Revista Mediação - Edição 25

 

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Uma revista educacional do Colégio Medianeira

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revista de educação do colégio medianeira NÚMERO 25 ANO XI ISSN 1808-2564 Viver e conviver o EU, o OUTRO: os NÓS entrevista com Paulo Fochi Parem de enlouquecer as crianças De Curitiba O cantor sem dentes a Chernobyl, uma crônica de Luís Henrique Pellanda viagens de descobrimentos

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expediente Diretor Pe. Rui Körbes, S.J. sumário Revista de educação editada e produzida pelo Colégio Medianeira ISSN 1808-2564 Diretor Acadêmico Prof. Adalberto Fávero 3 6 12 16 20 26 30 36 Aprender e ensinar através do lúdico Marcos Eduardo Manente Chella Diretor Administrativo Gilberto Vizini Vieira Coordenação Editorial Cezar Tridapalli Parem de elouquecer as crianças Entrevista com Paulo Fochi Revisão Cezar Tridapalli Redação Diego Zerwes Projeto Gráfico Liliane Grein Alongar para quê? Lívia Gasparotto; Eliane Denise Bacil; Malu Cristina Lima; Jarbas Melo Filho; Simone Cunha; Anna Raquel Silveira Gomes Ilustração e imagens Shutterstock, Rafaela Pacheco Dalbem e Gustavo Frei Colaboraram nesta edição Marcos Eduardo Manente Chella, Paulo Fochi, Lívia Gasparotto, Eliane Denise Bacil, Malu Cristina Lima, Jarbas Melo Filho, Simone Cunha, Anna Raquel Silveira Gomes,Carolina Ribeiro Santana, Lucas Pacheco Ferreira, Adalberto Fávero, Mayco Delavy, Fernando Guidini, Ricardo Tescarolo, Rafaela Pacheco Dalbem, Ana Paula Luz, Gustavo Rafael Frei, Luís Henrique Pellanda Quem são os índios do Brasil Carolina Ribeiro e Lucas Pacheco Ferreira Tiragem 3500 Papel Capa: Papel reciclato 180g Miolo: Papel reciclato 90g A supremacia do Direito e o fim da reciprocidade? Adalberto Fávero Numero de Páginas 52 Impressão Gráfica Radial Tel: 3333-9593 Judicialização das relações e o banal Mayco Delavy Equipe Pedagógica Supervisão Pedagógica Claudia Furtado de Miranda, Danielle Mari Stapassoli, Juliana Cristina Heleno, Mayco Delavy e Fernando Guidini Educação Infantil e E. Fundamental de 1º a 5º ano Coordenação Profª Silvana do Rocio Andretta Ribeiro Paideia: a formação do homem grego Fernado Guidini e Ricardo Tescarolo Ensino Fundamental de 6º e 7º ano Coordenação Profª Eliane Dzierwa Zaionc Curitiba: a cidade dos slogans Rafaela Pacheco Dalbem Ensino Fundamental de 8º e 9º ano Coordenação Profª Ivana Suski Vicentin Ensino Médio Coordenação Profº Marcelo Pastre Coordenação de Pastoral Pe. Guido Valli, S.J. 40 45 Dobrodošli! Ana Paula Luz Coordenação de Midiaeducação Cezar Tridapalli Comunicação e Marketing Vinícius Soares Pinto Turismo extremo: Chernobyl e a cidade fantasma de Pripyat Gustavo Rafael Frei Os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do Colégio Nossa Senhora Medianeira. A reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria. Linha Verde - Av. José Richa, nº 10546 Prado velho - Curitiba/PR fone 41 3218 8000 Fax 41 3218 8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br 50 O cantor sem dentes Crônica de Luís Henrique Pellanda mediação 1

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editorial C aro leitor Estado paternalista, socialismo, comunismo. Estado mínimo, capitalismo selvagem, neoliberalismo (essa lista poderia ser lida ao ritmo da clássica canção “O pulso”, do então titã Arnaldo Antunes). Todos são termos muito em voga já há algum tempo no vocabulário social e político. Tais expressões falam de grandes modelos dentro dos quais os indivíduos transitam – ou empacam. Talvez, como pano de fundo para tudo isso, o que se esteja buscando – por parte dos bem intencionados – é a melhor forma de pensar no bem da coletividade sem deixar de lado a liberdade individual, expressão que tem constantemente justificado o mau e velho egoísmo. Qual a equação, afinal de contas, que permitiria justiça e oportunidades a todos para que sigam o caminho de suas vocações pessoais? Qual o compromisso e a contrapartida que o indivíduo deve firmar com a sua comunidade? A humanidade sempre foi pródiga em produzir modelos extremos, nos quais ora o coletivismo exacerbado tolhia o indivíduo e suas aspirações particulares, ora o individualismo deixava entrever a injustiça de um perverso darwinismo social, lei do mais forte, quem pode mais chora menos, salve-se quem puder e por aí vai. Nessa corda bamba vivemos até hoje. Muito mal equilibrados, é verdade. Conciliar a liberdade individual a uma preocupação com a justiça e a dignidade de todas as pessoas talvez ainda seja uma síntese utópica, mas pela qual vale a pena lutar, sem deixar que terceirizemos nossa vida (e a hedionda ideia de uma volta à ditadura pode servir de exemplo aqui). Nesse entremeio, a liberdade política nos parece aqui uma categoria imprescindível para estabelecer diálogos entre a esfera individual e coletiva. Se lançarmos mão de uma lupa para examinar mais de perto a sociedade, che- gamos ao indivíduo e à sua relação com a alteridade, com o outro. Essa relação intersubjetiva (entre sujeitos) aparece de certa forma esgarçada por uma força travestida de direito individual, mas que tem sido judicializada a ponto de matar o diálogo e a capacidade que o homem tem de resolver seus conflitos com o outro pela via política. Não estamos falando de política institucionalizada, partidária, embora esta possa ser, sim, um caminho. Mas da política feita de interlocuções diárias, de escuta, da experiência de vestir o ponto de vista do outro, inclusive para questioná-lo, ampliálo e aprender com ele. Parece haver certa infantilidade numa sociedade que quer se cercar de seus direitos cobrando de forma policialesca – ou seria burlesca? – os deveres do outro. A educação é um dos caminhos para erradicarmos esse comportamento na criança, que ainda se percebe como umbigo do mundo, faz “manha” e bate o pé para que os seus desejos sejam satisfeitos. Se na sociedade adulta repete-se o comportamento da criança, se adultos estão perdendo a capacidade de saber que o mundo não gira em torno de seus umbigos, tudo parece se complicar. E se a humanidade levou um choque ao saber que a Terra não era o centro do universo, talvez precisemos despertar outra surpresa: o “eu” não é o centro da Terra, o “eu” é um ser de relações, e cada um tem sua órbita girando num campo gravitacional regrado pela sociedade da qual faz parte, com seus contratos sociais. Nossa Revista Mediação, em seu número 25, problematiza estas questões com os artigos de Adalberto Fávero, Fernando Guidini e Mayco Delavy. Mas também traz outros assuntos, como é característica da nossa publicação: uma entrevista com Paulo Fochi alerta para o cuidado com a “agenda” da criança. Atarefá-la nem de longe é sinônimo de uma educação mais qualificada. O tiro pode sair pela culatra. A ludicidade, ou seja, a boa e velha brincadeira é condição das mais importantes para o desenvolvimento infantil, e é sobre isso que fala o artigo de Marcos Chella, professor de Educação Física do Colégio Medianeira. E, para os adultos que se exercitam ou querem começar, o aviso básico, mas muito esquecido: alongarse é preciso. É a esse respeito que fala uma equipe de educadores ligados à Universidade Federal do Paraná. A edição traz ainda dois relatos de viagem a lugares pouco visitados pelos turistas tradicionais: conhecer territórios de conflitos históricos no leste europeu ou o local da tragédia de Chernobyl foi o que fizeram dois ex-alunos do Colégio Medianeira, Ana Paula Luz (atual professora de Arte na instituição) e Gustavo Frei, respectivamente. É também por meio de outra ex-aluna, atualmente coordenadora regional da FUNAI no sul da Bahia, Carolina Santana, que conhecemos melhor a situação do índio brasileiro contemporâneo, sem véus de mistificação. Ela assina o artigo juntamente com Lucas Pacheco Ferreira. E, depois de viajar por Chernobyl, por países em conflito no leste europeu e pela Bahia, não deixamos de olhar para a realidade local, nossa cidade, seja com a análise da nossa professora Rafaela Dalbem, que revisita criticamente os rótulos que já colaram em Curitiba, seja com a crônica de um dos nossos principais escritores contemporâneos, Luís Henrique Pellanda, que em “O cantor sem dentes” fala de tipos tão próprios da cidade e, ao mesmo tempo, tão invisíveis. Espero que os artigos desta edição provoquem os leitores no melhor sentido do termo. Compartilhe nossa revista, escreva para nós, traga-nos seu ponto de vista. Um abraço. Cezar Tridapalli mediacao@colegiomedianeira.g12.br Procure essa e as edições anteriores, que podem ser lidas na íntegra, no nosso blog: Envie sugestões e comentários para: www.midiaeducacao.com.br 2 mediação

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artigo Aprender ensinar através O lúdico é um método de aprendizagem e de expressão infantil. Os jogos e as brincadeiras oferecem a possibilidade do desenvolvimento da linguagem, da concentração e da atenção, além de estimular a curiosidade, a autoconfiança e a autonomia dos pequenos. Conheça um pouco mais sobre o aprender e o ensinar que o lúdico proporciona. Por Marcos Eduardo Manente Chella mediação 3

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O brincar e o jogar proporcionam oportunidades para a criança interagir e intervir em seu meio social de forma prazerosa e significativa. Por isso, a utilização do lúdico como prática pedagógica garante o aprendizado não apenas no esporte, mas também em diversas outras disciplinas. Através do jogo, é possível inserir objetivos, regras e o papel de cada um. Todas as teorias do jogo e da brincadeira indicam a importância do lúdico como um meio privilegiado de expressão e de aprendizagem infantil. Os adultos se envergonham de suas fantasias de criança, deixando de lado o imaginário. Certamente, um adulto que já se esqueceu de brincar dificilmente conseguiria voltar a fazê-lo. Mas devemos lembrar que a capacidade de invenção é tão importante quanto a inteligência. A própria cultura, por exemplo, é resultado da habilidade que o homem tem de transformar a realidade. Criar, sonhar e imaginar são fatores essenciais que interferem na potencialidade do ser humano. A ludicidade abrange diversas oportunidades de aprendizagem, já que, brincando, a criança experimenta, descobre, inventa e aprimora habilidades. Os jogos e as brincadeiras – tanto as mais antigas quanto as mais atuais – oferecem a possibilidade do desenvolvimento da linguagem, da concentração e da atenção, além de estimular a curiosidade, a autoconfiança e a autonomia dos pequenos. Portanto, é necessário incentivar a criança no uso da imaginação. É através dela e do corpo que aprendemos a reconhecer e distinguir os desejos possíveis dos impossíveis sem criar futuras frustrações. É no criar e imaginar que estimulamos a aprendizagem, o desenvolvimento, a socialização e a construção do conhecimento fundamental para a vida adulta. Nesse contexto, o corpo passa a ser o primeiro brinquedo da criança. Com ele, os pequenos se expressam, se movem e se relacionam com seu meio e com os demais. Dominando seus movimentos corporais, a criança sente-se à vontade. Mas, quando reprimida, perde um pouco da flexibilidade e da espontaneidade. Os professores podem – e devem – inserir a ludicidade na sala de aula. Estimular a percepção dos ritmos, sons e silêncios ao redor das crianças através da música e da alternância de diferentes movimentos, por exemplo, são habilidades facilmente exploradas pelos pequenos. O brincar é também uma forma de desenvolver a linguagem. Através de jogos e brincadeiras, a criança consegue se comunicar e expor suas emoções, medos e alegrias, além de ver, sentir e interpretar mais facilmente o mundo ao seu redor. Com a arte, a criança consegue expressar seus sentimentos e pensamento explorando e manipulando diferentes materiais. Pinturas e poesias provocam uma aprendizagem significativa que, assim como em brincadeiras, acontece gradativamente e de forma inconsciente, natural e espontânea. 4 mediação

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Além da escola, a família também é um espaço no qual a criança aprende a se socializar através de brincadeiras. As regras podem ou não ser modificadas durante os jogos para que os pequenos experimentem novos caminhos e como lidar com as diferenças e novos desafios. No simples ato de brincar, a criança demonstra suas emoções por imaginar-se em diversas situações, encarando seus medos e superando-os para participar de determinadas atividades. Alguns objetos podem facilmente virar brinquedos – não necessariamente iguais aos que compramos nas lojas. Mas, com imaginação, tudo pode servir ao lúdico e à fantasia, proporcionando oportunidades de novas aprendizagens, tanto para crianças quanto para adultos. Vamos brincar? comente este artigo: mediacao@colegiomedianeira.g12.br Marcos Eduardo Manente Chella é formado em Educação Física Licenciatura e Bacharelado - pela UP e pós-graduado em Educação Física Escolar pela PUCPR. É professor do Colégio Medianeira desde 2012, dando aulas para os 4º, 6º e 7º anos. recomendações Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar Autor: Lino de Macedo | Editora Art Med. Há 14 anos, os integrantes do Laboratório de Psicopedagogia (LaPp), do Instituto de Psicologia da USP, estudam e fazem pesquisas com jogos, visando contribuir para o professor aprender a utilizá-los como um importante instrumento em seu dia-a-dia. Este segundo livro de Lino de Macedo, Ana Lúcia Sícoli Petty e Norimar Christe Passos é um novo recurso valioso para professores que trabalham com oficinas de jogos no ensino fundamental, com vistas a facilitar o desenvolvimento da leitura e da escrita de seus alunos. Além disso, o trabalho com jogos proposto neste livro permitirá criar e gerir situações de aprendizagem mais condizentes com a diversidade e a tornar realidade a tão necessária avaliação formativa, porque faz da observação e da regulação uma nova e melhor forma de se atribuir valor e promover as produções de cada criança. Trata-se de um subsídio ricamente ilustrado que, assim como o Aprender com jogos e situações-problema, título anterior, será de grande ajuda para a qualificação do cotidiano pedagógico. O lúdico na vida e na escola Autor: Simei Santos Andrade |Editora Appris O lúdico na vida e na escola- desafios metodológicos’ é estudo que busca na ludicidade, mais especificamente no jogo de regras, suscitar referências metodológicas para utilização no contexto escolar deste recurso, enquanto mecanismo que favoreça o desenvolvimento integral do sujeito. Assim, trata-se nesta obra dos jogos vivenciados de forma espontânea pelos alunos, que brincam pela satisfação, pelo prazer que este ato traz às suas vidas e como os professores podem utilizá-los na sala de aula. Este livro se propõe a analisar as relações que se es elecem no jogo, que estão presentes no cotidiano de quem vivencia este ato. Procurou-se trabalhar com três categorias de análise - interação da criança com o jogo, o lúdico na visão dos educadores e o lúdico no contexto escolar - com ênfase no jogo de regras, que nortearam o desenvolvimento dessa pesquisa. mediação 5

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entrevista enlouquecer as CRIANÇAS PAREM de “Pais, professores, cuidadores e todos os adultos que estão em torno das crianças querem estimulá-las com brinquedos e brincadeiras que as deixarão ‘inteligentes’ e, para isso, criam ou utilizam coisas que piscam, que fazem sons, ou ainda criam agendas lotadas de atividades para as crianças durante a semana.” Entrevista com Paulo Fochi 6 mediação

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C rianças com agenda cheia de atividades, estimuladas por brinquedos multifunções, instadas a se tornarem consumidoras desde muito cedo. A realidade da infância vem sofrendo com a aceleração da vida e com o atropelo de etapas importantes da sua formação. “Como as crianças não têm sindicato, precisamos que alguém as defenda”, diz o professor Paulo Focchi, pedagogo, especialista e mestre em Educação, professor do curso de Pedagogia e Coordenador e professor do curso de especialização em Educação Infantil da Unisinos. Paulo Fochi é também Supervisor do projeto de Assessoramento técnico-pedagógico do MEC/UFRGS a 165 municípios do RS que aderiram ao Proinfância e consultor e formador de professores, atuando nacional e internacionalmente com os temas do currículo da Educação Infantil. Atua ainda no assessoramento a Redes Municipais de Ensino e a Escolas Infantis, em projetos especiais e no desenvolvimento de produtos e conteúdos para crianças. É autor do blog Catadores da Cultura Infantil (http://catadoresdaculturainfantil.blogspot.com.br/) e coordenador do OBECI – Observatório da Cultura Infantil. É com ele que Mediação conversa, a fim de entender melhor o ritmo da infância e o que a vida con- temporânea está fazendo com ele. Colaboraram Daniele Mari Stapassoli, Juliana Cristina Heleno e Libera Venturelli. Mediação – Em entrevista recente dada a um grande jornal do Paraná, você afirmou que “o grande desafio da Educação Infantil está em descobrir como é ser professor sem dar aula”. Que relações podemos estabelecer entre essa questão e a construção dos currículos da Educação Infantil? Há, no país, experiências que mereçam ser ressaltadas neste sentido? Paulo Fochi – Essa é uma pergunta importante e complexa. Complexa, pois trata de romper com uma matriz pedagógica que todos nós professores carregamos. Fomos alunos com adultos que nos deram aula, aprendemos nos cursos de pedagogia e outras licenciaturas a dar aula e temos a sensação de que a única forma de construir conhecimento ocorra desta forma. Importante, pois nos convoca a estar sintonizados com os atu- ais paradigmas da infância e do conhecimento. Hoje não temos mais verdades a serem reveladas para as crianças, sabe-se que o conhecimento não é linear, nem por fases evolutivas e contínuas. As novas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Res. 05/2009) nos convocam a pensar sobre a afirmação que fiz, “ser professor sem dar aula”. A ideia de currículo expressa nas Diretrizes compreende que o conjunto de práticas cotidianas, através das interações e das brincadeiras, seja a forma de articular os saberes das crianças com o patrimônio artístico, cultural, científico, histórico e ambiental. Aliás, a Educação Infantil precisa ser um espaço em que a construção do conhecimento ocorra de modo que o foco esteja em garantir que as perguntas das crianças permaneçam e, nos contextos ofertados a elas, possam ser experimentadas e construídas formas de dar sentido ao mundo. A provisoriedade do conhecimento e a idade das crianças que vivem a Educação Infantil justifica a importância de possibilitar a elas formas mais complexas, ricas e produtivas de articularem seus conhecimentos com aqueles que a humanidade já sistematizou. mediação 7

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De nada adianta tentar dizer às crianças que aprendam sobre números. A construção do conhecimento numérico poderá ser muito mais produtiva em uma atmosfera de trabalho que protagoniza as crianças e garanta que elas experimentem suas hipóteses sobre a construção deste saber. Não podemos esquecer que elas estão imersas em um mundo repleto de informações e, por isso, me parece então que o sentido da construção do conhecimento na educação infantil esteja em garantir que as experiências concretas da vida ganhem espaço e possam ser significadas de modos particulares. Quanto a experiências brasileiras, creio que nos últimos anos a Educação Infantil tem evoluído muito. Conheço instituições aqui no Rio Grande do Sul e em outros estados que estão buscando compreender o que é construir o currículo da infância. Mas esse não é um movimento rápido e fácil. Como disse, implica romper com uma matriz de trabalho fortemente enraizada em nossa história educativa. Mediação – Quais são as características, em sua opinião, de um processo educativo de qualidade quando se trata da Educação Infantil em tempo integral? Paulo Fochi – O primeiro, talvez, é compreender que a criança estará em tempo integral em uma instituição. Parece elementar, mas não é. Geralmente, as escolas se organizam em dois turnos de trabalhos totalmente distintos, interligados pelo período do almoço. Não compreendem a jornada da criança em uma instituição de vida coletiva que, independente da troca de profissionais ao longo deste período, precisa ser pensada na melhor forma das crianças viverem um dia na escola. E esse viver um dia na escola deve garantir que os percursos das crianças estejam regados pela proximidade de um adulto que está interessado em compreender a importante e profunda experiência que os meninos e meninas estão vivendo. Compreender que em uma escola de educação infantil acontece a Pedagogia dos Começos, da primeira vez, então, comer, dormir, estar e conviver com os amigos, sentir a chuva cair, descobrir um instrumento, pintar e sentir a tinta, experimentar uma nova refeição, são momentos da mais alta e séria aprendizagem de um sujeito; por isso, não há razão para ter pressa de viver essas atividades. Aliás, as crianças, por esta particular característica de estarem vivendo os começos, estão naturalmente repletas de atividades. Alerto, então, para as escolas que compreendem um quadro de horários cheio de atividades especializadas como oportunidade de qualidade, e lhes digo: não, isso não é qualidade. Se o tempo das crianças estiver pautado em atividades e profissionais que aparecem de 30 em 30 minutos, não é uma boa forma de organizar a jornada das crianças. Isso significa escolarizar as crianças e, por isso, é importante lembrar: educação infantil é diferente de ensino fundamental, por isso que esta etapa é chamada educação e não ensino. Mediação – Não sei se você concorda, mas temos vivido algumas questões curiosas da contemporaneidade, como adultos querendo voltar à adolescência mas cobrando maturidade dos adolescentes. Como a criança aparece nesse contexto? Paulo Fochi – A criança aparece sem chance de ser criança. Bebês não podem ser mais bebês, nascem cheios de deveres: devem caminhar antes, falar antes, ler antes... Quando responderem a todos esses deveres, os 8 mediação

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Mediação – Como você analisa o modo através do qual a mídia – programas infantis, publicidade – tem construído o infantil? Paulo Fochi – Na grande maioria, salvo raríssimas exceções, a mídia quer construir um consumidor de coisas desnecessárias e os programas e produtos infantis tratam as crianças como idiotas e incapazes de darem sentido ao mundo. Poderia falar dos programas e dos personagens da moda que hoje temos para o público infantil, mas seria tão óbvio dizer que são ruins e mesmos deixarão de ser importantes e, então, como crianças, já não terão tempo de crianças serem. Há quem diga que isso diz respeito aos modos contemporâneos de se viver, ou, de uma sociedade líquida, em que as fronteiras estão borradas e aquilo que as definia já não as define mais. Mesmo assim, defendo que os bebês tenham tempo de ser bebês, e tenham tempo de explorar o mundo como aquele que chega em um lugar desconhecido e quer sentir, cheirar, ver, perceber e compreender tudo o que lhe rodeia. Precisamos parar de acelerar as crianças para que cheguem mais cedo a algum lugar, lugar este que nunca se chega e sempre se mantém um sentimento de fracasso e dívida com o mundo. desnecessários, que prefiro falar de algumas produções de teatro infantil. Em geral, teatro para crianças é descritivo e ensina boas lições a esses que são os “bárbaros” da sociedade (é de bárbaro que vem o termo balbuciar, aqueles que não sabem falar a língua) e, por isso, precisam ser domesticados e adestrados para as regras sociais. Não é diferente em museus que, quando desejam abarcar o público infantil, instruem os mediadores a explicarem de forma simplista as obras. Parece-me que se construiu a ideia de que tudo que se refere “para crianças” deva ser descritivo. Acho tudo isso uma grande besteira. As crianças são complexas e muito abertas a perceberem o seu entorno. A descrição simplificada que esses meios tentam fazer é uma forma de- vastadora de acabar com a potente forma que as crianças têm para interpretar o mundo. Em todos esses anos que tenho trabalhado com crianças, quase 15 anos, as histórias e opiniões que elas dão sobre o cotidiano são sempre repletas de profundezas. Não há banalidade, ao contrário, existe uma profundidade que muitas vezes não somos capazes de compreender. Então, respondendo a sua questão, esses programas querem construir crianças bobas e que consumam seus produtos fúteis. Mediação – O psicanalista Contardo Calligaris, em sua coluna de 21 de novembro de 2013 para o jornal Folha de São Paulo, defendeu o tédio como sendo um sentimento importante para a construção de uma vida inte- mediação 9

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Há 14 anos, tendo como objetivo oportunizar uma experiência conjunta baseada na troca constante de vivências e experiências do cotidiano entre instituições de ensino, o Colégio Medianeira deu vida ao Projeto Parcerias, que conta hoje com onze instituições participantes: Acrica, Casa dos Girassóis, Estrelinha Encantada, Evolutiva, Interpares, Medianeira, Novo Educandário, Objetiva, Pedro Apóstolo, Projeção, Reciclepel e Tiuí. O Projeto Parcerias acredita que a educação não é meramente um produto, cuja venda segue a lei implacável e avassaladora do mercado, mas que os colégios são importantes instrumentos de transformação social dentro de sua abrangência, buscando a formação de pessoas verdadeiramente humanas e de uma sociedade mais justa. Conheça mais em www.projetoparcerias.com.br e torne-se uma instituição parceira. 10 mediação

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Nos últimos 6 meses, revistas e jornais tem me procurado para falar sobre estimulação; paradoxalmente, isso me estimula a dizer: parem de enlouquecer as crianças. Sim, é isso mesmo que ando percebendo por aí afora. Pais, professores, cuidadores e todos os adultos que estão em torno das crianças querem estimulá-las rior, um convite à autorreflexão. Gostaria que você comentasse essa afirmação pensando no excesso de estímulos destinados às crianças. Paulo Fochi – Prefiro pensar que sou a favor de outra dimensão do tempo do que afirmar que defendo o tédio. Soa pejorativa a palavra tédio quando o que mais acredito é que ter tempo para o tempo seja algo tão belo e grandioso, embora eu entenda a ideia que Calligaris compartilha. Tédio é viver sem tempo para se perceber no mundo, isso é entediante. As crianças funcionam em uma dimensão de tempo que não cabe nos ponteiros do relógio, a filosofia chama isso de aion. Foi compreendendo esta dimensão de tempo das crianças que comecei a questionar a razão dos discursos que defendem a estimulação das crianças. com brinquedos e brincadeiras que as deixarão “inteligentes” e, para isso, criam ou utilizam coisas que piscam, que fazem sons, ou ainda criam agendas semana. O melhor estímulo que nós, adultos, podemos dar às crianças é o direito de serem felizes, de terem tempo para empreender suas energias somente nas coisas que lhes interessam. As crianças estão dizendo: não aguentamos mais e, como as crianças não têm sindicato, precisamos que alguém as defenda. Pais e professores, não se preocupem em preencher o tempo das crianças, voltem suas preocupações para garantir que as atividades que as crianças desejam fazer tenham tempo de serem feitas. Mediação – Toda a brincadeira, é claro, estimula. Qual a função da brincadeira para o universo infantil? Você conseguiria lotadas de atividades para as crianças durante a ver uma diferença entre cuidar, brincar e educar? Paulo Fochi – Depende, o que entendes por estimulação? Acho que a brincadeira que as crianças criam para experimentar papéis, ficcionar um universo, não necessariamente são estímulos, mas oportunidades de criar sentidos sobre si, sobre os outros e sobre o mundo. Brincar é uma atividade vital para e das crianças. Elas organizam o seu entorno e revivem o prazer do já sabido ao brincar. A brincadeira torna-se uma linguagem das crianças, com a qual comunicam e compreendem o mundo. Assim, acredito que cuidar, brincar e educar somam-se de tal forma que se torna impossível diferenciá-los. Não existe forma de educar sem cuidado e, da mesma forma, cuidar sem educar. São indissociáveis e, por falar em cuidar e educar, acredito que a melhor forma de educar para o cuidado e cuidar para educar resida em criarmos uma cultura que preste mais atenção nas crianças e nos seus sonhos e desejos de serem felizes. comente esta entrevista mediacao@colegiomedianeira.g12.br mediação 11

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Um corpo mais flexível é capaz de realizar movimentos do dia a dia com mais facilidade, como, por exemplo, juntar as chaves que caíram no chão ou a simplicidade de trocar uma lâmpada. Tudo bem. Mas como conseguir um corpo mais flexível, afinal? É relativamente simples: com alongamento. Descubra neste artigo os benefícios que o alongamento diário traz para sua vida. Por Lívia Gasparotto; Eliane Denise Bacil; Malu Cristina Lima; Jarbas Melo Filho; Simone Cunha; Anna Raquel Silveira Gomes 12 mediação alongar para quê? artigo

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alongamento é um exercício cujos efeitos, há tempos, são discutidos de maneira conflituosa. Questionamentos sobre a forma de fazer, a duração, a intensidade, tudo isso é abordado em revistas e reportagens, ora indicando a atividade a todo e qualquer momento, ora restringindo-a, algumas vezes até referindo-a como destrutiva. Então, o que pensar realmente sobre isso? Aprendemos desde criança, nas aulas de Educação Física, alguns movimentos para executar quando vamos praticar algum esporte. Qualquer pessoa sabe fazer um movimento para exemplificar um tipo de alongamento, isso não é problema. A questão que se pretende discutir nesta matéria é de que forma o alongamento deve ser feito para que se tenha realmente um efeito benéfico e quando devemos realizá-lo. É impossível imaginar que alguém já não tenha utilizado minutos ou horas de sua vida para fazer o tal “alongamento”. É com base nesta certeza que responderemos algumas dúvidas e traremos dicas para que, quando cada leitor deparar-se novamente com esse momento, que se faça de maneira benéfica e que se promovam, de fato, efeitos positivos para o corpo! Vai alongar? Então preste atenção: O que é o alongamento? O alongamento é como se fosse a “técnica” ou o “exercício” para se atingir a flexibilidade. A flexibilidade representa o movimento amplo, o máximo que cada parte do corpo pode esticar. O problema é que esses movimentos podem ficar reduzidos, em alguns casos até se perderem. É para evitar isso que o alongamento acaba sendo tão importante. Alongar faz bem pra quê? O alongamento, como já dito acima, contribui para mantermos uma boa flexibilidade. Ela é importante para que consigamos executar com facilidade e leveza todos os movimentos que o corpo faz no dia a dia. Já pensou não conseguir esticar o braço pra alcançar um objeto no alto? Ou então, ter dificuldade pra alcançar o cadarço do tênis quando se senta para amarrá-lo? Pois bem, a falta do alongamento pode gerar situações extremas como essa e o que parece ser tão simples de se fazer, pode virar uma tarefa dolorida. E dor é uma sensação muito presente em pessoas pouco flexíveis. Um artigo escrito na Finlândia pelo grupo de Mikkelsson et al (2006), por exemplo, examinou se a flexibilidade e a atividade física feita pelos adolescentes teriam relação com a ocorrência de dor na coluna lombar, dor no pescoço e lesão no joelho na vida adulta. Os pesquisadores concluíram que a boa flexibilidade do adolescente pode contribuir para reduzir o aparecimento de dor no pescoço no futuro, que a atividade física realizada na adolescência contribui para redução de dor na coluna lombar na idade adulta e que existiu um risco, aumentado, de lesão nos joelhos de homens com atividade física fora do horário escolar. Em resumo, o estudo nos mediação 13

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