Crônicas do Amor Impossível (Edição Brasil)

 

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Description

Crônicas do Amor Impossível mostra a corrosão que o amor provoca no outro lado. O que quebra na engrenagem do outro, os escombros pós-explosão e o que restou. Sem sonhos e sem conselhos o livro fala de amor.

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p. 2

antes que eu pudesse me dar conta, desde o princípio, antes mesmo de te conhecer, já te amava. cultivava este amor repleto de promess as i mprevi stas, em outro hemisfério, em terras distantes, em outro continente, por cruzar mares e oceanos até me encontrar. já amava a tua cor e o teu toque, tuas palavras antes que as ouvisse, já previa o emaranhar de nós e nosso abraço, minha ânsia em percorrer teus relevos e teus segredos, teus pelos em minha boca, a umidade entre tuas pernas. já tinha minhas mãos à espera das tuas, sempre aguardando a tua chegada, o momento delas envolverem os teus peitos. te esperei, repleto de histórias de outras tantas que se desvaneceram no momento em que teus lábios se encontraram com os meus.

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p. 3

guardei para ti rosas e versos, construí cada palavra, pus em cada uma um gosto de sol e mel, busquei matizes e luzes. aguardei que sobre elas derramasses teu sorriso ao encontrares ali o teu nome. minha satisfação brotou entre as pétalas do jardim. o que fiz foi para esquecer as lágrimas já que agora somente teus dedos correm pelo meu rosto.

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p. 4

espero o momento de te tocar e sabes que há em ti algo que me envolve e me conquista. esta expectativa é um ensaio que atravessa o abismo entre nossa pele, é um prenúncio de algo em que me fizeste acreditar. algo que me tome quando este momento chegar e quando de mim tu te apoderares. me contento com o teu frágil sorriso e tuas promessas cuja interpretação se perde diante do timbre de tua voz. profeta da incerteza, aguardo do momento sua acontecência. me calo diante da fêmea úmida que sugere cios e sonhos, diante do encanto e do encontro aguardado por nossas línguas.

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p. 5

se amor houvesse, isto me bastaria para desaprender meu caminho, para vagar da praça mauá à cinelândia sem direção, quieto e calado, pequeno, leve, para me perder nas curvas e becos da cidade nua, para que me diluísse na multidão? seria suficiente para tocar teus cabelos, para guiar meus dedos por sob a tua saia até teu úmido reduto, para desejar ouvir de ti um gemido? se amor houvesse, isto me bastaria para que eu admirasse o céu do aterro, insano e vasto, amplo, alto, para criar asas que me levariam até o sol repetindo o voo de ícaro? me bastaria que nos encontrássemos em um horizonte de eventos, que tua respiração se fundisse à minha, que eu tornasse a crer em sonhos? se amor houvesse será que tu entenderias que por tua causa desaprendi o caminho, por tua causa vaguei sem direção, por tua causa me perdi, por tua causa parei para olhar o céu, por tua causa tornei a sonhar?

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p. 6

beijo as pétalas da rosa. e em minha boca o meu amor goza.

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p. 7

prometi te amar, assim por inteiro, cada centímetro teu, que trazes debaixo da roupa, sem me importar se já foste santa ou puta, me comprometendo a escutar o que dizias, real ou imaginário. prometi te amar, lúcido ou demente, apesar das coisas pequenas e insanas, grandiosas ou medíocres, ordinárias, desprezíveis, desnecessárias ou imprescindíveis, que preenchem teus calendários, ocupam tua agenda, e que me roubam o sono. prometi te amar, nas tuas insignificâncias e coisas tolas, que transformas em holocaustos, assistindo o modo como te movimentas, o teu piscar de olhos quando mentes, de acordo com teus ardis, teus artifícios. prometi te amar, em cada segundo que nos é subtraído, e apesar da constatação de tuas trapaças, apesar dos nossos fracassos. foi só quando desisti de ti, que pude cumprir a minha promessa.

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p. 8

o quanto vaguei à tua procura, levando comigo tuas palavras, fazendo delas um mantra, uma prece, ao ouvi-las, cultivando a ilusão de que não tinhas partido? quantos amanheceres permaneci revolvendo lembranças que não se desfaziam, a maneira como gesticulavas, teus lábios quando encontravam os meus, como me recebias entre tuas pernas, o branco dos teus dentes. o quanto vaguei me prometendo que te encontraria a qualquer momento, a qualquer custo? essa promessa me resguardando da aniquilação, a sentir o teu cheiro em cada uma que despia, a chamá-las também pelo teu nome.

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p. 9

quando acordei não posso dizer que encontrei o inesperado. aquela manhã, tantas vezes adiada, finalmente se revelava e nascia, contra a minha vontade, no ontem emaranhada. era como se ainda estivesses aqui, restos do teu riso continuavam presentes na cena, tuas mãos a me tocar, minhas coxas entre as tuas, na mesma cama em que nos prometemos ficar juntos para sempre. a luz imprecisa daquela manhã não me permitia acreditar que o teu som havia cessado, restando apenas a ruidosa agonia dos espelhos a me despertar para o indesejado, o inevitável e a vontade de não acordar. o itinerário de teu corpo era agora um teorema, a concretude definitiva da tua partida, na mesma cama em que a outro te entregaste.

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p. 10

foram tantos os que te comeram, a tantos juraste eterno amor. com todos tiveste a certeza de ter encontrado teu par. como acreditar no que me dizes, mais uma vez, com a tua mesma antiga convicção? sou apenas mais um entre os tantos que te comeram. se somente tarde te encontrei e não pude ser o primeiro, não posso cobrar do teu tardio amor ser o último.

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p. 11

tenho sobre a pele o calor de tuas mãos, o toque de teus dedos, o rastro que tua saliva deixou, marcas invisíveis que em minha carne ficaram registradas. tenho a tarde branca liberta de teus pelos que à minha frente se desenrola, repleta de sussurros e silêncios, revirando minhas entranhas, vazia como a página onde escrevo e o horizonte que se cala. caminho sobre a terra desolada que a tua falta criou. levo comigo o teu último beijo. 14 horas, 19 de março, comecei a morrer.

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p. 12

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