Escola da Ponte

 

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Comportamento Organizacional

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A Escola com que sempre sonhei Sem imaginar que Pudesse Existir Rubem Alves Escola da Ponte: um único espaço partilhado por todos, sem separação por turmas, sem campainhas anunciando o fim de uma disciplina e o início de outra. A lição social: todos partilham de um mesmo mundo. Pequenos e grandes são companheiros numa mesma aventura. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. Ao ritmo da vida: os saberes da vida não seguem programas. São as crianças que estabelecem os mecanismos paro lidar com aqueles que se recusam o obedecer às regras. Pois o espaço da escola tem de ser como o espaço do jogo: para ser divertido e fazer sentido, tem de ter regras. A vida social depende de que cada um abra mão de sua vontade, naquilo em que ela se choca com a vontade coletiva. E assim vão as crianças aprendendo as regras de convivência democrática, sem que elas constem de um programa... 1

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Sumário PREFÁCIO AS LIÇÕES DE UMA ESCOLA:UMA PONTE PARA MUITO LONGE .. 05 Ademar Ferreira dos Santos O PÁSSARO NO OMBRO ............................................................................. 18 Fernando Alves KOAN ............................................................................................................. 19 QUERO UMA ESCOLA RETRÓGRADA .................................................... 24 A ESCOLA DA PONTE (1) ........................................................................... 28 A ESCOLA DA PONTE (2) ........................................................................... 32 A ESCOLA DA PONTE (3) ........................................................................... 35 A ESCOLA DA PONTE (4) ........................................................................... 39 A ESCOLA DA PONTE (5) ........................................................................... 43 Rubem Alves O ESSENCIAL NÃO CABE NAS PALAVRAS ........................................... 47 Escola da Ponte A ESCOLA DA PONTE: BEM ME QUER, MAL ME ................................ 52 Pedro Barbas Albuquerque ESCOLA DOS SONHOS EXISTE HÁ 25 ANOS EM PORTUGAL .......... 65 José Pacheco TRABALHO COOPERATIVO E MUDANÇA DE ATITUDES PROFISSIONAIS NA ESCOLA DO 1º CICLO DO ENSINO BÁSICO ......................................................................................................... 77 Centro de Formação Camilo Castelo Branco 4

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PREFÁCIO AS LIÇÕES DE UMA ESCOLA: UMA PONTE PARA MUITO LONGE... Ademar Ferreira dos Santos A todos aqueles que, num quarto de século, fizeram da Escola da Ponte aquilo que ela é. Aos membros atuais da equipe - Ana, Alzira, Arlete, Ester, Eugênia, Lúcia, Margarida, Palmira e Rosa. Aos menos atuais: Álvaro, Carla, Fátima, Maria das Dores, Maria José, Maria José Alves, Luísa, Zélia e Zé Pacheco. Ao Paulo, à Rute e à Sílvia. Nunca, por mais anos que viva, conseguirei dizer e significar o quanto vos devo - como cidadão, como pai e como professor. Não cobiço nem disputo os teus olhos Não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos Nem sei tampouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo Se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo Não me digas como se caminha e por onde é o caminho deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser Se o caminho dos teus passos estiver iluminado pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias algures na caminhada certamente nos reencontraremos Não me expliques como deverei ser quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de rodas as horas Não me prendas as mãos não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi Deixa-me arriscar o molde talvez incerto deixa-me arriscar o barro talvez impróprio na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar 5

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Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida Vemos para fora e vemos para dentro. Fora, vemos apenas o que de efêmero se vai oferecendo ao horizonte dos nossos olhos. Dentro, tendemos a ver o que não existe, freqüentemente, o que desejaríamos que existisse... Mas, sendo embora aquele que, por inventar o que não existe, antecipa e germina o futuro, o olhar para dentro seria um olhar completamente vazio de sentido se não dialogasse permanentemente com tudo o que existe, fora dele. Nenhuma mudança se funda no nada, na negação da história ou da realidade ou das suas aparências, por mais efêmeras que se apresentem aos nossos olhos, quando eles vêem para fora. Todas as utopias se reportam ao que existe e tudo o que existe aspira ao que não existe. O que não existe precisa do que existe como se fosse a sua face mais oculta. Daí que o olhar para dentro e o olhar para fora não sejam olhares inimigos ou disjuntivos. São olhares que se vêem também um ao outro e que eroticamente se desejam, aspirando à comunhão. Olhar apenas para fora ou para dentro seria dolorosamente insuportável. Se tivéssemos apenas olhos para o que existe - não veríamos o que falta e cegaríamos para as utopias. Se víssemos apenas o que não existe regressaríamos rapidamente a uma imensa caverna de sombras e cegaríamos para a contemporaneidade. Em ambos os casos, perderíamos a capacidade de ver pelos nossos próprios olhos (muito distinto de ver apenas com os olhos dos outros)... Nenhum pensamento reclama tanto a comunhão dos olhares para fora e para dentro como o pensamento sobre a educação. De resto, a educação é isso mesmo - um permanente movimento no sentido da decantação e da intersecção desses olhares. Começamos por treinar e desenvolver apenas o olhar para fora. Durante alguns anos, permanecemos cegos para o que não existe. Só descobrimos o olhar para dentro e começamos a pressentir o que não existe quando se nos impõe ou nos é imposta a necessidade de interrogar e compreender o que vemos fora de nós. Esse é o primeiro momento mágico da educação. O momento em que finalmente nos apercebemos de que há um imenso mundo para além ou aquém do mundo que espreitamos fora de nós. Um mundo reservado, único e tantas vezes incomunicável, feito ou fazível à nossa própria 6

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medida e, em tantos aspectos, insusceptível de ser entendido ou percebido pelos outros. É esse mundo interior, só captável pelo olhar para dentro, que dá expressão à nossa identidade e singulariza o nosso destino. E é, precisamente, à medida que vamos tomando consciência desse mundo interior e que, simultaneamente, vamos aperfeiçoando a focagem do olhar para fora (ou seja, aperfeiçoando a nossa própria percepção e compreensão do mundo exterior) que avançamos para o segundo e decisivo momento mágico da educação - o momento em que, finalmente, podemos começar a escrever a nossa própria vida, única e irrepetível Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram. ou metade desse intervalo, porque também há vida, .. Álvaro de Campos A educação é um caminho e um percurso. Um caminho que de fora se nos impõe e o percurso que nele fazemos. Deviam ser por isso, indivisíveis e indissociáveis. Como os dois olhares com que nos abrimos ao mundo. Como as duas faces, a visível e a oculta, do que somos. Os caminhos existem para ser percorridos. E para ser reconhecidos interiormente por quem os percorre. O olhar para fora vê apenas o caminho, identifica-o como um objeto alheio e porventura estranho. Só o olhar para dentro reconhece o percurso, apropriando-se dos seus sentidos. O caminho dissociado das experiências de quem o percorre é apenas uma proposta de trajeto, não um projeto, muito menos o nosso próprio projeto de vida. O caminho está lá, mas verdadeiramente só existe quando o percorremos - e só o percorremos quando o vemos e o percebemos dentro de nós. Outra coisa, aliás, não pretendia significar o poeta, quando escreveu: Caminhante, é o teu rasto O caminho, e nada mais; Caminhante, não há caminho O caminho faz-se a andar. Antonio Machado, Provérbios y cantares O caminho é o rasto que nele projetamos. Daí que pensar a educação apenas em função dos caminhos - como tantos insistem ainda cm fazê-lo - é pensar a educação que 7

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ainda não o é, é pensar a educação simplesmente na ótica dos educadores topógrafos, é abrir a objetiva do olhar para fora e fechar a objetiva do olhar para dentro. E é crer nessa espantosa mistificação (como Antonio Machado se riria dela) de que são os caminhos que fazem os caminhantes e não o contrário... Por isso, o século XX foi não o século do renascimento da educação, o "século da criança", como tantos ingenuamente chegaram a vaticinar, mas o século da agonia da educação, da sua canonização instrumental. Uma miríade de micros saberes sobre os trajetos possíveis dos educáveis na escola e na sociedade abateu-se, como um espesso e quase impenetrável nevoeiro de racionalidade, sobre o campo de visão dos práticos e profissionais da educação, turvando e hiperatrofiando os seus olhares e levando-os a agir, não como promotores inteligentes e solidários de percursos de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal, diferenciados e humanamente qualificados, mas como peças menores e oscilantes de uma complexa, gigantesca e, tantas vezes, estúpida engrenagem de adestramento cognitivo e de (como diria Rubem Alves) pinoquização cultural. À luz de tudo o que fica dito, o presente livro é, a vários títulos, um livro excêntrico. Excêntrico, desde logo, pela natureza do objeto de que se ocupa: uma escola fora da norma do menor denominador comum, que os guardiães da norma, primeiro, tentaram em vão asfixiar ou domesticar e, depois, procuraram delicadamente entronizar (e profilaticamente circunscrever) como vestígio arqueológico e excrescência crepuscular de uma certa práxis romântica e marginal de educação ... Excêntrico, também, porque, entre cruzando os olhares para dentro e para fora, retira e infere a utopia da realidade e não o contrário, atrapalhando o cínico pragmatismo dos desconstrutores profissionais de utopias... Excêntrico ainda porque projeta sobre uma escola "primária", a mais "inferior" e politicamente desqua1ificada das escolas ditas não-superiores, um olhar apaixonadamente "interior" e narrativo, afetivamente cúmplice e solidário - um olhar que é ele próprio um desafio de sedução e uma provocação a outros olhares, porventura menos amigáveis... A Escola da Ponte nº 1, em Vila das Aves (conselho de Santo Tirso), é o objeto das narrativas e dos depoimentos reunidos no presente livro. Quero dizer ao leitor que a descoberta da Escola da Ponte representou também para mim (para quem não representará?) uma extraordinária e fulgurante "experiência de 8

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iluminação". Estava ali, de fato, "a escola com que sempre sonhara, sem imaginar que pudesse existir". O que mais fortemente começou por me impressionar na Escola da Ponte foi a doce e fraternal serenidade dos olhares, dos gestos e das palavras de todos, crianças e adultos. Ali, ninguém tem necessidade de engrossar ou elevar a voz e de se pôr em bicos de pés para se fazer ouvir ou reconhecer pelos demais - porque todos sabem que a sua voz conta e é para ser ouvida. E quem diz a voz diz o mais. Como as crianças não são educadas para a competição, mas para a entreajuda (e o exemplo vem dos adultos, porque a rotina de entreajuda está instituída na Escola em todos os níveis como se fosse a verdadeira matriz do seu projeto cultural), as pulsões de inveja, ciúme ou rivalidade, e toda a agressividade comportamental que lhes anda associada, estão quase ausentes dos gestos cotidianos dos membros dessa comunidade educativa. Por isso é que na Escola da Ponte não faz sentido falar de problemas de indisciplina, porque todos apóiam todos, todos acarinham todos, todos ajudam todos, todos são, afetivamente, cúmplices de todos, todos são, solidariamente, responsáveis por todos. E, não menos significativo, todos sabem o nome de todos, ou seja, todos procuram reconhecer e respeitar a identidade de todos... Percebi mais tarde que a serenidade que espreita nos olhares, nos gestos e nas palavras das crianças não é mais do que o resultado esperado e (acrescentaria eu) inevitável do "segredo" da intervenção pedagógica dos profissionais de educação da Ponte. Um segredo feito, simplesmente, de duas palavras e das correspondentes atitudes - "meiguice" e "paciência". Parece romântico e fora de moda num tempo em que nas escolas e na sociedade tantas vozes supostamente preocupadas com a agressividade e a indisciplina dos alunos se erguem a reclamar rigorosamente o contrário. Pode parecer romântico e fora de moda, mas a verdade é que a "meiguice" e a "paciência", na Escola da Ponte, acontecem de uma forma absolutamente espantosa. Poderão os cínicos de serviço dizer que uma escola de crianças tranqüilas e felizes não é, necessariamente, uma escola eficaz - entenda-se por "eficaz" o que se quiser. Poderão até dizer que numa sociedade utilitarista que lida mal com as aspirações de felicidade das pessoas, uma escola de crianças fe1izes é uma escola em conflito e em ruptura com a sociedade, cuja existência, por isso, a própria sociedade não deveria tolerar, em nome, porventura, do reconhecimento do "direito" da criança a ser educada na e para a 9

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infelicidade, ou seja, a ser preparada para o futuro. O grosseirismo de um argumento desse tipo - atualmente tão em voga em certos círculos mediocráticos que parecem professar, nostalgicamente, o regresso a uma escola de caserna "pura e dura" - não resiste à meridiana verificação (ao alcance de qualquer educador minimamente experimentado) de que os ambientes amigáveis e solidários de aprendizagem são precisamente aqueles que mais e melhor favorecem a aprendizagem, porque é neles que as crianças, de fato, sentem-se muito mais seguras, disponíveis e motivadas para aprender e, o que não é menos significativo em termos educacionais, para aprender umas com as outras e não apenas com os adultos... Mas a Escola da Ponte não é apenas (e já não seria pouco) um ambiente amigável e solidário de aprendizagem. Mais do que uma escola, ela é verdadeiramente, sem eufemismos, uma comunidade educativa - e daí o fascínio que ela exerce em todos aqueles que não se revêem no modelo totalitário de sociedade que nos rege e que ainda não desistiram de sonhar e de lutar por uma sociedade diferente. E quem diz sociedade diz escola... A Ponte é, desde logo, uma comunidade profundamente democrática e auto regulada. Democrática no sentido de que todos os seus membros concorrem genuinamente para a formação de uma vontade e de um saber coletivos - e de que não há, dentro dela, territórios estanques, fechados ou hierarquicamente justapostos. Auto regulada, no sentido de que as normas e as regras que orientam as relações societárias não são injunções impostas ou importadas simplesmente do exterior, mas normas e regras próprias que decorrem da necessidade sentida por todos de agir e interagir de uma certa maneira, de acordo com uma idéia coletivamente apropriada e partilhada do que deve ser o viver e o conviver numa escola que se pretenda constituir como um ambiente amigável e solidário de aprendizagem. Mais do que um projeto de educação para a cidadania, o que verdadeiramente distingue a Escola da Ponte é uma práxis de educação na cidadania. Essa clarificação é verdadeiramente fundamental para entender o que se passa na Ponte. O sentimento profundamente arraigado no indivíduo de pertença a uma comunidade e a consciência que dele decorre dos direitos e deveres que nos ligam aos outros não se aprendem nas cartilhas ou nos manuais de civismo, mas na experiência cotidiana de relacionamento e colaboração com os que estão mais próximos de nós. O civismo não se ensina e não se aprende - 10

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simplesmente (como diria o publicitário Fernando Pessoa) "entranha-se", isto é, organiza-se e pratica-se no dia-a-dia, de uma forma permanente, consistente e coerente. E é da prática do civismo que resultam a aprendizagem e a consciência da cidadania. Há muito que a Ponte o percebeu - e que age em conformidade. Tudo o que acontece na Escola da Ponte é, antes de mais nada, "educação na cidadania". Quando as crianças pesquisam, investigam e aprendem em grupo e as "mais dotadas" se responsabilizam pelo acompanhamento e o apoio à aprendizagem das "menos dotadas”... Quando as crianças, desde a iniciação, habituam-se a pedir a palavra para falar e habituamse a ouvir os outros em silêncio e com a devida atenção... Quando as crianças que julgam saber mais ou ser mais capazes sentem-se coletivamente estimuladas a oferecer ajuda, e quando as que julgam saber menos ou ser menos capazes não se sentem inibidas de pedir ajuda ... Quando as crianças, no debate diário, partilham coletivamente as suas angústias, os seus sonhos, as suas dúvidas, as suas opiniões, as suas propostas - e o fazem, sabendo que vão ser escutadas e respeitadas pelos demais... Quando, no início de cada ano escolar, as crianças se envolvem na eleição dos membros da mesa da Assembléia e quando, de uma forma extremamente empenhada e responsável, promovem a constituição de listas, elaboram, divulgam e discutem os respectivos programas de ação, organizam todo o processo eleitoral e participam na campanha... Quando, todas as sextas-feiras, na Assembléia, as crianças refletem sobre os projetos e os problemas da escola e, solidariamente, procuram contribuir para a sua concretização e resolução... Quando as crianças, todos os anos, contratualizam com os adultos a sua carta de direitos e deveres... Quando as crianças, todos os dias, vivem o exemplo de entreajuda e de estreita e fraternal colaboração dos seus professores... Quando tudo isso e tudo o mais (que só visto) acontece num ambiente amigável e solidário de aprendizagem - a educação na cidadania é o próprio respirar e sentir da comunidade, não é uma enxertia de conceitos pretensamente civilizadores numa cabeça cujo corpo está em permanente e agressiva disputa e concorrência com os outros. Devemos à Ponte, entre muitas outras, esta lição - educar na cidadania não é o mesmo que educar para a cidadania. Mas a mais extraordinária, cintilante e desafiadora lição que, porventura, devemos à Escola da Ponte (ainda que nem sempre devidamente enfatizada pelos observadores) refere- 11

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se à reformulação (absolutamente radical) dos papéis do "professor" e do "aluno", como membros de uma comunidade educativa. A primeira grande surpresa que espera o visitante da Ponte é a aparente subversão de um conjunto de mecanismos e rituais que nós fomos habituando a associar à organização e ao funcionamento de uma escola. Na Ponte, tudo ou quase tudo parece obedecer a outra lógica. Não há aulas. Não há turmas. Não há fichas ou testes elaborados pelos professores para a avaliação dos alunos. Não há manuais escolares e, menos ainda, manuais únicos para todos os alunos. Não há toques de campainha ou de sineta. Em certos momentos, o observador mais distraído até poderá supor que, naquela escola, não há professores, de tal modo eles se confundem com os alunos (ou são ou parecem ser) desnecessários... À medida, porém, que o observador procura ver e compreender melhor o que se passa ali, ele acaba percebendo o sentido de tudo, a tal lógica singular de organização e funcionamento da Escola da Ponte. E percebe que a filosofia subjacente ao projeto pedagógico daquela comunidade é extraordinariamente simples e coerente com tudo o mais. Ele percebe que naquela escola o currículo não é o professor, mas o aluno. A educação naquela escola, mais do que um caminho, é um percurso - e um percurso feito à medida de cada educando e, solidariamente, partilhado por todos. O resto são estratégias, são instrumentos, são meios – são “truques” e rotinas processuais. Parece simples e até romântico? Parece, mas funciona. É ver, por exemplo, como as crianças elaboram quinzenalmente os seus planos de trabalho e como se propõem à avaliação, quando consideram ter atingido os objetivos de aprendizagem que se impuseram; é ver como as crianças organizam os seus roteiros de consulta bibliográfica e como operacionalizam as suas pesquisas; é ver como as crianças se empenham, responsavelmente, na concepção, na planificação, na concretização e na avaliação dos projetos; é ver como as crianças, semanalmente, elaboram, discutem e aprovam as atas da assembléia; é ver como as crianças, nos relatórios e comunicações, dão conta das suas "descobertas"; é ver como as crianças identificam e verbalizam as suas dificuldades de aprendizagem e como se disponibilizam solidariamente a ajudar os colegas que precisam e reclamam apoio; é ver como as crianças descrevem e falam da sua escola aos visitantes... Para imensa surpresa dos observadores mais desprevenidos, o que acontece na Ponte 12

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significa uma verdadeira "revolução coperniciana" no modo como os professores se posicionam diante dos alunos e os alunos diante dos professores e uns e outros diante do currículo. Na Escola da Ponte, o currículo não existe em função do professor - é uma permanente referência do percurso de aprendizagem e de desenvolvimento do aluno e uma referência permanentemente apropriada pelo aluno. O aluno é, assim, o verdadeiro sujeito do currículo - não um instrumento ou um mero destinatário do currículo. Os professores não estão no centro da vida escolar, não são o sol do sistema curricular. Estão, relativamente às crianças, em permanente movimento de translação e circunvolução, procurando acompanhar, orientar e reforçar o percurso de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal e social de cada aluno. A educação, afinal, sempre foi isso - e a singularidade do "projeto educativo" da Ponte decorre simplesmente do fato de o não ter esquecido. Nos anos mais recentes, a Escola da Ponte converteu-se involuntariamente (foi sendo convertida) numa espécie de santuário dos peregrinos de um novo tipo de escola. Mas não são apenas os "crentes" que afluem à Vila das Aves - entre os forasteiros que demandam a Escola (na sua maioria, profissionais, estudantes e investigadores de educação), não são poucos aqueles que, incapazes de ver e sonhar o que não existe, vão apenas à procura de sinais que, simplesmente, confirmem o seu quase irreformável ceticismo. Muitos dos céticos saem da Ponte a cambalear, como se tivessem acabado de levar um poderoso murro no estômago. A tal Escola que eles julgavam não passar de uma mera ilusão propagandística fabricada e alimentada pelos setores mais vanguardistas do Ministério de Educação afinal existe mesmo e funciona. Seria extremamente interessante investigar o impacto profissional que a revelação da Ponte tem tido nesses céticos... Outros, porém, diga-se que em muito menor número, saem da Ponte como entraram, rigidamente colados a um ceticismo que nada nem ninguém, pelo visto, poderá tirar-lhes. O modelo tradicional de escola que sempre conheceram pesa-lhes tanto no olhar, na memória e na experiência que já nem são capazes, sequer, de ver e reconhecer a novidade no que existe, quanto mais de sonhar e desejar o que não existe. Alguns, justiça ao menos lhes seja feita, ainda passam quase despercebidos pela Ponte e só mais tarde verbalizam a sua reiterada e acrisolada desconfiança relativamente ao que viram e ouviram. Outros, porém, 13

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como elefantes passeando em loja de porcelanas, deixam à sua passagem um imenso rasto de cacos partidos - provocam acintosamente, interferem abusivamente, insinuam indignidades e malfeitorias várias, desrespeitam, ofendem. Em geral, são professores jovens, saídos recentemente das universidades e das escolas superiores ditas de educação. E o triste "exemplo" do seu comportamento agressivo e intolerante deveria levar-nos, de uma vez por todas, a interrogar os sistemas de formação e de recrutamento de professores que persistimos em manter... Mas por aqui passa a última grande lição que devemos à Ponte. Em vez de se fechar como uma ilha de virtudes às interferências e à curiosidade tantas vezes mórbida e depredadora dos estranhos, a Escola da Ponte tem sempre as portas abertas para os amigos e os "inimigos", para os cúmplices e os detratores. Não conheço escola que seja fraternalmente tão aberta, tão transparente e tão acolhedora quanto a Ponte. E mais extraordinário ainda - por regra, são as crianças (e não os adultos) que recebem, acompanham e orientam os visitantes e que procuram dar a primeira resposta às suas dúvidas. Este livro, como todos os livros, tem uma história - e uma história que se entrecruza com a história da própria Escola da Ponte. A história deste livro começa há alguns anos, quando o Centro de Formação Camilo Castelo Branco, de Vila Nova de Famalicão, tomou a iniciativa de bater à porta da Escola da Ponte (que se localiza no concelho vizinho de Santo Tirso) para lhe lançar um "desafio" - o de aceitar constituir-se, no quadro da formação contínua de professores, como um centro de "estágio". Fraternalmente, como é seu timbre, a Escola da Ponte respondeu de imediato – “temos sempre as portas abertas para quem quiser trabalhar”. E respondeu mais “teremos certamente muito a aprender com as experiências com profissionais, as observações, as reflexões e as criticas dos colegas que vierem". Essa disponibilidade para acolher os "estranhos" e para aprender com eles tocou-me profundamente, tão habituado que estava à resistência das escolas a serem observadas, questionadas e avaliadas. Com a concretização do estágio, as relações de cooperação e de confiança recíproca entre a Escola ela Ponte e o Centro de Formação foram-se naturalmente estreitando e intensificando, estabelecendo-se entre as duas entidades um permanente intercâmbio de projetos, cumplicidades e colaborações pontuais dos mais diversos tipos. 14

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Foi nesse quadro de fraterna cooperação que, em maio de 2000, a convite e pela mão elo Centro de Formação, o ilustre educador brasileiro Rubem Alves - de quem o Centro publicara uma antologia de textos sobre educação - foi levado a visitar a Escola da Ponte. A surpresa do visitante foi tamanha e de tal modo ficou encantado e fascinado com tudo que viu e ouviu que, regressado ao Brasil, escreveu e publicou, num dos jornais em que habitualmente colabora (Correio Popular, de Campinas), um conjunto de seis crônicas dedicadas à Escola da Ponte, textos que tiveram e continuam ter um fortíssimo impacto no país-irmão. A visita de Rubem Alves à Escola da Ponte seria, de resto, parcialmente acompanhada pelo jornalista Fernando Alves, da TSF que lhe viria a dedicar um de seus luminosos e inesquecíveis “Sinais”. Reconhecido o elevado interesse testemunhal das crônicas que Rubem Alves dedicara à Escola da Ponte, o Centro de formação Camilo Castelo Branco propôs-se imediatamente a editá-las em Portugal. A presente edição planejada e organizada pelo Centro de Formação Camilo Castelo Branco, não se limita porém, a recolher as crônicas de Rubem Alves publicadas no Correio Popular. Inclui ainda um inédito do mesmo autor, em que ele nos introduz à "experiência de iluminação" que a Escola da Ponte lhe proporcionou; o texto da crônica que o jornalista Fernando Alves, da TSF; dedicou à visita de Rubem Alves à Escola; um texto elaborado coletivamente pelos profissionais de educação da Ponte em que eles evocam e "comentam" a visita e as crônicas de Rubem; um testemunho confessional, em forma de diário, do consultor do Centro de Formação (Pedro Barbas Albuquerque) que tem acompanhado, para efeitos de avaliação, o estágio realizado na Escola da Ponte; e a transcrição de uma entrevista sobre a Escola da Ponte concedida por José Pacheco ao porta! brasileiro Educacional. Inclui-se ainda, ao final, o programa do estágio centrado na Escola da Ponte patrocinado pelo Centro de Formação Camilo Castelo Branco. Os alunos também fizeram ilustrações evocativas da visita de Rubem Alves, as quais aparecem na capa dessa edição. Os testemunhos reunidos no presente livro lançam sobre a Escola da Ponte um olhar caleidoscópico - já que não a observam todos do mesmo ângulo ou ponto de vista. O leitor irá encontrar nos textos um conjunto diversificado de contribuições para melhor compreender a alma e a práxis educativas de uma escola verdadeiramente sui generis. Termino este prefácio do modo como gostaria de tê-lo iniciado. 15

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