Platô - Volume 1, N 2, Colóquio da Praia V1.1

 

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Platô - Volume 1, N 2, Colóquio da Praia V1.1

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Pede-se permuta On demande l’echange We ask for exchange Se pide intercambio Contato: Instituto internacional da Língua Portuguesa (IILP) Av Andrade Corvo, nº 8 Plateau, Cidade da Praia - Cabo Verde Telefone: (238) 261 95 04 www.iilp.org.cv www.riilp.org e-mail: revistariilp@gmail.com Colóquio Internacional da Praia: a Língua Portuguesa nas Diásporas Volume 1 Número 2 2012 Gilvan Müller de Oliveira Adelaide Monteiro (organizadores) Editores Gilvan Müller de Oliveira Rosângela Morello Secretaria Executiva Denise Fonseca Comitê editorial António Branco (Universidade de Lisboa, Potugal) Clémence Jouët-Pastré (Universidade de Havard, Estados Unidos da América) Emir José Suaiden (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia/IBICT, Brasil) Gregório Firmino (Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique) Maria José Grosso (Universidade de Macau, Macau) Guadelupe Teresinha Bertussi (Universidade Pedagógica do México, México) Equipe Técnica Alberto Gonçalves: revisor técnico Ana Paula Seiffert: divulgação Felipe de Almeida: design gráfico Vanessa de Luca Bortolato: design gráfico Ficha catalográfica (em tramitação) Revista do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (Platô) - Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) - V.1, N.2 (2012), Cidade da Praia, Cabo Verde: Editora do IILP, 2012. Semestral ISSN: (em tramitação) (eletrônica) Arte da capa: Felipe Almeida e Vanessa de Luca 1. Língua Portuguesa - Periódicos. 1. Instituto Internacional da Língua Portuguesa Todos os direitos autorais estão reservados a Platô/IILP

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ÍNDICE 04 APRESENTAÇÃO: A LÍNGUA PORTUGUESA NAS DIÁSPORAS 06 TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES 20 VIDAS EM PORTUGUÊS: PERSPECTIVAS CULTURAIS E IDENTITÁRIAS EM CONTEXTO DE PORTUGUÊS LÍNGUA DE HERANÇA (PLH) 32 PERSPECTIVAS SOBRE O ENSINO DO PORTUGUÊS NOS EUA: UMA HISTÓRICA E A RELAÇÃO DA DIÁSPORA COM TENDÊNCIAS CURRICULARES DA ATUALIDADE 58 INTERAÇÃO SOCIAL E O APRENDIZADO PORTUGUESA NA DIÁSPORA: A EXPERIÊNCIA DA CALIFÓRNIA DA LÍNGUA 72 LUSOFONIA AO SUL: IMIGRAÇÃO E EXPERIÊNCIAS CULTURAIS NA ARGENTINA EM CHAVE HISTÓRICA 88 NOVAS TERRITORIALIDADES CONSTRUÍDAS EM LÍNGUA PORTUGUESA NO ESPAÇO DE MACAU 102 CAMINHOS DA LÍNGUA PORTUGUESA NA ÁFRICA DO SUL 112 CARTA DA PRAIA 114 PROGRAMAÇÃO DO COLÓQUIO Platô V. 1. N.2 2012

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APRESENTAÇÃO A LÍNGUA PORTUGUESA NAS DIÁSPORAS Gilvan Müller de Oliveira Sobre o autor Diretor Executivo do IILP. Contato: iilpde@gmail.com Com a presença de representantes do Governo de Cabo Verde, entre os quais, a excelentíssima senhora Ministra da Educação e Desporto, o excelentíssimo senhor representante do Instituto das Comunidades, o representante do Ministério das Relações Exteriores e representantes do corpo diplomático, de palestrantes e convidados, o IILP realizou, na cidade da Praia, e com transmissão ao vivo pela Internet, seu 2.o Colóquio abordando a língua portuguesa nas diásporas. Vários palestrantes – ao todo 16 especialistas de 12 países diferentes - vieram de muito longe, da Califórnia, de Macau, da Argentina, da Suécia, da Cidade do Cabo a Salvador da Bahia, de Portugal a São Tomé, nos trazendo importantes informações sobre o português nesse ambiente das diásporas. Esta talvez tenha sido a primeira vez que a CPLP reuniu, desde a sua fundação, uma análise dos trabalhos realizados pelos seus oito países membros, no sentido de produzir um panorama das ações de promoção linguística realizadas com as diásporas. O quadro desenhado no evento foi necessariamente variado e díspar, porque, como sabemos, há países com maior tradição tanto de emigração quanto de promoção linguística que outros, e é ainda díspar a percepção das oportunidades das diásporas para a política externa dos Estados. As decisões estratégicas de cada país têm sido, portanto, diferentes. Desde o desenvolvimento de sistemas inteiros do tratamento da diáspora até iniciativas particulares em que a própria diáspora organizou de maneira muito forte a recepção da política pública estiveram na agenda do Colóquio. As discussões se consolidaram na Carta da Praia sobre o Português nas Diásporas, documento comum que espelha a diversidade das ações e que faz recomendações concretas ao IILP para que, juntamente com o grupo presente, constitua uma rede mais ampla para dar seguimento às análises e às políticas consensuadas para as diásporas, A Carta faz também um conjunto de recomendações à II Conferência Internacional Sobre o Futuro do Português no Sistema Mundial que ocorrerá em outubro de 2013, em Lisboa, e que gerará o Plano de Ação de Lisboa 2012-2014, dando sequência a essa aproximação e cooperação cada vez maior dos nossos países nesse compartilhar de perspectivas para a nossa Língua Comum. Esta cooperação levará, sem dúvida, a efeitos positivos no que tange à manutenção e ao desenvolvimento da língua portuguesa nas diásporas, como uma língua de oportunidades e de abertura, que pode fazer a diferença para 04 Platô V. 1. N.2 2012

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APRESENTAÇÃO - A LÍNGUA PORTUGUESA NAS DIÁSPORAS Gilvan Müller de Oliveira as comunidades que a fala e para os segmentos das sociedades nacionais de acolhimento que com elas convivem. Do conjunto de debates e iniciativas do Colóquio da Praia resulta, então, a publicação deste número 2 da RIILP. Os textos aqui reunidos propiciam, para além do evento, uma troca de experiências que não tivemos oportunidade de ter até momento. A presença do português em tantos espaços fora dos países de língua portuguesa, como uma herança preciosa para as próximas gerações, é prova de que o português embarcou na era da globalização, das transnacionalidades e das novas territorialidades, associadas ao século XXI e expressas nas redes de falantes no exterior e às quais devemos dedicar o melhor do nosso esforço de compreensão e de proposição de políticas linguísticas. Os pontos debatidos neste número trazem importantes contribuições para nos movimentarmos nesse espaço global e dinâmico da língua portuguesa. Platô V. 1. N.2 2012 05

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré Sobre o autor Harvard University, Professora cpastre@fas.harvard.edu de Português, Doutora em Letras Modernas. Resumo Na primeira parte deste texto encontra-se a tese de que uma língua precisa mudar constantemente para manter-se viva e vibrante. Argumenta-se que uma das maneiras que promovem essa contínua transformação consiste nos deslocamentos de lusófonos que, além de disseminarem a língua, transformam-na e, portanto, prolongam-lhe a vida. Na segunda parte do texto, narra-se como a língua portuguesa vem sendo disseminada e transformada desde o século XV até os dias de hoje. Em seguida, há um estudo de caso cujo tema central é a imigração de lusófonos para os EUA e seus embates para manter a língua portuguesa viva ainda que às vezes tenham que questionar a política linguística do país acolhedor. Palavras-chave Política linguística, emigração lusófona, disseminação do português. 06 Platô V. 1. N.2 2012

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré 1 - Introdução “As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem. As mais afortunadas reproduzem-se”. Estas primeiras sentenças de Milagrário Pessoal, recente livro do escritor angolano José Eduardo Agualusa (2010: 1), ilustram perfeitamente a natureza das línguas. Ou seja, assim como acontece com outros organismos que só se mantém vivos através de seus descendentes, as línguas também só conseguem sobreviver através das sucessivas gerações de falantes que as transformam cotidianamente. Apesar da inevitabilidade, e da necessidade, das mudanças ou transformações línguísticas a resistência a elas é imensa. Isto se dá na medida em que, sendo a língua constitutiva do sujeito ou nas palavras de Geraldi (2011:12) um “mecanismo que nos torna o que somos”, mudanças são encaradas como potenciais ameaças a um dos mais fortes pilares identitários. Retomando Agualusa, esse medo atávico das transformações linguísticas fica patente no modo em que o renomado escritor retrata uma das protagonistas de Milagrário Pessoal. Trata-se de Iara, jovem linguista, e para tornar a situação ainda mais complexa, especialista em neologismos, cujos preconceitos contra as mudanças linguísticas vêm à tona em vários momentos como no trecho que narra uma de suas conversas com seu velho ex-professor: “Não se mexe na língua dessa forma. É uma, nem sei como dizer, uma coisa perigosa, um…” O professor completa: “Um acto de subversão? Lógico. Repara que ao enriquecer a língua, criando palavras de que nem sabíamos que precisávamos, palavras das quais, entretanto, já não nos conseguimos separar, essa pessoa, ou pessoas, quem quer que seja, está também a contribuir para que o nosso pensamento se desenvolva, se torne mais complexo. Trata-se, com efeito, da mais radical das subversões, a de melhorar uma civilização sofisticando seu idioma”. Essa sofisticação aconteceu com o nosso idioma, pois ao exportarem sua língua desde o fim do século XV, os portugueses a expuseram a profundas transformações que a manteve viva e vibrante. As várias geografias do português falado atualmente são testemunhas dessa realidade. 2 - A continuidade na descontinuidade Mas, a disseminação da língua portuguesa não terminou com o fim da expansão marítima nem tampouco com o desmantelamento do Império Colonial Português. Já no século XIX iniciam-se movimentos emigratórios em massa dos países lusófonos. Como, por exemplo, o grande contingente de portugueses e caboverdianos que emigrou para os Estados Unidos. Nas últimas décadas do século XX, a globalização se acelerou e países Platô V. 1. N.2 2012 07

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré tradicionalmente acolhedores de imigrantes passaram a ser países emissores. No mundo língua portuguesa, o Brasil é o exemplo por excelência dessa nova ordem mundial: de país de imigrantes, passa a ser, em meados dos anos oitenta do século passado, um país de emigrantes1 . Trata-se de um fenômeno que ocorreu com incrível rapidez e de modo um tanto quanto dramático e traumático, como atestam as mortes e prisões de centenas de brasileiros na fronteira do México com os Estados Unidos ou em “símbolos” como Jean Charles de Menezes morto pela polícia inglesa. Esse novo rosto do Brasil permanecerá registrado em “brazuca”, neologismo um tanto quanto jocoso cunhado para denominar os emigrantes brasileiros. O Professor José Carlos Sebe Bom Mehy2 registra que o termo “brazuca” originou-se em Nova Iorque, mais precisamente, no Central Park. Nos anos sessenta, reza a lenda, um pequeno punhado de brasileiros, hispânicos e alguns nativos reuniam-se para jogar peladas no famoso parque. Dentre os brasileiros destacava-se um carioca que os não-brasileiros tentavam denominar “brasileiro-carioca”, mas acabavam dizendo “brazoca”. De “brazoca” a “brazuca”, o salto não é muito grande. Também nos Estados Unidos, o Professor Antonio Luciano Tosta3 vem estudando há quase uma década o que ele denomina de literatura, cinema, teatro e imprensa “brazucas”. Ainda é incipiente o número de pesquisas que descrevem os falares dos imigrantes lusófonos e menos ainda especificamente descrevendo os falares brazucas. Destaco aqui, a pesquisa do Professor Mayone Dias e a de Maria Lúcia Espíndola4 . A pesquisa de Mayone Dias foi feita em quinze países onde há comunidades portuguesas relativamente grandes e estabelecidas há vários anos. De acordo com Mayone Dias, a transformação da língua portuguesa varia sobretudo de acordo com as línguas com as quais está em contato. Por exemplo, o “emigrês” falado pelos portugueses na França tem muito mais influência da língua do país acolhedor do que o emigrês da África do Sul e da Alemanha. Mayone Dias atribui esse fenômeno tanto a um fator interlinguístico quanto, no caso do portuafricander, a um fator extralinguístico. O critério intralinguístico calca-se no fato de que o português e o francês são línguas neo-latinas, muito mais próximas do que o português e o alemão ou do que o português e o africânder. Por sua vez, o critério extralinguístico baseia-se nas percepções dos falantes em relação à língua do país receptor. Citando Mayone Dias (1989: 54): Manifesta-se mínima influência do africânder no falar dos emigrantes portugueses na África do Sul que, de um modo geral, não demonstram qualquer apetência pela aprendizagem desta língua. Não só veem nela um veículo de comunicação menos desejável do que o inglês, como reagem pelo alheamento a uma maior discriminação exercida contra eles pelos boéres do que pelos sul-africanos anglófonos. ¹2 3 4 - JOUËT-PASTRÉ & BRAGA, 2008. MEHY, 2004. TOSTA, 2004, 2005, 2007a, 2007b. MAYONE DIAS; 1989 ; ESPÍNDOLA, 2001. 08 Platô V. 1. N.2 2012

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré A pesquisa realizada por Maria Lúcia Espíndola é uma das primeiras que descreve sistematicamente o falar em igrês dos brasileiros residentes nos Estados Unidos. A pesquisa demonstra que o portinglês brazuca está intimamente ligado ao mundo do trabalho braçal, da falta de tempo, do cansaço e do dinheiro. Reveladores desse universo linguístico são os substantivos como “meu schedule”, “o vacuum”, “a bag”, “a disher”; adjetivos como estar busy; estar off, estar part-time e os verbos vecar – printar; serapiar; parquear – aplicar; lay offar – lay offando. Fica patente na pesquisa de Espíndola que muito do léxico que ela coleta está relacionado ao trabalho doméstico, ou seja, um nicho ocupado predominantemente por mulheres. Em seu livro Passando a América a Limpo, Soraya Resende Fleischer5 faz uma cuidadosa análise do modus vivendi dessas mulheres que recusam a identidade de “faxineiras” usando no lugar a palavra “housecleaners”. Soraya Fleisher examina o cotidiano dessas mulheres e mostra a diferença brutal entre uma faxineira no Brasil e uma housecleaner nos Estados Unidos. As realidades são complexas e diversas, indo desde o tipo de limpeza feita nos EUA e no Brasil até o salário bem mais alto no país acolhedor. As housecleaners têm um business e um schedule, elas se referem às americanas como clients ou freguesas ao invés de patroas. Elas são “donas” de várias casas, ou seja, limpam um determinado número de casas e assim formam seu schedule. Como uma espécie de cartela de clientes, esse schedule pode ser vendido à outra housecleaner que será apresentada como amiga de confiança e irá substituí-la. Não é necessário fazer muita análise para perceber os empréstimos feitos diretamente do inglês e o deslocamento semântico de palavras tanto em inglês como em português. Por exemplo, a palavra “schedule” em inglês tem vários sentidos tais como horário, cronograma, agenda, plano e programa. Não tem, no entanto, sentido de “carteira de clientes” que em inglês seria “database of clients” ou “client portfolio”. Em português fica patente o deslocamento de sentido do vocábulo “dona” uma vez que há um grande poço entre “dona da/de casa” e faxineira. No Brasil, certamente, seria um tanto quanto peculiar uma faxineira dizer que é a dona das casas onde trabalha. Como já adiantamos, há muita resistência a mudanças linguísticas. Citando mais uma vez o Professor Mayone Dias (1989:115): “A primeira imagem que o emigrês suscita num contexto pátrio é o de uma linguagem espúria, risível […]”. Mas, como argumentei já no início deste texto, todas as línguas têm que se transformar para conseguir sobreviver. Portanto, os diversos emigreses estão longe de solap¬ar a língua portuguesa. Muito pelo contrário, só vêm enriquecer o verdadeiro mosaico que é a nossa língua. Mas existe o grande desafio de preservá-la, pois dependendo da época, das políticas de imigração e das políticas linguísticas dos países acolhedores e dos países emissores de migrantes lusófonos, a língua portuguesa pode simplesmente desaparecer, deixando traços tão-somente nos sobrenomes. Este é o caso do Havaí, cuja imigração lusófona deu-se ainda na época Imperial, antes do belo arquipélago tornar-se parte dos Estados Unidos. Atualmente, ainda que a língua portuguesa tenha sido quase completamente obliterada, o censo aponta os portugueses como o quinto maior grupo étnico havaiano, totalizando 5,2% da população. 5 - FLEISCHER, 2002. Platô V. 1. N.2 2012 09

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré 3 - Um estudo de caso: a imigração lusófona para os EUA Dentre os países receptores, os Estados Unidos são um caso muito particular por duas razões. Em primeiro lugar porque receberam várias ondas de imigrantes lusófonos de diferentes países nos últimos duzentos anos. Em segundo lugar, pelas drásticas mudanças de políticas linguísticas sofridas por este país que se autodenomina “um país de imigrantes”. Apesar da predominância do inglês desde a colonização, até finais do século XIX, os EUA conviviam sem maiores conflitos com sua identidade multilíngue e multiétnica. Esta harmonia começa a se esfacelar com as grandes vagas imigratórias que chegaram a partir da segunda metade do século XIX. A imigração portuguesa em massa, como a de outros europeus, tem início nos anos setenta do século XIX, portanto uma época de transição entre a tolerância multilinguística e multiétnica e a ideologia do “melting pot”. Essa “era” finalmente se acaba em1906 com a assinatura do Ato Nacionalista que requeria que os imigrantes dominassem o inglês para obter a cidadania norte-americana. Como todos os europeus que migraram para os EUA no século XIX, os portugueses foram absorvidos pela ideologia do “melting pot” a qual, como já dissemos, impedia a celebração do multiculturalismo. Havia ainda grande competição entre os diferentes grupos de imigrantes que acusavam de atrasados os enclaves étnicos que recusavam a rápida assimilação à sociedade americana dominante. O desejo de fugir desse estereótipo motivou os imigrantes portugueses a rejeitar suas raízes. Como afirma Pap (1981: 222), “[…] o português tem falta de confiança em Portugal e considera seu país natal velho e decrépito; para vários portugueses da Nova Inglaterra […] Portugal é uma nação que está morrendo, eles sabem muito pouco sobre ela”. Há ecos desse pensamento na Califórnia onde o Jornal Português queixou-se editorialmente (1940) que centenas de portugueses da Califórnia tinham vergonha de sua nacionalidade. Se na sociedade receptora os imigrantes portugueses eram encorajados a esconder sua identidade a fim de serem bons cidadãos americanos, na sociedade emissora os imigrantes eram conclamados a preservar suas origens portuguesas e envergonhar-se de sua condição de emigrante. Esse contexto, no entanto, mudou nos últimos cinquenta anos. De um lado, Portugal tem valorizado sua população “emigrante”, passando por exemplo a conceder dupla cidadania aos portugueses que residem no exterior. Por volta dos anos sessenta grande parte da sociedade americana procura celebrar o multiculturalismo. Nesse clima, as Associações de portugueses nos Estados Unidos da América se multiplicaram. Em documento postado em outubro de 2011 no site do “Observatório da Imigração6 ” há o espantoso número de 307 associações das mais diversas naturezas que vão desde a Academia do Bacalhau, em New Jersey até a Filarmónica de Santo António, em Cambridge. Além dessas associações, formaram-se dezenas de escolas comunitárias com o objetivo de manter vivo o português nas futuras gerações. Também graças ao árduo trabalho dos luso-descendentes, nos anos setenta vários estabelecimentos de ensino da rede pública implementaram programas de português. O website da Coordenação do Ensino de Português nos Estados Unidos7 traz dados sobre as instituições e deve ser consultado por quem se interessa ainda que minimamente pelo assunto. Infelizmente, esses programas e principalmente os destinados aos falantes de herança estão sendo seriamente ameaçados com as mudanças nas políticas linguísticas que vêm ocorrendo desde 1998 e que se aprofundaram com os ataques de 11 de setembro e com a crise econômica. 6 7 - http://www.oi.acidi.gov.pt/ - http://www.cepe-eua.org/ 10 Platô V. 1. N.2 2012

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré A presença caboverdiana nos Estados Unidos é igualmente muito antiga, datando de pelo menos desde o final do século XVIII8. Encontramos relatos na literatura especializada de que os caboverdianos começaram a chegar ao “Novo Mundo” como tripulantes de navios baleeiros. Mais tarde, em meados do século XIX, iniciou-se uma migração em massa que se integrou aos demais fluxos populacionais oriundos principalmente da Europa. A grande maioria dos caboverdianos instalou-se no estado de Massachusetts, encontrando empregos tanto na então florescente indústria têxtil como no meio rural. A imigração caboverdiana, como a de vários outros grupos incluindo os portugueses, tem tido um fluxo constante para os Estados Unidos. Na região de Boston, por exemplo, é comum encontrar caboverdianos já na quarta ou quinta geração convivendo com caboverdianos recém-imigrados9. Uma parte importante da população, sobretudo as primeiras gerações, rejeitou veementemente ser classificada como afro-americana, reivindicando seu status de povo miscigenado com uma história e cultura particulares10. Segundo Halter (1993: 3) o caso caboverdiano comprova as enormes limitações do sistema de classificação racial norte-americano: “Historicamente, a classificação racial nos Estados Unidos tem sido reduzida a negro ou branco, uma dicotomia que tem virtualmente apagado as diferenças culturais entre pessoas de cor”. Influenciados pelo movimento de direitos civis, caboverdianos, sobretudo de segunda e terceira gerações, começaram a assumir a identidade afro-americana ainda que tentando manter uma identidade étnica como caboverdianos11. A partir dos anos setenta, com a criação pelo censo americano do grupo pan-étnico “Hispanics”, os caboverdianos passaram ainda a ser confundidos com essa nova categoria étnica. Como mostra Sanchez12, essa confusão é devida a fatores como um background racial misto compartilhado por hispânicos e caboverdianos e a relativa proximidade linguística entre o crioulo caboverdiano e o espanhol. Tais mal-entendidos refletem-se no título Some Kind of Funny Puerto Rican? A Cape Verdean American Story do documentário da professora de origem caboverdiana Claire Andrade Watkins13. Os brasileiros, por sua vez, têm uma história de imigração para os EUA muito mais recente que a dos portugueses14. Tradicionalmente um país de imigrantes, a emigração em massa de brasileiros iniciou-se apenas na segunda metade dos anos oitenta. Em Massachusetts, por exemplo, a comunidade brasileira se beneficiou dos serviços criados para e pela comunidade portuguesa, como por exemplo, a já citada MAPS – Massachusetts Alliance for Portuguese Speakers. Em meados dos anos noventa, organizações brasileiras começam a emergir. Dentre elas, destacam-se o Grupo da Mulher Brasileira, o Centro do Imigrante Brasileiro, o Centro dos Trabalhadores Brasileiros e o Centro Comunitário Brasileiro da Paróquia de St. Anthony em Alston-Brighton. A mídia brasileira local inclui quatorze jornais, três revistas mensais, dois canais de rádio, além de vários websites totalmente produzidos para a comunidade brasileira em Massachusetts15. - ANDRADE, 1996; HALTER, 1993; MEINTEL, 1984; SANCHEZ, 1999. - SANCHEZ, 1999. 10 - ANDRADE, 1996; HALTER, 1993; MEINTEL, 1984; SANCHEZ, 1999. 11 - ANDRADE, 1996; HALTER, 1993; SANCHEZ, 1999. Interessantemente, a pesquisadora Maria Olimpia Andrade (1996: 43), de origem caboverdiana, define os caboverdianos como “um subgrupo de afro-americanos”. 12 - SANCHEZ, 1999. 13 - WATKINS, 2006. 14 - MARGOLIS, 1994. 15 - JOUËT-PASTRÉ & BRAGA, 2008. 8 9 Platô V. 1. N.2 2012 11

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré 4 - Programas bilíngues nos Estados Unidos Como qualquer outro grupo de imigrantes, a comunidade brasileira também vivenciou um momento de intensa mudança nas políticas linguísticas americanas. Assim como os portugueses, os brasileiros aproveitaram os bons ventos soprados a partir dos movimentos dos Direitos Civis nos anos sessenta. Naiditch (2007: 137) aponta que a criação do Ato dos Direitos Civis de 1964, proibindo a “discriminação com base em cor, raça ou origem, simbolizou também uma mudança de atitude com relação aos diferentes grupos étnicos e às línguas por eles faladas”. Após uma série de leis e propostas de lei, finalmente em 1968 o Title VII entrou em vigor disponibilizando verbas federais para programas bilíngues. Tais programas estavam longe do ideal, pois não eram “aditivos” mas sim “de transição”, ou seja, a proposta era oferecer aulas de todas as matérias na língua materna das crianças oriundas de famílias de imigrantes até que essas pudessem aprender o suficiente de inglês para entrar no sistema regular, ou seja, todas as aulas ministradas em língua inglesa. Ao longo dos anos, o programa bilíngue teve altos e baixos, sempre ameaçado de extinção por uma avalanche de projetos de lei e de decretos. Apesar de resistir bravamente por trinta anos, o ensino bilíngue passou a sofrer golpes mortais em fins dos anos noventa quando o milionário empresário californiano Ron Unz lançou a campanha English-only. Tal campanha culminou com a aprovação, em referendum de 1998, da proposta 227 que previa o desmantelamento do ensino bilíngue na Califórnia. Não contente com os resultados, Unz parte pelos Estados Unidos afora fazendo e financiando campanhas contra a educação bilíngue. Os resultados foram extremamente favoráveis ao senhor Unz, que conseguiu que sua proposta fosse aprovada no Arizona em 2000 e em Massachusetts em novembro de 2002. Por mero acaso, mudei-me para Massachusetts em agosto de 2002 e, portanto, fui testemunha das batalhas finais travadas pelas famílias e pelos ativistas contra a devastadora lei Unz. Dentre os momentos marcantes que vivenciei, um deles certamente permanecerá indelével em minha memória. Trata-se de um encontro que promovi entre um grupo de adolescentes da comunidade brasileira e meus alunos da Universidade de Harvard. O que ocorreu naqueles cinquenta minutos de interação me remete a Darcy Ribeiro (1995: 44): “Ao longo das praias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros tal qual eram, a selvageria e a civilização. Suas concepções de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente”. Com exceção do binarismo selvageria/civilização, o choque entre os dois grupos pode ser equiparado ao que aconteceu em 1500 no litoral brasileiro. O objetivo oficial do encontro era discutir a lei Unz e, obviamente, minha agenda secreta era tentar ganhar o apoio dos jovens cidadãos americanos. Percebi, ao longo do encontro, que outros temas eram tão ou mais importantes do que o que eu propunha. Pela primeira vez vi cruamente, tomando emprestada a palavra de Darcy Ribeiro, a atitude negativa dos falantes em relação a sua língua e o desprestígio da língua portuguesa dentro da própria comunidade brasileira. Logo após as apresentações, um dos adolescentes brasileiros pediu licença para fazer uma pergunta que, segundo ele “fugia um pouco ao tema”. A licença foi concedida e o jovem rapaz perguntou com o ar desconcertado o que motivava meus alunos a estudar português. Meus alunos responderam com justificativas como “porque português é uma língua muito importante”, “porque quero trabalhar no Brasil”, “porque quero fazer negócios com o Brasil” e, é claro, não podia faltar o delicioso “porque jogo capoeira”. Após essa pergunta perfeitamente legítima, pedi que os presentes dissessem o que sabiam sobre a lei Unz. Durante essa 12 Platô V. 1. N.2 2012

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré etapa, uma das adolescentes brasileiras interrompeu o fluxo da conversa, com uma pergunta bastante parecida com a do primeiro adolescente. Ela queria saber para que serviria o português que os alunos estavam aprendendo. As respostas foram da seguinte natureza: “para encontrar um bom trabalho”, “para me comunicar com futuros clientes”, “para me comunicar com falantes nativos do português”. A discussão sobre a lei Unz também trouxe surpresas. Os dois alunos que fizeram mais perguntas desafiadoras e que se mostraram mais renitentes em relação à educação bilíngue foram justamente os dois únicos “não-anglo saxões” da turma: uma moça de origem russa e, pasmem, um rapaz brasileiro que foi para os Estados Unidos quando tinha cinco anos de idade. Ambos argumentaram que nunca tinham ido a escolas bilíngues e que este fato em nada interferiu em suas carreiras acadêmicas. Os jovens da comunidade fizeram perguntas bastante pertinentes naquele contexto. Perguntaram, por exemplo, se os pais falavam inglês quando se mudaram para os Estados Unidos, a idade com que eles haviam emigrado, se estavam legalizados no país, etc. A conversa se desenrolou de modo natural e respeitoso quero crer que, ao final daquele diálogo, já não havia uma distância tão abismal entre as visões de mundo dos participantes. O triste fato foi que, apesar de todos os esforços das comunidades e do apoio de uma parcela expressiva dos residentes locais, a lei Unz saiu vencedora no referendum. O que se seguiu foi o colapso quase que total do sistema bilíngue. Mas, o que seria esse “quase”? Pois bem, em alguns distritos como, por exemplo, o de Framingham, administradores engenhosos aproveitaram uma brecha na lei que permitia que os pais de crianças que estivessem tendo problemas graves para se adaptar legalmente poderiam solicitar judicialmente que seus filhos permanecessem no sistema bilíngue de transição. Obviamente, trata-se de um trabalho brutal, pois ao início de todo ano letivo, é necessário que os pais assinem um documento oficial requerendo esse “serviço especial” para seus filhos. Ao longo dos anos, com o sentimento anti-imigrante agravado pela crise econômica, os programas bilíngues vêm diminuindo e estão à beira da extinção. Em Massachusetts, por exemplo, resta apenas um programa que não seja de transição, mas sim de adição e manutenção do bilinguismo. Trata-se do programa Olá16, um two-way program, em que as crianças e os adolescentes têm uma semana de aulas – de todas as matérias – em português – e uma semana em inglês. Infelizmente, todos esses programas dependem completamente da política linguística norte-americana. O programa Olá, por exemplo, nunca recebeu sequer um livro do Estado brasileiro. Apesar de estar havendo mudanças extremamente positivas no Brasil, nossas autoridades ainda não demonstram o empenho que desejaríamos em relação à manutenção de nosso idioma. Enquanto isso, o governo chinês paga professores para ensinar mandarim na rede de escolas públicas dos EUA. Talvez em parte pela oposição à manutenção bem como pela supressão de programas bilíngues tanto aditivos como subtrativos, talvez em parte pelo amadurecimento da comunidade brasileira nos Estados Unidos, estejamos assistindo à intervenção da própria comunidade numa tentativa de preservar nosso idioma. Trata-se das várias escolas geridas pela comunidade que oferecem educação suplementar em português17. Geralmente funcionam aos sábados pela manhã, as famílias participam intensamente e a maior parte das crianças e dos adolescentes é filha de brasileiros ou de casais mistos. Há também um público composto por crianças e adolescentes cujas babás são ou foram brasileiras e finalmente há um grupo de 16 17 - SERPA & LIRA, 2011. - FERREIRA & JOUËT-PASTRÉ, 2011. Platô V. 1. N.2 2012 13

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré pessoas que, apesar de não ter qualquer ligação com nenhum país lusófono, quer que seus filhos tenham a oportunidade de conviver em um ambiente multicultural. Essas escolas cobram uma módica taxa para pagar os professores, aluguel e materiais didáticos. O perfil dos professores é bastante diversificado. Há pedagogos, pessoas formadas em letras e alguns formados em áreas completamente diferentes tais como biologia, economia, sociologia etc. Normalmente, há uma grande preocupação com a formação continuada de professores. A duras penas, as escolas amealham fundos para oferecer minicursos a seus docentes. Nesse sentido, há indícios de que o governo brasileiro está despertando para a problemática e iniciou um programa cujo objetivo é oferecer formação continuada para professores. Esperemos que essas iniciativas não somente se mantenham vivas, mas que se expandam e se aprofundem. Para os que se interessarem em conhecer mais sobre o assunto, o volume número cinco do Portuguese Language Journal faz um panorama desses cursos paralelos trazendo artigos escritos por acadêmicos e por membros da comunidade que fundaram e que administram essas escolas. No que diz respeito à educação universitária para falantes de herança de língua portuguesa a situação está se transformando. Infelizmente, por enquanto não há um teste chamado nos Estados Unidos de AP (advanced placement) para o português. Os APs existem para diferentes matérias do ensino secundário. Os alunos fazem cursos mais adiantados e em turmas menores e no fim do ano fazem um exame para obter um certificado que pode lhes trazer inúmeras vantagens tais como ser dispensado de algumas matérias na universidade ou ainda melhor contribuir para que o aluno seja aceito nas mais prestigiosas instituições de ensino superior. O governo português está há muitos anos tentando instituir um AP para o nosso idioma, mas até o momento não obteve sucesso. Este é um fato lamentável pois um AP é um atrativo muito grande tanto para falantes de herança do português quanto para os demais estudantes que não tem qualquer vínculo com a lusofonia. Um AP em português seria benéfico tanto para o ensino superior quanto para as escolas secundárias. Para as instituições de ensino superior seria interessante ter alunos mais avançados e para o ensino secundário haveria a vantagem dos alunos contemplarem a aprendizagem do português mais cedo. Nas universidades americanas costuma-se misturar os falantes de herança com os demais alunos. Trata-se de uma realidade não muito desejável, pois os dois grupos tendem a ter necessidades muito diferentes. Por exemplo, em geral, os falantes de herança não dominam registros mais formais, pois a exposição a eles foi mínima. Por outro lado, dominam o registro familiar, a língua do cotidiano informal. Os demais estudantes normalmente têm uma competência linguística completamente oposta. Em outras palavras, muitas vezes, por falta de convivência com falantes nativos da língua e/ou por carência de materiais autênticos, a interlíngua desses alunos fica baseada em uma língua livresca, excessivamente formal, com o risco de tornar-se artificial. O único programa a nível de graduação para falantes de herança de português nos Estados Unidos é o da Umass-Dartmouth inaugurado em 200918. Trata-se de um programa amplamente apoiado pelo governo de Portugal. 18 - SILVA, 2010. 14 Platô V. 1. N.2 2012

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TRAMANDO EM LÍNGUA PORTUGUESA: FRAGMENTOS E CONTINUIDADES Clémence M. C. Jouët-Pastré O número de falantes de herança nas universidades americanas vem crescendo anualmente por diversas razões. Há um grande contingente de segunda e terceira gerações de imigrantes portugueses já cursando o nível superior. Trata-se sobretudo de uma população cujos pais e avós imigraram dos Açores chegando aos Estados Unidos nos anos sessenta. A essa população está se juntando um grande número de brasileiros cujos pais emigraram do Brasil a partir de meados dos anos oitenta. Trata-se de jovens que, apesar de não dominarem bem o português e de desconhecerem muitos dos valores da sociedade brasileira, demonstram grande interesse pelo Brasil e reafirmam sua identidade étnica com muita energia, como nos exemplos abaixo que fazem parte de minha pesquisa atual: Basically, you want to keep alive your Brazilian heritage by learning Portuguese when you can’t speak Portuguese to the level of your English you feel almost like inferior because you can’t speak Portuguese you know like a real Brazilian you are just like kind of so if you can’t speak Portuguese it’s like you feel and you always have a desire to learn and better yourself so you can like become legitimate I suppose. [Sam - Private University] I am still a Brazilian citizen whenever I go to the Consulate I’d like not to be embarrassed by the fact that I can’t speak Portuguese. [Tim - Private University] Platô V. 1. N.2 2012 15

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