Árvore

 

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XIV - A Cooperativa de actividades artísticas Árvore Quando cheguei ao Porto,1955, já tinha estado muito embrenhado na área da pintura e da escultura desde 1950 tendo andado por ateliers de pintores e escultores vários e tido o meu próprio logo em 52 com o João Cutileiro num anexo do atelier de Abel Manta. Não é de estranhar pois o meu relacionamento com as outras artes na Escola de S. Lázaro, que me permitiu fazer amizade com os pintores e escultores da minha geração dos quais levava obras, Quadros e Eduardo Luiz, a Lisboa para mostrar na Brasileira aos trutas que lá se reuniam em cujas mesas tinha assento. Apesar das barbaridades que se têm feito na Arvore tenho estado calado estes cinquenta anos para que não se julgue que me estou a por em bicos dos pés. A História que descubra e julgue. Estive com o Manoel Pinto, que não via há mais de quarenta anos, sócio fundador nº 1 (disse terem-lhe tirado esse nº quando, depois de sair por incompatibilidade, acedeu, uns anos depois, a voltar), e a conversa leva-me a ter que falar da Arvore por respeito por ele e poucos mais que a fizeram e que também têm sido maltratados pelos oportunistas que lá têm estado. Na sequência das minhas actividades de caixeiro viajante das artes fui encarregado pelo António e pelo Eduardo de lhes tratar da venda dos quadros pelo que além e de os fazer conhecidos no meio que frequentava e em Lisboa vi que era mais prático promover a criação de uma galeria de pintura, escultura, etc. Falava a todos em todos os lugares referindo a minha experiência em Paris de contactos com galerias e “marchands” que investiam nos artistas dando-lhes mesada para que pudessem dedicar-se às suas artes a tempo inteiro, com o exclusivo da venda das obras produzidas. Até que o Engº Abelard de Castro me disse que da maneira como queria fazer a galeria o que eu pretendia era, não havendo financiadores para os artistas, fazer uma cooperativa para

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serem eles, os artistas, a tratar das suas vendas em conjunto através de um organismo por eles gerido que os libertasse para se dedicarem às suas vidas. Peguei no Zé Calvário e fui dar uma volta às cooperativas existentes na lista do telefone. Descobrimos que de cooperativas não tinham nada sendo a Cooperativa dos Pedreiros a mais refinada pois tinha, e terá, nos estatutos que só os filhos dos sócios podem ser sócios. Não podendo servir-nos desses estatutos para sobre eles fazermos os da Arvore tivemos que inventar tudo. Inclusive que no objecto social se incluía a possibilidade de cursos para os sócios, que veio a dar, por exigência do governo, as cooperativas de ensino e, depois os cursos vários. Digo cursos vários porque não sei se a esap é cooperativa. Com os estatutos na mão precisámos de arranjar dez sócios fundadores para fazer a escritura de constituição. Peguei no Manoel Pinto, no Ângelo, no Rodrigues, no Jorge Pinheiro e em outros de quem não me lembro que fizeram parte dos fundadores, e propusme fazer reuniões para tratar de levar as coisas por diante. Só que nessa altura havia outras pessoas a pensar fazer uma galeria: a Manuela e o Óscar que tinham já alguns interessados. Não sei nada de política mas a cultura que tinha levou-me a pensar que não interessava que houvesse concorrência para o mesmo fim e que devíamos unir os nossos esforços e capacidades de trabalho. Para o que foi necessário convencê-los a trocar a galeria pela cooperativa. Fizeram-se as reuniões no quarto andar do nº 90 da Rua Alexandre Herculano, onde eu tinha atelier na sala 5, que era pequena para tanta gente. Como a sala ao lado já tinha as dimensões convenientes estava para alugar fui aos senhorios, uma firma que trabalhava com azeite no Rés-do-chão e na cave e era propriedade do chefe da polícia e da família, e pedi as chaves para, à noite, poder mostrar o espaço a amigos que queriam alugar. Fui às obras buscar tábuas e tijolos (que no fim recolhia na minha sala) e armei a cena fazendo aí as assembleias que conduziram à constituição da cooperativa depois de os estatutos terem sido aprovados por todos. Como é óbvio a cooperativa pretendia impedir que os artistas fossem colonizados pelos galeristas que iriam cobrar para seu bolso as percentagens pelas vendas que no caso da cooperativa

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poderiam ser mais baixas e serem investidas no desenvolvimento da Arvore entendida como representante dos sócios que lhe dariam o exclusivo da comercialização. Para a escritura fomos ao terceiro cartório, do pai do Tito Reboredo que meteu uma cunha para nos facilitar a vida principalmente nos custos. Cada um dos sócios fundadores deu cem escudos para o capital social que entrou na Caixa Geral dos Depósitos (ou num banco?) e ficamos com a criança nas mãos sem ter berço onde a colocar. Além disso precisávamos de presidente que tivesse experiência e tempo para se dedicar à gestão. O Henrique Alves Costa pareceu-me a pessoa indicada pois tinha estado 17 anos à frente do Cine Clube de onde tinha saído numa situação pouco simpática para não dizer mais que desagradável por injusta. Vi-me e desejei-me para o convencer e lá aceitou. Fizemos a lista para os corpos directivos e lá fiquei no penúltimo lugar, como vogal, na lista da direcção. Constituída pelo Henrique, presidente, o Eduardo da Rocha Matos, meu segundo patrão, como vice, Carlos Morais (não sabia que era do pcp), Cassiano Abreu Lima, Luis Álvares Ribeiro tesoureiro, eu como 1º vogal e o Zé como segundo. Esta lista foi publicada em 2000 pela Arvore e não me merece inteira confiança. Confirmo o Henrique, o Eduardo, o Luís, o Carlos e o Zé. Não consegui que quer os artistas quer o Henrique assumissem o papel social e politico importantíssimo que a Arvore teria se fosse cumprido o seu objecto social. Daí que logo que apareceu o primeiro galerista, o Brito, os artistas começaram a dar às galerias as suas produções porque elas vendiam melhor…. No entanto recebiam percentagens mais altas. Hoje as galerias recebem 50% do valor da venda!!! Um artista recebe metade do valor de mercado da sua produção e a galeria recebe a outra metade de todos os artistas que representa e comercializa. Veem o que é a sociedade de consumo? Como os intermediários exploram os produtores! Só que estes deixam e não se importam. “ Ó senhor, o cú é seu?” Às tantas o Henrique diz-me: “Ó Zé eras o sócio nº 11 mas não pode ser porque sou eu o nº 11, pedi ao Rodrigues que assinasse nova proposta” (a primeira tinha sido assinada por mim). Foi a primeira de muitas filhadaputisses que o Zé me fez. Passei a ser o 13. Até que recebi uma carta da Arvore a dizer que tinha as quotas

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em atraso há anos, que fizesse o favor de pagar. Perguntei como isso podia ser se estava a pagar pelo banco. Resposta: o banco não paga porque a quota foi aumentada e não tem autorização para pagar esse valor. Terá sido nessa altura que os mandei a primeira vez para a puta que os pariu. Não paguei. Saí e praticamente (duas ou três excepções) não pus lá mais os pés. Voltemos aos primeiros tempos. Para arranjar berço para a criança andamos à procura de coisa que servisse, sem resultado até que o Zé, que andava a passear com a Aida, passou na rua Azevedo de Albuquerque onde estava um palacete para alugar por de três contos e seiscentos. Fui ver e soube que o dono era de Lisboa, era médico e se chamava Costa Alemão. Era o vizinho de cima do consultório do meu pai. Fui a Lisboa e trouxe o contrato por dois contos e setecentos. A malta ficou horrorizada porque, mesmo assim, era muito dinheiro. Encontrei a solução no banqueiro Afonso Pinto de Magalhães que me recebeu, ouviu, percebeu e se dispôs a dar um conto por mês para a renda. Até que saí nunca faltou. Além disso comprou muita pintura sem regatear preço. Uma delas foi logo na primeira exposição a compra do quadro do Augusto Gomes “Maldição do Mar” por trinta e cinco contos. Preço que eu tinha posto muito acima do pedido pelo pintor,27, que assim ganhou mais. Para isso é que a cooperativa deve servir: procurar a resiliência do mercado e ir aumentando o valor das obras sempre que merecido e justificado por critérios sérios não especulativos. Até Abril as coisas foram indo com os pides a ir falar com o Henrique volta e meia e a rondar na rua quando tínhamos qualquer coisa à porta fechada, mais ou menos clandestina embora inocente. Depois o PC, que sem me ter apercebido, já estava bem instalado desde o início, assaltou em força e veio a Laura e a sombra de cooperativa acabou. Passou a outro salão de chá que volta e meia vende o acervo, constituído por peças deixados pelos artistas que fizeram exposição, para se manter; o que estava nos estatutos caso não quisessem ou pudessem pagar as despesas. Claro que fui abordado algumas vezes pelo engenheiro Amândio Secca, delegado do PC, para ver se me integrava mas também dessas vezes os mandei como antes para a p.q.p. por nada fazerem pelos artistas para retira-los das garras dos galeristas. O

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Armando até achou que deixar de ser presidente da A.G. para fazer uma galeria concorrente, a ZEN, era correcto. Não foi expulso. O trabalho que há a fazer para nivelar a sociedade!!!

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