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loic chalmel imagens de crianÇas e crianÇas nas imagens representaÇÕes da infÂncia na iconografia pedagÓgica nos sÉculos xvii e xviii loic chalmel resumo o texto discute a trajetória das representações da infância do século das luzes xvii quando o humanismo originou mudanças na representação da infância antes sacra e que então se torna real e as do século xviii no qual uma infância idealizada esconde a rudeza da vida real das crianças da época para afunilar este debate na produção iconográfica com objetivos pedagógicos da produção imagética proposta por comenius ao que se fez a partir dele no século seguinte destaca-se a permanência da idéia do uso da imagem como representação do real de leitura e compreensão mais fáceis que o código escrito sendo portanto uma ferramenta pedagógica útil ao mesmo tempo discute-se o significado das mudanças operadas nas imagens como representativo de mudanças nos modos de pensar e de conceber o próprio conhecimento e seus processos de transmissão palavras-chave infância produção iconográfica ferramenta pedagógica images of children and children in pictures representations of childhood in the educational iconography in the xviith and xviiith centuries abstract this text discusses how childhood was represented in the xviith century when humanism determined a shift from sacred models to real ones and in the xviiith century when idealized images of childhood hid the children s real conditions of living in order to analyze the evolution of image production for pedagogical purposes from comenius on the prevalent conception of image tradução de alain françois com revisão técnica de inês barbosa de oliveira doutor em educação e professor assistente habilitado para orientar pesquisas da universidade de rouen frança e-mail loic.chalmel@fnac.fr educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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imagens de crianças e crianças nas imagens representações da infância has been the representation of the real world easier to read and understand than the written language and therefore useful as a pedagogical device the text also discusses the meaning of the changes in such images as representative of the changes in the ways of thinking and conceiving knowledge itself and its transmission procedures key words childhood image production pedagogical tool da criança imagem eria o século das luzes na europa um período-chave na evolução das representações da criança na arte em geral sem dúvida neste quesito é preciso evitar associar novidade e modernidade decerto os retratos de elisabeth vigée lebrun 1755-1842 ou ainda os de jean-honoré fragonard 1732-1806 demarcam claramente essa época das passadas até por volta do século xii a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la é difícil acreditar que essa ausência se devesse à falta de habilidade ou de competência parece mais provável que a infância não tivesse lugar naquele mundo ariès 1973 p 23 essa análise de philippe ariès deve ser confrontada com o recorte cronológico proposto por régis debray e mais particularmente com as duas primeiras épocas características das produções iconográficas humanas que ele propõe a logoesfera ou era dos ídolos da invenção da escrita até à da imprensa e a grafoesfera ou era da arte da imprensa até a tv em cores cada uma dessas eras desenha um meio de vida e de pensamento com conexões internas estreitas um ecossistema da visão e portanto um certo horizonte de expectativa do olhar debray 1992 p 222 ao caráter rígido e intemporal do ídolo debray opõe um começo de movimento das figuras da arte no registro do adágio ao emancipar-se paulatinamente do teológico para entrar na história a arte impõe o homem como referente para os olhares a imagem humanista emancipa-se do culto produz sua própria cultura ela passa do sacro ao laico do comunitário ao particular e embora ainda presa à revelação primeira seu valor não está mais indexado à escala dos poderes divinos idem p 246 e as crianças nisso tudo que imagem delas elisabeth vigée lebrun nós dá a ver 58 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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loic chalmel figura 1 embora a composição continue inspirada pelo modelo da virgem com criança neste auto-retrato também chamado de ternura maternal o rosto e a atitude de sua filha certamente nada têm a ver com os dos meninos jesus das madonas de bellini cópias de homens sem nenhum traço da infância que contrastam com a enigmática beleza de sua mãe vigée lebrun não se recusa a representar a morfologia infantil ao reproduzir miniaturas de homens educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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imagens de crianças e crianças nas imagens representações da infância entretanto nenhuma produção artística escapa por completo à tutela econômica de uma entidade governante a arte também é governada o grupo social hegemônico impõe de fato um estilo e imagens por ser quem os encomenda compra e promove é também muito naturalmente o arbítrio das elegâncias e o índice dos valores debray 1992 p 254 assim à pintura sacra cujo reinado chega ao fim com o definhamento da potência temporal da igreja e às cenas épicas e mitológicas que glorificam monarcas absolutos sucedem cenas de gênero e retratos representativos do gosto da burguesia rentista ao mesmo tempo as imagens dadas a ver diversificam-se com a multiplicação dos olhares privilégio de príncipes e homens da igreja a coleção torna-se particular com os humanistas e essas duas fontes originais confluem para os museus públicos que se impõem como lugares de olhares coletivos os retratos e outras cenas de gênero são particularmente representativos desse gosto burguês o realismo de seus modelos afasta-os da trilogia própria do ancien régime proposta por ariès o anjo adolescente o menino jesus e o putto ou criança nua este último contudo perdura na sua nudez decorativa até a foto de arte dos álbuns de família do século xx desde os séculos xv e xvi uma iconografia laica e burguesa da infância substitui assim progressivamente a iconografia religiosa e a maneira como é posta em imagem a divide em duas grandes categorias representações estáticas de personagens e cenas de gênero a multiplicação de retratos de crianças sozinhas sem a presença de seus ascendentes na tela constitui a verdadeira evolução própria dos séculos xvii e xviii o caráter efêmero e transitório desse período da vida humana se torna um dos temas favoritos dos artistas à cata de novidades É também no século xvii que os retratos de família bem mais antigos tendem a se organizar em torno da criança a qual se torna o centro da composição o pintor barroco conta com elas [as crianças para dar ao retrato de grupo o dinamismo que lhe faltava ainda no século xvii a cena de gênero reservará à infância um lugar privilegiado há inúmeras cenas de infância com caráter convencional aulas de leitura nas quais persiste o tema da aula da virgem da iconografia religiosa dos séculos xiv e xv aula de música moços ou moças desenhando brincando ariès 1973 p 38 60 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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loic chalmel seria a multiplicação das cenas de gênero representativa de uma realidade social subjacente ou sintomática de uma moda de um gosto ou até mesmo de um objeto de deleite para com a imagem juvenil à criança real as concepções da infância e de sua educação escondidas atrás dos rostos dos retratos e outras cenas de gênero erigem elisabeth vigée lebrun e sua filha em ícone até a idade de sete anos pelo menos impõe-se a imagem da mãe educadora datado de setembro de 1791 um relatório de talleyrand 1754-1838 para a assembléia nacional francesa constitui o paradigma dessa tendência até a idade de seis sete anos a instrução pública mal consegue atingir a infância cujas faculdades são fracas demais pouco desenvolvidas demais ela exige cuidados particulares demais exclusivos demais até então foi preciso alimentá-la cuidar dela fortificá-la fazê-la feliz este é o dever das mães longe de contrariar a prescrição da natureza a assembléia nacional a respeitará a ponto de proibir-se toda e qualquer lei a este respeito ela entenderá que basta lembrar-lhes suas comoventes funções por meio do próprio sentimento de sua felicidade e pela sua mais clara aprovação consagrar as imortais lições que lhes deu o autor de l emile chalmel 1996/2000 p 146 ao declarar o filho do homem imaturo talleyrand subtrai-o de fato à sociedade dos adultos e apaga de certa forma a clivagem entre ricos e pobres embora um pedagogo pudesse concordar com esse político no reconhecimento do papel insubstituível das mães nesses estágios do desenvolvimento da criança teria mais cautela quanto à concretização de uma relação afetiva equilibrada assim para jean-henri pestalozzi 1746-1827 é mesmo à mãe na relação privilegiada que estabelece com a criança pequena que cabe a tarefa de desenvolver em seu coração os sentimentos morais e religiosos fundamentais entretanto afora na imagem sua presença permanece bem aleatória independentemente dos meios sociais de origem nos primeiros anos da criança quando se confia o desenvolvimento de suas faculdades sem nenhuma ajuda da arte à grande impulsão da natureza costuma faltar geralmente e antes de tudo uma mãe que graças a uma formação evoluída de suas próprias faculdades carregue em si de educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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imagens de crianças e crianças nas imagens representações da infância maneira consciente o estímulo ao mesmo tempo vivo ponderado e amadurecido daquilo que ela deveria ser naturalmente para esta criança pestalozzi 1826/1947 p 282 a expressão daquilo que falta não é uma palavra vã muito pelo contrário se considerarmos as palavras de pestalozzi à luz do contexto desolador em que se situa seu discurso de fato nesse fim do século xviii o bebê que vem à luz tem pouco mais que 50 de chance de ultrapassar o marco dos dois anos a falta de cuidados e de higiene a desnutrição e a deficiência da medicina os abandonos de crianças quando as condições econômicas se tornam duras demais para as classes populares são alguns dos fatores que favorecem essa pavorosa mortalidade o único remédio conhecido é ter muitos filhos e ele é seguido à risca o estatuto do lactente é pouco invejável ele incomoda a burguesa nas suas atividades mundanas e estorva a operária obrigada a trabalhar do raiar do sol ao anoitecer das vinte e uma mil crianças que nascem a cada ano menos de mil são alimentadas por suas mães e mil são alimentadas em domicílio por uma ama todas as outras ou seja dezenove mil são confiadas a uma criadeira esta é a terrível conclusão estatística à qual chega em 1780 lenoir tenente-geral de polícia em paris independentemente de seus meios de origem verdadeiras organizações de aliciamento encaminham as crianças para casas de amas-de-leite mercenárias durante o transporte a mortalidade é grande entretanto essa mortalidade muito elevada em si não basta para desculpar a falta de investimento pelas mães na particularidade infantil assim a preocupante questão do infanticídio alimenta os debates filosóficos no século das luzes infanticídio trata-se de um pesadelo ou estou mesmo acordado será esse ato possível isto ocorre de verdade o inominável ocorre não o inominável não mas o crime que essa palavra recobre vela teu rosto ô século baixa a cabeça europa a resposta ecoa em teus tribunais É aos milhares que meus filhos são mortos pela mão das que os deram à luz o europa o que leva uma mãe a matar sua cria de onde vem o desespero que se instila no peito da moça a tal ponto meu deus que estremece quando do parto e que na febre da parição ela estende uma mão enfurecida para sufocar o fruto de suas entranhas pestalozzi 1782/2003 ao se abstrair da realidade econômica e social o iconógrafo parece portanto empenhar-se em representar uma infância de sonhos 62 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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loic chalmel graciosa e pitoresca bem ao gosto burguês a partir do século xvii o mignotage mimo exagerado constituirá uma hipertrofia dessa tendência a virada do século xix para o xx e o ingresso na era industrial terão poucas conotações de progresso para os filhos das classes trabalhadoras na europa assim quando o empresário filantropo robert owen 1771-1858 toma em 1800 as encomendas das fiações de new lanark escócia que empregam uns mil operários ele fica impressionado pelo número muito elevado e a situação miserável das crianças que trabalham na fiação constatamos que no geral crianças de dez anos trabalhavam regularmente quatorze horas por dia com apenas meia-hora de pausa para a refeição do meio-dia que tomavam na fábrica nas fiações de algodão fino elas eram obrigadas a esse trabalho numa temperatura que costumava ultrapassar os 42° e em todas os fábricas de algodão elas respiravam uma atmosfera mais ou menos deletéria para os pulmões por causa do pó e das minúsculas fibras de algodão nela espalhadas obviamente esse sistema não podia ser mantido sem castigos corporais a maioria dos vigias carregava abertamente temíveis cintas de couro e em várias oportunidades os vimos bater nas crianças com muita força até mesmo nas menores chalmel 1996/2000 p 250 as novas condições econômicas e sociais geradas pela revolução industrial tiveram impactos na organização familiar principalmente por meio do trabalho das mulheres e das crianças nas fiações para complementar as rendas do chefe de família muitas eram empregadas 14 horas por dia em trabalhos pesados as conseqüências dessas longas ausências sobre a educação são inevitáveis elas incitam outro filantropo daniel legrand 1783-1859 precursor das leis internacionais sobre os direitos da criança a fazer votar em 1841 uma lei que restringe o emprego de crianças nas fábricas as mecânicas prendem populações inteiras em suas engrenagens de idosos a crianças a água e o vapor as mantêm num movimento contínuo e conseqüência necessária dos grandes capitais nelas investidos o cálculo da cupidez apenas será perfeito quando esse movimento não tiver mais interrupções e se terá apagado a distinção entre o que ainda chamamos de dia e noite seis dias de trabalho e um santo dia de repouso para essas pobres e infelizes vítimas que privadas de direitos naturais e inalteráveis não terão mais tempo a dedicar ao repouso à saúde à instrução e ao culto monnier 1908 p 9-10 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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imagens de crianças e crianças nas imagens representações da infância a luta para salvaguardar a infância continua até o fim do século xix como mostra a diatribe de pauline kergomard 18381925 fundadora da escola maternal francesa contra a negligência o desprezo a indigência intelectual e material que é o fado dos filhos das classes trabalhadoras sob pretexto de que durante toda a sua vida o homem é exposto ao padecimento físico às provações aos dissabores estão quase a ponto de inventar sofrimentos físicos provações dissabores para a criança levar esse sistema a suas últimas conseqüências exigiria uma coisa matá-las primeiro sob pretexto de que acabarão morrendo um dia kergomard 1886 p 3 significaria isto que as representações da infância no século xviii nada trazem de novo muito pelo contrário apesar do cenário sombrio descrito acima esse século de fervor intelectual sem precedente vê sucederem-se coexistirem entremearem-se intimamente às vezes até de modo barroco e inesperado com um descompasso ou certos matizes segundo os diferentes países europeus correntes de pensamento tão diversas como o humanismo tardio as luzes alemãs ou aufklärung os pietismos de primeira e segunda geração o racionalismo crítico bem como o misticismo irracional o sturm und drang que desembocaria no romantismo tudo isso dominado por aspirações à reforma fermento de uma revolução à qual se seguiriam na frança nacionalismo e restauração o emile de jean-jacques rousseau sintetiza essa nova abordagem da criança então vista como portadora de potencialidades em devir e de um valor intrínseco cuja natureza e necessidades é preciso empenhar-se em conhecer o apego à criança e a suas particularidades não se exprime mais pela diversão ou o brincar mas pelo interesse psicológico e pela preocupação moral entretanto o vínculo entre as considerações filosóficas e suas conseqüências na iconografia da época permanece tênue daí a idéia de um desvio por parte dos pedagogos especialistas da infância por vocação e mais particularmente por aqueles que atribuem uma importância determinante às imagens no processo de aprendizagem a imagética dos pedagogos escolhemos nos referir aos trabalhos de dois deles o checo jean amos komensky 1592-1671 mais conhecido pelo nome de 64 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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loic chalmel comenius para o século xvii e o alemão jean-bernard basedow 1723-1790 no que tange ao século xviii essas duas grandes figuras da história das idéias educativas têm em comum um certo gosto pela imagem e sua oposição ao pensamento agostiniano segundo o qual a criança força do mal deve ser endireitada a relação entre imagem e pedagogia será aqui apreendida segundo duas perspectivas a imagem da criança e a imagem para as crianças ou melhor dizendo a imagem para ver e a imagem dada a ver no primeiro caso ela é sujeito no segundo ela se torna objeto comenius procura antes de tudo tornar acessível a todos uma mensagem de alcance universal por isso dirige-se a cada um e lança mão de tudo o que pode ele desenvolve os fundamentos ideológicos de sua pedagogia principalmente nos quatro primeiros capítulos de sua didática magna no capítulo iii em particular comenius 1657/1992 p 53 ele afirma que a vida terrestre nada mais é que um preparo para a vida eterna É em suas trocas com o mundo criação da infinita sabedoria divina que o homem encontra ao longo de sua existência o alimento espiritual necessário à salvação buscamos deus observando os sinais de sua divindade por meio do conjunto da criação tríplice é a fonte da qual extraímos essa disposição da alma essa fonte consiste 1 nas santas escrituras 2 no mundo 3 em nós mesmos isto é no primeiro caso na própria palavra de deus no segundo nas suas obras no terceiro na sua inspiração em nós certamente das escrituras extraímos o conhecimento e o amor de deus do mundo e da inteligente contemplação da obra admirável de deus nele somos levados ao sentimento de devoção comenius 1657/1992 p 53 desse modo o homem é capaz de apreender na criação a marca do divino um campo imenso descortina-se assim pra o estudo tratase de analisar a criação em todas as suas dimensões estabelecer distinções e classificações apreender as relações entre as coisas desenham-se então os contornos de uma formação cuja pretensão só pode ser universal assim como a própria criação é universal o fato de conceituar o mundo como uma escola leva a buscar sua penetração em todas as suas educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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imagens de crianças e crianças nas imagens representações da infância particularidades essa busca de verdade é facilitada pela bivalência do indivíduo ao mesmo tempo objeto e sujeito do mundo ele é objeto num universo do qual é parte integrante e sujeito que age para compreender seus mecanismos e interpretá-los a aquisição da linguagem representa um desafio maior numa tal perspectiva e comenius recomenda aos educadores que progridam paulatinamente associando sempre com os jovens espíritos o nome de um objeto à sua forma real ou quando impossível à sua imagem como na sua época não existem livros que apresentem às crianças imagens do mundo ele mesmo elabora segundo uma progressão coerente uma primeira obra documentária ilustrada única em seu gênero orbis pictus publicado em 1685 em nuremberg o mundo sensível ilustrado orbis sensualium pictus é o primeiro livro escolar em que a imagem desempenha um papel fundamental na aquisição do saber pela primeira vez mais que o texto a imagem é fonte de conhecimentos esse livro representa o auxiliar indispensável para substituir muitos elementos do mundo sensível que o pedagogo não pode levar à sala de aula a imagem parece assim o paliativo privilegiado quando não se pode pôr o aluno em situação de manipular diretamente um objeto a ser compreendido ou simplesmente nomeado essa iniciação ao mundo real pela imagem é necessária se aceitarmos a teoria comeniana da aprendizagem segundo a qual o sensível é inseparável do intelectual o conceito da imagem e o objeto real da palavra que o descreve entretanto no mais das vezes ignora-se e faz-se pouco caso disto nas escolas e propõe-se aos alunos aprenderem coisas das quais nada entendem e até mesmo que seus sentidos mal saberiam imaginar donde tanto o trabalho de ensinar como o de aprender terem pouco êxito comenius 1685 p 4 ele explica então como esta obra compêndio do mundo inteiro e de toda a língua enfeitado e enriquecido por pinturas nomenclaturas e descrições de mil e mil coisas comenius 1685 p 4 foi elaborada as pinturas almejam mostrar com perfeição todas as coisas visíveis e propor uma representação de certas coisas invisíveis as nomenclaturas exprimem com uma palavra geral o tema conteúdo das pinturas graças a um sistema de remissões numeradas presentes sobre a imagem as descrições permitem um vaivém entre o texto explicativo e a coisa descrita embora convencido da utilidade de sua obra para permitir às crianças de seu século uma experiência do mundo mais jus66 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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loic chalmel ta e completa ele não deixa de ter consciência de suas limitações e aconselha sempre apresentar o objeto real antes de recorrer à imagem algumas das coisas acima mencionadas não podem ser representadas ao olho por exemplo as cores os sabores etc impossíveis de se retratarem com tinta de caneta seria um ótimo expediente mostrá-las em si em particular aos alunos comenius 1685 p 6 para concluir essa breve apresentação pode-se afirmar que a orbis pictus constitui no percurso teórico do bispo morávio uma síntese de suas reflexões sobre a aquisição do saber tanto pelo seu conteúdo como pela sua redação sistemática em várias línguas quadrilinguis esta ferramenta didática com vocação universal acompanha o aluno ao longo de todo o seu percurso educativo nela ele aprende sucessivamente a reconhecer e nomear objetos que lhe são mais ou menos próximos a designá-los pelo nome a ler a compreender mecanismos biológicos ou físicos mais ou menos complexos tudo sob o olhar condescendente do criador a página 2 da edição de 1685 permite-nos trazer nossa discussão de volta à representação da criança sob o título invitatio o autor dá-nos a ver a seguinte imagem da relação pedagógica figura 2 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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imagens de crianças e crianças nas imagens representações da infância sua composição é particularmente representativa do pensamento educativo de comenius a aula ocorre no exterior em contato direto com o meio ambiente natural um dos três livros nos quais o homem é convidado a encontrar seu criador o pedagogo e a criança parecem vinculados pela palavra o discurso do primeiro encarna a sabedoria lembrança da mão do cristo que ensina o segundo aponta para sua orelha meio de acesso privilegiado para o saber junto com a visão e o tato de ambas as partes a cena organiza-se numa diagonal que acompanhando os raios do sol perpassa a mente do pedagogo e a da criança indicando claramente a origem divina do saber abaixo desta a luz a vida as construções humanas acima dela as nuvens a bruma como tantos sinais de ignorância a imagem da criança aprendendo proposta por comenius antecipa concepções modernas da educação numa época em que os mais jofigura 3 68 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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loic chalmel vens não têm o mínimo estatuto na sociedade dos homens como vimos anteriormente embora permaneça de forma clara conotada teologicamente ela gera a abertura a alegria o respeito no cerne de uma pedagogia do despertar para os mundos internos e externos pouco conforme ao gosto burguês dos países latinos ela só pode incomodar assim numa tradução em francês e em italiano do começo do século xviii embora o editor tenha conservado o texto original modificou algumas imagens eis como ficou o convite feito pelo pedagogo à criança a retórica da imagem em nada corresponde aqui a um arranjo do espaço-tempo das aprendizagens para modernizar uma representação julgada obsoleta ela constitui uma verdadeira inversão de paradigma a aula valida um início de clausura sendo a natureza relegada ao segundo plano nitidamente suplantada pela presença maciça de livros aos quais por sinal a criança não parece ter acesso direto que substituem o sol fonte da diagonal que dividia a imagem original a relação entre o adulto e a criança é claramente do tipo dominante-dominado presença de escadas para se ter acesso ao saber posição sentada de um pedagogo coroado como um príncipe função ambígua da bengala que ele segura na mão esquerda palmatória necessidade para a criança de se descobrir e de pedir a palavra certamente as referências religiosas dissipam-se nesta segunda representação será que isso em si permite-nos associar essa secularização a um progresso a clausura substitui-se à abertura os estudos livrescos à exploração natural a coerção e o esforço à vontade em matéria de pedagogia assim como em outras é preciso evitar associar o conceito de novidade ao de modernidade assim a coletânea de estampas de daniel chodowieki complemento indissociável do elementarwerk publicado em 1774 pelo pedagogo filantropinista alemão jean-bernard basedow também é considerada uma melhoria da idéia original de comenius já no século xvii na alemanha o sr comenius propõe substituir na instrução da juventude o conhecimento das palavras pelo das coisas e seu orbis pictus com gravuras em madeira dava uma amostra disto a execução imperfeita dessa idéia preciosa num século ainda meio bárbaro era um dia educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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imagens de crianças e crianças nas imagens representações da infância mante bruto ao qual m basedow o j j rousseau dos alemães deu mais esmero em torno do fim do século passado em seu livro elementar ilustrado com talhos-doces o portefeuille des enfants publicado em paris é uma sua imitação essas empreitadas obtiveram tanto sucesso quanto poderiam esperar particulares entregues a si mesmos e cujo zelo louvável não foi encorajado simon 1801 p 19-20 para melhor compreender as relações que unem representação figura 4 da criança imagem e pedagogia deixaremos o leitor observar o quadro n iii da coletânea original de 1774 aqui estamos claramente diante de uma cena de gênero as travessuras das crianças afinal muito conforme ao gosto burguês do século xviii o fato de basedow não ter feito pessoalmente essas gravuras como fizera seu predecessor mas de ter recorrido a um artista de renome chodowieki não é alheio a esse resultado as crianças representadas estão todas em situação de transgressão das regras e vão ter de suportar as conseqüências disso para os filantropinistas a utilização da imagem continua essencial para implementar um método praticável por conversas sobre todas as coisas presentes para os alunos e sobre os objetos que desenhados pelo sr d chodowieki para a obra elementar do sr basedow encontram-se nas cem gravuras wolke 1782 de fato a utilização da imagem continua essencial para implementar o método de basedow herdeiro nisso do pensamento educativo fecundo de komensky a diferença fundamen 70 educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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loic chalmel tal entre a orbis pictus e essa antologia de gravuras está no plano da interatividade entre o texto e a imagem o significante e o significado explícita em comenius essa suposta interatividade se torna implícita nos filantropos de fato komensky empenhou-se para integrar na sua obra todas as ferramentas necessárias ao pedagogo ou à criança num procedimento de autoformação para construir suas aprendizagens ou desenvolver sua curiosidade as imagens do mestre morávio são construções didáticas que respondem a um princípio imutável partir daquilo que o aprendiz conhece e apoiar-se nesse capital para lhe trazer conhecimentos novos e isso tanto no plano das conquistas lingüísticas como no da leitura da imagem ou ainda de sua interação mútua os filantropos não constroem suas imagens pessoalmente mas recorrem a um artista de renome introduzindo assim uma dimensão plástica no seu projeto a interatividade é aqui criada pela palavra do mestre e a solicitação constante do olhar dos alunos o comentário proposto a seguir permite-nos ter uma idéia mais precisa dessa função de condução do olho tu menininho tão elegantemente vestido cuidas muito pouco da própria limpeza ajoelhas-te diante daquele estrado e derramas com as tuas mãos a água que está na bacia faça antes boiar esse barquinho e o peixe de madeira que estão à tua esquerda no estrado e tu pequena imprudente sentastes perto demais do fogo da lareira agora queres fugir apavorada jogas tua boneca no chão chamas homens feitos para que te acudam venham meu caro papai minha cara mamãe meus caros irmãos venham meus amigos que estão me ouvindo socorro ah socorro salvem-me meu vestido pegou fogo vai me queimar venham depressa apagar as chamas com água ou senão minha pele minha carne meus nervos vão pegar fogo e me causar violentas dores eis o que acontece com quem não toma cuidado com as chamas etc wolke 1782 portanto o procedimento do premonstrador é mesmo o de dar a ver à criança e a palavra guia o olhar num vaivém incessante entre o conjunto e as partes com uma preocupação especial para com o detalhe o mestre associa em seu comentário em língua estrangeira contribuições lexicais sintáticas e considerações morais uma vez que ser premonstrador não se improvisa é preciso juntar à coletânea de gravuras um guia pedagógico em forma de comentários educ soc campinas vol 25 n 86 p 57-74 abril 2004 disponível em
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