Memória e Verdade

 

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Memória e Verdade

Popular Pages


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MARGINAL A injustiça que leva à violência

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A Carne (Elza Soares) A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra Que vai de graça pro presídio E para debaixo do plástico Que vai de graça pro subemprego E pros hospitais psiquiátricos A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra A carne mais barata do mercado é a carne negra Que fez e faz história Segurando esse país no braço O cabra aqui não se sente revoltado Porque o revólver já está engatilhado E o vingador é lento Mas muito bem intencionado E esse país Vai deixando todo mundo preto E o cabelo esticado Mas mesmo assim Ainda guardo o direito De algum antepassado da cor Brigar sutilmente por respeito Brigar bravamente por respeito Brigar por justiça e por respeito De algum antepassado da cor

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O Brasil mestiço e a carne mais barata do mercado

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Poderia aqui discorrer sobre os vários significados da cena forte, inadmissível e ao mesmo tempo banal e naturalizada apresentada pela foto acima. Nossa realidade é tão perversa que não seria exagero dizer que esse adolescente “teve sorte”. Afinal, os grupos de extermínio aqui denominados “justiceiros” (quase sempre compostos por policiais e expoliciais) não costumam ser tão bondosos. Seu modus operandi é outro: matar e, se possível, sumir com o corpo. Não por acaso, é exatamente o perfil deste garoto, jovem e negro, o alvo prioritário da violência no país, em uma absurda proporção de 7 para cada 10 vítimas de assassinatos, conforme já relatei aqui diversas vezes. Mas o sentimento de repulsa à naturalização racista da violência dirigida ao corpo negro foi mais bem relatado nos parágrafos que encontrei no BLOG do Controversias: “Dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. Enquanto o samba acontecia na Pedra do Sal, a poucos quilômetros dali, no bairro do Flamengo, puseram um negro nu preso pelo pescoço num pelourinho improvisado. Ele estava assaltando pessoas (ou foi o que disse quem publicou a foto). Pra servir de exemplo aos pretos ladrões. Recentemente, um caso semelhante aconteceu na praia. Esse jovem não estava na Pedra do Sal ouvindo a alta poesia da música negra, tomando cerveja e conversando com seus amigos sobre o trabalho do mestrado porque tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa, mas porque não existe espaço objetivo para dignidade e felicidade de todos no projeto capitalista, racista e violento de país que dirige o Brasil. Sem entender isso, não se entende nada e, facilmente, até mesmo sem perceber, se cai no colo dos fascistas.

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Não existe vacina política histórica, nada está garantido e nada está assegurado; a humanidade se reinventa todos os dias. Repúdio absoluto e urgência de responder isso à altura. Não pode deixar naturalizar de jeito nenhum. Peço a todos que façam chegar a todas as organizações políticas, mandatos, movimentos e entidades democráticas de que tenham conhecimento.” http://extra.globo.com/noticias/rio/adolescente-atacado-porgrupo-de-justiceiros-preso-um-poste-por-uma-trava-de-bicicletano-flamengo-11485258.html

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Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro (O Rappa) Tudo começou quando a gente conversava Naquela esquina alí De frente àquela praça Veio os homens E nos pararam Documento por favor Então a gente apresentou Mas eles não paravam Qual é negão? qual é negão? O que que tá pegando? Qual é negão? qual é negão? É mole de ver Que em qualquer dura O tempo passa mais lento pro negão Quem segurava com força a chibata Agora usa farda Engatilha a macaca Escolhe sempre o primeiro Negro pra passar na revista Pra passar na revista Todo camburão tem um pouco de navio negreiro Todo camburão tem um pouco de navio negreiro É mole de ver Que para o negro Mesmo a aids possui hierarquia Na África a doença corre solta E a imprensa mundial Dispensa poucas linhas Comparado, comparado Ao que faz com qualquer Figurinha do cinema Comparado, comparado Ao que faz com qualquer Figurinha do cinema Ou das colunas sociais Todo camburão tem um pouco de navio negreiro Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

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Violência é estar marginalizado Que tipo de justiça você quer?

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Nos últimos dias uma polêmica esteve em discussão nas redes sociais e nos meios de comunicação. A ação de um grupo que espancou, despiu e amarrou um jovem negro pelo pescoço em um poste no bairro Flamengo no Rio de Janeiro. O acontecimento repercutiu principalmente após a defesa dos chamados “justiceiros” pela jornalista do SBT, Rachel Sheherazade. A declaração dessa apresentadora foi repudiada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, junto com sua Comissão de Ética, que caracterizou o comentário como violação dos direitos humanos. O jovem chamado de “marginalzinho” pela jornalista foi acusado de ter praticado diversos furtos naquela redondeza. Esse fato nos chama a atenção por demonstrar a banalização da violência na nossa cultura capitalista, onde a sociedade é vítima de uma exclusão que ela mesmo cria. Isso porque o termo marginal significa que a pessoa está separada do resto da sociedade. Ou seja, quem é marginalizado não é considerado parte do todo, é obrigado a ocupar as beiras ou as margens, não tem oportunidade de estar no centro. Quando deixa de prover o bem estar-social (saúde, educação, alimentação, moradia, cultura), o Estado não só comete também um ato de violência (descumprimento de uma norma legal) como também favorece o surgimento da classe marginal.

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A divisão que massacra A mesma desigualdade social que hoje separa os supostos “cidadãos de bem” dos intitulados “marginais”, criou em 1963 o clima que provocou o Massacre de Ipatinga. Milhares de trabalhadores vieram para a cidade em busca dos benefícios prometidos pela Usiminas. No entanto, grande parte não pôde participar da divisão do bolo. Os empregos não contemplaram todos, formouse o chamado exército de reserva tão vantajoso aos capitalistas. Para a maioria que ficou de fora do banquete, restou a margem da sociedade: o subemprego e as condições precárias de moradia, alimentação, trabalho e transporte. Nesse sentido, diversos estudos apontam que a exclusão e a desigualdade social são pontos chaves para entender a violência. Isso não quer dizer que a violência parta apenas das classes desfavorecidas. Mas aponta que, muitas vezes, o violento já foi, em diversas ocasiões, violentado: seja pela ausência do Estado, pelo olhar segregado da mídia, pela falta de oportunidade no “mercado” de trabalho, pela sociedade do consumo ou pelo preconceito. Resta-nos questionar que tipo de “Justiça” é capaz de romper com essa lógica e construir uma sociedade humana e pacífica: aquela praticada pelos “justiceiros”, que resolvem o problema com as próprias mãos, ou a justiça social, capaz de tirar as pessoas da margem da sociedade? O SECI e o Fórum Memória e Verdade do Vale do Aço acreditam que só a justiça social é o caminho para a possível transformação social.

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