O Campo - Coopermota - Edição nº2

 

Embed or link this publication

Description

Revista de informação agrícola, mantida pela Coopermota, com circulação bimestral.

Popular Pages


p. 1

Edição 2 • abril • 2014 Adubação verde Sementes com potencial de ativação da biodiversidade dos microorganismos A influência das chuvas no milho verão Plantio de segunda safra de olho em melhores preços

[close]

p. 2



[close]

p. 3

Editorial SUBSIDIAR O PRODUTOR COM INFORMAÇÕES As pesquisas destacam a importância da semeadura de culturas alternativas voltadas à proteção e valorização do equilíbrio do solo para a sobrevivência dos microorganismos ali existentes. A grande maioria dos produtores já teve contato com informações sobre cobertura verde, aliada a redução de agressões ao solo, consorciação e rotação de cultura, entre várias outras medidas. Porém, a aplicação destas iniciativas esbarram em alguns empecilhos. A semeadura de plantas leguminosas de ciclos curtos ou longos podem ser fonte de produção de sementes, além de contribuir para a formação da biomassa junto ao solo e protegê-lo com a redução da multiplicação de ervas daninhas e o auxílio no controle da temperatura, por meio da retenção de água no solo. Tais fatores aumentam a fertilidade natural da terra cultivada, ampliando também a produtividade das culturas comerciais. Diante dos problemas ocasionados pela estiagem e as altas temperaturas no Vale Paranapanema, a revista “O Campo”, buscou exemplos de aplicações destas iniciativas como forma de incentivar tais práticas. Temos como base o fato já atestado de que quando há a conservação do equilíbrio do solo, são ampliadas as reservas das plantas para enfrentar adversidades, sejam em períodos de estiagem como a verificada no Vale, ou em casos de excessos de chuva, entre outras. Pinçamos algumas experiências exitosas da região, como forma de incentivo para a aplicação dessas práticas. Trazemos nesta edição quatro reportagens sobre adubação verde e plantas de cobertura. Para referenciar o debate, abrimos a sequência de matérias com o pesquisador que já possui reconhecimento mundial na área de pesquisas relacionadas ao solo, Ademir Calegari. Experiências do cultivo de soja sobre a palhada da cana, sobre a adoção do consórcio entre milho de segunda safra e a braquiária, bem como informações a respeito da opção de plantio do coquetel de plantas de cobertura, tradicionalmente realizada no Vale entre o girassol, o nabo e aveia, mas também com outras opções de combinações de plantas. Reservamos espaço também para um balanço da safra verão a partir de dados de diferentes realidades de produtividade no Vale Paranapanema e trazemos nas próximas páginas alguns resultados preliminares de experimento realizado com diferentes variedades de Milho Verão em quatro municípios da região, conduzido pelo IAC. Além disso, apresentamos a expectativa de pequenos produtores frente ao plantio do milho de segunda safra, orientações sobre manejo da cultura da mandioca e de controle ao campim-amargoso. Boa leitura! Expediente Publicação da Cooperativa dos Cafeicultores da Média Sorocabana - Coopermota EDIÇÃO/ REPORTAGENS E FOTO Vanessa Zandonade Mtb 43 463/SP ARTE E DIAGRAMAÇÃO Lappis Comunicação IMPRESSÃO Triunfal Gráfica e Editora TIRAGEM 2000 exemplares ANÚNCIOS E PATROCÍNIOS Departamento de Comunicação Coopermota - 18 3341.9436 REPRESENTANTE COMERCIAL Guerreiro Agromarket - Florianópolis REVISTA O CAMPO Av. da Saudade, 85 Cândido Mota - SP PRESIDENTE Edson Valmir Fadel VICE-PRESIDENTE Antônio de Oliveira Rocha DIRETOR SECRETÁRIO Silvio Aparecido Zanon Belloto abril 2014 O CAMPO 3

[close]

p. 4

Olhar Cooperativo Sumário 05 MILHO DE SEGUNDA SAFRA Expectativas e medidas para alta produtividade Estamos iniciando mais uma safra de inverno na região do Vale Paranapanema. Serão cerca de 110 mil hectares cultivados com o milho de segunda safra. Saímos de uma safra verão que despertou a atenção dos produtores, os quais sofreram com as interferências climáticas, porém, o balanço geral é de que os danos foram inferiores às expectativas que chegaram a ser criadas em torno da longa estiagem e, antes disso, da incidência da lagarta Helicoverpa armigera nas plantações de soja. A ausência de chuva no final do ano em algumas regiões resultou em consideráveis reduções de produtividade, mas essa realidade não se aplicou a todo o Vale. Em outros casos, o que se verificou foi uma redução na lucratividade esperada, tendo em vista a sequência de bons resultados produtivos que acumulávamos nas últimas safras, principalmente no verão. A mudança de realidade frustrou as expectativas de muitos produtores e o plantio do milho chegou a ser de incertezas. Contudo, a prospecção de bons preços do milho diante de uma possível redução de oferta no mercado impulsiona o agricultor a realizar os seus investimentos com estimativas de resultados satisfatórios. Esperamos que ao final desta safra de inverno tenhamos bons resultados, os quais estão diretamente ligados ao desenvolvimento da região do Vale Paranapanema. Nosso departamento técnico continuará atuando ao lado do agricultor para buscar as informações mais precisas possíveis, contribuindo com o desenvolvimento rural do Vale Paranapanema. Para isso estará sempre apoiado em pesquisas realizadas com atenção aos aspectos particulares de nosso solo e clima, além de estar atento aos produtos e tecnologias disponíveis no mercado. O objetivo é mantermos a região com altos índices produtivos, adotando, para isso, medidas que também estejam voltadas à manutenção de um solo saudável. Plantas de cobertura Soja sobre a palhada da cana como opção de cobertura Reciclagem de nutrientes e massa verde Trio nutritivo: Equilíbrio nas condições do solo Poda da mandioca em adversidades climáticas Balanço de colheita A influência das chuvas no milho verão Investimentos em armazenagem e serviços Quando as águas quentes trazem danos Plantio de segunda safra de olho em melhores preços Prestação de contas e organização para 2014 Controle químico e mecânico como armas contra o capim amargoso Centro de Gestão de Resíduos Sólidos para ampliar práticas socioambientais Cooperativa e conscientização ambiental 07 08 11 14 15 19 22 25 29 32 34 36 38 Edson Valmir Fadel Presidente da Coopermota 4 O CAMPO abril 2014

[close]

p. 5

Plantas de cobertura A s altas temperaturas registradas no final do ciclo da safra verão no Vale Paranapanema trouxeram sérias preocupações aos agricultores que viram suas lavouras sofrendo com a situação como há muito não se verificava. Ainda não há grandes adesões de produtores da região para o uso de plantas de cobertura, as quais auxiliariam na proteção do solo, bem como na nutrição das plantas, que por sua vez estariam com mais condições de enfrentar adversidades como a última verificada. As plantas de cobertura têm apresentado eficácia no auxílio à manutenção da umidade solo, na utilização da camada protetora proporcionada pela decomposição das plantas e o consequente auxílio no controle do mato. Além disso, elas trazem subsídios para a contenção de possíveis erosões e desgastes do solo e proporcionam maior viabilidade para a atividade dos microorganismos na solubilização-disponibilidade dos nutrientes. Conforme pesquisas, as culturas de coberturas favorecem na redução de variação de temperatura do solo, já que a quantidade de massa residual funciona como uma espécie de manta protetora, diminuindo assim a evaporação da umidade do solo. O pesquisador do Instituto de Pesquisa do Paraná (Iapar), Ademir Calegari, avalia que ao longo dos tempos a agricultura deixou de considerar adequadamente as questões ambientais e passou a se pautar muito no uso de diferentes produtos e, dessa forma, deixou de se utilizar dos processos naturais de manejo, baseados na avaliação profunda da vida do solo, seu potencial e suas limitações. Ele defende que a obtenção de um solo rico em matéria orgânica e com maior potencial de produção deve ser precedida de uma avaliação precisa dos aspectos químicos e físicos do solo, considerando questões como a infiltração e acúmulo de água, bem como a existência ou mesmo para suportar adversidades e aumentar a produção A valorização dos micro-organismos do solo ajudam a melhorar o equilíbrio na relação solo, água e planta do tempo a agricultura deixou de considerar adequadamente as questões ambientais Ademir Calegari “Ao longo ”

[close]

p. 6

Especial Plantas de Cobertura a ausência de microorganismos que auxiliam no desenvolvimento das plantas. É necessário avaliar todos os seus atributos biológicos. Nesse sentido, o sistema chamado de bioativação do solo proporciona a melhoria na utilização dos materiais orgânicos, quando adotado o plantio direto e a rotação de cultura, bem como o cultivo de plantas melhoradoras das condições do solo. Ocorre assim, um incremento na biologia da micro, meso e macro fauna e flora das plantações, permitindo que os organismos contribuam para haver mais nutrientes disponíveis às plantas, haja um bom crescimento de raízes e, consequentemente, um melhor desenvolvimento das plantações. Os resíduos orgânicos das plantas de cobertura favorecem o aumento da população de microorganismos que podem reativar a vida no solo. Dessa forma, a alternância de cultivos é mecanismo definitivo para a manutenção do equilíbrio biológico do solo e o aumento da biodiversidade. recuperação e no equilíbrio do solo. É preciso levar em consideração o tamanho do ciclo e o tempo de intervalo entre as culturas comerciais utilizadas na localidade, assim como também é importante avaliar o tipo de solo e sua compactação, além da regularidade de chuvas na região e a possível existência de doenças radiculares, entre outros fatores. Calegari destaca que pode ser adotado, inclusive, um coquetel de plantas de cobertura para que se tenha o solo coberto com plantas durante todos os meses do ano. Dessa forma, é possível explorar todo o potencial produtivo do solo. Estudos apontam um incremento produtivo de 20% à 40% em áreas com a utilização de plantas de cobertura. O pesquisador destaca, por exemplo, que o trigo mourisco é bastante eficiente para a solubilização do fósforo, assim como o milheto, o capim pé-de-galinha-gigante e as braquiárias são excelentes para a reciclagem de potássio do solo, enquanto que as leguminosas são importantes fixadoras de nitrogênio. “É fundamental que seja considerado o aporte de nutrientes oferecidos por estas plantas, deixando de priorizar a agricultura de produtos e adotando a agricultura de processos, baseada em princípios onde a água e os adubos orgânicos são fundamentais para o crescimento das raízes e a obtenção de plantas mais bem nutridas e que suportem melhor o ataque de pragas. Além disso, busca-se uma produtividade melhor e mais sustentável, com um aumento da biodiversidade, tendo assim o ambiente mais protegido, com menos insumos, pesticidas e poluição”, cita. } DIAGNÓSTICO PRECISO O pesquisador Ademir Calegari critica as análises que vêm sendo realizadas, apontando que, na grande maioria, elas só conseguem detectar uma parte muito restrita das condições do solo, assemelhando-se ao que seria equivalente à ponta de um iceberg. Para a opção do uso de determinadas plantas de cobertura, no entanto, é necessário, além do diagnóstico exato das condições do solo, a escolha da melhor cultura adaptada à realidade da propriedade, definindo qual delas auxiliará na Massa verde sendo incorporada ao solo em Pedrinhas Paulista - Família Sacchetti 6 O CAMPO abril 2014 Foto: Ademir Calegari - arquivo

[close]

p. 7

Soja sobre a palhada da cana como opção de cobertura A palhada auxilia no melhor enraizamento da soja e na proteção à sua germinação Foto: Wagner Ortiz Exemplo de adoção deste sistema, em Maracaí O verde da cana agora se transformou em palha que cobre o solo em uma espécie de manta para a germinação da soja. Uma experiência que vem apresentando bons resultados no Vale Paranapanema pode ser vista em Maracaí, na Cia Agrícola Santa Amélia. Há três anos as proprietárias Ruth de Andrade Reis e Maria Cecília Vidigal de Andrade Reis cultivam soja sobre a palhada da cana, a qual é utilizada como planta de cobertura, aliada à exploração comercial dos grãos de soja. Trata-se de uma propriedade prioritariamente de cultivo de cana-de-açúcar. O terreno hoje plantado com soja sobre a palhada era utilizado como área de reforma, ficando sem cultivo comercial entre uma safra e outra. No entanto, essas áreas sempre receberam, há pelo menos 10 anos, cultivo de plantas como a crotalária para posterior incorporação junto ao solo. A partir da safra 2012/2013 começou a ser adotado o plantio sobre a palhada naquela área e já trouxe alguns resultados avaliados como positivos pelas proprietárias. No primeiro ano, as agricultoras terceirizaram o cultivo da soja, já que a medida exige a utilização de maquinários específicos, os quais não possuíam. Porém, a situação começou a mudar a partir da aquisição da plantadora adaptada para este tipo de plantio, com facões que alcançam o solo em meio a palhada da cana. O agrônomo da Coopermota, responsável pela assistência técnica oferecida pela cooperativa àquela propriedade, Wagner Roberto Montequesi Ortiz, conta que a proposta para a adoção deste sistema veio para atender à necessidade de oferecer uma melhor reforma do solo. Ele destaca que o valor pago pela terceirização do plantio era equivalente ao custo da aquisição da plantadora que viabilizaria esta iniciativa, tendo em vista que elas já possuíam os demais equipamentos necessários para o plantio na palhada da cana. Nestes casos, além da plantadora também seria necessário um trator de pelo menos 200 cavalos, equipamento já existente na propriedade. Conforme dados coletados, houve uma considerável redução nos custos iniciais de produção, já que neste sistema elimina-se a realização dos manejos de aragem, gradagem e remoção de solo, antes necessários na preparação do cultivo da cana. A estimativa é que a redução de custo tenha ficado em torno de 15% sobre o montante investido nesta fase de produção nos anos anteriores. Outro fator favorável nesta opção de plantio foi o melhor aproveitamento da umidade do solo, o qual resulta em uma melhor resistência da soja frente ao tempo de altas temperaturas como foi registrado na região. Ortiz explica que a adversidade climática dificulta o apontamento dos ganhos efetivos de produção devido à adoção do cultivo sobre a palhada nesta safra, tendo em vista que houve uma redução de produtividade de uma forma geral na região, contudo, avalia ter havido um ganho de produtividade de aproximadamente 15% em relação às propriedades em que não foi adotado este sistema de plantio. A palhada da cana favorece o melhor enraizamento da soja, pois a plantadora beneficia o preparo para deixar a semente em melhores condições climáticas, estando estas localizadas abaixo da “massa verde” da palhada e com uma certa proteção para a germinação. Neste tipo de plantio obtém-se maior produtividade devido a melhor nodulação da raiz, já que são mantidas as bactérias benéficas no solo, as quais seriam reduzidas no sistema tradicional de cultivo. Tal realidade favorece a manutenção do nitrogênio no solo, propocionando melhores condições para a cultura da cana que será cultivada na sucessão. abril 2014 O CAMPO 7

[close]

p. 8

Especial Plantas de Cobertura Reciclagem de nutrientes e massa verde para a semeadura da soja Pesquisas no Médio Paranapanema atestam ausência de problemas na soja no pós consórcio entre braquiária e milho de segunda safra A o olhar para as linhas de semeadura já é possível visualizar as primeiras folhas de soja que se destacam na palhada da Brachiária ruziziensis cultivada na safra imediatamente anterior, em consórcio com o milho de segunda safra. O maior aporte de palha que se acumula no solo proporciona a melhora do seu manejo, sob o sistema de plantio direto, e, consequentemente, traz vantagens para a soja cultivada em sucessão. Embora o consórcio milho-braquiária já tenha ganhado reconhecimento nacional para a sua adoção, tal iniciativa ainda é alvo de posicionamentos contrários, devido a divulgação de informações que questionariam o cultivo da braquiária no Vale Paranapanema por que ela favorece a multiplicação de um tipo específico de nematoide no solo, o que, segundo as notícias disseminadas, causaria prejuízos na soja cultivada em sucessão nos municípios pertencentes ao Vale. Entretanto, uma pesquisa sobre esse tema foi realizada pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), Regional do Médio Paranapanema, com apoio da Cooperativa dos Cafeicultores da Média Sorocabana (Coopermota) e da Cooperativa de Pedrinhas (CAP). Nela, não se verificaram problemas no desenvolvimento da soja após o consórcio com braquiária em nenhum dos locais avaliados. O principal nematoide multiplicado nas raízes da Brachiaria ruziziensis é o Pratylenchus brachyurus, o qual é encontrado, principalmente, em solos do estado de Mato Grosso, causando grandes prejuízos na soja naquele estado. Porém, de acordo com o pesquisador Aildson Pereira Duarte, responsável pelas análises desenvolvidas no Médio Paranapanema, na maioria das áreas estudadas, o favorecimento da braquiária para multiplicação desse nematoide não justifica a rejeição da tecnologia do consórcio na região, já que a doença que ocorre com maior frequência nesta área é do gênero Meloidogyne, que produz galhas nas raízes da soja. Ele explica que, ao contrário do Pratylenchus brachyurus, o Meloidogyne não é disseminado pela Brachiaria ruziziensis. Duarte enfatiza que o consórcio do milho de segunda safra com a Brachiaria ruziziensis aumenta a cobertura morta do solo e a reciclagem de nutrientes, pois a braquiária produz uma importante massa verde que é dessecada antes da semeadura da 8 O CAMPO abril 2014

[close]

p. 9

soja. O aumento da matéria orgânica no solo, com o maior aporte de massa vegetal proporcionado pela braquiária, aumenta, por sua vez, os inimigos naturais do nematoide Meloidogyne, que não consegue se disseminar por meio dela. Além disso, o sistema radicular da braquiária auxilia no aumento da macroporosidade do solo, proporcionando melhor desenvolvimento das culturas subsequentes. Estudos apontam aumento de produtividade da soja em áreas em que foi realizado o consórcio em, no mínimo, 10%. Ainda não há uma adesão intensiva deste sistema no Vale Paranapanema, tendo sido registradas algumas experiências em Palmital e Cândido Mota, por exemplo. A informação de que a Brachiaria ruziziensis estaria favorecendo a disseminação do nematoide na região se apresentou com um fator negativo para a manutenção destas práticas. solo antes de adotar o consórcio e considerar as peculiaridades de cada àrea “É preciso analisar o ” a possibilidade de existência do Pratylenchus brachyurus no solo ainda que ele seja menos comum na região. Da mesma forma, não indica o consórcio em áreas em que haja muita incidência de capim-amargoso ou carrapicho, já que a braquiária dificultará o controle destas ervas-daninhas. } ANÁLISES NA PRÁTICA O agricultor, Oscar Knuppel, realiza experimentações com o consórcio em parte de sua propriedade, na Fazenda São Cristóvão, localizada no município de Cândido Mota. Ele afirma que ainda procura encontrar a melhor forma para o plantio da braquiária junto ao milho de segunda safra, tendo realizado algumas experiências nos últimos quatro anos. O agricultor destaca que os benefícios de aumento de produtividade que obtém na soja são inegáveis. Na safra deste ano, por exemplo, colheu entre 11 e 20 sacas de soja a mais no local utilizado para o consórcio, na comparação com as áreas em que não houve o plantio da braquiária. Braquiária em meio ao milho } CULTIVO Outro motivo de reclamação dos produtores quanto à adesão ao consórcio Brachiária ruziziensis e o milho de segunda safra são as adaptações necessárias para o cultivo das plantas envolvidas nesta iniciativa. Duarte destaca que cada região possui sua especificidade de clima e solo, o que impede que soluções encontradas em outras regiões do país sejam aplicadas sem adaptações ao Vale Paranapanema. Ele sugere o plantio concomitante das duas sementes. Para isso, uma das opções de semeadura seria realizada em espaçamentos de 90 centímetros do milho, mantendo uma linha de braquiária entre as linhas do milho, com pequena profundidade para a braquiária. Ao contrário do que alguns acreditam, esta medida não irá proporcionar a competição de desenvolvimento entre as plantas, já que a segunda safra é cultivada em períodos mais frios no Vale Paranapanema, o que afeta o desenvolvimento inicial da braquiária, enquanto que os híbridos do milho já receberam tratamento direto para que ele resista a temperaturas mais baixas. O pesquisador explica que se houver o retardamento do plantio ou da germinação da braquiária em relação ao milho de segunda safra, ela não será capaz de formar a massa verde, a qual se configura como o objetivo principal do consórcio. Ele enfatiza que ao cultivar a braquiária concomitante com o milho, o aumento mais expressivo desta planta de cobertura se dará quase no período de colheita do grão, atendendo assim às expectativas do consórcio. Duarte sugere que seja realizada a análise do solo antes da adoção desta iniciativa para eliminar abril 2014 O CAMPO 9 Foto: arquivo coopermota

[close]

p. 10

Especial Plantas de Cobertura Knuppel avalia, porém, que ainda encontra algumas dificuldades para a adoção desta medida de uma forma abrangente devido à redução de produtividade do milho consorciado, fato que o faz ter parcimônia na ampliação desta prática em sua propriedade. O agricultor comenta que em apresentações de pesquisas realizadas sobre o consórcio na região foi citada uma estatística que aponta o fato de que embora haja ganhos expressivos na soja, haveria uma redução em torno de 2% na produção do milho em consórcio. Entretanto, Knuppel afirma que ainda não tem um dado preciso sobre esta alteração de produtividade. O agricultor explica que anteriormente plantava o milho com linhas a um distanciamento de 90 centímetros, intercalando entre elas as linhas de braquiária. Contudo, optou recentemente pela adoção das linhas espaçadas a 50 centímetros, tendo em vista as facilidades que encontra no cultivo do milho neste formato, já que este é o mesmo espaçamento utilizado na soja, o que elimina a necessidade de adequações da semeadora. Diante disso, na safra 2013/2014 optou por fazer o plantio da braquiária a lanço e depois realizar o cultivo do milho, o que avaliou como a melhor alternativa. Sua propriedade possui o sistema de irrigação por pivô, o que, segundo informações que obteve junto a pesquisadores do setor, exigiria o controle do desenvolvimento da braquiária frente ao milho devido à abundância de água. Além disso, em outra área de sua propriedade foi constatada a existência do nematoide da espécie Pratylenchus brachyurus, o que inviabiliza o cultivo da Brachiária ruziziensis naquela parte do solo, em específico, devido à multiplicação da doença por influência da braquiária. Knuppel avalia o consórcio como atrativo, mas sugere que cada produtor considere os diferentes critérios envolvidos nesta iniciativa antes de adotar esta prática, a qual deve seguir a realidade de cada propriedade especificadamente. Duarte apresenta dados do consórcio na Coopershow foto: V.Z 10 O CAMPO abril 2014

[close]

p. 11

Foto: V.Z. TRIO NUTRITIVO O coquetel vegetativo, formado por diferentes plantas utilizadas para a formação de massa verde, é um importante meio de contribuição ao trato do solo para a cultura subsequente. O coquetel mais comum utilizado na região é baseado no plantio concomitante de aveia, nabo e girassol, porém existem outras combinações de plantio como meio de adubação verde. A opção pelo coquetel reduz o risco de um menor aproveitamento da planta utilizada, tendo em vista que a existência de outras espécies com diferentes características contribui para que uma compense a outra em casos de adversidades. equilíbrio nas condições do solo Com três diferentes plantas cultivadas em conjunto na área escolhida, uma consegue dar sustentação a outra em caso de situações desfavoráveis O coquetel se configura como uma arma contra as sazonalidades climáticas, já que a massa vegetal depositada na primeira camada do solo oferece contribuições expressivas para que as plantas tenham subsídios nutritivos necessários ao enfrentamento de situações difícieis no ponto de vista climático, sejam elas relacionadas à temperatura ou a chuvas. Uma experiência já configurada como exitosa na região pode ser vista em Cruzália, nas propriedades Fazenda Santa Lúcia e Sítio Ali Ri, do agricultor Gianni Di Raimo. Entre 2000 e 2012 ele realizou o plantio do coquetel tradicional, composto por aveia, girassol abril 2014 O CAMPO 11

[close]

p. 12

Especial Plantas de Cobertura Trio Nutritivo e nabo, porém passou a fazer diferentes experiências com outras plantas nos anos seguintes. Pelo menos 25% de sua propriedade sempre está coberta com plantas destinadas a função de equilíbrio e correção do solo. Ele cita que também já fez experiências com o milheto, o crambe - uma planta rústica com boa tolerância climática com aspecto semelhante a canola -, a crotalária e a braquiária, sejam elas cultivadas em parceria ou individualmente. Nos últimos anos o produtor experimentou o plantio da braquiária e da crotalária semeadas em áreas separadas, porém neste ano optou pelo cultivo de forma conjunta das duas plantas. Os resultados obtidos depois da longa estiagem trouxe subsídios importantes para a sua decisão de manter o uso do coquetel, já que a crotalária sentiu a seca e não produziu grande percentual de massa, enquanto que a braquiária se desenvolveu melhor, porém não ofereceu os benefícios de fixação do nitrogênio como ocorre com a crotalária. A junção das duas seria a melhor iniciativa. Além de contribuir para o controle dos nematoides, como é o caso da crotalária, as duas plantas ajudam na resistência ao estresse hídrico, aumentam a produtividade do milho e auxiliam nas medidas contra compacta- ção do solo. Di Raimo conta que havia alimentado uma expectativa de plantar somente a crotalária, porém a falta de chuva e as altas temperaturas desta safra o fez entender que o coquetel é a melhor saída para o seu caso. } MÉTODOS ADOTADOS Toda a semente de crotalária e aveia utlizada por Gianni Di Raimo é produzida pelo próprio agricultor. Somente o nabo não é resultante de semeaduras provenientes da propriedade. Para a segunda safra de 2014, Di Raimo optou por fazer o plantio de 100 quilos de aveia junto com 50 quilos de Crotalária ochroleuca por alqueire, em parte do terreno separado para receber a adubação verde em sua propriedade. A outra metade desta área foi semeada com 50 quilos da mesma crotalária, misturada com nabo, mais oito quilos de braquiária na linha intermediária de semeadura. Na mistura, aveia + crotalária, o agricultor comenta que, como a crotalária possui um desenvolvimento lento em seu primeiro ciclo de desenvolvimento, quando a aveia já estiver soltando pendões, cerca de 90 dias após o plantio, ele colherá e matará a aveia, mantendo a crotalária em desenvolvimento para a formação da massa verde. O mesmo irá ocorrer na outra mistura de 12 O CAMPO abril 2014 Foto: V.Z.

[close]

p. 13

Milho cultivado em meio a Crotalária plantas, sendo possível colher a braquiária e ainda manter a crotalária em seu crescimento vegetativo normal para o próximo plantio. Ele enfatiza que nos casos de adoção da braquiária, o ideal é que ela seja dessecada no mínimo 30 dias antes da próxima cultura, caso contrário irá concorrer na germinação da planta subsequente. Já para os casos de uso da crotalária, a indicação é de dessecação no prazo de sete a 10 dias antes do plantio da cultura seguinte, para evitar que haja perda do nitrogênio fixado pela planta, o que é importante para o crescimento do milho. Di Raimo avalia que para o milho verão, o aumento de produtividade é bastante perceptível, aliada a uma maior resistência que a planta adquire para resistir à seca. Já para a soja, a proporção de resultados é menor, porém a contribuição para formação do microorganismos que atuam no solo é indiscutível. Com o tempo, o solo muda sua estrutura nutritiva e torna-se mais saudável para suportar adversidades, reduzindo ainda o uso de adubações químicas. O agricultor destaca que com a adoção da adubação verde diminuiu pelo menos em 30% o uso de coberturas sintéticas para o plantio do milho, seja por meio da ureia, nitrato ou sulfato. Ele vem realizando experimentações para chegar ao percentual ideal de uso da ureia nas áreas em que faz o coquetel, já que esta definição é particularizada para cada solo. Na última safra de milho, separou o terreno em três parcelas com diferentes aplicações de ureias nas áreas antes cultivadas com crotalária e braquiária, variando em quantidade do produto. O objetivo é estabelecer o comparativo entre a quantidade de ureia aplicada e a produtividade obtida em sacas de milho, analisadas frente ao custo da adubação química, divididas pela receita da produção. Em uma das parcelas ele não aplicou ureia, na outra utilizou 450 quilos do produto e na outra, 525 quilos. A maior produtividade foi obtida na segunda opção, em que não houve a retirada total da ureia e tampouco a utilização em maior quantidade deste produto. Com 450 quilos obteve a melhor produtividade, colhendo 432 sacas de milho por alqueire. Baseado nesta experiência, em que percebeu não ser vantajosa a adoção de muita ureia no solo onde foi realizada a utilização de adubação verde, ele ainda fará a experiência de reduzir um pouco mais a aplicação de ureia, para aproximadamente 350 quilos, tendo, portanto, a expectativa de menor custo de produção aliado à manutenção de boa produtividade. abril 2014 O CAMPO 13 Foto: Gianni Di Raimo - Arquivo

[close]

p. 14

Poda da mandioca em adversidades climáticas Os ferimentos na rama da mandioca facilitam a infecção da planta com doenças como a bacteriose A região do médio Vale Paranapanema possui algumas experiências de cutivo de mandioca como opção de cultura, sendo prioritariamente adotadas em pequenas propriedades. A quantidade de raízes produzidas regionalmente representa quase 30% da produção paulista do tubérculo, em grande parte destinada à indústria para a produção da fécula. Pelo menos 10 cultivares estão entre aqueles mais comumente plantados na região, com predominância do IAC-14, destinada à indústria. Além da definição da cultivar a ser utilizada, existem alguns manejos orientados para serem adotados nesta cultura em algumas situações específicas, como é o caso da poda. Tal medida, porém, se caracteriza como uma iniciativa que exige a análise completa das condições da planta para obter o resultado esperado. Normalmente, nos casos de ocorrência de chuvas de granizo, as ramas são danificadas e exigem um manejo adequado para impedir que haja o surgimento de doenças, sendo a poda uma importante forma de evitar que as plantas sejam infectadas por meio dos ferimentos provocados. O pesquisador do IAC/Apta-Assis, Sérgio Doná, explica que nos casos de danos causados por granizo, a poda é indicada sob a orientação de que ela seja realizada o quanto antes em relação à ocorrência da chuva, mantendo o cumprimento da rama com três ou quatro gemas. Ele explica que nos casos em que a poda é mecanizada, é preciso que o produtor tenha o cuidado de utilizar o trator em baixa rotação e com as facas bastante amoladas para não comprometer a estrutura e, consequentemente, as raízes da mandioca. Doná comenta que os ferimentos na rama é a porta de entrada da bacteriose que prejudica muito a planta. Tal doença pode agir nas folhas, mas também pode se proliferar de forma sistêmica. Os prejuízos, nestes casos, podem chegar a 100%, se não houver um manejo adequado. As interferências da bacteriose pode fazer com que as raízes apodreçam ou, em outras situações, paralisem a condução de nutrientes para as ramas, entre outros problemas. Além dos cuidados com o manejo das plantas, a busca do melhoramento dos cultivares utilizados na região para a cultura da mandioca vem sendo realizado de forma permanente por institutos de pesquisa como o IAC/Apta, com o apoio efetivo da Coopermota. Entre os cultivares de mandioca que melhor se adaptam às condições climáticas da região do Médio Paranapanema, destacando-se o IAC 14 como o principal cultivar utilizado no Vale. Ela possui alta tolerância à bacteriose e um considerável teor de matéria seca. É uma cultivar rústica, com a parte aérea exuberante e apresenta bom rendimento para a indústria, sendo especialmente produtiva para fécula. A cultivar vem sendo aprovada pelos agricultores que optam pelo seu plantio. O produtor Walter Ausech, da região de Cândido Mota, conta que cultivava café até 2011. Ele mantinha o sistema totalmente manual de manejo, em uma propriedade de pequeno porte, porém os preços ruins da cultura o fizeram abandonar o café e passar para a mandioca. Desde então optou pelo IAC-14 e diz ter obtido bons resultados. Até o momento fez uma colheita, quando obteve cerca de 90 toneladas da raíz, dado que considera safisfatório. Ele avalia a troca como positiva e diz que continua buscam aperfeiçoar os manejos específicos da cultura. 14 O CAMPO abril 2014 Foto: V.Z.

[close]

p. 15

Safra verão: altas temperaturas, falta de chuva e produtividade Entre propriedades localizadas a uma distância de 500 metros já puderam ser percebidas variações de produção L ogo pela manhã, os caminhões já estão nas filas ou nos tombadores dos silos para o descarregamento da produção trazida do campo. O pó decorrente da movimentação dos grãos se espalha pelos arredores e o cheiro da soja exalado no momento da colheita deflagra a abrangência da agricultura no Vale Paranapanema. É assim no tempo de fim de safra. Por todo o arredor, o que se vê nesse período são colheitadeiras, caminhões e tratores, estes já empenhados no plantio do milho de segunda safra. O ritmo da colheita seguiu acelerado em meados de fevereiro e ainda seguiu até março em toda a região, tendo áreas com o milho em fase de germinação e outras com soja ainda sendo pulverizada. A retirada dos grãos das lavouras na região do Vale Paranapanema ocorreu logo após um período em que se combinaram as altas temperaturas, a um patamar de até 48°C, e uma estiagem prolongada. A ocorrência desta adversidade climática chegou aos municípios da região justamente no período de preenchimento dos grãos, principalmente entre as cultivares precoces ou superprecoce. Houve uma precipitação bastante irregular de chuva. Diante disso, entre propriedades localizadas a uma distância de 500 metros foram percebidas variações consideráveis de produção. No campo, as colheitadeiras estiveram a todo vapor desde o final de fevereiro. Atento aos dados obtidos na produção, o agricultor Lúcio Borges acompanhou a colheita em sua propriedade localizada em Campos Novos Paulista, a qual possui solo com características de terra mista. Ele finalizou as atividades da safra verão ainda em fevereiro e Foto: V.Z. abril 2014 O CAMPO 15

[close]

Comments

no comments yet