Chicos 40

 

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e-zine de Cataguases

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Chicos N. 40 Maio 2014 e-zine de literatura e ideias de Cataguases – MG Capa Um dedo de prosa Esta é a edição número 40 de 31 de maio de 2014. Ao artista plástico e fotógrafo Jorge Napoleão Jorge Napoleão Este começo de ano foi triste para nós, faleceu o amigo e artista plástico Jorge Napoleão em 15.02.2014. Nós o homenageamos com algumas imagens dele, nossa capa e a já célebre foto que fez do Chico Peixoto na contracapa. Também, perdemos o poeta mineiro Donizete Galvão e o prosador colombiano Gabriel Garcia Marques. Quando perdemos um artista, nossa existência torna-se mais obtusa e pesada. Eles, sensíveis que são, tornam nosso caminhar mais ameno, desbrutalizam-nos de nosso cotidiano. Editores Emerson Teixeira Cardoso José Antonio Pereira Andaram falando dos 50 anos do golpe de 64. Em respeito aos que foram silenciados, publicamos alguns poemas produzidos em meio aquele período triste por Haroldo de Campos. Apresentamos aos nossos amigos uma interessante poeta portuguesa, Fiama Pais Brandão. Homenageamos Gabriel Garcia Marques com um texto de Mario Vargas Llosa. Em traduções de Alberto Acosta a poesia de Eugenio Conchez em português e Ascânio Lopes em Colaboradores desta edição Alberto Acosta Antônio Jaime Antônio Perin Eltãnia André Flauzina Márcia da Silva Ronaldo Cagiano Sebastião Nozza Bielli Lotti – Slotti espanhol. Uma ótima entrevista de Cecília Meirelles ao Pedro Bloch. E muito mais vocês encontrarão por aqui. Divirtam-se! Uma boa leitura para todos. Os Chicos Fale conosco em: cataletras.chicos@gmail.com Visite-nos em: http://chicoscataletras.blogspot.com/

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Sumário DONIZETI GALVÃO Alguns poemas............................................................................................................................03 HAROLDO DE CAMPOS Poemas em meio a ditadura....................................................................................................08 EUGENIO CONCHEZ Ars Vivend e outros poemas traduzidos por Alberto Acosta.........................................09 EZRA POUND Canto 81.........................................................................................................................................18 ANTÔNIO PERIN Um carnaval e suas máscaras.................................................................................................20 ASCÂNIO LOPES Mi Enamorada............................................................................................................................21 FIAMA PAIS BRANDÃO Epístolas para meus medos e mais alguns poemas.........................................................22 EMERSON TEIXEIRA CARDOSO Quem tem medo do Anunciador? ........................................................................................29 JOSÉ ANTONIO PEREIRA 05 de março de 1978...................................................................................................................31 ELTÂNIA ANDRÉ Aquela menina............................................................................................................................32 SEBASTIÃO NOZZA BIELLI LOTTI Atenção aos invisíveis...............................................................................................................33 FLAUSINA MÁRCIA Filme bom.................................................................................................................................... 34 ANTÔNIO JAIME SOARES Todo mundo pro distrito.........................................................................................................35 JOSÉ ANTONIO PEREIRA A enfermeira................................................................................................................................36 RONALDO CAGIANO Um estreante com a segurança dos veteranos..................................................................38 HILDA DOOLITTE Sob Relatos de uma temporada no divã............................................................................. 39 MARIO VARGAS LLOSA Prólogo de Cem anos de Solidão..........................................................................................40 CECÍLIA MEIRELLES Entrevista a Pedro Bloch........................................................................................................ 42 Imagens de Jorge Napoleão

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Donizete Galvão Donizete Galvão Falecido no dia 30 de janeiro, deste ano, aos 58 anos. Poeta mineiro, de Borda da Mata radicado em São Paulo, deixou sete livros de poesia. Confira alguns poemas extraídos dos livros A Carne e o Tempo, Mundo Mudo, Ruminações e O Homem Inacabado: Milagre Tem de haver um porto, uma praça, um caramanchão de rosas brancas, uma sombra. uma moringa d’água. por certo, tem de haver uma pinguela, um mata-burro, um canário da terra, um fogão de lenha soltando fumaça. deve haver numa curva um remanso, ceva de pássaros, canto de seriema, prata de peixes rio acima: piracema. Do livro A Carne e o Tempo (1997)

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Miolo Lembro-te mata, tenda de folhas, ninhal de minas, casulo de sombras, alcova de brotos, renda de luzes, vertigem de avencas, friagem de sapos, labirinto de cipós, manto de limos, frescor de cambraias, grafias de cascas, acridez de sumos, açúcar de flores. Recorro a todos os nomes sem nunca recuperar o frêmito de espanto, o susto da criança Inaugurando a mata. Do livro Ruminações (1999)

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Oração natural Fique atento ao ritmo, aos movimentos do peixe no anzol. Fique atento às falas das pessoas que só dizem o necessário. Fique atento aos sulcos de sal de sua face. Fique atento aos frutos tardios que pendem da memória. Fique atento às raízes que se trançam em seu coração. A atenção: forma natural de oração.

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Visita Que ela chegue sem clarins ou trombetas, entre como facho de luz pelas gretas da janela e atravesse o quarto na sua claridade. Que ela chegue inesperada, como a chuva na tarde calorenta e faça subir o odor de poeira molhada. Que ela chegue e se deite ao meu lado, sem que a perceba. Que me lave com água de fonte e me cubra com o bálsamo branco do silêncio. Do livro Mundo Mudo (2003)

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Saturação No círculo que a xícara de café deixa desenhado no pires, o grão amargo do equívoco. O olhar preso, a vida presa. Ânsia que confrange os ossos. Ninguém atura o risco do cerco. Ninguém sai dele de mãos vazias. Do livro O Homem Inacabado (2010) Donizete Galvão em uma audição do Quinta Poética na Casa das Rosas em São Paulo - SP Aroldo Pereira, Ronaldo Cagiano, Donizete Galvão e Gilberto Nable

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Haroldo de Campos Haroldo Eurico Browne de Campos nasceu em São Paulo SP 1929, onde faleceu em2003. Poeta, tradutor, ensaísta, irmão mais velho do também poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos. Lançou seu primeiro livro de poesias, O Auto do Possesso, em 1950, pelo Clube de Poesia de São Paulo, ligado à chamada Geração de 45, com a qual rompe no ano seguinte. Com o irmão Augusto e o poeta e ensaísta Décio Pignatari forma o grupo Noigandres e edita a revista-livro homônima, em 1952. Em 1956, participa da organização da Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte Moderna de São Paulo que, um ano depois, é montada no saguão do Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro. Em 1958, publica, em Noigandres 4, o Plano-Piloto para Poesia Concreta, novamente com seu irmão Augusto e Pignatari. Juntos, em 1965, lançam também o livro Teoria da Poesia Concreta. Defende a tese de doutorado Morfologia do Macunaíma, em 1972, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP. No ano seguinte, assume a cadeira de semiótica da literatura no programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, onde permanece até 1989. Publica Galáxias, um de seus textos mais conhecidos, em 1984. Como tradutor de poesia, dedicase a diversas obras, com especial destaque para os autores de vanguarda, como o poeta norte-americano Ezra Pound (1885 - 1972) e o romancista irlandês James Joyce (1882 - 1941). Sua obra valoriza a utilização de recursos tecnológicos e a interação da poesia com a música. poesia em tempo de fome fome em tempo de poesia poesia em lugar do homem nome em lugar do pronome poesia de dar o nome nomear é dar o nome nomeio o nome nomeio o homem no meio a fome nomeio a fome

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Servidão de passagem o azul é puro? o azul é pus de barriga vazia o verde é vivo? o verde é vírus de barriga vazia o amarelo é belo? o amarelo é bile de barriga vazia o vermelho é fúcsia? o vermelho é fúria de barriga vazia a poesia é pura? a poesia é para de barriga vazia

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poesia em tempo de fome poesia em tempo de fome fome em tempo de poesia poesia em lugar do homem nome em lugar do pronome poesia de dar o nome nomear é dar o nome nomeio o nome nomeio o homem no meio a fome nomeio a fome de lucro a lucro de lucro a lucro logrado de logro a logro lucrado de lado a lado lanhado de lodo a lodo largado

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sol a sal sal a sova sova a suco suco a sono sono a sangue homem senhor homem servo homem sobre homem sob homem saciado homem saqueado homem servido homem sorvo quem uísque quem urina quem feriado quem faxina quem volúpia quem vermina

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homemmoensahomemmoagem ocre acre osga asco só moagem ossomoagem sem miragem selva selvagem ocre acre osga asco só moagem ossomoagem sem miragem selva selvagem

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Eugenio Conchez Eugenio Conchez nasceu em Intendente Alvear (La Pampa, Argentina) eml 24 de agosto de 1983. Estudou Letras na Universidad Nacional de La Pampa (UNLPam) onde é professor de Literatura Moderna. No ano 2006 publicou seu livro de poemas Los salmos apócrifos. Ars vivendi Versos de Cyril Connolly Num lugar agradável sempre anelando de estar em outro, com uma mulher perfeita imaginando outra, mais perfeita ainda (como a abelha e o seu ferrão, o promíscuo abandono o que faz a sua angústia); com um mal livro inacabado começar um segundo. Fama e paz dos antigos quando uma obra bastava para uma vida; o resto era glória e repouso, falta de angústia, viver para a beleza.

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Num ensolarado país, uma casa entre oliveiras perto da água murmurosa em Ischia ou Sanary-sur-Mer, em Tívoli onde haveria uma primeira, poeirenta edição do Proust e martini gelado na casa que cheira a rosmaninho. Batatas ao rosmaninho. O dia esgotado em ansiar o que nos passa. Traduzir preguiçosamente ao Byron e o Dante com as despojadas palavras de sempre; no caderno, sóbrias listas das coisas amadas. E viver para a beleza sempre sério, sempre lúcido, pensando apenas apenas fazendo nada. “Vem – Aonde – Ao nada terrível tão só ali de onde vens as coisas amigáveis e semelhantes a ti, Os elementos. ” Traducción: Alberto Acosta

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