Sapeca 5

 

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Misto de Sapo e Perereca

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Sapeca Misto de sapo e perereca Nº 5 – Maio/2014 - Editor: Tonico Soares ____  ____ Musa do semestre: a priminha deste jornaleco, fazendo pose. Aparasphenodon pomba. Traduzindo: perereca de Cataguais. Sabe-se que o biólogo Clodoaldo Lopes de Assis (Universidade de Viçosa) a descobriu em nossas matas, com aval da comunidade científica. O que não se sabe é que dei a revista com a notícia a uma sobrinha e seu marido perguntou ao filho Tales, de cinco anos, se sabia o que é perereca. E ele: – Sei, a mãe usa.

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Primeiro de abril Completou-se, pois é, meio século da quartelada de 1964. A gente tava em reunião no famigerado CAC, que então funcionava numa casa vazia da Telefônica, ao lado da Cima, e Plínio, meu irmão, passou por lá a dizer que Minas queria se separar do Brasil. Ninguém entendeu e fomos à praça, ouvir outras pessoas. E ouvimos Galba soltando fogo pela goela no alto falante da rádio, como se este ainda não tivesse sido inventado: ‘ Estamos em guerra!...’. E continuamos sem entender. Dia seguinte, no quadrinho da previsão do tempo, o Jornal do Brasil, de propósito, resumiu a situação: ‘Tempo instável, sujeito a pancadas ocasionais no decorrer do período’. Previsão válida por 21 anos e, no 7 de setembro posterior ao recuo dos militares, a revista Manchete deu página dupla com foto de multidão a aplaudir o desfile das forças armadas. Ivan ‘ Lessa a reproduziu no Pasquim, com esta legenda: ‘Brasileiro é o único povo que, depois de não ser mais obrigado a fazer uma coisa, continua fazendo’. Caso explícito de síndrome de Pavlov, vale dizer. Pois bem, 2014 é o último ano em que serei obrigado a votar e pretendo não continuar a fazêlo. Voto obrigatório, no Brasil, é herança de outra ditadura, a de Getúlio Vargas, e deve ser motivo de mofa nos países democráticos, onde não votar é um direito. Um exemplo é François Truffaut, que sequer tirou título de eleitor. Política não constava no roteiro do seu filme-vida e ninguém lhe cobrou, pelo contrário, deram seu nome a uma rua de Paris. No patropi, sem obrigatoriedade, muitos donos de currais eleitoreiros já teriam se bandeado pra outras pastagens. Batucando estas mal-digitadas, lembrei cena do show pelos dez anos do MPB 4, na década de 70, com roteiro de Chico Buarque. Vizinho reclamou do barulho durante o ensaio do conjunto e um deles respondeu: ‘Nós não somos uns vagabundos, como o senhor falou, tá aqui minha carteira de identidade, CPF, carteira da Ordem dos Músicos, título de... ah, deixa pra lá’. E jogou o dito fora, sob risadas e aplausos. Pra presidente, o meu só foi útil aos 43 anos, em 1989, quando estreei voto na categoria. Contra Collor.

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POLITICAMENTE CORRETO Pré-carnaval, o Bonfante e eu falamos rápido sobre marchinhas de antes da vigência do ‘politicamente correto’. Expressão dos anos 80, jogada da assessoria do Bush pai pra despistar suas incorreções políticas, guerras, invasões... O filho aprendeu em casa e foi mais longe, levando traulitadas contra as torres gêmeas, o Pentágono e, por pouco, a Casa Branca também não sifu. Simplificando: nas marchinhas, preto era preto, mulata era mulata, com ou sem malícia, pra ficar na questão racismo. E lembro aqui alguns episódios racistas, recentes ou de tempos remotos. Um deles: a afro-descendente Lecy Brandão foi impedida de entrar pela frente em prédio da Tijuca-RJ, tendo que subir pelo elevador de serviço (coisa que, dizem, só tem no Brasil). Com base na Lei Afonso Arinos ela processou o condomínio e ganhou a causa. Também pelo fato de ser negro, o ator Zózimo Bulbul foi preso no calçadão (que nome mais horrível de feio, sô!) de Ipanema, olhando pra cobertura de um prédio. Autuado, alegou que morava lá. Reação dos home: ‘Mora o cacete, tu tá é a fim de assaltar algum apartamento ali’. Entanto, morava, no que foi casado com uma arquiteta (branca), que conheci quando fez um documentário. Já escrevi por aí que nuns 10 anos de Embrafilme convivi com muitos artistas e uma noite estava com Stelinha, filha de Jece Valadão e de uma irmã de Nelson Rodrigues, pra ver um filme. À nossa frente, Marília Pêra, Zezé Mota e o costureiro Carlos Prieto (já falecido). E este perguntou à moça se seu pai ainda estava com ‘aquela mulher’, Vera Gimenes, no caso. Stelinha não sabia, por não acompanhar as piruetas sentimentais de Jece. E o costureiro: ‘Tem que largar, aquela mulher é brega demais, ela é a própria grife do Sonho de Valsa’. Marília, Zezé, Stelinha e eu rimos, claro, mas poderia dar bode, tipo: bastou ser chamada de gorda, por uma revista, pra Preta Gil processar e ganhar uma grana, que investiu numa ONG pra defender os direitos dos obesos. E Vera Gimenes depois foi processada pelo porteiro de seu prédio, por tê-lo chamado de ‘preto safado’. Na TV, a ‘sogra’ de Mick Jaeger, disse: ‘Preto ele é, tá na cara, e safado, também, pela grossura que fez comigo’. Curta e grossa, sei lá, xá pra lá. Desconheço a grossura do moço e não o julgo, porém, condeno um branco safado que todo dia parava de bicicleta e indagava a uma senhora se seu neto, filho de branco e preta, já havia nascido. Ela, de saco cheio, soltou os capetas: – Já, seu enxerido, e é mais branco que o pai dele, se é isso que ocê tá quereno sabê, deus que sôbe da gravidêis dela. A maldade, nessa gente, é uma arte, e o enxerido não desistiu: – É, mas filho de urubu também nasce branco. Só existe uma verdade absoluta: todo racista é um filho da puta, não sei quem disse. E na época do Bush pai o produtor de cinema Luiz Carlos Barreto sugeriu a extinção do termo ‘mulato’ dos dicionários. Sabe-se que ele tem um genro negro, o jogador Cláudio Adão, que lhe deu netos... como dizer? Mestiços? Chico Buarque também tem e, pelo que sei, não considerou isso um problema.

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marchinhas de carnaval Racistas, sexistas, abusadas, ‘reacionárias’, mas inventivas No Japão é que é bão, japonês não passa mal, não há mulher bonita, nem feia, é tudo igual. Não há loirinha, não há, não há, não há, morena, nem pretinha, nem mulata sarará. Lá não se briga por causa de mulher: quem perde a sua, apanha a que quiser. O que é que há, o que é que há, você dizendo que é Tirone Povér, porém, com essa cabeleira você parece Ava Gardinér. Moço que usa topete só se compromete, a moça é que se enfeita como pode: enfeite de homem é bigode. Conheço uma dona que se diz soçaite, já passa dos sessenta e não sai dos trinta e dois, coitada, está cansada de ficar no espelho tapando os seus buracos com creme e pó de arroz. Ela foi fundada em mil e oitocentos e oitenta e dois. Em Cuba, em Cuba, em Cuba, entrou na contramão, vai encostar no paredão, no paredão, essa, não. Aqui ninguém é dono de ninguém, barbado, só camarão, quem assaltar um trem ou suicidar alguém tem cem anos de perdão. Ai, quem me dera, Dalila, Dalila, se eu fosse Sansão, os teus encantos, Dalila, são, são a minha perdição. Por tua causa eu já fiquei careca, levei a breca, pois o pau comeu, nas tuas mãos eu já virei peteca e neca, neca dos carinhos teus. Linda Pepita de Guadalajara mora em frente do quartel, mas, um dia, beleza rara, conquistou o coronel e depois foi encontrada namorando o capitão e, finalmente, quis o tenente, o sargento e o batalhão. Por isso que, hoje em dia, na parada militar a tropa vai cantando esta marcha singular: ‘Pepita de Guadalajara não tem vergonha na cara’. Minha terra tem palmeiras, minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. Tem cachaça e tem mulata, tem também muita mamata que está dando o que falar. Tem tubarão à toa mamando pra valer e eu a qualquer dia entro no jabaculê. ... e trocentas outras mais

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Fofocas sobre famosos, tem todo dia na mídia. Em antes, porém, pegavam mais pesado, feito Freddy Daltro, que editava a revista Escândalo, no Rio, com textos comprometedores sobre celebridades, se não ‘molhassem’ sua mão. Vítimas constantes de sua pena foram as sapecas Mara Rúbia (foto à direita), Wilza Carla, Elvira Pagã, Luz del Fuego e Virgínia Lane. Esta era uma ‘cínica’ (talvez por ter morado até morrer num sítio que ganhou do então presidente Vargas. No Fantástico, ela disse que adorava sentar no joelho dele, ‘aquela bombacha, aquele charuuuto!!!’). Também cantoras, sendo que Dalva de Oliveira era ‘indigna de ser mãe’, Marlene era ‘mascarada’ e ‘macumbeira’, Emilinha, ‘bígama’: noiva do filho de um ministro (depois se casaram), ‘namorava escondido’ o cantor Jorge Goulart. Não escapou nem o chefe de polícia, general Ciro de Resende. Até por ter general na jogada, em junho de 1952 Daltro foi sequestrado e levado prum local ermo, escuro e de pouca frequência, sobretudo, à noite – a Barra da Tijuca de antanho. Lá, foi torturado e espancado por uns brutamontes, profissionais do ramo, pois nenhum órgão vital ficou comprometido. E o enterraram até o pescoço na praia, pra que as ondas terminassem o serviço, além de darem alguns tiros a esmo, pra amedrontar a vítima indefesa. Consta que, antes que a maré subisse, um casal, que ousara ir de carro àquela hora a um lugar tão perigoso, o encontrou semidesfalecido, carregando com ele pro hospital mais próximo. Mandantes suspeitos, muitos; provas, nenhuma. E a revista continuou em circulação, sem bulir com autoridades. Folheei um exemplar, coisas até infantis, nos dias atuais, tanto mudaram os costumes. Mau caráter, porém, é o que mais tem por aí e, nesse quesito, nada mudou. Merecem o mesmo castigo dado a Daltro?

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Eros Volúsia Brazil’s top dancer, como a epitetou a top revista, fez mais sucesso indo pros Sta- tes, naquela de ‘política da boa vizinhança’. Lá, acolheu e ensinou macetes de palco a Carmen Miranda, dançou em filmes da Metro, na Casa Branca (a própria, posto que a nossa, um rendez-vous de terceira classe, ainda era casa de família) e no Clube Social, dividindo aplausos com Bienvenido Granda: de uma só vez, Cataguais curtiu duas estrelas internacionais – um constante progredir e agora nem rendez-vous tem mais. Motoqueiro a perigo, numa de trocar o óleo, só recorrendo às vizinhas. Às cidades vizinhas, eu quis dizer.

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HOTEL MINAS Fatos e pessoas que merecem registro, tendo ficado registrados como hóspedes no grande hotel da memória afetiva da gente. Condutas agora tidas como politicamente incorretas, importa-me lá, são elas que fornecem assunto a escritores, o que lembra Aquiles Branco: ‘As pessoas normais não têm o menor interesse’. Pra começar, apresento hoje duas hóspedes do Rio, ambas, por acaso, telefonistas. Catarina - Trabalhava em agência de propaganda na zona sul. Morava longe e falou que jamais pagava passagem, ofertando-se na calçada na expectativa de uma carona. Um sorriso, um olhar de quem está a fim, e sempre um motorista se rendia. Algumas fazem isso pra assaltar, ela, por prazer e só gostava de relações mais íntimas dentro do carro; motel, ela dizia, ‘é muito careta’. Dava expediente na parte da manhã e colegas a viram dando outro expediente, ali pelas redondezas botafoguenses. Glorinha – Morena, pra não usar a agora processável palavra mulata, de carnes abundantes, também dava expediente de manhã, noutra agência, ali perto da Candelária. Findo seu período, ia ao ‘departamento de criação’ (setor em que são bolados os anúncios, cartazes, comerciais de rádio e TV, o pessoal mais ‘cabeça’) e postava-se à janela, fingindo ver algo lá fora, mas era pros mamilos ficarem durinhos dentro da blusa de malha, defronte ao ar-condicionado, o que excitava um alagoano que, não raro, tentava asediá-la, levando um pito: ‘Respeita o reverendo’. Este, sem desviar os olhos dos evangelhos lidos ad nauseam (metodista e pastor, cultivava seu latim feito um sacerdote católico), expressava leve sorriso, que não expressava aprovação. Sempre de camisa abotoada nos punhos e colarinho, calado, regente de coral, versado em gramática (aquele tipo que Aquiles não levaria em conta), fazia revisão de textos. Já ela preferia os gringo $ e, à tarde, ia caçá-los pelos bares de Copacabana. Antes, fora enfermeira e gostava de acariciar o lulu dos pacientes que achava bonitos, uma forma de lhes restituir mais cedo o gozo da saúde. Grande Glorinha. 

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O futebol brasileiro evocado da Europa João Cabral de Melo Neto A bola não é a inimiga como o touro, numa corrida e, embora seja um utensílio caseiro e que se usa sem risco, não é o utensílio impessoal, sempre manso, de gesto usual: é um utensílio semivivo, de reações próprias como bicho, e que, como bicho, é mister (mais que bicho, como mulher) usar com malícia e atenção dando aos pés astúcias de mão. José Wilker (1944-2014) A mania de americanização tende a dizer Uílquer, mas é Vilker, do alemão, assim como Win Wenders é Vin Venders e não Uín Uenders. ‘Vin Venders e aprendenders’, brincou Matinas Suzuki Jr. Dia desses, vi fita com Yul Brynner (na foto) e parecia estar vendo Wilker, dez vezes mais ator que o de Hollywood, mas havia parecenças. Zé foi moleque sapeca, como contou num programa de TV. Nascido em Joazeiro do Norte, terra do padre Cícero, nas festas do dito, a cidade apinhada de romeiros, cortava saias velhas de suas tias e vendia as tiras como se fossem da batina do padre, faturando um bom trocado pro cinema, sorvete, chocolate. E quem comprou pode ter agido como a amante do padre Amaro, no livro de Eça de Queiroz, que exibia às amigas um retalhinho branco, dizendo ser do cueiro do Menino Jesus. E se benziam diante dele. No Decamerão, Boccaccio foi além, falando de um padre que expunha uma pena que teria caído da asa do anjo Gabriel, quando anunciou a Maria sua gravidez. Believe it or not.

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SEBAS TIÃO NUNES Fomos vizinhos no Rio e teríamos nos conhecido quando prima de sua esposa e sobrinha minha ligou e fui vê-la na casa dele, que estava viajando. Depois o vi cá, no armazém de irmão meu, pai da sobrinha. Chamei-o de poeta, e ele: ‘Não espalha, não’. Mas o ultrexigente Décio Pignatari assim o considerava. E ninguém escreve livro chamado Papéis higiênicos se não for bom de serviço, título digno de Oswald de Andrade. Morando em Sereno, curtia cachoeira e versejava. E o poeta parou ali, talvez, por não ter mais o que acrescentar, indo pra outras mídias. Atitude rara, na fogueira das vaidades. Há pouco descobri esse soneto seu: Paródia antiquíssima nº 1 (À moda de Toms António Gonzag) Tua burguesa bucet quando lateja (como se ostra degustando pérolas) nem por isso, Marília, nem por iss, ouriça menos meu chouriç. Tua tímida bucet camponesa (trancada a 7 chaves qual tesouro) é no escuro, Marília, é no escur que mole carne se torna ferro dur. Amo a ambas com a mesma intensidad e nessa classe de luta me confundo irônic, grotesc, fero e rude: diante de vós duas choro fundo e volto à mamadeir tímid e trêmul sem ter gozado tudo do que pude.

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 Classificados  CHUVEIRO DE VERÃO Vendo baratinho, por estar queimado. Como não aquece mais, ideal pra instalar na área da piscina. Tratar com Salim Saad. Tel. comunitário: 3444-4333. Fazemos qualquer negócio.  JACY BORREAU O detetive discreto Cx. Postal 007   ZULEYDE MASSAGISTA Serviço completo Cel. 6969-6969 Sozinha Procura homem sozinho, boa aparência, situação financeira estável, para dividir casa e carinho. Tem selo lá. Os candidatos devem deixar o número dos seus, retrato e dados pessoais na redação deste jornal, que analisarei caso a caso, depois darei retorno, para marcar encontro.

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Tinha também a Maria turca (a do rabo duro viria logo depois). A turca, creio, levava vida normal, enquanto a outra, pra mim, era a enigmática senhora loura que trazia arrumadinho o seu domicílio situado debaixo da ponte nova. Um brinco. Nos meus dez anos, não pude supor que era uma ‘desfrutável’ e só vim a saber por um colega mais velho que com ela... pois é. E rendeu piada indecente, não ouso contar. E dela não soube mais, só de um seu irmão, o vigia pentelho da praça Santa Rita, quando foi reformatada. Atitudes tipo impedir a gente de pôr o pé em cima do banco. E um amigo sapeca (de sobrenome Moura) tirava o maior sarro: – Quer dizer, então, que o senhor é um fascista? – Sou, sim, faço questão de ser. – Nazista, proxeneta, homossexual, pederasta? – Sou, sim, faço questão de ser. Tanta ingenuidade de um, tanta ‘sutileza’ do outro, só rindo. Uma noite, garrei a amarcordar o episódio dos garotos que a aporrinhavam, parodiando meio à moda seiscentista o título Senhora da Boca do Lixo, peça teatral de Jorge Andrade cuja ação se passa naquela zona de baixo meretrício, em São Paulo. Lá, tem também produtoras de cinema e uma delas, gênero pornochanchada, adotou o sugestivo nome Filmes da Boca. É lixo só. E vamos à italiana. Senhora da Boca da Ponte Mote Eu encontrei a Maria em Lisboa, ai, que cachopa boa. Glosa Eu encontrei a Maria italiana, ai, que mulher sacana – de cima da ponte a molecada glosava Carlos Galhardo. Pedras iradas eram a resposta, atiradas pela própria, lá de baix’onde ela vivia, ao pé da delegacia. E ali (‘tô nem aí’) se prostituía com homens e meninos – mutatis mutandis, a Saraghina de Oito e Meio: Fellini.

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Querelas do Brasil Senhor que vive de biscates implorou a uma dona de casa, por caridade, um tico de caldo de pimenta pra pôr na sopa, especiaria de que há muito não sentia sequer o cheiro. Ela perguntou: – Num aposentô ainda não? – Nunca tive cartêra assinada, tô’sperano os 65 ano. E, si Deus quisé, vô arrumá um sirviço na Copasa. Ganhou um tico de caldo e umas pimentas, planta que dá até em vaso, porém, perdeu o costume de produzir, escorado na Bolsa Família, que veio pra ser um meio e, pra muitos, virou um fim, estimulando o amaro far niente. Na Copasa, receberia menos de 300 dólares/mês, já na Suíça, abiscoitaria mais de 300/dia. Digo isso porque, livre das ‘capitanias hereditárias’ o Brasil pode ser uma Suíça tamanho GG. E o pobre poder dizer, de boa cheia: ‘Vai um caldo de pimenta na lagosta aí, companheiro?’. Morrer pelos filhos Cano desativado num muro passou a ser visitado por viuvinha, gravetinho no bico, fazendo ninhozinho, revezandose com o viuvinho. Poucos dias depois, novos inquilinos, tratados pelos pais. O de sempre. Melhor foi perceber que, antes de entrar, voavam e revoavam em volta, um truque pra atrair sobre si a sanha de predadores e poupar as crianças. Foto do semestre Enquanto isso, em Brasília: ☞ ☟ ☝ ☜ O terceiro homem Autor: Robert Doisneau

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