Crónicas do Amor Impossível (Edição Portugal)

 

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Mário de Andrade definiu para sempre: amar é verbo intransitivo. O amor atrai pela promessa do bem, mas pica uma ferida narcísica: expõe a nossa carência, a nossa incompletude.

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antes que eu pudesse dar-me conta, desde o princípio, antes mesmo de te conhecer, já te amava. cultivava este amor repleto de promessas imprevistas, noutro hemisfério, em terras distantes, noutro continente, por cruzar mares e oceanos até me encontrar. já amava a tua cor e o teu toque, as tuas palavras antes que as ouvisse, já previa o emaranhar de nós e o nosso abraço, minha ânsia em percorrer os teus relevos e os teus segredos, os teus pelos na minha boca, a humidade entre as tuas pernas. já tinha as minhas mãos à espera das tuas, sempre a aguardar a tua chegada, o momento delas envolverem os teus peitos. esperei por ti, repleto de histórias de outras tantas que se desvaneceram no momento em que os teus lábios se encontraram com os meus. * * * guardei para ti rosas e versos, construí cada palavra, pus em cada uma um gosto de sol e mel, procurei matizes e luzes. aguardei que sobre elas derramasses o teu sorriso ao encontrares ali o teu nome. a minha satisfação brotou entre as pétalas do jardim. o que fiz foi para esquecer as lágrimas já que agora somente os teus dedos correm pelo meu rosto. * * *

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espero o momento de te tocar e sabes que há em ti algo que me envolve e me conquista. esta expectativa é um ensaio que atravessa o abismo entre a nossa pele, é um prenúncio de algo em que me fizeste acreditar. algo que me tome quando este momento chegar e quando de mim tu te apoderares. contento-me com o teu frágil sorriso e as tuas promessas cuja interpretação se perde diante do timbre da tua voz. profeta da incerteza, aguardo do momento a sua acontecência. calo diante da fêmea húmida que sugere cios e sonhos, diante do encanto e do encontro aguardado por nossas línguas. * * * se amor houvesse, bastar-me-ia isto para desaprender o meu caminho, para vagar da praça mauá à cinelândia sem direcção, quieto e calado, pequeno, leve, para me perder nas curvas e becos da cidade nua, para que me diluísse na multidão? seria suficiente para tocar os teus cabelos, para guiar os meus dedos por sob a tua saia até o teu húmido reduto, para desejar ouvir de ti um gemido? se amor houvesse, bastar-me-ia isto para admirar o céu do aterro, insano e vasto, amplo, alto, para criar asas que me levariam até ao sol repetindo o voo de ícaro? bastar-me-ia que nos encontrássemos num horizonte de eventos, que a tua respiração se fundisse à minha, que eu tornasse a crer em sonhos? se amor houvesse será que tu entenderias que por tua causa desaprendi o caminho, por tua causa vagueei sem direcção, por tua causa perdi-me, por tua causa parei para olhar o céu, por tua causa tornei a sonhar? * * *

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beijo as pétalas da rosa. e na minha boca o meu amor goza. * * * prometi amar-te, assim por inteiro, cada centímetro teu que trazes debaixo da roupa, sem me importar se já foste santa ou puta, comprometendo-me a escutar o que dizias, real ou imaginário. prometi amar-te, lúcido ou demente, apesar das coisas pequenas e insanas, grandiosas ou medíocres, ordinárias, desprezíveis, desnecessárias ou imprescindíveis que preenchem os teus calendários, ocupam a tua agenda e que me roubam o sono. prometi amar-te, nas tuas insignificâncias e coisas tolas que transformas em holocaustos, vendo a forma como te movimentas, o teu piscar de olhos quando mentes, de acordo com os teus ardis, os teus artifícios. prometi amar-te em cada segundo que nos é subtraído e apesar da constatação de tuas trapaças, apesar dos nossos fracassos. foi só quando desisti de ti que pude cumprir a minha promessa. * * *

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o quanto vagueei à tua procura, a levar comigo as tuas palavras, a fazer delas um mantra, uma prece, ao ouvi-las, a cultivar a ilusão de que não tinhas partido? quantos amanheceres permaneci a revolver as lembranças que não se desfaziam, a maneira como gesticulavas, os teus lábios quando encontravam os meus, como me recebias entre as tuas pernas, o branco dos teus dentes. o quanto vagueei a prometer-me que te encontraria a qualquer momento, a qualquer custo? essa promessa a resguardar-me da aniquilação, a sentir o teu cheiro em cada uma que despia, a chamá-las também pelo teu nome. * * * quando acordei não posso dizer que encontrei o inesperado. aquela manhã, tantas vezes adiada, finalmente se revelava e nascia, contra a minha vontade, no ontem emaranhada. era como se ainda estivesses aqui, restos do teu riso continuavam presentes na cena, as tuas mãos a tocar-me, as minhas coxas entre as tuas, na mesma cama em que prometemos ficar juntos para sempre. a luz imprecisa daquela manhã não me permitia acreditar que o teu som havia cessado, restando apenas a ruidosa agonia dos espelhos a despertar-me para o indesejado, o inevitável e a vontade de não acordar. o itinerário do teu corpo era agora um teorema, a concretude

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definitiva da tua partida, na mesma cama em que a outro te entregaste. * * * foram tantos os que te comeram, a tantos juraste eterno amor. com todos tiveste a certeza de ter encontrado o teu par. como acreditar no que me dizes, mais uma vez, com a tua mesma antiga convicção? sou apenas mais um entre os tantos que te comeram. se apenas tarde te encontrei e não pude ser o primeiro, não posso cobrar do teu tardio amor ser o último. * * * tenho sobre a pele o calor das tuas mãos, o toque dos teus dedos, o rasto que a tua saliva deixou, marcas invisíveis que na minha carne ficaram registadas. tenho a tarde branca liberta dos teus pelos que à minha frente se desenrola, repleta de sussurros e silêncios, revirando as minhas entranhas, vazia como a página onde escrevo e o horizonte que se cala. caminho sobre a terra desolada que a tua falta criou. levo comigo o teu último beijo. 14 horas, 19 de março, comecei a morrer.

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