Chicos Especial

 

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80 Anos de Chico Cabral

Popular Pages


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chicos edição especial 80 anos chico cabral e-zine de literatura e idéias de cataguases ­ mg capa dedim de prosa neste novembro de 2010 logo depois do feriado da proclamação da república comemoramos os 80 anos do nosso poeta maior foi na quinta véspera do dia da bandeira e antevéspera do dia da consciência negra isto mesmo no dia 18 de novembro corta para guimarães rosa lá em 1954 o livro é grande sincero o digo olha até do poema da identidade estou gostando não é engraçado poesia é coisa-causa difícil e fácil é uma espécie de contágio corta para hildegard angel em 2003 no jb ainda circulava em papel a cidade mineira de cataguases viveu dias de glória por ocasião do lançamento do livro de poemas de francisco marcelo cabral a cidade ficou cheia de intelectuais de todos os cantos do país estavam lá a diretora do departamento de ensino da sub-reitoria de graduação da uerj ira maciel a crítica de arte ledy gonzales o escritor carlos sussekind o médico poeta octávio mora vânia chaves titular de literatura brasileira da universidade de lisboa as poetas lélia coelho frota maria do carmo campos lina tâmega peixoto e o editor léo christiano corta para josé lino grünewald em 1993 rigoroso inventivo impecável capa de gabriel franco sobre foto de victor giudice editores josé antonio pereira emerson teixeira cardoso corta para manoel bandeira em 1949 ao poeta de cataguases autor do belo centauro o poeta manuel bandeira envia um ramo de lauro saudando-o desta maneira Ás futuro entre outros ases corta para 18.11.2010 e o poeta faz 80 anos feliz aniversário chico cabral colaboradores desta edição antônio jaime soares antonio olinto in memoriam fernando abritta joaquim branco ronaldo werneck zeca junqueira fale conosco em chicos.cataletras@hotmail.com visite-nos em http chicoscataletras.blogspot.com 2010 ano do centenário de rosário fusco

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chico cabral francisco marcelo cabral por chico cabral sou cataguasense safra 1930 aprendi a ler sozinho me ensinaram a escrever primeiro minhas professoras d ruymar d sílvia e d lyra depois o professor gradim e muitos outros professores cada qual muito interessado em me afastar das trevas da ignorância porque certamente eu era mais ignorante do que eles e isso parece que os incomodava porque todos estiveram muito envolvidos nesse processo de treinamento pelo qual talvez sem o perceber tentaram me passar uma concepção de mundo sacralizada por sua expressão em palavras escritas que eu deveria reverenciar como definitivas marcas concretas da realidade acho que eu não aprendi bem essas sábias lições e a primeira questão fundamental com que me deparei e quase parei foi descobrir que as palavras são portas de saída mas não de entrada e que a emoção ou conceito presentes num texto são de quem o lê e não mais apenas de quem o escreveu por isso inclui neste livro trechos de cartas pessoais que a meu ver melhor do que críticas formais permitem avaliar em que medida os textos propostos em meus poemas deflagraram nos meus escassosmas-seletos leitores emoções ao menos assemelhadas às que eu pretendi passar o humberto ribeiro que bateu a foto que ilumina estas orelhas me perguntou se este era o meu primeiro livro brinquei que sim e vi que estava sendo verdadeiro este livro dos poemas é de fato meu primeiro livro editado composto impresso e lançado segundo todos os ritos e costumes porque vejam bem o centauro com capa de luciano maurício foi uma edição do pai do autor distribuída à la diable inexílio graficamente realizado pelo trio ronaldo werneck josé maria dias da cruz e adriana monteiro foi impresso na gráfica de um amigo para ser distribuído ao deus-dará na festa de aniversário do chico peixoto a quem é dedicado baile de câmara foi todo composto e impresso por mim em papel importado que só deu para 45 exemplares o livro não era assinado pelo autor que apenas se reservava o copyright chamei a essa brincadeira editorial de edição sub rosa impresso por mim o poema em 3 cantos foi distribuído aos amigos presentes à festa de meus 70 anos É isso espero que este meu primeiro livro encontre os seus leitores primeiro entre as pessoas de que já gosto e admiro e depois também entre aquelas de quem passarei a gostar por sermos da mesma tribo in livro de poemas 2003

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antônio jaime turbilhão de raciocínios simultâneos num sábado simpático em 1999 joaquim branco reuniu em sua casa um grupo de amigos para uma sabatina em torno de francisco marcelo cabral este como sempre soltando criatividade pelas ventas deixando-nos de boca aberta tantas revelações lhe saíam da própria ele sabe tudo de um tudo e posso provar uma vez uma jornalista me pediu para ajudá-la a escrever matéria sobre um medicamento digamos vitamina c para uma revista valhame hipócrates ­ pensei e pus a moça ao telefone em contato imediato com o superhomem que lhe passou todas as coordenadas sobre ácido ascórbico efeitos e preceitos afins ­ e ela faturou um dinheirinho fiquei feliz por poder socorrê-la também ao confirmar os super poderes do nosso cabral para simplificar na casa de joaquim o mais jovem da turma filho do médico e escritor fernando cesário ficou encantado ao saber que joão guimarães rosa cuja obra estava conhecendo na faculdade fora colega sala a sala cara a cara do nosso poeta e mais este leu simplesmente os originais de corpo de baile e grande sertão veredas aí é demais para o meu coração também seria uma entrevista tudo devidamente gravado em duas fitas cassete não fosse marcelo um turbilhão de raciocínios simultâneos organicamente criativo disse paulo francis sobre glauber rocha marcelo é por aí e a propósito naquele dia falou também que às vezes era confundido com francis ­ ele próprio ao ver pf tomando um café num balcão pensou o quê que eu tô fazendo ali nasceram no

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antônio jaime mesmo ano por sinal com algumas semelhanças físicas de forma que cortamos um dobrado ao tentar conduzir aquele papo ao papel debalde o jeito foi joaquim pedir a cabral para resumir seu arrazoado publicando-o por fim no número 1 do caderno c do jornal cataguases em 25/02/2001 não preciso repetir o que foi publicado basta portanto lembrar certos momentos como quando recitou um poema então inédito de sua lavra ei-lo mim foi benéfico eles me inspiraram uns versos seguidos de outros que o próprio fmc inspirou ao dizer que os ritmos poéticos o perseguem vide em inexílio as redondilhas produzidas pelo movimento da correia do cilindro da padaria de seu pai não só aí também por exemplo o ritmo emitido por um simples abrir de torneira juntei tudo num poemeto e marcelo gentilmente o publicou na contracapa de seu livro cidade interior ei-lo ao outro cabral ars poetica para lélia coelho frota bem uns duzentos anos pós-corrida do ouro de novo garimpouros a exaurir o rio pomba não de todo sem lucro pode provar no papel francisco marcelo cabral o homem que sabe tudo basta só um exemplo poeta no seu entender é o que puxa a cadeira a poesia é o tombo ouve troqueus no jorro da torneira anapestos no ralo pensa em verso e ao escrever sai ouro o leitor se assenta o poeta puxa a cadeira a poesia é o tombo o leitor se enleva o poeta o empurra no abismo a poesia é o voo o leitor se esquece o poeta o sacode aos berros a poesia é o susto o leitor é a ninfa o poeta o fauno no cio a poesia é o gozo como ele sabe tudo de um tudo em outro momento falou que teve acesso a documentos da paranapanema de metais e lá constatou que nos aluviões dos rios pomba e muriaé há ouro na proporção de 7/1.000.000 a exploração é viável dependendo de uma draga de grandes dimensões e difícil transporte com ou sem draga já que a areia das construções locais provém daqueles rios concluiu que nossas casas contêm ouro na mesma medida domus aurea só um poeta pensaria isso fiquei algum tempo matutando/maturando aquele assunto e lembrei-me que por aquela época uns garimpeiros andaram revolvendo o leito do pomba quiçá o coração de algumas fêmeas nativas sedentas de aventuras não posso aquilatar o que auferiram da aurífera féria para acho fraquinho o meu perto do seu de qualquer forma obrigado poeta nascido em novembro você pode dizer que completa agora ao pé da letra oitenta primaveras e a deste ano aqui na sua terra está fértil chuvosa as mangueiras jaboticabeiras pitangueiras carregadinhas de rebentos do jeito que você as conheceu em suas primeiras incursões pelos quintais dos vizinhos quando havia galos noites e quintais reza a canção de belchior.

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emerson teixeira cardoso o poeta da primeira página trecho de uma carta de um leitor de o cataguases na década de 50 todo número desse semanário costumava trazer na primeira página um poema de francisco marcelo cabral até aí tudo bem acontece que um dos que li é genial nesse poema o poeta externava a sua dor pela perda de uma irmã republiquem-no por favor a l soares reparem que é mais que um pedido é uma súplica o poeta no caso é o autor de pedra de sal livro de poemas de sua lavra original além de outros que publicou desde a década de 40 quando destacou-se por ser um dos principais expoentes dessa geração que viria culminar no concretismo o poeta no caso é de cataguases e não por acaso como já se convencionou dizer nada acontece por acaso nem mesmo a pura invenção dessas mal traçadas linhas que é mais fruto da admiração que tenho por ele o poeta da primeira página da rua dr sobral da padaria cabral que aliás produziu na minha infância os mesmos biscoitos finos tão finos como os versos que compôs dos outros livros que publicou entre 1950 e 1990 citarei entre outros títulos o centauro quem tiver faça o favor de me emprestar e inexílio um caso mal resolvido mal de amor com a cidade que começa por dizer nada me faz te amar menos e a gente logo no início descobre o porquê de conteúdo essencialmente autobiográfico marcelo faz desfilar toda uma vivência cataguases/mineira que começa na infância do poeta e que muito faz lembrar o paulicéia desvairada de mário de andrade falo da linguagem ou processo de composição evidentemente que usou e que bem poderia comparar ao amacord de fellini ou roma se é que não estou indo longe demais para situar o bardo cabral e suas múltiplas e sintéticas descobertas francisco marcelo cabral se escreve no plural o poeta também contista e aí com certo esforço que busco no fundo da memória o título do conto que li dele ­ acho que foi na revista Água o tema é de um nadador um adolescente numa competição quando é observado pela própria mãe que assiste a transição ou passagem do menino para a idade adulta genial chico cabral poeta singular símbolo de um movimento literário local sui generis quando um dos seus caciques a partir dele tudo se definiu desde as primeiras criações da meia pataca o incipiente escritor já prometia os novos cantos de seus ideais mais concretos mais do que o poema acima citado vale a pena degustar outros sabores de seu fazer poético nem que seja consultando velhos jornais e pelo menos por enquanto o caminho mais fácil é do arquivo municipal se você não conhece o poema então confira in o cataguases mg 11/02/1996 rëquiem no túmulo de minha irmã uma chama para sempre fria nos nossos olhos amantes a lágrima imóvel e a poesia se desprendendo do monte de terra por sobre os mortos mil anjos mil asas soltos mantêm os homens despertos sobre as cabeças dos anjos diademas diademas luzes das luzes que brilham nas luzes dos meus poemas e sobre todas as luzes imarcescível infrangível a rosa e o cristal do meu sonho o poder do impossível e sobre a rosa e o cristal sobre as forças e energias o poeta senhor das tristezas a que contrapõe alegrias.

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joaquim branco música da poesia mesmo depois de publicado toda a poesia de francisco marcelo cabral gostaria de comentar algo sobre seu livro há muito aguardado pedra de sal o título estava mesmo destinado a não vir a lume pois acabou alterado para baile de câmara e publicado em 1993 pelo próprio autor em tiragem mínima e semiartesanal assim apenas 40 privilegiados tiveram acesso a sua leitura mas o que levou marcelo cabral a trocar a pedra pelo baile o sal pela câmara À primeira vista e por um solução simplista se poderia responder que esses nomes são também os de dois poemas da coletânea e que a escolha recaindo sobre um deles simplificaria a questão volta a insistente pergunta mas o que realmente o teria levado à troca o tempo passou ­ mais de quarenta anos ­ alguns poemas sofreram mudanças sempre para menos o primeiro pedra de sal é o de número 3 ai minas de antiga pedra velhice do chão ai minas colhi nas tuas colinas a flor do cristal que medra mergulhando veios de ouro na rocha macia e aberta e ei-la uma aurora desperta no diadema do touro cabral 1993:3 em texto curto evocativo o poeta se dirige a minas na interjeição sofrida e pedregosa colhe a flor procura o veio de ouro para no final encontrar um recomeço ­ na aurora o segundo tem o número 13 intitula-se baile de câmara não me é fácil dizê-lo mas imagina uma noite o fundo silêncio que há no fundo do vasilhame da cozinha agora em repouso nos armários guardando ainda o cheiro de tudo o que hoje serviu para abrandar o corpo iludindo-lhe a fome e pensa no animal que se enrola junto a teus pés este morno segredo que toda carne encerra gravemente pensa na voz dos pássaros de repente represa quando a aurora é ainda menos que uma estrela descorando no céu junto à linha dos montes;

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joaquim branco e o raso silêncio que há no chão povoado de vermes não sentes que no chão dentro dele se formam as delicadas vias de acesso como esperar pois outros sinais que os mudos acenos gestos recolhidos como pudor de ternura às vezes este pássaro é tão-somente uma figura debuxada nem sequer lhe pertence para o vôo a linha das asas leves como os as das alturas tudo é assim suspenso tanques e piscinas naufraga a mancha verde de uma anêmona mas tu sabes dos pequeninos peixes que se agitam e é claro que provaste o ácido prazer do limo ou seria impossível que eu te estivesse falando como se fosses uma lagarta colorida e eu a muda vibração dos bordos de uma folha ao sopro desta brisa leve cabral 1993 p 15 também escrito em 2ª pessoa porém bem mais longo o poema remete a alguém a quem se dirige o eu-lírico do poeta vou ao dicionário baile de câmara não há registro lembro-me de música de câmara sem necessitar consulto novamente o dicionário qualquer música vocal ou instrumental destinada a um pequeno auditório a um solista ou a pequenos agrupamentos de solistas como por exemplo a sonata para vários instrumentos ferreira s.d p.963 quem sabe matei a charada baile de câmara um baile para poucos convidados a fala em 2ª pessoa prevê um duo que desliza em passos pelo salão ante um seleto auditório o cerne da coisa é conduzido pela mão da linguagem não sem mistério segredo para chegar à poesia complementam a noite o ambiente silêncio ao fundo a imaginação viaja do vasilhame da cozinha que serviu à fome humana ao animal e aos pássaros com suas vozes até o chão onde se arrastam os vermes e de volta às estrelas para encerrar com os pequeninos peixes o poeta mergulha nas coisas e nos seres pergunta procura e ­ folha que é ­ só recebe como resposta uma brisa leve a conclusão paradoxalmente já tinha vindo antes no fragmento tudo é assim suspenso os motivos agora se aclaram o poeta à evocação da terra preferiu o debuxo do pássaro sem o leque das asas e o momento que passa ou o vento que leve deixa apenas o sopro na paisagem notas bibliográficas cabral francisco marcelo baile de câmara ­ poemas rio de janeiro edição sub rosa 1993 ferreira aurélio buarque de holanda novo dicionário da língua portuguesa rio de janeiro nova fronteira s/d joaquim branco in janelas de leitura livro-2010 o magro volume com apenas 30 poemas e preparado para um público reduzidíssimo 40 leitores emite um solo apurado em rara melodia enfeixada em papel especial.

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ronaldo werneck centauro aí tem coisa baile de câmara inexílio aí nessa pedra de sal sim é chico marcelo é xikin kabral cataguases 1963 meti-me dentro de uma cápsula folheada a ouro e prata como um fruto em sua casca como john glenn em seu atlas e pássaro perpendicular depois pássaro circular movido a óxido de berilo já não sabia quem era bicho aragarça ou borboleta dando três voltas orbitais em torno do planeta É sua voz a autenticar com rara precisão os linossignos do cassiano ricardo e de sua viagem exorbitante sua voz a do meu futuro compadre padrinho do pablo que me chega ainda agora como naquela tarde de sábado na casa do kincas branco lição dicção de poema-pois-é-poema para sempre guardada ano seguinte na bahia jeremias sem-chorar na memória eu ensaiava dizer o poema do cassiano na abertura de uma exposição de poesia concreta que organizara dizer como ele mas sem sua precisa força precisa-se de quem suba ao céu num cartaz pintado a ouro a lua sem nenhum véu porque já sem oculta face me sorriu como recusar um `precisa-se quando a precisão era minha perto dele sempre foi minha a precisão copacabana 1962 rumo à casa de alexandre eulálio olha o alexandre é dos maiores intelectuais do país ele me dizia enquanto entravámos no elevador hoje é simplesmente o leitor brasileiro junto à universitá degli studi di veneza ele é quem indica as obras a serem adquiridas pois é o alexandre primo predileto do meu futuro amigo e cineasta david neves e mais tarde o autor de a aventura brasileira de blaise cendrars o poeta suíço cendrars que se faria parceiro dos modernistas de 22 e com eles o papa mário de andrade e oswald seu profeta viajaria a minas blaise braise brésil brésil cendré o cendrars do controvertido poema pros rapazes da verde aux jeunes gens de catacazes mesmo sendo klaxon a revista mencionada blaise entraria no imaginário dos verdes apesar da desconfiança de enrique de resende falei pro fusco isto é trote trote do alcântara do mário de todos o cendrars não está no rio e mesmo que estivesse não nos mandaria verso mas logo se confirmava a sua presença no dia seguinte veio o rosário com suas pernas quilométricas trazendo uma página do correio da manhã onde vermelhava um traço marcando a notícia cendrars no rio que alívio o cendrars cuja complexa formação cultural no dizer de alexandre eulálio abrangia desordenadamente gourmont e bérgson a `Évolution créatrice e o `latin mystique espiritualismo russo e anarquismo internacional fetiches africanos e locomotivas a vapor a palavra de nerval e a de apollinaire um cosmopolitismo entusiasta e generoso e a obsessão por paris ­ tudo isso organizado numa espécie de simultaneidade cubista que reconstitui para nós de maneira muito expressiva o estilema 1920 da vida moderna e tome de estilemas e erudição e redescobertas de um momento de efervescência do caldo cultural brasileiro mexido pela pá dos paulistas sob o olhar de atento entusiasmo do suíço toda essa blaiseriana digressão só prá dizer que eu e todo o eruditíssimo mundo de alexandre eulálio passamos boa parte daquela noite de copacabana ouvindo atentamente nosso amigo falar de tudo um muito e sempre com grande propriedade acredito que até cendrars se lá estivesse ficaria a escutá-lo com o mesmo fascínio

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ronaldo werneck que o escutávamos acho mesmo que aquela complexa formação cultural antevista por eulálio no poeta suíço seria também de bom tamanho com as devidas adaptações para o nosso mais que cultíssimo amigo nós três nos encontraríamos anos mais tarde numa galeria da gávea,lançamento do livro sobre cendrars para ronaldo werneck da raça boa dos cataguás com o abraço do alexandre eulálio rio 23 de outubro de 1978 acho que ele só não retomou o papo anterior com todo o seu brilho porque não teria sentido empanar a noite de glória do amigo alexandre ou retomou era meu aniversário e saí mais cedo da galeria e da gávea pra me encontrar com não sei quem não sei onde não sei porquê quando para descrever um homem sob a chuva você diz que ele vai vestido de água corrente ­ sinto que aí tem coisa dizia carlos drummond de andrade em carta de 19.12.1949 onde exaltava o centauro livro de estréia de meu poetacompadre e tinha mesmo tanta coisa que anos mais tarde drummond usou inadvertidamente imagem semelhante no poema sob o chuveiro amar do livro amor natural sob o chuveiro amar sabão e beijos ou na banheira amar de água vestido em 1954 diria guimarães rosa sobre pedra de sal depois intitulado baile de câmara o livro é grande poesia é coisa-causo difícil e fácil é uma espécie de contágio centro do rio 1967 leone e associados eu à poesia só permito uma forma concisão precisão das fórmulas matemáticas às parlengas poéticas estou acostumado eu ainda falo versos e não fatos porém se eu falo a este a é uma trombeta-alarma para a humanidade se eu falo b é uma nova bomba na batalha do homem É de novo sua voz-maiakóvski interrompendo com precisão a tarde o escritório e seus projetos eu que trouxera a tradução by augusto de campos e o leone que nunca ouvira nada do poeta russo leone e eu boquiabertos com a força da poesia sua voz a voz do poemaespanto parando a avenida rio branco 1979 rua fernando ferrari 61 rio ­ onde mais tarde meu compadre iria morar ele e o poeta afonso félix de souza mergulham em litros de larajanda enquanto eu e nosso anfitrião o não menos joão cabral de melo neto derrubamos discretamente uma garrafa de uísque dores de cabeça à parte laranjada uísque não impedem que goiás-félix pernambuco-cabral e minaswerneck se contagiem com sua vivacidade máquina de bom-humor rua duvivier 49 copacabana 1996 idem ibidem para minaswerneck maranhão-gullar até o gato do poeta ribamar ferreira quedou extasiado enquanto o ouvia o passeio ao léu suspenso sobre a mesa coberta de poemas objetos cataguases-rio julho/agosto de 1968 o poeta do centauro após rápido galope iniciou um processo de autocrítica que ao mesmo tempo reduziu a sua produção publicada e acredito enriqueceu a sua visão do mundo num processo de tomada de consciência existencial e artística que só interessa mesmo ao seu diário íntimo me dizia ele em entrevista publicada pelo sld de repente vocês passaram a existir e de repente eu descobri que fazia parte da memória de vocês que eu vinha antes que no entender de vocês eu fazia parte de uma série histórica em que vocês buscavam se integrar que eu tinha de responder por uma imagem que vocês a todo o momento estavam conferindo num processo que até hoje aliás eu pratico para cima do francisco inácio peixoto e do fusco para sublime aporrinhação dos dois até então eu não me dava conta de ter uma dimensão histórica pequeno burguês preocupado com a minha aut-elaboração com os retoques no meu universo pessoal e otras frescuras do mesmo quilate não há poetas há poemas ­ afirma ele num sólido insight de seu atualíssimo livro de poemas instituto francisca de souza peixoto 2003 e ainda do alto de sua merecida cátedra nesta ars poetica para lélia coelho frota o leitor se assenta o poeta puxa a cadeira a poesia é o tombo o leitor se enleva o poeta o empurra no abismo a poesia é o vôo o leitor se esquece o poeta sacode aos berros a poesia é o susto o leitor é a ninfa o poeta o fauno no cio a poesia é o gozo o tombo o vôo o susto o gozo a poesia é francisco marcelo cabral meu guru de todo o sempre naquela noite de autógrafos de 1978 alexandre eulálio honrou o poeta cataguasense segundo o próprio com a seguinte dedicatória para francisco marcelo santo da minha devoção e personagem decisiva de minha aventura particular com a teoria e a práxis da amizade que começou às margens do meia pataca com o abraço fraterno do alexandre eulálio rio 23 de outubro de 1978 também assino em baixo cataguases 11 de agosto de 2003 gal art nº 31 mg agosto/2003

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antonio olinto o tamanho do verso quando passou o homem a escrever em versos ou a pensar em verso ou a engenhar uma frase mais longa e parar no meio houve talvez nele a necessidade urgente de respirar antes de ir em frente com o que desejava dizer a explicação grega para o fenômeno do verso é simples e clara foram os autores de teatro que impuseram uma pausa depois de eles atravessarem o proscênio do palco de uma extremidade a outra ou então os próprios atores hajam resolvido fazer uma pausa a cada travessia do palco ao mesmo tempo em que diziam o texto de modo que o resto desse texto ficasse para o retorno à extremidade anterior a verdade seria então que o uso de compor uma série de palavras com determinadas sílabas e logo depois outra série com melodia parecida teria criado também o verso normal do poema no caso de francisco marcelo cabral até o tamanho de seu verso parece que ele equilibra as palavras de cada um pois é nas palavras que repousa o cântico o tamanho determinando o alcance que elas vão atingir estas considerações sobre o verso antigo e sua função surgiram-me agora por causa da excelente poesia de francisco marcelo cabral cujos versos se postam com a força de sua presença nos proscênio do poema fazendo-nos ao mesmo tempo lembrar de cataguases de ascânio lopes e de rosário fusco um milagre surgiu no brasil naqueles anos 20 quando uma cidade da zona da mata mineira inovou em tudo inclusive num então setor quase virgem entre nós que era o cinema os poemas de agora têm e nada têm a ver com isto mas vêm de um mesmo palco e de uma mesmo proscênio leiam-se estes versos do poema ai de nós oh um carvalho crescendo é tão sério e vem um lenhador com seu machado e fere-o a carne é mesmo triste um barco é triste que nos cabe de tudo quando existe eu em trânsito estou vida é viagem e não deflagrei auroras nem miragens aquele que chegou a terra quere-o ai de nós se não fosse o mistério o livro de francisco marcelo cabral é também de viagem e que livro não o é só que neste as viagens são verdadeiras a lugares definidos mas nem sempre a lugares mas visitas a prédios a estátuas como neste pietá esta mulher mais jovem que o homem sobre seus joelhos tota pulchra est nave sagrada empuxada pelo sopro enamorado do arcanjo no rosto nenhuma dor mas a pura devoção e piedade com que aceitou gerar parir nutrir amparar virgem de alma e de corpo o corpo do filho de seu deus de repente um encontro diante da maison de victor hugo mas na surpresa uma alegria diante do reconhecimento É o poema place des vosges metido em lãs me esgueiro pelas arcadas pouco sol uma névoa de outono em frente à maison de victor hugo alguém grita o meu nome em francês /surpresa e mistério /logo desfeito em riso o turismo tem disso colega de colégio louca para ser vista ali o modo como francisco marcelo de cabral faz poesia é o de que ele domina o palco invisível que ele e todos os poetas atravessam e com isto consegue dar a cada som a cada sílaba uma participação adequada na imagem que faz com as palavras e no modo como as transforma em poesia cidade interior de francisco marcelo cabral é edição do autor capa de josé maria dias da cruz design gráfico de ronaldo werneck revisão de antônio jaime soares orelha de p j ribeiro e prefácio de andré seffrin tribuna da imprensa rj 30/10/2007

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josé antonio pereira um poeta e tanto apesar do rio pomba de tantos poetas cantadores e versejadores é o rio meia pataca à moda de fernando pessoa o meu maior rio do mundo o pobre ribeirão nasce e morre em cataguases morre mesmo em todas as possibilidades e impossibilidades que a morte encerra dei uma olhada no dicionário lá consta pataca ­ substantivo feminino significa pequena quantidade insignificante palavra de origem controversa se de origem italiana patacca se provençal patac ambas também de origem duvidosa não tenho mais duvida o meu meia pataca é de origem provençal tudo isto para dizer que chico cabral começou lá na revista meia pataca a qual editou juntamente com lina tâmega peixoto também poeta esta uma verdadeira tecelã das palavras a meia pataca feito o ribeirão acabou por aqui mesmo mas nós e a língua portuguesa ganhamos dois magníficos poetas conheci sua poesia através do meu amigo emerson teixeira que vivia falando do centauro e inexílio ele sabia vários poemas de cor e salteado coisa de aluno do newton rossi e do gradim um dia me apareceu com nada mais nada menos do que o centauro em sua primeira edição presente do próprio autor confesso que tentei de todas as formas por as mãos sobre a obra cansei de pedi-la por empréstimo com o firme propósito de surrupiá-la tudo em vão tinha que me contentar em ouvilos do amigo e ler poemas esparsos aqui e ali tempos depois conheço chico cabral quando do lançamento do livro dos poemas um livraço ali estão de centauro a pedra de sal ­ foi na véspera do sete de setembro de 2003 em noite calorenta e calorosa lá no chica com direito a filme escambau sobre a batuta do ronaldo werneck no dia seguinte em uma turnê pela cidade organizada pelo cairu conheci intelectuais de vários cantos e cantares deste país todos aportaram às margens do meia pataca para prestigiar o poeta em passagem pelo colégio cataguases ele nos descreveu em detalhes o mural do portinari apontando vários membros da velha guarda comunista retratada no famoso painel ainda ali na antiga casa do diretor espaço hoje dedicado ao professor gradim rimos muito de um aviso na biblioteca do local favor não tocar nos livros depois que li inexílio senti uma forte necessidade de reler mensagem do pessoa e daí você pode me perguntar na minha cabeça doida de leitor este é meu método de ir e vir entre os meus poetas favoritos acho que aquela melancolia da solidão do navegar dos portugueses que sinto em pessoa sinto um tanto dela na melancolia das montanhas mineiras que é a ausência do nosso cabral de sua cidade o fato é que mensagem e inexílio têm o mesmo número de letras e pessoa e cabral são sobrenomes bem portugueses o pá É melhor parar minhas releituras estão indo longe demais voltei a vê-lo por aqui em 2007 no lançamento de cidade interior em evento onde também foi lançado Água polida de lina tâmega mas foi neste ano de 2010 que tive oportunidade ao lado de emerson de ouvi-lo por um bom tempo durante o lançamento de prefácio de vida de lina tâmega entre papos sobre livros e poesia lembro-me de um bom assunto para os historiadores da cidade a significância dos imigrantes italianos no início da produção cultural de cataguases citando variadas áreas e muitos sobrenomes indo da música ao cinema É óbvio que minha incompetente memória e minha terceira paixão ­ o cinema só me faz lembrar do comello e agora em dezembro com

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josé antonio pereira imensa alegria o reencontrei no lançamento de campo marcado desde a primeira vez que o vi sempre em cataguases noto sempre a presença de lina tâmega parece-me que desde a revista meia pataca eles são irmãos siameses na poesia para mim um zé a melhor homenagem que se faz a um poeta do tamanho do chico é ler um poema seu leiam abaixo um que se tornou nos últimos dias o meu favorito de campo marcado unicórnio para cláudio murilo leal o poema é uma forma de delicadeza de um suicida que corta os pulsos na pia com a torneira aberta podes tocá-lo seu sangue não coagula nem tinge com sua rubra vazante tuas mãos curiosas apenas injeta-se transpondo para dentro de ti seu sumo de rubis esfacelados a púrpura de seus crepúsculos seus topázios hibernais não se escapa do poema ele te envolve com o diamante da cegueira e te estrangula com suas garras de pedra ave-leão de face aguda e fuzilante nunca decifrada tenta conquistá-lo e será teu como o unicórnio atado com cordéis de linho e seda submisso ao jugo amoroso da donzela em seu jardim de gozos e surpresas.

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fernando abritta diluindo em sonhos o inexílio 1 do poeta francisco marcelo cabral o poema parte 2 pÁginas em duas 3 um centauro cabeça no alto 4 patas ao chão terrestres telúricas terrais patas cavam aos pés das páginas subterrâneos da cidadememória fagulham sentidos brilhando sóis cerebral culto corta o real local com lógicadaga 6 parte alta das páginas fernando abritta 7 5 1 inexílio foi publicado no jornal cataguases em 1979 um murro em minhas convicções colonizadas por edgar alan poe salvador dali e pela teologia de michel quoist e foi a primeira visão de uma cidade múltipla a oficial e outras subterrâneas muitas outras de todas as formas e todas ocultas e agora reencontro inexílio cabral francisco marcelo livro dos poemas de francisco marcelo cabral contendo o centauro inexílio baile da câmara poema em 3 cantos e pedra de sal editora-empresa instituto francisca de souza peixoto cataguases mg 2003 pg 57 a 74 2 3 inexílio inaugura um processo novo onde o verso continua como notas de rodapé marcando as divisões da cidadememória constante no poeta essa dicotomia humano-animal que lembra a angústia de civilizados desligados da natura mãe pela coerção social o centauro foi o livro de estréia do poeta em 1949 onde o poema homem cavalo centauro funda a obra de francisco marcelo cabral 4 30 vezes nada aparece como verbo nadar uma só vez muitas outras como substantivo sem substância e outras como indefinido um invejado herói versado nas ciências do corpo pg 63 e um ah núncio de amorte pg 64 trazem o leitor pelo pé da na cabeça lógica do centauro nem o piso de pedra pg 61 ou as correias que estalavam em ritmo de redondilha pg 65 pronome e nada vai austeramente marcando a leitura em inexílio 5 página a sentir e aspirar da terra um cheiro de poeira molhada e de folhas aromáticas pg 68 6 nem quando registra uma cidade com valores não reversíveis à moeda pg 66 ainda que seja rodeada pelo ser vegetal e múltiplo raros agora breve inexistentes pg 71 nada reduz a conclusão de que amar menos é morrer pg 73 ou que nada é o que fica pg 74 7 não é verdade poeta ficaram em mim em nós essas marcas.

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zeca junqueira algozes inspirado no poema inexílio de francisco marcelo cabral eu também decido que nada cataguases nem a traiçoeira fala nem a fala estudada a falsa hospitalidade o desprezo pelos seus poetas de tanta doçura e nenhum centavo nada cataguases nem as costas a mim dada pelo irmão na permuta da fraternidade pelo dinheiro pela cupidez que cerra o punho ameaça e não reparte nada nem a troca da vida de coragem e para sempre celebrada pela vida calada e triste que range os dentes e os ossos e paga o preço da rendição vida fedendo a cinzas e a velório eu também decido que nada nem o meu longo exílio meu perpétuo exílio nem o medo de que a poesia não sustente a luta de que o poema não triunfe e não acenda a noite e eu morra louco e mudo no escuro das suas ruas de tempo nada cataguases nem a ameaça de que um dia o amigo enjoe e no meio do caminho o verso engasgue o encanto quebre e ele se vá eu decido que nada nem a perda da única esmeralda que tirei de ti nem as suas ruas agora sujas as suas praças sujas a sua oculta gente suja tudo podre tudo passado tudo vendido e comprado tudo estragado tudo fodido eu decido que nada cataguases eu decido que nada nem o pior dos vermes nem a pior loucura nada do que se oculta e me assombra nesse lodo fedorento que corre nas veias de seus algozes vai me fazer te amar menos.

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