Revista Palavoraz

 

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Edição de Dezembro de 2013

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(expediente) palávoraz editor erre amaral coedidora melissa boëchat editor de arte douglas costa Imagem da Capa patrícia ferreira

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Palávoraz O termo deve ser lido com expressivo e proposital esforço desde a sìlaba tônica, e com certa pressa, para que quem a ouça quase não perceba que a letra ‗o‘ é um óbice para que a palavra, bem oralizada, chegue aos ouvidos como precisa chegar, a saber, simplesmente como ‗palavras‘. É com o termo escrito que o leitor tem de se haver com sentidos outros que Palávoraz suscita. De modo simplificado, Palávoraz dá-se, em automática tradução, como „palavra voraz‟. É curioso pensar, então, em palavra voraz como aquela que devora, que engole imoderadamente, que é insaciável, que anseia pelo que sobeja. Além disso, não é incomum pensar em palavra voraz como aquela que tem a capacidade de destruir, de causar ruìna, de corroer. Talvez um pouco menos vulgar seja pensar em palavra voraz como aquela prenhe de cobiça, aquela demasiado ambiciosa, ávida por. Em qualquer desses sentidos em que a expressão ‗palavra voraz‘ possa ser tomada, sempre manifestará uma superlativa insatisfação. Em razão de tal insatisfação, para todo o sempre irremediável, é que Palávoraz – literatura e afins vem a lume. Por meio de, portanto, ensaios, versos & prosas, traduções e afinidades eletivas, os/as palavorazes anseiam por, sem moderação, engolir leitores/as, corroer mesmices, cobiçar gozos deletreadores. Para tanto, a primeira edição de Palávoraz é dedicada ao Ardiloso Demiurgo, aquele que, como autêntico mestre da insatisfação, deixou para quem o lesse a tarefa de completar o inesgotável texto do destino literário do universo: Jorge Luis Borges (1899-1986). Tal tarefa, é sabido, está marcada pela incompletude, portanto, pela irrealização - o que faz dela, a um tempo, frustrante e desejável. Boas leituras! Erre Amaral editor

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Ernani Ssó Ademir Demarchi Manoel Herzog Maria Elisa Rodrigues Moreira Raul Arruda Claudio Celso Alano da Cruz A Borges, com humor O cativado leitor 08 10 Contemplando o microcosmo – reflexões sobre O Aleph 12 A infinita biblioteca de Jorge Luis Borges 16 Jorge Luis Borges (não) jogava xadrez 18 Borges: da biblioteca ao armazém da esquina 23

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Erre Amaral Luís Giffoni Carlos Henrique Schroeder Le mot juste Um tango para Borges O Aleph 34 36 38 Leila Guenther Rebecca Monteiro Melissa Boëchat Mariza Lourenço Alice Sant'Anna Ana Rüsche Denise Freitas No palácio de machado de dois gumes 40 Babel Inexpugnável Carta al Sr. B. A Herança Benjamin Sobre os esquemas de segurança Linha do tempo Após o traço descrito 42 46 48 52 53 54 55 Mariana Ianelli Silvana Guimarães Micheliny Verunschk De uma antiga lenda japonesa como num dos sonhos de Borges 56 Furores O Espelho de Borges Maria Kodama 57 58 59 Ademir Demarchi Mauro Faccioni Filho Josely Vianna Baptista La dicha Arte poética Arte poética 62 64 66 Manuela Afonso Mariana Collares Ronald Augusto Patrícia Ferreira Amarillo Olhos sobre tela 70 72 El hacedor: rasuras 74 Projeto Borges 86

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6 Imagem: Douglas Costa

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A Borges, com humor Não lembro quem notou que Oscar Wilde dizia coisas profundas como se fossem leviandades. Acho isso ótimo. Das duas, uma, ou as duas mesmo? Wilde não dá a mìnima se for mal interpretado e demonstra uma total confiança na inteligência do leitor. Pra isso, é preciso ter cabelo no peito, como dizia meu avô. Talvez também seja preciso ser inglês. Ao menos dizem que os ingleses preferem um a piada fraca a piada nenhuma. Mas nós, brasileiros? Não há mês que não se veja um resenhista ou acadêmico machão dizendo admirar autores como Machado de Assis e Jorge Luis Borges, em que o humor e a ironia não podem ser separados da linguagem e da visão de mundo. Mas na hora do bem bom, quer dizer, na hora em que o resenhista ou acadêmico escreve seu próprio livrinho, faz uma pose das mais compenetradas ou mesmo das mais soturnas, louco de medo de não ser levado a sério, até ou principalmente quando lida com trivialidades. Não é por nada. O cara manja seus colegas. Conheço pouca gente capaz de louvar o humor e a ironia de autores desconhecidos ou pouco conhecidos. Louvar o humor de gente morta há décadas ou séculos, já com meio palmo de poeira em cima que ateste sua classicidade, ou escritores como Borges, com uma fama acachapante de erudito, cego ainda por cima – porque, cá entre nós, é difìcil pensar num cego gaiato —, é barbada, não? Errado. Andei dizendo por aì que o Dom Quixote era um dos grandes livros de humor de todos os tempos e houve quem me repreendesse: você está diminuindo o livro de Cervantes, porque Dom Quixote tem muito mais que humor. Ok. Mas esse muito mais seria outra coisa, se Cervantes não fosse o gozador que é. Tudo, nele, passa pelo filtro do humor, muitas vezes um humor de cavalariço, como definiu seu tradutor inglês, John Rutherford. Eu estaria diminuindo o Dom Quixote se o humor fosse apenas essa coisa que se vê nos programas da tevê brasileira ou nas chamadas comédias universitárias de Hollywood. 0O0 Quando se fala em Borges, fala-se em labirintos, punhais, espelhos e tigres. Labirintos, punhais, espelhos e tigres se tornaram propriedade particular de Borges. Mesmo quem nunca leu Borges sabe disso. Se eu me atrever a escrever um conto em que entre um espelho ou um tigre corro o risco de ser chamado de imitador. Ou de borgeano, mas com aquele tom que bota a palavra entre aspas. Outra coisa: quando se fala em Borges, fala-se do contista fantástico ou de violências sulinas e do escritor com preocupações metafìsicas. Muito raramente no humor de Borges. Os livros que ele escreveu em parceria com Adolfo Bioy Casares, assinados pelo carnavalesco H. Bustos Domecq – Seis problemas para dom Isidro Parodi e Duas fantasias memoráveis –, são de humor. Anos depois, assinados por eles mesmos, Bustos Domecq volta à ação em Crônicas de Bustos Domecq e Novos contos de Bustos Domecq. São textos tresloucados, sátiras ferozes a literatos e artistas, ou às próprias literatura e arte. Os resenhistas sérios e os acadêmicos – um acadêmico sério seria uma redundância – toleram esses livros como uma extravagância do gênio e seguem adiante. Tudo bem, podem ser mesmo uma extravagância, mas o resto da obra de Borges tem mais humor e ironia do que labirintos ou espelhos. Até seus ensaios estão repletos de humor e ironia. Sem falarmos em sua vida, uma vida de desastres amorosos, por sinal. Basta ler um dos inúmeros livros de entrevistas. Como é que fica, então? A seguir, umas notas mostrando o humor na obra séria de Borges e em sua vida. 0O0 Numa conversa com gente politizada, Borges se saiu com esta tirada: ―Eu tinha entendido que havia apenas boa e má literatura. Isso de literatura comprometida pra mim soa a mesma coisa que equitação protestante‖. Nos anos 1970, ou fins dos 1960, Mario Vargas Llosa tinha um programa de tevê chamado Torre de Babel. Foi a Buenos Aires entrevistar Borges e ficou horrorizado ao ver que o escritor de fama internacional morava num apartamento de três peças apenas e com goteiras. Então perguntou como ele podia viver num lugar desses. Borges respondeu que ―os argentinos não gostam de ostentação‖. No dia seguinte, Borges contou que tinha sido visitado por um ―peruano que devia trabalhar numa imobiliária, porque queria que eu me mudasse‖. Outra? Todo mundo sabia que Borges não gostava dos livros de Dostoiévski. Mas, como era famoso, convidavam-no para tudo, inclusive pra falar numa homenagem a Dostoiévski. Ele foi. Passaram o microfone pro velho e ele disse: ―Como não gosto de Dostoiévski, vou falar de Dante‖. Em 1975, morre dona Leonor Acevedo de Borges, aos 99 anos. Uma mulher, durante o velório, lamentou: ―Pobre da dona Leonor, morrer agora, quando faltava tão pouco pra completar cem anos. Se tivesse esperado um pouquinho…‖. Borges, impassìvel, respondeu: ―Vejo, senhora, que é devota do sistema decimal‖. 0O0 Sei que muita gente fica embasbacada com os adjetivos coruscantes de Borges. Mas pegue-se História universal da infâmia, livro da primeira fase, com um texto todo barroco. Há nele a gozação do próprio estilo, daquela pompa, daquele esplendor. Basta ler com atenção. A primeira história, ―O atroz redentor Lazarus Morell‖, começa com uma frase de grande ironia, ainda mais que Borges sempre é acusado de racista: ―Em 1517 o P. Bartolomé de las Casas teve muita pena dos ìndios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas antilhanas‖. 0O0 Uma das brincadeiras preferidas de Borges era atribuições falsas. Inventava autores pra dizer coisas que ele mesmo tinha pensado, inventava livros que depois os leitores tentavam achar ou diziam ter lido. Coisas assim. Nessa linha, a obra-prima é ―A aproximação a Almotásin‖, um belo conto que finge ser uma resenha e que foi publicado como resenha. Depois ele aplicou o mesmo truque em outros. 0O0 8

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Desenh o: Há vários contos em que a ideia central é uma piada, piada que Borges trata com a seriedade da criança que brinca, descrevendo todos os desdobramentos com lógica implacável. O mais engraçado é ver os crìticos se descabelando pra explicar a coisa. Talvez o melhor exemplo disso seja ―Pierre Menard, o autor do Quixote‖. Eu adoraria saber como Borges teve a ideia de um sujeito que resolve, em pleno século 20, escrever Dom Quixote exatamente como Cervantes escreveu, linha por linha, palavra por palavra, vìrgula por vìrgula. 0O0 Um dos contos mais badalados de Borges é ―O aleph‖. Sabe-se que há um fundo autobiográfico, uma história de amor das mais grotescas, que Borges disfarçou com maestria. Mas me interessa aqui apenas citar uma descrição que me parece muito engraçada, dentro do contexto. O primo e amante de Beatriz Viterbo, o poeta Carlos Argentino Daneri, está entregue a uma atividade intelectual ―contìnua, apaixonada, versátil e de todo insignificante‖. Escreve um poema que deve descrever toda a Terra. Em certo ponto, Borges esclarece: ―Em 1941 já havia despachado vários distritos do estado de Queensland, mais de um quilômetro do curso do Ob, um gasômetro ao norte de Veracruz, as primeiras casas de comércio da paróquia da Concepción, a chácara de Marina Cambaceres de Alvear na rua Once de Septiembre, em Belgrano, e um estabelecimento de banhos turcos perto do prestigioso aquário de Brighton‖. 0O0 Nos ensaios, Borges continua brincando e continua cheio de imaginação. Lembremos um trechinho de ―O idioma analìtico de John Wilkins‖, no livro Outras inquisições: “Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram as que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em a) pertencentes ao Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cachorros soltos, h) incluìdos nesta classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finìssimo de pelo de camelo, l) etcétera, m) que acabam de quebrar o vaso, n) que de longe parecem moscas‖. 0O0 Sei não, mas me parece que os leitores que não percebem o humor de um Borges devem ler se agitando como loucos. Depois, quando escrevem suas teses, parecem moscas, tanto de longe como de perto. Ao serem confrontados com os fatos, ficam com cara de animais que acabaram de quebrar o vaso. Gabrie lA maral Ernani Ssó é o escritor que veio do frio: nasceu em Bom Jesus, RS, numa tarde de neve. Em 73, entrou pro jornalismo porque queria ser escritor. Saiu em 74 pelo mesmo motivo. Humor e imaginação são seus amuletos. 9

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O cativado leitor O sucesso alcançado por Jorge Luis Borges e a fama obtida por seus livros principais criaram para ele uma aura de genialidade, como se suas obras mais famosas assim já tivessem nascido, num estalar de dedos. O fato é que Borges ralou muito como leitor e como escritor de um sem-fim de textos tidos como menores se comparados a essas obras já dadas como ―clássicas‖ e essa sua experiência foi fundamental para ele chegar onde chegou. Ele mesmo dizia ―que outros se gabem dos livros que se lhes foi dado escrever; eu me gabo daqueles que me foi dado aonde ler‖, ao que acrescenta que ―não sei se sou um bom escritor; creio ser um excelente leitor, ou, em todo caso, um sensìvel e agradecido leitor‖ [1]. Momentos dessa experiência de leitor/escritor esteve nas páginas de periódicos como Sur, Revista Multicolor e El Hogar, nas quais colaborou com regularidade. Esses textos foram depois reunidos em livros e finalmente recolhidos nos volumes IV das Obras Completas 1975-1988 (2.a ed., Buenos Aires: Emecé, 2003) e Textos recobrados 1931-1955 (Buenos Aires: Emecé, 2001). Os textos publicados em El Hogar, por exemplo, foram reunidos no volume Textos cautivos, da Editora Tusquets, de Barcelona, por Enrique Sacerio-Garì e Emir Rodrìguez Monegal em 1986, depois de longas negociações em cartas que cruzavam oceanos demorando meses para chegar e algumas delas não encontrando o destinatário, retardando ainda mais o trabalho. As peculiaridades dessas negociações, impensáveis nestes tempos de comunicação total, só as encontramos no bom e velho livro da rara edição da Tusquets, não incorporados às Obras Completas. É curioso, particularmente, o espaço que Borges ocupou na revista El Hogar – A Casa, uma publicação dirigida para mulheres donas de casa ou para a famìlia, na qual Borges parecia um estranho em meio aos assuntos banais desse tipo de publicação de caráter moralizante [2]. A página, publicada a cada duas semanas nessa revista semanal, foi ocupada de 1936 a 1939 e nela Borges publicava várias resenhas, em geral umas três, alguma nota literária e uma seção chamada ―Biografias sintéticas‖, em que esmiuçava a vida de algum escritor, através do seu peculiar estilo que, em poucas pinceladas pitorescas, às vezes algo irônicas, atravessava a vida do autor, em geral ilustrada ao fim com algum texto que ele traduzia. Esses textos foram batizados de ―cautivos‖ pela assumida condição de leitor por parte de Borges, no sentido de que era ―fascinado‖, ―cativado‖ pelas leituras, que transmitia aos leitores procurando dar-lhes caminhos para a descoberta desses autores que lhe chamavam a atenção, no caso de El Hogar, majoritariamente norte-americanos, explicados em chaves de leitura que estão perfeitamente utilizáveis para leitores de agora, dada a perspicácia e atenção daquele que lia. Para ilustrar este comentário sobre esse Borges leitor traduzo a seguir uma ―Biografia sintética‖, dedicada ao poeta negro norte-americano Langston Hughes, publicada em 19 de fevereiro de 1937, aocmpanhada de um poema dele tal como foi traduzido por Borges, ao qual acrescento o texto original não publicado em El Hogar, bem como uma versão dele em português, feita por Marco Aurélio Cremasco. Note-se o tom crìtico de Borges que, já de cara, diz o que pensa dessa literatura que chega adjetivada com a condição de cor do autor, indo contrariamente ao que pretensamente deseja. Em apenas quatro parágrafos temos a biografia de Hughes em cores fortes pelas poucas mas intensas cenas escolhidas por Borges para descrevê-lo. São impressionáveis a passagem do terremoto vivenciado por Hughes no México, assim como sua vida resumida nas descrições de viagem, em pouquìssimas frases, arrematadas pela informação de um prêmio ganhado em dólares por um poema e pelos livros que publicou, contrastando com a informada fome que passara na Europa. E, em seguida à biografia, o poema escolhido por esse admirável leitor. 19 de fevereiro de 1937 BIOGRAFIA SINTÉTICA Langston Hughes Exceto em alguns poemas de Countée Cullen, a literatura negra de agora , adoece de uma contradição que é inevitável. O propósito dessa literatura é demonstrar a insensatez de todos os prejuìzos raciais, e no entanto não faz outra coisa que repetir que é negra: ou seja, acentua a diferença que está negando. O poeta negro James Langston Hughes nasceu em 1.º de fevereiro do ano de 1902 em Joplin, Missouri. Seus avós maternos eram negros livres e proprietários. Seu pai era advogado. Até os quatorze anos, James Langston Hughes viveu no Estado de Kansas. Se tornou ginete aì: aì aprendeu a estribar direito e a lançar o laço certeiro. Até 1908 passou um verão no México, próximo da cidade de Toluca. Tremeu a terra, tremeram as montanhas e James Langston Hughes não se esquecerá de milhares de homens silenciosos e ajoelhados enquanto tremia lentamente a terra e o céu estava azul. Em 1919 apareceram os primeiros poemas fracamente compostos sob o influxo de Claude McKay e de Carl Sandburg. Em 1920 regressou ao México. Em 1922, depois de um ano de indecisos estudos na Universidade de Colúmbia, embarcou para a África. ―No Dakar vi o deserto‖, relata, ―roubei um macaco no Congo, provei vinho de palma na Costa do Ouro, e me salvaram, quase afogado, do Nìger‖. Essa viagem foi a primeira de muitas. ―Nos melhores restaurantes de Paris conheci a fome‖, disse em outro lugar. ―Fui porteiro de um cabaré da rua Fontaine, sem outro ganho que as gorjetas. Como os frequentadores eram franceses, o ganho – noite a noite – chegava a zero. Fui Segundo cozinheiro no Grand Duc. Passei dias felicìssimos em Gênova, sem um centavo no bolso, alimentando-me de figos e de pão negro. Lavei as pontes do vapor que me trouxe a Nova York‖. Em 1925 ganhou um prêmio de cento e cinquenta dólares por seu poema ―Uma casa no Taos‖. Em 1926 saiu seu primeiro livro: Os blues cansados. Logo, outro livro de poemas: Roupa fina para o judeu (1927), e uma novela: Não sem riso (1930). 10

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THE NEGRO SPEAKS OF RIVERS I have known rivers: I have known river ancient as the world and older than the flow of human blood in human veins. My soul has grown deep like the rivers. I bathed in the Euphrates when dawns were young. I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep. I looked upon the Nile and raised the pyramids above it. I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln went down to went downs to New Orleans, and I‘ve seen its muddy bosom turn all golden in the sunset. I‘ve known rivers: Ancient, dusky rivers. My soul has grown deep like the rivers. [Langston Hughes] EL NEGRO HABLA DE RÍOS He conocido rìos... He conocido rìos antiguos como el mundo y más antiguos que la fluencia de sangre humana por las venas humanas. Mi espìritu se ha ahondado como los rìos. Me he bañado en el Eufrates cuando las albas eran jóvenes. He armado mi cabaña cerca del Congo y me ha arrullado el sueño, He tendido la vista sobre el Nilo y he levantado las pirámides en lo alto. He escuchado el cantar del Mississippi cuando Abe Lincoln bajó a New Orleans, Y he visto su barroso pecho dorarse todo con la puesta del sol. He conocido rìos: Rìos inmemoriales, oscuros. Mi espìritu se ha ahondaddo como los rìos. [Langston Hughes, tradução de Jorge Luis Borges] O NEGRO FALA DE RIOS Conheci rios: Conheci rios antigos como o mundo e mais velhos do que o fluxo de sangue humano em veias humanas. Minha alma tem crescido profunda como os rios. Eu tomei banho no Eufrates quando as alvoradas eram jovens. Eu construì minha cabana perto do Congo e ele me embalou para dormir. Eu vi o Nilo e escalei as pirâmides sobre ele. Eu ouvi o canto do Mississippi quando Abe Lincoln desceu à New Orleans, e eu vi seu leito barrento tornar-se dourado no pôr-do-sol. Eu conheci rios: Rios antigos, sombrios. Minha alma tem crescido profunda como os rios. [1] BORGES, Jorge-Luis. Textos cautivos – Ensayos y reseñas em El Hogar (19361939). Edición de Enrique Sacerio-Garì y Emir Rodrìguez Monegal. Barcelona: Tusquets Editores, 1986, Colección Marginales 92. [2] Conforme a transcrição feita por Enrique SacerioGarì na Introdução ao volume Textos cautivos, o editor alertava aos leitores a conduta da revista em 1914, tão familiar aos usuários de sites como o Facebook contemporaneamente: ―Sendo El Hogar uma revista especialmente dedicada às famìlias, e a fim de conservar sempre seu espìrito moralizador, esta administração rechaçará todo anúncio de tendência equìvoca e duvidosa. Salvaguardamos assim nossa responsabilidade, e no caso, improvável, de que fôssemos surpreendidos em nossa boa fé, agradecerìamos qualquer denúncia pertinente a acabar com o abuso, de modo que a publicidade de El Hogar não constitua nunca para seu público nem um perigo nem um engano‖. Ademir Demarchi nasceu em 1960 em Maringá e reside em Santos-SP. Cursou Letras/francês, mestrado (UFSC) e doutorado (USP) em Literatura Brasileira. Edita as revistas BABEL, de poesia, crìtica e tradução (6 edições de 2000 a 2003, fundada com os escritores Marco Aurélio Cremasco, Mauro Faccioni Filho e Susana Scramim, todos paranaenses) e Babel Poética (premiada em 1.º lugar entre 170 projetos no Programa Cultura e Pensamento 2009/2010 do Ministério da Cultura, que teve 6 edições no perìodo 1011-2013, com 10 mil exemplares em distribuição nacional, contendo um mapeamento da poesia contemporânea do Brasil por temas sobre como os poetas veem o paìs, o lugar em que moram, a questão das fronteiras, sua relação com o outro social, os ìndios). Edita o selo Sereia Ca(n)tadora, de livros artesanais, com 30 tìtulos publicados entre 2010-2013, vários com traduções que tem feito de poetas latino-americanos. Em 2012 ganhou Prêmio Tradução do Governo do Estado de São Paulo para compilar uma antologia das Tradições Peruanas de Ricardo Palma. Publicou: Passagens – Antologia de Poetas Contemporâneos do Paraná (com 26 poetas, Imprensa Oficial do Paranpa, 2002); Os mortos na sala de jantar (Realejo, 2007 – prêmio de publicação do Governo do Estado de São Paulo); Passeios na Floresta (Éblis, 2007; Lima: Amotape Libros, 2013); Do Sereno que Enche o Ganges 11 (Dulcineia Catadora, 2007; Lima: Centro Peruano de Estudios Culturales, 2012); Ossos de Sereia (YiYi Jambo, Assunción, Paraguay, 2010; Sereia Cantadora, 2012); O amor é lindo (Sereia Cantadora, 2011); Obras cadáveres – Arthur Bispo do Rosário, Estamira, Jardelina, Violeta e o Deus do Reino das Coisas Inúteis (Edições Caiçaras, 2011) e Pirão de Sereia, que reúne sua obra poética de 30 anos (Realejo, 2012 – prêmio de publicação da Prefeitura de Santos). Participa da série Diálogos com a Literatura Brasileira (org. Marco Vasques, vol. III, Ed. Movimento/Ed. Letradágua, 2010) e da antologia da região Sul Moradas de Orfeu (org. Marco Vasques, Letras Contemporâneas, 2011). Tem também numerosos poemas, artigos e ensaios publicados em jornais e revistas impressos e em sites na internet (Coyote, Medusa, Oroboro, Rascunho, Polichinello, Cronópios, Musa Rara, Germina, Ideias/Jornal do Brasil, Tanto, Blocos On-Line, Celuzlose, Revista Pausa, Cinezen, Triplov, Agulha etc.), teve poema selecionado para integrar a Bienal Internacional de Curitiba 2013 e escreve semanalmente desde 2008 a coluna Babel no jornal O Diário do Norte do Paraná, de Maringá-PR. Site: babelpoetica.wordpress.com. 11

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Contemplando o microcosmo – reflexões sobre O Aleph Manoel Herzog, nascido em Santos a 24 de setembro de 1964, advogado, iniciou na literatura em 1980, segundo lugar em concurso de contos infantis promovido pela Rede Globo. Em 1987 publicou Brincadeira Surrealista, livro de poemas. Cursou Direito na Faculdade Católica de Santos. Foi finalista, com Amazônia, romance, do Prêmio Sesc 2009. Coordena oficinas de literatura em Santos, na Estação da Cidadania, pelo projeto Ponto de Cultura. Em janeiro de 2012 publicou Os Bichos, romance, pela Editora Realejo. Em novembro de 2013 lançará Companhia Brasileira de Alquimia, romance, pela Editora Patuá. http://www.siteastronomia.com/o-que-e-uma-galaxia 12

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Certa feita, durante uma palestra de Jorge Luis Borges em Oxford, um professor quis saber como encontrar o livro raro mencionado num conto. Em que prateleira de que corredor da biblioteca da universidade estava a obra, edição valiosìssima. O professor, um leitor borgeano aplicado, tinha largado tudo para ir à tal biblioteca, mas não o localizou. Achava que não tinha seguido direito a descrição, certamente feita a partir de um dado concreto, pediu ao mestre argentino, autor do conto, que o orientasse como encontrar o tal livro e ouviu, no mais perfeito inglês britânico, daquele senhor de mãos cruzadas sobre a bengala: ―My dear... it‘s not true.‖ Seguiu-se um silêncio absoluto, cortado apenas pela gargalhada de um aluno. A anedota, verdadeira ou não, caracteriza bem a personagem Borges. Não se acredita que deixe de ser, como ele diz, verdade, tão envolvente que é. Ouvi-a de um amigo santista, e não me parece difìcil ele ter confundido com uma passagem de Borges, n‘O Aleph, onde se menciona um livro de Richard Burton encontrado numa biblioteca da cidade de Santos. Quero dizer que não faço coro à gargalhada do aluno, que devia amargar rancores tìpicos contra o infortunado professor. Antes, acho que Borges ‗mentiu‘ foi ao dizer que era mentira. Tinha que ser verdade. É que eu tenho essa propensão a julgar que tudo o quanto a Literatura traz a lume é a pura verdade, e que mentira, mentira mesmo, é o mundo ilusório disto que chamamos realidade. Algo assim como a filosofia indiana da figueira invertida, onde o que julgamos ser a raiz submersa no véu da ilusão é a verdade, sendo a copa uma quimera, Maya. Não vou sozinho na minha sandice. Fernando Pessoa, outro enclausurado na concha do universo, diz o seguinte: “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito?” (grifei) E Leopardi, a grande voz da poesia italiana pós-Dante, isto aqui: “Parece absurdo, mas é verdadeiro: porquanto toda a realidade é nula, as ilusões são, neste mundo, as únicas coisas reais e substanciais.” Enfim, tudo quadra bem à epìgrafe do conto El Aleph, sacada do Hamlet de Shakespeare. “O God! I could be bounded in a nutshell, and count myself a King of infinite space.” Borges fez de Shakespeare personagem de um de seus contos. Seu Shakespeare é exatamente o escritor reduzido à condição de, conceito tão caro aos esoteristas, ―ponto antes da Criação‖, niilismo puro, é o ninguém onde cabem todos os alguéns, segundo Harold Bloom. Não se sabe quem foi William Shakespeare, nem se o pode encaixar em alguma de suas personagens, se as reduzirmos a alteregos. De se notar que Borges, assim como Fernando Pessoa, foi criado falando inglês, idioma acrescido de mais de 3.000 vocábulos pelo autor de Hamlet. Sendo ninguém, espectador ìnfimo, Borges pode contemplar isento. Da concha, entre espelhos, labirintos e bússolas, enxerga o Todo. Jorge Luiz Borges foi homem de gabinetes. Vivenciou o infinito através de seu microcosmo particular. Pertence à estirpe dos grandes artistas que, de suas clausuras, podem sobreviver ao contato com a plenitude, ou ver a face de Deus, o que é vedado ao Homem, ou ver o lado escuro da Lua, o que enlouquece os astronautas. Há outra famìlia de artistas, os grandes aventureiros, homens que impactaram o macrocosmo, viveram à exaustão e sofreram na alma e na carne o mundo, para então devolvê-lo processado em forma de arte. A este grupo pertencem Ernest Hemingway, Mark Twain, Camus, Camões, Cervantes – e Neruda. Com que deslumbre eu li, aos dezesseis anos, o Confesso que Vivi, do poeta chileno, e pensei, como eu pensei então, que pra escrever era imperioso viver. A cada nova esposa Papa Hemingway, soldado, caçador e pescador, escrevia um romance. E Richard Burton, o aventureiro inglês, cônsul de Santos/SP e grande linguista, tradutor do Kama Sutra, Bhagavad Gita, e de tantas obras em idiomas perdidos, que aventuras não viveu pelo mundo para compor sua obra. E Robert Louis Stevenson, escritor de insólitas viagens, outra referência de Borges. Foi só bem depois que pude conceber os artistas de estúdio, dos quais julgo Borges o mais apurado exemplo. Na pintura, Diego Velásquez. E destes verifico um profissionalismo extremo, uma dedicação absurda a seu ofìcio, alheados de ideologias e paixões, arte pela arte. Trabalhando como bibliotecário e se envolvendo em duas singelas relações amorosas consideráveis ao longo da vida, além de um vìnculo extremo com a mãe, que era sua secretária e morreu aos 99 anos, Borges fez digressões sobre filosofia, religião e História originalìssimas para um homem de tão parca experiência. Vida interior. 13

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Gauguin, o pintor francês que veio dar com os costados no Caribe e causou espécie nos salões de Paris pintando um mundo selvagem, não valia um Cézanne, que pouco saiu do atelier. Borges, preso a sua sóbria Buenos Aires, viaja até um império britânico cinzento, até Alexandrias e Sìrias, ao pampa brasileiro, ao porto de Santos, tudo de dentro de casa, da biblioteca, ou de um café, em contato com os livros e recontando a História, que tanto se parece repetir ao longo de séculos e civilizações. O Aleph, um dos mais notáveis contos de toda a História da Literatura, sintetiza bem a obra borgeana, essa caracterìstica de microcosmo que condensa todo o conhecimento. Não por acaso é dedicado a um dos dois amores da vida do escritor, Estela. Homem de vida monástica, Borges viveu a paixão, platônica, por Estela durante anos, tendo fim esta com a recusa da amada ao casamento proposto, pois Estela fazia questão de experimentar sexualmente o noivo antes de casar. Embora o escritor tenha declarado diversas amantes, a criada da famìlia sustenta que ele morreu virgem. A Beatriz Viterbo do conto é a transubstanciação de Estela. O narrador, que não por acaso se chama Borges, inicia contando de todo o ocorrido a partir do falecimento de sua amada Beatriz (alusão à musa de Dante Alighieri, morta prematura e intocadamente), de como passou a, todos os anos, no aniversário de seu nascimento, frequentar a casa dos parentes da morta, onde manteve contato com seu primo-irmão, Carlos Argentino Daneri, um escritor medìocre que julga estar escrevendo um poema épico de dimensões gigantescas, algo como um ‗canto geral‘. O narrador Borges, também escritor, despreza profundamente seu interlocutor, em cuja literatura vê um compêndio de cacofonias e exageros. É delicioso o comentar sarcástico sobre a obra do desafeto que, contudo, ao cabo do conto ganha um honroso segundo lugar num concurso literário, sendo o primeiro e o terceiro colocados outros acadêmicos tão mofados quanto Carlos Argentino. Borges personagem, o grande escritor/narrador, é sumamente ignorado, sequer uma desonrosa menção honrosa. Alusão clarìssima à insuperável frustração do mestre portenho que não ganhou o Nobel, injustiça que a História da Literatura nunca remediará. Neruda, stalinista e lobista, levou o prêmio. É um ponto interessante a se notar o comedimento sexual de Borges em contraponto ao apetite voraz de Neruda, homem de tantos amores. Tão comedido no amor erótico quanto Borges parece ter sido nosso Machado. Noto, e minha visão é a de um brasileiro que não tem como deixar de comparar o maior argentino ao nosso maior, a primeira similitude com Machado de Assis na crìtica impiedosa que Borges, o narrador, faz ao torpe poeta Carlos Argentino. Lembra sobremaneira a passagem inicial do Dom Casmurro, tìtulo do romance e apelido que o narrador machadiano ganha ao desdenhar os esboços de um pretenso literato. Da segunda similitude falamos adiante. Borges, o narrador, paulatinamente, da oitiva do poema ruim de Carlos Argentino, chega à confissão de que a casa onde seu interlocutor vive será em breve demolida pelos capitalistas portenhos, que querem ampliar seus negócios. Carlos Argentino fica revoltado porque, demolida a casa, perderá seu grande repositório literário, o Aleph que mantém escondido no sótão. Borges se interessa pelo Aleph, que é nada mais nada menos que um centro energético, um chacra geográfico-histórico, um portal, um elo com mundos superiores, de onde se pode mirar, a um só tempo, toda a História da Humanidade, todos os acontecimentos, toda a ciência e arte, o macrocosmo visto num pequeno umbigo de diâmetro não superior e três centìmetros. Concluo que o Aleph significa o dom da Poesia, que casualmente tocou ao medìocre Carlos Argentino. A segunda similitude noto no que o deslumbrado Borges assistiu quando lhe foi permitido, por Carlos Argentino, contemplar por instantes o tal Aleph. Segue a descrição: Entonces vi el Aleph. Arribo, ahora, al inefable centro de mi relato, empieza aquí, mi desesperación de escritor. Todo lenguaje es un alfabeto de símbolos cuyo ejercicio presupone un pasado que los interlocutores comparten; ¿cómo transmitir a los otros el infinito Aleph, que mi temerosa memoria apenas abarca? Los místicos, en análogo trance prodigan los emblemas: para significar la divinidad, un persa habla de un pájaro que de algún modo es todos los pájaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cuyo centro está en todas partes y las circunferencia en ninguna; Ezequiel, de un ángel de cuatro caras que a un tiempo se dirige al Oriente y al Occidente, al Norte y al Sur. (No en vano rememoro esas inconcebibles analogías; alguna relación tienen con el Aleph.) Quizá los dioses no me negarían el hallazgo de una imagen equivalente, pero este informe quedaría contaminado de literatura, de falsedad. Por lo demás, el problema central es irresoluble: la enumeración, si quiera parcial, de un conjunto infinito. En ese instante gigantesco, he visto millones de actos deleitables o atroces; ninguno me asombró como el hecho de que todos ocuparan el mismo punto, sin superposición y sin transparencia. Lo que vieron mis ojos fue simultáneo: lo que transcribiré sucesivo porque el lenguaje lo es. Algo, sin embargo, recogeré. En la parte inferior del escalón, hacia la derecha, vi una pequeña esfera tornasolada, de casi intolerable fulgor. Al principio la creí giratoria; luego comprendí que ese movimiento era una ilusión producida por los vertiginosos espectáculos que encerraba. El diámetro del Aleph sería de dos o tres centímetros, pero el espacio cósmico estaba ahí, sin disminución de tamaño. Cada cosa (la luna del espejo, digamos) era infinitas cosas, porque yo claramente la veía desde todos los puntos del universo. Vi el populoso mar, vi el alba y la tarde, vi lãs muchedumbres de América, vi una plateada telaraña en el centro de una negra pirámide, vi un laberinto roto (era Londres), vi interminables ojos inmediatos escrutándose en mí como en un espejo, vi todos los espejos del planeta y ninguno me reflejó, vi en un traspatio de la calle Soler las mismas baldosas que hace treinta años vi en el zaguán de una casa en Frey Bentos, vi racimos, nieve, tabaco, vetas de metal, vapor de agua, vi convexos desiertos ecuatoriales y cada uno de sus granos de arena, vi en Inverness a una mujer que no olvidaré, vi la violenta cabellera, el altivo cuerpo, vi un cáncer de pecho, vi un círculo de tierra seca en una vereda, donde antes hubo un árbol, vi una quinta de Adrogué, un ejemplar de la primera versión inglesa de Plinio, la de Philemont Holland, vi a un tiempo cada letra de cada página (de chico yo solía maravillarme de que las letras de un volumen cerrado no semezclaran y perdieran en el decurso de la noche), vi la noche y el día contemporáneo, vi un poniente en Querétaro que parecía reflejar el color de una rosa en Bengala, vi mi dormitorio sin nadie, vi en um gabinete de Alkmaar un globo terráqueo entre dos espejos que lo multiplicaban sin fin, vi caballos de crin arremolinada, en una playa del Mar Caspio en el alba, vi la delicada osadura de una mano, vi a los sobrevivientes de una batalla, enviando tarjetas postales, vi en um escaparate de Mirzapur una baraja española, vi las sombras oblicuas de unos helechos en el suelo de un invernáculo, vi tigres, émbolos, bisontes, marejadas y ejércitos, vi todas las hormigas que hay en la tierra, vi un 14

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astrolabio persa, vi en un cajón del escritorio (y la letra me hizo temblar) cartas obscenas, increíbles, precisas, que Beatriz había dirigido a Carlos Argentino, vi un adorado monumento en la Chacarita, vi la reliquia atroz de lo que deliciosamente había sido Beatriz Viterbo, vi la circulación de mi propia sangre, vi el engranaje del amor y la modificación de la muerte, vi el Aleph, desde todos los puntos, vi en el Aleph la tierra, vi mi cara y mis vísceras, vi tu cara, y sentí vértigo y lloré, porque mis ojos habían visto ese objeto secreto y conjetural, cuyo nombre usurpan los hombres, pero que ningún hombre ha mirado: el inconcebible universo. Sentí infinita veneración, infinita lástima. Remeto o leitor ao capìtulo sétimo das Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Delírio, onde o protagonista, em delírio, vê a passagem dos séculos: Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, — flagelos e delícias, — desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão. Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota. — Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Job amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere me; a coisa é divertida, mas digere-me. A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: — ―Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade.‖ E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranqüilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Epifanias análogas, delìrios de grandes mestres da Literatura que enxergam toda a experiência humana a partir de um ponto privilegiado. Carlos Argentino Daneri, um poeta ‗torpe‘, como Borges o qualifica (amo esta palavra), foi premiado. Tinha um Aleph, ainda que Borges, despeitadamente, o considerasse um Aleph falso. O sentido da palavra ‗torpe‘, em espanhol, mais se aproxima de fraco. A raiz semântica foi desviada no português, para nós lusófonos torpe mais se aproxima de vil. A origem é a mesma: torpor, entorpecer, etc. Um poeta torpe, fraco, foi premiado, Borges excluìdo. Neruda ganhou o Nobel, que Borges não. Carlos Argentino Daneri é a referência borgeana a Pablo Neruda, o apontamento conformado com o destino, a Providência, que outorga Alephs, ainda que supostamente falsos, aleatoriamente. 15

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