Chicos 39

 

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A e-zine de Cataguases

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Chicos N. 39 Setembro 2013 e-zine de literatura e ideias de Cataguases – MG Capa Um dedo de prosa Esta é a edição número 39 de 31 de outubro de 2013. Em nossas primeiras páginas reproduzimos o discurso de Luiz Ruffato na abertura da Feira de Frankfurt deste ano. Pela coerência do Ruffato com sua obra literária e história pessoal vai aqui o nosso aplauso e nosso apoio. Em seguida a poesia da italiana Alda Merini, a quem Pasolini chamava carinhosamente de "a garota milanesa" Ela afirmava: "A minha poesia tem para mim a importância da minha própria vida, é a minha palavra interior, a minha vida". Someck e Al-Maaly estiveram em São Paulo em novembro de 2012 para um debate, na USP, sobre poesia oriental. O primeiro aproveitou para lançar Gol de Esquerda (Annablume, 118 págs.), sua primeira obra publicada aqui. O segundo, infelizmente, segue inédito. Alberto Acosta traduz para o português a poeta de Catamarca Maria del Rosario Andrada e para Desenho de Altamir Soares o espanhol Ascânio Lopes. Um texto curto, em prosa, de Lee Siegel ensaísta e crítico com vários trabalhos publicados sobre a cibercultura. Ronaldo Werneck conta aqui, em crônica publicada no Há Controvérsias I, a verdade sobre a partida de futebol em que atuou como goleiro contra o time do Chico Buarque, bem diferente da “versão” do Henrique Frade que aparece em Fantasias de Meia Pataca do José Antonio Pereira. Num texto, publicado na Folha de SP a algum tempo, Oscar Niemayer fala da integração das artes plásticas com a arquitetura, onde ele nos diz como tal aconteceu no Colégio Cataguases. Antônio Jaime tece umas considerações e nos apresenta um ótimo trecho de José Veríssimo em a História da Literatura Brasileira. Leo Barbosa, poeta de João Pessoa PB resenha O sol nas feridas de Ronaldo Cagiano. Vanderlei Pequeno reaparece, para falar da incrível exposição-aula-arte-livros que o artista plástico Luiz Lopez engendrou lá no Colégio Cataguases depois deste passar por uma reforma. Slotti em sua crônica nos lembra do Tão – o assobiador da Praça Rui Barbosa. Quem quiser ouvilo novamente, vai ter que assistir ao filme do Ronaldo Werneck; uma poética e felliniana viagem por sua Roma (a Cataguases do Ronaldo) que ele nos apresentou em sua festa de aniversário. E que festa! E muito mais vocês encontrarão por aqui. Divirtam-se! Uma boa leitura para todos. Os Chicos Editores Emerson Teixeira Cardoso José Antonio Pereira Colaboradores desta edição Alberto Acosta Antônio Jaime Antônio Perin Emanuel Medeiros Leonardo Barbosa Ronaldo Cagiano Ronaldo Werneck Sebastião Nozza Bielli Lotti – Slotti Vanderlei Pequeno Fale conosco em: cataletras.chicos@gmail.com Visite-nos em: http://chicoscataletras.blogspot.com/

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Sumário LUIZ RUFFATO Discurso em Frankfurt ALDA MERINI Alguns poemas MARIA DEL ROSARIO ANDRADA Poemas traduzidos por Alberto Acosta RONNY SOMECK Bagdá ,fevereiro de 1991 e outros poemas RONALDO CAGIANO Ressonâncias KHALID AL-MAALY Eu sou da Terra de Guilgamesh e outros poemas ANTÔNIO PERIN A esfinge do meio dia e outro poema ASCÂNIO LOPES Sarao del niño pobre EMANUEL MEDEIROS Memória e linguagem EMERSON TEIXEIRA CARDOSO Pedro Nava na Rua da Bahia MANUEL DAS NEVES Mãos, mãos, as mãos do Ady ANTONIO JAIME Hora da saudade JOSÉ ANTONIO PEREIRA Saudade e solidão LEE SIEGEL Em fuga SEBASTIÃO NOZZA BIELLI LOTTI O assobio do Tão RONALDO WERNECK Do center-forward Chico Buarque VANDERLEI PEQUENO A arte, o colégio e nós OSCAR NIEMEYER O encontro das artes LEO BARBOSA A poesia sobre o sol ANTONIO JAIME História da Literatura Brasileira – José Veríssimo 03 06 09 13 16 17 20 22 23 24 26 27 28 29 31 32 35 37 39 40 Desenhos de Altamir Soares

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Luiz Ruffato Luiz Ruffato escritor nascido em Cataguases, trabalhou como operário na indústria têxtil local, pipoqueiro e atendente de armarinho durante a juventude. Graduou-se em Comunicação em Juiz de Fora, trabalhou em diversos jornais mineiros até se mudar para São Paulo em 1990. Na capital paulista trabalhou no Jornal da Tarde. Em 2003 abandonou a carreira de jornalista para se tornar escritor em tempo integral. É autor dos livros: Historias de Remorsos e Rancores (São Paulo: Boitempo, 1998), Os sobreviventes (São Paulo: Boitempo, 2000), Eles eram muitos cavalos (São Paulo: Boitempo, 2001), Mamma, son tanto Felice - Inferno Provisório: Volume I (Rio de Janeiro: Record, 2005), O mundo inimigo - Inferno Provisório: Volume II (Rio de Janeiro: Record, 2005), Vista parcial da noite - Inferno Provisório: Volume III. (Rio de Janeiro: Record, 2006), De mim já nem se lembra. (São Paulo: Moderna, 2007), O livro das impossibilidades - Inferno Provisório: Volume IV. (Rio de Janeiro: Record, 2008), Estive em Lisboa e lembrei de você. (São Paulo: Cia das Letras, 2009), Domingos sem Deus -Inferno Provisório: Volume V (Rio de Janeiro: Record, 2011), As máscaras singulares (São Paulo: Boitempo, 2002), Paráguas verdes (São Paulo: Ateliê Acaia, 2011), Os ases de Cataguases uma história dos primórdios do Modernismo – (Cataguases: Fundação Francisca de Souza Peixoto, 2002). Discurso em Frankfurt O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença. Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças. O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia euoutro. Porque, embora a afirmação de nossa autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

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Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo. A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da corruptos. Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores. Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos na brasileiros sempre que foi peça a acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, subestimados. Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. esses números são sempre descartável engrenagem movimenta economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não- pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém... Convivendo com uma terrível sensação de E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

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O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas. Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis. Nós somos um país paradoxal. Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior. desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, Mas, temos avançado. A maior vitória da minha geração foi o pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matériaprima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza. Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos... restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais

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uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora. Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida? Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, Frankfurt - 08.10.2013 gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de

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Alda Merini Alda Merini nasceu em Milão, onde viveu, e viveu uma vida atribulada, tendo sido internada em manicômios várias vezes, passando em tais instituições muitos anos de sua vida – sempre entre o delírio e a lucidez. Muito querida pelo povo italiano, recebeu vários prêmios e condecorações – inclusive a Ordem do Mérito da República Italiana. Escreveu, entre outros livros de poesia e prosa, Terra Santa, Testamento, A Presença de Orfeu, A louca ao lado. (I) Para ti escrevo árduas sentenças, para ti escrevo todo meu declínio, aniquilo-me agora, e nada pode salvar a minha voz devota, apenas um canto pode transparecer sob a minha pele e é um canto de amor que amadurece esta minha eternidade sem limites. (II) O manicômio é uma grande caixa de ressonância e o delírio torna-se eco a anonimidade medida, o manicômio é o Monte Sinai, maldito, onde recebes as tábuas de uma lei dos homens desconhecida. (in, “A Terra Santa”)

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O meu passado Repito muitas vezes em sussurro que devemos viver de recordações apenas quando nos restam poucos dias. O que passou é como se nunca tivesse acontecido. O passado é um nó que aperta a garganta à minha mente e retira energias para enfrentar o meu presente. O passado é só fumo de quem não viveu. Aquilo que já vi não conta p’ra nada. O passado e o futuro não são realidades, mas apenas efêmeras ilusões. Preciso libertar-me do tempo e viver o presente já que não existe outro tempo além deste maravilhoso instante.

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María del Rosario Andrada María del Rosario Andrada, poeta e ficcionista nascida em Catamarca Argentina em 1954. Tem publicado os seguintes livros: Uvas del Invierno (poesía - 1978), Casa Olvidada (poesía - 1982), Tatuaron los Pájaros (poesía 1987), Anuin y los Senderos del Fuego (poesía - 1992), Los Cánticos de Otmerón (poesía - 1998), Las Tres Caras de la Herejía (Cuentos - 2003) e Profanación en las Alturas (poesía - 2004). Participou de diversas antologias, regionais, nacionais e internacionais, como também, colaborou em diversas revistas e publicações literárias e culturais. Casa Olvidada Anduve la nostalgia de casas olvidadas. La tarde huía en roja llamarada. Había rubor en los patios y míticas figuras en el aire. Los pájaros tenían las alas azuladas. Crecían espejos con lunas de otros tiempos y sonidos de puerta en un baldío. En la soledad de las uvas anduve la nostalgia de casas olvidadas. Casa Esquecida Andava com saudades de casas esquecidas. A tarde fugia em vermelha labareda. Havia rubor nos pátios e míticas figuras no ar. Os pássaros tinham as asas azuladas. Cresciam espelhos com luas de outros tempos e sons de porta num terreno baldio. Na solidão das uvas andava com saudades de casas esquecidas. de “Casa Olvidada” - 1982

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Un sol rojo nos crea nos devuelve las formas bajo los párpados de un mar de gliptodontes perdidos donde las fieras vomitan nubes amarillas Ese sol que nos descubre macho hembra nos convierte tierra camino lucha despiadada hasta agitar nuestras manos como furiosos volcanes en la noche Y somos dioses errantes lobos asesinos buscadores del amor *** Um sol vermelho nos cria nos devolve as formas sob as pálpebras dum mar de gliptodontes perdidos onde as feras vomitam nuvens amarelas Esse sol que nos descobre macho fêmea nos converte terra caminho luta desapiedada até agitar as nossas mãos como furiosos vulcões na noite E somos deuses errantes lobos assassinos buscadores do amor de “Tatuaron los Pájaros” – 1987

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*** Desde el umbral de la tierra intentaba besarla unía los miedos las marañas las sombras que separan las palabras La noche era un hechizo un espacio de cielo en el infierno *** Desde o limiar da terra tentava beija-la unia os medos as maranhas as sombras que separam as palavras A noite era um feitiço um espaço de céu no inferno de “ANUIN e os senderos do fogo” – 1992

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Ellos vienen cabalgando reclaman heredades olor a puerto y desembarco. Una anciana escucha atentamente las palabras de zoem / sacerdote la prepara para la muerte no hay llanto se inclina enjuaga su boca con un brebaje y escupe gusto a sal tiene la señal de otro bautismo. Por caminos de luz atraviesan la selva los convoca la muerte el aire es cada vez más azul un perfume de hierbas los envuelve. Son dioses de cuerpos flagelados exilados en su tierra. EL ritual no ha terminado el sacrificio aún perdura.*** Eles vêm cavalgando reclamam fazendas cheiram a porto e desembarque. Uma anciã escuta atenciosamente as palavras de um sacerdote e prepara para a morte não há pranto se inclina enxagua a sua boca com uma beberagem e cospe gosto de sal é o sinal de outro batismo. Por caminhos de luz atravessam a floresta os convoca a morte o ar é cada vez mais azul um perfume de capim os envolvem. São deuses de corpos flagelados exilados na sua terra. O ritual não havia acabado o sacrifício ainda perdura. de “Los Cánticos de Otmerón” - 1998 Tradução Alberto Acosta

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Ronny Someck Ronny Someck é um judeu iraquiano nascido em Bagdá em 1951, mas desde os 2 anos de idade vive em Israel primeiro, em campo de imigrantes e hoje, em Tel-Aviv. Abandonou uma carreira promissora de jogador de basquete pela poesia, viveu a contracultura israelense e é influenciado por Alan Ginsberg, Marilyn Monroe, entre outros ícones americanos. Escreve, ilustra, participa de apresentações lítero-musicais, dá aulas de escrita criativa. Bagdá, fevereiro 1991 Por aquelas ruas bombardeadas empurravam meu carrinho de bebê. As jovens de Babilônia beliscavam meu rosto e abanavam com palmas de tamareiras os meus cabelos loiros. O que ficou desse tempo escureceu muito, como Bagdá e como o carrinho de bebê que tiraram do abrigo antiaéreo nos dias de espera anterior a outra guerra. Oh, Tigres, oh Eufrates, mimosas cobrinhas no primeiro mapa da minha vida, como trocaram de pele e se tornaram víboras.

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Linha da pobreza Como se fosse possível traçar uma linha e dizer "abaixo disso é a pobreza". Aqui está o pão colorido de maquiagem barata que ficará preto e as azeitonas no pires sobre a toalha da mesa. Pelo ar, pombas fizeram um voo de continência ao tilintar da sineta na mão do vendedor de querosene numa carroça vermelha, havia também o barulho do chafurdar das botas de borracha na terra barrenta. Eu era menino, na casa que chamavam de barracão, no bairro que chamavam de campo de trânsito dos imigrantes. A única linha que eu via era a linha do horizonte e abaixo dela tudo parecia pobreza. Poema patriótico Eu sou iraquiano-pijama, minha mulher é romena e nossa filha é o ladrão de Bagdá. Minha mãe continua a ferver o Tigre e o Eufrates, minha irmã aprendeu a preparar pirushki com a mãe russa do marido dela. Nosso amigo, faca-marrocos, crava o garfo de aço inglês no peixe que nasceu na costa norueguesa. Somos todos trabalhadores despedidos que fizeram descer dos andaimes da torre que pretendíamos construir na Babilônia. Somos todos lanças enferrujadas que Dom Quixote brandiu perante os moinhos de vento. Nós todos ainda atiramos nas estrelas deslumbrantes um momento antes que elas sejam engolidas pela Via Láctea. NT - Iraquiano-pijama, clichê aplicado aos judeus iraquianos em Israel porque teriam hábito de vestir pijama o dia todo. Faca-marrocos - clichê popularmente aplicado a judeus marroquinos e obviamente associado a violências que seriam praticadas por eles quando chegaram em massa a Israel nos anos 1950 e 1960.

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