Revista Mediação - Edição 24

 

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Description

Uma revista educacional do Colégio Medianeira

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expediente Diretor Pe. Rui Körbes, S.J. sumário Revista de educação editada e produzida pelo Colégio Medianeira ISSN 1808-2564 Diretor Acadêmico Prof. Adalberto Fávero 3 8 12 16 20 24 28 22 As ruas da cidade e o escândalo da verdade Mayco Martins Delavy Diretor Administrativo Gilberto Vizini Vieira Coordenação Editorial Cezar Tridapalli Revisão Cezar Tridapalli A leitura como “ato de forjar mundos” Flávio Stein Redação Diego Zerwes Projeto Gráfico Liliane Grein Ilustração e imagens Shutterstock Direitos Humanos: para que a vida viva Entrevista com Jelson Roberto de Oliveira Colaboraram nesta edição Mayco Martins Delavy, Flávio Stein, Joelson Roberto de Oliveira, Martinha Vieira, Priscila Andretta Melcherts, Guilherme Augusto Pianezzer, Claudio Piechnik, Wilson Beleski de Carvalho, Valdemiro Ruppenthal, Vinícius Soares Pinto, Rafaela Pacheco Dalbem, Diego Zerwes. Arte (e tudo mais) fora da caixa Martinha Vieira Tiragem 3500 Papel Capa: Papel reciclato 180g Miolo: Papel reciclato 90g Alfabetização ecológica e sustentabilidade: um desafio moderno Priscilla Andretta Melcherts Numero de Páginas 52 Impressão Gráfica Radial Tel: 3333-9593 Equipe Pedagógica Supervisão Pedagógica Claudia Furtado de Miranda, Danielle Mari Stapassoli, Juliana Cristina Heleno, Mayco Delavy e Fernando Guidini A lógica e a suposição: como a física lida com estes conceitos Guilherme Augusto Pianezzer Educação Infantil e E. Fundamental de 1º a 5º ano Coordenação Profª Silvana do Rocio Andretta Ribeiro Greenwashing, você já caiu nessa Claudio Piechnik Ensino Fundamental de 6º e 7º ano Coordenação Profª Eliane Dzierwa Zaionc Ensino Fundamental de 8º e 9º ano Coordenação Profª Ivana Suski Vicentin Hepatite C: continuando a conversa Wilson Beleski de Carvalho Valdemiro Ruppenthal Ensino Médio Coordenação Profº Marcelo Pastre Coordenação de Pastoral Pe. Guido Valli, S.J. Coordenação Comunitário e de Eportes Francico Alexandre Faigle 37 41 47 Não a uma hiperescola Vinícius Soares Pinto Coordenação de Midiaeducação Cezar Tridapalli Comunicação e Marketing Vinícius Soares Pinto Experiências de viagem Rafaela Pacheco Dalbem Os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do Colégio Nossa Senhora Medianeira. A reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria. Linha Verde - Av. José Richa, nº 10546 Prado velho - Curitiba/PR fone 41 3218 8000 Fax41 3218 8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediação@colegiomedianeira.g12.br Como me tornei compositor Leonard Cohen - Tradução de Diego Zerwes mediação 1

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editorial C aro leitor uma colcha de retalhos aleatórios. Ou, caso aceitemos a imagem da colcha de retalhos, vale lembrar que uma colcha tem costuras. E a nossa costura – o fio que liga os retalhos tão distintos e distantes – é o desejo de humanizar, de levar ao leitor posições e temas às vezes pouco difundidos, ou que remam na contracorrente de um discurso hegemônico. E por aí vai. Na capa, trazemos um tema que volta e meia aparece em edições anteriores, mas que nunca ganhou maior destaque: a arte e a complexa experiência que ela oferece a quem assiste e a quem faz, aos artistas, alunos-artistas e ao público. Fazer arte na escola é uma oportunidade de se apropriar do discurso das outras ciências e recriá-lo, além de tornar inesquecíveis os anos escolares ao lado de um grupo unido por interesses e objetivos comuns. Uma boa leitura. Cezar Tridapalli O ecletismo sempre foi um dos objetivos da nossa Mediação. Claro, porque quando falamos de educação os temas se abrem muito. Formação competente, que saiba ser excelente acadêmica e humanamente, não ocorre dentro de um saber estanque, segmentado e específico de uma área do saber. Queremos abrir as gavetas do conhecimento compartimentado e promover diálogos. Mas, quando colocamos uma experiência de viagem na mesma edição que traz um artigo sobre hiperescola, qual o pano de fundo comum? Quando falamos de Hepatite e de Filosofia, qual a conversa possível? E se colocamos Física e Direitos Humanos em um mesmo número, como aproximá-los? O que um escritor e compositor canadense poderia ter em comum com o discurso algumas vezes falacioso da sustentabilidade? A edição 24 da revista Mediação é uma das mais ecléticas da nossa história, que já dura 9 anos. Mas esse fato está longe de significar Envie sugestões e comentários para: mediacao@colegiomedianeira.g12.br Procure as edições anteriores, que podem ser lidas na íntegra, no nosso www.midiaeducacao.com.br 2 mediação

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e o ESCÂNDALO da VERDADE Ao caminhar diariamente pelas ruas da cidade, o comum é sermos interpelados pela verdade nua, verdade inconveniente e que salta aos olhos - que é aquela dos seres humanos humildes, machucados pela vida e excluídos do sistema por uma série de fatores que não nos cabe refletir aqui - causandonos sentimentos dos mais diversos e paradoxais. Por Mayco Martins Delavy As RUAS da CIDADE artigo mediação 3

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Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. (A terceira Margem do Rio, João Guimarães Rosa) A os que somos ligados à filo- xandre, o homem mais poderoso da terra, que lhe disse: ‘Pede-me o que quiseres’; ao que Diógenes respondeu: ‘Afasta-te do meu sol’” (Idem., 1990, p. 233). A última passagem conta que Diógenes perambulava pela cidade, desapegado de tudo e de todos, fazendo as suas necessidades à luz do dia, alimentando-se com aquilo que a sorte trazia, habitando um barril e, empunhando uma lamparina, gritava a todos: “Procuro (o) homem”. Não se preocupe, leitor. Não estamos a fazer uma história de Diógenes, tampouco do cinismo como corrente filosófica do período helênico. Resgatamos esses exemplos emblemáticos do passado para lermos o presente e as contradições a que somos levados (e também aceitamos) a viver. Ora, perguntamo-nos, como a leitura dessas histórias poderia nos ajudar a ler o presente? Em que consiste a atualidade dessas três histórias? São duas questões a que tentaremos responder nas próximas linhas. Comecemos, pois, pela primeira. É claro que, aos que caminhamos pelas ruas da Curitiba real, tomamos o ônibus, enfrentamos filas, pagamos contas, somos assaltados, quase atropelados... é difícil encontrarmo-nos com um filósofo tal como Diógenes que, por opção, tenha seguido as trilhas da “mendicância” – que os historiadores e filósofos não vejam nesta expressão um anacronismo, utilizamo-la apenas como artifício argumentativo – e esteja a nos gritar, nas praças – melhor seria nos shoppings e nos condomínios de luxo –, nas ruas e locais públicos: “Vejam bem, procuro um homem ou mulher autêntico, que seja capaz de reconhecer a vida inútil que vive”. Topamos, e desviamos, sim, com seres humanos humildes, esfomeados, machucados pela vida e excluídos do sistema por uma série de fatores que não nos cabe refletir aqui. Mas, esse grupo de pessoas, cada vez mais numeroso na capital onírica, incomoda, machuca e fere os olhos, rompe a rotina da pequena e medíocre classe média. Concordam? Explico-me: depois de um excelente jantar e de um bom vinho nos nossos requisitados restaurantes, somos obrigados a retornar aos nossos carros ou ao ponto de ônibus e, quando menos esperamos, nos chega o desconhecido: “Fala, patrão! Me dá uma ajudinha aí”, “Ô, chefe, me dá um real pra tomar uma cachaça”, “Moço, me arranja uma sofia, especialmente à história da filosofia, é-nos bastante conhecida a história de Diógenes de Sinope (404 a .C.– 323 a.C), um dos grandes, senão o maior propagador do cinismo, corrente filosófica fundada por Antístenes (444-365 a.C), na Grécia antiga. Para fins ilustrativos, selecionamos três entre tantas outras anedotas ligadas à vida de Diógenes. A primeira aponta para insistência dele em receber os ensinamentos do mestre Antístenes. O encontro entre o mestre e o futuro discípulo teria ocorrido nos seguintes termos: “Perto de Atenas, Diógenes se aproximou de Antístenes. Embora este não quisesse receber ninguém como aluno, rejeitando-o, Diógenes, perseverante, conseguiu vencer a resistência. Certa vez, Antístenes ergueu o bastão contra ele, mas Diógenes apresentou-lhe a cabeça, acrescentando: ‘Podes golpear, que não encontrarás madeira tão dura que possa fazer-me desistir de obter que me digas alguma coisa, como me parece que deves’” (ANTISERI, REALE, 1990, p. 231). A segunda, talvez a mais famosa, narra o brevíssimo encontro de Diógenes com Alexandre Magno (356-323 a.C): “quando Diógenes tomava sol, aproximou-se o grande Ale- 4 mediação

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moedinha pra ‘interar’ o dinheiro pra comprar um lanche”... Enfim, as narrativas deste gênero são das mais criativas e tristes. O fato é que, aos que caminhamos diariamente pelas ruas da cidade, o comum é sermos interpelados por essa verdade nua, verdade inconveniente e que salta aos olhos, causando-nos sentimentos dos mais diversos e paradoxais. Temos aqueles que fazem parte do grupo defensor de uma “eugenia social” e simplesmente ignoram – “ignoram” é apenas um eufemismo que esconde desejos muito mais profundos de aniquilação do outro – e, mesmo que não proclame o desejo de destruição do mais fraco pelo medo da ruptura com o “politicamente correto”, expressam-na no modo de ser e agir: “A existência desses ‘marginais’ suja a imagem da cidade”, dizem eles; e se perguntam: “Onde está a polícia? Como é possível pagarmos tantos impostos para não termos paz nas ruas?”. Esse primeiro grupo é fácil de reconhecer, mas difícil de dialogar. Para eles, há trabalho para todos e a culpa da desigualdade está enraizada na “vontade” do “vagabundo”. O silogismo deles seria mais ou menos esse: Curitiba tem vários problemas sociais. Termos mendigos é a causa dos problemas sociais. Logo, os problemas sociais da cidade são fruto da falta de vontade dos miseráveis, que não se dedicam ao trabalho. Silogismo ridículo, bem sabemos. Assim como as conclusões de um raciocínio muito em voga hoje. O segundo grupo é o grupo dos “medrosos caridosos”, ou seja, é aquele grupo com “certo senso” de justiça, que se comove pelos problemas dos que estão à margem da sociedade, mas, acuados pelo medo endêmico, afastam-se daquele que manifesta um perigo potencial: “Diante de um pivete, o melhor a fazer é atravessar a rua”, ou “Tudo bem, ele está em uma situação de risco, mas, infelizmente, vivemos em uma sociedade desigual e não vai ser o meu ato de coragem que vai mudar isso”. Geralmente esse é um grupo que levanta com mais ênfase as bandeiras da “igualdade social”, da “justiça”, da “ajuda aos necessitados” etc. É também um grupo de sentimento idílico de erradicação da pobreza: desde que não se mexa no essencial, i.é., que os que consomem muito continuem a consumir muito, não alterando o atual padrão de acesso aos bens da “minha classe social”. Seriam os famosos “hippies de cartão de crédito”: roupas alternativas, hábitos de “esquerda”, frequentadores de locais onde se encontram barbudos, cabeludos, tatuados... mas, para isso, pagam um preço alto na bandeira Visa, Master, American etc. Nosso terceiro grupo é complexo e de certa forma está muito próximo do grupo dos “medrosos caridosos”. É o grupo dos “hipó- mediação 5

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critas esquizofrênicos”, criador de máscaras para suportar os efeitos da maldade social presente nos quatros cantos. Dono de forte consciência dos fatos, geralmente é um grupo de leitores, estudiosos, com tendência à justiça na sua forma de equidade, mas que, pela complexidade das relações sociais imbricadas na atual teia financeira, acabam criando essa carapaça que impede que as reais consequências da pobreza e da miséria irrompam com tal força que os levem à insanidade. Daí a “fuga” do real para suportar o peso e a dureza de uma brutalidade interpelativa: “Como viver tranquilamente sabendo que, ao sair às ruas, encontraremos pessoas em situação de miséria tão extrema?” é uma das perguntas levantadas por esse grupo. A resposta provisória é o conformismo intelectual e a aceitação do real como um fato intransponível. A longa descrição desses grupos fictícios de modo algum deseja esgotar as características dos diversos agrupamentos sociais. Tampouco tende a pensar que a realidade seria tão recortada a ponto de, observadores que somos, sermos capazes de reconhecer claramente a identidade de cada grupo tão isoladamente. A complexidade das relações sociais faz que todos esses grupos se comuniquem de modo constante, diário, interpelando-se uns aos outros e recorrendo a diversas formas e subterfúgios para sobreviver à seleção natural a que todos estamos submetidos. Haveria, também, um quarto grupo não nomeado, composto por várias pessoas que se dedicam inteiramente à justiça e ao bemcomum. Mas, sobre esse grupo, o melhor é deixarmos que eles mesmos narrem, questionem, nos ajudem a pensar outra(s) realidade(s). Tais grupos contribuem para percebemos a cidade como espaço de tessitura de questionamentos: são as ruas da cidade, suas praças, seus espaços de encontros e desencontros que compõem o grande cenário onde se encena o teatro das existências. Nesse sentido, o plano de fundo de nossa reflexão sobre o cinismo e dos cínicos modernos, deve, sim, se travar dentro das contradições da cidade. Até agora, na verdade, refletimos sobre um tipo de cinismo, ou, se quisermos, o desenvolvimento do “cinismo” tal qual nós o conhecemos hoje, no seu aspecto negativo. No dicionário Houaiss Eletrônico, a definição de cinismo, por derivação de sentido, é “atitude ou caráter de pessoa que revela descaso pelas convenções sociais e pela moral vigente; impudência, desfaçatez, descaramento”. Ou seja, na linguagem comum, dizemos que uma pessoa é cínica quando as suas ações são indiferentes aos posicionamentos éticos e morais da maioria da comunidade: “Ele teve uma postura cínica diante da verdade desvelada”, “Ela portou-se cinicamente quando foi convidada a se retirar”... Creio que a nossa linguagem corriqueira acabou dando outros significados ao “cinismo”, um pouco distantes da sua originalidade grega, mas não menos interessantes. Todavia, o lugar do “cínico”, enquanto “aquele que revela a fragilidade da moralidade objetiva e a fluidez da vida contemporânea”, apresenta a sua atualidade cujos efeitos se notam nos momentos em que se questiona de modo mais veemente o atual sistema financeiro de vidas e a superficialidade da ação humana. Retornemos, pois, às anedotas de Diógenes, especialmente a segunda e terceira, pois a primeira história contada, ligada à perseverança de Diógenes para receber os ensinamentos do mestre, é reveladora da força de sua personalidade. A segunda anedota nos fala do encontro entre a personificação do poder de Alexandre Magno, instituído e reconhecido socialmente, e aquele que, nos moldes de hoje, está no antissistema, na contracultura e, por desdenhar das formas instituídas, questiona e incomoda: Diógenes. Se por um lado há a oferta da realização de todos os sonhos “compráveis”, por outro temos a força da personalidade que se nega a seguir os caminhos já trilhados: “Peçame o que quiseres!”, propõe o Poder, enquanto o heteropoder responde: “Afasta-te do meu sol” ou “Não há nada que me ofereças do mundo que já não seja meu”. Nesse aspecto, analisando a anedota com as lentes do presente, 6 mediação

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a pobreza não poderia ser percebida apenas como uma situação a ser “resgatada” para que todos possam chegar a um patamar pequeno-burguês de consumo do mundo e de si mesmo. A pobreza pode ser compreendida como contracultura, não apenas no seu sentido material, mas espiritual e humano. Deve-se, sim, atacar a desigualdade social como princípio motor dos problemas sociais vividos na esfera pública e compartilhados por homens e mulheres. Tanto o miserável como o filantropo nos servem de análise e são reveladores dos tempos turvos a que somos submetidos hoje. Por fim, poderíamos inquerir, com Diógenes: “Procuro (o) Homem”? ou, pelas ruas da cidade, procuraríamos pessoas que vivam de uma autenticidade que não se compra a prazo, que possuam uma existência em que a verdade é portadora da nudez capaz de fazer das nossas vidas uma grande questão. E ao fazermos isso com a lanterna acesa em plena luz do dia, partiremos do pressuposto que o que chamamos de “dia”, ou de ordem instituída, passa por um período de difícil compreensão. Hannah Arendt, em uma série de ensaios que foram publicados no Brasil com o título de Homens em tempos sombrios, alude ao fato de que algumas personalidades importantes, no século XX, possuidoras de cultura e pensamento eruditos, não foram capazes de fazer a leitura dos acontecimentos que se descortinavam diante dos próprios olhos, ou seja, a capa- cidade de julgar, atributo próprio dos seres humanos, gradativamente vai cedendo lugar às respostas prontas e irreflexas. Julgar e agir compõem, então, um binômio essencial, constituidor de um modo humano de ser-no-mundo, modo que reconhece a pluralidade e a diversidade da vida; postura que aceita a circunstancialidade do existir individual e a beleza e profundidade das liberdades que se encontram e se reconhecem na forma de dignidade e do bem-comum. comente este artigo: mediacao@colegiomedianeira.g12.br Mayco Martins Delavy é supervisor pedagógico de 8º e 9º anos do Colégio Medianeira. É bacharel e licenciado em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (MG). Tem especialização em Filosofia e Ética (PUCPR) e é mestrando em Filosofia, também pela PUCPR. recomendações Homens em tempos sombrios Autora: Hannah Arendt Cia. das Letras Os textos reunidos neste livro são biografias comentadas de homens e mulheres que viveram os “tempos sombrios” da primeira metade do século XX. Mergulhando em mundos internos tão díspares como os de Hermann Broch e João XXIII, Rosa Luxemburgo e Jaspers, Isak Dinesen e Bertold Brecht, Heidegger e Walter Benjamin, Hannah Arendt submete a uma reflexão apaixonada, e por vezes implacável, seus erros e acertos, culpas e vitórias, responsabilidades e irresponsabilidades perante a realidade que enfrentaram. A beleza destes relatos reside na sólida crença arendtiana na solidariedade e dignidade humanas, valores morais ainda capazes de impedir o triunfo do niilismo e do totalitarismo numa época de experiências A coragem da verdade - o governo de si e dos outros - volume II Autor: Michel Foucault Martins Fontes Esta segunda parte do último seminário de Michel Foucault ministrado no Collège de France é tida como seu testamento. O curso termina no dia 28 de março de 1984 e ele morre três meses depois. É sua última meditação, sobre o “dizer-a-verdade” e a prática filosófica; o filósofo não é caracterizado por deter o saber, mas pela prática que se esforça em realizar: um estilo de vida. mediação 7

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A leitura como “ato de mundos” Da mesma maneira que podemos entender a criação de uma obra literária como um processo individual e solitário – mas fruto de experiências e vivências de vida, a leitura também se intensifica quando vai além da compreensão individual e se encontra com a pluralidade de descobertas de uma leitura compartilhada. Por Flávio Stein forjar 8 mediação

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15h. Café Vitrine. Encontro com meu amigo Luís Henrique Pellanda. Ele me presenteia com um livro. O título me inquieta. Me parece um material instigante para o laboratório que coordeno de formação de mediadores de leitura. Saber como os escritores criam suas obras. Saber como eles pensam. Volto para casa animado e, mesmo tendo milhões de coisas para fazer, não consigo deixar de começar a ler. Nos últimos anos tenho procurado e colecionado (outra maneira de nominar uma pesquisa bibliográfica sobre um tema especifico) livros que tratem da leitura em algum sentido. Elaborar um programa para um laboratório deste tipo exige de quem o faz um olhar muito aberto, disponível. Ficcionais: escritores revelam o ato de forjar seus mundos, publicado pela Companhia Editora de Pernambuco – CEPE, com organização de Schneider Carpeggiani, é um tipo de antologia não convencional, que se encontra raramente. Primeiro pela proposta em si, como o próprio título já informa. Reunir textos curtos de diversos escritores (ao total são 32 depoimentos) que procuram revelar, em alguns casos confessar, como conseguiram elaborar, realizar e concluir seus romances, contos e poesias. Em segundo, pelo caleidoscópio que resulta da proposta. A meu ver, acaba por ser um tipo de enciclopédia contemporânea. Entusiasmado com esta enciclopédia, resolvo presentear os participantes do laboratório com um exemplar. E o presente dá novos rumos para as discussões. Apesar de em sala conseguirmos nos deter somente em um ou outro depoimento, cada participante fez a sua leitura, escolheu as obras e os autores dos quais desejava saber mais, e as descobertas, as revelações foram transformadoras. Não foi só a mim que os depoimentos instigaram. De maneira unânime, a leitura de Ficcionais uniu a todos, a mim e a estes participantes vindos das mais diversas áreas do conhecimento na compreensão de que esta espécie de antologia, de panorâmica da produção literária brasileira contemporânea, apresentava não só questões centrais do processo de criação de um texto literário, como também revelava um novo olhar, indagador, agora sob a perspectiva do leitor. Ela acaba por se configurar como uma antologia de leituras, de maneiras de se ler um texto literário. O leitor é confrontado com as influências, os diálogos, as fontes literárias de inspiração destes escritores. Outros autores são citados, exemplificados, indicados. Essa imensa rede que se forma ao lermos as 110 páginas do livro revela também a diversidade de processos de leitura. Revela como não existe uma leitura certa, uma compreensão específica de um texto de ficção. Revela como a literatura está profundamente imbricada com a vida, não apenas do seu criador, mas também do seu leitor. Esse número significativo de escritores vivos em plena produção, oriundos literalmente dos quatro cantos do país (Ceará, Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e, por que não incluir, Portugal e Chile como países de nascimento), acaba por apresentar ao leitor um panorama muito rico, não só pela quantidade de temas e questões ligadas aos processos de escrita, mas também pela sua forma, pela sua maravilhosa concisão. São textos, como revela uma das autoras, de até 5.000 mil toques, portanto de no máximo duas páginas e meia. Perder a inocência faz muito mal ao escritor (p. 37). É fazer isso, e desaparecer: livro bem traduzido é aquele que você não percebe que foi traduzido (p. 46). Bendita cegueira, a do escritor (p. 53). Tratava-se de outra coisa: de escrever uma ficção. De usar o que eu tinha para chegar ao que eu não tinha (p. 69). Sou um colecionador de ideias incompletas, que vão sendo anotadas num caderno para futuras necessidades (pg. 71). [...] e só então eu percebi que algumas realidades só a ficção suporta (p. 96). São frases, ideias, percepções, enfim, exemplos do que vou colhendo conforme percorro o livro. Todas advindas de experiências vividas entre uma pessoa (um/a escritor/a) e um texto literário. Formam um caleidoscópio ímpar. mediação 9

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Espaço pré-determinado pelo organizador, já que o convite apareceu em primeira instância para que os convidados produzissem textos para uma coluna do Suplemento Cultural Pernambuco chamada Bastidores. E é deste espaço restrito que tudo emerge. Um espaço, restrito, que me causou sensações diversas. Essa concisão, induzida aos autores, trouxe a mim, leitor, uma sensação de montanha russa assustadora. Viaja-se ao ler os 32 depoimentos no tempo e no espaço de uma maneira, no mínimo, inusitada. O leitor embarca nas questões, angústias, alegrias, dilemas, sucessos e, especialmente, nos fracassos de cada escritor de maneira intensa e radical. Não há tempo de respirar. Quando você vê, já teve outra queda, e logo em seguida, outra subida vertiginosa. São flashes de autobiografias, porque mesmo aqueles que não apresentam questões que envolvam a vida privada e dedicam-se a tentar explicitar processos, escolhas e técnicas, de alguma maneira acabaram por revelar aspectos da sua biografia e maneira de ver o mundo, a vida e a literatura. Não são dados objetivos, mas o que se consegue entrever em seus relatos. Exatamente como nos proporciona uma obra de ficção. Mas o que enriquece ainda mais a coletânea é a sensação de incompletude. Primeiro, porque o leitor se depara com um texto sobre um texto. Isto é, não temos a matriz, a obra em si. Em segundo lugar, por- que é visível (e imaginável) a dificuldade de cada autor de escrever sobre processos, ideias e descobertas, na maior parte das vezes, como já se sabe, bastante improváveis de se planejar na sua completude. Portanto, a sensação de que não nos foi revelado tudo, seja por que não há espaço para tanto, seja porque não é possível, é constante. Para mim, ao menos, percorre todos os textos. Afinal, por mais que se queira, não é possível falar tudo que se gostaria, do que se conseguiu realizar em comparação ao que se almejava, etc. Mas é uma incompletude apenas, não uma insatisfação. É algo que instiga, que faz o leitor pensar, querer obviamente ler as matrizes, mas vai além, instiga a pensar sobre o que é escrever, criar uma obra literária, em qualquer tempo e lugar. Desmistifica a arte da escrita, esse lugar sagrado reservado apenas àqueles que têm o dom, mas em hipótese alguma vai para o lado oposto, banalizando processos, invenções e o imaginário de cada um. Pelo contrário, humaniza. Mostra ao leitor como a literatura, mesmo que não se queira, está profundamente ligada à vida, é feita por seres humanos com todas as suas imperfeições. Por todas essas razões, o que descobri juntamente com os participantes do laboratório não foi apenas um rico material que revela processos de criação de uma obra literária, mas foi além. Reconhecemos inúmeros exemplos que confirmam como a leitura também é um “ato de forjar mundos”. Como uma obra de ficção, o livro organizado por Carpeggiani surpreende o leitor e deixa claro como a literatura não pode e nem deve 10 mediação

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se restringir a especialistas. Ela é feita para as pessoas. Não importa quem seja, nem sua origem. A literatura provoca, instiga, irrita, emociona a quem é de direito, no momento de direito. E da mesma maneira que podemos entender a criação de uma obra literária como um processo individual e solitário – mas fruto de experiências e vivências de vida, portanto resultante do convívio social seja em que instância for –, a leitura também se intensifica quando vai além da compreensão individual e se encontra com a pluralidade de descobertas de uma leitura compartilhada. Por fim, confirma a importância de obras deste tipo para qualquer um que se interesse pela literatura, que aqui tem toda sua força de transformação revelada. comente este artigo: mediacao@colegiomedianeira.g12.br é músico – especializado em música antiga – e mestre em Estudos Literários pela UFPR. Como diretor teatral, encenou recentemente Esperando Godot, de Samuel Beckett, e o monólogo A Queda, de Albert Camus. De 2009 a 2011, foi curador de eventos dedicados a leituras públicas de obras literárias no Teatro da Caixa, como Brasis: leituras plurais eentreMundos: mundo da leitura, leitura do mundo, entre outros. Como mediador de leitura, atuou em projetos como Extremos: ciclo de leituras radicais, com José Castello, nos Ciclos de Rodas de Leitura e como orientador nos laboratórios de formação de mediadores dos editais da Fundação Cultural de Curitiba. Flávio Stein recomendações Ficcionais Organizador Schneider Carpeggiani Companhia Editora de Pernambuco – CEPE Esta obra reúne textos de 32 autores, nos quais eles procuram esmiuçar seus processos de criação. Dentre os eles estão Rubens Figueiredo, José Castello, Ana Maria Machado, Santiago Nazarian e Marcelino Freire. Literatura para quê? Autor: Antoine Compagnon Editora UFMG Nesta obra, Antoine Compagnon propõe-se a responder à pergunta que intitula sua aula inaugural no Collège de France - ‘Literatura para quê?’. O livro pretende ser uma reflexão sobre os poderes da literatura que colocam em relevo a convicção de que o texto literário ainda cumpre uma função no mundo do início do século XXI. mediação 11

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Direitos Humanos: VIDA VIVA para que a Mesmo muito discutidos em alguns segmentos sociais, os Direitos Humanos precisam de maior visibilidade no âmbito de sua contextura teórica e de sua permeabilidade no dia a dia. O respeito à pessoa, por mais que estejamos no século XXI, ainda é um entendimento crivado de relativismos e preconceitos. Entrevista com Jelson Roberto de Oliveira 12 mediação

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P ara entender melhor diversos aspectos da questão, Mediação entrevistou o Dr. Jelson Roberto de Oliveira, Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná, Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos e Coordenador do Programa de Pós-graduação em Filosofia da PUCPR. A entrevista foi realizada por Mayco Delavy, Orientador Pedagógico do Colégio Medianeira. Mediação: Como poderíamos empreender uma discussão sobres os Direitos Humanos hoje? Qual a importância da reflexão política na ampliação dos direitos dos homens e mulheres? Jelson de Oliveira: Todo o debate a respeito dos direitos humanos tem em vista a criação, a confirmação e a atualização constante dos acordos e pactos de convivência baseada no respeito à integridade da pessoa humana. Por isso, discutir esse assunto é absolutamente urgente e necessário, porque não só nos ajuda a entender o que são direitos humanos (em termos gerais), como também a atualizá-los (no sentido de estendêlos a pessoas e grupos ainda não protegidos) e, sobretudo, para manter e desenvolver um sistema de vigilância que evite as violações constantes que, infelizmente, se reproduzem facilmente na sociedade. Mediação: Em palestra ministrada no dia 13 de junho, no Colégio Medianeira, você afirmava que a escola não deve ser compreendida como parte de outra sociedade. Como situar a relação entre família e escola na promoção de uma educação para (os) direitos humanos que rompa com a lógica do direito individual? Dada a atual configuração da sociedade, mergulhada na lógica do direito econômico, haveria possibilidades para a reconstituição de um direito comum não vinculado à lógica econômica? Jelson: Primeiramente, acredito que a família e a escola devem ser pensadas de forma integrada. Para mim essas duas instituições devem ser entendidas conjuntamente, atuando de forma complementar quando se trata de buscar a educação dos membros mais jovens da nossa sociedade. Isso significa que precisamos reconhecer que o problema da escola reverbera na família e, não raro, origina-se nela e vice-versa. Por isso devemos evitar o discurso fácil: pais acusando professores, profes- sores responsabilizando os pais pelo insucesso ou pela indisciplina dos alunos. Seria muito mais produtivo se pensássemos conjuntamente as soluções. E para isso, precisamos pensar coletivamente os problemas. E um deles tem a ver com os direitos humanos, os quais, no âmbito dessas duas instituições, alcançam um debate ainda bastante incipiente e, por isso mesmo, amplamente educativo. Se nossos filhos e filhas aprenderem que precisam respeitar o coleguinha que é negro, certamente sua vida adulta será muito mais ética e comprometida com o bem comum. E só assim poderemos afirmar que a escola e a família tiveram sucesso e cumpriram seu papel social. Precisamos, além disso, trabalhar com a ideia de que os direitos humanos não são apenas individuais, ou detentores de uma garantia individual. Direitos humanos é assunto de todos e tem mediação 13

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