A poética da cor em Barragán

 

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Uma reflexão sobre as cores nos projetos do arquiteto mexicano Luis Barragán

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A poética da cor em Luis Barragán Mônica Queiroz Luis Barragán incorporou em sua obra arquitetônica e em toda a sua vida, a intensa influência de sua cultura milenar. Mesmo após as experiências racionalistas na sua prática arquitetônica, que duraram cerca de quatro anos (entre 1936 e 1940), o seu pensamento permaneceu ligado às raízes da arquitetura vernacular mexicana. Este período contradiz a visão funcionalista desenvolvida anteriormente em seus projetos na cidade de Guadalajara. Esta tentativa de seguir a linguagem predominante no cenário mundial foi substituída por uma série de trabalhos posteriores feitos após a sua “aposentadoria” do modelo internacional como ele mesmo anunciou a seus amigos (BARRAGÁN, 1996). A sua arquitetura faz-nos experienciar lugares plenos de imagens poéticas geradas pelas formas, matérias e cores surgidas a partir de seu pensamento. A sua inovação advém de uma apreensão imagética onde ver não é suficiente, é preciso também intuir sua arquitetura para entendê-la. Todos os detalhes de suas obras estão permeados de sua individualidade e de suas origens culturais que explodem em cada canto, nas cores e em suas superfícies ricas de texturas. Luis Barragán impregna-se com a cor-matéria delineada pela sua experiência imaginária do ambiental. A densidade de sua criação se traduz em vários lugares onde ele está personificado, através do entorno, da atmosfera e da natureza que envolve as obras. Em determinado momento Luis Barragán declarou a estudantes que insistiam em conhecer seu método: “Não me perguntem sobre esta ou aquela construção, não tentem fazer o que eu faço: vejam o que eu vejo.” (BARRAGÁN, 1996, p.21). Em sua declaração percebemos certo desconforto em relação à visão simplista das pessoas que queriam apenas saber os 1

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segredos de seus projetos, como surgiam suas formas e até que ponto podia repetir as suas soluções criativas. Eles não percebiam a simplicidade do ser total, enxergavam apenas partes isoladas de projetos, e não a poética por trás de suas obras. Luis Barragán trazia uma intuição latente ao se deparar com os espaços. Ousou transformar o que até então era aceito como uma “arquitetura correta”. Deixou-se influenciar pelo seu pensamento livre, sendo sempre fiel a sua interioridade. Quando recebeu o Prêmio Pritzker em 1980, ele externou o seu pensamento em palavras que edificaram diante dos olhos da platéia todas as obras de sua vida. Ele descreveu o seu fazer arquitetônico como um “sublime ato da imaginação poética” (BARRAGÁN, 1996, p.204). Fiel a sua complexidade, nos mostrou como sua alma está permeada nos lugares que edificou. “É alarmante que as publicações sobre arquitetura tenham banido de suas páginas palavras como beleza, inspiração, mágica, fascínio e encantamento, tanto quanto os conceitos de serenidade, silêncio, intimidade e maravilha... eles nunca deixaram de ser a luz que me guia”. (BARRAGÁN, 1996, p.21-22) Este pensamento traduz a força do seu conjunto imagético, onde o seu experienciar mistura-se ao lugar que considera mágico e ao ser que pertence ao lugar e que se encanta com ele. Luis Barragán utiliza a cor como condutora de sonhos, delineando imagens poéticas despertadas pelo lugar. O silencio contido em suas obras, se comunica com a alma que devaneia. Da simplicidade plena de nuanças, seus conceitos formam-se com a complexidade de sua obra, simplificada em imagens que reverberam na alma de quem percorre o lugar. Como Robert Venturi expôs, esta simplificação pode ser entendida como “um método no processo analítico de realização de uma arte complexa. Não deve ser confundida com um objetivo” (VENTURI, 1995, p.3). 2

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O pensamento de Luis Barragán possui uma dose de sedução quando percebemos a poesia contida em suas cores e formas. O desafio ao se observar o seu trabalho é buscar os significados mais profundos de sua imaginação criadora. Esta interiorização das experiências proporciona uma abordagem conceptiva que fala de suas raízes, desejos e experiências. “Toda arquitetura que não expressa serenidade não satisfaz ao seu propósito espiritual. Por este motivo, trocar o refúgio das paredes pela inclemência reveladora das grandes janelas é um erro. (BARRAGÁN, 1996, p.24)”. Esta revelação feita por ele desmonta os princípios utilizados em seu período funcional, logo seguido de uma torrente intensa de intuição liberta de dogmas. Os espaços espirituais explorados por Luis Barragán emanavam das emoções e moviam o seu fazer arquitetônico. Ele convidava através de suas cores e formas à intimidade, serenidade e à descoberta do paraíso pessoal. Em sua obra percebemos uma forte relação entre interior e exterior, reminiscências simbólicas de seu passado cultural. Ele contrapõe os conceitos de interior e exterior como conhecido e não conhecido. Estar fora ou dentro de um lugar ultrapassa o estado físico. Em sua arquitetura ele utiliza as janelas como aberturas de comunicação entre mundos diferentes e não mais como os panos de vidros violadores. 3

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Casa de Luis Barragán. 14 General Francisco Ramírez. Cidade do México, 1947. Colonia Tacubaya, Notamos em suas obras os vários mundos que se interiorizam em micro cosmos permeados através de umbrais. Detalhes de sua concepção que é onde se encontra a poesia imagética de sua obra. A arquitetura de Luis Barragán recorre às emoções onde o uso da cor existe porque intuitivamente elas lhe agradam e não pelo fato de existir um estado psicofísico inerente a elas. “Ele usa as cores porque gosta delas, não porque transmite sentimentos. Ele as aplica para proporcionar poética ao espaço ou para acrescentar um ‘toque de mágica’.” (BARRAGÁN, 1996, p.25). Luis Barragán simplifica a forma na justa medida para que elas dinamizem novas variantes com a cor, a luz e a sombra. Seus lugares privados mostram mais do que simples superfícies e volumes observados com um único olhar, eles são parte da experiência de habitar, pois uma imagem poética só nasce na mente de quem a vivencia. Retomando o seu conceito de arquitetura onde as palavras chaves que guiaram toda a sua obra são beleza, silêncio, serenidade e alegria, percebemos como a imaginação poética participa de sua concepção arquitetônica. 4 O desafio de se manter coerente com sua experiência e

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vivência, tornaram-no ousado em seus detalhes. Conceituando sempre seus objetos-casa, ele retoma um caminho rico e pleno de diferentes mundos, moldados conforme a alma de seus habitantes. No murmúrio do silêncio em suas obras, encontramos o movimento contínuo das águas como um reflexo do desdobramento das cores. Nelas, o silêncio canta. As superfícies coloridas entoam um sentido de estar, com a diversidade de mundo onde a “beleza fala como um oráculo, e o homem sempre prestando atenção às suas mensagens exprime-a de infinitas maneiras” (BARRAGÁN, 1996, p.205) . A beleza, para Luis Barragán, está envolta em mistérios e este era sua particular característica de sedução. Para ele, este estado de alma alcançado através dos ambientes, leva o seu habitante a uma solidão fértil. Nela ele encontra a si mesmo crescendo e fazendo crescer o seu espaço. Em sua concepção procurava, além da satisfação do sujeito, o entendimento do lugar como mágico e como forma resultante da natureza que o moldou. É como se ao entrar em uma paisagem, um canto de mundo, ele sentisse a mágica emanada e dela forjasse as formas de uma casa. Subitamente Luis Barragán descobria segredos do lugar, belezas não reveladas em um primeiro contato. A poesia em sua arquitetura pode ser experienciada através do que ele denominou de “a arte de ver”, onde o arquiteto não é subjugado por uma análise racional sobre o projeto. O entendimento do seu pensamento, passa pelo estudo dos pontos que ele considera a linha guia de suas obras. A começar pela beleza, um dos pontos principais no conjunto do encantamento. Ela é abordada através de inúmeras possibilidades sem parâmetros que a qualifiquem, mas como um sentimento autêntico incorporado às vivências dos seres humanos. Ao admitir esta beleza com infinitas mensagens, Luis Barragán a complementa com a serenidade que deve ser respeitada. “Em todo o meu trabalho, sempre me esforcei para conseguir alcançar a serenidade, sempre em guarda para não 5

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destruí-la com o uso indiscriminado de uma palheta” (BARRAGÁN, 1996, p.205). Ele acreditava que desta forma perpetuaria a intimidade de um lugar através da síntese precisa, contidas em seus valores. A sua concepção levava-o ao encantamento quando encontrava um lugar “perfeito”. “A descoberta inesperada dessas ‘jóias’ deu-me uma sensação igual à experienciada em Alhambra, ao sair de um estreito e escuro túnel e me deparar com o silencio do Pátio das Myrtles, escondido entre as entranhas do lugar. De algum modo senti que este pátio era o jardim perfeito – independente de seu tamanho – pois encerrava nele nada menos do que todo o universo.” (BARRAGÁN, 1996, p.206) Este momento capturou para toda sua obra, a insinuante e inesperada possibilidade de descobrir lugares dentro de outros e transformá-los em mundos particulares. São detalhes sutis que edificam o encantamento da casa dos sonhos. Pátio da Myrthles. Allhambra, Granada, Espanha. Surge a partir daí, a vontade de experimentar esta liberdade na concepção dos projetos. Sonhar o lugar sem ordem, definir como entranhas o interior e como pele o exterior, esta é a casa-ser. Aceitar a inovação como algo inerente ao 6

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ser humano, pois ela está contida nos detalhes, nos cantos, nos momentos de devaneios. Ao observarmos o conjunto de obras de Luis Barragán, percebemos o seu pensamento manifestado através de formas e cores que delineiam as experiências deste construtor de sonhos. Profundamente ligado às suas vivências e absolutamente consciente de suas raízes, ele experimentou através dos lugares a força poética das formas coloridas. Delineou em suas obras, o silêncio, a mágica e o encantamento presentes ao longo de toda sua vida. Para ele, enxergar os lugares estava além da captação das formas pelo olhar. Ver passa, através de suas obras, a ser uma sensação global envolvendo toda a experiência. Onde sons do silêncio e cores em movimento permeiam-se. O sossego encontrado na intimidade passa a existir através da solidão onde nos abrimos para o mundo. Percebemos o ser que se forma no encantamento de suas obras, lugares felizes que reverberam na alma de um sonhador. “De repente ele se faz sonhador do mundo. Abre-se para o mundo e o mundo se abre para ele” (BACHELARD, 1996, p.165). Esta profundeza de pensamento é que faz a mágica de seus lugares, onde o ser se encanta e reconhece o seu canto de mundo. Ao vivenciar as experiências de dentro e fora, o ser começa a entender que não existe uma oposição clara. Nas obras de Luis Barragán este estado se multiplica e se diversifica em vários mundos. A sua composição encontra na dualidade destes lugares de imensidão e de intimidade algo além de qualificativos geométricos e com barreiras limítrofes. Notamos nele, uma vastidão independente de medidas, onde o mundo infinito pode estar contido em um pátio como o visto na casa dos sonhos de Antonio Galvez (10 Pimentel, Colonia San Angel, Cidade do México, 1955). Nela as aberturas das janelas funcionam como um umbral entre dois mundos, “percebemos que a dialética do 7

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exterior e do interior se multiplica e se diversifica em inúmeros matizes” (BACHELARD, 1993, p.219). A abertura para o exterior mostra a transposição de um centro para outro. Os jardins para onde se abrem os umbrais, encerram uma dimensão diferente, que se encontra por trás de paredes que, longe de serem barreiras, congregam para uma intimidade de ser. Percebemos um lugar dentro de outro e neste ir e vir de mundos, o interior e o exterior trocam experiências tornando-se um só, na intimidade de seu habitante. Construindo esta intimidade o ser se depara com a sua essência, o centro de seu mundo. Enlevado neste devaneio vê a beleza de seu mundo cultivado segundo seu desejo. Casa Antonio Galvez. 10 Pimentel. Colonia San Angel, Cidade do México, 1995. 8

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Na compreensão do ir e vir de diferentes lugares, a imagem de umbral transforma as janelas e as portas de suas obras em detalhes primordiais que revelam um interior vasto. Percebemos raios de sol na parede refletindo um movimento que vem de fora e que penetra o interior trazendo uma vastidão vertiginosa que transforma a cor conforme o dia avança para a noite. Este faz com que o habitante do lugar experimente o mundo exterior em sua intimidade sem sentir-se invadido por ele. Nas obras de Luis Barragán a imensidão interna, secreta é revelada por reentrâncias de sua alma reverberada pelo entorno natural. É a mágica da relação, harmoniosa, existente entre o homem e a natureza, as intervenções por ele realizadas e as raízes no chão intacto. Jardines del Pedregal. Colonia San Angel, Cidade do México, 1945-50 A expressão poética da terra determinou em suas obras uma forma mesclada de texturas, cavidades e plantas nativas que revelam a mágica do lugar. Como no jardim “El Pedregal” (Colonia San Angel, Cidade do México, 1945-50). São lugares íntimos, privados e plenos de imensidão. A aridez vulcânica da paisagem, com suas cores, texturas e formas insinuam uma integração 9

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indivisível entre o ser humano e o lugar. Isto é sentido através da contemplação da grandeza, transformando-a em imensidão íntima, pedras e plantas nativas que falam de raízes mexicanas imemoriais. Esta contemplação da natureza integra o ser que sente pertencer a um mundo único. No seu trabalho “Drinking Trough Plaza and Fountain” (Atizapan de Zaragoza, Estado de México, 1959), observamos em suas partes, o movimento contínuo dado pelo murmúrio do vento nas folhas das árvores, refletidas em uma grande parede branca. É a “sinfonia do ‘eterno’ que vive nas copas das árvores” (BACHELARD, 1993, p.192). A presença do azul contrapondo-se ao branco proporciona um olhar infinito que leva a imensidão celestial de um céu refletido no plácido espelho de água, formando um movimento concêntrico. Ali no encontro da parede com a água, o olho vive a cor, uma impressão profunda, levando o ser a penetrar em um mundo imaginado. Drinking Trough Plaza and Fountain. Fraccionamento Las Arboledas, Atizapán de Zaragoza, Estado do México, 1959. 10

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No ponto da parede azul, que se transforma em vários azuis de folhas, Barragán apreende não os efeitos da cor, mas as imagens poéticas que ela provoca. “À medida que o homem se desenvolve e se completa, aumenta o círculo de propriedades que ele aprende a reconhecer como próprio dos seres e das coisas. Coisas e seres adquirem uma significação que se resolve, finalmente, em ressonância interior” (KANDINSKY, 1996, p.66). Esta ressonância referida é a que faz o sujeito sentir-se numa solidão serena, onde experiencia uma comunhão íntima com o entorno refletido naquelas paredes coloridas, no silêncio do vento e na placidez da água. Na verdade é o todo da fonte, composta por suas partes, que fazem surgir um lugar mágico idealizado por Barragán, onde a intimidade do ser se dá pelos murmúrios das folhagens que lhe falam de serenidade. A cor que vislumbramos em Barragán, permite uma abordagem expressiva nascida da improvisação e da imaginação. Estudamos em suas obras o elemento colorante participando naturalmente da estrutura da forma. Percebemos que as escolhas cromáticas dele não seguem regras físicas e que a qualidade material da cor está em sua característica básica de delinear a forma. Ela estrutura o todo quando empregada mesmo em seu estado acromático branco. Estudar a sua materialidade e utilização é importante para a edificação de lugares, contribuindo para uma concepção que imagina a cor simultaneamente com o todo. Partindo desta afirmação entendemos a sua presença em Barragán de forma tão contundente, pois ela surge naturalmente das paredes, do chão ou mesmo da natureza que a envolve. Percebemos que suas formas são concebidas com cor. Ele, também leitor das superfícies coloridas, gosta da 11

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cor sem explicações, apenas como uma emoção que surge espontaneamente criando o seu lugar preferido. Bell Plaza and Fountain, Las Arboledas, Atizapán de Zaragoza, Estado de México, 1959. Não temos em Barragán uma preferência por determinada cor. Ela é desejada por ele que a encontra na natureza e a harmoniza com a forma e os materiais formando um eixo condutor na sua obra. Em suas obras, a cor se enraíza na matéria e provoca um envolvimento do sujeito que com o lugar, criando uma atmosfera de prazer. O caráter ativo da cor é entendido como elemento primordial de sua substância. É como se a cor em movimento produzisse sempre uma nova matéria a cada olhar, encantando o habitante do lugar. Ao deixar a imaginação atuar nos elementos que compõem suas obras, Barragán marca o sujeito predestinado ao sonho. Vejamos por exemplo a dualidade em suas obras que contrapõem modernidade e tradição, poesia e geometria, matéria e luz. 12

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Na obra “Bell Plaza and Fountain” (Las Arboledas, Atizapán de Zaragoza, Estado de México, 1959), as partes compõem um todo dinâmico e ao mesmo tempo tranqüilo. A água entra como substância e penetra a cor de sua parede, desembocando em um plácido lago que se agita sob seu impacto. Aqui o verde profundo mistura-se ao ocre raso da parede tornando a natureza circundante parte do todo de sua obra. O som gerado de forma constante e inalterada pela água que cai, transformase em silêncio misturado ao murmúrio das folhagens. Por um momento ele pára e torna-se um só bloco de cor e silêncio, convidando à contemplação. Em contraponto ao movimento, a água enraíza a cor em um movimento cíclico, passando a pertencer ao lugar como se dele tivesse nascido. Aqui, o ser vivencia o lugar e se banha em suas águas e cores, passando a fazer parte da obra. Do silêncio de suas obras, surgem estruturas e cores, componentes do lugar. Elas projetam as paredes, aberturas e passagens em uma ligação delicada do ser com seu mundo. É uma cosmicidade profunda da imaginação criadora que une arquiteto, habitante e habitat. Esta qualidade mágica da cor é que acentua as ligações do ser humano com o mundo Na escadaria solitária na casa de Barragán (14 General Francisco Ramírez, Colonia Tacubaya, Cidade do México, 1947) onde mantinha o seu estúdio, percebemos como a qualidade de substância do amarelo conduz à intimidade dos quartos. Passagem entre dois mundos, esta escadaria, flutuante é edificada a partir da estrutura amarela que atrai o habitante da casa a penetrar no mundo mais íntimo. Alcovas onde a alma sente-se abrigada para retornar novamente ao mundo. Aqui a cor movimenta o percurso pelos degraus através do movimento intenso provocado pelo seu ritmo delimitado pela cor amarela tornada matéria através da luz. 13

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Casa Luis Barragán. 14 General Francisco Ramirez, Colonia Tacubaya, Cidade do México, 1947. “O espaço bem povoado por volumes e cores põe em andamento os personagens, homens e animais” (BACHELARD, 1985, p.24). Neste momento, o centro do movimento é a cor que atrai o ser e as paredes, aberturas e objetos tornam-se habitantes de seu mundo. Barragán é tão intenso nesta mágica, que em suas obras sentimos todos os mundos criados ou a serem criados em suas obras. Notamos também, um traço imaginativo e poético que independentemente de estilo, expressão, material ou forma empregado, desperta no ser humano, um estado de pertencimento ao lugar. Este é o aspecto principal do seu legado, pois é nos detalhes de suas obras que o todo ideal do lugar é construído. No momento da concepção, a intuição advinda do experienciar coloca nos projetos de Barragán a essência do habitar. Ele mesmo busca na repercussão das imagens poéticas o aprofundamento de sua própria existência. Desta 14

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forma também se faz sentir nos detalhes da casa, em seus cantos que se transformam em mundos. A experiência em edificar repercute em todas as casas, no germe da casa. Assim Barragán faz surgir o gostar simples, sem explicações, criando uma atmosfera que adquire personalidade através dos elementos que a compõem, proporcionando uma intimidade com seu habitante. Os lugares construídos por ele ganham um dinamismo onde a cor perde o sentido técnico-concreto e ganha uma ontologia própria que emana uma nova luminescência. Saindo da objetividade psicofísica das cores, entramos no mundo dos sonhos e, superando o estado sensível da cor, enxergamos todos os seus matizes que não se encontram na realidade. Esta experiência demonstra como a criação na obra arquitetônica de Barragán nos leva a descobrir significados e símbolos nos lugares através do enraizamento da cor que, por ser matéria primordial em suas obras, é entendida como estrutura do construir. Ao entendermos a cor em Barragán, valorizamos a sua condição de tingidora de superfícies para adjetivá-la imageticamente. Em sua obra, ela promove formas e convicções imateriais, desvia-se da superficialidade matemática do fenômeno físico, atingindo a sutileza da matéria-cor. 15

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