Na colheita, tudo o que reluz é capim dourado

 

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Reportagem publicada na revista Bons Fluidos, 2006

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BO89 Jalapao F 11/08/2006 19:11 Page 2 Debora Menezez E NA COLHEITA, TUDO QUE RELUZ É CAPIM-DOURADO Debora Menezez Setembro é um mês importante para os artesãos de Tocantins. É quando se permite a extração do capim-dourado, uma vegetação que cresce no cerrado e se transforma em peças brilhantes como ouro. m meio às veredas, uma folhagem delicada, de coloração dourada, pode passar despercebida. Suas flores são pequenas, e as hastes, finas. É o capim-dourado, uma planta da espécie sempre-viva encontrada no deserto do Jalapão, um parque estadual com 158 mil hectares, em Tocantins, no Centro-Oeste. O fim de setembro é uma época especial por lá. É quando a colheita do capim-dourado é possível e legalmente permitida. Os catadores do capim são grupos de homens, mulheres e crianças que moram na região. Eles retiram as hastes da planta com as mãos, sem arrancar a raiz para garantir a produção no ano seguinte, e carregam os maços nas costas ou em lombo de burro. Essa colheita breve, até outubro, garante o sustento de um ano inteiro. E, por meio da habilidade manual das mulheres, isso se transforma em bolsas, cestos, apoios para pratos, brincos e colares. Para unir as hastes delicadas, usam-se fiapos, que funcionam como fios de seda, extraídos de uma palmeira comum na região, o buriti. O trabalho – uma arte – é tradição antiga, passada de mãe para filha, e se transformou na principal fonte de renda dessas famílias, que são cerca de 600 artesãos. A comunidade mais famosa pela fabricação do artesanato é a de Mumbuca, distante 350 km de Palmas. O lugar foi formado por escravos vindos da Bahia no início do século passado e as mulheres aprenderam a tecer os objetos dourados com as índias. Hoje, o grupo é chefiado por dona Miúda, batizada como Guilhermina Ribeiro da Silva, 75 anos. Sua avó e mãe a ensinaram tudo sobre o trançar, que ela passou para os filhos, 12 no total. Dona Miúda tem apelido de gente pequena, é magra, com a pele morena e castigada pelo sol e os cabelos são brancos, mas tem mãos fortes e por lá não há homem que a enfrente. Pelo contrário, ela é admirada por conseguir manter o povoado unido pela arte de tecer o capim-dourado. sss Ana Holanda Isabel Schmidt O campim-dourado cresce próximo às veredas, que surgem como oásis em um deserto (no alto da página). Para garantir a colheita do ano seguinte, é preciso paciência: esperar as hastes secarem e as flores espalharem as sementes (acima).

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