Cheia de 1909 - Peso da Régua

 

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A cheia do rio Douro na cidade (na época vila) de Peso da Régua em 1909 contada por António Guedes.

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sexta-feira 21 de janeiro de 2011 arquivo dos bombeiros voluntários do peso da régua as melhores imagens da sua história cheia de 1909 antónio guedes da ferreirinha na qual se situavam os principais estabelecimentos de mercearia que pouco ou nada puderam salvar a rua joão de lemos até ao local onde agora existem umas escadas que dão acesso ao adro do cruzeiro a rua da companhia até ao primeiro degrau do páteo da casa da companhia velha e parte das ruas da alegria primeiro de dezembro etc o rio estava um verdadeiro oceano inchado como uma jibóia e com uma corrente rapidíssima arrastando árvores telhados de pequenas casas pipas utensílios de armazém peças de mobília etc as laranjas boiavam aos milhares e até uma junta de bois certamente já mortos seguiam na veloz caminhada da corrente impetuosa do douro enfurecido tinha meu pai nessa época um jornal intitulado o dissidente no qual muito novo comecei a rabiscar uns artiguelhos e cuja redacção estava instalada em parte do primeiro andar de um prédio que ainda possuímos na rua marquês de pombal naquele tempo denominada rua da companhia o rio avançava velozmente tendo junto à noite atingindo os primeiros degraus desse prédio chamaram-se a pressa os tipógrafo um dos quais era o bom e falecido teixeirinha e começamos a mudar a toda a pressa para o segundo andar os caixotins dos vários tipos papel tinta e tudo aquilo que se relacionasse com o jornal apenas deixamos ficar o prelo quando esse serviço se terminou já com água quase pelo joelho subimos para o segundo andar e meu pai que como nós tomara apenas o pequeno almoço conseguiu encontrar a lata em que minha mãe guardava o pão e da qual devido à precipitação da fuga nem sequer se lembrara abençoado esquecimento a seguir encontramos um pequeno barril de escabeche e um saco com figos secos depois destes preciosos achados resolvemos comer abatidos e encharcados lá nos sentamos nunca me esqueci dessa ceia pão com enguias de escabeche e como sobremesa figos secos e dois cálices de vinho do porto minha mãe minha avó paterna e meu irmão camilo ao tempo um rapazinho refugiaram-se em casa de meu tio afonso soares que a pôs inteiramente à nossa disposição e que tinha uma entrada também pelo adro do cruzeiro para lá já havia sido transportado meu irmão jaime que se encontrava gravemente doente Às quatro horas da manhã um barco levando a bordo o presidente da câmara doutor júlio de carvalho vasques e um piquete dos bombeiros sob o comando do velho chefe joaquim maria leite lançaram uma escada crochet de ganchos à sacada da casa e por ela descemos para o barco salvador mas os maus dias continuaram e até se agravaram devido à absoluta falta de géneros alimentícios durante dois ou três dias fomos forçados a seguir o regímen vegetariano as estradas encontravam-se completamente intransitáveis devido aos enormes desmoronamentos de trincheiras e pelo mesmo motivo os comboios que partiam do porto só chegavam a mosteirô e houve então criaturas sem escrúpulos ou compaixão que à custa da miséria alheia iam adquirir géneros não sei aonde e vendiam-nos aos infelizes desalojados com uma margem de lucro de 300 e por vezes até mais amealhando com esse chorudo e infame negócio importantes quantias que maldita corja e toda esta tremenda tragédia de que também fui vítima conservo-a tão fixamente gravada na retina e na alma que por muito que viva nunca a poderei esquecer antigo chefe dos bombeiros da régua notas 1-esta crónica de memórias sobre a cheia de 1909 está publicada no jornal o arrais 2 a fotografia recente é do fotógrafo miguel guedes e assinala a casa sita na rua da ferreirinha na cidade da régua onde está colocada uma placa a marcar o nível que atingiram as águas do rio douro 3 como esta crónica evoca do trabalhos de alguns dos bombeiros da régua desse tempo o retrato que está guardado mo museu da associação apresenta o chefe josé maria leite um dos bombeiros fundadores que comandou essas operações de socorro na cheia de 1909 t inha eu 15 anos mas evoco essa tragé dia com a mesma exactidão a mesma nitidez e veracidade como se ela tivesse ocorrido há dois ou três dias decorria um inverno inclemente chuvoso e frio a água caía a cântaros noite e dia sem interrupção sem a mais pequena aberta já desde meados de outubro rios e ribeiros transbordaram e lameiros transformaram-se em verdadeiros e perigosos lagos de água barrenta os jornaleiros que há já muitas semanas não podiam trabalhar devido ao mau tempo vieram para a rua com as suas mulheres e filhos estender a mão à caridade pública era um quadro negro e horrível de miséria e fome que nos comovia confrangendo-nos a alma e humedecendo-nos os olhos da barca d alva chegavam continuamente notícias alarmantes aterradoras acerca da espectacular subida do rio douro e na margem ribeirinha todos os habitantes trataram de levar para local acautelado os seus modestos haveres mas não tiveram tempo de retirar tudo porque o rio numa arrancada súbita tudo invadiu instalando-se na avenida joão franco onde estacionou cerca de vinte e quatro horas como que a restaurar as forças para nova e mais terrível e pavorosa arrancada e assim foi de facto a sua subida rápida veio estabelecer a confusão e o pavor na tarde do dia vinte e quatro de dezembro véspera de natal nessa tarde numa inesperada galopada inundou totalmente a rua semanÁrio independente defensor do alto douro 5

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Esta crónica que é um contributo interessante para a história do Quartel dos Bombeiros da Régua está publicada no boletim “Vida por Vida”, ano XIII- Número 142 de Julho de 1968, antigo órgão oficial da AHBV do Peso da Régua.

Tags: História do quartel dos Bombeiros da Régua, Construção do quartel dos Bombeiros da Régua, Arquiteto Francisco de Oliveira Ferreira

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