Revista Barbante - Ano III - Nº 11 - 12 de maio de 2014

 

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literatura, educação, cultura, tecnologia, poesia, cordel, cronica

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revista ANO III - Nº 11 - 12 DE MAIO DE 2014 ISSN 2238-1414 A crônica: expressão literária nacional

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Editorial Olá, caros leitores! Voltamos com mais uma edição da revista Barbante para vocês. Nesta edição, passamos a ser além de uma revista um portal sobre literatura, educação, cultura e tecnologia onde você, leitor, pode divulgar o seu trabalho. Nesta edição, apresentamos artigos de Ariene Palmeira que escreve sobre propostas de análise das letras de três músicas, Danilo Silva e outros com uma análise da obra Vita Brevis, de Jostein Gaarder, para enriquecer mais ainda esta edição Christina Ramalho que fala sobre a crônica como expressão literária nacional e Rejane Souza com o sertão na obra de Guimarães Rosa. Ainda temos as poesias dos nossos queridos colaboradores José de Castro, Carla Cabral, Renata de Castro, Leonardo Bezerra e outros. Além de contos, crônicas e cordéis que embelezam esta edição. Boa leitura, Rosângela Trajano Editora. REVISTA BARBANTE - 1

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Índice Artigos Ariene Braz Palmeira (UFS) Análise Semântica das músicas: “Dois Rios”, de Skank, “Eduardo e Mônica”, de Legião Urba “3ª Do Plural” de Engenheiros do Hawaii: contradição e efeito sentido no Pop Rock Nacional... p. 6 Danillo da Conceição Pereira Silva e outros Contradições entre corpo e alma na obra Vita Brevis Christina Ramalho A crônica: expressão literária nacional Rejane Souza O “sertão é do tamanho do mundo: sertão é o sozinho” p. 26 p. 21 p. 13 Crônicas Éverton Santos A origem do beijo Tânia Lima Amigos são pra essas coisas REVISTA BARBANTE - 2 p. 36 p. 37

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Cordéis Rosa Regis Os perigos escondidos na automedicação O lixo na rua traz males pra população p. 40 p. 44 Contos Francisco Martins A profecia da Apresentação Rosângela Trajano A mãe de todos os meninos p. 53 p. 49 Poesias Leonardo Bezerra Essência utópica José de Castro O poema p. 58 p. 59 p. 57 Quando amanhece o dia Dami A lagartinha Coló p. 60 O banho da joaninha Luciana Almeida Santos Efemeridade Sem título Carla Cabral Azul p. 64 p. 65 p. 62 p. 63 p. 61 Tempo presente REVISTA BARBANTE - 3

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Renata Castro Essencialmente linguagem Tecelã da poiésis Rosângela Trajano Dois vagalumes Passarinho p. 69 p. 68 p. 67 p. 66 Expediente REVISTA BARBANTE - 4

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Oh, god -WJ Solha Artigos REVISTA BARBANTE - 5

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Análise Semântica das músicas: “Dois Rios”, de Skank, “Eduardo e Mônica”, de Legião Urbana e “3ª Do Plural” de Engenheiros do Hawaii: contradição e efeito sentido no Pop Rock Nacional. Ariene Braz Palmeira (UFS) RESUMO: Neste trabalho apresentamos propostas de análise da letra das músicas: “Dois Rios” (1994), de Skank, “Eduardo e Mônica” (1986), de Legião Urbana e “3ª Do Plural” (1989), de Engenheiros Do Hawaii, sob a perspectiva da Semântica Lexical e da Semântica Discursiva. Assim, procuramos também, a partir das relações de contradição, antonímia e ambiguidade defendidas por alguns teóricos, traçar comentários sobre a relação dos lexemas das músicas e o efeito de sentido causado por elas. Além disso, levantaremos algumas questões de ordem semântica para observar o contexto extralinguístico que cada música manifesta. Para tanto, procedemos à leitura de textos de estudiosos como Rodolfo Ilari, Márcia Cançado, Irene Tamba-Mecz, dentre outros. PALAVRAS-CHAVE: Semântica; Lexemas; Sentido. Introdução São muitos os estudiosos que se ocupam em definir o que é Semântica. Há quem a defina como: “a ciência que tem o sentido como campo de estudos”, como “uma disciplina linguística que tem por objeto a descrição das significações próprias às línguas e sua organização teórica”. Enfim, há outras concepções que originarão “modos contrastantes de edificar a semântica” (LOPES e PIETROFORTE, 2003, p. 112). A definição da semântica como “estudo do sentido”, por exemplo, vai “concentrar-se apenas nas características linguísticas das significações, sem preocupação com os demais aspectos, filosóficos ou psicológicos.” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 11), ou seja, “situa sua problemática no nível das relações entre sons e sentidos, formas e significados linguísticos” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 39). A Semântica enquanto “estudo do sentido das palavras” (p. 10), será definida como Semântica Lexical, esta, “limita o sentido ao significado das palavras, consideradas como unidades de significação sobre as quais repousa o sentido das línguas”. Tal abordagem implica em analisar a significação restrita do sentido linguístico, isto é, observa especificamente “a significação das palavras ou unidades lexicais” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 10-11). Além disso, a Semântica enquanto estudo das palavras, frases e dos enunciados vai ser caracterizada como Global, uma vez que esta “cobre todos os fenômenos de sentido ligados aos sistemas e aos usos das línguas”, (p. 11), ou seja, esta vai além da “compreensão e da formulação das significações no quadro da palavra e da frase”, englobando assim, todos os níveis de análise linguística, sejam eles: fonológico, lexical, gramatical, enunciativo, lógico, pragmático, dentre outros, isto é, estuda “as relações que unem as palavras às coisas ou ao pensamento” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 39). Além dos já supracitados, há outros tipos de Semântica tais como: Textual, Formal, Argumentativa, Discursiva e Cognitiva, porém, todos objetivam estudar o significado, cada um REVISTA BARBANTE - 6

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com suas particularidades. Sendo assim, o sentido, ora pode ser estudado como “evidência”, ora como “objeto linguístico”, ou seja, há uma relação entre a linguagem e o pensamento. Portanto, as abordagens semânticas podem voltar-se “para a compreensão e a formulação das significações no quadro da palavra e da frase”, mas também “busca os dispositivos linguísticos de encadeamento, de progressão e de coerência que permitem compreender enunciados sequenciais”, isto é, interpretatividade (TAMBA-MECZ, 2006, p. 8-9). É válido salientar que as relações entre palavras como polissemia, mas também entre sentenças, como a contradição, ambiguidade, antítese, dentre outros, são abordados pelos tipos de Semântica sob várias possibilidades. Sendo assim, nossa proposta de trabalho está voltada para uma abordagem dessas relações com o intuito de identificá-las nas sentenças das músicas buscando um nexo extralinguístico para justificar a escolha dos itens que compõem tais músicas, isto é: os lexemas, o ritmo, a intencionalidade do sujeito, as contradições presentes nos textos, a antítese de palavras e de modos de vida, a intertextualidade, enfim. Para tanto, elucidamos que as noções de semântica enquanto global, discursiva nos dão base para analisarmos diferentes textos. Uma vez que “as leis semânticas da linguagem são leis intelectuais de ordem psicológica, que têm sua sede em nossa inteligência prolongada e modificada pelos signos” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 24). Contudo, para se chegar a esse entendimento é preciso atentar que tais definições de Semântica estudam o efeito de sentido a partir do léxico para se chegar do contexto extralinguístico, pois, “as significações conceituais são eclipsadas, em proveito das significações relacionais vinculadas à combinatória dos significados lexicais” (TAMBA-MECZ, 2006, p. 37). A definição de alguns conceitos semânticos será feita também a partir da Semântica Formal, aqui defendidos por Müller e Viotti. No entanto, na análise, privilegiaremos a abordagem Lexical e Discursiva, tendo em vista estabelecer uma relação entre as letras analisadas e aspectos extralinguísticos, uma vez que a Semântica Formal não abre espaço para o contexto. Diante disso, salientamos que buscamos embasamento dos conceitos das relações analisadas nas músicas sob a perspectiva da Semântica Lexical e Discursiva de modo a buscar explicações das relações que se estabelecem entre as palavras e sentenças da letra das músicas: “Dois Rios” (1994), de Skank, e “Eduardo e Mônica” (1986), de Legião Urbana e “3ª Do Plural” (1989), de Engenheiros do Hawaii. Além disso, observamos o efeito de sentido causado pela escolha dos lexemas de cada música, isto é, descrever relações de sentido entre as construções lexicais originados no contexto, pois, “é partir de mecanismos de linguagem que se constrói efeitos de sentido tanto de denotação quanto de conotação”, estas, por sua vez, são “construções discursivas” (LOPES, PIETROFORTE, 2003, p. 125). Mediante essas considerações defendemos que a Semântica lexical “além de descrever relações de sentido entre palavras, serve para reconhecer relações de sentido entre construções gramaticais ou mesmo efeitos de sentido originados no contexto” (ILARI, 1990, p. 41). A partir da Semântica Lexical e Discursiva, abordaremos as músicas ressaltando que estas tratam de dois dos principais temas trabalhados pelo Pop Rock Nacional, entre as décadas de 80 e 90 que são: o amor e a crítica social e política. REVISTA BARBANTE - 7

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Discutiremos, aqui, a abordagem da letra das músicas questionando as relações entre palavras, e o efeito de sentido que elas provocam. Destacamos que a relação entre palavras mais frequente nas três músicas supracitadas é a contradição. Nesse sentido, observamos que tais músicas, ao incidirem sobre essa relação, nos dão informações contraditórias e nos motivam a diversas interpretações. O que diremos aqui está pautado na semântica lexical e discursiva, pois, nosso objetivo é conseguir identificar as relações entre formas e sentidos nas músicas, uma vez que, para além da frase, a análise semântica atinge muitas significações coerentes, interpretáveis por meio das expressões do locutor. Ao cabo dessas considerações, partimos para análise das músicas “Dois Rios”, “Eduardo e Mônica” e “3ª Do Plural”, respectivamente, a fim de identificar as relações entre palavras e o efeito de sentido que aquelas causam. Na primeira estrofe da música “Dois Rios” é possível observar uma contradição entre as primeiras sentenças, uma vez que no primeiro verso o sujeito afirma algo e logo em seguida desdiz a afirmação: “O céu está no chão”, “O céu não cai do alto”. Segundo, Müller e Viotti (2003, p. 151), a contradição “acontece quando duas expressões têm sentidos incompatíveis com a mesma situação”, ou seja, as sentenças são contraditórias porque se uma é verídica, a outra não pode ser, portanto, se o sujeito diz que “o céu não cai do alto”, como é possível “o céu está no chão”? Logo, a relação entre essas sentenças contraditórias é ilógica. Pelo viés discursivo, no entanto, podemos ressaltar que essa contradição é feita para designar o estado do enunciador, que, por razões sentimentais, está se sentindo triste, sozinho, abandonado. A partir disso, podemos relacionar que essa tristeza está sendo retratada de forma confusa, porque é justamente assim que o sujeito está se sentindo. Isso também pode ser retratado na seguinte sentença: “dois rios inteiros sem direção”. Ora, sabemos que todo rio tem sua direção, portanto, afirmando o contrário, o enunciador, a partir dos traços semânticos, causa um efeito de sentido sobretudo da sua realidade emocional. Além disso, o sujeito utiliza os lexemas “chão”, “cai” e “escuridão” para afirmar a sua tristeza, isto é, mostra-se como solitário. Tais palavras conotam um efeito de sentido de tristeza. Segundo Ilari (2010), “a conotação é o efeito de sentido pelo qual a escolha de uma determinada palavra ou expressão dá informações sobre o falante, sobre a maneira como ele representa o ouvinte, o assunto, e os propósitos da fala em que ambos estão engajados” (p. 41). O sentido, por sua vez, está “vinculando as palavras às ideias que elas exprimem” (p. 21). Quando tais lexemas são colocados em contradição demonstraram exatamente essa tristeza do sujeito. Tal sujeito imagina que todo mundo um dia passou por isso, portanto, ele busca uma identificação com determinado público. Em seguida, observamos muitas sentenças antônimas. Conforme, Müller e Viotti (2003, p. 151), é chamada de antonímia, “a relação lexical que se apoia nas noções de contrário ou oposto”, mas, essas relações não envolvem necessariamente uma contradição. Vejamos que quando o REVISTA BARBANTE - 8

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sujeito declara: “É o claro é a escuridão” Como se vê, ao passo que o sujeito institui antônimos, ele faz a descrição de algo, ou seja, os sentidos de “claro” e “escuro” fazem com que eles sejam antônimos nessa passagem, mas, não envolvem uma relação de contradição. O sujeito também se utiliza de outras sentenças antônimas, tais como: “pé x mão”, “pai x mãe”, “se põe x renasce”, “dia x noite”, essas expressões são utilizadas para descrever o sol. Diante disso, vale ressaltar que há diversos tipos de antonímia. Um tipo que se enquadra nessa expressão é a antonímia binária ou complementar que diz respeito aos “pares de palavras que, quando uma é aplicada, a outra não pode necessariamente ser aplicada. Em outras palavras, a negação de uma implica na afirmação da outra” (CANÇADO, 2010, p. 52). O enunciador, ao criar essas sentenças, traz à tona “figuras do conteúdo”, que recobrem os percursos temáticos abstratos e atribui-lhes traços de revestimento sensorial” (BARROS, 2003, p. 72). Conforme Barros, a figurativização possui etapas diferentes. Nesse contexto, há uma “iconização”, isto é, “ há um investimento figurativo, com o objetivo de produzir ilusão referencial” (BARROS,2003, p. 72). A partir disso, observamos que, se analisada, a leitura das palavras cria em nossa mente as imagens que o enunciador cria para designar seu sofrimento. Podemos observar que também há a presença de uma figura de linguagem na terceira estrofe: “a voz da vida vem dizer”. Ora, sabemos que a vida não fala, portanto, há uma personificação neste trecho. Outra relação entre palavras que podemos observar é a relação dêitica. Na nona estrofe da música, o sujeito declara que “o meu lugar é esse”, portanto o pronome esse estabelece uma relação entre “ao lado seu” e “esse”, ou seja, na relação dêitica, um “pronome é sempre um termo cuja denotação não é lexicalmente fixa, mas varia segundo o valor que lhe é atribuído por um contexto extralinguístico” (MÜLLER e VIOTTI, 2003, p. 153). Como se vê, o discurso do sujeito institui antônimos. Embora faça parte do Pop Rock, a música tem um ritmo mais lento, que trata da falta de um amor, de fossa, enfim. Na música “Eduardo e Mônica” de Legião Urbana, a relação entre palavras e sentenças mais presente é a contradição, haja vista em todas as estrofes. Na primeira, por exemplo, a contradição é apresentada pelos lexemas “razão” versus “coisas feitas pelo coração”. Na mesma estrofe, há outra sentença contraditória quando o sujeito afirma “que existe razão” e logo em seguida diz “que não existe razão”. Além disso, o sujeito pergunta “Quem um dia irá dizer?”, então podemos dizer que ao fazer essa pergunta, ele pode estar ou não buscando “uma interação verbal”, no entanto, não se sabe qual é a verdadeira intenção dele (TAMBA-MECZ, 2006, p. 81). Na segunda estrofe, percebemos que a descrição dos sujeitos Eduardo e Mônica nos revela que eles são completamente diferentes, diante disso, podemos relacionar essa descrição com a antítese de modos de vida, de comportamentos e características pessoais extremamente diferentes, isto é, enquanto o “Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar, ficou deitado e viu que horas eram” a “Mônica tomava um conhaque no outro canto da cidade”. Além disso, “ela se formou no mesmo mês que ele passou no vestibular”. Quando marcaram um encontro “a Mônica de moto e o Eduardo de camelo”. Enquanto “ela fazia Medicina e falava alemão” e “E ele ainda nas aulinhas de REVISTA BARBANTE - 9

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inglês”. Eles casam, têm filhos e a oposição afeta também os filhos, que herdam as características de um dos pais: “Porque o filho do Eduardo tá de recuperação”. Portanto há oposição dentro do léxico, mas também, oposição de modos de vida, que podem ser analisados discursivamente. Além disso, a contradição é encarada ora como distorção, ora como esclarecimento. Assim, fica claro que é possível conviver com pessoas diferentes, essas hipóteses são trazidas numa música com uma letra bastante complexa, mas, num ritmo mais acelerado, que mostra um final feliz. Portanto não é apenas o conteúdo da música que provoca um efeito de sentido, o ritmo, que é o plano da expressão, vai demonstrar que é possível falar de um relacionamento complicado de uma maneira feliz. A letra da música é composta por frases bemhumoradas, que vão relatar toda a trajetória de oposição dos modos de vida de Eduardo e Mônica que “comemoram juntos”, “brigam juntos”, porém, conseguem viver juntos. Nessa perspectiva, notamos que há ambiguidade na terceira estrofe, uma vez que o sujeito ao dizer que “a Mônica riu e quis saber um pouco mais sobre o boyzinho que tentava impressionar” torna a sentença ambígua, pois, não se sabe, na verdade, quem estava tentando impressionar, se Mônica ou Eduardo. De acordo com Ilari, “ambiguidade é a característica das sentenças que apresentam mais de um sentido” (2006, p. 09). Outra expressão ambígua acontece em: “Eduardo e Mônica trocaram telefone”, a ambiguidade se dá pelo fato de a expressão “trocar telefone” ter dois significados distintos, ou seja, eles podem ter trocado o número entre si, mas também, podem ter trocado o aparelho. Vê-se, pois que, que a utilização desses traços semânticos é feita para descrever o relacionamento entre duas pessoas com personalidades distintas, porém, causam um efeito de sentido, sobretudo da possibilidade desse amor se realizar. Entretanto, tudo é representado sob uma perspectiva coerente, apesar de haver inversões lexicais, podemos constatar que há “coerência semântica”, pois, a “recorrência de traços semânticos” nos permite organizar uma leitura fundada no percurso que Eduardo e Mônica fazem, uma vez que “a recorrência de um tema no discurso depende, assim, da conversão que os sujeitos narrativos em atores que cumprem papéis temáticos e da determinação de coordenadas espaço- temporais para os percursos narrativos” (ILARI, 1990, p. 69-70). Nesta música, é possível observar que há contradição em todas as sentenças. Os dois sujeitos descritos são totalmente diferentes, possuem gostos, costumes, tradições, idades e objetivos distintos. No entanto, no final da letra música vemos que eles conseguem ficar juntos. Daí, “todo mundo começa a dizer que ele completa ela vice-versa que nem feijão e arroz”. Apesar de serem totalmente diferentes, eles conseguem se unir. Assim, podemos fazer referência a um provérbio popular: “Os opostos se atraem”, pois é justamente isso que acontece na música. Outra música que nos permite ser analisada semanticamente é a: “3ª Do Plural” de Engenheiros do Hawaii. Tal música faz uma alusão ao capitalismo de forma contraditória. As expressões que nos levam a reconhecer essas informações são: “Eles querem te vender, eles querem te comprar”, REVISTA BARBANTE - 10

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“ganham a corrida antes mesmo da largada”. Além disso, o sujeito afirma que: “eles querem te matar de rir, querem te fazer chorar”, “Quem mente/ diz a verdade”, dessa forma, o enunciador faz um julgamento direto do objetivo da propaganda. Sob a perspectiva discursiva, podemos salientar que o objetivo do capitalismo também é demonstrado na música através dos lexemas: “vender cigarro, vender remédio, vender os carros, pneu, cerveja e gasolina”. Na medida em que tal sujeito faz essas descrições, o seu discurso “enfatiza os efeitos da enunciação, isto é, de aproximação subjetiva em detrimento dos efeitos de realidade, que dependem mais fortemente dos procedimentos de figurativização” (ILARI, 1990, p. 71). Nessa perspectiva, é possível afirmar que todas essas sentenças são capazes de expressar de figurativizar um mesmo tema: criticar o consumismo. Percebemos também que há figuras de linguagem, haja vista, a Gradação, pois a forma como as sentenças são descritas nos permite fazer essa interpretação: “corrida para vender cigarro”, “cigarro para vender remédio”, “remédio pra curar a tosse”, “tossir, cuspir, jogar pra fora”. Estas expressões nos remetem a outra ressalva: o consumo “irracional” é levado pela emoção da necessidade artificial criada pelo mercado. Outra figura observada é a Ironia, uma fez que o enunciador declara ironicamente que o consumidor traz uma “satisfação garantida”. Assim, é possível estabelecer relações de significação entre os lexemas descritos e a sociedade capitalista retratada, pois, ao invés sistematizar, o enunciador nos leva a uma discussão intricada. Há também, o uso de palavras polissêmicas, como por exemplo: “rede”. Esta palavra possui muitos significados, ela pode referir-se à rede usada para se balançar, à rede usada nas traves para prender a bola, mas também, à rede sistemática. Diante disso, destacamos que “a linguagem humana é polissêmica, pois os signos, tendo um caráter arbitrário e ganhando seu valor nas relações com os outros signos, sofrem alterações de significado em cada contexto”. (LOPES, PIETROFORTE, 2003, p. 132). É interessante ter em mente que as informações postas na música constituem uma crítica ao capitalismo e uma súplica à conscientização da sociedade, pois, o sistema capitalista “mata a sede”, levando-nos a acreditar que precisamos consumir os produtos. Uma vez “jogada a rede”, ele “te seda”, “venda os olhos” e “não te deixa pensar”. Assim, o enunciador afirma que essa é a realidade pela qual tudo se configura. Podemos reconhecer essas informações a partir da investigação discursiva. Procuramos, aqui, trabalhar com os temas: amor e crítica social, constantes nas músicas do Pop Rock Nacional entre as décadas de 80 e 90, sob a perspectiva da Semântica Lexical e Discursiva. Estas, por sua vez, nos permitiram ver considerações fundamentais. Através da Semântica Lexical, vimos que “a linguagem é um meio para alcançarmos uma verdade que está fora da linguagem, o que nos permite falar objetivamente sobre o mundo e, consequentemente, adquirir um conhecimento seguro sobre ele” (OLIVEIRA, 2006, p. 27). Já a Semântica Discursiva, nos permite criar diversas “possibilidades de encadeamentos argumentativos REVISTA BARBANTE - 11

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das quais a palavra pode participar. Seu significado é somatório das suas contribuições em inúmeros fragmentos de discurso” (OLIVEIRA, 2006, p. 18). Portanto, ressaltamos que por meio das expressões dos locutores, construímos uma análise sob a perspectiva da Semântica Lexical e Discursiva, e, pelo demonstrado, atingimos muitas significações coerentes, interpretáveis e possíveis. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA CANÇADO, Márcia. Manual de Semântica: noções básicas e exercícios-São Paulo: Contexto, 2012. ILARI, Rodolfo. Introdução à semântica- brincando com a gramática. 7. ed., 3ª reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2010. ILARI, Rodolfo e GERALDI, J. W. Semântica. São Paulo: Ática,1990. MÜLLER, Ana Lúcia de Paula e VIOTTI, Evani de Carvalho. In Fiorin, José Luiz. Introdução à linguística II: princípios de análise- São Paulo: Contexto, 2003. OLIVEIRA, Roberta Pires de. Semântica. In: Introdução à linguística: domínios e fronteiras, v, 2/ Fernanda Mussalim, Anna Christina Bentes (orgs.)- 5. Ed.- São Paulo: Cortez, 2006. TAMBA-MECZ, Irène. A semântica; tradução Marcos Marciolino. – São Paulo: Parábola Editorial, 2006. REVISTA BARBANTE - 12

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CONTRADIÇÕES ENTRE CORPO E ALMA NA OBRA VITA BREVIS Danillo da Conceição Pereira Silva1 Elizete dos Santos2 Itana Virginia Souza Cruz3 Ieda Fraga dos Santos4 Samuel de Souza Matos5 RESUMO O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma análise da obra Vita Brevis, de Jostein Gaarder, apontando para as contradições entre corpo e alma na visão de Flória Emília e de Santo Agostinho, além de correlacionálas com o pensamento religioso e filosófico. Ao cabo da análise, evidenciamos a estreita ligação existente entre religião, filosofia e produção literária. Palavras-chave: Vita Brevis; corpo; alma. 1 Introdução Vita Brevis é uma obra de ficção escrita pelo consagrado autor norueguês Jostein Gaarder. Ela seria um conjunto de cartas de Flória Emília, mulher com quem Santo Agostinho convivera amorosamente antes de sua conversão ao catolicismo. Nessas cartas, Codex Floriae, que, segundo o enredo da obra, teriam sido adquiridas pelo autor em um sebo de Buenos Aires, há uma expressão angustiada das insatisfações e discordâncias de Flória quanto à opção tomada por Agostinho em deixá-la em nome de um asceticismo radical. Através dessa escolha, o luxurioso Agostinho que, de tão “imerso no vício e cego, não podia pensar na luz da virtude e da beleza, que os olhos da carne não veem, e só o íntimo da alma distingue”, se voltaria completamente para a prática das virtudes cristãs, 1 Graduando do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (danillosh@gmail.com). 2 Graduando do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (maissa-2509@hotmail.com). 3 Graduando do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (itanasouza@live.com). 4 Graduando do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (iedafragaufs@gmail.com). 5 Graduando do curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (ssmatos20@gmail.com). REVISTA BARBANTE - 13

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“as obras do espírito”, abandonando assim todo tipo de vício e pecado, “as obras da carne”. Essa conduta seria o meio para alcançar a vida verdadeira que não seria a terrena, pois aqui a vida é breve (daí o título em latim: Vita Brevis), mas, sim, a que haveria de vir na glória futura e felicidade eterna da Jerusalém Celeste. A suposta Codex Floriae não tem sua autenticidade comprovada, parecendo configurar um recurso literário do autor para dar sustentação a sua obra, assim como a construção de informações mais factuais acerca do achado. Tais artifícios são de uma qualidade tão substanciosa que muitos leitores desavisados chegam a tomá-la como dado histórico. A esses recursos, corroborando assim o caráter ficcional da obra, somam-se informações desencontradas ou dissonantes em relação aos escritos biográficos em torno do Bispo de Hipona e de seus próprios relatos como os publicados nas Confissões. As falas de Flória contidas nas epístolas são postas constantemente em diálogo com as de Agostinho através de inúmeras citações de trechos de seus escritos, que são retomados, refletidos e, na maioria das vezes, rebatidos. Mais do que uma contraposição entre a vida do santo e sua história pregressa, ou de uma história de amor ardente rompido, o que emerge na obra é um grande embate entre perspectivas filosóficas diferentes acerca da vida. Por esse viés, veem-se claramente duas visões da natureza humana, numa perspectiva filosófica. A primeira é a de Agostinho, que, por influência platônica, diferencia o corpo (corruptível e mortal) e a alma (necessidade de purificar e contemplar o mais perfeito). A segunda visão é a de Flória, que, diferentemente de Agostinho, é influenciada pelos demais pensadores antigos, como é o caso de Aristóteles, que vê o corpo e a alma como sendo partes integrantes do ser, pois defende que a vida deve ser vivida, uma vez que ela é breve. Em outras palavras, temos o confronto entre a filosofia carpe diem e a filosofia agostiniana e neoplatônica. Nesse sentido, o presente trabalho, intitulado “Contradições entre corpo e alma na obra Vita Brevis”, tem como objetivo evidenciar como as categorias “corpo” e “alma” aparecem representadas na obra. Destarte, buscamos evidenciar como a tensão constante entre as categorias em questão figuram e como são construídas no trabalho efetivo com a palavra, realizado pelo autor. Com a pretensão de enriquecer as possibilidades de discussão, buscamos, ainda, a partir do recorte feito, estabelecer diálogos entre religião, filosofia e literatura. 2 Concepções de corpo e alma em Vita Brevis: os olhares de Flória e de Agostinho Vita Brevis é fortemente marcada pela contradição nas noções de corpo e alma. Essas noções aparecem tanto no pensamento de Santo Agostinho, através de trechos de suas Confissões, como também na fala de Flória Emília. O jogo de contradições entre corpo e alma está sustentado em ideais de filósofos como Aristóteles, Sócrates e Platão, a partir dos quais, Flória e Agostinho apresentam olhares divergentes. REVISTA BARBANTE - 14

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