Livro IV SIAM 2012

 

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Museologia, Patrimônio, Interculturalidade: museus inclusivos, desenvolvimento e diálogo intercultural - Volume 1

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VOLUME 1 Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca do MAST SEMINÁRIO DE PESQUISA EM MUSEOLOGIA DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA E ESPANHOLA (IV SIAM)( 4. : 2013 : Rio de Janeiro) Museologia, Patrimônio, Interculturalidade: museus inclusivos, desenvolvimento e diálogo intercultural / Organização Marcus Granato e Tereza Scheiner .- Rio de Janeiro : Museu de Astronomia e Ciências Afins: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, 2013. 2v. Conteúdo: v.1. Museologia e interculturalidade: narrativas plurais: textos selecionados. v.2. Museologia, Políticas Públicas e Inclusão Social. Museus, Patrimônio, Natureza e Biodiversidade. Museus e Patrimônio Científico e Tecnológico : textos selecionados. ISBN 978-85-60069-51-4 (obra completa).—ISBN 978-85-60069- 52-1 (v.1) 1. Museologia-Reunião, 2013.2. Política – Reunião. I. Granato, Marcus II. Scheiner, Tereza. III. IV SIAM. IV. Título. CDU: 069.01   

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IV SIAM As opiniões e conceitos emitidos nesta publicação são de inteira responsabilidade de seus autores, não refletindo necessariamente o pensamento do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio. É permitida a reprodução, desde que citada a fonte e para fins não comerciais.

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IV SIAM IV Seminário de Pesquisa em Museologia dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola (IV SIAM). Museologia, Patrimônio, Interculturalidade: museus inclusivos, desenvolvimento e diálogo intercultural. Volume 1. Museologia e Interculturalidade: narrativas plurais (Textos Selecionados) Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio - PPG PMUS (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro / Museu de Astronomia e Ciências Afins) Realização • Prof. Dr. Marcus Granato (MAST), Brasil • Prof. Dra. Tereza Scheiner (UNIRIO), Brasil Organização • Prof. Dra. Alice Semedo • Prof. Dr. Luis Carlos Borges • Prof. Dr. Marcus Granato Comissão de Edição • Prof. Dr . Alda Maria Costa (Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique) • Prof. Dra. Alice Semedo (Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Portugal) • Prof. Dr. Armando Coelho Teixeira da Silva (Universidade do Porto, Portugal) • Prof. Dra. Diana Farjalla Correia Lima (PPG-PMUS/UNIRIO, Brasil) • Prof. Dra. Francisca Hernández-Hernández (Espanha) a • Prof. Dr . Heloisa Helena Gonçalves da Costa (UFBA e PPG-PMUS, Brasil) • Prof. Dr. Luiz Carlos Borges (PPG-PMUS, MAST, Brasil) • Prof. Dr. Mikel Asensio Brouard (Universidad Autónoma de Madrid, Espanha) • Prof. Dr. Marcus Granato (PPG-PMUS, MAST, Brasil) • Prof. Dra. Maria Amélia Gomes de Souza Reis (PPG-PMUS/UNIRIO, Brasil) • Prof. Dr. Marcio Rangel (PPG-PMUS, UNIRIO/MAST, Brasil) • Prof. Dra. Maria do Rosário Pinheiro (Universidade de Coimbra, Portugal) • Profa. Dr. Marilia Xavier Cury (USP, Brasil) • Prof. Dra. Marta Lourenço (Universidade de Lisboa, Portugal) • Prof. Monica Risnicoff de Gorgas (Estancia Jesuítica e Museu Virrey Liniers, Argentina) • Prof. Nelly Decarolis (ICOFOM LAM, Argentina) • Prof. Dra. Olga Nazor (Universidade de Rosário, Argentina) • Prof. Dr. Oscar Navarro Rojas (Universidade Nacional e Universidade de Costa Rica, Costa Rica) • Prof. Nelly Decarolis, Presidente Honorária ICOFOM LAM, Argentina a Comitê Científico Diagramação Bruno Correia

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SUMÁRIO

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SUMÁRIO Museologia e Interculturalidade: narrativas plurais Museu como Lugar de Torna-se: o conceito de empatia em Gilberto Freyre Gleyce Kelly Maciel Heitor; Mario de Souza Chagas Pág. 10 Museus, Fronteiras e Zonas de Contato Eurípedes G. da Cruz Junior 26 40 Paisagens Museológicas: etnografia no entremeio da rua e do Museu da Universidade Federal do Pará Rosangela Marques de Britto; Flávio Leonel Abreu da Silveira O Teatro das Artes Primeiras: processos de musealização no Museu do Quai Branly Bruno Brulon Soares 53 72 83 Narrativas Plurais sobre o Museu na Arte Flávia Klausing Gervásio; Ivan Coelho de Sá Museu e Localidade: uma construção através da arte contemporânea Anna Thereza do Valle B. de Menezes; Heloisa Helena F. Gonçalves da Costa A Memória da Arte Paranaense: uma análise sobre a criação do Museu de Arte Contemporânea do Paraná Ariane Alfonso Azambuja de Oliveira; Heloísa Helena F. Gonçalves da Costa 98 Identidade nas Coleções de Arte de Museus de Florianópolis e sua Relação com a Memória Social Aline Carmes Krüger; Lena Vania Ribeiro Pinheiro 115 O Desafio do Conservador-Restaurador diante da Arte Contemporânea Ivan Coelho de Sá; Geisa Alchorne de Souza 128 142 152 163 Museus Castro Maya: de coleção privada a museu público Denise Maria da Silva Batista; Marcio Ferreira Rangel Casa da Flor - Experimento, Poesia e Memória: um olhar museal Mario de Souza Chagas; Danielle Maia Francisco O Lugar do Passado no Presente: as narrativas dos Joanenses acerca de museu e patrimônio arqueológico, um estudo de caso na Ilha do Marajó, Pará Luzia Gomes Ferreira; Marcia Bezerra Brinquedo Musealizado: referências de identidade, interculturalidade e sociabilidade Arlete Sandra M. Alves Baubier ; Maria Amélia G. de Souza Reis 179 Musealização de Objetos Indígenas no Museu Histórico Nacional Aline Montenegro Magalhães; Mayara Manhães de Oliveira 192

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Processos de Concepção Expográfica: relações entre ambiente e expografia no primeiro módulo da exposição “Olhar o Céu, Medir a Terra” Antonio Carlos Martins; Ivo A. Almico ; Fabíola B. Angotti; Marcus Granato 208 Curadorias Compartilhadas: um estudo sobre as exposições realizadas no Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2002 a 2009) Maria Cristina Padilha Leitzke; Zita Rosane Possamai 226 O Reinado do Alto da Cruz: museologia e patrimônio Hugo Xavier Guarilha; Priscila Faulhaber Barbosa 240 256 Os Espaços de Memória nos Terreiros de Candomblé: uma reflexão sobre o Memorial de Mãe Nanã em Aracaju-Se. Janaina Couvo Teixeira Maia de Aguiar; Elizabete Mendonça O Corpo da Mulher como um Lugar de Exposição à Luz da Museologia e do Patrimônio Margarete Zacarias Tostes de Almeida; Maria Amélia Gomes de Souza Reis; Juçara Gonçalves Lima Bedim 266 Meio Ambiente na Arquitetura de Museus: integração de edifício e acervo Marina Byrro Ribeiro 279 A Cidade do Rio de Janeiro como Paisagem Cultural: harmonizando uso e conservação Helena Cunha de Uzeda 293 Patrimônio Urbano e Música Popular: narrativas plurais na cidade e no museu Luiz H. Assis Garcia 309 Perspectivas para uma Musealização das Ruínas da Igreja Inacabada na Cidade de Alagoinhas/BA Priscila Maria de Jesus; Daniel Francisco dos Santos 323 “De marginal a patrimônio imaterial”: narrativas e memória-(s) nas cantigas da capoeira soteropolitana Marcela Guedes Cabral; Arivaldo Alves de Lima 337 8

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MUSEOLOgIA E InTERcULTURALIDADE: nARRATIVAS PLURAIS

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MUSEU COMO LUGAR DE TORNA-SE: O CONCEITO DE EMPATIA EM GILBERTO FREYRE Gleyce Kelly Maciel Heitor1; Mario de Souza Chagas2 Resumo Ao abordar seus métodos e procedimentos de pesquisa e escrita, Gilberto Freyre empenhou-se, como intérprete da formação da sociedade brasileira, em ressaltar sua opção pela adoção da pluralidade de olhares e abordagens, enunciando seu pensamento a partir de múltiplos lugares. Sendo e não sendo – a seu modo – sociólogo, antropólogo, historiador, político e escritor, o autor acionou, por vezes, o conceito de empatia como pressuposto analítico. Assim como em sua narrativa a linguagem se caracteriza pela pessoalidade, que confere a seu texto – por vezes – um ritmo de diálogo marcado pela espontaneidade e intimidade com o leitor, em seus escritos sobre museus e patrimônio, publicados ao longo do século XX, veem-se articulados desejos e sugestões em torno de uma museologia integrativa e criadora, capaz de agenciar afetos e de aproximar instituição, objetos e públicos, por fazer conviver histórias distintas e representar um modo de existência, um modo de ser: regional. Apresentaremos com esta comunicação os resultados parciais da pesquisa Museu a seu modo: o museu como dispositivo de validação da Teoria Freyreana, onde, articulando a leitura dos documentos e os diálogos de Gilberto Freyre com uma rede de teóricos afins, buscamos identificar como o conceito de empatia atravessa as concepções de museu e museologia deste autor. Palavras Chave: Museu, Museologia,Gilberto Freyre, Empatia, Regionalismo. Resumen Al abordar sus métodos y procedimientos de investigación y escritura, Gilberto Freyre trató de destacar, como intérprete de la formación de la sociedad brasileña, su opción de adoptar la pluralidad de puntos de vista y enfoques, expresando sus pensamientos desde múltiples lugares. Sendo y no sendo - a su manera - un sociólogo, antropólogo, historiador, político y escritor, el autor a veces hizo uso del concepto de empatía como una condición previa de su análisis. Al igual que en su narrativa, el lenguaje se caracteriza por el personalismo, que con frecuencia da a su texto un ritmo de un diálogo marcado por la espontaneidad y la intimidad con el lector, en sus escritos sobre museos y patrimonio, publicados durante el siglo XX, se articulan deseos y sugerencias en torno a una museología integradora y creativa, capaz de hacer los agenciamientos de los afectos y aproximar institución, objetos y públicos, para hacer convivir historias distintas y representar un modo de existencia: una manera de ser regional. Se presenta en esta comunicación los resultados parciales de la investigación Museo a su manera: el museo como un dispositivo para validar la teoría freyreana, donde, articulando la lectura de los documentos y los diálogos de Gilberto Freyre con una red de teóricos relacionados, se 1 2 Possui licenciatura em História (UFPE) e é Mestre em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST). Museólogo (UNIRIO), com Licenciatura em Ciências (UERJ), mestre em Memória Social (UNIRIO) e doutor em Ciências Sociais (UERJ). Atualmente é técnico em assuntos culturais do IBRAM e professor adjunto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro; é professor do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio (UNIRIO/MAST) e do Programa de Pós-Graduação em memória Social (UNIRIO). 10

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busca identificar cómo el concepto de empatía atravesa las concepciones de este autor acerca de lo museo y de la museología. Palabras clave: Museo, Museología, Gilberto Freyre, Empatía, Regionalismo. Abstract When approaching his methods and procedures of research and writing, Gilberto Freyre endeavored, as an interpreter of the formation of Brazilian society, to emphasize its option to adopt the plurality of views and approaches, expressing his thoughts from multiple places. Being and not being - in his own way - a sociologist, anthropologist, historian, politician and writer, the author sometimes used the concept of empathy as a precondition for analysis. Language in his narrative is characterized by personalism, that frequently gives to his text an aspect of dialogue marked by spontaneity and intimacy with the reader. Likewise, in his writings on museums and heritage, published during the twentieth century, he melts desires and suggestions of a creative museology, able to produce ‘agency’ for afects and to approximate institution, public and objects. His aim is to let cohabitate different histories and to represent a type of existence: a regional way of being. We present in this communication the partial results of the research Museu a seu modo: o museu como dispositivo de validação da Teoria Freyreana (Museum in its own way: the museum as a legitimation device of freyrean theory), where we seek to identify how the concept of empathy spans his conceptions of museum and museology, articulating the reading of documents and the dialogues of Gilberto Freyre on a network of related scholars. Keyword: Museum, Museology. Gilberto Freyre, Empathy, Regionalism. 1. Museu como Lugar de Tornar-se Compreender não é mais, então, um modo de conhecimento, mas um modo de ser, o modo desse ser que existe compreendendo (RICOUER, 1978, p.10). Ao abordar seus métodos e procedimentos de pesquisa e escrita, Gilberto Freyre empenhou-se, como intérprete da formação da sociedade brasileira, em ressaltar sua opção pela adoção da pluralidade de olhares e abordagens, enunciando seu pensamento a partir de múltiplos lugares. Sendo e não sendo – a seu modo – sociólogo, antropólogo, historiador, político e escritor, o autor acionou, por vezes, o conceito de empatia como pressuposto analítico. Assim como em sua narrativa a linguagem se caracteriza pela pessoalidade, que confere a seu texto um ritmo de diálogo marcado pela espontaneidade e intimidade com o leitor, em seus escritos sobre museus e patrimônio, publicados ao longo do século XX, veem-se articulados desejos e sugestões em torno de uma museologia integrativa e criadora, capaz de agenciar afetos e de aproximar instituição, objetos e públicos. 11

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Nesse sentido, não cabia em Freyre o extremo adotado por Manuel Bandeira, que ao evocar o Recife de sua infância, vivida na Rua da União entre brincadeiras de ruas e conversas nas calçadas, negou o Recife “da Mauristsstad dos armadores das índias ocidentais” 3, ao contrário, o caráter integrativo do museu freyreano se define por seu anseio em fazer conviver empaticamente “panelas de barro, facas de ponta, cachimbo de matutos, sandálias de sertanejos, miniaturas de almanjarras, figuras de cerâmicas, bonecas de pano, carros de boi e relíquias de heróis de guerras e mártires de revoluções gloriosas” (CHAGAS, 2009, p.130). O museu é espaço de comunhão de objetos-símbolos (FREYRE, 1984 a), que por serem emblemas de uma cultura, possuem valor por sua capacidade em produzir e reproduzir em seus mais variados aspectos, um modo de ser: regional e enraizado em um passado comum. No entanto, qual a compreensão de Freyre, de empatia? E como tal conceito encontra-se em suas formulações sobre os museus? Buscaremos neste capítulo arrolar momentos dedicados pelo autor à definição de empatia como prática interpretativa, articulando a leitura dos documentos e os diálogos de Gilberto Freyre com uma rede de teóricos afins, buscamos identificar como tal conceito atravessa as concepções de museu e museologia desse autor. 1.1 De como compreender, sendo No livro Como e porque sou e não sou sociólogo (1968), texto onde Gilberto Freyre realiza um balanço de sua obra traçando uma série de reflexões sobre o lugar de sua escrita entre a história, a antropologia e a sociologia e onde estão elencados seus principais interlocutores, encontramos uma passagem onde o autor “louvava-se por haver introduzido na língua portuguesa a palavra empatia” (LIMA, 2008. p 34), que teria buscado no léxico grego 4, e que em seu pensamento tornara-se método, ao qual ele recorria como analista social cuja prática caracterizava-se pela capacidade de “ver-se um indivíduo em outros e de ver outros em si mesmo, em uma perspectiva tanto de dentro para fora como de fora para dentro” (FREYRE, 1968.). Compreende assim o autor, que: Referência ao poema Evocação do Recife, escrito por Manuel Bandeira sob encomenda de Gilberto Freyre, que foi publicado pela primeira vez em 1925 no Livro do Nordeste. 4 Empatia: Etimologicamente, "dentro da emoção", "junto com a emoção". Psicologicamente, identificação emocional da pessoa com indivíduos ou coisas percebidas. O radical da palavra empatia é pathos, termo grego com que designa a qualidade que excita a emoção. Difere da simpatia ou "união das emoções", da antipatia "oposição das emoções" e da apatia "ausência de emoções". Constitui-se como a capacidade que possuímos de penetrar a personalidade alheia para obtermos uma previsão, uma antecipação, uma avaliação o mais seguro possível das suas reações. Texto adaptado de: EDIPE – Enciclopédia Didática de Informação e Pesquisa Educacional. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987. 3 12

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sem empatia, não é possível o estudo do passado assim amplo e intenso a um tempo, social e pessoal. Estudo que nos transmita do passado humano um pouco do que nele foi valor vivo, símbolo vivido; ou existência, vivência, experiência, condicionada por valores e símbolos (Idem, 1959, p.XXXIII.). E afirma, ainda, ter recorrido à perspectiva empática na escrita de Casa grande & senzala (1933), obra que juntamente com Sobrados e mucambos(1936) e Ordem e progresso(1959) compõe uma trilogia centrada na análise da formação da sociedade patriarcal brasileira e da identidade nacional, sendo um estudo onde teria buscado distender-se em personalidades complementares a sua, tendo levado esse desdobramento de personalidade ao extremo arriscado, perigoso, mesmo, desdobrando sua personalidade de origem étnico-cultural e de formação sociocultural, além de principalmente européias, principalmente senhoris, procurar sentir-se também, em seus antecedentes e no seu próprio ethos, não só senhoril como servil; não só europeu como não-europeu; ou especificamente indígena, mouro, judeu, negro, africano, e, mais do que isto: mulher, menino, escravo, oprimido, explorado, abusado, no seu ethos e no seu status, por patriarcas e por senhores (Idem, 1968). Nesse sentido, Gilberto Freyre estabelece um diálogo com as discussões em torno da interpretação, iniciadas no fim do século XVIII, e que deram base aos debates hermenêuticos dos séculos posteriores, especialmente na corrente denominada historicista, onde o postulado da empatia – como instrumento imprescindível ao conhecimento científico do social – se fez presente tanto no âmbito da história geral como no da história literária pela defesa de uma identidade entre sujeito e objeto de conhecimento. Pressuposto que teve em Wiliam Dilthey (1833-1911) um de seus principais pensadores, sobretudo por seu projeto inicial de introduzir a psicologia como base para uma metodologia das ciências humanas, em busca de suas especificidades e no esforço por diferenciá-las das ciências naturais, objetivo que esteve presente em suas primeiras formulações e que foi revisto – posteriormente – pelo pensador, que passou a reconhecer os enraizamentos das relações do indivíduo com o mundo a partir de um horizonte social e cultural, alicerçando assim a análise das ciências humanas na relação entre vivência, expressão e compreensão, conferindo à noção de compreensão, maior relevância. Se a vida social e cultural se constitui a partir de vivências individuais, compreende-se o método da empatia como aquele a partir do qual é possível recriar a situação interpretada, a partir de analogias com as próprias experiências do intérprete, sendo assim “a vida como ponto de partida e contexto duradouro fornece o primeiro aspecto básico da estrutura dos estudos humanos, pois estes repousam na experiência, 13

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na compreensão e no conhecimento da vida” (DILTHEY, 1976. p. 183; apud ALEXANDER, 1999, p.49). Desse modo, o pensamento de Dilthey se inscreve no esforço por tornar a hermenêutica o lugar onde, segundo Ricouer: toda interpretação se propõe a vencer uma distância, entre a época cultural revoluta, à qual pertence o texto, e o próprio intérprete. Ao superar essa distância, ao tornar-se contemporâneo do texto, o exegeta pode apropriar-se do sentido: de estranho, pretende torná-lo próprio, quer dizer, fazê-lo seu. Portanto, o que ele persegue, através da compreensão do outro, é a ampliação da própria compreensão de si mesmo (1978.p.18). As principais críticas ao historicismo, no entanto, consistem na afirmação de que seus autores almejariam não só entender os acontecimentos passados tal como “realmente ocorreram” como acreditavam estar aptos, através do método da empatia – livrando-se dos condicionamentos de seu presente – a compreendê-los como se os tivesse vivenciado, tal como se operassem um retorno às origens. Tal qual objetivava Freyre, quando afirma não ser suficiente, para a interpretação de uma época, que [...] o analista dela, desdobrado em intérprete, familiarizar-se com o que no seu decorrer foram fatos; ou apenas valores-coisas. É preciso que ele se torne quanto possível íntimo das relações entre essas pessoas e esses valores; entre as pessoas e os valores imateriais; entre as pessoas e os símbolos mais característicos da época [...]. (FREYRE, 1959, p. XXXII) Porém, é inegável que ao apontar a empatia como chave de interpretação da formação da sociedade brasileira o autor adjetiva como “método empático” um olhar que se forma a partir de múltiplas referências que extrapolam uma adesão a uma única corrente de pensamento. Assim, se percebemos sua escrita em diálogo com o historicismo, não podemos deixar de pontuar seu interesse por outras abordagens, a saber, o perspectivismo, onde conecta-se com o filósofo espanhol José de Ortega y Gasset (1883-1955) de quem, segundo Elide Rugai Bastos (BASTOS, 1998), recebe influências na elaboração de sua noção de social, fundada, ainda conforme a autora, na discussão sobre as relações entre o eu e o outro, sendo os limites do conhecimento de nosso próprio eu um elemento instaurador da percepção do mundo do outro. Assim, uma das principais marcas da trajetória freyreana, consiste na busca do autor – entre trânsitos e ambiguidades – por não vincular-se a uma corrente de pensamento específica, sendo muito difícil – como bem pontuou Darcy Ribeiro – “generalizar sobre Gilberto” (RIBEIRO, 2011, p. 15), que se qualificou por vezes como adepto a uma metodologia miscigenada (FREYRE, 1968). Miscigenada pelo desejo de criação de um método brasileiro para a leitura da formação dessa sociedade e por sua 14

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disposição por assimilar e apropriar-se de inúmeras ideias com as quais formou seus pressupostos analíticos. Razão pela qual podemos encontrar em seus escritos o recurso e a defesa da intuição, da criação e da invenção na narrativa histórica, conforme testemunha o autor, quando afirma ter sentido que: precisava achar caminhos pelos quais fosse possível a brasileiros procurarem chegar a uma nova consciência do que fosse sua cultura nacional. A objetivamente histórica pareceu-me, então, insuficiente. O que se impunha – intui, nesses dias – era um substituto socioantropológico em que a ciência fosse completada por arrojos criativamente autênticos, antes artísticos que estritamente cientifico (Idem, 1984a). Sendo o afã por vencer a distância entre pesquisador e objeto de pesquisa, e o recurso à intimidade e à reconstrução da história, assim como a ênfase na vivência e na defesa de que a história se constrói a partir de múltiplos pontos de vistas, abundantes na narrativa freyreana. O autor, ao centrar-se na análise da vida cotidiana opera um método singular ao fundir experiências pessoais com memórias coletivas, e aventurando-se em inventariar os saberes e fazeres, sugere ser a cultura composta de práticas sociais repletas de sentimentos, sensorialidade e ludicidade. Conforme aponta Albuquerque Júnior, ao situar que interpretar o Brasil, para Freyre, não é uma atividade de distanciamento crítico em relação a ele, mas uma atividade de imersão sensível e racional em sua realidade, um deixar-se misturar e impactar por ele, é experimentar não só um esforço de intelecção, mas um exercício de sensibilidade e imaginação. Apanhar o significado da história nacional não se fazia apenas através de uma atividade científica, mas também através de uma atitude poética, de abrir os sentidos para sentir o país, de se deixar tomar, invadir pelas emoções, pelos afetos que suas paisagens, que suas gentes, que sua história eram capazes de produzir. (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2008.) A empatia, por sua vez, está em sua obra não só como método compreensivo, mas como estratégia de recepção, uma vez que sua narrativa busca também o envolvimento do leitor, a fim de que este possa compreender o fenômeno narrado, como no texto de Casa grande e senzala (1933), cujo ponto de partida são experiências pessoais e as memórias mais íntimas do autor, a partir das quais Freyre deseja recompor, sistematizar uma história repleta de personagens, que ele vai ao longo do texto, assumindo plasticamente, e na busca por harmonizar os contrários, se desdobra no menino, no negro, na mulher, no homem, no efeminado (FREYRE, 1968). Com base nessa estratégia, o museu idealizado pelo autor se apresenta como um espaço de experiência com o projeto regionalista, articulação social e discursiva da qual Gilberto 15

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