Figuras & Negócios #146

 

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Figuras & Negócios #146

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A CARTA DO EDITOR to aprovado pelo governo, vai consumir cerca de duzentos milhões de dólares (equivalentes em Kuanzas) do Orçamento Geral do Estado, numa operação gigantesca que envolverá mais de cem mil pessoas, segundo indicam fontes próximas ao Instituto Nacional de Estatistica e do Gabinete Central do Censo em noticia mais detalhada que publicamos nesta edição. De recordar que o Recenseamento Geral da População e Habitação que o País vai realizar, de 16 a 31 de Maio, conformou numa fase que se pode considerar decisiva o arranque do chamado Censo Piloto em algumas provincias do País. Com a Sociedade mobilizada, vamos todos trabalhar para que o Censo da População se efective com sucesso, conscientes de que se trata de uma tarefa hercúlea passível de ser encarada como uma das mais complexas que o governo tem em maõs durante estes anos de paz, já que seria impossível realizá-la em condições de absoluta instabilidade política, económica, social e cultural. Nesta edição, outros temas de destaque mereceram a nossa atenção, mormente uma reportagem da nossa colaboradora Rita Simões, sobre o nível dos nossos estudantes universitários. Numa altura em que muito se fala da necessidade de se melhorar a qualidade do ensino o trabalho que apresentamos, devidamente bem detalhado, obriga-nos a uma reflexão profunda sobre os quadros que temos e que precisamos para que o País caminhe seguro para o desenvolvimento. Quem precisa de segurança e firmeza para caminhar bem e levar o futebol nacional a bom porto, é Romeu Filemon, indicado recentemente treinador dos Palancas Negras. Para ele, a hora é de trabalho duro, porque as metas estabelecidas são ambiciosas, se tivermos em conta o estado actual do nosso futebol, cujo Girabola começou mutilado, porque não conta com as equipas de todas as províncias. ssunto da actualidade em Angola é o Censo Nacional da População que acontecerá em Maio do corrente ano. Trata-se de um desafio enorme que o governo tenta vencer a todo custo no sentido de, em linhas gerais, se saber de forma algo definitiva quantos somos, como vivemos e, numa perspectiva mais segura, conhecer o País real que temos para que ele possa seguir o trilho em direcção ao desenvolvimento sócio-político e económico sustentável. Foi em 1970 que, pela ultima vez, em Angola se realizou o Censo Geral da População. Hoje, com um quadro absolutamente diferente num País que alcançou a sua independência em 1975, está em movimento uma máquina que envolve meios humanos, técnicos e materiais suportados por um orçamento financeiro de muitos milhões de kuanzas. Concretamente, o Censo Geral da População, de acordo com o orçamen- 4 Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014

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7. EDITORIAL ESCREVER A NOSSA HISTÓRIA 10. PÁGINA ABERTA ESTOU PREOCUPADO COM O RUMO ACTUAL DO PAÍS 16. LEITORES CUIDADO COM OS DISCURSOS INFLAMADOS DO PASSADO 19. PONTO DE ORDEM FEBRE DE ASSESSORIA 28. DESTAQUE PROCESSO DE KANGAMBA EM MARÇO NA JUSTIÇA 30. FIGURAS DE CÁ 35. MUNDO REAL PROFISSIONAIS NA LINHA DA FRENTE 36. SOCIEDADE ESTE MALDITO CANCRO 44. REPORTAGEM QUEM SÃO OS NOSSOS ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS? 60. CONJUNTURA DESENVOLVIMENTO LOCAL, SEMENTEIRA DE OPORTUNIDADES 70. MUNDO PAZ VIGIADA EM KIEV 84. FIGURAS DE JOGO MENDES DE CARVALHO VIVEU O FUTEBOL 86. CINEMA GLOBOS DE OURO 2014 CAPA: BRUNO SENNA PAÍS 20 VAMOS SABER QUANTOS SOMOS! ECONOMIA&NEGÓCIOS AGRICULTURA SUSTENTÁVEL 92. TECNOLOGIA NOVIDADES TECNOLÓGICAS 52 6 Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014

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64 AFRICANOS PREOCUPADOS COM A INOVAÇÃO ÁFRICA DESPORTO 80 O HOMEM DO MOMENTO 94. VIDA SOCIAL ROTA SEGURA ENTRE ANGOLA E NAMÍBIA 100. FIGURAS DE LÁ 104. RECADO SOCIAL A FRUSTRAÇÃO DO FISCAL E A MAKA DAS ZUNGUEIRAS Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 14 - n. º 146, Fevereiro – 2014 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Júlia Mbumba, Mário Beirolas, Sebastião Félix, Suzana Mendes e Venceslau Mateus Fotografia: Nsimba George e Adão Tenda Colaboradores: Juliana Evangelista, Crisa Santos, Rita Simões, João Barbosa, Manuel Muanza e Shift Digital (Portugal), Wallace Nunes (Brasil) Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Publicidade: Paulo Medina (chefe) Portugal: Assinatura e Publicidade Ana Vasconcelos Telefone: (351) 914271552 Secretariado e Assinaturas: Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Distribuição: Urbanos Press S.A. Rua 1º de Maio, Centro Empresarial da Granja Junqueira 2625 - 717 Vialonga Londres: Diogo Júnior E16-1LD - tel: 00447944096312 Tlm: 07752619551 Email: todiogojr@hotmail.com Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) 9522-1373 e-mail: nunewallace@gmail.com Produção Gráfica: Cor Acabada, Lda Tiragem: 10.000 exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: 222 397 185/ 222 335 866 Fax: 222 393 020 Caixa Postal - 6375 E-mails: figurasnegocios@hotmail.com artimagem@snet.co.ao Site: www. figurasenegocios.com Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014 7

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ESCREVER A NOSSA HISTÓRIA D EDITORIAL uas figuras de referência na história de Angola independente deixaram, no mês de Fevereiro, o mundo dos vivos. Tratam-se de Maria do Carmo Medina, jurista de créditos firmados e de Mendes de Carvalho, nacionalista que ocupou vários cargos governamentais e reformou-se como Deputado na Assembleia Nacional pela bancada do MPLA. Duas figuras ilustres que morreram e lamentavelmente não existe muito testemunho histórico escrito que possam revelar, sobretudo aos mais jovens, os papeis que ambos desenvolveram para que Angola, hoje, seja uma pátria livre e independente. Divorciados ainda da história real que deve ser contada fundamentalmente por todos aqueles que foram partícipes activos da luta pela libertação do jugo colonial, sentimo-nos diminuídos na altura de se reconhecer os feitos relevantes de todos que emprestaram o seu suor e sangue por Angola, o que facilmente leva a sociedade a esquecer esses heróis. Muitos deles se calhar, sem se definir as bitolas de como se homenageará na eternidade os heróis, correm o risco de virem a ser esquecidos, por exemplo, na altura em que se avançar com a nova toponímia do País onde os emblemas da luta pela libertação de Angola terão de constar. Curiosamente, nesse Fevereiro que se assinala o aniversário do inicio da luta armada pela libertação nacional, trinta e oito anos depois de Angola se tornar independente, ainda se registou relatos novos sobre o que realmente se passou em 1961. Quer dizer, sempre nessa altura se aumentam subsídios avulsos em torno da libertação nacional sem que haja da parte dos historiadores a preocupação de se meter em papel todos esses feitos para que os angolanos conheçam e estudem nas escolas a sua verdadeira história. Não sendo um povo sem história continuamos a portar-nos como tal, numa mutilação que não nos dignifica enquanto donos de um País com tradições relevantes de luta e feitos que precisam de ser estudados, sobretudo pela juventude que agora cresce e se afirma. Vem ao de cima o processo turbulento que o País viveu para se chegar à independência, onde surgiram, já na luta de libertação contra o opressor colonial, várias forças políticas que se guerrearam na procura da razão e que, por isso mesmo, não se entenderam numa situação que se arrastou depois para uma guerra fratricida. Cimentou-se o ódio e divisão entre os angolanos em função de cores políticas e isso, hoje, se reflete até na construção da própria história de Angola, porque os fios de prumo que se traçam são diametralmente opostos, o que, até certo ponto, retira a credibilidade a muitos factos apresentados como situações então vividas. No fundo, até no encontrar o denominador comum para se escrever a verdadeira história de Angola os angolanos estão dependentes da vontade e capricho dos políticos, interessados cada vez mais em fazer relevância dos seus pontos de vista. Não é justo que se continue a esgravatar ideias na procura da história do nosso País porque já existem quadros abalizados e isentos para abraçarem esta empreitada pelo reconhecimento devido àqueles que deram o seu saber, suor e sangue pela liberdade de Angola e hoje sejam ignorados. Não se conseguindo encontrar esse denominador comum é injusto reivindicar que já temos uma nação construída. Continuamos por isso a castrar a vontade de conhecimento da juventude pelo percurso da luta e amanhã, os continuadores da edificação de Angola serão penalizados por essa falta de conhecimento da história mas eles também penalizarão os mais velhos por não terem sido capazes de preparar o ambiente para o País se vestir com os documentos da história que tem de nos dignificar como Povo e País donos do seu próprio destino. É hora de se recuperar o tempo perdido. Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014 9

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PÁGINA ABERTA Antigo Secretário Geral do MPLA, Marcolino Moco, que também ja foi Primeiro Ministro do governo de Angola, deputado à Assembleia Nacional, pelo Partido dos Camaradas e Secretario Geral da CPLP, considera-se hoje uma figura desligada da política activa e por isso mesmo "sem estar sujeito às imposições de patrões". Critico do rumo actual que o País conhece, Marcolino Moco tem uma leitura muita dura sobre o momento que se vive, acreditando que é preciso o esforço de todos os angolanos para a salvaguarda do País democrático que se pretende construir. Nesta linha, ele não poupa reparos criticos ao Presidente da República que, na sua opinião, já cumpriu o seu papel e deveria deixar o poder. Temporáriamente em Lisboa, Marcolino Moco concedeu-nos essa entrevista via email. Por: Victor Aleixo F iguras&Negócios (F&N) - As suas intervenções, regra geral são nas redes sociais. É uma estrategia que o senhor adopta para manifestar o seu descontentamento ao rumo da governação? Marcolino Moco (M.M) - Nunca pode haver fuga alguma para alguém que, como eu, não tem responsabilidade perante patrões, organizações políticas ou outras. Eu estou por uma temporada em Lisboa, viajo por outras latitudes e longitudes, e contacto pessoas e instituições, numa pesquisa sobre direito africano de integração e sou patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Os que bem me conhecem sabem que não nutro qualquer tipo de descontentamento. Apenas preocupado com os rumos actuais do país. Mas isso é um problema de todos, para o qual, por vontade própria, quero apenas dar uma contribuição, apresentando propostas de saída pacífica, de acordo com a minha experiência e conhecimentos. F&N - O senhor está desiludido com o rumo democrático que o Pais toma ou zangado com os seus companheiros do MPLA? M.M - "Macaco velho" que sou, sei que fazes esta pergunta como "advogado do diabo", como os jornalistas adoram (risos). Sabemos todos que atravessamos um problema grave no país, onde depois de termos pensado todos que o mal estava esconjurado, com a paz de 2002, em que mesmo os apoiantes fervorosos de Jonas Savimbi se haviam resignado com o sacrifício do seu herói, vemos nuvens a adensar-se nos nossos céus, novamente. Embora haja pessoas com muito jeito de fingir que não vêm nada. Faz-me lembrar alguém a quem avisam que por mais bela que aquela árvore do campo seja, em tempo de chuva é perigosa porque podem cair raios sobre ela. Mas alguém que adora ficar ao pé da árvore mesmo à chuva, opta por chamar a árvore de erva e continua lá encostado em pleno relampejar. Em parte é da natureza humana, sem pessimismos. Mas eu não me juntaria ao indivíduo. F&N - Disse que não guarda rancores aos seus antigos colegas.Se o PR Eduardo dos Santos hoje o chamasse para conversar e o nomeasse para um cargo governamental, viraria as costas a esse apelo? Porque? M.M - Absolutamente. Guardar rancor, em política, é uma perda de tempo, porque os lugares públicos não nos pertencem. Se não fosse o prolongamento da guerra, de que um dia se apurará o que verdadeiramente esteve na base do seu tanto durar, podia dizer-se que o Eng. José Eduardo dos Santos já não devia estar lá. Acho que como homem estudioso sabe perfeitamente que Lord Acton tinha toda a razão quando dizia: "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente." Mas como ele ainda lá está, mesmo durante tanto tempo e com tanto poder absoluto, em nome da paz, ele é o Presidente que todos reconhecemos, e pode chamar-me quando quiser e entender. Mas nunca será para me dar cargos no regime que ele actualmente lidera. Poderá ser para ouvir-me sobre como é que poderíamos sair disso de forma pacífica que penso ainda ser possível. F&N - O senhor manifesta descontentamento como a democracia está a ser conduzida no Pais. Será que o MPLA não está preparado para dirigir esse processo que tem de passar, primeiro, por uma efectiva reconciliação ESTOU PREOCU COM RUMO AC Marcolino Moco 12 Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014

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dos angolanos para se pensar na construção de uma nação? M.M - Lá está o meu amigo a insistir com o descontentamento (risos). Vou-lhe dizer: pessoalmente, sou dos viventes mais felizes do mundo. Porque com a educação tradicional banta que conservo, aprendi a relativizar os valores materiais pessoalizados; com a educação cristã, embora não ritualista, aprendi a valorizar a vida como um bem nas mãos do Criador. O que temos hoje todos é preocupação pelos destinos do nosso país. Quanto à reconciliação verdadeira é muto difícil falar dela tanto para os mais velhos como para os mais novos. Os mais novos nascidos depois da independência, especialmente nas cidades, não entendem como, por exemplo, em Portugal alentejanos e lisboetas nunca se mataram por causa da política e de partidos, limitando-se a rir uns a custa dos outros por causa de uma ou outra anedota. Nós, os mais velhos que conhecemos as causas fingimos que não sabemos porque achamos que se tocarmos no assunto é pior. Ainda bem que Lopo do Nascimento saiu e disse aquelas coisas. E agora, com a idade e autoridade moral que tem, provavelmente, com um pouco de boa vontade, poderemos começar a abordar, calmamente, o assunto de cujo mote ele lançou. Já há muito que digo aos meus alunos, dentro da sala de aulas, que quando se fala que Diogo Cão descobriu Angola em 1482, é uma grande (boa) mentira, porque ninguém sonhava, naquela altura, que haveria um país chamado Angola. É como se no século IX, alguém adivinhasse que no século XII nasceria um país chamado Portugal. Quando os meus pupilos ouvem isso, carapinhas e cabeleiras quase se lhes arrancam. Mas esta é a verdade nua e crua que foi posta de lado por causa do discurso político. Na primeira vez que disse isso, eu próprio que acabava de descobrir essa verdade que sempre esteve em cima do meu nariz, tive que pensar duas ou três vezes para não causar desmaios do pessoal. Nessa altura havia desmaios nas escolas primárias e secundárias e rezava para que isso não acontecesse numa Universidade (risos). Agora vejam que Lopo disse isso mesmo, embora de forma indirecta. Mas o que o Victor não deve saber é que Iko Carreira disse isso de forma mais aberta no seu livro "Memórias", escrito já à beira da morte(não estou a falar do "Pensamento Estratégico de Agostinho Neto"). Muitos estão a acusar o Lopo de ter dito o que disse, muito tardiamente; mesmo, provavelmente, sem terem entendido a profundidade da mensagem. Na política é muto difícil dizer todas as verdades, especialmente UPADO CTUAL DO PAÍS Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014 13

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PÁGINA ABERTA quando estamos no activo ou enquanto estamos vivos. Mas a questão dos conflitos africanos nascem precisamente dessa mentira que passamos para as novas gerações, a de dizer que falar de etnias é coisa de atrasados e é perigoso. As etnias em si, na verdade, não se conflituam de vida e de morte, mas sabemos que os políticos manipulam essa realidade "que não morreu". No dia em que os países modernos africanos começarem a discutir esta realidade de forma descontraida, descontando, é claro, que houve já uma evolução, começaremos a encontrar as soluções para a reconciliação em cada Estado, que não passam, como o Lopo diz e a realidade o diz tão claramente, por mera realização de eleições. A tendência das pessoas é perguntar: mas então quem é culpado? Não pergunte quem é culpado se crianças caiem quando aprendem a andar. A culpa é da idade. O pior é bater na criança por que cai em vez de ajudá-la. Este é problema da maior parte da África negra, de países proclamados à pressa. Por isso eu disse que a intervenção do Lopo tem valor pan-africanista. F&N - Para a construção da nacão angolana, em sua opinião quais os passos que deveriam ser seguidos? E nesse aspecto, não estará a sociedade carente de lideres para mobilizarem o esforço das pessoas nessa direcção? M.M - O problema é que os líderes não aparecem porque são todos "castrados" (ponha aspas) para apenas ficar um "macho" (ponha aspas também). Este é o problema de África, particularmente de Angola, porque muitos países já estão a sair disso. A África do Sul, por exemplo, com menos de 20 anos desde a libertação do apartheid já caminha para o 5º Presidente, com a idade sempre a baixar. Nós estamos há trinta e cinco anos quase, e sempre com o mesmo Presidente que vimos, que viram os nossos filhos a nascer e já os nossos netos vêm. Não há país que se aguente nisso por muito tempo. Só lá onde alguma religião nacional o defenda, como na Arábia Saudita ou na Swazilândia que é um país pequenino, com praticamente uma etnia muito apegada às antigas tradições. Por vezes as pessoas confundem com as monarquias constitucionais, onde o rei ou a rainha não governa. Outros, e muito mal, pensam que este hábito vem da tradição dos sobados. Não! Os reis pré-coloniais não administravam bens públicos. Recebiam impostos dos seus súbditos para compensá-los pela sua função em prol da comunidade mas não geriam orçamentos. A ideia de Lord Acton ("o poder corrompe ...") faz todo o sentido no Estado moderno. Este é um problema que o Presidente José Eduardo não deve adiar, com pequenos discursos. F&N - Eduardo dos Santos não é esse lider de consenso? Também partilha a ideia de que o PR está mal rodeado? M.M - Um líder nunca pode vir dizer que está mal rodeado, especialmente quando tem tanta autoridade como o actual Presidente de Angola. Serão os enquanto eu fui afastado cinicamente, para depois dever arrastar-me para um regresso, nessas condições. Mas eu não faço isso. Se o MPLA respira saúde hoje, depende do ponto de vista. Se for no sentido de que detém o poder, sim tem, apoiado unicamente numa pessoa que o dirige a partir da sua posição de híper Presidente de uma República, que, como jurista, classifiquei de “monarquia absoluta, travestida em república de democracia ocidental”. Se a ideia for como a minha, segundo a qual o MPLA tem que cuidar do poder mas tem que cuidar da sua responsabilidade de completar a construção da Nação, ao lado das outras forças sociais, então, estamos perante um prenúncio de um desastre, pois aí pode dizer-se que o MPLA está doente. F&N - Lopo do Nascimento ao reformar-se da política activa, não foi um render da guarda, consequência de uma transição geracional ou revela uma frustracao que hoje existe no MPLA no âmbito da luta entre novos e velhos? M.M - Lopo, que eu bem conheço como exímio gestor de silêncios e laconismos, está a dizer tudo com essa sua saída, que a mim não surpreendeu e não sei como surpreendeu outros homens e mulheres públicas. Porque foi anunciada há dois anos, pelo menos, numa mesa redonda, na Fundação Agostinho Neto, e em que falou sob o mote “o dia seguinte do dirigente” e fez rir muita gente. O que aconteceu agora foi a formalização e de alto nível. Agora a máquina partidária tenta desvalorizar o gesto que claramente significa: já que o Presidente Santos mobiliza todo o MPLA só para as suas ideias, no 22º ano de democracia e 12º de paz, para quê deprimir? Abasteçam-se e comam! Só que aproveitou para deixar uma mensagem significativa para a juventude: comecem a pensar a sério num futuro que é vosso. Aquela mensagem é mais nova que “os novos” que falam de um render de guarda ou fuga para os negócios (quem não faz negócios e lá continua?). A idade das ideias não se mede pela antiguidade ou frescura dos ossos, mas pela cristalização ou inovação do pensamento. F&N - Acredita que outros do MPLA possam abandonar a vida política activa? Se assim for, isto “ Mas a questão dos conflitos africanos nascem precisamente dessa mentira que passamos para as novas gerações, a de dizer que falar de etnias é coisa de atrasados e é perigoso. As etnias em si, na verdade, não se conflituam de vida e de morte, mas sabemos que os políticos manipulam essa realidade "que não morreu” seus adversários que os oferecem a ele? Aliás, o Direito, na sua sabedoria, retirada da história das sociedades, prevê e muito bem, a figura da "responsabilidade objectiva" ou, no caso, podíamos falar em "responsabilidade do comitente" e não do "comissário". Quanto aos consensos, o Presidente dos Santos obtêm-nos, por vezes, para logo se desfazer deles, sempre que o julga necessário para a salvaguarda da sua permanência no poder. A história dos últimos agora 12 anos de paz é essa. F&N - O senhor continua a ser do MPLA. Acha que o Partido respira boa saúde política? M.M - Sim, mas mais por ligação sentimental, pois não estou no activo. Estou em campo para o qual veio agora Lopo, com a diferença de que ele veio mais tarde, e voluntariamente, 14 Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014

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PÁGINA ABERTA não pode ser entendido como o fim da picada de um partido historico? M.M - Sei que vivemos uma situação que não pode deixar pessoas sérias, que são muitas no Partido, satisfeitas. Especialmente quando o Partido é transformado num aparelho para defender uma dinastia monárquica, hoje claramente legitimada pelo Tribunal Constitucional (TC). Mas muitas pessoas estão um tanto quanto como que sequestradas. E não é ainda possível trocar ideias para se saber do que cada um pensa. Eu por exemplo, só falando de antigos 1ºs Ministros pelo MPLA, sempre troquei ideias com o Lopo, num convívio que vem de longe e se reforçou no Secretariado do Partido, nos anos finais de 80 e princípios de 90. Falo bem com o França Van-Dunem, até mais como intelectuais do que políticos, porque tudo pode ser muito perigoso. Se fôr o militar Nandó, muito meu amigo, procurá-lo nem que seja para matar uma saudade, pior! O Kassoma, esse me foge. Até como Governador da minha Província, mal conseguia receber-me ou visitar-me. Nunca sonhei que hoje estivéssemos pior que nessa altura quanto à abertura. Francamente! Não quero “ensinar a missa ao vigário”, mas já é tempo do Presidente José Eduardo dos Santos nos livrar deste medo, que ninguém lhe vai fazer mal algum. F&N - O MPLA não pode correr o risco do PAICV em Cabo Verde, de perder as eleições, ser oposição e aparecer depois a liderar o País mas completamente rejuvenescido? Se isto acontecer agora ou a curto prazo, pode ter consequências negativas no processo democratico? M.M - Lá está o meu amigo com a perda das eleições. É justamente no que Lopo tem toda a razão. Vão falar mal de mim, e dizer: “oh, o homem agora não quer eleições?” Estas ideias vêm de muita reflexão sobre os problemas de África. Ramos Horta foi Presidente e Primeiro-Ministro de Timor Leste, um país que teve problemas muito graves, tem agora eleições que funcionam e ele é um dos grandes heróis desta façanha. Porquê? Porque organizaram-se primeiro como Estado, na base de alianças com os vizinhos, incluindo a antiga colonizadora, Indonésia e com a Austrália. Agora está ele toda hora a dizer: eleições para a Guiné Bissau. Será que a Guiné já está organizada para que os partidos que perderem encarem isso como um mero jogo de adversários transitórios e daqui a cinco anos há mais? Talvez ele tenha já conseguido essa proeza, como representante das Nações Unidas. Como Cabo Verde tem o problema da organização do Estado resolvido, já perdeu um depois perdeu o outro e o céu não caiu. Em Angola e em muitos Estados “continentais”, as eleições não resolvem porque não estruturamos um Estado em que, seja lá quem for que ganhar, os interesses mínimos de todas etnias (uma coisa que os que se julgam puros do MPLA não gostam de falar mas é uma realidade) estão salvaguardados. Porque os muitos lugares de África. Também tive há tempos este tipo de conversa com Éden Kodjo, antigo Secretário Geral da OUA. Mas acabar com os partidos étnicos agora, a força, como se está a tentar com a FNLA, amanhã se calhar com a UNITA, a emenda é pior que o soneto A diferença não é problema. O problema é ter medo dela. F&N - A sociedade ainda excessivamente partidarizada, está preparada para aceitar um lider que não seja do MPLA? M.M - Quem não está preparado não é a sociedade. A elite no poder é que não está preparada. Isto é da Ciência política. Nos Estados Unidos também se dizia que “the President of US ought to be Wasp-White, anglo-saxon and protestant”, não sei se entrava também a letra “M” de “man” ou “male” (risos). O Sousa Jamba se vier a ler isso vai introduzir as correcções. Mataram o Kennedy, mas não creio que tenha sido por ser católico. Mas Obama está ali hoje, o negro. E nos melhores momentos chega a bater, de longe, a popularidade de muitos brancos como o papel (risos) em todas as camadas sociais dos Estados Unidos. Definitivamente, este é um falso problema. Até porque vem aí o Congresso, imaginem se um camarada do MPLA se lança agora a disputar o lugar do Eng. Santos, para depois se candidatar a Presidência da República qual é “mess” que vão arranjar? Entretanto seria também do MPLA. F&N - Partilha da ideia que as desigualdades hoje existentes e a má distribuição da riqueza está a fazer renascer sentimentos tribais, raciais e outros que amanhã poderão perigar a sobrevivencia do Pais? M.M - Convencem-se cada vez mais os estudiosos que há aqui uma cadeia. O Estado não está estruturado de acordo com a realidade africana. E diga-se também que para além do africano que está no poder não estar interessado porque já “tem a faca e queijo na mão”, o Ocidente, o tal “Norte” de que fala o Lopo desfaz mesmo alguma iniciativas boas. Não é como já se ouve de que depois das próximas eleições que já estão antecipadamente ganhas pelo “deputado-legislador-presidente”, vão convidar alguns membros de outras etnias-políticas para participarem, acorrentados ao programa do “Rei- “ Se o MPLA respira saúde hoje, depende do ponto de vista. Se for no sentido de que detém o poder, sim tem, apoiado unicamente numa pessoa que o dirige a partir da sua posição de híper Presidente de uma República, que, como jurista, classifiquei de “monarquia absoluta, travestida em república de democracia ocidental”. partidos são étnico-regionais e não de classe. A etnia-politica agarra-se ao líder, transforma-o em rei, para o salvar da selvajaria dos “outros”. Mas isso cria tensões e todos acabam por perder nestas tensões constantes. Aqui em Angola temos claramente esta situação. Como os parceiros “compradores” dos nossos recursos não têm paciência que esperemos um pouco para nos organizarmos, pressionam com eleições. A etnia política no poder entrega todo o poder ao ”chefe” que pode fazer tudo, fechamos os olhos. A grandeza da intervenção de Lopo consiste justamente no facto de que, apesar de pertencer à etnia no poder, tanto antropológica como politicamente, ele se colocou acima disso para apelar para a razoabilidade. Mas este é um assunto que está a levantar-se em Figuras&Negócios - Nº 146 - FEVEREIRO 2014 15

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