Corpo e Fotografia

 

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agradecimentos agradeço à fundação nacional das artes ­ funarte que através do xi prêmio funarte de fotografia marc ferrez possibilitou o desenvolvimento desta pesquisa agradeço às artistas anuschka lemos e fernanda magalhães por terem pessoalmente autorizado a publicação das imagens dos seus trabalhos À milla jung que de forma generosa participou deste projeto como interlocutora propondo leituras e me colocando questões referentes ao tema e que desde o início dos meus estudos incentivou-me apaixonadamente a pensar a imagem À rosemeri rocha por me instigar a experimentar e entender o corpo em seu existir diário À minha família por todo apoio e carinho À nina que sem saber me ensina muitas coisas a arthur do carmo que mesmo em um mundo em que a fala e a escuta andam tão atrofiadas insiste na disponibilidade ao diálogo e a troca sempre possível À lídia ueta pela amizade À elenize dezgeniski pelo amor sobre a autora luana navarro nasceu em 1985 em maringá/pr graduou-se em jornalismo pela puc-pr possui especialização em história da arte moderna e contemporânea pela escola de musica e belas artes do paraná atualmente cursa graduação em filosofia pela universidade federal do paraná estudou no núcleo de estudos da fotografia em curitiba onde participou de diversos cursos tendo em 2009 organizado o grupo de estudos imagem e fotografia além do interesse pela pesquisa teórica desenvolve trabalhos no campo das artes visuais www.luananavarro.com www.corpoefotografia.wordpress.com 2

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1 introduÇÃo 05 2 o corpo no espelho 07 3 corpo e espaÇo mimetismo e camuflagem 12 4 o corpo como uma questÃo a descontruÇÃo de um ideal 19 5 o corpo como realidade imagÉtica 28 6 consideraÇÕes finais 32 referÊncias bibliogrÁficas 35 3

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que corpo temos vários p/t 39 tenho um copo disgestivo tenho um corpo nauseante um terceiro cefalálgico e assim por diante sensual muscular a mão do escritor humoral e sobretudo emotivo que fica emocionado agitado entregue ou exaltado ou atemorizado sem que nada transpareça roland barthes 4

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1 introduÇÃo não por acaso a fotografia em seu início foi nomeada como sendo uma imagem especular o desenvolvimento desta imagem técnica possibilitou um novo olhar sobre os corpos que até então eram representados principalmente na pintura e escultura o sujeito que até então tinha o seu retrato pintado ou esculpido pelas mãos de outro sujeito que ali também imprimia sua percepção sobre o retratado agora era retratado por um aparelho técnico que possibilitava riqueza nos detalhes e uma suposta objetividade um retrato era um duplo do homem e um duplo inquietante confronto entre imagem e imaginário aquilo que o sujeito pensa ser e aquilo o que aparentemente é a imagem fotográfica do corpo como campo de tensões de semelhanças entre a pintura e a imagem fotográfica oficializada como invenção em 1839 podemos apontar que em ambas as linguagens retrata-se ao mesmo tempo a cena e o olhar do artista e espectador um objeto e um sujeito que vê burgin 2009 mas o que vê este sujeito e como vê esta pesquisa não pretende pensar a fotografia como pura forma nem como uma janela para o mundo mas sim pensá-la a partir dos preceitos de jean baudrillard 1999 p.143 nos quais a fotografia é tomada como o lugar de um jogo duplo o espelho de aumento da ilusão e das formas constituída de um efeito de simulação a apresentação de uma aparência e que já não deve mais ser pensada como um duplo da realidade as relações que serão abordadas aqui a partir da leitura de alguns trabalhos de artistas contemporâneos não são definitivas e nem indubitáveis pelo contrário se apresentam muito mais como o início de alguns debates e da investigação dos discursos artísticos que problematizam a noção de corpo utilizando para isso a fotografia podemos começar lançando algumas perguntas como se vivemos em uma sociedade de aparências e simulacros como o corpo que assimila estas relações e representações é problematizado nas imagens qual imagem dá conta de apontar uma possível perda do próprio corpo a dissolução do sujeito/eu como o corpo pode ser problematizado a partir das especificidades da fotografia poderíamos começar a pensar um corpo que se inscreve de forma fotográfica se a fotografia é uma aparência e se como aponta marcel mauss apud heidt 2004 p.46 o corpo é uma aparência podemos pensar que a fotografia de um corpo é a aparência de uma aparência 5

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já não há limites para a experimentação da linguagem fotográfica o homem contemporâneo se constrói como personagem ao mesmo tempo em que vai sobrepondo e apagando seus vestígios a imagem do corpo parece evidenciar a impossibilidade que temos de ver a nós mesmos por inteiro o que temos é sempre uma imagem incompleta seja ela mental especular ou fotográfica 6

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2 o corpo no espelho meu corpo se parece muito comigo embora eu o estranhe às vezes nuno ramos É comum que ao nos olharmos no espelho ou até mesmo em uma fotografia subitamente nos ocorra um estranhamento por vezes nos sentimos outro que não aquele que a imagem nos apresenta algo parece nos escapar como se houvesse um desencaixe a imagem não dá conta de realizar como um todo um desejo de nos vermos pois a imagem que se apresenta aos nossos olhos não coincide com a imagem que sentimos por dentro há um desencontro um reconhecerse incompleto e frustrado fig 1 rochelle costi para as dúvidas da mente 1993 12 fotografias e 12 espelhos colados sobre aglomerado 120 x 120 cm 1 figura extraída da enciclopédia itaú cultural artes visuais disponível em http www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_obras&cd_verbete=31 95&cd_idioma=28555 1 7

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em para as dúvidas da mente rochelle costi dispõe doze imagens fotográficas de perucas vistas por trás e doze espelhos intercalados com as fotografias sugerindo a configuração de um tabuleiro de xadrez o espectador se vê no espelho e simultaneamente as fotografias das perucas que remetem a imagem de seu próprio corpo visto por trás ao incluir a imagem do espectador na obra a artista propõe um jogo este jogo é uma disputa de imagens a imagem do espectador refletida no espelho as fotografias dadas a ver pela artista e uma possível imagem mental construída pelo espectador de si mesmo com o título para as dúvidas da mente é como se a proposição dissesse ok nesta superfície você espectador pode conferir a sua imagem de costas no entanto o que ela nos apresenta como essa imagem são fotografias que apesar de variadas e se referirem a possibilidades diversas de pessoas não são a imagem do espectador e o espectador não tem como conferir esta imagem na mesma medida em que se vê no espelho É claro que com a obra a artista não pretende sanar as dúvidas da mente mas justamente provocar uma imagem mental do corpo daquele que se vê no espelho para a psicanálise o eu é constituído de duas imagens uma é a imagem mental de nosso corpo e a outra a imagem especular refletida no espelho como aponta j d násio 2009 p.54 sou o corpo que sinto e o corpo que vejo nosso eu é a idéia íntima que forjamos de nosso corpo isto é a representação mental de nossas sensações corporais representação mutante e incessante influenciada por nossa imagem no espelho na obra de rochelle costi é como se ela propusesse um jogo entre ambas as imagens que nos constituem a imagem mental de nosso corpo é a imagem de nossas sensações pois nossas sensações são sempre acompanhadas de imagens não é possível sentir e não produzir uma imagem mentalmente este corpo da imagem mental é definido por lacan como corpo real e é um corpo fantasiado por aquele que sente este corpo não é figurativo e aparece sempre fragmentado ao sujeito a primeira imagem que temos de nosso próprio corpo enquanto organismo uno vai ser descrita por lacan no texto estádio do espelho o autor nos conta que entre o sexto e décimo oitavo mês a criança reconhece a forma de seu corpo frente ao espelho neste momento ela se reconhece também como individuo diferente dos outros seres e objetos e é tomada por uma certa impotência esta impotência se relaciona ao fato da criança apesar de ter a capacidade de visão bem desenvolvida possuir sua coordenação motora ainda instável o que faz com que ela não dê 8

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conta de controlar seus movimentos se instaura então uma sensação de impotência diante da imagem de si para lacan é no momento de percepção de um corpo segregado do corpo da mãe que a identidade da criança começa a ser construída bem como seu imaginário o corpo da imagem especular refletido no espelho é definido por lacan como imaginário e a imagem deste corpo é fantasiada por aquele que se olha no espelho na obra de rochelle costi a evidência é a impossibilidade de ver-se a si mesmo por inteiro podemos tomar a imagem refletida no espelho vista pelo espectador como a imagem de seu corpo imaginário e a possível imagem construída pelo espectador em sua mente como a imagem de seu corpo real o espelho é a superfície de um jogo de imagens de um lado o sujeito material que se olha e se vê vendo a imagem de seu corpo não raro artistas que problematizam a noção de corpo acabam por experimentar o próprio corpo na imagem assim sendo em um ensimesmamento e interesse em experimentar o corpo diante da câmera alguns artistas da década de 70 voltaram a produzir em seus ateliês podemos citar aqui martha rosler bas jan ader dennis oppenheim gina pane francesca woodman e a lista pode ainda continuar a se estender estes artistas direcionaram suas ações e movimentações no espaço para as câmeras fotográficas e videográficas a artista norteamericana francesca woodman 1958 ­ 1981 dentre os artistas citados se destaca por ter realizado quase toda a sua produção buscando problematizar a imagem de si fig 2 francesca woodman providence 1975-1976 fig 3 francesca woodman self-deceit 1 rome 1978 fig 4 francesca woodman self-deceit rome 1978 2 2 figuras extraídas do site http artpages.org.ua acesso 3 de dezembro de 2010 9

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na primeira imagem a artista aparece não apenas diante do espelho mas sobre ele enquanto a mão direita toca seu sexo a esquerda se apóia no espelho em direção a imagem refletida de seu órgão a baixa velocidade da imagem faz com que seu rosto fique borrado o que sugere uma negação da identidade gerando uma certa tensão na segunda imagem vemos francesca engatinhando frente ao espelho e se olhando num gesto sereno um ar um pouco infantilizado é insinuado na imagem o engatinhar remete a uma criança que fica fascinada com a própria imagem no espelho o rosto é nos dado a ver a partir da imagem refletida francesca olha para si mesma e se vê vendo na imagem seguinte a artista está nua em pé e encostada em uma parede descascada ela cobre o rosto com o espelho e impossibilita o espectador de ver sua identidade no espelho a imagem refletida aparece borrada ao lado de seus pés é possível ver pegadas no chão apontando que ali houve uma ação ou havia alguém ao seu lado que não se encontra mais na imagem retomando a questão da imagem no espelho um elemento que se repete na obra de francesca podemos a partir de emanuele coccia adentrar numa discussão que traça a gênese da imagem pensando-a a partir desta superfície imagética tão cotidiana para coccia a imagem é algo que está sempre fora a imagem no espelho por exemplo existe fora do corpo daquele que está diante do espelho da mesma forma que a pegada na última fotografia de francesca é uma imagem que existe fora dos pés daquele que por ali pisou assim nos diz coccia 2010 p.21 no espelho encontramo-nos sendo uma pura imagem descobrimo-nos transformados no ser puro imaterial e inextenso do sensível enquanto nossa forma nossa aparência passa a existir fora de nós fora de nosso corpo e fora de nossa alma com isso podemos concluir que a imagem sensível não é senão a existência de algo fora do próprio corpo qualquer coisa e qualquer coisa que chegue a existir fora do próprio lugar se torna imagem para o autor somos todos constituídos justamente de um fluxo continuo de imagens e é este espaço de fluxo de imagens ou seja o que ele nomeia como sensível que compõe o sujeito sendo a imagem no espelho aquilo que permite ao sujeito constituir sua própria natureza como aponta coccia 2010 p.56 no fundo poder-se-ia dizer que precisamos de uma imagem para 10

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conhecer nossa unidade do mesmo modo e pelo mesmo motivo que precisamos de um pronome ou de um simples nome para nos referirmos a nós mesmos 11

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3 corpo e espaÇo ­ mimetismo e camuflagem além de fundadora do eu no sujeito a imagem especular possibilita que a relação entre o organismo e o ambiente que o circunda se estabeleça o que possibilita ao sujeito a significação do espaço destacando aqui outra imagem de francesca woodman cabe-nos algumas observações que nos possibilitam pensar a relação entre corpo e espaço fig 5 francesca woodman from space providence rhode island 1975-1978 3 na imagem acima francesca woodman aparece nua em uma casa abandonada ela segura contra o corpo restos do que parece ser o papel de parede que decorava o espaço percebe-se um corpo que sugere uma tentativa de ser o próprio espaço no entanto este corpo é percebido é visto apesar de seu rosto e sexo tampados figura extraída do livro francesca woodman photographs 1975-1980 editado por marian goodman gallery 2004 p 18 3 12

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no texto mimetismo e psicastenia legendária roger caillois aponta que a principal diferença entre camuflagem e mimetismo é que quando camuflado o organismo pretende com isso não ser visto já no mimetismo o organismo pode ser detectado apesar de sua semelhança com o espaço a camuflagem em contraposição ao mimetismo pressupõe ainda uma ação posterior ao seu ato ou seja o animal se camufla para em seguida realizar o bote lacan utiliza o termo mimetismo a partir de caillois para pensar a ambígua e complexa relação do corpo e o seu entorno na obra de francesca woodman o corpo entre a parede e o papel decorativo nos faz pensar que este organismo não apenas tenta fazer parte deste espaço mas também reconstituir uma visualidade do que um dia fora mas não mais possível pois este espaço é ruína caillois percebe uma conjunção da teoria psicanalítica e os processos de mimeses na natureza e assim nos diz o desejo de assimilação à espécie de identificação à matéria aparece com freqüência na literatura lírica é o tema panteísta da fusão do individuo com o todo tema de onde precisamente a psicanálise vê a expressão de uma espécie de saudade da inconsciência pré-natal.4 enquanto francesca woodman através do mimetismo tenta reconstituir uma visualidade do espaço o artista chinês liu bolin reconstitui seu corpo a partir de uma visualidade já existente pensando o fenômeno da camuflagem voltemos a atenção para o trabalho hide in the city com uma estética fotográfica direta e uma pré-produção minuciosa o artista vem produzindo desde 2000 uma série de imagens em que as pessoas são pintadas de modo a serem confundidas com a paisagem em que estão inseridas segundo o pensamento de marcel mauss apud heidt 2004 p.46 não existe nada natural no modo como os seres humanos utilizam seus corpos seja na sua postura seu movimento ou qualquer outra técnica corporal para ele todo corpo é culturalmente moldado assim sendo o trabalho de liu bolin permite uma leitura dos valores culturais chineses e de sua estrutura de relações sociais o corpo na imagem é um corpo extremamente disciplinado e estático liu bolin desloca esse corpo disciplinado e homogêneo para o espaço urbano no entanto esse deslocamento é parte de uma resistência camuflada e o corpo deslocado não impõe uma ação ele apenas está instaurado no espaço É como se a pele suposta fronteira do corpo fosse tomada pelas superfícies onde esse corpo se instaura 4 caillois roger mimetismo e psicastenia legendária che vuoi são paulo v.1 n.0 1986 13

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fig.6 liu bolin hide in the city ­ 03 2005 ­ new culture needs mores 5 na china a disciplina desenvolvida e exigida principalmente a partir do governo comunista é uma característica marcante segundo o viés marxista o corpo não apenas tem um valor de uso como também tem um valor de troca ­ o qual às vezes é mais importante ­ o corpo se converte em capital que pode ser utilizado e explorado em transações sóciocomerciais 6 no capitalismo o corpo é induzido a um relaxamento e uma acentuação dos seus defeitos naturais incentivando o consumo e estimulando necessidades criadas para manter o sistema imagem extraída do site da galeria paris-beijing disponível em http www.parisbeijingphotogallery.com/main/liubolin/03.jpg 6 a idéia de corpo inserido em determinados contextos políticos é discutida por erhard heidt no texto la certeza vulnerable ­ cuerpo y fotografia em el siglo xxi barcelona gustavo gilli 5 14

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a partir de foucault7 que pensa o sistema de vigilância em espaços como quartéis conventos e colégios podemos também pensar que a cidade se tornou um espaço vigiado com suas câmeras espalhadas pelas esquinas sua estrutura urbana ruas cercadas por prédios e janelas apesar de um caos aparente no espaço da cidade qualquer ser humano pode ser rapidamente localizado através do seu registro de identidade endereço e outras formas de cadastro utilizadas pelo estado por isso essa tentativa de se esconder no espaço urbano e de passar despercebido é um questionamento sobre a possibilidade do anonimato no fluxo diário fig.7 liu bolin hide in the city ­ 2006 suojia village 8 como já visto anteriormente a camuflagem tem como função se esconder do inimigo ou a observação do inimigo para em seguida ser realizado o bote no entanto quem é o inimigo destas figuras quase fundidas na paisagem em um viés foucaultiano o poder que olha e não é visto em hide in the city estes homens que se camuflam num espaço urbano chinês apontam foucault michel vigiar e punir nascimento da prisão tradução de raquel ramalhete 36ª edição editora vozes petrópolis rj 2009 8 imagem extraída do site artnet disponível em http www.artnet.com/artwork/425491980/906/liu-bolin-hiding-inthe-city-no-2-suo-jia-cun.html 7 15

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