Livro IV SIAM 2012

 

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Museologia, Patrimônio, Interculturalidade: museus inclusivos, desenvolvimento e diálogo intercultural - Volume 2

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VOLUME 1 Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca do MAST SEMINÁRIO DE PESQUISA EM MUSEOLOGIA DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA E ESPANHOLA (IV SIAM)( 4. : 2013 : Rio de Janeiro) Museologia, Patrimônio, Interculturalidade: museus inclusivos, desenvolvimento e diálogo intercultural / Organização Marcus Granato e Tereza Scheiner .- Rio de Janeiro : Museu de Astronomia e Ciências Afins: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, 2013. 2v. Conteúdo: v.1. Museologia e interculturalidade: narrativas plurais: textos selecionados. v.2. Museologia, Políticas Públicas e Inclusão Social. Museus, Patrimônio, Natureza e Biodiversidade. Museus e Patrimônio Científico e Tecnológico : textos selecionados. ISBN 978-85-60069-51-4 (obra completa).—ISBN 978-85-60069- 52-1 (v.1) 1. Museologia-Reunião, 2013.2. Política – Reunião. I. Granato, Marcus II. Scheiner, Tereza. III. IV SIAM. IV. Título. CDU: 069.01    Ficha catalográfica elaborada pela biblioteca do MAST SEMINÁRIO DE PESQUISA EM MUSEOLOGIA DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA E ESPANHOLA (IV SIAM)( 4. : 2013 : Rio de Janeiro) Museologia, Patrimônio, Interculturalidade: museus inclusivos, desenvolvimento e diálogo intercultural / Organização Marcus Granato e Tereza Scheiner .- Rio de Janeiro : Museu de Astronomia e Ciências Afins: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, 2013. 2v. Conteúdo: v.1. Museologia e interculturalidade: narrativas plurais: textos selecionados. v.2. Museologia, Políticas Públicas e Inclusão Social. Museus, Patrimônio, Natureza e Biodiversidade. Museus e Patrimônio Científico e Tecnológico : textos selecionados. ISBN 978-85-60069-51-4 (obra completa).—ISBN 978-85-60069- 53-8 (v.2) 1. Museologia-Reunião, 2013.2. Política – Reunião. I. Granato, Marcus II. Scheiner, Tereza. III. IV SIAM. IV. Título. CDU: 069.01  

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IV SIAM As opiniões e conceitos emitidos nesta publicação são de inteira responsabilidade de seus autores, não refletindo necessariamente o pensamento do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio. É permitida a reprodução, desde que citada a fonte e para fins não comerciais.

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IV SIAM IV Seminário de Pesquisa em Museologia dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola (IV SIAM). Museologia, Patrimônio, Interculturalidade: museus inclusivos, desenvolvimento e diálogo intercultural. Volume 2. Museologia, Políticas Públicas e Inclusão Social. Museus, Patrimônio, Natureza e Biodiversidade. Museus e Patrimônio Científico e Tecnológico. (Textos Selecionados) Realização Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio - PPG PMUS (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro / Museu de Astronomia e Ciências Afins) • Prof. Dr. Marcus Granato (MAST), Brasil • Prof. Dra. Tereza Scheiner (UNIRIO), Brasil Organização • Prof. Dra. Alice Semedo • Prof. Dr. Luis Carlos Borges • Prof. Dr. Marcus Granato Comissão de Edição • Prof. Dr. Alda Maria Costa (Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique) • Prof. Dr. Alice Semedo (Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Portugal) • Prof. Dr. Armando Coelho Teixeira da Silva (Universidade do Porto, Portugal) • Prof. Dr. Diana Farjalla Correia Lima (PPG-PMUS/UNIRIO, Brasil) • Prof. Dr. Francisca Hernández-Hernández (Espanha) • Prof. Dr. Heloisa Helena Gonçalves da Costa (UFBA e PPG-PMUS, Brasil) • Prof. Dr. Luiz Carlos Borges (PPG-PMUS, MAST, Brasil) • Prof. Dr. Mikel Asensio Brouard (Universidad Autónoma de Madrid, Espanha) • Prof. Dr. Marcus Granato (PPG-PMUS, MAST, Brasil) • Prof. Dr. Maria Amélia Gomes de Souza Reis (PPG-PMUS/UNIRIO, Brasil) • Prof. Dr. Marcio Rangel (PPG-PMUS, UNIRIO/MAST, Brasil) • Prof. Dr. Maria do Rosário Pinheiro (Universidade de Coimbra, Portugal) • Prof. Dr. Marilia Xavier Cury (USP, Brasil) • Prof. Dr. Marta Lourenço (Universidade de Lisboa, Portugal) • Prof. Monica Risnicoff de Gorgas (Estancia Jesuítica e Museu Virrey Liniers, Argentina) • Prof. Nelly Decarolis (ICOFOM LAM, Argentina) • Prof. Dr. Olga Nazor (Universidade de Rosário, Argentina) • Prof. Dr. Oscar Navarro Rojas (Universidade Nacional e Universidade de Costa Rica, Costa Rica) Comitê Científico Diagramação Bruno Correia

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SUMÁRIO

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SUMÁRIO Museologia, Políticas Públicas e Inclusão Social O Museu na América Latina num contexto de mudanças Nilson A. Moraes Discursos e Práticas na (Re) Organização da Museologia Portuguesa no Início do Séc. XX Joana Baião O Estatuto de Museus e a Política Pública Federal na Perspectiva da Inclusão Social Gilson Antônio Nunes; Ana Cristina Audebert Ramos de Oliveira Un Museo Sin Paredes: el Museo Itinerante San Benito y su acción cultural en las comunidades Régulo Rincón; Vanessa Casanova A Formação Histórica do Acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro: da Pinacoteca da Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) ao MNBA Carlos Henrique Gomes da Silva; Lena Vania Ribeiro Pinheiro Informação Especial no Museu Inclusivo e Pessoa com Deficiência Visual: áudiodescrição – tradução visual Diana Farjalla Correia Lima; Ana Fátima Berquó Carneiro Ferreira Um Museu de Cidade: imaginário, debate museológico e o caso de Juiz de Fora Luciana Scanapieco; Nilson Alves de Moraes A Coleção Luíza Ramos na Construção da Imagem do Nordeste Márcia Pereira de Oliveira; Nilson Moraes Cultura e Inclusão Social no Museu do Marajó PE. Giovanni Gallo Karla Cristina Damasceno de Oliveira; Luiz Carlos Borges O Valor do Negro: as políticas de patrimônio e as memórias negras no Brasil Marcos Uchoa da Silva Passos; Priscila Faulhaber Barbosa A Arquitetura dos Lugares de Memória da Cidade de Petrópolis Cêça Guimaraens; Luiz Manoel Gazzaneo; Ana Albano Amora; Mauricio Castilho Museología, Políticas Públicas e Inclusión Social En El Ecuador Lucía Astudillo Loor “O caráter educativo dos museus”: apontamentos a partir de documentos escritos a partir de documentos escritos por Nair de Moraes Carvalho, em meados do séc. XX Ana Carolina Gelmini de Faria Museus, Patrimônio, Natureza e Biodiversidade Da Memória ao Arquivo: proposições sobre o patrimônio genético Alexandro Silva de Jesus A Musealização Áreas Naturais: o estudo de caso do Parque Nacional da Tijuca Elisama Beliani; Tereza Scheiner 190 179 167 160 148 133 119 104 89 78 60 48 38 25 Pág. 10 7

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Notas Sobre a Criação do Museu de História Natural e o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra: Iluminismo, Ciências Naturais, Viajantes e Império em Coimbra no séc. XVIII Julio Cézar Chaves Museus e Patrimônio Científico e Tecnológico Patrimônio Científico Brasileiro: inventário nacional de conjuntos de objetos Marcus Granato; Elias da Silva Maia; Fernanda Pires Santos; Gloria Gelmini de Castro; Mariana Silveira Damasceno Legislação de Proteção ao Patrimônio Cultural de Ciências e Tecnologia: análise e proposições Marcus Granato; Pedro Louvain Museu de Ciência: o diálogo com as diferenças Silvilene de Barros R. Morais; Mônica Pereira dos Santos As Coleções de Ciência e Tecnologia: contribuições dos estudos antropológicos Cláudia Penha dos Santos; Marcus Granato Cronômetros, Palmeiras e Chimpanzés: o objeto musealizado como ‘documento por atribuição’ Maria Lucia de Niemeyer Matheus Loureiro; Flávia Braga Araújo da Silva; Mariane Aparecida do Nascimento Vieira A Musealização do Meteorito de Bendegó do Museu Nacional/UFRJ como Representação da Idéia de Nação Sabrina Damasceno Silva; José Mauro Matheus Loureiro Museus de Ciência e Tecnologia (C&T) da Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF: aspectos das coleções Patricia Muniz Mendes; Marcio Ferreira Rangel Musealização e Educação: a construção conceitual para o Centro de Memória do Colégio Estadual Ramon Vieira Santos; Nathalia Larsen Museus Escolares no Brasil e o Desejo de Memória Vânia Maria Siqueira Alves; Maria Amélia Gomes de Souza Reis Museu do Instituto Benjamim Constant: trajetória de formação e perspectivas Débora de Almeida Rodrigues; Marcus Granato Reflexão sobre a interação dos Atores Sociais com o Patrimônio através da Experiência do Parque Paleontológico de São José de Itaboraí/RJ Aline Rocha de Souza F. de Castro; Deusana Maria da Costa Machado As Narrativas do Público do Museu de Artes e Ofícios sob a Perspectiva do Pensamento Latino Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade (PLACTS): da curiosidade epistemológica às epistemologias do sul Renata da Silva Monteiro; Maria Auxiliadora Delgado Machado Patrimonialização de Remanescentes da Industrialização: reflexões e estudos de caso Cláudia Machado Ribeiro; Marcus Granato 205 219 234 250 267 281 294 307 319 332 342 356 370 383 8

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MuSeologia, PolíTiCaS PúbliCaS e INcLUSãO SOcIAL

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O MUSEU NA AMÉRICA LATINA NUM CONTEXTO DE MUDANÇAS Nilson A. Moraes 1 Resumo Nossa pesquisa enfatiza três movimentos em que os Estados ocupam papéis centrais na América Latina. A Mesa Redonda de Santiago do Chile, em 1972, que destacou os museus no mundo contemporâneo e sua contribuição para a educação e o desenvolvimento social; a proposta do “Decenio Mundial para el Desarrollo Cultural 19881997” da UNESCO, sobre a necessidade de “fomentar o cultural como ferramenta para o progresso social dos povos”; e a proposta liderada pelo IBERMUSEUS em que a sociedade civil, instituições internacionais e profissionais do campo propõem transformar o período 2012-2022 em “Década dos Museus”, destaca o papel do Estado, da sociedade e do campo museológico na definição de políticas públicas para o setor. Palavras-Chave: Museu; Museologia, Estados; Políticas Públicas; América Latina Resumen Nuestra investigación hace enfatiza tres movimientos en los que los Estados comparten los roles centrales, en la de América Latina. La Mesa Redonda de Santiago de Chile, en 1972, que puso de en relieve a los museos en el mundo contemporáneo y [destacó] su contribución al hacia el desarrollo social y de la educación; la propuesta a la UNESCO de un "Decenio Mundial del Desarrollo Cultural, 1988-1997" el Cultura" UNESCO, en que pusiera en relieve la necesidad de "fomentar a la cultura como una herramienta para el progreso social de los pueblos"; y la propuesta liderada por IBERMUSEUS de dónde la sociedad civil, las instituciones internacionales y los profesionales en el del campo de proponer proponen transformar inflexión en el período 2012-2022 en un "Decenio de los Museos", poniendo en de relieve el papel rol del Estado, la sociedad y el campo de los museos en la definición de políticas públicas para el sector. Palabras clave: Museo; Museología; Estados; Políticas Públicas en América Latina Abstract Our research emphasizes three movements in which States occupy central roles in Latin America. The Roundtable of Santiago, Chile, in 1972, which highlighted the role of museums in the contemporary world and its their contribution to education and to social development; the proposal of a UNESCO "World Decade for Cultural Development 1988-1997" (“Decenio Mundial para el Desarrollo Cultural 1988-1997”) to UNESCO, on the need to "foster culture as a tool for social progress of the peoples"; and the proposal led by IBERMUSEUS, in which civil society and international and professional institutions on the field propose turning the period 2012-2022 into a "Decade of Museums", highlighting the role of the State, society and the museum field in the definition of public policies for the sector. Keywords: Museum; Museology; States; Public Policies; Latin America Cientista Social e Professor Associado da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio 1                                                                                                                         10

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1. Reflexões Iniciais Os museus nos anos pós-1960, em todo o ocidente, produziram uma centralidade em relação ao mundo da cultura. Esta centralidade não diz respeito apenas às massas que recorrem à instituição em busca do lazer, da emoção e da informação, sua importância é também política e cultural. A ideia de casa do passado, de lugar de guarda, conservação e exposição se modificaram. O museu é um lugar de encontros e de produção de sentidos (Moraes, 2012), para a criação, a comunicação e a produção de conhecimento. No Brasil, o Cadastro Nacional de Museus (CNM) aponta a existência de mais de 3.000 instituições de diferentes tipologias: arqueologia, história, etnografia, ciência e tecnologia, belas artes, biográficos, museus de sítio, ecomuseus. Museus públicos e privados disputando e convivem com públicos específicos. Este cenário não é especificidade do Brasil, ele envolve diferentes países da América Latina suscitando –inclusive- políticas públicas de Estado. A presença ativa da sociedade civil na defesa e promoção de políticas culturais produziu um novo eixo e relações entre museologia, patrimônio e cidadania. A cultura foi convidada a repensar e produzir códigos e valores culturais assumindo uma dimensão política. Política no sentido de coletiva e cidadã, articulando, defendendo e integrando o processo de promoção das identidades e da cidadania, contribuindo para a solidariedade e as relações sociais. Isto é, além de introduzir novos temas o museu considera outros atores sociais. Pluralidade é a ideia que percorre os estudiosos da cultura na América Latina. Ela reúne diferentes traços e presenças. O museu era, até a segunda metade do século XX, o lugar de uma prática e de um saber que se apresentava como exposição como parte do projeto de Estado ou de educação sem contribuir com uma crítica destes saberes, apenas uma trajetória ou discurso. A historiografia herdada da tradição europeia enfatiza a presença de indígenas, europeus e africanos, a realidade é mais complexa e mais tensa. Além de a região receber e concentrar estas populações e os elementos matérias e simbólicos destas populações ela produziu novos cruzamentos e elementos simbólicos e relacionais refletindo a abundância natural e a criatividade humana envolvida. O nosso texto é parte de reflexões desenvolvidas pela pesquisa encerrada, em dezembro de 2012, tendo como objeto as políticas públicas para o museu no último decênio. A tomada da América Latina como objeto de análise revela que existe um profundo nexo entre o processo brasileiro e o processo em curso na América Latina. Um modelo relacional em crise, uma profunda mudança social e simbólica. 11

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2. A América Latina A América Latina como idéia única é uma impossibilidade histórica, cultural e social, o mesmo pode ser afirmado com relação ao museu e a museologia na América Latina. Nesta região a pluralidade, a diferença e as tensões -tanto na sociedade como no campo museológico- são marcas estruturantes ou fundantes. A América Latina, para os estudiosos, militantes e artistas produziu diversos movimentos intelectuais e culturais que –diante da alarmante conjuntura- reclamam uma profunda e sistemática revisão teóricometodológica e de reflexões científicas herdadas da uma tradição intelectual que se constitui no século XVIII na Europa. Nas últimas décadas as ciências sociais e as ciências humanas constataram a necessidade urgente em repensar seus saberes, teorias e metodologias de análise sobre a América Latina. As tensas e aceleradas mudanças estruturais em curso na América Latina, em especial desde os anos 1950, são observadas e objeto de diferentes respostas pelo campo do museu, do patrimônio, dos produtores culturais e pela sociedade. A busca estatal de fazer esquecer e condenar o empenho social e de instituições comprometidas com o processo de comunicação, informação e produção da democracia ajudam a retomar a memória e a história das sociedades da região na luta contra o processo de destruição ou de ressignificação e mercantilização dos patrimônios e das culturas regionais promovendo –organizadamente ou não- resistência e estratégias diferentes de lutas. Ao final do século XX não era mais permitido desconsiderar a existência da América Latina. Os intelectuais, artistas, militantes sociais e o próprio circuito comercial traziam à tona o desafio de identidades e de mercados que se renovam e exigem participar das definições que dizem respeito ao desenvolvimento regional. A sociedade e as instituições da sociedade civil produzem e reagem de maneira distinta a diferentes e contraditórios interesses sociais, simbólicos e materiais que varrem a região empenhados, que estão, em produzir dominação, controle e submissão. No início do século XXI algumas tendências foram modificadas, mudanças são viabilizadas e ideias desconsideradas como democracia, participação e controle social são consideradas. A América Latina permitiu a existência de reflexões científicas e movimentos intelectuais que reclamam uma revisão teórico-metodológica. Não se trata só de pensar, mas pensar criticamente. As ciências sociais e as ciências humanas buscam, desde a segunda metade do século XX, novos temas, objetos e diálogos permanentes com o museu e seu campo de reflexões acadêmicas. 12

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A partir dos anos 1960, em especial nos países do ocidente, a questão da cultura revela e passa a exigir diferentes e tensas confluências entre as Ciências Sociais, as Ciências Humanas e as reflexões sobre Museu, num diálogo que tem se intensificado. Tais relações e complexidade resulta inclusive nas críticas à sociedade “do espetáculo”, da “indústria cultural”, do “entretenimento” pelo uso intenso de novas tecnologias, processos informacionais e comunicacionais e pelas ações e políticas públicas implementadas. As ciências sociais, as Ciências Humanas e a museologia são produtos científicos e institucionais da razão iluminista, entre eles é possível a existência e o estabelecimento de “empréstimos recíprocos”. As mudanças nos métodos, teorias e objetos provoca e invoca o status epistemológico de seus objetos. A crítica arrasadora que as instituições e o conhecimento científico provocaram nos anos 1960 foi impactante. Nada foi poupado da desconfiança, da suspeição de legitimidade e da revelação de interesses não explicitados. O museu, anteriormente, um lugar de silêncio e de admiração revela as diversas vozes e versões que estavam silenciadas ou omitidas. A museologia e o museu exigem um vigoroso saber especializado, se transformou na fustigação crítica e se constitui sob o império das disputas entre disciplinas científicas e demandas da sociedade. Neste contexto a museologia e o museu se vêem fustigados pelo compromisso e anseio de sua comunidade em deixar de ser área de síntese de saberes e práticas importadas de outras disciplinas, um conjunto de técnicas de exposição dissociando a sua existência de um campo ou lógica passiva e pouco comprometida com o seu contexto e passa a se exigir, como um ator privilegiado de um processo, uma ação reflexiva e parte de campo do conhecimento, como elementos constitutivos, significantes, estruturantes e estruturadores de mudanças que expressam disputas sociais e culturais que não comportam controles ou convivem com fronteiras físicas, sociais, tecnológicas e culturais. A cultura na América Latina empolga, mobiliza e envolve intelectuais, artistas, militantes sociais, cientistas e políticos num vigoroso debate. Na verdade, a América Latina, como invenção intelectual e tema de análise, desde o século XIX é motivação de diferentes esforços de compreensão e de transformação social. Trata-se de um desafio que afirma e marca a identidade regional e as dificuldades de análise, qualquer que seja a tradição intelectual ou projeto que exige este empreendimento, qualquer que seja a influência ou o objetivo esperado. Compromissados e herdeiros de tradições positivistas, marxistas, estruturalistas e pós-modernas encontram limites e armadilhas na imposição 13

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de seus objetivos e de suas capacidades de perceber a realidade. O único consenso existente aponta a diversidade e da pluralidade. 3. A América Latina como Tema de Diferentes Desafios A virada para o século XXI na América Latina, com a chegada aos governos, por vias eleitorais, de lideranças populares comprometidas com algumas demandas da sociedade e com o processo democrático, não expressam consenso ou desejo de todos os segmentos da sociedade. A idéia de democracia, justiça e direitos são valores e podem ser estratégias discursivas, mais que compromissos sociais. Eles podem contrariar interesses ao garantir a adoção de políticas que produzem mínimas mudanças na qualidade de vida das populações do continente. Alguns grupos sociais resistem em produzir melhor redistribuição da riqueza e dos equipamentos sociais. Observamos que melhorias e mudanças necessariamente não modificam substancialmente a qualidade de vida, mas que enchem de entusiasmo populações que viveram excluídas dos benefícios sociais e mesmo do reconhecimento social e estatal. Na América Latina a busca de uma sociedade eqüitativa, moderna e integrada parece dar os primeiros passos. As mudanças sociais devem ser encaradas com os cuidados e resistências que estas mudanças mínimas provocam, estimulam resistências políticas e ideológicas; e a garantia da continuidade do processo democrático e universalizante dependem da capacidade de mobilização e organização das instituições sociais e da sociedade civil que reclama por estas demandas. A democracia, justiça e direitos não são necessariamente desejos ou garantias universais de Direitos. Não produzem consenso em sociedades autoritárias, excludentes e concentradoras de poderes e privilégios (Moraes, 2011). A produção de políticas públicas e, em especial, de cultura é um desafio conjuntural para o Brasil e países da América Latina. A existência de uma política pública não remete ao seu imediato, a sua execução. Isto significa outro ou mais um complexo processo de disputas sociais. Isto é, além de existir, deve ser considerado para quem e como se faz a política reconhecida e pactuada. Estudar as políticas públicas na América Latina é defrontar-se com o processo de produção, organização e distribuição de bens culturais excessos e de grandes demandas sociais, em sociedades centradas na exclusão social e na concentração de privilégios e poderes que atingiu seu apogeu ao longo do século XX. O modelo histórico de desenvolvimento adotado transformou o continente em cenário de diferentes tragédias e 14

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experimentos históricos que foram violentamente acelerados, na última década do século, pelos infamantes e trágicos experimentos neoliberais. Experimentos que confundem alguns analistas, principalmente intelectuais e militantes sociais europeus e norte-americanos que, por não conhecerem a História do continente e seus impactos para as populações locais, por vezes se surpreendem com a importância que o tema das políticas públicas assume nos países da América Latina (MORAES, 2008). Os gestores dos processos econômicos e políticos fazem com que eles estejam voltados numa mesma direção. Enquanto os Estados Unidos, ao final dos anos 1990, produzem uma hegemonia política e militar, cresce e consolida-se a fragmentação e desconcentração do capital num longo ciclo recessivo. A coerência do projeto e de seu discurso são maiores que a sua possibilidade de impor sem resistências. Uma recessão agravada pela redução do meio circulante, pela superação pelo capital financeiro especulativo de um modelo regulador, conhecido como keynesiano ou de prevalência do estado de bem-estar social, responsável pela desregulação das economias e imposição das teses de livre mercado. Estudar o Brasil e os demais países do continente, em especial quanto às políticas públicas adotadas, não é um esforço intelectual simples: as teorias e as metodologias, produzidas para pensar outras realidades e interesses, se mostram incapazes de perceber os traços regionais e conjunturais. As relações e alianças, os acontecimentos do cotidiano e das estruturas sociais produzem armadilhas e pegam de surpresa os analistas. Fiori (2009) acredita que o processo denominado de globalização econômica não é recente e não traduz o fim das economias nacionais. Ao contrário, a globalização econômica resultaria da expansão dos “Estados-economias nacionais”, quando impõem seu poder sobre um território econômico supranacional. Pela natureza concentradora, esta dominação será crescentemente mais ampla. Segundo Fiori, os sistemáticos fracassos político-militares norte-americanos do início do século XXI, e a crise econômica mundial não apontam para o fim do “regime de produção capitalista”, nem mesmo para uma possível “sucessão chinesa” como nação hegemônica. Para Fiori, esta “explosão expansiva” do sistema inter-estatal capitalista, e uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências, deverá ser intensificada. Portanto, não existiria nenhuma novidade significativa neste processo. Fiori compreende que, nos anos iniciais do século XXI, a situação política mudou na América Latina. Segundo o autor, os partidos e coalizões políticas de bases nacionais, fundados em teses desenvolvimentistas e inspirações sociais vagamente socialistas, 15

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