Chicos 28

 

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Novembro 2010

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chicos n 28 setembro 2010 e-zine de literatura e idéias de cataguases ­ mg capa dedim de prosa esta edição era para estar circulando no início de outubro mas no dia 02 daquele mês faleceu maria do carmo pereira dona carmita mãe de josé antonio pereira ainda enlutados estamos de volta em novembro exatamente no dia de finados foto de vicente costa editores emerson teixeira cardoso josé antonio pereira como se vê na foto acima participamos de uma das mesas da felica deste ano zeca zé antonio emerson e vanderlei pequeno mediados por giovani ramos ­ nesta ordem da esquerda para direita discutiram literatura e política e continuam sem consenso neste número publicamos uma crônica de carlos herculano lopes um conto inédito de ronaldo cagiano premiado no 23º concurso de contos de araçatuba sp a estréia de antônio perin a poesia do uruguaio leonardo garet em tradução de ronaldo cagiano o japonês masaoki shiki em versão de emerson teixeira rubens shirassu jr flauzina márcia emanuel medeiros e uma seleção do poeta português antónio ramos colaboradores permanentes altamir soares vanderlei teixeira cardoso vicente costa zeca junqueira colaboradores desta edição antônio perin carlos herculano lopes emanuel medeiros vieira flauzina márcia da silva ronaldo cagiano rubens shirassu jr fale conosco em chicos.cataletras@hotmail.com visite-nos em http chicoscataletras.blogspot.com 2010 ano do centenário de rosário fusco

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carlos herculano lopes de volta a cataguases transcrito do estado de minas edição de 17/09/2010 no início da década de 1980 quando me iniciava na literatura e no jornalismo estive em cataguases convidado por um grupo de amigos entre eles luiz ruffato fernando cesário e françois fusco para lançar meu primeiro livro de contos o sol nas paredes que também vendia nas ruas bares e portas de teatro como tantos outros autores iniciantes depois de belo horizonte onde anoite de autógrafos ocorrera na casa do jornalista cataguases foi a primeira cidade que abriu as portas para mim daqueles dias guardo algumas fotos livros autografados e um quadro do pintor cláudio lopes semana passada tantos anos depois volto à terra de francisco inácio peixoto humberto mauro e ascânio lopes desta vez para participar do festival literário de cataguases felica evento organizado como na priemria versão pelos professores geraldo filho e rodney rocha jovens cheios de entusiasmo sem o qual é impossível realizar qualquer coisa durante três dias pelo centro cultural humberto mauro passaram entre outros os escritores affonso romano de sant anna carlos de brito e melo marcelino freire nicolas behr e alexei bueno além de filhos da terra como ronaldo werneck joaquim branco e fernando abritta mais que falar de literatura ­ afinal de contas esse foi o motivo de minha ida até lá tive a oportunidade de andar pela cidade com o mesmo encantamento de quando a conheci caminhei pelo calçadão da rua coronel duarte supermovimentado estive na lanchonete mulambo onde havia um bar no qual tomamos uns bons chopes sentei-me nos bancos das praças sendo acolhido pela sombra das mesmas árvores que nos idos dos anos 1920 abrigaram os rapazes da revista modernista verde que causou tanto furor passei pelas margens do rio pomba infelizmente tão poluído ouvi com o nostalgia o apito do trem e estive em novos bares como o cafezinho do josé diogo e o chuá onde o thiago faz as honras da casa espetinhos de frango e porções de carne cozida são os tiragostos nas mesas deste entre um brinde e outro fiz novos amigos impossível citar todos mas não há como deixar de falar do professor emerson cardoso de enzo menta josé antônio pereira de wanderlei pequeno do artista plástico puri além do marchand cairu que está criando um memorial para a artista plástica nanzita como da primeira vez fiquei hospedado no hotel cataguases em cujo restaurante além da garçonete rosângela em sua primeira semana de trabalho fiquei conhecendo o novo administrador rômulo garonce depois de viver muitos anos fora ele mora outra vez na terra estou superanimado se deus quiser tudo vai dar certo disse enquanto supervisionava as mesas no começo da tarde de domingo pois na segunda-feira bem cedo teria de pegar no batente tomei o ônibus de volta para belo horizonte na cabeça enquanto passava por piraúba rio pomba astolfo dutra e barbacena fazia muitos planos para ano que vem estar de novamente em cataguases geraldo filho e rodney rocha já começam a pensar na terceira versão do felica carlos herculano lopes belo horizonte -mg

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ronaldo cagiano eles não moram mais aqui voltei para casa com a sensação de uma absoluta solidão o túnel ernesto sábato mas aparecem todos os finais de semana de bus van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade a imensa ilha cujo mar é o céu infinito pássaro nascido da prancheta com suas enormes asas abertas sobre o cerrado o sono despertado pelo interfone eu ali semi-acordado da madrugada que ainda me prostrava com seu chumbo na manhã ociosa eles pontuais e esperançosos esperavam o meu abraço o beijo uma festa nos olhos conspurcando o endereço inóspito antes de entrarem apesar de terem a chave bolinavam a campainha num toque prolongado acho que o pai ainda está dormindo bebel talvez por temerem invadir a privacidade era sempre bem cedo como se não quisessem perder um minuto do direito de visita eu percebia pelo olho mágico a face eterna deve estar se vestindo ela falava ao dudu eles vinham para o lugar que um dia foi deles e meu sorriso tentava empanar a face ainda desfigurada a garganta congestionada por hálito e emoção a impossibilidade de tantas perguntas apenas os filhos ali um casal mocinhos já e não se lembrariam mais dos primeiros choros as cólicas abreviando as noites seus corpos buscando afagos enquanto a febre latejava e agora são eles numa sondagem silenciosa e aflita com um olharescafandro penetrando o insondável do meu coração bateia no aluvião de minhas tristezas mergulhados mais fundo do que nunca numa água desconhecida mas o que são os filhos senão o barco que lançamos rumo ao mar existencial lá onde não podemos mais chegar e alcançá-los onde a fúria da vida impõe suas fadigas e descaminhos sim fomos filhos um dia mas em que águas me lancei que a mesma distância entre mim e seus avós parece multiplicada entre nós agora esses corpos frágeis tão cedo carregando o peso da realidade acho que jamais soube o que era tudo isso ainda mais agora longe do seu tempo de febres e choros ensurdecendo a casa quando esse outono consterna a cidade com a prostração das cores a janela é um convite para uma fronteira que não conheço os olhos apertados não querendo ceder lugar às lágrimas procuram procuram procuram e extenuados só pescam lembranças no lago turvo de um tempo que a gente não reconstrói mais pois vai embora como a vida como vão a poeira e a folhagem seca sob o telhado escoiceadas pelas chuvas de dezembro esse acúmulo de epidermes mortas jazigo de guerras conjugais e amanhã é domingo pé de cachimbo e as cidades morrem aos domingos como morre nosso espírito calejado de ausência e silêncios o apartamento está vazio como habitada por fantasmas está a esplanada dos ministérios esses inexpugnáveis caixotes que albergam tantos segredos e quando eles entram são as perguntas de sempre são os laços rompidos são seus olhares inertes sobrevoando os cômodos esquadrinhando as retratos sobre a cristaleira é a alma um pomar de lacunas e lá embaixo é o asfalto o burburinho de carros as superquadras e seus blocos residenciais pombais que o velho euclides detestava habitar enfileirados como um dominó as cigarras de agosto e o pregão de seu canto histriônico e a urgência de tudo nas coisas é o que sobra é o que miro na estante com a foto da primeira viagem à praia ele grudado às minhas pernas ela no colo ali estávamos no parapeito do grande belvedere do cristo redentor que dava para a baía de guanabara e já não é aquele tempo que vejo é o pranto reprimido que se dissipa com o barulho do caminhão de gás se enviesando sinfônico pelos setores povoados de siglas e sua vinheta imutável a respiração um pouco mais forte ah água que eu havia esquecido esquentando na chaleira tudo parece imperfeito eles me beijam quando chegam acomodam-se solenes e calados na velha poltrona como se desconhecessem o lugar o dia livre os móveis os passeios enquanto as bonecas apodrecem numa gaveta da cômoda travestida em museu de entulhos o autorama enguiçado lembro-me do dia em que ele brilhando como um cometa o recebeu de minhas mãos ­ É meu,

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ronaldo cagiano pai denuncia que a existência acumula perdas e riscos além das mentiras e ofensas na vara de família ­ tudo agora parece acabar antes de começar o abraço deles demorado e insubstituível ainda penetra minha consciência como um punhal em brasa o quarto os espera como sempre como se nunca tivessem saído de lá e voltassem de férias mas os cadernos suas caixinhas de pertences a mochila as roupas espalhadas as folhas de desenhos coladas na parede os deveres por fazer onde estão?braços apascentam a saudade e eu percebo que a realidade imperturbável seqüestrou seus rostos de criança a casa é a mesma mas a solidão imperativa os recebe como um estranho estrangeiros na própria terra já não reconhecem os desenhos a lápis de cor que ainda adormecem nas paredes do quarto da empregada onde andará dona zenaide que ensinou-lhes em nossa ausência as muitas coisas da vida as sofrências do ver há uma sombra pretérita escurecendo os cômodos como a pergunta lâmina que não tem resposta apenas uma lágrima esconsa pai o que é saudade ainda me lembro quando ele a me cravou à queima-roupa e nunca imaginei que um dia seria mais difícil sentir do que explicar naquele tempo os passeios ao jardim zoológico se revestiam de tamanha aventura como se juntos flagrássemos o reino da fantasia que nos isolava do mundo e da fugacidade dos infortúnios que a vida prepararia sem postergação nem dó eles ainda tinham seus heróis enquanto os meus não sobrevieram a 68 e a plena efervescência da vida em seus poros a vida a vida a vida com suas garras bisonhas é o que nos cabe quando tudo já é sem a ilusão e a gente vai matando um leão por dia nas entressafras de dores inesperadas de inventário do pouco que tínhamos agora é mais um fim de semana como outro qualquer tudo se repete como as folhas exiladas que a cada outono atapetam o gramado como as caminhadas à beira do lago paranoá os lanches após as sessões vespertinas nos cinemas do shopping imutável como o que há de compulsório nas agendas de trabalho já não há mais o gibi nem os brinquedos espalhados na sala ou os desenhos trêmulos riscados a batom no espelho do banheiro primeiros esboços de sonhos o sol insiste em esconder-se lá dominado por nuvens negras que caluniam a paisagem nessa estação sem graça atropelada pela intransponível secura do planalto central mais suportável que a que instaura o deserto íntimo soberana e indesviável sentença que parece nunca apartar de nós quando o rio bêbado do tempo veloz e pleno de fúria irrompe em nossas vidas como as tantas enchentes de verão que irrompiam como uma tsunami na minha infância em cataguases e esse rio imóvel entre paredes não conduz a lugar algum apenas reproduz a cada domingo o ritual dos rostos colados que se afastam antes de recriarem a soberania de outras despedidas enquanto os vejo pela janela se dissipando no altiplano rumo à parada de ônibus até se transformarem num ponto minúsculo ao longe um cisco na paisagem do horizonte longínquo agora o apartamento é um sarcófago que hiberna outras vidas terão vivido a minha exaustão carregam o minério bruto de outras frustrações dão ouvidos à vizinha evangélica que tentava salvar os homens do mundo e só ofendia a gramática na vasta planície um vago teor de nuvens o mofo ampliou seus mapas no terraço do condomínio as janelas há tempo fechadas denunciam o imponderável que há nas coisas e o olho mágico vislumbra outras criaturas mas nele resiste a presença invisível de seus rostos a substância clara de suas almas brasília já é um deserto onde só resistem as caliandras ainda me lembro daquelas mãos albergando o afago pressuroso guardando para o último minuto a despedida formatada no adeus definitivo que não muito longe dali o tempo se encarregaria de um dia amalgamar e os chicletes coreografando estruturas no ar a última lembrança da estação deixada nos degraus da escada uma rodovia desavergonhada implementando o longo sono e um ronco do motor uma trava uma cancela o asfalto molhado os olhos inchados um gigante ruminando a alma e no fundo no fundo do cerrado onde tentei enterrar minhas dúvidas a dispersão das cinzas em que se converteram as estrelas de seus olhos ainda me lembro eles apareciam todos os finais de semana de bus van ou metrô até chegar ao outro lado da cidade a imensa ilha cujo mar é o céu infinito pássaro nascido da prancheta com suas enormes asas abertas sobre o cerrado ainda me lembro ronaldo cagiano são paulo -sp

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josé antonio pereira cataguases,a literatura e o cinema dois eventos culturais dominaram a cena de cataguases nos últimos meses o festival ver e fazer filmes em agosto e o felica festival literário de cataguases em vanderlei pequeno e zeca junqueira e o giovani ramos onde fizemos um debate em torno do tema literatura e política ah teve também a presença de nicolas behr o rei de brasília com sua popular e pungente poesia no ano passado vi a obra do bruxo do cosme velho ganhar vida no corpo de vários amigos atores como o carlos sérgio a fernanda lobo o eduardo dascar prá ficarmos só entre os cataguasenses enquanto ruffato era uma das grandes atrações do felica na ocasião ao lado de fernando cesário e ronaldo cagiano os três numa bela manhã de sábado fizeram a literatura circular pelo palco do centro cultural humberto mauro onde noutros épocas curti filmes fundamentais nos tempos do cine machado ainda naquele dia eu e meu filho caio encontramos com fernando cesário ruffato e o giovani lá no café do museu onde almoçamos caio até hoje se diverte muito quando relembramos da estória que ruffato ali contou de certa carne de caça que comeu em um restaurante na alemanha só vindo a descobrir depois o que era com o auxilio de um tradutor rindo muito concluímos ele saiu daqui para comer veado na alemanha setembro no primeiro a proposta era trabalhar-se cinematograficamente contos de luiz ruffato sem duvida a maior expressão literária de cataguases que também foi uma das grandes atrações do primeiro felica no ano passado quando no ver e fazer filme trabalhou-se contos de machado de assis no felica tive o prazer de conhecer entre papos e copos o alexei bueno transpirando poesia por todos os poros o bom humor e a boa prosa do carlos herculano revi também marcelino freire apresentado a mim por ronaldo cagiano na última bienal do livro de são paulo em que estive a grande atração do evento era bruna surfistinha os poetas joaquim branco ronaldo werneck e fernando abritta falaram da efervescência cultural em que foram co-participes nos anos 60 e 70 vi o ronaldo brito roque que acabou de lançar o seu romance barato dividir com muita competência uma mesa com carlos brito e melo participei de uma mesa ao lado dos amigos emerson teixeira cardoso,

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josé antonio pereira a primeira vez que li ruffato foi em uma edição de abril de 1983 ­ quatro poetas não conversa com alexei bueno sobre cinema que efervescente concluiu ótimo papo lendo um velho timbira coberto de glória guardou a memória do moço guerreiro do velho tupi e à noite nas tabas se alguém duvidava do que ele contava dizia prudente meninos eu vi eu vi o brioso no largo terreiro cantar prisioneiro seu canto de morte que nunca esqueci valente como era chorou sem ter pejo parece que o vejo que o tenho nest hora diante de mi eu disse comigo que infâmia d escravo pois não era um bravo valente e brioso como ele não vi e à fé que vos digo parece-me encanto que quem chorou tanto tivesse a coragem que tinha o tupi assim o timbira coberto de glória guardava a memória do moço guerreiro do velho tupi e à noite nas tabas se alguém duvidava do que ele contava tornava prudente meninos eu vi em versos felica encerrado ainda naquela noite nas mesas do goiaba alexei bueno após coletar pedras de bauxita no leito da ferrovia teve fôlego para declamar castro alves para nosso deleite e pasmo de incrédulos freqüentadores daquele bar josé antonio pereira cataguases mg alinhados que guardo com carinho até hoje fui conhecê-lo pessoalmente numa bienal do livro de são paulo no final dos anos 80 quando esta ainda ocorria no ibirapuera numa das esquinas do evento dei de cara com fernando cesário pequeno e ruffato ali fomos apresentados para minha tristeza ainda não vi os curtas produzidos no ver e fazer filmes deste ano no dia da apresentação ao público tinha compromissos de trabalho que me fizeram estar ausente de cataguases naquele momento antes disto juliana junqueira em nome da produção do evento convidou-me para gravar um depoimento sobre nosso escritor deixei lá uma singela e pequena fala o cinema iniciou-se aqui com humberto mauro e na mesma década a literatura assistia o brotar da revista verde de lá para cá literatura e cinema caminharam em paralelo até os anos 60 quando o poeta chico cabral produziu o anunciador agora em 2010 cinema e a obra de um autor cataguasense estabelecem um diálogo até então inimaginável com direito até a performance do autor como ator no sábado de manhã último dia do felica lá no memorial humberto mauro não houve jeito antes de chegarmos à poesia eu emerson teixeira enzo menta vanderlei pequeno e três jovens mantivemos uma boa isto é ou não é cinema

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w h alden um poema não escrito a verdade do poeta como a verdade do autentico escritor difere por completo dos pronomes pessoais o poeta finge o eu o tu e o ele de maneira inconsciente porém em sua sinceridade fala-se a verdade jamais em sua biografia no máximo há que pedir-lhe que a veracidade pareça autentica exigir-lhe que a tenha vivido que seja uma experiência assimilada de seu eu oculto a qualquer poema escrito por outra pessoa o que lhe exijo primeiro é que seja bom quem o escreveu tem uma importância menor a qualquer poema escrito por mim o que primeiro lhe exijo é que seja genuino reconhecivel o mesmo que minha letra como algo que tenha sido escrito para o bem ou para o mal para mim no tocante a seus próprios poemas as preferencias do poeta e as de seus leitores muitas vezes se aproximam porem raras vezes coincidem porém este poema que gostaria escrever neste momento teria que ser não só bom e genuino alem de me satisfazer também deve ser verdadeiro leio o poema de outra pessoa no qual se despede de sua amada entre lágrimas o poema é bom me comove como o fazem outros bons poemas é genuino reconheço a letra do poeta em seguida em uma biografia descubro que na mesma data em que o escreveu o poeta estava de saco cheio da moça porém fingiu chorar a fim de evitar uma cena e não ferir seus sentimentos afeta este dado a minha apreciação do seu poema em absoluto nunca conheci seu autor pessoalmente e sua vida privada não é assunto meu afetaria a minha apreciação se eu tivesse escrito o poema do mesmo modo espero que não o sentido da poesia abstenho-me de expressar o sentido que a poesia tem para mim em público mais que nada por que este mundo é tão fragil e paradoxal que um pode chegar a ofender ao outro de um modo inaudito por acercar-se a uma teoria estética ou por defender um valor apreciado completamente distante a essa outra pessoa o mais incrivel é ofender alguém que nem sequer trocara duas palavras contigo sobre o sentido de um poema ou desiludir a um leitor porque descobre em tua biografia que somente tomas um copo de vinho no café da manhã tudo que sei de poesia e de literatura e de vida o tenho dito em meus poemas a maior parte de minhas verdades estão precisamente em minhas elaboradas mentiras quando escrevo nunca minto sou só palavra tempo espaço pronomes ritmo onde repousa e espressa minha experiencia meu eu minha memória e meu desejo minha tradição o que tudo muda e sempre permanece o que sou o rosto que busco e o que encontro em cada um dos meus momentos ele que se transforma passado amanhã sem perder meus traços sem deixar de ser eu.

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flausina márcia da silva antes do fim onde vão os cabelos de nossas cabeças caídos se os leva o vento podem estar entre as estrelas se água os leva rodeiam rodeiam embolam-se o fio de cabelo passa em fundo de agulha até no pincel pinta cores movimentos do rabo do camelo a música essa está cheia de caudas crinas couros cabeludos feiticeiros feiticereiam muitas eras e destinos com cabelos chifres derretidos em mil e um ornamentos morrem depois do fim.

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flausina márcia da silva linhagem cupins roc,roc roc roeram meus papéis nas mãos de eurídice me calo com voz de quem procura um traço alexandrinos são versos de outra pessoa os meus são flausinos cheios de asas e cantadas para os magníficos só decifráveis após lutar contra o azar e os códigos memorizo manchas e penhascos da normandia me esqueço das matas pagãs poema condescendente com as armas e os barões clama origem singular e própria nua crua e sem livro hora de escrever com mãos primaveris.

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flausina márcia da silva eleição poesia anti-comício candidato quero falar do dinheiro escasso juros altos escasso e a dívidas loucura credores arriscam o quê mesmo a força da gravidade exclui o dinheiro ou decidiram já nossa ida candidato quanto vale meu voto na sua massa salarial o reino da necessidade está duro candidato em todos os sentidos ato-público se fizermos greves protestos demonstrações candidato seremos baderneiros ilegítimos monstros aos policiais no entanto em prol da categoria faculta-se o porte de armas a ocupação de quartéis sem o menor espanto ah república proclamada dos coronéis dos tenentes do voto proporcional de ninguém candidato qual é a sua república ou curral passeata candidato eu sou sem-terra sem-teto sem-renda você é sem-paixão sem-emoção sem-memória o carroceiro está certo lá de itajubá vaticina o brasil não tem povo o brasil tem público sem votos como negociar candidato flausina márcia da silva cataguases ­ mg

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antônio perin as flores de munique a sophie e hans school as flores de munique brancas rosas brotaram da clandestinidade com a fé e a coragem de seus jovens estudantes escondiam em invisíveis e sombrias frestas todas as vítimas da estupidez hitlerista ao vento folhas esfumavam apocalípticas pelos céus da alemanha bíblicos castigos numa oração juvenil contra a ferocidade daquelas hemorroidais caras dos nazistas zás pela suástica guilhotina escorreu o sangue de uma rosa branca na escuridão da crueldade nazista uma a uma pétala a pétala o carrasco desfez a rosa branca mas suas palavras rubras palavras sufocadas no próprio sangue não calaram ao silêncio imposto antônio perin itaobim ­ mg

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rubens shirassu jr o teu corpo muda o teu corpo muda não pedes consentimento a ti os teus cabelos frisos brancos flores da natureza você atravessou os tapetes abrindo portas os teus lábios os teus olhos carros alegóricos jogam rosas e folhas verdes ao léu o teu corpo tem a finesse de uma estátua grega pele de pêssegos ao leite ventre oval modelo em mármore o teu corpo é grávido não pedes consentimento a ti o tempo é grávido trabalha nesta barriga rubens shirassu júnior presidente prudente ­ sp

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emanuel medeiros adeus grécia não bastaram fibra e amor cai grécia universo solar adequação entre ser e destino envelhecemos ­ morte na soleira da porta fragmentos de sonhos ­ só fragmentos ­ não a totalidade adeus grécia adeus despedidas ­ só despedidas ulisses somos apenas seres virtuais homero envolto em brumas homens sem fibra carregando engenhocas eletrônicas caindo como folhas ao vento prenhes de cobiça ­ soberbos e miseravelmente rotos não não eram eternos onipotência só de papel deuses de barro tv o espírito sopra onde quer adeus grécia adeus pátria dos homens adeus pássaro da juventude inunda-nos o lamento de homens afundados ­ uma doída lembrança de que barro somos feitos não não só de vileza também busca mesmo acampados em sucursais do inferno caminhando em sombras sonho da eternidade pela arte para todos ­ fúteis deslumbrados sábios ­ haverá sim ­ como haverá o momento da revelação ­ e será tarde muito tarde adeus grécia adeus desfeitos como pó varridas cinzas irrelevantes ou ­ para alguns ­ nobres nessa finitude sonâmbulos clones dos nossos sonhos escritores de narrativas epigonais não naveguei nos melhores mares preciso navegar ­ sempre ­ infinitamente humano emanuel medeiros vieira brasília df

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leonardo garet sinais os barcos a cada espaço de tempo golpeiam o cais não alcançam a prudência o costume a ordem das coisas eles vêm assim confiantes como cachorros ou namorados e põem toda a amplitude do mar a bater a cabeça contra o casco deve ser para que eu festeje meu aniversário à volta de uma viagem sem fim deve ser que o casco estilhaçado aponta meu dia para voltar a encontrá-lo as frutas a derrota das laranjas se estendeu aos sulcos recém-plantados caminha-se pisando a cor apoiando o sapato sujo sobre o gosto os palhaços colocam laranjas nas calçadas vendem-se os venenos disfarçados de laranjas e os livros se empilham e as palavras dos pregadores e cai como única esperança a ressurreição verdadeira das frutas tradução ronaldo cagiano propósito leonardo garet outra vez pra cima para a água a tocar antes o corpo quando é pureza e alegria outra vez amarrando o pacote de meus dias tristes para deixá-lo em um lugar onde não me encontre outra vez umas poucas palavras das que vão dando o impulso completo da alegria nasceu em 1948 em salto uruguai onde vive e dirige o cntro cultural casa horacio quiroga È contista poeta e ensaísta entre obras publicadas destacam-se pentalogia 1972 primeiro cenário venezuela 1975 máquina final 1978 pássaros estrangeiros 1988 palavra sobre palavra 1991 os homens do fogo 1993 outubro 1994 a casa do julgar 1996 os dias de rogelio 1998 anbákoros 1999 cantros e desencantos 2000 saída de página 2001 e vigília de armas 2003

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