Serie-III-Revista-Indico-N23-JaneiroFevereiro2014

 

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Serie-III-Revista-Indico-N23-JaneiroFevereiro2014

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SÉRIE III | N. 23| JAN • FEV | JAN • FEB | 2014 LEVE ESTA REVISTA CONSIGO. É SUA. | TAKE THIS MAGAZINE. IT’S YOURS. Nelson Rolihlahla Mandela Xitala Mati Rio de Janeiro | Índia Revista de Bordo da LAM | Inflight Magazine

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FICHA TÉCNICA TECHNICAL DATA ÍNDICO PERIODICIDADE BIMESTRAL BIMESTRAL PERIODICITY Janeiro/Março/Maio/Julho/Setembro/Novembro January/March/Mai/July/September/November Série Series III, nº 23 PROPRIEDADE PUBLISHER LAM - Linhas Aéreas de Moçambique SA CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA LAM LAM BOARD OF DIRECTORS Dr. Carlos Jeque (Presidente do Conselho de Administração Chairman of The Board) Drª Marlene Mendes Manave (Administradora Delegada Board Member) Dr. Jeremias Tchamo (Administrador do Pelouro Administrativo e Financeiro Chief Financial Officer and Board Member) Dr. Paulo Negrão (Administrador Board Member) Drª Maria da Graça Fumo (Administradora Board Member) Dr. Carlos Fumo (Administrador Board Member) 02 03 06 10 18 26 32 40 50 60 66 72 78 84 92 SEJA BEM-VINDO WELCOME ON BOARD EDITORIAL NOTÍCIAS A JACTO JET NEWS UM ENSINADOR DE HUMANIDADE A TEACHER OF HUMANITY A CELEBRAÇÃO DE NELSON MANDELA THE CELEBRATION OF NELSON MANDELA XITALA MATI ESTAÇÃO CENTRAL DOS CAMINHOS DE FERRO CENTRAL RAILWAY STATION PORTEFÓLIO PORTFOLIO O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO RIO DE JANEIRO IS STILL LOVELY ÍNDIA – O TEMPLO ESTÁ EM NÓS INDIA – THE TEMPLE IS WITHIN US KAKANA – GUITARRA NA MÃO, POEMA NO CORAÇÃO, VOZ DOURADA KAKANA – GUITAR IN THE HAND, POEM IN THE HEART, VOICE OF GOLD CENTRO PARA CAVALEIROS APAIXONADOS CENTRE FOR PASSIONATE HORSEMEN VIRGÍLIO DE LEMOS – POETA DAS ILHAS E DA UTOPIA VIRGÍLIO DE LEMOS – POET OF THE ISLES AND OF UTOPIA VOE COM A LAM FLY WITH LAM MAPA DE ROTAS ROUTE MAP EDITOR EXECUTIVO EXECUTIVE EDITOR Nelson Saúte – nelson.saute@marimbique.co.mz COLABORAÇÃO CONTRIBUTORS Amâncio Miguel, David Francisco, Fernanda Angius, Laurindos Macuácua, Mia Couto, Olga Pires, Paola Rolletta, Sónia Sultuane. TRADUÇÃO TRANSLATION Paul Fauvet FOTOGRAFIA PHOTOGRAFY Inez Andrade Paes, Yassmin Forte, Luana Dias, Ricardo Rangel, Tommaso Rada, CDFF, CORBIS/VMI CAPA COVER CORBIS/VMI DESIGN Atelier 004 PAGINAÇÃO E PRODUÇÃO Atelier 004 | Rodrigo Saias, Sara Fortes da Cunha IMPRESSÃO PRINTING Norprint TIRAGEM PRINT RUN 20 000 exemplares NÚMERO DE REGISTO REGISTRATION NUMBER 08/GABINFO-DEC/2006 DEPÓSITO LEGAL LEGAL DEPOSIT 117117/97 MARKETING E PUBLICIDADE ADVERTISING Marimbique - Conteúdos e Publicações, Lda. EDIÇÃO E PRODUÇÃO PRODUCTION AND EDITION Marimbique - Conteúdos e Publicações, Lda. indico@marimbique.co.mz Rua da Sé, nº 114, 6 º andar, sala – 614 Telefone: 258 – 84 30 32 070 Maputo Moçambique LAM Call Center: (+258) 21 468 000 C.P. 2060 Maputo – Moçambique revistaindico@lam.co.mz www.lam.co.mz www.facebook.com/voelam

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MENSAGEM DE MESSAGE FROM MARLENE MENDES MANAVE Administradora Delegada CEO LAM SA Estimado Cliente Amigo, O ano de 2014 que agora se inicia marca o início de um período estratégico de 5 anos, 2014-2018, orientado em 4 pilares, nomeadamente Credibilidade, Conveniência, Conforto e Escolha, tendo como objectivos estratégicos o assinalável crescimento sustentável, a recapitalização da empresa, o aumento progressivo de lucros, o desenvolvimento de capital humano e a definição de um novo modelo organizativo. Assente no pilar Credibilidade, que requer operação segura, consistente e sustentável, renovamos o nosso compromisso na melhoria contínua dos padrões de qualidade e segurança operacional, com obtenção de resultado excelente que se materializou na recertificação IOSA da nossa companhia em Outubro de 2013. A Uniao Africana, na sua Declaracao de Abuja, em 2012, adoptou a IOSA como a melhor medida de seguranca para os estados membros. Com vista a responder aos objectivos estratégicos acima referidos, aprovámos, em meados de Novembro de 2013, o plano de expansão da frota que consiste na aquisição de três aeronaves novas do tipo Boeing 737 da nova geração, cuja entrega está prevista para 2015, 2016 e 2017, e cujo contrato foi já assinado com o fabricante. A formação de 15 pilotos, referida na edição anterior, enquadra-se no plano de crescimento e expansão da frota, provendo profissionais que terão habilitação subsequente no tipo de aeronave. No âmbito destas formações contamos com a parceria dos fabricantes, Boeing, Embraer, Bombardier, Flight Safety, bem como das companhias aéreas da região, na disponibilização de simuladores de voo para treinos. Procedimento idêntico será tomado em relação aos técnicos de manutenção, pessoal navegante de cabine e outras áreas de especialidade no ramo de aviação, visando atingir os mais elevados padrões de profissionalismo no exercício das nossas funções. Convidamo-lo, por isso, a apresentar as suas sugestões, preenchendo os cupões que são distribuídos a bordo das aeronaves, e agradecemos a confiança de continuar a voar na LAM. Votos de boa Viagem! Dear client and friend, As we move forward into 2014, we continue to consolidate LAM’s business based on a five year strategic plan, from 2014 to 2018, guided in four pillars, the 4Cs, being Credibility, Convenience, Comfort and Choice. These key principles underpin our objectives of sustained growth, recapitalisation, increased profits, developing human capital, and defining a new organisational business model as a whole. Based on Credibility pillar, which requires safe, consistent and sustainable operation, we have renewed our commitment to continuous improvement of quality standards and operational safety having recently, in October 2013, passed IATA’s Operational Safety Audit (IOSA) which is the internationally benchmarked gold standard measure of airline safety. The African Union, in its 2012 Abuja Declaration on Aviation Safety, adopted IOSA as the best measure of safety for member states. In order to meet the strategic objectives mentioned above, we continue to expand our fleet having, in midNovember 2013 ordered three new aircraft in mid-November 2013 and these are the new generation Boeing 737. The contract has already been signed with the manufacturer, and the aircrafts are to be delivered in 2015, 2016 and 2017 respectively one at a year. These new fleet acquisitions bring human capital needs and, the training of 15 pilots mentioned in the previous edition is part of the growth and expansion plan, by providing professionals who will subsequently be skilled in this type of aircraft. As part of this training program, we are counting on our partnerships with the manufacturers, Boeing, Embraer, Bombardier, and Flight Safety, as well as with other airlines in the region which made available their training facilities. Identical procedure will be followed with regard to the training of maintenance technicians, cabin crew and other aviation specialist areas, seeking to achieve the highest standards of professionalism when performing our duties. We invite you to make your suggestions by filling out the forms which are distributed on board our aircraft, and we thank you for your confidence in continuing to fly on LAM. Have a good trip! |3

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NOTA DO EDITOR NOTE FROM THE EDITOR Nelson Mandela alcançou a condição de mito muito antes da sua passagem a 5 de dezembro de 2013. É talvez a figura mais unânime e conciliadora deste tempo, o último grande vulto oriundo do século XX. O mundo inteiro celebrou Mandela, lembrando o seu exemplo abnegado e conciliador que permitiu construir o milagre de uma nação arco–íris na África do Sul. Inspiração e celebração seriam talvez os vocábulos que melhor definiriam o momento e o sentimento de despedida de Madiba. Estivemos na despedida de Mandela. Antes vivemos os dias de celebração da sua vida e do seu legado na Cidade do Cabo, ao largo da qual ele permaneceu preso na Ilha de Robben durante 18 anos e mais tarde Pollsmoor e Victor Verster, perfazendo 27 anos. Mia Couto escreve nesta revista sobre este ensinador de humanidade e narra vários episódios marcantes num texto notável e comovente. Mandela não quis ser o presidente dos negros da África do Sul. Foi presidente de todos e soube encarar o passado com uma bondade extraordinária. 2014 é o ano do Mundial de Futebol no Brasil. Elegemos a cidade do Rio de Janeiro para falar desse Brasil brasileiro, festivo e acolhedor, de braços abertos, como vemos do cimo do Corcovado o Cristo Redentor. David Francisco escreve sobre o Rio, enquanto Luana Dias traz a estas páginas o fulgor do Carnaval. Outro país continental, a Índia, merece destaque na revisitação encantada de Sónia Sultuane. A Índico é iminentemente uma plataforma de celebração de Moçambique. Falamos de Xitala Mati na pena de Laurindos Macuácua, elegemos a Banda Kakana, de que nos fala Amâncio Miguel e lembramo-nos do poeta das ilhas, Virgílio de Lemos, nascido no Ibo, recentemente desaparecido. Cabe ainda espaço para Yassmin Forte retratar a estação dos Caminhos de Ferro, uma das mais belas do mundo, Paola Rolletta falar do centro hípico da capital. Inspiração e celebração. Como a vida do legendário Nelson Mandela, de quem queremos ser legatários. Como as personagens e os lugares que visitamos. Assim fazemos a nossa índica viagem no início deste ano de promessa e esperança: 2014. Nelson Mandela attained the status of a myth long before he passed away on 5 December 2013. He is perhaps the figure that has most won unanimous consent in our time, the last great figure from the 20th century. The whole world celebrated Mandela, recalling his selfless and reconciliatory example which made possible the miracle of building a rainbow nation in South Africa. Inspiration and celebration would perhaps be the words that best describe feelings at the farewell to Madiba. We were present at that farewell, and previously we lived the days of celebrating his life and his legacy in Cape Town. Madiba was imprisoned off the coast of this city for 18 years on Robben Island before being transferred to Pollsmoor and Victor Verster prisons, for a total of 27 years of incarceration. Mia Couto writes in this edition about this teacher of humanity, and narrates several striking episodes in his life in a notable and moving article. Mandela did not want to be president of the blacks of South Africa. He was president of all and knew how to face the past with an extraordinary grace. 2014 is the year of the football World Cup in Brazil. We chose the city of Rio de Janeiro to speak of this Brazilian Brazil, festive and welcoming, with open arms, as we see Christ the Redeemer at the top of Corcovado Mountain. David Francisco writes about Rio, while Luana Dias brings the glow of carnival to these pages. Another country the size of a continent, India, is painted in the enchanted revisiting of Sónia Sultuane. Indico is eminently a platform to celebrate Mozambique. We speak of Xitala Mati through the pen of Laurindos Macuacua, while Amâncio Miguel speaks to us of the band Kakana. We recall the poet of the isles, Virgílio de Lemos, who was born in Ibo and recently passed away. There is also space for Yassmin Forte to portray Maputo railway station, one of the most beautiful in the world. Paola Rolletta tells us of the capital’s equestrian centre. Inspiration and celebration. Like the life of the legendary Nelson Mandela, of whom we wish to be heirs. Like the figures and the places we visit. Thus we are making our Indian Ocean journey at the start of this year of promise and hope: 2014. Nelson Saúte Editor Executivo Executive Editor 4|

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RECERTIFICAÇÃO IOSA Fruto de excelentes resultados obtidos na auditoria, a LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, S.A. foi recertificada pela terceira vez consecutiva pela IOSA – IATA Operacional Safety Audit – que no dia 26 de Outubro de 2013 actualizou o período de validade do certificado. A nova efectividade é para dois anos como consta do registo que pode ser acedido através do link http://www.iata.org/whatwedo/safety/audit/iosa/ Pages/operator.aspx?c=LAM. A primeira certificação IOSA da LAM aconteceu em 2007, tendo seguido as recertificações sucessivas em 2009, 2011 e 2013. LAM OFERECE COMPUTADORES À ESCOLA ARCA DE NOÉ A LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, S. A. em parceria com a RENTCO associou-se ao projecto de formação da REMAR, oferecendo material informático constituído por computadores que serão montados no Centro Informático da Escola Arca do Noé, que tem 760 alunos da primeira à sétima classe. Esta acção realizou-se no dia 25 de Novembro de 2013, na REMAR, onde a LAM se disponibilizou para alocar os seus técnicos informáticos para a instalação dos computadores e a formação dos alunos em noções básicas de informática. A REMAR é uma ONG – Organização Não Governamental com actividades em Moçambique desde 1998 e conta com 8 casas de acolhimento, onde tem actualmente uma média de 400 pessoas, 200 das quais são IOSA RE-CERTIFICATION Thank you for to the excellent results obtained in the audit, LAM – Mozambique Airlines S.A. was recertified for the third consecutive time by IOSA – IATA Operational Safety Audit – which, on 26 October 2013 updated the period of validity of the certificate. The new certificate is effective for two years, until 26 October 2015, as it can be seen by accessing the link http://www.iata.org/whatwedo/safety/audit/iosa/P ages/operator.aspx?c=LAM. LAM’s first IOSA certification occurred in 2007, and successive re-certifications followed in 2009, 2011 and 2013. LAM OFFERS COMPUTERS TO THE “ARCA DE NOÉ” SCHOOL LAM – Mozambique Airlines, S. A., in partnership with RENTCO, associated itself with the REMAR training project, by offering computers that will be placed in the Computer Centre of the “Arca do Noé” (Noah’s Ark) school, which has 760 pupils studying from first to seventh grades. This action took place on 25 November 2013, at REMAR, where LAM made its computer staff available to install the computers and train the pupils in basic notions of computer science. REMAR is an NGO (Non-Governmental Organisation) that has been active in Mozambique since 1998. It runs eight shelters which currently accommodate an average of 400 people, of whom 200 are disadvantaged children or children sent to 6|

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crianças desfavorecidas ou encaminhadas ao centro REMAR pelos familiares devido à fraca renda, doença e má nutrição. LAM REELEITA PRESIDENTE DA AASA Decorreu em Outubro de 2013, na cidade do Cabo, na África do Sul, a 43a Assembleia Geral Anual da AASA – Airlines Association Of Southern Africa (Associação das Companhias Aéreas da África Austral), de que a LAM – Linhas Aéreas de Moçambique é membro activo. A cerimónia, que foi presidida pela Administradora Delegada da LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, Dra Marlene Manave, contou com a presença prestigiada do Ministro do Turismo da África do Sul, MarthinusVanSchalkwyk, e da Vice-Ministra dos Transportes, Sindisiwe Lydia Chikunga. Nas suas notas de boas-vindas e agradecimento aos dignitários e participantes na Assembleia Geral Anual da AASA, Marlene Manave destacou a importância do lema da Assembleia Geral "O Impacto Global na Competitividade em África", bem como os desafios que a indústria da aviação enfrenta tanto na região como a nível global. A participação da LAM na Assembleia Geral Anual da AASA fez-se notar ainda com a presença da Administradora Delegada, Marlene Manave, no painel dos CEO das companhias aéreas mais proeminentes da indústria da região, que se debruçou sobre o seguinte tema: "Que vantagens podem as companhias aéreas africanas tirar das oportunidades que hoje se apresentam ao continente Africano como um mercado global e em crescimento?" Sob moderação de um reconhecido comentador e analista político, a LAM, por ser rentável, foi por várias vezes mencionada como um exemplo de sucesso, que contraria o argumento segundo o qual as companhias aéreas de bandeira em África são deficitárias. Tendo em conta a necessidade de maior cooperação entre as companhias aéreas africanas, na resposta aos desafios que lhe são impostos pela competitividade internacional das "Mega-Companhias", Marlene Manave contribuiu transmitindo a experiência da LAM nas áreas de gestão e cooperação com parceiros, e todos os intervenientes nos negócios da aviação civil. A Assembleia Geral Anual terminou com a eleição do Presidente da Associação, tendo sido re-eleita a Dra Marlene Manave, Presidente da AASA pelo segundo ano consecutivo. the REMAR Centre by their relatives because of low income, illness and malnutrition. LAM RE-ELECTED CHAIR OF AASA The 43rd Annual General Assembly of AASA (Airlines Association of Southern Africa), of which LAM-Mozambique Airlines is an active member, took place in October 2013, in Cape Town, South Africa. The meeting was chaired by the Chief Executive Officer of LAM-Mozambique Airlines, Dr Marlene Manave, and was honoured by the presence of the South African Minister of Tourism, Marthinus Van Schalkwyk and the Deputy Minister of Transport, Sindisiwe Lydia Chikunga. In her address welcoming the dignitaries and participants at the Annual General Assembly of AASA, Marlene Manave stressed the importance of the theme of the meeting "The Global Impact of Competitiveness in Africa", as well as the challenges that the aviation industry is facing both in the region and globally. LAM also participated at the Annual General Assembly of AASA through the presence of Marlene Manave on the panel of CEOs of the most prominent airlines of the region, which discussed the theme: "What advantages can African airlines take from the opportunities which are today presented to the African continent as a growing global market?" During the panel, moderated by a recognized political commentator and analyst, LAM was mentioned on several occasions as a profitable company and an example of success, contradicting the argument that African national air companies all run at a loss. Taking into account the need for greater cooperation among African air companies in responding to the challenges imposed by international competition from the “mega companies”, Marlene Manave contributed by transmitting LAM’s experience in the areas of management and cooperation with partners and all stakeholders in the civil aviation business. The Annual General Assembly ended with the election of the Chairperson of the Association, and Dr Marlene Manave was re-elected to the position for the second year running. 8|

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CORBIS/VMI Um Ensinador de Humanidade A Teacher of Humanity texto text Mia Couto 10 |

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O carcereiro de Robben Island enxugou as lágrimas e tomou fôlego para falar de quem acabava de morrer: “Primeiro odiava-o, depois converteu-se num amigo para a vida”. E acrescentou: “Mandela entrou na cadeia como um prisioneiro e acabou tornando-se num pai. “ Com estas palavras, o guarda Christo Brand definia, a seu modo, a grandeza daquele que, mais que um dirigente de um povo, foi um mestre de humanidade. Hoje somos todos seus alunos. A dimensão única e universal de Nelson Mandela não nasceu apenas do político que ele foi, mas da pessoa que ele em si mesmo fabricou. Mandela não apenas libertou os oprimidos. Ele libertou também os opressores. Por isso não foi apenas admirado. Foi amado. Tanto quanto ele amou os outros. Afinal, não foi apenas o carcereiro que aprendeu com o prisioneiro. Também Mandela confessa ter aprendido com o guarda prisional. "Pessoas como o guarda Brand reforçaram a minha crença na profundidade humana, mesmo daqueles que me aprisionaram por 27 anos e meio", disse Mandela. Quando o apartheid acabou, Mandela tornou-se presidente do país e, nos anos seguintes, manteve contato com seu antigo carcereiro: visitou a sua família, saudou-o em todos os Natais, congratulou-o quando ele foi promovido, ajudou o seu filho a conseguir uma bolsa de estudos e enviou condolências quando esse jovem morreu num acidente de carro. Madiba conhecia a dor de perder um filho, exatamente nas mesmas trágicas circunstâncias de um desastre rodoviário. Esta era a sua aposta na reconciliação entre os que, por via do medo e da ignorância, se haviam tornado inimigos. Mandela não queria ser o primeiro presidente negro do seu país. Ele queria ser o presidente de todos os sul-africanos. UMA VIDA COM MUITAS VIDAS Quando, trinta anos antes, o apartheid o julgou, o tribunal preferia ter optado por uma sentença de morte. Pressões exteriores sugeriram que a sua vida fosse poupada para o preservar como mediador em futuras negociações. A sentença foi de prisão perpétua. Ao prender Madiba, o regime sul-africano dava ordem de prisão a toda a África do Sul. Uma nação inteira tinha sido aprisionada por um regime. Foi isso que o poeta José Craveirinha cantou num poema dedicado a Madiba. A vida que pouparam a Mandela evitou um banho de sangue na África do Sul. E fez nascer mais vida em todos nós. E semeou em nós o sonho de uma vida melhor. A cela da prisão era pequena, a ilha era pequena, os verdugos acreditavam que o prisioneiro se The jailer of Robben Island wiped away the tears and took a breath before speaking of the man who had just died: “First, I hated him, then he became a friend for life”. And he added: “Mandela entered the jail as a prisoner and ended up becoming a father.“ With these words, the guard Christo Brand defined, in his own way, the grandeur of the man who, more than the leader of a people, was a teacher of humanity. Today we are all his pupils. The unique and universal dimension of Nelson Mandela was not born merely from the politician that he was, but from the person that he made of himself. Mandela did not only free the oppressed. He also freed the oppressors. That is why he was not only admired. He was loved. Just as he loved others. In the end, it was not just the jailer who learnt from the prisoner. Mandela also admitted that he learnt from his prison guard. "People like warder Brand have strengthened my belief in the profoundly human nature even of those who imprisoned me for 27 and a half years", said Mandela. When apartheid ended, Mandela became President of South Africa, and in the ensuing years he kept in contact with his former jailer: he visited his family, sent him greetings every Christmas, congratulated him when he was promoted, helped his son obtain a scholarship, and sent condolences when this young man died in a traffic accident. Madiba knew the pain of losing a son, exactly in the same tragic circumstances of a road accident. This was his gamble on reconciliation between those who, out of fear and ignorance, had become enemies. Mandela did not want to be the first black president of his country. He wanted to be the president of all South Africans. A LIFE WITH MANY LIVES When, thirty years previously, apartheid put him on trial, the court would have preferred to pass a death sentence. Outside pressures suggested that his life be spared to keep him as a mediator in future negotiations. The sentence was life imprisonment. But in arresting Madiba, the South African regime gave the order to imprison all of South Africa. An entire nation had been jailed by a regime. It was this that the poet José Craveirinha sang in a poem dedicated to Madiba. The life they spared Mandela avoided a bloodbath in South Africa. And it made more life spring up in all of us. It sowed within us the dream of a better life. The prison cell was small, the island was small, and the executioners believed that the prisoner would become a small creature, easily forgotten inside and outside South Africa. The torturers expected that he would be snuffed out in the dark and meagre space of that tiny cell. But Mandela was not forgotten. On the | 11

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tornaria numa criatura pequena, facilmente esquecida dentro e fora da África do Sul. Esperavam os torturadores que ele se extinguisse no escuro e na exiguidade desse minúsculo cárcere. Contudo, Mandela não foi esquecido. Pelo contrário, a sua dimensão ganhou foros de mito. Num mundo desencantado com os políticos, ele converteu-se numa lenda, resgatando uma esperança que se havia esboroado não apenas em África mas no mundo inteiro. Vinte e sete anos depois, Mandela saltou dessa pequena célula para a grandeza de um gabinete presidencial cheio de luz e espaço, o mesmo gabinete dos presidentes que o mandaram prender. Havia, porém, uma diferença que não era apenas da cor da pele ou da cor das ideias. Nelson Mandela não ascendeu ao poder para usufruir de privilégios. Ele não queria sequer ser presidente. Não ansiava, sobretudo, ser presidente para acumular riquezas. O lugar do poder era, para ele, algo breve e passageiro, um simples passo na sua longa marcha para a liberdade. Essa marcha extravasou os limites do seu país. Os passos dessa marcha ecoam dentro de nós. RE-HUMANIZAR O OUTRO Assim que entrou na prisão, Mandela anunciou aos seus colegas: na biblioteca da prisão, ele iria estudar a língua, a história e a literatura dos Boers. Queria entender o seu inimigo. Essa decisão podia ser a de qualquer estratega que necessita de conhecer o adversário para melhor o vencer. Todavia, Mandela queria mais do que vencer: ele queria rehumanizar os que o queriam desumanizar. Afinal, esses que o oprimiam faziam parte da sua nação. E quando o pensavam em total isolamento, Mandela estava, afinal, produzindo viagens, invisíveis barcos que atravessavam as paredes da cela e os limites da ilha. Foi nesses anos de estudo do universo mental dos Boers que Mandela entendeu: os arquitetos do apartheid não tinham apenas concebido um regime político. Havia, para eles, uma crença religiosa que legitimava aquilo que para todos os outros era um crime contra a humanidade. Os ideólogos do apartheid acreditavam que estavam a realizar a obra de Deus na Terra. Apoiados numa leitura ortodoxa do calvinismo, eles consideravam que as almas dos negros e dos brancos habitavam céus distintos e que os brancos sul-africanos eram um povo eleito e estavam obedecendo à vontade de Deus quando subjugavam e oprimiam os negros. Ao entender os pilares do apartheid, Mandela pensou que a sua intervenção devia ir para além do território da política. Ele devia atuar como um terapeuta de uma sociedade profundamente atingida contrary, he took on the character of a myth. In a world disenchanted with politicians, he became a legend, retrieving a hope that has crumbled not only in Africa but across the world, 27 years later, Mandela leapt from this small cell to the grandeur of a presidential office full of light and space, the same office of those presidents who had ordered his arrest. But there was a difference that was not just the colour of his skin or the colour of his ideas. Nelson Mandela did not rise to power in order to enjoy privileges. He did not even want to be president. Above all, he had no desire to be president in order to accumulate wealth. The place of power was, for him, something brief and transient, one simple step in his long walk to freedom. This walk went beyond the frontiers of his country. The steps of this walk echo within us. RE-HUMANISING THE OTHER When he went into prison, Mandela told his colleagues that in the prison library he would study the language, the history and the literature of the Boers. He wanted to understand his enemy. This decision could have been taken by any strategist who needed to know the enemy in order better to overcome him. However, Mandela wanted more than winning: he wanted to re-humanise those who had wanted to dehumanise him. For those who were oppressing were part of his nation. And when they thought they had totally isolated him, Mandela was in fact producing voyages, making invisible boats that crossed the walls of the cell and the boundaries of the island. It was in these years of studying the mental universe of the Boers that Mandela understood: the architects of apartheid had not merely designed a political regime. For them it was a religious belief that legitimised what for everyone else was a crime against humanity. The ideologues of apartheid believed they were doing the work of God on Earth. Supported by an orthodox reading of Calvinism, they believed that the souls of blacks and of whites inhabited separate heavens, and that the South African whites were a chosen people, who were obeying the will of God when they subjugated and oppressed the blacks. In understanding the pillars of apartheid, Mandela thought that his intervention should go beyond the territory of politics. He should act as a therapist for a society stricken deeply by fear. “I am not a saint, Madiba always insisted. “What I am doing is healing a wounded and divided nation.” Thus what he was doing was not exactly forgiving, but treating a social body in which all the parts were equally sick. This therapy began even when he was incarcerated on Robben Island. Everything that he was doing as politics should possess a clear moral and ethical 12 |

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pelo medo e pelo ódio. “Não sou nenhum santo, insistiu sempre Madiba. O que estou fazendo é curar uma nação ferida e dividida.” Deste modo, o que ele fazia não era exatamente perdoar, mas tratar de um corpo social, em que todas as partes estavam igualmente doentes. Essa terapia começou assim que foi encarcerado em Robben Island. Tudo o que fazia como política devia possuir uma clara dimensão ética e moral. Logo num primeiro momento, Mandela reclamou pelo direito dos prisioneiros negros usarem, tal como os detidos indianos, calças compridas em vez dos calções que pouco protegiam do frio e da humilhação. Dias depois, um par de calças compridas esperava-o sobre a cama da sua cela. A reação imediata de Madiba foi perguntar: e para os outros? E como os seus companheiros não estivessem abrangidos pelo pequeno favor, Mandela recusou o privilégio. Essa recusa colocava os repressores numa posição difícil. Ali estava alguém que não se deixava comprar e cujos padrões de moral invertiam a relação do poder. Do lados dos “maus” estava, afinal, um homem bom, um homem de nobres princípios e valores. Jovens afrikaners como Christo Brand dimension. Early on, Mandela demanded the right of black prisoners to wear long trousers, just as Indian prisoners wore, instead of shorts which offered little protection against cold and humiliation. Days later, a pair of long trousers was waiting for him on the bed in his cell. Madiba’s immediate reaction was to ask: what about the others? And since his companions were not covered by this small favour, Mandela refused to accept the privilege. This refusal put the oppressors in a difficult position. For here was somebody who did not allow himself to be bought, and whose moral standards reversed the power relation. So on the side of ”the bad guys” there was in fact a good man, a man of noble principles and values. Young Afrikaners such as Christo Brand began to doubt the Boer ideological narrative. The stereotype of a dangerous criminal, thirsting for revenge, did not fit Nelson Mandela. When he left prison, and was now President of South Africa, Madiba undertook a very clear and systematic programme of reconciliation: he made courtesy visits to the judge who ordered his imprisonment, and to the widow of Prime Minister and ideologue of apartheid, Hendrik Verwoerd. Other parts of this programme were small but significant gestures such as | 13 CORBIS/VMI

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