méritos». Sendo essa verdade, continua sendo um fato que Paulo trouxe a lume diversos conceitos da verdade espiritual que Jesus nunca explanou para os seus discípulos originais. Esses conceitos aum entam grandem ente o nosso entendimento acerca do destino daqueles que se acham em Cristo, acerca da glória ali envolvida, acerca da m agnitude do poder e do desenvolvimento espirituais que isso representa. Nas revela­ ções dadas por meio de Paulo, o cristianism o deu um prodigioso salto para a frente, em comparação com o pensamento judaico e com a experiência espiritual.

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12 TIAGO A graça é a livre-dádiva de Deus para nós, por intermédio de Cristo. Quando olhamos para a salvação como dom de Deus, estamos falando sobre a graça divina. Porém, à graça em nós operante, ao poder do Espirito no intimo, chamamos de «obras». Portanto, a graça divina, vista do ponto de vista diferente, pode ser chamada de «graça» ou de «obras»; mas, seja como for, tudo procede da parte de Deus, embora deva haver uma reação humana favoravel. O legalismo vê um dos lados da questão com diáfana clareza; sabe que a espiritualidade deve produzir algo. Essa foi a contribuição do legalismo. Confronta a «crença fácil» e a chama de «fingimento». Porém, o legalismo é miope, tendendo para a superficialidade, porquanto normalmente diz que quando obedecemos aos mandamentos da lei, obtemos o favor de Deus. Esse é o grande erro do legalismo, e contra isso é que Paulo se opunha amargamente. O legalismo tem a tendência de escorar-se no braço da carne, fazendo da salvação uma questão de conta corrente de méritos e deméritos, ao invés de reconhecer a total espiritualidade do processo da salvação, que envolve a transformação de alma, e não meramente a bondade que se poderia acumular através de observâncias minuciosas. VIII. PROPÓSITOS E ENSINAMENTOS As notas acima já nos puderam indicar a maior parte dos propósitos e ensinamentos desta epístola. Consideremos, entretanto, os pontos seguintes: 1. Um de seus propósitos é puramente polêmico: Ele procura refutar as inovações acrescentadas à teologia paulina; isso ele faz na ignorância, entretanto, por faltar-lhe as revelações mais profundas de Paulo. E o autor da epistola exibe uma justa indignação, pensando que fazia o bem, ao assim combater aquelas idéias. É verdade que tinha certo discernimento, mas expressou-se desajeitadamente, mediante uma terminologia e uma mentalidade nitidamente legalistas. Certamente que a passagem de Tia. 2:14 e ss. é uma refutação às idéias do quarto capítulo da epístola aos Romanos, ou é mesmo um assédio direto contra as idéias ali expostas. (Ver a secção VII da introdução, quanto a notas expositivas completas sobre a questão). 2. Porém, a intenção do autor sagrado foi boa—ele queria que soubéssemos (e nisso estava com a razão), que corretas opiniões sobre as verdades cristãs não são suficientes; deve haver uma vida espiritual vital, pois, do contrário, a fé estará morta. 3. Além disso, ele desejava fornecer instruções éticas concretas, que envolvessem m uitos pontos. E ste livro consiste, essencialm ente, em um tra tad o que visa dar instruções m orais. Assim sendo, ele aborda a questão da tentação. Alguns indivíduos punham a culpa em Deus por seus próprios erros e pecados, supondo, virtualmente, que Deus assim os «fizera» (ver Tia. 1:12 e s s .). Tiago refuta violentamente esse conceito. Também exortou à oração e à mentalidade espiritual (ver Tia. 1:5); repreendeu a ira e o mau gênio (ver Tia. 1:19 e ss); insistiu sobre a prática das boas obras (ver Tia. 1:22 e ss). Assim nos deu uma das nossas definições centrais acerca da verdadeira religião (ver Tia. 1:27). À verdadeira religião, pois, consiste na pureza pessoal, bem como em atos de bondade para com o próximo. Tiago também repreende à soberba (ver Tia. 2:1 e ss.) e o favoritismo, na mesma passagem; mostra como a atividade moral deve incluir a lei inteira, e não meramente alguns pontos da mesma, e cria ser isso possível para os homens (ver Tia. 2:10 e ss.). Também repreendeu vivamente aos pecados da língua (ver Tia. 3:1 e ss.); denunciou o mundanismo (ver Tia. 4:1 e ss); advertiu aos ricos acerca da dependência às suas possessões aos seus excessos (ver Tia. 5:11 e ss). A leitura da própria epístola realmente serve de observação sobre os muitos m andam entos morais dó autor sagrado, e o que expomos aqui é apenas um exemplo. 4. Seus propósitos não eram essencialmente teológicos, com exceção da passagem de Tia. 2:14 e ss. Lutero tinha razão ao reconhecer a «esterilidade» do conteúdo teológico dessa epistola. Não tem nada das elevadíssimas doutrinas cristãs que se acham nos escritos de Paulo, exceto que o ensino sobre a «parousia» (a segunda vinda de Cristo) é reputado como algo que poderia acontecer em breve (ver Tia. 5:7). Por essa razão é que Lutero a chamou de «epistola de palha», porquanto, para ele, não podia equiparar-se com as epístolas de Paulo, espedalmente Romanos, ou com a primeira epístola de Pedro e o evangelho de João. Ele sumariou o seu ponto de vista ao dizer: «Louvo à epístola de Tiago, e a considero boa, porquanto não ensina qualquer doutrina humana, e afirma severamente a lei de Deus». (Introdução à Epístola de Tiago). Talvez esse seja um sumário tão bom quanto qualquer outro que se possa fazer acerca do caráter dessa epistola. «Sempre que a fé não resulta em amor», e o dogma, por mais ortodoxo que seja, aparece desvinculado da vida diária; sempre que os crentes são tentados a aceitar uma religião centralizada no próprio homem, tornando-se eles esquecidos das necessidades sociais e materiais de outros; ou sempre que negam, com a sua maneira de viver, ao credo que professam, e parecem por demais ansiosos por serem amigos do mundo, mais do qüe de Deus, então a epístola de Tiago tem algo a dizer-lhes, e que só rejeitam com perigo próprio». (Tyndale N.T. Commentary, Introdução à Epistola de Tiago). Há vários abusos contra os ensinam entos da epístola a Tiago, segundo se vê nos pontos seguintes: 1. Alguns vêem um certo apoio à idéia medieval da «extrema-unção», em Tia. 5:14; 2. outros vêem a idéia que a justificação é ajudada mediante obras legalistas, em Tia. 2:14 e ss.; 3. e outros são encorajados e levados a permitir extremismos na prática da confissão pública de pecados, com base em Tia. 5:16. IX. LINGUAGEM Quanto às características literárias, a epístola de Tiago demonstra afinidades com o tratado aos Hebreus, embora nunca se mostre tão eloqüente como o mesmo. Foi escrita em grego excelente, que demonstra conhecimento das delicadezas das habilidades retóricas do grego, como a aliteração, a diatribe, etc., além de dem onstrar excelente escolha das palavras. Sua seleção e uso dos modos dos verbos gregos é superior à de qualquer dos demais livros do N.T. Quanto à sua prática da «aliteração», ver as três palavras proeminentes em Tia. 1:21, começando com a letra grega «delta». O autor sagrado exibe a pratica de introduzir cada sentença de uma série de cláusulas ou sentenças inter-relacionadas com a mesma palavra, o que se denomina «paranomásia» ou «assonância». Com freqüência ele situa duas ou mais palavras em íntima justaposição, com o mesmo som ou sons finais, conforme se vê em Tia. 1:7,14; 2:16,19 e 5:5,6. Suas sentenças são francas e vividas, dotadas de uma certa concisão epigramática. Alguns estudiosos consideram o grego usado na epistola de Tiago segundo apenas em relação à epístola aos Hebreus, em todo o N.T. Não há qualquer indício de que esse trabalho é uma tradução, o que sem dúvida não poderia ocultar, se assim fosse. Portanto, é duvidoso que qualquer dos discípulos originais de Jesus, ou um irmão seu, um aldeão galileu, tivesse podido escrever essa epístola. Ainda que o seu autor fosse bilíngue, é extrem am ente duvidoso que ele pudesse ter adquirido bastante educação formal, da variedade helenista, para poder expressar-se com as delicadezas da retórica grega. E possívèl, todavia, que Tiago (irmão do Senhor, ou outro do N.T.) podia ter tido seu trabalho cuiãadosamente revisado (e modificado em lugares) por um discípulo cuja linguagem nativa foi o grego. O vocabulário da epistola de Tiago se reduz acerca de quinhentas e setenta palavras. Dentre essas, setenta e três não aparecem em qualquer outra porção do N.T,, mas somente vinte e cinco não se encontram no A.T. grego (Septuaginta), e somente seis não se acham nem no Antigo e nem no Novo Testamentos. O autór sagrado conhecia e usou a Septuaginta (tradução do original hebraico do A.T. para o grego, completada bem antes da era apostólica), conforme se vê em Tia. 1:10 e ss. (ver Isa. 40:6 e ss. ); Tia. 2:21 (ver Gên. 22:2,9); Tia. 4:6 (ver Pro. 3:34); Tia. 5:6, (ver Pro. 3:34). Os hebraísmos são poucos, entre os quais podemos encontrar os de Tia. 5:10,14: Isso não inclui, naturalmente, suas citações extraídas do A.T., as quais podem conter hebraísmos, por razão do fato que a Septuaginta os exibe. X. CONTEÚDO I. Saudação (1:1) II. O Teste da Fé (1:2-4) III. Deus responde &Oração e dá Sabedoria (1:6-8) IV. A Futilidade das Riquezas (1:9-11) V. Promessa aos Vencedores (1:12) VI. A Tentação ao Mau não Vem de Deus (1:13-15) VII. Todas as Coisas Boas Procedem de Deus (1:16-18) VIII. Contra a Ira e o Mau Temperamento (1:19-21) IX. O Fazer Adicionado ao Ouvir (1:22-25)

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