Revista Barbante - Ano II - Nº 10 - 31 de outubro de 2013

 

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literatura, cultura, educação, animais

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revista ANO II - Nº 10 - 31 DE OUTUBRO DE 2013 Cultura, Literatura e Educação Os animais merecem respeito!

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Sophia - Christina Ramalho Índice 1 - Barbante

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ÍNDICE Editorial Ensaios Memórias cômicas de Brás Cubas João Paulo Os animais devem ser tratados como se estivessem n “A Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes 9 Rosângela Trajano Artigos Sentidos poéticos da imagem mí(s)tica do gato Nouraide Fernandes Rocha de Queiroz As relações de gênero em O quinze: uma análise crítica das personagens Conceição e Vicente 30 Gracilene Felix Medeiros A escritura feminina, uma trajetória marcada pelas relações de gênero Nadilza Martins de Barros Moreira Futurismo nas memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade 42 Verônica Barbosa de Oliveira O sublime e o perverso da condição humana em 4 atos Thiago Isaias Nóbrega de Lucena Literatura de Cordel Educação e cultura melhora qualquer figura Rosa Regis 68 58 38 12 6 2 - Barbante

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Crônicas Crônica ao bom senso Amanda Andrade Santos Um certo galo... Bernardete de Lurdes B. Ramalho Poesias Talvez nada esteja perdido Caroline Lisboa Poemas de Luiz Otávio Oliani Luis Otávio Oliani Tempo na vida Samuel de Souza Matos Hera uma vez Tânia Lima Expediente 79 80 82 83 90 91 3 - Barbante

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Editorial Nesta edição de outubro, um salve especial ao centenário do poeta Vinícius de Moraes com o meu ensaio sobre o não uso de animais como cobaias. Neste mês, comemoramos também o dia do poeta, seguem os nossos votos de felicidades e muita inspiração aos poetas da Barbante, que tanto contribuem para dar um charme especial a nossa revista entre artigos e ensaios. E por falar em artigos, nesta edição apresentamos o trabalho de Verônica Barbosa, que faz um estudo sobre o futurismo na obra “Memórias sentimentais de João Miramar”, escrita por Oswald de Andrade; já Gracilene Félix nos presenteia com um artigo “As relações de gênero em ‘O quinze’”; e Nadilza Martins fala sobre “A escritura feminina, uma trajetória marcada pelas relações de gênero”. E ainda nos artigos, Nouraide Fernandes aborda o valor dos animais com o texto “Sentidos poéticos da imagem mí(s)tica do gato” e Thiago Lucena, com a sua primeira contribuição para a Barbante, faz uma observação psicossociológica sobre o filme “Cisne Negro”. Nos ensaios, o nosso querido escritor João Paulo resgata a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para falar sobre “Memórias cômicas em Brás Cubas”. Não queremos, ainda, deixar de parabenizar os amantes dos livros pelo Dia Nacional do livro com uma bela frase de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros.” Boa leitura! Rosângela Trajano Editora 4 - Barbante

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Ângulo verde - Christina Ramalho Ensaios 5 - Barbante

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Memórias cômicas de Brás Cubas João Paulo Machado de Assis (1839-1908) foi um escritor brasileiro que soube acompanhar as mudanças filosóficas, culturais e literárias do século XIX. Isso é comprovado, entre outros, pela divisão que a crítica costuma fazer da sua obra ficcional em romântica e realista, sendo que nesta última ele fora o introdutor no Brasil com a publicação, em 1881, de Memórias póstumas de Brás Cubas. Nesta obra, considerada um marco na literatura brasileira, ele revisita os meandros do homem cosmopolita burguês e dos seu artifícios para manter as aparências exigidas pela elite brasileira. Isto, a despeito do caráter de seriedade que suscita, foi tratado de forma cômica e satírica no romance. Com efeito, o resultado dessa escrita - definida pelo próprio Brás Cubas como feita com “a pena da galhofa e tinta da melancolia” – foi uma narrativa revolucionária na qual ao se contar a trajetória da vida de um membro da elite do Brasil conta-se também, ou melhor, faz-se uma revisão da própria história do homem e da sua busca incessante na compressão da verdade. Roberto Schwarz no seu clássico da crítica machadiana Um mestre na periferia do Capitalismo tece uma análise detalhada pelo viés da crítica sociológica (daí a defesa constante da estrutura do romance como revelador das estruturas sociais). Mostra-se de que forma as novas ideias vindas da Europa (os chamados “ismos”) influenciaram a mentalidade intelectual brasileira e a postura crítica de Machado de Assis. Na segunda metade do século XIX o Brasil via chegar inúmeras teorias e correntes científico-filosóficas (o positivismo, o determinismo, o evolucionismo, o socialismo, entre outros.); era “um bando de ideias novas”, na expressão do crítico sergipano Sílvio Romero. Isso explica a discussão reflexiva sobre essas ideias nas Memórias. Mas o tom que permeia o fluxo desse pensamento é o do humor, que no mais das vezes se materializa pela ironia sarcástica e corrosiva tão cara a Machado. Assim, uma vez que o vocabulário cientificista invadia a vida das pessoas - palavras como evolução, processo, progresso predominavam em todos os setores do conhecimento - e prometia-se substituir a “patronagem oligárquica” por “espécies novas de autoridade”, fundadas na ciência e no mérito intelectual, alguns viam aí a solução para todos os problemas. Machado, entretanto, percebeu as ironias dessa situação e procurou explorá-las na sua produção crítica e literária. O ensaio machadiano A nova geração (1879) aponta para esse problema, que é a importação e apropriação dessa nova tendência cultural europeia. Machado, então, observa essa situação e procura analisa-la pelo viés da comicidade e da ironia na sua obra-prima Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). Ele tinha um projeto literário que aparece nos seus textos de crítica e se consolida na sua ficção realista. Portanto, o funcionamento da vida intelectual é matéria literária das Memórias. Ora, havia um desejo de mudança (só não se sabe o quê) que se traduzia no otimismo cego que se baseava nas teorias racionais cientificistas. A crença exagerada no progressismo junto com o atraso ambiente adquire “feição patética e um quê localista”, no dizer de Schwarz, uma vez que deixa de lado a realidade para que fosse possível esse otimismo e o “contentamento de si”. Machado duvidava da independência intelectual repentina, posto que, segundo ele, “não há por ora no nosso ambiente, a força necessária à invenção de doutrinas novas”. Então, essa assimilação de ideias modernas incompatíveis com a realidade brasileira instigou Machado a refletir sobre isso nas Memórias póstumas. Em outras palavras, a dualidade 6 - Barbante

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progressismo-passadismo não dá conta da posição de Machado. Essa força não está a todo momento em toda a parte; o cenário cultural mundial não é homogêneo, a as suas desigualdades correspondem problemas diferentes conforme o lugar e a ocasião. Em Memórias póstumas o narrador se utiliza do recurso metalinguístico para explicar o processo composicional da obra e para estabelecer uma relação dialógica e de maior aproximação com o leitor. Contudo, o narrador se mostra ousado, chegando a dar ordens ao leitor. Mais um recurso utilizado habilmente por Machado para, na estrutura do romance, explorar a estrutura social na qual uns poucos mandam e a maioria obedece. Esse dispositivo acaba assumindo, dessa forma, a função de desvelar a opressão e o domínio exercido pelas classes mais altas às mais baixas e, por isso, desprovidas de acesso direto aos bens que aquelas têm, donde a relação de dependência (clientelismo, apadrinhamento) e de troca de favores perpetuada e legada à contemporaneidade brasileira. Essa noção de opressão se coaduna com a ideia de comicidade proposta por Bergson. Para este, o riso do outro reprime o desvio do padrão de conduta exigida pelo seio social, isto é, o cômico serve para manter a sociedade coesa. Por outro lado algo que chama a atenção é a escolha de um narrador em 1ª pessoa para que ele se revista de uma objetividade garantida graças à morte de Brás Cubas. Nesse caso, haveria uma suposta imparcialidade, já que ele não precisa mais mentir para manter as aparências exigidas pela vida humana, como se fosse uma espécie de duplicidade de foco narrativo (um, quando era vivo; e outro, quando morreu – narrador-personagem). É, pois, um narrador que possue um tom acentuado e contínuo de persuasão ao longo da narrativa. Brás Cubas procura desmascarar a hipocrisia conhecida em vida das relações sociais e de suas instituições, bem como de forma caricatural discutir a problemática da elite brasileira oligárquica, que tenta impor e se sobrepor às classes subalternas, num processo secular de aniquilação sociocultural e de exploração econômica. Daí provêm o universalismo da obra corroborado e reafirmado com a equiparação constante com monumentos e manifestações artísticas universais (a Bíblia, a obra de Shakespeare, mitologia greco-latina, etc.). Ainda conforme Schartz ao desenvolver uma análise social em Memórias póstumas vislumbra-se nas entrelinhas dessa narrativa a sociedade brasileira escravagista e oligárquica do século XIX e os seus mecanismos arcaicos de manutenção do sistema agrário-exportador e latifundiário. Faz-se, portanto, necessária a utilização da análise crítica das “forças sociais” por trás desse processo tão bem empreendido pelo olhar reflexivo lançado por Machado mediante sua ficção. Isso, todavia, não impede que em alguns momentos na narrativa apareçam elementos de uma análise psicanalítica, ainda que de maneira sugerida. Veja-se, por exemplo, o caso do ex-escravo Prudêncio que adquire um escravo e o trata da mesma forma que foi quando escravo de Brás Cubas. Percebe-se aí, além do desejo de copiar as classes hierarquicamentente superiores para marcar a sua ascensão social sendo agora um homem livre, a forma pela qual ele dava vasão aos traumas psicológicos que surgiram por causa do tratamento desumano e violento recebido quando era escravo. De igual modo, só que de ascendência mais metafórica, tem-se o capítulo “O delírio”, que ironiza as misérias e o fracasso humanos, mas não deixa de entrever uma possível exposição de um estado patológico mental, isto é, partindo desta condição de insanidade de Brás Cubas e da humanidade que Machado explora com ironia e humor que lhes são característicos a condição humana. 7 - Barbante

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Isto significa que existe uma desconfiança na razão como forma de acesso à verdade, crítica que Machado fez ao otimismo triunfalista e à crença cega ao racionalismo predominante em fins do século XIX. Nesse caso, a teoria sobre os chiste desenvolvida por Freud pode dar conta desses processos de vazão dos desejos reprimidos de forma cômica, ou seja, com a suspensão da força inibidora constituída pela moral repressora pode-se ter acesso ao inconsciente mediantes gracejos. A evidenciação da dissimulação de Brás Cubas em vida, por conseguinte, acaba ganhando nuances de comicidade, uma vez que agora de uma visão privilegiada e pela isenção da morte ele rever cenas constitutivas do seu caráter e da sua conduta atrelada a veleidades. Por fim, a imparcialidade é outro elemento que desponta na estória. Em Memórias póstumas ela é ironizada e criticada, visto que Machado defende que a objetividade defendida pelos realistas é inalcançável e só seria possível se o narrador estivesse contando a história de “fora” do mundo. Em suma, Machado questiona a validade e a amplitude desse elemento da narrativa para evidenciar que a multiplicidade de perspectivas que extrapola a ótica unitária de quem conta a história. Em síntese, as manifestações da comicidade em Memórias póstumas se fizeram na sua maioria pelas situações resultantes da estrutura social brasileira do século XIX e das relações de subordinação e de exploração entre as classes sociais. O microcosmo da vida particular de Brás Cubas e seu comportamento errático e desmesurado para com as pessoas com o circundavam são a fonte do risível na obra, além de expandir a compreensão da natureza humana em constante confronto com o meio social. A ironia machadiana transcende uma forma invertida do pensamento: ela é a essência da crítica mordaz e sutil com a qual a realidade é desvelada num rico exercício de recriação da maneira de conceber as relações humanas e a organização do indivíduo numa sociedade que se pretende, pelo menos em tese, caminar para a igualdade e a justiça sociais. É por isso que a satirização é uma constante no romance como que para rebaixar comportamentos hipócritas típicos de uma condição sociopolítica burguesa. Com o cômico, Machado consegue fazer com que o leitor ao rir de Brás Cubas ria de si mesmo e reflita sobre o mundo que o cerca. Referências BERGSON, Henri. O Riso: ensaio sobre a significação da comicidade. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007; Coleção Trópicos. BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 44. ed. São Paulo: Cultrix, 2007. FREUD, Sigmund. OS Chistes e Sua Relação com o Inconsciente. Rio de janeiro: Imago editora LTDA, 1977, volume VIII. JOLLES, André. Formas Simples. São Paulo: Editora Cultrix, 1976. SANT’ANNA, Affonso Romano. Paródia, paráfrase e cia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2003. [Série Princípios] SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do Capitalismo: Machado de Assis. 4. ed. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000. GLEDSON, John. Por um novo Machado de Assis: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 8 - Barbante

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Os animais devem ser tratados como se estivessem n “A Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes Rosângela Trajano Fizeram-me uma pergunta em sala de aula e eu preciso responder: você concorda que os animais sejam usados como cobaias pelos cientistas? Essa é a pergunta. Digo que não, um sonoro e bem forte não! Todo animal deve ser tratado com respeito à vida e aos bons costumes. Não importa se rato, barata ou aranha. Tudo tem vida. E o que tem vida merece viver. Nos últimos dias a mídia cobriu várias matérias sobre animais que são utilizados como cobaias, triste realidade. De repente, arrumando uns livros na minha estante eis que pego o livro “A arca de Noé”, de Vinícius de Moraes, e começo a ler. Leio a poesia “A cachorrinha” e me pego a sonhar com uma vida melhor para os cachorros que vivem largados nas ruas, sem donos, sem comida, sem lar, sem ninguém, latindo no meio da madrugada como se pedissem um carinho. Tive vontade de chorar, mas segurei as lágrimas. Dizem que cientistas não choram, eu sou estudante de ciências e preciso aprender a não chorar por bobagens. Mas será bobagem pensar no abandono aos animais? Será bobagem pensar nos maus tratos aos animais? Por que matam tantos ratinhos em laboratórios? Por que usam coelhos para pesquisas científicas? Quando criança eu via muitos gatos correrem atrás de ratos e achava isso a coisa mais linda do mundo! Assisti muitas vezes ao filme Tom & Jerry, um gato que vive correndo atrás de um rato. Como me diverti com esse filme. Os animais podem ser rivais entre si, porque é um mundo onde se identificam e sobreviverá o mais forte e mais esperto, sem intervenção do homem. Mas, volto ao poema de Vinícius de Moraes e me lembro de que neste mês de outubro comemoramos o seu centenário, ou seja, se estivesse vivo completaria cem anos de vida. Cem anos para um homem é muita coisa! E para um animal que não vive mais do que trinta e poucos anos? Retomei o poema “A cachorrinha”, li e reli sentada na minha pequena cama como se não tivesse mais coisas para fazer além de contemplar aquele poema belo e seu verso emocionante “Mas que amor de cachorrinha”. Alguns animais são tratados como pragas e assim que vistos levam pancadas e morrem, dizem que fazem mal a nossa saúde: baratas, aranhas, percevejos, escorpiões, cobras. Eu amo lagartixas! As lagartixas comem os mosquitos que costumam picar meu corpo à noite! Moro perto de uma floresta e nela encontramos todo tipo de animal que o homem ainda não destruiu: cobras, cigarras, grilos, coelhos, lebres, jacarés, abelhas, besouros, saguis e etc. Morar perto de uma pequena floresta não faz de mim um ser humano mais sensível aos animais, porém me faz saber que os animais têm o seu próprio espaço físico que eu cheguei depois deles, e por isso não devo roubar seus habitats. Duvido que algum de vocês conviva com dois jacarés! Eu convivo, porque perto de mim tem um enorme rio! Lendo o livro “A arca de Noé” em meio a todo esse escândalo das pesquisas com os animais dá vontade de chamar Vinícius de Moraes para colocar todos os animais na sua arca e leválos para o mundo da poesia onde uma cachorrinha é tratada com amor, um elefantinho é chamado de bichinho, e o poeta demonstra preocupação por ele ir tão apressado, como resposta recebe do elefante que está com medo do passarinho. Acho que, como na poesia, nos desenhos animados, nas histórias para crianças, os animais só deviam ter medo de outros animais, só isso. O bicho homem que é pensante investido de tanta ciência e tecnologia não devia esquecer o valor da vida e respeitar os direitos dos animais. Se eu fosse São Francisco voltaria a Terra para mostrar ao mundo como se deve amar os animais. 9 - Barbante

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Não, eu não concordo que animais sejam usados como cobaias em laboratórios, porque sou da corrente de que, se há vida há alma, esses animaizinhos estão todos no céu, coitados, sendo cuidados pelos bons anjos. Apesar de, na Bíblia Sagrada, alguns participarem de interpretações de que os animais não têm alma, mas espírito e que não têm sentimentos, eu discordo dessas interpretações e penso sim que têm alguma espécie de alma ou espírito, seja lá o que for e, mais ainda, que têm sentimentos parecidos com os humanos, porque ficam tristes e alegres iguais a nós. Na Bíblia Sagrada (Salmo 32:09) “Não sejam como o cavalo ou o burro, que não têm entendimento mas precisam ser controlados com freios e rédeas; caso contrário não obedecem.” Sim, não obedecem porque não pensam e precisam da intervenção humana para fazerem coisas que o homem deseja, porque para viverem não precisam de freios ou cabrestos. Não entendem o que os homens querem, porque muitas vezes nem os homens conseguem entenderem a si mesmos falando o que não deveriam e fazendo o mal ao próximo, muitos homens sim estão precisando de freios. Como explicar a alegria de um cachorro ao ver seu dono voltar para casa depois de anos ausente? Quem vai me provar que este cachorro não sentiu saudades do seu dono? Saudades não está na alma? Chamam a isso de instinto animal, eu chamo de sentimentos, porque compartilho com a corrente que diz os animais estarem muito próximos dos humanos na questão da defesa pela sobrevivência. Tudo o que tem vida sente dor, e eu não seria cruel ao ponto de ver um ratinho morrendo perto de mim devido a uma nova vacina que criei para salvar vidas humanas, quando eu não consigo ter respeito nem pela vida de um animal indefeso. Acho que antes de sermos cientistas devemos ser humanos e colocar o amor à vida acima de qualquer coisa. Estamos num mundo onde as ciências já são capazes de usar de novos recursos como cobaias, evitando que vidas sejam retiradas de forma abrupta e violenta. A cachorrinha de Vinícius de Moraes tinha uma barriguinha linda, eu tenho um passarinho que tem um canto belíssimo e me acorda todas as madrugadas para ouvir o canto da vida! Eu não quero morar em outro lugar do mundo senão neste em que estou agora, onde os meninos da minha rua respeitam os animais e na casa da minha madrinha Das Neves os cachorros têm lugar nas poltronas para assistirem televisão! Aqui, o cachorro Dudu também tem uma linda barriguinha! E no pequeno circo que vem nos visitar semestralmente eles não usam animais para nos divertirem, quem faz a graça são os palhaços e os mágicos que têm entendimento! No meu pequeno circo, os animais passeiam pelas arquibancadas para assistirem ao espetáculo dos humanos: gato, cachorro, papagaio! KKKKKK... au, au, au... piu, piu, piu... é assim a minha vida, sempre! Vozes e sons que se misturam dia e noite, noite e dia! Referências: MORAES, Vinícius. A arca de Noé: poemas infantis. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. Bíblia Sagrada. Edições Paulinas, 1993. 10 - Barbante

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Anne - Christina Ramalho Artigos 11 - Barbante

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SENTIDOS POÉTICOS DA IMAGEM MÍ(S)TICA DO GATO1 Nouraide Fernandes Rocha de Queiroz – UFRN INTRODUÇÃO Textos literários refletem a cultura de uma época e propiciam-nos a conservação e a lembrança de acontecimentos passados/presentes e, consequentemente, dados que se encontrem a eles associados. Para lançarmos um olhar mais atento à análise a que nos propusemos, observamos alguns dos poemas que compõem a antologia temática Assinar a pele, organizada pelo poeta João Luís Barreto Guimarães (2001). Obra que se configura ambiente favorável para a nossa abordagem, uma vez que, no campo das representações simbólicas, reúne diversas imagens mí(s)ticas associadas ao gato. Iniciamos nossa abordagem com um breve entendimento acerca da elaboração semântica do signo identificado como símbolo para, em um segundo momento, verificarmos de que modo o universo dos bestiários constituiu-se em referente simbólico. Do instinto que prende o humano ao animal àquilo que no ser humano o distingue nesse universo, encontramos vasto repertório para a criação de referentes simbólicos que ora ratificam as relações de semelhança entre homem e animal, ora dão destaque às diferenças. Em seguida, partimos para a imagem mí(s)tica que nos instigou a elaborar este estudo: a do gato, compreendendo que entre os animais que integraram os bestiários e os que permaneceram na simbologia associada ao universo animal através dos tempos, o gato sempre foi um dos mais polissêmicos, uma vez que sua presença no seio da sociedade humana atravessou fronteiras distintas. Do divino ao demoníaco, ele transitou por várias esferas e gerou, por isso, imagens mí(s)ticas muitas vezes paradoxais, em que o uso da simbologia desse felino apresenta-se como forma de pensar e repensar a condição humano-existencial. Finalmente, pretendemos, então, apreender algumas dessas imagens e a possível configuração de estereotipias simbólicas e a definição de uma tipologia que engloba as categorias: “gato lua”, “gato noturno”, “gato demoníaco”, “gato divino”, “gato mulher”, “gato erotismo”; “gato doméstico” e “gato de rua”. 1 Este trabalho é parte da pesquisa desenvolvida para a dissertação de mestrado junto ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 12 - Barbante

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1 OS SÍMBOLOS E A SIMBOLOGIA ANIMAL Abordaremos de forma sintética alguns dos conceitos atribuídos aos símbolos, sobretudo, numa perspectiva da linguística, da literatura e da psicanálise. Assinalamos que esta última (a psicanálise) tem ligação direta com a simbologia, visto que é consabida a atuação dos símbolos no nível psicológico do ser humano, influenciando nos aspectos comportamentais e no estilo de vida de um indivíduo, de uma comunidade e de um povo. Ressaltamos a relevância do símbolo como algo essencial no processo de comunicação que se faz presente em nosso dia a dia, propagado pelas mais diversas vertentes do saber humano. Possui valor evocativo, mágico ou mí(s)tico, e exerce importante influência, em determinados casos, também, porque inspira ações coletivas. Tresidder afirma-nos que: Alguns símbolos encapsulam as crenças mais antigas e fundamentais que os seres humanos tiveram sobre o cosmo, seu lugar nele, como se comportar e o que honrar ou reverenciar. [...] No começo, os símbolos mais importantes representavam tentativas de conferir ordem e significado à vida humana num universo misterioso. (TRESIDDER, 2003, p. 7/8). Apreendemos, então, que alguns símbolos fazem parte de uma convenção universal, transpondo fronteiras e sendo reconhecidamente internacionais; outros são compreendidos dentro de um determinado contexto cultural. No âmbito da psicanálise, vemos o pensamento junguiano o qual distingue dois tipos de símbolos: os símbolos naturais e os símbolos culturais. Aqueles (os naturais) derivam-se dos conteúdos inconscientes da psique, representando, assim, imensa quantidade de variações das imagens arquetípicas fundamentais – como, por exemplo, o sol, símbolo de luz, claridade; estes (os culturais) foram utilizados para expressar verdades eternas, e são ainda empregados em muitas religiões – a exemplo da cruz, símbolo do cristianismo. Conservam muito de sua magia original, segundo Jung podendo evocar reações emotivas profundas em algumas pessoas, e essa carga psíquica faz com que funcionem um pouco como os preconceitos. Em A dinâmica dos símbolos, Kast (1997) afirma que o símbolo é um sinal visível de uma realidade invisível ideal. Logo, nele, podemos observar níveis antagônicos: em algo externo, é possível revelar-se algo interno; em algo visível, algo invisível; em algo corporal, algo espiritual; em algo particular, algo geral. No plano literário, consoante Massaud Moisés em seu Dicionário de termos literários, destacamos que o símbolo pode estar diretamente associado à significação de imagem: Símbolo: vocábulo de ampla instabilidade semântica [...] exibe conotações variáveis, discutíveis e infensas a todo esforço de precisão e rigor. [...] Da perspectiva literária, a imagem se relaciona ou se confunde com o símbolo, [...] a ponto de levar alguns críticos de poesia a cunhar expressões como ‘imagem figurativa’ e ‘imagem simbólica’. (MOISÉS, 1985, p. 282/3, grifos do autor). Quanto à associação imagem/símbolo inferimos que na perspeciva semiótica todo o signo em que a convencionalidade predomina possui uma relação direta com o símbolo. Tomando como paradigma a paz mundial e a pomba da paz, enfatizamos que a convenção fez da imagem semelhante a uma pomba branca um símbolo da paz. Uma vez que a questão do símbolo como um signo convencional acaba por nos reportar às funções 13 - Barbante

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conhecidadas como referencial e poética, já que o símbolo, ao mesmo tempo, agrega um referente e um valor conativo, teceremos algumas considerações acerca das funções da linguagem. Jakobson (2005), em Linguística e Comunicação, ao abordar a questão da tradução, dá relevo a uma característica do símbolo que nos parece interessante: A definição semiótica do significado de um símbolo, como sendo sua tradução em outros símbolos, tem uma aplicação eficaz no exame lingüistico da tradução intra e interlingual; e tal abordagem da tradução semântica concorda com a proposta de Shannon de definir a informação como ‘aquilo que fica invariável através de todas as operações reversíveis de codificação ou tradução’, numa palavra como a ‘classe de equivalência de todas essas traduções’. (JAKOBSON, 2005, p. 84, grifos do autor). Observamos, pois, que, nessa visão, o símbolo possuiria um traço referencial que independe do tratamento verbal a ele dado. Talvez seja esse traço de permanência que nos faça associar determinadas formas simbólicas a um sentido cultural dado que pode, inclusive, não se legitimar no texto de onde o retiramos, lembrando que “a supremacia da função poética, em relação à referencial, não faz desaparecer a referência (a denotação), mas torna-a ambígua” (JAKOBSON apud TODOROV, 1977, p. 300). O que isso quer dizer no âmbito desta pesquisa? Que a simbologia do gato está carregada de uma convencionalidade cultural anterior à própria construção significativa interna de um poema no qual sua imagem se presentifique. Assim, é necessário compreendermos referentes diversos que compuseram essa(s) convenção (convenções) – já que o simbolismo desse felino, dependendo da época, é dual e até antagônico – para que possamos dimensionar a simbologia do gato no texto em si e na relação do texto com a cultura. Assinalamos a afirmação de Todorov, em Teorias do Símbolo, pois, quanto ao modo de percepção, “no caso do símbolo, há como que uma surpresa derivada de uma ilusão: julgava-se que a coisa existia simplesmente por si própria; depois, descobre-se que ela também tem um sentido (secundário)” (TODOROV, 1977, p. 205). O símbolo mantém o valor próprio e a opacidade a ele inerentes. Desse modo, ressaltamos que o gato é, independente de sua presença na poesia, um símbolo complexo, cuja convencionalidade prende-se a referentes igualmente complexos. Considerando que “os animais sempre foram a base mais poderosa e importante do simbolismo. Nenhuma outra fonte no mundo natural proporcionou uma variedade tão rica de iconografias” (TRESIDDER, 2003, p. 27). Observamos que das tribos primitivas às grandes civilizações, todas as culturas produziram mitos e todas têm em comum a presença do animal no seu imaginário, cuja riqueza simbólica, presente nas manifestações culturais da evolução humana, reflete a grande importância desses seres na vida do homem, que com eles sempre compartilhou a Terra. Nas pinturas pré-históricas temos o testemunho do fascínio que os animais exercem sobre os humanos há milênios de anos. Animais, esses, que pelo homem foram e ainda são caçados; com os quais o homem também trabalha e devota-lhes até mesmo imensa adoração. A caça tinha, em certos lugares, valor mágico-religioso. Paradoxalmente à caça, temos a criação de animais; o simbolismo evangélico do pastor revestido de aura mágica, simbolizando a vigília, a proteção, o cuidado, a busca pela ovelha desgarrada. Em função da sua característica nômade, era alguém sem raízes, representava, então, a alma, sempre de passagem neste mundo. Desde a época dos bestiários, nos sonhos e nas visões os animais ocupam espaço de destaque. 14 - Barbante

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