Educação em Revista oitava edição

 

Embed or link this publication

Description

Revista de educação da Regional 7 do SEPE

Popular Pages


p. 1



[close]

p. 2

4 Alunos com problemas de aprendizagem ou portadores de necessidades especiais são excluídos da rede pública! Quando o problema de saúde dos alunos provoca doenças nos educadores Depoimento de profissionais de escolas 6 SME fecha turmas de educação especial, exclui alunos e turmas e provoca mais confusão em escolas 7 8 9 Comportamento e aprendizagem 12 16 Violência nas escolas gera doenças em profissionais 20 Avaliação Meritocrática! A quem serve? 23 Por que parar? Porta de saída das verbas públicas... 24 Uma fortuna despejada em provas copiadas de livros, mal planejadas e cheias de erros 25 O sequestro da avaliação 27 26 Testes padronizados desmoralizados nos Estados Unidos Sob orientação do Banco Mundial, Brasil copia política que destruiu a educação americana! 30 28 31 33 34 Movimento contra testes EUA Professor não pode ser obrigado a aplicar provas externas! Quero o direito de elaborar minha avaliação! 32 Plano de metas e prova externa não é parte da proposta pedagógica elaborada pelas escolas Tentar obrigar o professor a aplicar provas ou testes padronizados é assédio moral! A corrupção e as fraudes passam a ser parte da nova concepção educacional Não à reestruturação das escolas da rede municipal 36 02

[close]

p. 3

Editorial Educação: pouco investimento, grande negócio! Sem dúvida essa é a pior gestão que já tivemos na prefeitura ou no governo do estado do Rio de Janeiro. Nunca tantos privatizaram tanto em tão pouco tempo. A gestão do empresariado, dos mega escândalos com dinheiro público. Em se tratando de educação podemos afirmar que não é diferente. Paes e Cabral conseguiram privatizar grande parte das verbas públicas destinadas a educação. Nada pode justificar o que esses governos têm investido em fundações, Ongs e empresas privadas. Mas em nossas escolas alunos e profissionais padecem com a falta de condições e de saúde para ensinar ou aprender. Escolas fechadas, falta de atendimento a alunos especiais ou alunos com dificuldade em aprendizagem. Promovem um verdadeiro apatheid educacional com sua política de exclusão. Varrem para debaixo do tapete aqueles alunos que mais necessitam de atendimento. Escondem essas crianças em projetos para que não participem dos testes padronizados e não estraguem os índices da prefeitura. Tudo gira em torno do grande negócio que transformaram a educação. Provas, que além de significarem mais gastos do dinheiro da educação, promovem a maior quebra na autonomia dos profissionais. "Não consigo mais elaborar ou aplicar minhas provas. Com tanta prova da prefeitura para aplicar, ou faço uma coisa ou outra", diz uma professora cansada de tanto autoritarismo. Por trás dessas provas a política de bônus que pretende substituir a política salarial dos governos. Responsabilizam o profissional ou os próprios alunos por seus mal feitos na educação. Fruto da greve na rede municipal de 2013 a queda da economista secretária de educação não representou que a política de Paes tenha caído. Mas enquanto houver luta a meritocracia das gestões de Paes e agora Pezão treme em seu pilar. É com trabalhador nas ruas que conquistamos vitórias. E esse será mais um ano de rua para a educação dessa cidade que sente o gosto amargo com os gastos dos mega empreendimentos esportivos. Não passarão! http://regional7.wordpress.com 03

[close]

p. 4

Alunos com problemas de aprendizagem ou portadores de necessidades especiais são excluídos da rede pública! Ao entrar em uma escola pública já não é mais preciso ser um especialista ou médico para perceber que muitos de nossos alunos precisam de algum tipo de acompanhamento profissional no ramo da psicologia, psiquiatria, fonoaudiologia, neurologia ou da assistência social. É patente em muitos alunos a necessidade da ajuda profissional. Também é claro que nossos profissionais não conseguem diagnosticar os casos e muito menos oferecer o auxílio necessário. E por mais que as escolas apresentem às CREs os casos mais graves, a prefeitura insiste em ignorar veementemente as necessidades desses alunos. Insistem em excluí-los! Insistem que o problema é do professor. Apartheid educacional Muitas são as dificuldades vividas por esses alunos que são excluídos do processo ensino/aprendizagem. Os inúmeros relatórios elaborados por professores e unidades escolares acumulam-se nas Cres. Profissionais que sinalizam a necessidade de avaliação de alunos que precisam de alguma ajuda. Porém, estes registros ficam relegados à seleção de um ou outro caso que mereça alguma atenção por parte da prefeitura. E em sua grande maioria os testes feitos por estes profissionais das CREs não detectam nenhum “ problema” no aluno. Porém, muitos são os casos de alunos que chegam a adolescência sem terem sido alfabetizados e alguns chegam a ser classificados pelos órgãos governamentais após longos anos de dificuldades escolares . A ausência de atendimento, ausência ou perda de pai ou mãe, contato direto com a violência em casa ou na comunidade, doenças e transtornos não detectados, falta de interesse do governo resumem a exclusão de inúmeros alunos na rede pública! A necessidade da presença em nossas escolas de profissionais como psicólogos, fonoaudiólogos e assistentes sociais, é tão fundamental quanto a presença do próprio professor. 04

[close]

p. 5

Problemas psicológicos ou psiquiátricos: TDAH, depressão, hiperatividade, dislexia e muitos outros passam longe da atenção da SME! Abandono de alunos Qualquer professor com um pouco de experiência em sala de aula conhece bem o que acontece com o aluno que não consegue acompanhar os conteúdos trabalhados na aula. Ele é, potencialmente, um aluno com problemas comportamentais. Muitos têm dificuldades em se relacionar com outros colegas ou podem mesmo tender à agressividade. Seu comportamento pode ser decorrente da revolta pela incapacidade em acompanhar o que o professor ensina. E nem sempre apenas a baixa autoestima explica o problema. Muitos desses alunos precisam de ajuda profissional. E não será apenas com uma conversa ou com reclamações aos seus responsáveis que eles poderão apresentar melhorias no seu desenvolvimento escolar. Não há inclusão com abandono! Com a “nova versão” do governo sobre a inclusão como sendo apenas a inserção mecânica do alunos com necessidades especiais em sala de aula convencional, a situação destas crianças é cada dia pior. “Despejar “alunos com necessidades especiais em salas tradicionais NÃO É INCLUSÃO! E é isso que os governos promovem. O quadro é de absoluto abandono e descaso com alunos que necessitam de cuidados especiais. “Incluídos” em turmas regulares sem o devido acompanhamento específico, esses alunos costumam ter prejuízos enormes em seu desenvolvimento. Uma parte é “seguida” por estagiários que não fazem ideia de como lidar com o aluno e nem o que fazer para beneficiá-lo. Para outros, sequer foi detectado qual é o problema que o aflige. Projetos: o caminho mais curto para o analfabetismo funcional Apesar da exclusão como política de governo, a exclusão oficial só acontece quando o aluno é remetido a algum projeto. Os projetos criados por Paes não apenas servem para escoamentos de verbas públicas à iniciativa privada. Eles servem como esconderijo de alunos reprovados. Para varrer para de baixo do tapete os alunos que arrastaram dificuldades por toda a sua vida escolar e não permitir que estes alunos façam as provas padronizadas, para não “estragarem” os índices estatísticos. 05 No meio de tanto “transtorno”, fica o professor que precisa atender a todos. Muitas vezes turmas com 30, 40 ou mais alunos, sem ter na prática, nem a redução no quantitativo de sua turma.

[close]

p. 6

SME fecha turmas de educação especial, exclui alunos e turmas e provoca mais confusão em escolas Desde o início de sua gestão, Paes e sua secretária promovem a política de exclusão e eliminação dos direitos dos alunos portadores de necessidades especiais. Com direitos garantidos na constituição e LDB, esses alunos têm sido vítimas do descaso e preconceito do governo. Alunos são “depositados” em salas de aula com superlotação e sem nenhum atendimento especial Turmas superlotadas, presença de alunos com problemas graves de aprendizagem, desvios psíquicos ou neurológicos e sem atendimento específico, já não são problemas suficientes para a prefeitura. Desde o início, Paes e Costin trabalharam no sentido de reduzir gastos, fechar escolas e turmas e promovem a maior exclusão já vista em nossa história. Só em 2010, a prefeitura fechou 120 salas que atendiam a estudantes portadores de necessidades especiais. A política perversa de Paes e Costin não parou por aí. Fecharam escolas inteiras, removeram os alunos para as turmas regulares, ao mesmo tempo em que os abandonou a própria sorte deixando milhares sem nenhum tipo de atendimento especial. Contratação de psicólogos e orientadores educacionais para trabalhar com os alunos com dificuldade em aprendizagem e com possível envolvimento com drogas! Atendimento especializado a portadores de deficiência! 06 Alunos especiais em turmas de mais de 25 alunos, sem atendimento específico exclui turmas inteiras Com a turma já superlotada e sem formação específica, o professor é obrigado a endossar a política de exclusão do prefeito. A presença de alunos portadores de necessidades especiais em turmas superlotadas ajudou a aumentar a confusão nas salas de aula. Sem poder dar atendimento a este aluno, o professor acaba sem condições sequer de dar sequência ao trabalho com o restante de sua turma. A exclusão criada por Paes e Costin não atinge somente o aluno portador de necessidades especiais, mas a toda a turma onde exista essa situação. Uma carta de leitor publicada pelo Jornal O Globo demonstra bem o descaso do governo com a educação especial. Em pleno mês de abril o ano ainda não havia iniciado para a criança com Síndrome de Down. Carta de leitores do O Globo de Domingo dia 06/04/2014

[close]

p. 7

Sem atenção da prefeitura, os alunos com dificuldades de aprendizagem em função de algum transtorno, déficit ou problema social, levam a piora nas condições de ensino e aprendizagem. Quando o problema de saúde dos alunos provoca doenças nos educadores As gestões de Paes e Cláudia Costin a frente da Educação trouxeram para os profissionais mais um problema em suas condições de trabalho. Alunos que não conseguem aprender são aprovados de forma automática até serem jogados nas chamadas turmas de projetos. Essas crianças e jovens passam a fazer parte de um exército de “incapazes” e são excluídos dos provões que geram avaliação das escolas. Dessa forma é criado um grande hiato entre os alunos das ditas turmas “normais” e aqueles que participam desses projetos. Não precisa dizer que esses alunos são profundamente discriminados e longe de terem uma assistência especial, são esquecidos pela SME. O que ocorre é que o tal “Projeto” não passa de uma forma de excluir os alunos com deficiência de aprendizagem e ao mesmo tempo repassar verbas para fundações privadas. Dentro dele estão garantidos também a aprovação automática e o expurgo acelerado desse aluno da rede pública de ensino. Problemas comportamentais dentro de projetos As turmas de projetos não contam com nenhuma assistência especial. Elas são entregues de forma aleatória a professores que assumem essas turmas sem nenhum aporte significativo por parte do poder público. Desta forma passam a ser os “lixões” da escola. Muitas vezes usados pela direção da escola para punir professores “inconvenientes” a sua gestão. Também não é nenhuma surpresa que esses alunos venham a apresentar problemas comportamentais. Se um aluno com dificuldades em aprender pode representar um grande problema em uma turma, o que dizer de vários alunos com deficiência na aprendizagem em uma só turma? Foram diversos casos de surtos de profissionais que saíram direto da sala de aula para a biometria. Agressão a profissionais e alunos... Enfim, o problema de saúde de alunos que deveria ser resolvidos pelo governo, vem diretamente para as mãos de profissionais como se apontando que o educador é que precisa ter competência para resolvê-lo. A incapacidade da família em oferecer acompanhamento profissional Não adianta cobrar apenas do responsável que resolva os problemas que apresentam nossos alunos. A sua grande maioria não consegue ajuda profissional na saúde pública. E com a crescente proliferação de 07 alunos que necessitam de algum tipo de assistência, nem mesmo as organizações dentro das comunidades que recebem verbas públicas para tal assistência, respondem a essa necessidade.

[close]

p. 8

Depoimento de profissionais de escolas que preferiram não se identificar, demonstra o caos vivido em sala de aula Muitos profissionais têm vivenciado de perto esta situação. E muitas vezes além dos alunos especiais sem nenhum tipo de atendimento, também possuem nas mesmas condições alunos que sequer foram classificados ou atendidos pelo poder público. Tenho um aluno especial “Ele chegou em minha sala e não havia nada que pudesse fazer. Era inquieto. Quase não falava. Ele não me entendia e eu não entendia o que ele tentava dizer. Não parava em lugar nenhum. Somente depois que a mãe fez uma reclamação na CRE é que eles enviaram um estagiário para acompanhá-lo. O estagiário cursava administração na faculdade e não fazia ideia do que precisava ser feito com aquela criança. Ficava todo o tempo correndo atrás dele e tentando evitar que ele se machucasse ou que por acidente machucasse outras crianças. O pobre do estagiário vivia ofegante pois o aluno corria todo o tempo. Não via no que isso ajudava no desenvolvimento daquela criança. Acho que é apenas uma grande enrolação o que fazem com estas crianças. A inclusão de fato não existe.” KVM, professora da rede municipal do Rio de Janeiro há 16 anos “Muitos alunos que passaram por mim representavam riscos a outros colegas ou a si próprio. Por mais que conversasse com a mãe, ela não conseguia resolver o problema. Acho que a deficiência no desenvolvimento desses alunos é muito maior do que apenas falta de educação, mas antes um problema de saúde.” CF é professora da rede municipal há 25 anos “Tive uma aluna com suspeita de mutismo seletivo que foi considerada pela equipe da CRE apenas como “muito tímida”. Essa criança sofreu longos anos de angustia por não conseguir aprender. No início de sua adolescência a equipe de avaliação da CRE a considerou portadora de alguma deficiência e a encaminhou para acompanhamento na sala de recursos. Ela ainda não sabia ler. Criminoso o que fazem com esses alunos. “ EF é professora da rede municipal há 34 anos “Tenho alunos que inviabilizam meu trabalho. No dia em que eles faltam consigo trabalhar melhor. É muito triste, mas essa realidade é vivida por inúmeros colegas.” MG é professora da rede municipal há 10 anos. “A falta de profissionais na escola dificulta ainda mais o nosso trabalho. Já tive alunos que não paravam em sala de aula e eu tinha que parar a aula todo o tempo para buscá-los. Quando estavam em sala tinha que dedicar grande parte de minha atenção a eles. É impossível trabalhar assim! Esses alunos certamente tinham muitos problemas que apesar dos inúmeros relatórios que eu e a escola fizemos para a CRE, ninguém veio fazer nenhuma avaliação dessas crianças.” VGR é professora da rede municipal há 30 anos Alunos arrastam problemas de aprendizagem ou transtornos por anos e vão parar em turmas de projetos, onde continuam sua saga de exclusão. 08

[close]

p. 9

Quem atua como educador certamente já se perguntou; “Esse aluno é normal”? Crianças com alterações em áreas do desenvolvimento como comportamento e aprendizagem são dúvidas constantes de pais ou professores sobre a origem do problema. Se há relação com o desenvolvimento e por isso tem caráter transitório, se decorre de fa- tores emocionais ou motivacionais ou se associam a um quadro orgânico que compromete funções cerebrais importantes para as relações acadêmicas e sociais da criança. A resposta a estas dúvidas nem sempre é uma tarefa fácil. Principalmente em se tratando de crianças que estudam nas escolas públicas, que pertencem à família de baixo nível social e que não consiga atendimento pela via pública. Qual professor que nunca identificou na sua turma um ou outro aluno com alguma dificuldade para ser alfabetizado ou assimilar conteúdos? Esse tipo de situação é mais comum do que muitos imaginam e pode indicar um transtorno chamado dislexia. Segundo a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), entre 05% e 17% da população mundial apresenta o problema. Ele é causado por um fator neurológico que altera a forma de transmissão de informações dentro do cérebro e causa deficiência na capacidade de leitura e escrita. Segundo Silvia Amaral de Mello Pinto, psicopedagoga de São Paulo, especializada em diagnosticar e tratar dislexia, por ser o professor quem acompanha todo o processo de alfabetização - fase em que os sintomas tornam-se mais apa- rentes - é importante que ele entenda o distúrbio para auxiliar o diagnóstico. "Muitas escolas não consideram a dislexia de forma efetiva, mas as estatísticas apresentadas em pesquisas mostram que é provável haver alunos disléxicos em várias delas, sem muitas vezes serem diagnosticados", explica Silvia. Em conversa com o Guia Prático, ela falou os sintomas e os diagnósticos. Sintomas Diagnóstico Silvia Pinto alerta que o diagnóstico da dislexia deve ser feito por uma equipe multidisciplinar, composta por um psicopedagogo, um fonoaudiólogo, um psicólogo e um médico neurologista. "O diagnóstico é feito por exclusão. Quando a criança não tem outros transtornos neurológicos ou emocionais, tem inteligência normal (QI) e, mesmo assim, apresenta dificuldades de leitura e escrita, ela pode ser disléxica." Mas, para Silvia, o início da alfabetização não é o melhor momento para indicar o problema. "Nesta fase, espelhar ou trocar letras e ler com dificuldade é normal, porque ela ainda está aprendendo. Se dois anos depois de alfabetizada a criança ainda lê e escreve com dificuldade, então é melhor encaminhá-la a especialistas", alerta. 09

[close]

p. 10

Tratamento A dislexia não tem cura e a pessoa terá sempre dificuldades para absorver conteúdos. Porém, o tratamento com um psicopedagogo e com um fonoaudiólogo diminui consideravelmente os sintomas, fazendo com que a pessoa assimile e aprenda. O trabalho é feito com exercícios de leitura e escrita, de acordo com cada caso... Fonte: Blog Fonoaudióloga Tatiani Rossini CRFa./SC 8937 FONO AO DIÁLOGO: UM ESPAÇO ABERTO ÀS TROCAS! http://tatianirossinifono.blogspot.com.br/2013/02/dislexia-entenda-esse-transtorno-e.html Transtornos do comportamento e do desenvolvimento Entenda a diferença entre eles A inclusão de crianças com necessidades especiais em escolas regulares já é uma realidade para muitas educadoras. Enquanto instituições escolares procuram se reestruturar, elas buscam informações, a fim de melhor acolherem os novos alunos. O psicólogo José Raimundo Facion*, pró diretor acadêmico do Instituo Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão (IBPEX), leva sua contribuição para esses profissionais com o lançamento do livro "Transtornos do Desenvolvimento e do Comportamento", pela Editora IBPEX. "Como o Brasil está avançando em comparação a outros países no que tange à inclusão, as professoras acabam se deparando com crianças com problemas de desenvolvimento ou de comportamento e, embora não devam ser responsabilizadas pelo diagnóstico, precisam estar aptas a fazerem o devido encaminhamento", explica José Raimundo. Em seu livro, ele descreve quais são os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID) e os Transtornos de Comportamento Disruptivo (TCD), apontando os principais sintomas e indicando também tratamentos clínicos e pedagógicos. Em entrevista ao Guia Prático, ele dá uma prévia desse conteúdo. Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID) Pessoas que apresentam graves prejuízos nas áreas do desenvolvimento e têm comportamentos que tornam difíceis as relações pessoais. Transtorno autista: pode apresentar muitos sintomas, e os mais comuns são dificuldade para se relacionar com outra crianças, resistência ao contato físico e visual, movimentos estereotipados, entre outros. Transtorno de Rett: ocorre apenas em meninas e uma das características é o retardamento mental grave. Transtorno de Asperger: 10% das crianças com Asperger têm inteligência acima da normalidade, podendo aprender a falar até mais cedo que uma criança normal ou, com menos de cinco anos, fazer contas matemáticas bastante complexas. Por outro lado, apresentam um grave comprometimento na interação social. Transtorno desintegrativo da 10 infância: a criança apresenta um desenvolvimento normal até os dois anos de idade, quando começa a perder habilidades motoras, de linguagem e a assumir padrões repetitivos de comportamento. Transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação: quando há suspeitas de que a criança tem transtorno invasivo, mas os critérios não são exatamente claros.

[close]

p. 11

Transtornos de Comportamento Disruptivo (TCD) Nas escolas, podemos encontrar um outro contingente de crianças, que são aquelas que apresentam Transtornos de Comportamento Disruptivo. Este afetam, não só o indivíduo, como também os que vivem aos seus redor. Conheça os dois mais comuns: Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH): A criança com TDAH é aquela que costuma tirar nota mínima necessária nas provas. Ela não faz esforço intelectual. As características são falta de concentração, insatisfação e impulsividade. "A criança hiperativa sente como se fosse uma pulguinha dentro dela, que a deixa irrequieta", exemplifica José Raimundo. Em seu livro, ele reforça ser fundamental que a professora de um aluno com TDAH elabore um planejamento pedagógico que atenda às necessidades dele. Transtorno de Conduta (TC): A diferença entre crianças com TC e crianças com TDAH está na intencionalidade. Nos transtornos de conduta há a intenção do mau comportamento. A criança é agressiva e costuma violar regras. Inclusão Questionado sobre a matrícula de crianças com transtornos do desenvolvimento em escolas regulares, José Raimundo afirma ser pró-inclusão. "Mas não é só colocar uma criança com alguma deficiência dentro da sala de aula", enfatiza. Segundo ele, a medida demanda um conjunto de providências. A professora que recebe, por exemplo, um aluno autista vai precisar de uma acompanhante pedagógica, porque ele pode apresentar crises durante as aulas e alguém precisa estar inteiramente disponível para acolhê-lo. *José Raimundo Facion é formado em psicologia, doutor pelo Departamento de Psiquiatria Infantil e pósdoutor pelo Departamento de Neuropediatria da Universidade de Münster - Alemanha, onde fez também seu 2º pós-doutorado no Instituto de Pesquisa sobre o autismo. 11

[close]

p. 12

Nádia de Souza, professora da rede municipal do Rio de Janeiro foi obrigada a se aposentar em função de transtorno desenvolvido em sala de aula. Aposentada pela violência ela fala à Educação em Revista sobre o problema. Educação em Revista - Fale um pouco do trabalho que você desenvolveu nos 23 anos em sala de aula? Nádia - Lecionava história no Município e sociologia no estado. Minha prática escolar sempre foi como mediadora, acredito que o aluno é construtor do seu próprio conhecimento. Meu papel como professora era sempre buscar alternativas de aprendizagem para tornar minha aula mais atraente e minha matéria apaixonante também para o meu aluno , despertando nele o interesse por aprender, não apenas para obter a nota e passar de ano, mas, principalmente, pelo prazer de aprender, pela satisfação de saber, dominar, conhecer aquele assunto. Por isso sempre trabalhei explorando a criatividade dos meus alunos. Minhas aulas também tinham momentos de produção do aluno. Produção que ia desde a textual até a artística. Por ser escritora e artista plástica, sempre envolvi minhas aulas com as artes. Sempre buscando as mais diversas manifestações artísticas: teatro, cinema, música, pintura, literatura. A cada ano, criava ( envolvendo outras matérias e professores) projetos temáticos: centenários de personalidades, datas comemorativas, cujo resultado final sempre eram uma produção artística por parte dos alunos . Isso ajudou a muitos a desenvolver e descobrir suas aptidões. Para citar exemplos: Por ocasião do 500 anos do Brasil, participei dum projeto, com os meus alunos, de História do Brasil em Quadrinhos. Criei uma equipe de roteiristas e desenhistas. Ganhamos o concurso com uma revista em quadrinhas intitulada No Principio... E nós construímos o Brasil. A revista fez tento sucesso que desenvolvemos o 2º número O Despertar da Consciência. Mas o melhor de tudo isso é que um dos meninos que desenhava tinha 15 anos era da 5ª série. Não queria nada com os estudos, ficava dormindo em sala de aula. Os colegas diziam que ele estava se envolvendo com gente do “movimento”. Percebi, pelos seus cadernos que ele desenhava muito bem, chamei- o para participar da equipe. 12 Ele disse não. Não desisti. Convidei-o para assistir uma palestra que eu ia dar para os alunos intitulada A História da história em quadrinhos. Falei sobre a história em quadrinhos desde 1848 até os nossos dias, lei várias imagens de quadrinhos de todas as épocas. falei dos comics, falei porque os heróis antes tinha capa depois perderam suas capas. Falei de como começou os balões com a fala dos personagens. Ganhei o menino. Ele entrou pra equipe, criou um papagaio, personagem narrador da história. Nosso trabalho foi apresentado no programa "Nós da Escola" da MultiRio. Ganhamos o prémio. Ele, o menino, se afastou do "movimento", começou a namorar firme uma menina da escola, entrou num curso de desenho e hoje é web designer. Dois outros alunos que faziam teatro comigo - montei um grupo de teatro na escola - hoje, estão no teatro profissional. Um aluno que ganhou o prémio Comdedine 2004 com um documentário de 13 min sobre Abdias no Nascimento; foi estudar cinema. Esse é meu trabalho, melhor, era, despertar nos meus alunos suas aptidões. Ajudá-los a irem em busca dos seus sonhos.

[close]

p. 13

Educação em Revista - Explique o tipo de doença que você desenvolveu? Nádia - Eu desenvolvi a Síndrome de Transtorno de Estresse Pós-traumático. De acordo com os médicos, é uma doença que acomete vítimas de guerra. Os sintomas físicos eram: taquicardia, dor no peito, falta de ar suor frio, náusea, tonteira. Tinha períodos longos de insônia seguidos de dias em que eu dormia o dia inteiro, não queria sair da cama pra nada, nem pra tomar banho. . Os emocionais eram um medo mórbido de tudo. Medo de sair de casa, de barulho, medo das pessoas, medo da noite. Surtava no metrô, dentro do supermercado. Era terrível, eu vivia em pânico constantemente. A sensação era de que eu estava correndo perigo e a qualquer momento alguém ia me atacar. Quando chegava alguém em minha casa eu queria correr e, literalmente, me esconder debaixo da cama. Educação em Revista - Como tudo aconteceu? Nádia -No início de 2009, me transferi para a escola Deodoro, situada no bairro da Glória para ficar mais perto de casa. E já, na primeira semana de aula, comecei a ter problemas com os alunos. Num dia, quando fiquei com um grupo de alunos que se negavam a copiar o exercício do quadro, um aluno do 6º ano (antiga 5ª série) disse que ia falar sobre mim com o pai dele que o pai dele era bandido e viria à escola acertar as contas comigo. Em março/abril do mesmo ano um aluno no 8º ano invadiu a minha sala para bater num outro aluno do 6º ano e eu fiquei entre eles impedindo a agressão. Ele disse que eu tomasse cuidado, pois ele estava armado, quando lhe perguntei onde estava a arma, ele sacudiu a genitália pra mim, dizendo “ a arma tá aqui, pra vc”. No dia seguinte, na porta da escola, encontrei com o mesmo aluno e aproveitei a presença da diretora adjunta, pedi informações sobre o aluno – eu não o conhecia- e fiz queixa à adjunta. O aluno saiu dizendo que eu “ia ver só, que ele ia me entregar ao ‘movimento’”. Ainda nesse mês o irmão menor desse aluno, por três vezes, num mesmo dia, bateu a porta da sala nas minhas costas. A escola é antiga e as portas são duplas e de madeira maciça. Esse caso da agressão às minhas costas foi registrado no livro de ocorrência da escola. Trabalhei a semana inteira com fortes dores, pois tenho artrose na coluna. Um outro aluno, do 9º ano que se ocupava em perambular pela escola, e nunca entrava em sala de aula, numa outra ocasião, invadiu a minha sala para bater nos alunos pequenos, mais uma vez interferi, e ele, com o dedo na minha cara, disse que eu era muito abusada, 13 “ Um aluno, de 15 anos e ainda no 6º ano (5ª série), quando eu solicitei que parasse com a guerra de laranjas no refeitório e pátio ele disse que eu não mandava nele, que eu não passava de uma ‘ninguém’ e que eu aguardasse que eu saberia quem ele era, era só aguardar, saiu colocando a mão na minha cara e dizendo: “espera”. que eu ia me dar mal, que meus dias estavam contados. Que eu estava ‘pedida’. Um aluno, de 15 anos e ainda no 6º ano (5ª série), quando eu solicitei que parasse com a guerra de laranjas no refeitório e pátio ele disse que eu não mandava nele, que eu não passava de uma ‘ninguém’ e que eu aguardasse que eu saberia quem ele era, era só aguardar, saiu colocando a mão na minha cara e dizendo: “espera”. Nesse mesmo dia esse aluno arremessou uma mesa e uma cadeira do terceiro andar ao hall do primeiro andar, onde eu me encontrava acompanhada de outra professora, professora Ethel. Fiz um relatório desse incidente à direção, que assinou recebimento e, simplesmente, o colocou na gaveta. Num outro momento um aluno meu, perturbando a aula e não querendo assistir, saiu de sala chutando as cadeiras e falando palavrão, quando eu disse pra ele que poderia sair, pois não fazia questão de mal educado em minha aula. Ele voltando-se disse: ‘e se eu não sair quem vai me tirar?” Disse a ele que seria eu ou ele em sala de aula, ele me respondeu, “chame a policia , é 190”. Eu liguei para o 190 e o policial que veio , conversou com o aluno. Desde esse dia a senhora diretora da E.M. Deodoro, Terezinha Rosário, começou a me tratar mal. “

[close]

p. 14

“ O aluno que jogou a cadeira e mesa do terceiro andar, espalhou pela escola que eu entrara de licença porque ele havia me dado uma surra e eu ficara em cadeira de rodas... “ Fui ao conselho Tutelar, a comissão de Direitos humanos da Câmara de Vereadores, A Comissão de Educação e Cultura, pois a escola é tombada pelo patrimônio histórico e os alunos a estavam depredando. A CRE não me atendia. Educação em Revista - Quando procurou o sindicato o que foi feito? Nádia - Ainda, na escola procurei o sindicato contatando a professora Edna Felix da Regional III. Queria uma orientação quanto ao que fazer. A professora Edna foi até a escola conversou com os professores, conversou com a diretora, nos orientou a fazer um documento e informar a CRE a situação da disciplina na escola e a necessidade de termos inspetores nos andares da escola, bem como porteiro. A escola possuía três andares de salas de aula com apenas 01 inspetora que não cobria os dois turnos, nem tampouco a escola inteira. A diretora, na presença do sindicato concordou, depois desmotivou os professores dizendo que se a CRE fosse à escola, faria uma intervenção e eles seriam prejudicados, porque eles faltavam , chegavam atrasados... Educação em Revista - Quantas vezes você foi à mídia e contou sua história? Nádia - Programas de TV, incluindo telejornais foram 11 vezes. Na mídia impressa: 5 vezes. Na web, 3 vezes, nos portais do G1 e O Dia Online. Um total de 19 vezes numa tentativa de denunciar o que está ocorrendo nas escolas do município do Rio de Janeiro. 14 Minha sala foi pichada com ameaças. Fotografei as pichações, bem como as depredações. A senhora diretora disse-me que eu não tinha o direito de fotografar e que iria me denunciar a CRE. Passei a ser vítima de piadas dos alunos que nunca entravam em sala, alunos que ficavam nos corredores perturbando quem estava em aula. Quando eu subia as escadas esses alunos cuspiam na minha cabeça e jogavam urina que eles armazenavam em garrafas pet. Já estávamos no mês de junho. Dia 30 de junho de 2009, entrei de licença médica com diagnóstico de depressão e síndrome do pânico. Em maio de 2010, fui diagnosticada, depois de testes, pela chefe da psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, Vera Lemgruber, como portadora de Síndrome de Transtorno de Estresse Pós Traumático, em virtude dos últimos acontecimentos no meu ambiente de trabalho. Desde então, estou em tratamento na Santa Casa de Misericórdia e por conta disso fui aposentada por invalidez permanente. O aluno que jogou a cadeira e mesa do terceiro andar, espalhou pela escola que eu entrara de licença porque ele havia me dado uma surra e eu ficara em cadeira de rodas. Esse aluno mora em minha rua. Até outro dia, quando eu passava próxima a escola, alunos gritavam meu nome, xingando-me de "Nádia maluca" e "piranha". “ A escola possuía três andares de salas de aula com apenas 01 inspetora que não cobria os dois turnos, nem tampouco a escola inteira. “

[close]

p. 15

Educação em Revista - Qual foi a reação da sua direção e dos colegas da escola? Nádia - A diretora não atendia as minhas queixas com relação a disciplina dos alunos, dizia pra mim: “ professora está com medo peça demissão”. E me perguntava: “o que você veio fazer nessa escola?” “Isso aqui é município”. Todas as ideias que propus para diretora, como informar a CRE( Coordenadoria Regional de Educação) e mandar email para ouvidoria da SME, foram refutadas. Ela me dizia professora não adianta, a CRE não liga , a ouvidoria não nos ouve. Quando dizia pra ela que ela tinha que chamar a guarda municipal, a PM. Ela dizia que a guarda tinha medo dos alunos e que a PM não atendia aos chamados. Desde esse dia, em que a PM foi à escola, passei a ser perseguida pela direção. Cinco professores assinaram a carta que fiz à comissão e depois eles foram ameaçados pela diretora. Ela disse que quem ficasse do meu lado iria se ‘ferrar’. Temendo às ameaças, convoquei o CEC( Conselho , escola, comunidade), onde existem representantes dos professores, dos alunos e dos responsáveis. Um professor , professor Nestor, membro eleito do CEC, disse que o CEC não estava ali para ouvir queixas de professores, que o CEC era um órgão consultor da direção. Já em desespero, sem saber a quem recorrer, declarei à diretora o meu temor, disse a ela que não queria apanhar de alunos, como eu já tinha ouvido relatos de professores que apanharam de alunos nessa escola. A diretora me respondeu; “professora aqui, nesta escola, não se manda bater, se manda matar”. Essa cena foi presenciada pelo professor Carlos Cruz e a inspetora Ana Paula. A diretora até hoje se refere a minha pessoa como “a louca”. A professora Lucia Lemos e a inspetora Ana Paula quando comentam sobre mim, não citam meu nome chamam-me de “a louca”. Educação em Revista - Segundo sua opinião essas denúncias junto com o sindicato na imprensa resolveram alguma coisa? Houve alguma medida por parte do governo? Nádia - Algumas coisas aconteceram desde então. Os professores que antes se calavam criaram coragem e estão também denunciando, não temem mais mostrar a cara. O Sindicato criou uma cartilha falando da violência nas escolas. Em 2011 foi feito um seminário promovido pelo sindicato onde o assunto foi amplamente discutido entre profissionais da educação, da saúde e representantes do governo. O Município criou uma lei que salva guarda o professor vítima de violência na 15 “ A diretora não atendia as minhas queixas com relação a disciplina dos alunos, dizia pra mim: “ professora está com medo peça demissão”. E me perguntava: “o que você veio fazer nessa escola?” “Isso aqui é município...” escola. O Estado também criou uma lei contra o bullying que envolve proteger também o professor vítima dessa violência. Muita coisa ainda precisa ser feita, a escola está cada vez mais violenta. Essas medidas são apenas paliativas. Educação em Revista - Como esse problema transformou sua vida? Nádia - Eu era professora, escritora, artista plástica. Era uma pessoa dinâmica, corajosa, decidida. Não leciono mais, não escrevo uma linha sequer, minha arte se foi. Sou lenta no que faço, procrastino no que tenho que fazer, resolver. Engordei 10 quilos por conta dos antidepressivos. Eu digo que hoje, eu habito um corpo e uma mente que não sou eu. Esse problema não transformou a minha vida. Esse problema tirou a minha vida. A professora Nádia de Souza, a escritora e artista plástica premiada, Nádia de Souza, não existe mais. Essa que hoje existe não sou eu. E eu me quero de volta, eu quero a Nádia que eu fui de volta, mas eu tenho um laudo que diz que eu me tornei uma inválida permanente. A Nádia que fui não existe mais. “ “ Esse problema não transformou a minha vida. Esse problema tirou a minha vida. A professora Nádia de Souza, a escritora e artista plástica premiada, Nádia de Souza, não existe mais... “

[close]

Comments

no comments yet