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cadernos de fotografia o tempo na fotografia volume 2
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organizadores sinara sandri carlos carvalho cadernos de fotografia festival internacional de fotografia de porto alegre o tempo na fotografia volume 2 brasil imagem porto alegre 2010
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capa e projeto gráfico santo expedito design e editoração revisão e edição sinara sandri reg prof 8073 drt/rs texto de acordo com a nova ortografia foto da capa glyndebourne inglaterra 1955 henri cartier-bresson fondation hcb dados internacionais de catalogaÇÃo na publicaÇÃo cip t288 o tempo e a fotografia organizadores sinara sandri carlos carvalho porto alegre brasil imagem 2010 88 p col de fotografia v 2 apresentação 7 1 quantos tempos tem a fotografia rubens fernandes junior 9 2 por onde andará henri cartier-bresson zeca linhares 13 eder chiodetto 23 3 o tempo e o espaço no território da fotografia 1 fotografia eventos 2 tempo fotografia i festival internacional de fotografia de porto alegre 4 2010 porto alegre ii sandri sinara iii carvalho carlos iv série cdu 77061.3 bibliotecária maria amazilia penna de moraes ferlini crb-10/449 distribuição gratuita o conteúdo pode ser reproduzido mediante autorização e citando a fonte todos os direitos reservados a brasil imagem rua sofia veloso 168 90.050-140 porto alegre brasil tel 55 51 3392.9982 info@brasilimagem.com.br o 4º festfotopoa foi realizado em abril de 2010 no santander cultural em porto alegre teve como patrocinador máster o banco santander e como patrocinadora a funarte através de convênio funarte/alice os textos dos seminários tiveram como base a transcrição das palestras qualquer imprecisão nas intervenções de pio figueroa rosangela rennó e rubens fernandes junior são responsabilidade da editora já que não passaram pela revisão dos autores impresso no brasil primavera de 2010 rubens fernandes junior 33 cláudia linhares sanz 34 pio figueroa 44 4 o arquivo universal rosangela rennó 57 textos 5 tempo para nada só para fazer fotografias cláudia linhares sanz 69 6 tempos pela fotografia mesmo que intempestivos cia de foto 83 cadernos de fotografia 5
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apresentação a fotografia atravessou séculos protagonizando polêmicas como é próprio de sua natureza continua inquieta e desafiadora cumprindo com empenho o destino de borrar fronteiras seu estatuto vem sendo sistematicamente vasculhado e a cada nova investida abremse caminhos inéditos aliando-se ao esforço de pensadores críticos e fotógrafos o festival internacional de fotografia de porto alegre colocou-se o desafio de pensar o tempo como elemento indutor da realização fotográfica e abriu espaço para uma conversa que demonstrou enorme potencial criativo a abordagem ao tema começou com um artigo de rubens fernandes junior publicado na imprensa local como texto preparatório à quarta edição do festival durante o seminário o tempo na fotografia tivemos a participação de eder chiodetto e zeca linhares discutindo a atualidade da presença fundadora e incontornável de cartier-bresson na fotografia mundial cláudia sanz mostrou a fotografia como fundadora de uma nova temporalidade enquanto pio figueroa apresentou os caminhos de experimentação da cia de foto em um debate que também teve a participação de rubens fernandes junior para fechar a série a criadora rosangela rennó percorreu seu trabalho deixando ver motivações do seu processo de resignificação de imagens cláudia sanz e a cia de foto colaboraram ainda com dois artigos relacionados ao tema e incluídos nesta publicação como anexo É imprescindível agradecer a fotógrafa martine franck presidente da fundação henri cartier-bresson por autorizar a exibição e publicação das 11 imagens de bresson selecionadas por zeca linhares e que constam neste caderno a gentileza proporcionou um momento de fruição da obra de bresson e aumentou nossa já notória admiração por martine boa leitura cadernos de fotografia 7
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quantos tempos tem a fotografia?1 rubens fernandes junior pesquisador e crítico de fotografia a terceira margem do tempo fotográfico o território da fotografia é o tema geral escolhido pela curadoria da quarta edição do festival internacional de fotografia de porto alegre considerou-se como a primeira margem o conceito de instante decisivo de henri cartierbresson e como a segunda margem o tempo alongado da experiência construtivista da modernidade tardia da fotografia brasileira como a terceira margem o festfotopoa propõe uma reflexão sobre a noção do tempo na fotografia contemporânea fruto não só das novas tecnologias de captação tratamento de imagem e distribuição mas também dos diferentes procedimentos adotados atualmente para a criação da imagem a representação fotográfica associa-se ao tempo temos o tempo material histórico que nos remete ao tempo da realização da obra olhamos uma paisagem de marc ferrez e nos deslocamos para aquele tempo mágico que podemos momentaneamente experimentar aliás esse pode ser o tempo da contemplação da paisagem que tem o tempo material responsável pelo deslocamento o pesquisador português pedro miguel frade defende a existência de uma fotografia do espanto 1 texto publicado no caderno cultura do jornal zero hora 9 de abril de 2010 cadernos de fotografia 9
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pois entende que os primeiros daguerreótipos exigiam um tempo alongado de exposição que obrigava os retratados a se postarem de olhos arregalados para a estranha máquina de captação esse olhar construído decorrente das exigências tecnológicas nos permite ter a percepção exata do longo tempo de exposição se adentrarmos um pouco mais pela história da fotografia encontramos as experiências de edward muybrigde 1830-1904 e Étienne-jules marey 1830-1904 que buscavam uma fotografia que iconizasse o tempo ou seja no caso de muybridge o movimento flagrado em sequências de imagens que anunciavam o pré-cinema e no caso de marey o movimento no mesmo suporte dispositivo denominado de cronofotografia que antecipou o futurismo italiano e seu fotodinamismo e posteriormente as experiências de marcel duchamp na realidade os fotógrafos buscavam pela decomposição da imagem pela análise do movimento e pela multiplicação e seriação de sequências tornar visível aquilo que o olho não vê mas a câmera registra com a finalidade de congelar o instante preciso tratava-se das primeiras experiências de reduzir ao máximo o tempo de exposição para aproximar-se da mítica ideia da instantaneidade da fotografia a fotografia inaugurou a era das imagens técnicas trazendo novas conceituações e questionamentos sobre como e por que olhar o mundo visível e claro que flagrar o tempo mínimo fazia parte dessas propostas mas nosso questionamento é tentar entender como o tempo é percebido pelo espectador por exemplo a experiência de ver um álbum de fotografia familiar que reúne cronologicamente as imagens de uma vida inteira produz uma sensação incrível de deslocamento e uma emoção particular já que a fotografia permite reviver uma história não vivida o movimento de ir ao passado e voltar ao presente nos dá uma consciência histórica do tempo que nos permite confrontar os tempos das fotografias com o tempo presente uma dolorosa e imperdível experiência por isso mesmo denis roche acredita que a fotografia é um depósito do saber que permite visualizar as diferentes camadas não só dos tempos congelados mas também a diversidade dos materiais empregados e perceber a força da criação autônoma a serviço da informação da fabricação de imagens da memória da resistência do desejo depois disso podemos saltar para a experiência do instante decisivo defendida por henri cartier-bresson a famosa articulação entre a geometria da cena e o momento do registro traz a noção complexa do caráter instantâneo da fotografia potencialidade até então dormente da linguagem que foi explorada exaustivamente pelo fotojornalismo engajado com as certezas do documento por outro lado quando revisitamos as fotografias de andré kértèsz e robert doisneau é perceptível o controle excessivo do tempo da cena sem descaracterizar a beleza do registro roland barthes não apreciava esses fotógrafos justamente por esse excesso de controle lembramos que no livro a câmara clara barthes discorre que em relação ao tempo o nome da fotografia é simples banal sem profundidade isto foi ele percebeu a diferença exata da diferença entre a fotografia do fotógrafo e a do espectador a fotografia moderna e a contemporânea exploram diferentemente a noção do tempo se tomarmos o dadaísmo por exemplo podemos entendê-lo na fotomontagem como uma superposição de tempos o tempo da metrópole o tempo das máquinas o tempo da simultaneidade a síntese e o caos propostos pela fotomontagem representam a metrópole moderna e buscam provocar uma sensação múltipla explosão de pontos de vista e de níveis imagéticos emaranhados e complexos por outro lado a fotografia contemporânea exercita o tempo de diferentes maneiras duane michals preferiu estender a ideia de tempo criando sequências de fotografias na verdade pequenas narrativas que obrigam o espectador ao passar de uma imagem para outra a concretizar o tempo de passagem anteriormente a fotógrafa americana berenice abbott defendeu a ideia de que o fotógrafo é o ser contemporâneo por excelência através de seus olhos o presente se torna passado diante dos nossos olhos o tempo passado se torna presente e nos permite mergulhar numa paisagem desconhecida para explorarmos avidamente o tempo não vivido por outro lado robert frank defende magistralmente a ideia que fotografia é o registro de momentos intermediários ou seja o momento em que o fotógrafo revela o equilíbrio e surpreende a realidade desprevenida 10 cadernos de fotografia 11
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com toda essa argumentação podemos entender a abrangência e a atualidade do tema escolhido para perpassar a quarta edição do festfotopoa ao conhecermos os trabalhos dos artistas presentes no festival thomaz farkas walter carvalho jacqueline joner guy veloso denise helfestein felipe hellmeister fernando schmitt joão castilho cia de foto entre outros entramos em contato com os diferentes tempos da fotografia enquanto momento de interrupção de deslocamento de interrogação de ruptura cognitiva vai se perdendo para dar vez a uma fotografia perspicaz que abdica o seu papel memorialístico e documental para dar espaço para pulsações visuais provocativas e comoventes quase sempre atemporais por onde andará henri cartier-bresson fotógrafo professor e mestre em história pela ufrj zeca linhares a ideia que norteou a realização de uma pequena seleção da obra de cartier-bresson foi a busca do que seria eterno ou atual no seu trabalho que imagens do cartierbresson estariam presentes ou poderiam ser vistas como uma foto atual feita por esses dias fiz uma seleção de algumas imagens e o trabalho me levou a pensar sobre questões de linguagem cartier-bresson sempre se colocou como fotojornalista para o fotojornalista pensar em uma imagem eterna é pensar em uma imagem sem legenda uma fotografia que exista por ela mesma pensar nessas imagens me fez avaliar o que é eterno e o que é vício assim como todo fotógrafo cartier-bresson possui seus vícios de linguagem o respeito absoluto pelo negativo e uma milimétrica perfeição não há corte posterior ou em laboratório e as imagens sempre têm uma margem preta significando que todo o negativo foi ampliado tem uma ordem geométrica bem renascentista já que a origem dele está na pintura quando jovem frequentou o ateliê de andré lhote entre 1927 e 1928 e toda pintura que aprendeu era clássica com ênfase na divina proporção e na sequência numérica de fibonacci1 todo fotógrafo tem vícios que podemos pensar que é estilo entretanto vício é uma coisa e linguagem é outra pensar em uma fotografia que possa ser eterna é pensar na sua essência 1 sequência numérica proposta pelo matemático fibonacci 1170-1240 em que o terceiro número é resultado da soma dos dois anteriores a divisão dos termos resulta em um número constante o número de ouro 1,61 e em uma proporção presente em vários elementos da natureza que garante o melhor aproveitamento do espaço horizontal 12 cadernos de fotografia 13
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cartier-bresson é muito transparente por ser um dos raros fotógrafos que escreveu e pensou a sua fotografia em 1952 lançou o livro images à la sauvette paris editions verve 1952 onde definiu no prefácio o que é e como se faz fotojornalismo ou fotoreportagem como gostava de afirmar e porque contar uma história com imagens o título imposto ou não imposto vem com a ideia do instante decisivo durante muito tempo pensou-se que o instante decisivo tinha alguma relação com emoção algo como alguém caindo de um prédio e se esborrachando no chão contudo não era esse o seu instante para ele o instante decisivo era uma espécie de organização geométrica perfeita algo que só poderia ser visto por um único olho em função da perspectiva percebida e de um posicionamento geométrico essa ideia veio um pouco da sua juventude de pintor nos anos 20 quando participou do movimento surrealista frequentando cafés e fazendo andanças por paris a procura dos surrealistas é pelo objeto perfeito pela obra perfeita É sempre a procura pelo maravilhoso pela busca do acaso de linhas e formas a ideia do instante decisivo do cartier-bresson é o instante do maravilhoso momento em que percebemos uma harmonia geométrica tudo fica enquadrado sem intervenções ou poluições na imagem ele consegue arrancar do todo que enxerga uma proporcionalidade surrealista que remete muito à proporcionalidade do renascimento e ao objeto dito perfeito o segundo ponto importante para pensarmos a essência de cartierbresson é ele próprio formado numa escola católica sempre teve horror a padres e religiões tendo mencionado em várias entrevistas e artigos que odiava aquela escola suas obrigações e hábitos talvez por isso tenha refutado durante toda a sua vida qualquer engajamento político e partidário sempre se apresentava como um humanista no final da vida disse brincando e finalizando uma das últimas entrevistas viva bakunin porém odiava tudo que era moldado e preso por volta de 1954 caiu em suas mãos o livro escrito por um alemão eugen herrigel que foi para o japão nos anos 20 ensinar filosofia como parte de um intercâmbio universitário herrigel tentou entender a sociedade japonesa a partir da prática do kyudô arco e flecha uma das sete artes do japão bresson trouxe esse pequeno livro traduzido no brasil como a arte cavalheiresca do arqueiro zen editora pensamento e introduziu essa ideia na fotografia nos anos 60 quando comecei a fotografar esse pequeno livro era bíblia de todo fotógrafo iniciante todo mundo lia e nos imaginávamos no mundo nas ruas na magnum cartier-bresson incorpora um pouco dessa prática zen do arco e flecha de esticar a flecha e acertar o alvo a ideia do zen de que o alvo e o arqueiro se transformam numa mesma coisa e por isso a flecha dispara acertar o alvo não é importante importante é conhecer o objeto esse conceito terá grande influência em toda a sua vida o horror por qualquer pessoa engajada política ou religiosamente o leva a ser um humanista e sobretudo a retratar o ser humano sempre numa posição digna na sua fotografia não há muito conflito ou mortes e lamentações mas apenas essa relação humana entre o objeto e o fotógrafo o alvo e a flecha ele tem um livro belíssimo sobre a china2 editado com o material feito em 1949 foi praticamente todo feito em xangai quando a cidade estava sendo atacada pelas tropas de mao tsé-tung a cidade de xangai sofreu o maior bombardeio que se conhece na história de todas as guerras foram três dias consecutivos de bombas caindo do céu ele era o único fotografo estrangeiro lá e não há nenhuma morte no livro nenhuma tragédia tem gente dormindo um homem comendo no meio da rua pessoas andando a cidade funcionando há sempre essa intenção esse olhar muito confiante e muito amigo do ser humano ele achava que para fotografar era preciso ter certa compreensão uma relativa confiança mútua uma ligação entre a flecha e o alvo o seu texto o instante decisivo prefácio de seu primeiro livro inteiramente fotográfico images à la sauvette inicia com uma declaração de que nunca foi um globetrotter e que não sabia chegar a um lugar tirar a bolsa de fotógrafo e sair fotografando precisava chegar sentar em um boteco tomar uma cerveja passar uns dois dias conhecer o lugar e as pessoas para poder fotografar 2 1964 china fotos e notas sobre os 15 meses em que esteve na china texto de barbara muller bantam books new york cadernos de fotografia 14 15
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para demonstrar esta ideia selecionei 11 fotografias do cartier-bresson capazes de ultrapassar esse tempo fiz essa seleção pensando no que existe ainda hoje de bresson e no que ele deixou sem dúvida foi o maior fotógrafo da história da fotografia talvez não o mais completo penso sobretudo em andré kertèsz 1894-1985 que foi um fotógrafo mais completo por ter feito um pouco de tudo fotografia de rua e fotografia de estúdio entretanto sem a menor dúvida cartier-bresson foi o maior fotógrafo da história da fotografia era uma pessoa extremamente humana e apaixonada pelo ser humano com um olhar sempre positivo sobre o destino dos homens É muito interessante ouvir que determinado fotógrafo é bressoniano na minha opinião não há bressoniano pode haver pessoas com os mesmos vícios e a mesma estética mas não com a mesma essência a essência de cartier-bresson passa por essa procura do maravilhoso e sobretudo pelo respeito ao objeto fotografado passa por criar uma relação com o objeto fotografado um vínculo uma flecha em harmonia com o alvo o recorte inglaterra ponto de interrogação do recorte ao arrancar essa parte de um todo ele provoca no recorte esse ponto sugere caminhos e destinos da aristocracia inglesa no sempre belo gramado inglês o instante único paris 1932 o instante único de um horizonte sem dúvida alguma cartier-bresson trabalhava como se tivesse um nível de bolha de pedreiro sobre a cabeça a grade ao fundo sugere uma linha de infinito e nos leva a perceber que o homem está saltando a poça a espera hyères frança 1932 a espera o arqueiro o instante perfeito o equilíbrio aqui temos a ideia do maravilhoso uma escada perfeita e tudo mais ou menos definido todos os espaços preenchidos 16 cadernos de fotografia 17
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o ambiente escultor bruno giacometti e sua estátua frança 1971 bruno giacometti era seu grande amigo temos a ideia do ambiente ou seja jogar com os planos isso é extremamente atual e lembra uma fotografia do flávio damm o recorte 2 méxico 1934 um recorte também bem surrealista com objetos e recortes onde o que mais importa é a forma fotografia é luz méxico 1964 fotografia é luz no méxico É um corte perfeito e um jogo de luz onde a menina só existe onde há somente uma parede forma volume um jogo perfeito de luz e sombra a passagem claro-escuro renascentista a espera 2 yvry sur seine frança 1955 a espera 2 é muito parecida com aquela da bicicleta passa um cachorro e preenche o canto esquerdo sentimos o nível do pedreiro na cabeça os seus horizontes mesmo os imaginários são sempre retos 18 cadernos de fotografia 19
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amarras geométricas atenas grécia 1953 as amarras geométricas para alcançar este maravilhoso objeto perfeito sempre utilizava alguma coisa amarrada nesse caso as duas portas estão amarradas bem no canto dando impressão que o prédio está torto e que a rua desce porque as portas estão retas formando um ângulo de 90 graus observamos que são duas mulheres duas portas duas estátuas como ainda a porta que amarra a fotografia também é dupla a grande angular rio marne paris 1938 uma das raras fotografias de cartier-bresson em grande angular para ele a grande angular é a 35 mm uma das tradições que vem do andré lhote e da sua escola de pintura pelo menos dos quatro anos iniciais como jovem pintor ele voltaria a pintar quando se aposentou a ideia bem renascentista de representar o que estamos habituados a ver e que passa pelo olhar de um olho humano a lenta normal para o filme 35 mm é a lente 50 mm cerca de 90 por cento do material do cartier-bresson é feito com o olhar do olho humano os 46° da visão humana essa é uma das raras imagens que não é feita em 50 mm mas tem o equilíbrio perfeito se medirmos exatamente a localização do copo de vinho perceberemos que ele é central a distância entre o copo de vinho e os extremos das duas fotos é o meio milimétrico o copo e o vinho iniciam a leitura com o barco supondo o horizonte sem drama Índia 1947 sem drama É uma das únicas em que percebemos o seu humanismo hoje em dia o fotógrafo iria jogar uma grande angular no o rosto da mulher para retratar a sua expressão de dor de choro daquela mãe com a criança passando fome porque essa é a linguagem atual ele não ele faz a criança e coloca magnificamente uma roda lá no alto preenchendo o canto superior o drama e a dor passam a ser uma suposição do leitor 20 cadernos de fotografia 21
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fotógrafo crítico de fotografia e mestre em comunicação e artes pela usp eder chiodetto o tiro torcello itália 1954 É o tiro zen budista a torre é central e se passarmos duas diagonais elas irão cruzar a torre ele está dentro de uma gôndola e o balanço da água oferece uma dificuldade extra mas o horizonte imaginário é retilíneo observamos a espera pelo clique o tiro perfeito do arqueiro que estica o arco e espera o momento para soltar a flecha o momento acontece quando as distâncias entre a ponta da gôndola a torre e a menina são exatamente iguais se colocarmos uma régua poderemos ver que elas são iguais há um momento preciso de espera que está entre a gôndola a torre e a menina o instante decisivo e o negativo inteiro são os seus vícios de linguagem selecionei algumas fotos que mostram esses vícios de linguagem e fazem parte do clássico de sua obra saímos do maravilhoso e entramos no instante falar sobre cartier-bresson virou um pouco uma sina na minha vida desde que fiz a curadoria da exposição no sesc pinheiros em são paulo no final de 2009 foi uma grande mostra que ficou em cartaz durante três meses além da exposição de fotos do bresson fizemos um ciclo de filmes com algumas entrevistas do artista em um dos filmes tinha o robert delpire grande diretor e amigo íntimo do cartier-bresson durante 50 anos comentando o trabalho dele em paralelo fizemos uma exposição de fotógrafos brasileiros influenciados pelo fotógrafo francês chamada bressonianas quando me propus a correr esse risco de encontrar alguma sincronicidade entre os brasileiros e o francês tentei perceber o que era referência cópia e pastiche talvez o cartier-bresson seja um dos fotógrafos mais copiados do mundo foi uma tarefa bastante difícil que resolvi enfrentar por não me relacionar muito bem com os mitos intocáveis da história É preciso sacudir esses mitos para saber o que a obra tem de perene e universal simbolicamente falando para que se perpetue no tempo e não fique cristalizada em torno de alguns clichês É preciso recontextualizar a ideia do instante decisivo no contemporâneo para saber até que ponto a obra sobrevive nos dias de hoje uma das respostas mais enfáticas que tive quanto à pregnância da obra do cartier-bresson foi a repercussão desta exposição que fizemos em são paulo o público foi uma grande surpresa um recorde para mostras de artes visuais no sesc são paulo mais de 160 mil pessoas visitaram a cadernos de fotografia 22 23
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exposição obviamente a presença maciça foi de um público formado por não especialistas e que hoje tem mais contato com uma fotografia bem diferente do trabalho de hcb então me perguntei por onde cartierbresson continua capturando as pessoas o que há de tão envolvente em sua obra que gera ainda hoje uma quase catarse coletiva comecei a pensar na obra de bresson em confronto com o mundo contemporâneo com essa geração quase espontânea de imagens resultante da aceleração dos processos de circulação das imagens da massificação das câmeras digitais e dos celulares que fotografam parece que ele fala de um tempo aqui temos uma questão quase nostálgica que tende ao desaparecimento um tempo que aos poucos vai saindo do foco da possibilidade de apreensão do mundo visível É como se suas imagens falassem do passado a partir de uma forma de ler a paisagem e a vida cotidiana que já não temos mais capacidade de fazer na pesquisa para a curadoria pensei o tempo todo em sacudir um pouco o cartier-bresson para vê-lo fora dos clichês e mitos que a história foi depositando sobre ele acredito que quanto mais passa o tempo mais cristaliza essa visão quase mitológica que temos dele e da sua obra conversei com agnès sire diretora da fundação cartierbresson porque pretendia propor um debate sobre o instante decisivo e discutir esse ideário criado pelo bresson em contraponto ao mundo mais tecnológico de hoje agnès deu um grito ao telefone e disse não faça isso não escreva nada que ligue cartier-bresson a essa ideia ridícula de instante decisivo levei um susto então ela enviou um texto esclarecendo essa ojeriza pelo termo instante decisivo que usei como base para a discussão no sesc pinheiros convidei dois curadores franceses jean-luc monterosso e o gabriel bauret a curadora do museu de arte contemporânea de são paulo helouise costa e o maurício lissovsky que é professor da ufrj para discutir a existência ou não do instante decisivo a partir desse texto eu queria cutucar esses conceitos cristalizados pelo tempo e confesso que passei a gostar um pouco mais da obra de bresson a partir dessa discussão esse texto foi apresentado por agnès em um colóquio em paris para introduzir essa discussão acerca do momento decisivo essa expressão que fez escola a tal ponto de ter se transformado numa espécie de definição do ato fotográfico é tão forte para certos fotógrafos que será preciso colocá-la abaixo nos próximos anos dizia ela na continuação do texto ela dizia no início dos anos 1980 surgiu a noção de `tempo fraco por oposição ao `tempo decisivo noção magistralmente desenvolvida no texto de alain bergala que introduz a obra de raymond depardon correspondance new yorkaise 3 esse ensaio intitula-se as distrações do fotógrafo esses momentos as distrações do fotógrafo parecem igualar esses supostos caçadores de aparências aos pintores que montam seu cavalete diante de uma paisagem e pintam em um momento de distração uma odalisca uma imagem que é ao mesmo tempo a imagem do seu desejo e de sua cultura para além do que se quis ver como ato automático da captação do instante decisivo ocorre a percepção de que o real escapa e que o ato fotográfico lhe revela a angústia dessa verdade real é aquilo que a foto está condenada a perder agnès pregunta a partir dessa reflexão se a impaciência de cartierbresson estaria ligada à angústia de perder aquilo que está destinado a sempre faltar na fotografia quem não o viu enquadrar sem máquina algo que poderia ter se tornado uma foto quem não sentiu essa intensidade feliz que ele possuía até o momento em que escolheu dedicar-se exclusivamente ao desenho a fotografia é uma ação imediata o desenho é uma meditação ele repetia regularmente no fim de sua vida o seu texto para images à la sauvette a fotografia é para mim o reconhecimento na realidade de um ritmo de superfícies de linhas ou de valores o olho recorta a matéria e o aparelho só tem que fazer o seu trabalho que é imprimir sobre a película a decisão do olho nós estamos portanto diante do encaminhamento de um olho errante frequentemente rodopiante onde repentinamente a decisão do olho vai registrar pela pressão do dedo sobre o obturador de maneira fulgurante um deslumbramento repentino este momento decisivo existe em todo fotógrafo é o momento do clique ele é mais ou menos longo segundo o tipo de tomada de vista rápido na leica mais longo no estúdio mesmo nos 3 new york correspondance new-yorkaise les absences du photographe de raymond depardon e alain bergala cahiers du cinema 2006 24 cadernos de fotografia 25
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tempos fracos robert frank the americans4 é um grande exemplo desse tempo fraco que seria o antimomento decisivo ou depardon produziram um momento decisivo o erro a questão a respeito desse instante decisivo associado ao nome de cartier-bresson está no fato de ter se tornado uma espécie de norma como se não existisse senão um momento bom aquele em que tudo se posiciona de maneira geométrica e equilibrada numerosos fotógrafos se enganaram tentando imitar esse equilíbrio e omitiu-se com frequência a ocorrência da impetuosidade de um desejo da angústia pessoal diante de um instante que devia ser conservado poucos historiadores reexaminaram essa noção para lhe restabelecer o sentido na sequência agnes faz uma comparação interessante entre algumas fotos do bresson na verdade o próprio cartier-bresson descreve a foto tomada na isla de sifnos ciclódes grécia 1961 de forma a ajudar a entender essa questão turbulenta sobre o instante decisivo este instante decisivo visto do exterior pode se tornar uma armadilha uma receita até para cartier-bresson em uma conferência em nova york em 1973 ele explicou que havia encontrado um enquadramento que parecia interessante e esperou que acontecesse algo naquele lugar um padre apareceu depois uma menina subiu a escada correndo bresson tirou 36 fotos dessa situação o que é raro para ele que nunca fotografava metralhando ele diz Às vezes como nessa foto na grécia visualizei o enquadramento do conjunto e esperei que alguma coisa acontecesse e tirei duas fotografias fez 36 fotos mas considerou duas a que passou o padre e essa que passou a menina uma representava um padre ortodoxo com seu chapéu cilíndrico a outra a menina a menina estava em relação perfeita com as outras formas mas o homem tinha alguma coisa de desajeitado era uma outra concepção essa foto é citada frequentemente como exemplo de equilíbrio de fato é mas também é um pouco retórica falta ali o sopro da surpresa a fulgurância do olho desvanecido que decide como no caso de outras célebres imagens de cartier-bresson fornece uma espécie de receita que será largamente partilhada pelos fotógrafos que ele não teve tempo de pôr à prova na célebre imagem da estação de trens gare saint lazare 1932 mas sente-se a diferença entre o olho surpreendido e a aplicação de um método às vezes útil para o ofício É curioso perceber que o instante decisivo dessa foto é fruto de um tempo muito estendido o disparo é mais ou menos como armar fazer a armadilha para pegar o passarinho e ficar ali de tocaia esperando que entre na gaiola É mais ou menos o que acontece aqui em outra passagem do texto agnès diz que deveríamos pensar não mais como o instante decisivo porque a decisão é o momento do clique de qualquer fotógrafo mas pensar a partir do conceito do acaso objetivo tem a objetividade de preparar racionalmente a armadilha mas também a contribuição do acaso que a depender da imprevisibilidade da vida pode gerar um acontecimento que incendeie a composição e crie uma inesperada potência simbólica e poética em outra situação cartier-bresson arma a composição e fica aguardando que algo venha desorganizar a calmaria da imagem comumente o ser humano é o fator desestabilizador dessas composições aqui temos uma fotografia de outro caráter que possibilita ver como é interessante desconstruir um pouco essa ideia do instante decisivo para pensar que existem várias artimanhas possíveis para chegar a um resultado desses É uma agência bancária em nova york ele está ali esperando para ser atendido e como tem esse olho muito atento para geometria e para a organização das formas emprestado da pintura e do desenho percebe esse ritmo de verticais os pés da mesa os batentes da porta e as outras portas no segundo plano tudo se organiza nas verticais quando a secretária entra na sala do chefe e cartier-bresson paralisa o fluxo temporal no instante em que a perna dela descreve uma diagonal o ritmo formal até então entediante quebra-se totalmente o humor a sensualidade a partícula de rebeldia se estabelecem conferindo à fotografia uma leveza e uma graça que jamais haveria numa fotografia do mesmo local sem o gesto feminino que de fato é o que destoa neste espaço masculino sem curvas e sisudo É mais do que um tiro certeiro É toda uma ideologia de vida uma crença uma herança estética que cadernos de fotografia 4 the americans livro do fotógrafo suíço robert frank lançado em 1959 resultado de uma longa viagem pelos estados unidos realizada em 1955 e 1956 em 2009 o metropolitan museum of art ny realizou uma exposição comemorativa aos 50 anos do lançamento do livro algumas imagens estão disponíveis para visualização http www.metmuseum.org special/robert_frank/images.asp 26 27
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toma forma num átimo toda fotografia é meio como uma fração de segundo mais décadas de dedicação estudo e exercícios de sensibilização diante de um momento decisivo se sobrepõem muitos instantes de indecisão bressonianas bressonianas foi um risco que corri conscientemente tão logo alguns fotógrafos ficaram sabendo que eu estava fazendo essa busca de fotógrafos brasileiros influenciados pelo cartier bresson comecei a receber fotos de pessoas pulando poça de água ou outras que imitavam clássicos bressonianos obviamente não era isso que procurava eu buscava fotógrafos que assumiam que bresson tinha sido uma referência importante na sua trajetória e que fosse possível perceber algum gene bressoniano em suas obras o que mais me interessava era muito menos essa ideia genérica do instante decisivo mas a injeção de uma certa subjetividade e uma capacidade de dotar os momentos mais prosaicos da vida de uma beleza infinita se há algo que cartier-bresson deixa na sua obra é essa capacidade este aviso viva o tempo presente na sua intensidade porque o mais belo está nas coisas mais corriqueiras que fazemos o beijo dado no filho antes de trabalhar nas festas familiares no encontro com os amigos a obra dele é uma grande ode uma grande celebração do cotidiano e dos gestos mais simples foi isso que pautou minha pesquisa entre os fotógrafos brasileiros e acabei selecionando sete deles carlos moreira cristiano mascaro orlando azevedo juan esteves tuca vieira marcelo buainain e flávio damm o carlos moreira consegue dotar suas fotografias de ritmo ele tem um trabalho muito refinado nas gradações do preto e branco e uma composição sempre muito delicada não me interessava simplesmente detectar algo da estética do bresson mas perceber de que forma esses fotógrafos conseguiram adicionar algo original sobre essa escola algumas fotos da mostra acrescentam um olhar mais matreiro tropical jocoso grosso modo é como se vissemos um bresson mestiço atuando sob um sol tropical o flávio damm é um dos mais adoráveis personagens da fotografia brasileira gaúcho vive no rio de janeiro há muitos anos e foi um célebre fotógrafo do tempo áureo da revista o cruzeiro hoje é um garoto de 84 anos que segue produzindo diariamente todos esses fotógrafos têm muito claro esse conceito do street photographer de constituir boa parte de suas obras caminhando pelas cidades É um pouco como bresson e como o flâneur do baudelaire na questão da errância pelas cidades o flávio diz sempre que para ser bom fotógrafo há que ser vagabundo só tendo tempo só sendo vagabundo você terá tempo É a ideia do distraidamente venceremos do paulo leminsky5 você precisa estar de guarda baixa para perceber essa visualidade ele também tem esse olhar irônico bem humorado a foto em que duas pessoas despem um manequim é uma piada visual ele tem uma coleção de fotografias de freiras em uma entrevista perguntei sobre essa mania de ficar perseguindo freiras pela rua ele respondeu que as freiras são incríveis porque além de serem personagens em preto e branco já são geométricas o cristiano mascaro é arquiteto de formação e seus trabalhos selecionados primam pelas linhas da geometria dos paralelismos seu trabalho é fruto de uma percepção que não é comum nas pessoas que não estão preocupadas com essas relações 5 referência à obra distraídos venceremos do poeta paulo leminski ed brasiliense 28 cadernos de fotografia 29
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