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zibia m gasparetto lucius entre o amor e a guerra romance mediúnico Índice prólogo 9 a organização socorrista 11 o campodebatalha odiáriodedenizarth 17 o lar de ludwig 24 o falso kurtmiller 35 as bodas 38 a prisão 45 sevícias e libertação 53 início da volta 63 a resistência 73 o disfarce 83 finalmente o lar 89 a doutrina consoladora 98 a revelação 111 o atentado 119 a rendição alemã em paris 127 a recompensa 139 a decepção 146 o caminho de damasco 153 duas almas se encontram 169 uma esperança 174 mensagem de paz 179 no caminho 189 a adoção 199 o presente de fim de ano 207 cego fanatismo 222 o sublime perdão 247 em que pese a dedicação e o amor de deus e dos espíritos luminares voltados com abnegação às tarefas sacrificiais em favor do progresso espiritual da humanidade não se tem conseguido evitar a consumação da tragédia e da dor nas manifestações das necessidades humanas a expandir-se através das suas experiências na conquista árdua dos valores morais e reais da vida há séculos o senhor vem derramando bençãos e revelações consoladoras buscando orientar e educar os homens para conduzi-los à felicidade e à paz entretanto,nos entrechoques do egoísmo e da ambição do orgulho e da vaidade vêm eles se degladiando mutuamente guerras lutas crimes sociais políticos a estabelecerem toda sorte de conseqüências reparadoras e diligentes na reconquista do equilíbrio abençoada dor que acorda a criatura abençoada luta que cria condições de reajuste e de progresso ideal sublime que nos faz pensar em um mundo sem dor nem guerra onde todos se
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ajudem e se amem onde o respeito e a amizade a dedicação e o amor estabeleçam padrões de igualdade de direitos e todas as classes sociais possam conviver sem degladiarem-se com prejuízos recíprocos onde todos se estimem e as fronteiras entre as raças e países sejam abertas sem armas ou barreiras onde a política seja utilizada visando o bem de todos no sagrado ministério do progresso utopia dirão muitos parece-me ver o sorriso descrente da maioria mas eu respondo meta obrigatória do futuro destino para o qual fomos criados evolução entretanto nada parece mais distante do panorama atual da terra do que essa conquista o mundo conturbado geme envolto em crises e guerras protestos e terror cataclismas e sofrirnemos a moral parece ter desaparecido e o materialismo ganha novos surtos estabelecendo conflito ovacionando o vício todavia a obra de redenção prossegue inexorável as leis da justiça divina imutáveis dão a cada um segundo suas obras e o tempo amigo constante,encarrega-se de restaurar a verdade na intimidade do ser a humanidade encontra-se dividida em dois grandes grupos os que sabem e os que ignoram os que já entenderam e os que estão cegos nós desejamos cerrar fileiras com aqueles que acreditam no futuro do espírito no progresso da humanidade terrena e trabalham para apressá-lo na certeza de que deus nos faculta a alegria de colaborarmos em sua obra muito embora estejamos conscientes da nossa inferioridade e dos nossos débitos perante as leis divinas e justamente por termos tantas vezes sido soldados da violência nos decidimos a batalhar pela paz assim nós espíritos desejosos de fazer o bem nos reunimos em =torno de instrutores abnegados e nos dispuzemos ao trabalho dada um =dentro do campo de atividades que nos compete desta forma atendendo aos dispositivos do nosso trabalho nos reunimos em assembléia no plano espiritual nossa arma o amor nosso objetivo,o esclarecimento nosso desejo a conquista da paz e da libertação do homem que jesus nos abençoe lucius são paulo 30 de março de 1974 capitulo 1 a organização socorrista o céu estava estrelado e a noite agradável no imenso e acolhedor salão nos reunimos como de hábito nos últimos dias realizando nossa preparação para o ingresso no grupo de trabalhadores que em nossa colônia espiritual dispunha-se à colaborar em favor da paz campos da paz agrupamento espiritual de acolhimento e socorro à humanidade terrestre dedicava enorme contingente de auxiliares e benfeitores a essa tarefa não só procurando restabelecer a paz na terra como recolhendo assistindo e encaminhando as
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vítimas das guerras e das violências no mundo a fraternidade das enfermeiras internacionais dirigida pelo espírito abnegado de florence nigthingale envidava os maiores esforços nesse campo desvelando-se em todos os setores era com profundo respeito que olhávamos seus vultos diligentes trabalhando sem cessar numa demonstração inegável de dedicação e renúncia foi com emoção que ouvimos a prece da enfermeira rose iniciando a reunião e logo após as palavras firmes da enfermeira lee concitando-nos à tarefa descreveu-nos o que se passava no mundo o horror que a ameaça constante de nova guerra despertava em cada coração conhecíamos os problemas das mortes nos campos de batalha conhecíamos em parte a que arrastamentos as paixões podem conduzir o homem espicaçado pelo ódio e pela guerra funda emoção nos acometeu quando ela concluiu companheiros unamo-nos para lutar pela paz nossa luta é de amor e alegria de esperança e luz sabemos que as casas de socorro do nosso plano ainda abrigam espíritos dementados pela luta sangrenta sabemos dos resgastes dolorosos que muitos necessitam enfrentar ainda na restauração da paz que destruíram sabemos que os homens precisam aprender a amar e a sentir jesus com o coração a humanidade carece mais do que nunca do conhecimento da vida espiritual da crença na reencarnação e na eficácia da justiça divina que ninguém jamais conseguiu burlar É preciso que os homens saibam que toda quebra da paz representa duro esforço na restauração do eterno bem companheiros e isso que precisamos falar aos homens a cada coração a cada lar a cada espírito por isso nos reunimos aqui vamos servir a jesus unidos e confiantes sem medo das falanges das trevas que se locomovem incessantemente envolvendo os homens na hora dificil que passa deus é alegria e paz jesus é vitória do bem trabalhemos e certamente unidos poderemos realizar com alegria e coragem novas sementeiras de amor eu estava comovido um entusiasmo enorme fortaleceu em meu coração o desejo da luta depois da prece singela e comovente a reunião encerrou-se e esperei a instrutora que iria designar-me a tarefa a enfermeira lee aproximou-se distendendo um sorriso estou contente por contarmos consigo apertei a mão que me estendia com carinho sinto-me feliz por estar aqui aguardo com alegria o momento de iniciarmos nossa tarefa sim temos acompanhado o grupo com que você colabora na terra e temos estado com eles no intercâmbío amigo chegou a hora de seguirmos você quer material para um novo livro endereçado aos nossos irmãos terrenos e acho que temos um caso especial interessei-me já conseguiu sim venha comigo acompanhei-a atravessamos o parque harmonioso e belo que circundava o local das reuniões e caminhamos alguns quarteirões alcançamos um edifício claro e de linhas retas entramos atravessamos o hall e ingressamos em pequeno salão onde um casal de aspecto moço palestrava em voz baixa ao lado de um menino aparentando uns 9 anos apesar de serenos eles estavam um pouco pálidos demonstrando que convalesciam o
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menino embora em melhores condições espirituais pois sua cabeça estava nimbada de luz parecia preocupado e um pouco impaciente vendo-nos correu ao nosso encontro e abraçando a enfermeira disse você veio esperava com impaciência precisamos ajudá-lo eu o amo tanto precisamos fazer algo por ele certamente meu filho tornou ela com firmeza confiemos em jesus que não nos desampara o casal levantou-se e aproximou-se saudando-nos temos feito tudo mas ele não fala noutra coisa o menino olhou ansioso para a enfermeira e explicou tenho sentido seus pensamentos de angústia e de dor pensa em mim com freqüência e não encontrou ainda a paz É preciso que ele saiba que não sofri ele não sabe martiriza-se recordando minha morte tem sofrido muito desejo ajudá-lo eu lhe devo tanto mas agora nada posso fazer só deus e vocês podem ajudar-me a enfermeira alisou-lhe os cabelos louros e com serenidade tornou você teria suficiente calma para vê-lo poderia conter-se certamente volveu ele calmo compreendo que minha tarefa na terra era curta nesta encarnação e sinto-me bem mas não posso pensar em mim enquanto ele sofrer a jovem senhora olhou-nos com emoção e pediu eu também gostaria de fazer algo por ele temos orado mas sua dor é enorme todos lhe devemos tanto naturalmente a gratidão é um sentimento nobre e justo apreciamos suas orações em favor do nosso amigo e delas necessitamos sorrindo olhou para mim dizendo este é nosso amigo lucius que integra o grupo de trabalho que deverá participar do auxílio ao nosso tutelado sorri comovido quando os três me olharam com esperança ela continuou muito bem amanhã viremos buscá-lo para iniciarmos nossas providências em favor dele há um grupo que presta socorros na terra e iremos com eles.dirigindo-se ao menino tornou você virá conosco o rosto do pequeno iluminou-se quanto a vocês ainda é cedo para reverem a paisagem terrestre daqui poderão orar mandando-nos pensamentos bons e otimistas os dois recordaram imediatamente o rosto expressivo do menino atraía minha simpatia e sua vibração amorosa transmitia-nos grande sensação de paz conversamos mais algum tempo e quando saímos não pude deter a curiosidade este menino desencarnou há pouco tempo sim há pouco mais de seis meses sei o que pensa com tanta luz por que ainda se detém em casa de tratamento É um espírito abnegado e bom poderia ter ido para planos mais altos desenvolver sua forma física tomar inclusive a aparência da encarnação anterior mas não quer fazê-lo porquanto deseja antes ajudar as pessoas que ama o casal que o acompanha sim foram seus pais na terra mas não têm ainda sua compreensão e a presença do filho lhes faz enorme bem desencarnaram violentamente durante a segunda guerra mundial deixando o filho órfão na terra e passaram longos anos de sofrimentos e de revolta de preocupação e de desequilíbrio a presença do menino devolveu-lhes a alegria e ele vem com amor e carinho trabalhando seus corações preparando-os para as
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revelações sublimes da vida maior também como viu há alguém na terra que ele ama muito e deseja ajudar É o caso que me falou sim mas não desejo truncar suas impressões dando meu parecer amanhã iremos até lá e você mesmo tomará contato com a realidade apesar da curiosidade não quis perguntar nada chegamos ao prédio onde a enfermeira lee residia ao nos despedirmos ela sorriu dizendo amanhã às 20 horas está bem respondi até amanhã foi com certa impaciência que esperei o dia imediato na hora exata nos reunimos o menino nos esperava sereno embora o brilho do seu olhar denunciasse alegria juntamo-nos ao grupo de enfermeiras assistentes que acompanhariam alguns médicos que se dedicavam anonimamente ao socorro da humanidade sofredora após comovente e delicada prece partimos rumo ao orbe terreno sempre me emociona rever paris as recordações apesar dos anos e dos séculos decorridos acordam em nossos espíritos sentimentos doces e ternos esquecemos os sofrimentos e as lutas para conservar apenas a suave saudade de um local onde vivemos amamos e aprendemos era noite de verão nosso grupo desmembrara-se permanecendo apenas o menino a enfermeira lee uma assistente e eu dirigimo-nos a uma casa não muito distante do centro seu aspecto era bem cuidado entramos apesar do trato o ambiente era triste e pesado reuniam-se para o jantar um casal idoso uma jovem senhora e um menino sentados ao redor da mesa comiam em silêncio e sem apetite havia tristeza em cada semblante denizarth precisa alimentar-se novamente sem jantar foi o comentário que ouvi da velha senhora mas acompanhei o grupo que parecia familiarizado com a casa e dirigiu-se ao quarto sentado em uma poltrona com a cabeça entre as mãos um homem moço ainda parecia imerso em tristes pensamentos acercamo-nos dele não sentiu nossa presença a um gesto de miss lee voltei minha atenção para o cérebro do nosso amigo que estava envolto por grossa camada de fluído cinzento-escuro que descendo pelo epigástrio alcançava também o plexo solar era natural que não sentisse fome com as funções biológicas paralisadas e as glândulas gustativas impossibilitadas de ativar o fluxo da mucosa estomacal observe sua mente disse-me a enfermeira fixei o frontal e pude admirado focalizar uma cena brutal É só o que ele pensa observou comovido o menino afagando-lhe a cabeça com extremado carinho sim É um caso de cristalização mental têmo-lo observado há algum tempo e agora nossos maiores determinaram auxílio direto e objetivo nosso irmão é credor de grande estima no plano espiritual olhei para ela curioso venha comigo um instante vou dar-lhe o que precisa no canto do aposento havia uma escrivaninha e dentro da gaveta um caderno manuscrito É o =diário de denizarth leia-o É a história que você procura agora sim você tem tempo o atendimento do nosso amigo vai deter-nos por aqui algumas horas fique à vontade aproximei-me bem do móvel e concentrei firme o pensamento nas páginas do caderno que permanecia fechado dentro da gaveta com respeito e carinho devidos aos
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segredos daquele coração a história ia começar capitulo ii o campo de batalha o diário de denizarth debaixo de um cerco odioso nos aglomerávamos qual corja esfaimada e sedenta na trincheira escura a noite interminável bramia à nossa volta pactuando com o inimigo implacável escondendo-o sorrateiramente dos nossos fuzis apontados e dos nossos olhos esbugalhados querendo penetrar-lhes as sombras tenebrosas respiração suspensa todos os sentidos canalizados no olfato e na audição as mãos nervosas crispadas na coronha uma sensação de enjôo e de terror sabíamos que estávamos perdidos o inimigo nos encurralara em perigoso cerco caváramos a trincheira e sabíamos que iria nos servir de cova um gosto terrível de sangue nos subia à boca Éramos pouco mais de vinte mas estávamos dispostos a vender caro a vida os minutos sucediam-se lentamente horrível aquele silêncio aquele esperar aquela tensão por que não vêm os miseráveis gritou alguém logo agarrado pelo capitão que nos chefiava todos estamos nervosos cale-se não vamos precipitar os acontecimentos apertou o soldado contra o peito abafando-lhe a voz 0 rapaz soluçava em crise o ambiente a cada minuto mais e mais se tornava irrespirável de onde viriam primeiro quando atacariam mesmo que fôssemos atacados nossos víveres se tinham reduzido consideravelmente quase nada nos restava de alimentos e a água ia escasseando alguns companheiros descansavam enquanto estávamos de vigília e despertaram da modorra em que se tinham envolvido para pseudo repouso vieram render a guarda e por nossa vez nos debruçamos no fundo da trincheira para tentar descansar impossível dormir apesar de estarmos naquele inferno há pouco tempo havíamos enfrentado muitos perigos porém jamais vivido instantes tão dramáticos a violência e o inesperado do ataque alemão nossas linhas desmanteladas vencidas não sabíamos sequer o que acontecera à nossa guarnição não sei quanto tempo decorreu se descansei ou dormi só me recordo de que de repente as metralhadoras começaram a funcionar de um salto apertei o fuzil e dei no gatilho as granadas explodiram pouco além e alguns dos nossos atingidos rolaram entre gritos de dor e golfadas de sangue À ordem de sair e tentar um corpo a corpo obedecemos incontinente na noite que já esmaecia aos primeiros dealbares da aurora transformada em luz ao ruído incessante da batalha enfrentamos os inimigos conseguindo reconhecê-los pelo uniforme onde a suástica brilhava terrivelmente nesse instante o brilho de uma lâmina atingiu-me o olhar num segundo compreendi o perigo iminente desviei rápido e a baioneta raspou-me o braço onde o sangue jorrou abundante atraquei-me com o atacante num supremo esforço para defender a vida rolamos ambos por um barranco e nossa luta era de vida e de morte a certa altura meu antagonista bateu a cabeça em uma pedra atordoando-se por um
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segundo o que me deu tempo para abatê-lo a golpes do revolver que saquei rapidamente nesse exato instante vi imenso clarão enquanto que sentindo dor aguda no ombro direito perdi os sentidos quando acordei o dia já amanhecera de todo acreditei sonhar sentia-me muito fraco a meu lado o alemão que eu atingira estendia-se morto o chão estava sujo de sangue e as moscas enxameavam sobre os corpos estendidos vi diversos companheiros por perto todos mortos não consegui levantar-me sentei-me a custo estava tonto pude ver apesar disso que estávamos em plena ribanceira não nos tinham visto porque estávamos em terreno baixo recuperara bem o equilíbrio quando ouvi ruído de motor ao mesmo tempo vozes falavam em alemão senti-me apavorado eles ainda estavam por perto se me vissem por certo me matariam não costumavam recolher feridos mimigos apenas aprisionavam os que podiam seguir adiante para os campos de concentração e trabalhos forçados não nos tinham visto porque estávamos em terreno baixo havia árvores copadas a nos encobrir por outro lado se eu ficasse por ali ferido e sem víveres condenava-me à morte lenta e sem esperanças de socorro foi quando ocorreu-me uma idéia audaciosa rápido comecei a tirar a roupa empapada de sangue do soldado inimigo que derrubara a tarefa foi difícil porque eu estava sem forças ferido o corpo do alemão era pesado e começava já a enrijecer-se desnudei-o e gastei certo tempo em vesti-lo com minhas roupas e em vestir-me com as dele para meu plano precisava até das roupas intimas de um dos bolsos caiu um retrato e o rosto inocente de uma adolescente deu-me estranha sensação de susto parecia-me estar vivendo em outro mundo em pesadelo terrível guardei o retrato no bolso dele e quando senti que estava pronto comecei a gemer alto pelo ruído percebi que livres da nossa presença tinham acampado perto alimentavam-se e cuidavam dos feridos depois de muito gemer fingindo-me mal percebi que dois padioleiros dando pela minha presença vieram até onde eu estava e calmos colocaram-me na maca embora receioso fechei os olhos fingindo estar sem sentidos o plano dera resultados não desejava muito apenas chance para viver se fosse descoberto quando estivesse melhor talvez ficasse prisioneiro por algum tempo ou se tivesse sorte até a guerra acabar contava enganá-los durante algum tempo de minha mãe eslava e meu pai francês herdara uma semelhança acentuada com o tipo ariano só a morte iminente o instinto de conservação pôde dar-me calma principalmente por saber que aquela era minha única saida se quisesse sobreviver colocaram-me ao lado de outra maca sobre um caminhão um enfermeiro vendo-me gemer deu-me água que bebi sôfrego conservava-me calado não podia falar sem me revelar o pior é que não entendia nada do que diziam resolvi guardar silêncio tinha muita fome e extrema fraqueza perdera muito sangue o caminhão pÔs-se em movimento enquanto viajávamos percebi que o enfermeiro cansado recostara-se para dormir os outros três feridos estavam em piores condições dormindo ou desacordados levantei a cabeça e vi na mochila que estava ao lado da maca um pedaço de pão agarrei-o como quem agarra o maior bem do mundo estava duro e mofado comi assim mesmo senti-me reconfortado.
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para onde iríamos não sabia adormeci vencido pelo cansaço apesar da dor aguda que sentia no ombro e da situação perigosa e especialíssima em que estava envolvido quando acordei a princípio não me recordei bem dos últimos acontecimentos num sobressalto de repente rememorei tudo relancei o olhar pelo quarto e vi que me encontrava em uma antiga casa solarenga transformada em hospital o salão onde certamente se tinham realizado muitas recepções festivas era cenário agora do traumatismo da guerra algumas camas dispostas de maneira a aproveitar melhor o espaço existente e macas formavam a enfermaria em que me encontrava alguns conversavam com alguma animação enquanto que outros gemiam em prostração e sofrimento uma enfermeira vendo-me abrir os olhos acorreu pressurosa era de fisionomia agradável apesar da impossibilidade de entender-lhe as palavras verificando o esforço que fazia para provocar uma resposta procurei demonstrar completo alheamento tômei naquele momento crítico a deliberação de simular um trauma psíquico ela tentou com voz carinhosa provocar uma manifestação de minha parte porém conservei um mutismo obstinado diante de sua insistência fingi um ataque de terror abrindo muito os olhos fixando um ponto distante demonstrando medo e sofrimento com um gesto carinhoso procurou acalmar-me dirigiu-se em seguida a um homem que recém entrara no salão de avental branco e fisionomia cansada conversaram percebi que falavam de mim aproximaram-se ele tomou-me o pulso deu-me palmadinhas amigáveis no ombro que não estava ferido em seguida voltou-se deu algumas instruções à enfermeira retirando em seguida suspirei aliviado parecia-me que não havia perigo imediato o mais cruel era não compreender o que diziam saber se não haviam desconfiado de mim assim decorreram alguns dias até quando poderia levar avante aquela farsa estar em convivência direta com o inimigo me enojava eram eles os assassinos dos meus companheiros criaturas que eu aprendera a temer e a odiar todavia era minha vida que estava em jogo mantinha-me em constante vigilância a fim de que não viesse a fracassar demonstrando minha verdadeira identidade sabia que o inimigo era astuto mas a vontade de viver manteve-me calado pelo menos estava a salvo das lutas meu feriinento sendo tratado a alimentação razoável Às vezes isolado no silêncio forçado jungido à solidão pela barreira de um idioma estranho voltava-me para dentro de mim mesmo recordando o passado feliz a universidade que não chegara a concluir as doçuras do lar entre uma irmã querida uma mãe amorosa e um pai elegante sóbrio mas principalmente delicado cortês correto e digno fechava os olhos e as lembranças vinham-me à mente tão nítidas que ao abri-los de novo a princípio custava a reintegrar-me na dura realidade no triste pesadelo que todos vivíamos muitos se perguntam o porquê da guerra alguns optam por ela outros a planejam no jogo desmedido das ambições eu porém nem a planejara nem tivera ambição política nem sequer pudera optar vira minha pátria ameaçada e não tivera outra alternativa senão a de sair para salvaguardar nossos lares em perigo jamais tivera vocação para armas de fogo nem para matar porém vira-me na
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contingência de violentar minha natureza para defender a própria vida e a dos companheiros a amizade o trabalho de equipe isso eu já conhecia foi o que me ajudou a enfrentar a dureza das batalhas sem enlouquecer não sentia ódio mas com o correr do tempo vendo amigos tombar esvaindo-se em sangue vendo vilas e cidades subjugadas mulheres violentadas crianças mortas meu coração começou a enrijecer e a pensar que o inimigo também matava sem remorsos e sem tristezas não sei o que teria sido de mim naqueles dias sem a lembrança da minha felicidade perdida no convívio dos meus os dias se sucederam e comecei a melhorar fisicamente com muita rapidez o ferimento no ombro já estava bem e quase não doía certo dia notei que havia regozijo no ambiente não podendo compreender-lhes as palavras aprendera a ler os sentimentos a expressão das suas fisionomias sabia quando estavam alegres e imaginava que estavam conseguindo novas vitórias o médico entrou em nossa enfermaria anotando nas papeletas de cada um dando instruções e a enfermeira o assistia chegando ao meu leito deteve-se e conversaram naturalmente sobre mim parecia-me que decidiam sobre o meu destino porquanto estando em perfeitas condições fisicas não podia permanecer no hospital entretanto não podia voltar á linha de frente porquanto não estava no domínio da minha sanidade mental controlando a ansiedade olhava-os indiferente procurando demonstrar alheamento completo na verdade aquela convivência estreita com eles tornara algumas palavras familiares aos meus ouvidos e intuitivamente começava já a compreendê-las ouvi perfeitamte quando ele disse a palavra volta depois de alguns minutos a enfermeira voltou e começou a arrumar meus poucos pertences pela sua fisionomia amável percebi que não desconfiava de nada era evidente que iam me mandar para outro lugar para onde para a linha de frente talvez eu pudesse fugir e reencontrar minha companhia.olhando-me com certa tristeza a enfermeira ensaiou algumas perguntas sorri para ela com ar estúpido mas conservei me mudo dando um suspiro resignado nada mais disse muitas vezes para que a encenação se tornasse convicente eu tomava atitudes esporádicas iguais aos soldados que estavam no hospital perfilava-me no cumprimento batendo com força os calcanhares aprendera a rir com eles procurava copiar-lhes os costumes ao máximo deu-me um uniforme limpo uma capa pois estávamos no inverno uma mochila algumas provisões e conduziu-me ao hall de entrada onde alguns soldados atendiam as ocorrências apontou-me para um dos oficiais que se postava atrás de uma mesa em atitude rígida este olhou-me duramente e seu olhar deu-me calafrios parecia querer penetrar fundo dentro de mim olhei para ele perfilei-me e fiz a continência nazista pareceu-me mais tranqüilo rabiscou algumas palavras em um papel assinou e a enfermeira colocou-o em minha mão mostrando-me o bolso interno da jaqueta para que guardasse bem obedeci outros também estavam aguardando a ordem de saída e a enfermeira recomendou-me a um deles com certeza pedindo que me orientasse o soldado concordou pouco depois um caminhão estacionava diante do prédio e a uma ordem embarcamos na carroceria abrigada.
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anciava por sair para tentar verificar onde estava era uma vila pequena e naquela manhã estava deserta não sei se com alemães ou por falta de trabalho foi com imensa tristeza que vi o caminhão afastar-se consegui compreender que ainda precisava fugir talvez alguém pudesse esconder-me precisava sair do meio dos soldados sem despertar suspeitas ai arquitetei um plano podia dar certo ao passarmos frente a um tanque simulando forte crise quis atirar-me para fora pois o caminhão diminuiu a velocidade todavia fui dominado pelo braço forte do soldado a que tinha sido recomendado com palavras evidentes de conforto procurou acalmar-me nesse momento meu terror era bem verdadeiro não sabia estavam me levando era necessário fugir a custo acalmei-me esperançoso de que durante a viagem as oportunidades surgissem possibilitando a fuga viajamos durante horas e ao entardecer chegamos a putshyaden durante a viagem a oportunidade da fuga não se verificou passávamos pelas linhas dominadas por eles e fugir seria arriscar a vida resignado procurei poupar energias pois não sabia quando as necessitaria mas queria estar em forma quando acontecesse na estação de putschyaden desembarcamos e nagare aguardamos o comboio que nos levaria rumo para mim ao desconhecido a estação era quase deserta e o silvo das locomotivas não muito frequente finalmente embarcamos eu com o coração temeroso vigiado pelo soldado inimigo dispensando-me desvelos de amigo envolvido em terrível situação deixei-me conduzir aparentando serenidade para onde iria para a morte para a prisão para a guerra no momento ignorava completamente meu destino capitulo iii o lar de ludwig viajamos toda a noite apesar de bem agasalhados fazia muito frio e nossos corpos estavam gelados sabia que estava em país inimigo sentia-me inseguro apesar da farda que me cobria o corpo durante dois dias viajamos naquele trem parando apenas de quando em quando mas nosso capitão poucas vezes nos permitiu descer convivendo com eles pergutava constantemente se não estava dessa forma atraiçoando os meus amigos mortos meus familiares queridos minha pátria distante mas a vida é preciosa e enquanto a sentimos palpitar lutamos por conservá-la sentia-me como um traidor minha angústia não passava despercebida aos companheiros mas notei que a achavam natural considerando-me talvez um doente mental tão comum ao deixar o campo da luta apesar de tudo foram cuidadosos comigo para eles eu representava um igual e talvez cada um se sentisse temeroso de encontrar-se algum dia nas condições de desmemoriado foi esse zelo que não me permitiu escapar durante o trajeto numa manhã fria cinzenta desembarcamos finalmente em dresdem deus sabe o calafrio que me percorreu a espinha ao perceber que estávamos na alemanha.
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meus companheiros mostravam-se alegres e efusivos riam muito apesar do cansaço a cidade pouco sofrera com a guerra muita gente correu à estação procurando encontrar amigos parentes ou conhecidos entre os recém-vindos e muitos os encontravam quando isso ocorria soluços nervosos risos incontroláveis chegavam aos nossos ouvidos tal era a euforia da chegada que por um momento achei que poderia escapar naquele instante porém para onde ir por outro lado temia que a uma investigação mais séria me descobrissem fiquei parado sem saber o que fazer mas logo ludwig a quem eu fora recomendado pela enfermeira conduziu-me pelo braço saímos da estação e alguns caminhões já nos esperavam para seguir ao alojamento não podia ocultar meu nervosismo e ludwig dirigia-me palavras de calma temeroso talvez que eu lhe causasse problemas por toda cidade notava-se o movimento de tropas e pujança dos armamentos o que me causava imensa preocupação quanto à durabilidade da guerra apresentamo-nos no alojamento e meu companheiro entregou ao encarregado a carta que o capitão lhe dera naturalmente um relatório sobre meu caso algumas palavras soavam já mais familiares aos meus ouvidos como memória ou cumprimentos comida almoço jantar doente ouvi algumas referências ao meu caso enquanto o oficial com olhos astutos e penetrantes examinava-me impiedoso consegui sustentar-lhe o olhar procurando aparentar certa imbecilidade na fisionomia parece que não desconfiou devolveu-nos a carta e despediu-nos com a saudação protocolar que acompanhei sem balbuciar palavra imitando os gestos do meu companheiro ele olhou-me entre alegre e indeciso coçou a cabeça e depois pareceu decidir-se conduziu-me pelo braço à saída do alojamento falava comigo contente convidando-me a segui-lo acompanhei-o com certo prazer sentia enorme alívio por poder sair do destacamento meu companheiro olhos alegres abraçava-me de vez em quando dirigindo-me palavras que me pareciam amigas era um rapaz jovem e seu rosto claro um tanto irritado pelo rigor do inverno era regularmente bonito seus louros cabelos anelados davam-lhe traços de um adolescente pela primeira vez reparei bem na sua fisionomia que agora se transformava pela alegria imensa que refletia na rua eu estava com fome mas não sabia usar o dinheiro que nos haviam dado no alojamento nem pedir para comer esperei que meu acompanhante também sentisse fome entretanto ele nem parecia sentir outra coisa além da impaciência foi ai que compreendi ele regressava à sua casa embora odiasse todos os inimigos não pude deixar de pensar de como me sentiria feliz se também estivesse regressando ao lar calei meus sentimentos íntimos e dispus-me a segui-lo em silêncio como até ali tomamos um taxi e dentro de uns quinze minutos paramos em pequena vila nos arrabaldes da cidade ludwig atirou uma moeda ao motorista e correu para o portão de madeira vermelha encimado por uma sineta que ele tilintou sem parar gritos femininos latidos de cães abraços exclamações de alegria beijos soluços lágrimas.
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mau grado meu ódio meus companheiros mortos meus problemas senti-me comovido era tanta alegria ao meu redor tanto carinho tanta manifestação de amor familiar que algumas lágrimas desceram pelo meu rosto foi quando deram pela minha presença ludwig abraçado à mãe ainda moça de cabeça guarnecida por grossa trança sedosa largo avental bordado olhos azuis muito límpidos contou lhe minha estória logo a jovem de olhos tão azuis e cabelos sedosos como a mãe traje semelhante e a menina de sardas e duas tranças esvoaçantes a agitarem-se com seus movimentos irriquietos de criança alegre olharam-me com tristeza talvez lamentando-me a sorte fiquei corado não sei se de vergonha ou de repulsa pela situação delicada em que me encontrava quando a comovida senhora depositou em minhas faces dois sonoros beijos de boas vindas era natural que assim fosse estava contente com a volta do filho e sentia pena da minha solidão cumprimentei desajeitado as mãos que me estendiam e procurei sorrir para aqueles rostos corados e emocionados levaram-me a um pequeno quarto nos fundos da casa e recomendaram-me que estivesse a vontade fiquei tranquilo parecia-me que por enquanto o perigo estava afastado a casa era modesta mas muito limpa e bem cuidada fazia já muito tempo que eu não tinha um quarto só para mim e uma cama limpa para dormir tomei um banho conforme me tinham indicado e voltei à sala em busca de algo para comer o cheiro de café de presunto e pão quente fazia-me por momentos esquecer meus problemas tornando distante tudo o mais que não fosse o conforto presente a mesa estava posta e ludwig sentado convidou-me ao repaso a cabeceira da mesa um ancião olhava-nos com pequeninos olhos penetrantes e lúcidos meu avô compreendi o que ludwig me disse curvei a cabeça atencioso no cumprimento que havia aprendido a imitar e dei a saudação militar o velhinho olhou-me sério e para surpresa minha não correspondeu ao meu cumprimento novamente ouvi ludwig contar minha história ao velho senhor que calmo sorvia sua xícara de chá senti-me meio sem jeito o velho não parecia impressionado com as palavras do neto somente uma vez olhou-me fixamente continuando depois a tomar seu chá confesso que foi com impaciência que tomei assento à mesa preparada com tanto carinho e deliciei-me com as iguarias caseiras sentia-me envolvido por estranhos sentimentos metido em uma aventura que só deus sabia como haveria de terminar sentia de certa forma inveja do meu companheiro por estar em casa mas o mesmo tempo reconhecia que me tinham recebido como a um filho que regressasse depois de longa ausência após o repasto que para mim foi principesco dirigi-me ao quarto e atirei-me ao leito adormeci um sono tranquilo como há muito não o fazia acordei na manhã seguinte assustado e surpreso ouvindo cantos alegres e uma voz infantil a chamar-me na janela do quarto -kurt kurt,kurt era o nome que me haviam dado no hospital de campanha porquanto no bolso interno do meu uniforme havia as iniciais k m e ao qual eu me habituara a atender abri a janela controlando o desejo que sentia de falar conversar com alguém de derrubar a tremenda barreira da solidão em que era forçado a viver e acenei-lhe uma saudação que ela retribuiu com algumas frases que não pude compreender estava
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admirado dormira o resto da tarde e a noite inteira sem acordar senti que precisava de alguma forma mostrar-me grato pela hospedagem que me ofereceram vesti-me entrei na cosinha onde me foi oferecido chocolate quente e pão preto com geléia não vi ludwig tinha resolvido pagar minha hospedagem pensando bem não podia dever favores ao inimigo ao povo que eu desejava odiar por serem culpados dessa guerra que ceifara já muitas vidas desejei mostrar-me gentil e delicado se algum dia viessem a descobrir,a verdade haveriam de saber que um francês sabe sei fidalgo cortês agradecido e cavalheiro sabia que a propaganda nefasta dos que forjam a guerra havia disseminado coisas odiosas sobre os aliados e um secreto impulso impelia-me a mostrar que estavam sendo enganados parecia-me que sobre meus ombros pesava naquele momento toda a honra e o orgulho do povo francês além do mais compreendia que estando os moços na linha de frente todo o trabalho da retaguarda ficara a cargo das mulheres e dos velhos que colaboravam para dar continuidade à vida de rotina colocados frente a tarefas rudes e inusitadas por isso não estranhei que estando praticamente no campo tanto mãe como as filhas e com certeza também o avô estivessem à voltas com o trabalho duro desci a rampa leve que conduzia ao quintal que pude verificar bastante extenso e procurei com o olhar encontrar algo que pudesse fàzer metida em grosseira calça de zuarte a jovem irmã de ludwig cortava lenha manejando com certa perícia pesado machado sem hesitar diriji-me a ela e silencioso como sempre comecei a trabalhar continuando o serviço a moça surpreendida a princípio depois sorriu com satisfação e alívio indicou-me a cinta grossa de couro onde deveria enfeixar a lenha e levá-la para a cozinha apesar de não habituado com aquele serviço o exercício fez-me bem ao espírito cansado cheguei até a sentir desejos de cantar controlei-me contudo receioso de trair-me para todos os efeitos eu era um neurótico de guerra que sob o traumatismo da luta havia perdido a fala e a memória devia simular estar aprendendo as coisas o que foi fácil porquanto jamais havia rachado lenha tão grande era o meu receio de ser descoberto que não me esquecia de simular em certos momentos um alheamento que estava longe de sentir naquele dia trabalhei o quanto pude depois da lenha o conserto do portão dos fundos depois a caiação do galinheiro que naqueles dias duros era uma verdadeira mina de ouro ludwig pareceu satisfeito com minhas atividades olhava-me com alegria por ver-me fazer o que ele não podia sua licença não era grande e dentro em breve deveria voltar ao campo de luta havia muitos negócios a resolver e segundo compreendi a presença de uma moça que ele amava e com a qual desejava estar o máximo de tempo confesso que foi-me dificílimo conseguir fingir a simplicidade do lar a vida em família fazia-me nostálgico e colocava-me fora do problema da guerra contudo à noite reunidos em torno do rádio a família discutia política e ouvia as últimas notícias aprendi logo que cada alegria deles deveria representar derrota para nós os franceses na verdade eles venciam em toda linha era nesses momentos que mais difícil se me
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tornava estar ali qualquer coisa dentro de mim queria gritar contra eles dizer que os invasores os ambiciosos os ditadores não podiam ganhar a guerra mas encerrado em meu mutismo habitual muitas vezes fingi não ouvir as notícias mostrando-me indiferente e distante fechava os olhos e fingia dormir receioso de que pudessem ler netes toda minha revolta toda minha angústia até quando ficaria em casa de ludwig iria com ele quando expirasse o prazo da sua licença ardia por saber mas estava impossibilitado de perguntar durante os dias que se seguiram consegui harmonizar-me com os costumes da família percebi que sentiam-se bem com o auxílio que eu lhes prestava e principalmente por terem os homens em casa o que lhes transmitia maior segurança até o velho avô já me olhava com mais tolerância embora nunca me tivesse dirigido a palavra meus ouvidos estavam já se habituando ao alemão e na avidez em que me encontrava percebia que o idioma aos poucos ia-se-me parecendo mais compreensível decorridos os 8 dias da licença de ludwig a alegria retraiu-se diante de sua próxima partida eu não sabia para onde deveria ir na véspera da sua partida chamou-me com ar solene atendi indo encontrá-lo sério e triste levantou o olhar firme procurando falar devagar para que eu entendese e eu pude mais fixando seus olhos do que entendendo-lhe as palavras ver através deles a confiança a determinação e a fé despedia-se de mim como de um companheiro e recomendava-me com gestos eloquentes que permanecesse em sua casa enquanto não pudesse lutar uma vez que estava em condições de ajudar nos trabalhos duros daqueles dias aos seus familiares compreendi tudo quanto me quis dizer embora apenas pudesse entender algumas palavras para ser sincero não encontrava meios de fugir ao embaraço que a singularidade da situação me causava na verdade sentia-me como um ladrão recebendo uma prova de confiança que não sabia se conseguiria cumprir eu me considerava um inimigo um intruso e vindo de um campo tão tenebroso de batalha não me era fácil em tão pouco tempo esquecer os companheiros mortos as moças violentadas as crianças abandonadas o sorriso sendo substituído pelo terror da suástica tenebrosa a todos dizimando concretizando a ambição de um líder endoidecido naqueles dias apesar da simplicidade do lar alemão recordar-me ao meu próprio lar não podia desejar-lhes sorte e felicidade sem atraiçoar meus mais íntimos sentimentos vencendo a desagradável impressão de falsidade e traição que a confiança de ludwig me proporcionava procurei demonstrar minha gratidão concordando em permanecer na casa até que estivesse em condições de voltar ao exército não sabia se conseguiria enganá-los por muito tempo tinham-me fotografado e tirado impressões digitais para posterior identificação eu sabia que um dia haveriam de constatar que minha ficha não constava dos seus registros contudo era sincero num ponto não pretendia molestar a família de ludwig meu ódio contra o inimigo não me impedia de raciocinar que me competia respeitar o lar que me dera abrigo com tanta boa vontade foi um dia muito triste para a família a partida de ludwig o olhar de sua mãe brilhava mais do que o costume e mal tocou nas refeições as duas irmãs esforçavam-se por desanuviar o ambiente porém nada podia mudar tanto o olhar endurecido da mãe como o silêncio condenatório do avô.
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no dia imediato a rotina caseira desenvolveu-se pontualmente embora os olhos vermelhos de frau eva revelassem uma noite mal dormida porém dos seus lábios finos e enérgicos não partiu uma queixa sequer naquele dia meditando na angústia e no sofrimento de todas as mães diante da brutalidade da guerra pensando nos olhos azuis e suaves de minha mãe distante que deveria estar pensando no filho ausente senti-me no dever de dispensar-lhe atenções especiais entretanto frau eva olhava-me com vago rancor talvez a se perguntar porque caprichos do destino seu ludwig partira e eu permanecia ali protegido e tranqüilo senti seu pensamento e compreendi o egoísmo materno que coloca o seu filho em primeiro plano trabalhamos muito naquele dia parecia que frau eva queria cansar o corpo para não pensar na partida do filho por isso à noite a menina elga vencida pelo cansaço cedo se recolheu e o velho avô fumando seu cachimbo parecia mais mudo do que o habitual a jovem ana recolheu-se também somente frau eva costurava sem cessar como se terminar o serzido fosse caso de vida ou de morte fui deitar-me era noite fria comecei a ler um livro que apanhara na sala mas não conseguia entender quase nada a luz bruxoleante da lâmpada a óleo não me deixava enxergar bem apaguei-a por muito tempo permaneci engolfado em meus pensamentos íntimos subitamente tive a atenção despertada por um soluço dolorido prestei atenção alguém chorava sentidamente a tensão da trincheira desenvolvera-me a audição e a noção de direção logo percebi que os soluços partiam do quarto ao lado onde ana dormia senti-me desagradavelmente impressionado não gostava de ver mulher chorar o som continuava triste e abafado pobre moça talvez tivesse ocultádo seu sofrimento para não traumatizar a mãe mas na solidão do seu quarto dava livre curso à sua mágoa diante da partida do irmão que naturalmente devia amar mas eu nada podia fazer na delicada situação em que me encontrava não era a criatura indicada para consolar ninguém limitei-me a ficar de olhos abertos no escuro ouvindo os soluços doridos de ana pensando juventude de um povo enlutando o coração das mães e das irmãs das esposas e da nação e sem poder conter a emoção chorei chorei de raiva sentindo-me impotente diante da coragem destruidora da ambição humana que arrasta os povos às lutas fraticidas no dia seguinte levantei-me um pouco mais tarde a noite fora dura e os pesadelos voltaram a molestar-me fazendo-me retornar à selvageria das batalhas encontrei as mulheres trabalhando silenciosas embora seus olhos estivessem vermelhos e pisados fixei ana que procedia a limpeza do quintal manejando a vassoura com rapidez quantos anos poderia ter talvez uns dezoito seus olhos cinzentos estavam profundamente tristes embora suas mãos estivessem maltradadas pelo trabalho duro seu rosto era delicado bem como seus cabelos trançados com simplicidade caindo-lhe pela espádua esquerda mesmo vestida com roupas simples e folgadas seu corpo era delicado não possuindo a robustez que eu imaginava como atributo das jovens alemãs pensando nos seus doridos soluços fui ajudá-la e confesso que teria gostado de confortá-la na sua dor parece que ana entendeu minha manifestação de conforto porque suavisou um pouco o
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