Livro - Uma avaliação do clima para a Região Demarcada do Douro: Uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho

 

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Livro com resutados do estudo sobre o impacto das alterações climaticas na vitivnicultura

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Uma Avaliação do Clima para a Região Demarcada do Douro: Uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho Gregory Jones Departamento de Estudos Ambientais Universidade South Oregon Ashland, Oregon 97520, EUA 2013 Em colaboração com: Fernando Alves ADVID Associação para o Desenvolvimento da Viticultura Duriense Peso da Régua, 5050-106 Portugal Apoio adicional de: Marco Moriondo e Roberto Ferrise Dipartimento di Scienze delle Produzioni Agroalimentari e dell'Ambiente Universidade de Florença, Itália João Santos e Aureliano Malheiro Centro de Investigação e de Tecnologias Agro-Ambientais e Biológicas. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Vila Real, Portugal

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FICHA TÉCNICA Uma Avaliação do Clima para a Região Demarcada do Douro: Uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho Edição: ADVID - Associação para o Desenvolvmento da Viticultura Duriense Autor: Gregory Jones Colaboração: Fernando Alves - ADVID Apoio adicional de: Marco Moriondo, Roberto Ferrise, João Santos e Aureliano Malheiro Ano: 2013 Nº de exemplares: 50 Distribuição: ADVID - Associação para o Desenvolvmento da Viticultura Duriense Design de capa: © HL Design Fotografia de Capa: © José Marafona | Dreamstime. com ISBN: 978-989-98368-0-8 Dep.Legal: 360808/13

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índice

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ÍNDICE   Prefácio..............................................................................................................................................................................1   Sumário  Executivo.............................................................................................................................................................3   Introdução .........................................................................................................................................................................5   Estrutura  meteorológica  e  climática  para  a  qualidade  e  produção  de  vinho ................................................................5   Aptidão  climática  para  as  castas ...................................................................................................................................7   Variabilidade  climática  em  regiões  vinícolas .................................................................................................................9   Alterações  climáticas,  viticultura  e  vinho ....................................................................................................................11   A  Região  Demarcada  do  Douro ...................................................................................................................................18   Dados  e  métodos.............................................................................................................................................................21   Normais  climatológicas  históricas ...............................................................................................................................21   Estações  meteorológicas  da  Região  Demarcada  do  Douro .........................................................................................22   Circulação  regional  e  padrões  meteorológicos............................................................................................................24   Clima  espacial:  histórico ..............................................................................................................................................25   Clima  espacial:  projecções  futuras...............................................................................................................................26   Resultados  e  discussão....................................................................................................................................................28   Normais  climatológicas  históricas ...............................................................................................................................28   Estações  meteorológicas  da  Região  Demarcada  do  Douro .........................................................................................31   Circulação  regional  e  padrões  meteorológicos............................................................................................................47   Clima  espacial:  histórico ..............................................................................................................................................51   Clima  espacial:  projecções  futuras...............................................................................................................................65   Conclusões.......................................................................................................................................................................80   Agradecimentos ..............................................................................................................................................................84   Referências  bibliográficas ...............................................................................................................................................85   Apêndice ..........................................................................................................................................................................93            

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prefácio

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho     PREFÁCIO   A   ADVID   –   Associação   para   o   Desenvolvimento   da   Viticultura   Duriense   é   uma   associação   sem   fins   lucrativos,   constituída   em   1982   por   um   grupo   de   empresas   ligadas   à   produção   e   comércio   de   vinhos   da   Região   Demarcada   do   Douro   (RDD).   A   ADVID   tem   como   objectivos   estudar,   demonstrar   e   divulgar   técnicas   vitivinícolas   adequadas   às   especificidades   da   região,   de   modo   a   promover   a   competitividade   dos   seus   vinhos  nos  mercados  nacionais  e  internacionais.   Na  sequência  de  candidatura  apresentada  ao  Estado  Português  (COMPETE,  Ministério  da  Economia,  2008)   foi  reconhecido  o  Cluster  dos  Vinhos  da  Região  do  Douro  como  uma  Estratégia  de  Eficiência  Colectiva,  do   qual,  a  ADVID  é  a  entidade  gestora  e  dinamizadora.   No   âmbito   do   Plano   de   Acção   apresentado,   a   temática   do   impacto   das   “Alterações   Climáticas   na   Produção   de   Vinho”,   pela   importância   económica   que   pode   representar   para   o   sector   do   vinho,   constitui   um   dos   Projectos-­‐Âncora  do  Cluster.     Este   Projecto-­‐Âncora   procura   responder   a   um   conjunto   de   preocupações   e   actividades   da   ADVID,   sustentado  num  relatório  de  diagnóstico,  publicado  em  2007,  com  as  propostas  para  a  base  do  caderno  de   encargos   nesta   temática,   preparado   e   reflectido   pelo   sector,   para   uma   abordagem   integrada   e   consequente   na   procura   de   soluções   junto   das   Universidades,   nacionais   e   internacionais.   Procurou-­‐se,   desta  forma,  responder  a  uma  necessidade  identificada  pelo  sector  empresarial  ligado  à  indústria  do  vinho   na  região,  para  encontrar  soluções  para  os  cenários  globais  à  escala  regional  e  local.   Para  a  realização  deste  projecto  dedicado  à  compreensão  do  funcionamento  do  clima  na  Região  do  Douro,   a  ADVID  contou  com  a  colaboração  do  prestigiado  cientista  americano,  Prof.  Dr.  Gregory  Jones  (Southern   Oregon   University),   especialista   nas   consequências   das   alterações   climáticas   sobre   a   viticultura.   O   trabalho   consistiu   na   análise,   estabilização   e   credibilização   de   bases   de   dados   climáticos   existentes   e   na   estruturação  de  novas  abordagens  para  a  interpretação  do  clima  regional,  contribuindo  para  a  sua  melhor   compreensão,  uma  condição  essencial  à  projecção  de  cenários  futuros.     Actualmente,  este  Projecto-­‐Âncora  está  alicerçado  em  três  acções  complementares  entre  si:  a  avaliação  do   clima  da  Região  do  Douro  -­‐  análise  das  condições  climáticas  do  passado,  presente  e  futuro  para  a  produção   de   vinho,   a   definição   das   estratégias   de   adaptação   mais   eficazes   e   a   previsão   das   consequências   para   a   qualidade  do  vinho.  Estas  acções,  promovidas  e  financiadas  pelo  Cluster  dos  Vinhos  da  Região  do  Douro,   integram   vários   atores   importantes   do   Cluster,   nomeadamente   na   concretização   dos   projectos   “ClimeVineSafe”,   vocacionado   para   medidas   de   curto   prazo   na   mitigação   do   efeito   das   alterações   climáticas  e  ainda  pelo  apoio  ao  projecto  “Modelização  da  evolução  da  qualidade  do  vinho  na  RDD”.   Ainda  no  domínio  das  estratégias  de  adaptação,  importa  referir  que  o  Plano  de  Acção  do  Cluster  nos  seus   diversos   Projectos-­‐Âncora   executa   actividades   convergentes,   nomeadamente   o   estudo   de   uma   mais   eficiente  utilização  de  água  pelas  plantas,  a  criação  de  ferramentas  de  mapeamento  vitícola  (zonagem)  à   escala  da  região  e  da  propriedade,  a  promoção  da  sustentabilidade  integrada  da  produção  em  viticultura,  a   racionalização   das   operações   de   cultivo   da   vinha   em   encosta,   o   estudo   do   comportamento   de   castas   e   porta-­‐enxertos  e,  não  menos  importante,  a  preservação  da  biodiversidade  genética  do  património  vitícola   originário  do  território  português.                                                                                                                                                                                                                                                                A  Direcção  da  ADVID,  Julho  de  2012       1

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho SUMÁRIO  EXECUTIVO   A  História  mundial  da  viticultura  mostra  claramente  que  as  uvas  destinadas  à  produção  de  vinho   são  uma  espécie  de  cultivo  particularmente  sensível  às  condições  climáticas,  em  que  a  qualidade   de  produção  se  atinge  apenas  numa  faixa  geográfica  bastante  restrita.  Para  além  disso,  estas  são   uvas   cultivadas   maioritariamente   em   regiões   de   média   altitude   propensas   a   elevada   variabilidade   climática,  o  que  resulta  em  diferenças  relativamente  significativas  ao  nível  da  colheita,  em  termos   de   qualidade   e   produtividade.   A   evolução   histórica   e   as   projecções   futuras   dos   parâmetros   climáticos   para   regiões   vinícolas   mostram-­‐nos   ainda   que   ocorreram   alterações,   e   que   provavelmente  estas  continuarão  a  verificar-­‐se  no  futuro.  Esta  investigação  fornece  uma  avaliação   de   vários   aspectos   do   clima   numa   das   mais   históricas   regiões   vinícolas   do   mundo   –   o   Vale   do   Douro  português  –  com  o  objectivo  de  documentar  e  analisar  as  condições  climáticas  históricas,   atuais  e  futuras  da  região.     Embora   se   conheça   genericamente   o   clima   da   Região   Demarcada   do   Douro,   a   criação   de   um   banco  de  dados  completo,  de  alta  qualidade  e  longo  prazo  para  a  região  a  partir  de  uma  estação   meteorológica   tem   conhecido   limitações   quer   em   termos   espaciais,   quer   temporais.   Por   esse   motivo,  esta  avaliação  do  clima  serve-­‐se  dos  melhores  dados  disponíveis  de  três  tipos  principais:   1)  normais  climatológicas  históricas;  2)  estações  meteorológicas  na  Região  Demarcada  do  Douro;   3)  dados  climáticos  espaciais,  para  registos  passados  e  futuros  do  clima  na  região.  Para  além  disso,   a  avaliação  inclui  uma  análise  das  relações  entre  os  controlos  de  circulação  atmosférica  locais  de   larga  escala  e  a  variabilidade  climática  na  Região  Demarcada  do  Douro.   Dados   climáticos   espaciais   actualizados   para   o   período   1950-­‐2000   revelam   condições   climáticas   semelhantes   ao   normal   climatológico   de   1931-­‐1960   ao   longo   da   Região   Demarcada   do   Douro.  No   ciclo  vegetativo,  a  região  apresenta  uma  temperatura  média  de  17,8°C,  sendo  65%  espacialmente   classificada   como   um   tipo   de   clima   Temperado,   24%   como   um   tipo   de   clima   Intermédio   e   praticamente   10%   como   um   tipo   de   clima   Quente   no   índice   do   ciclo   vegetativo.   As   tendências   observadas   na   região   foram   analisadas   tanto   ao   nível   das   estações   individuais,   como   espacialmente   em   toda   a   extensão   da   região.   As   diferenças   entre   os   dados   de   1931-­‐1960   e   1950-­‐ 2000  revelam  que  o  último  período  foi  mais  quente  em  média  0,9°C  em  termos  de  temperaturas   anuais   ao   longo   da   região,   com   o   ciclo   vegetativo   e   o   inverno   a   registarem   temperaturas   superiores  em  1,2°C  e  0,4°C,  respectivamente.  Analisando  três  estações  de  longo  prazo  na  região   constata-­‐se   um   aquecimento   maior   nas   temperaturas   mínimas   comparativamente   às   temperaturas  máximas,  com  taxas  entre  os  1,2°C  e  3,6°C  durante  este  período.  Os  resultados  de   uma   análise   de   eventos   extremos   nas   três   estações   demonstram   alterações   significativas   para   ambos  os  extremos  das  temperaturas  máximas  e  mínimas,  com  globalmente  noites  mais  quentes,   dias  mais  quentes,  um  declínio  geral  na  amplitude  térmica  diurna,  um  maior  número  de  eventos   de  tensão  térmica,  alguma  evidência  de  vagas  de  calor  mais  prolongadas  e  uma  clara  redução  na   duração  das  vagas  de  frio.   As   condições   climáticas   futuras   na   Região   Demarcada   do   Douro   foram   analisadas   utilizando   projecções  SRES  do  IPCC  para  três  cenários  de  emissões  de  gases  de  estufa  (B2,  AB1  e  A2)  e  três   intervalos   temporais   futuros   (2020,   2050   e   2080).   Estima-­‐se   um   aumento   das   temperaturas       3

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho médias  anuais  para  todos  os  cenários  de  emissões  e  para  cada  intervalo  temporal.  As  projecções   variam   entre   0,5-­‐1,4°C   em   2020,   1,4-­‐3,3°C   em   2050   e   2,1-­‐5,1°C   em   2080.   Em   termos   de   temperatura   no   ciclo   vegetativo,   estima-­‐se   que   a   região   passe   de   uma   aptidão   climática   predominantemente   Pouco   Quente   (65%   da   área)   em   1950-­‐2000   para   uma   crescente   área   de   aptidão   climática   Quente   em   2020   (43%)   e   até   uma   aptidão   climática   Muito   Quente   em   2050   (36%).   Em   2080,   prevê-­‐se   que   o   padrão   espacial   de   temperatura   no   ciclo   vegetativo   apresente   19%  da  paisagem  como  Demasiado  Quente,  54%  Muito  Quente,  25%  Quente  e  menos  de  3%  Frio,   Temperado  ou  Pouco  Quente.  O  padrão  das  alterações  mostra  o  aquecimento  a  aumentar  mais   rapidamente   ao   longo   das   principais   secções   da   bacia   fluvial,   depois   no   Douro   Superior,   e   em   2080  nos  pontos  mais  altos  abrangendo  a  maior  parte  da  região.  A  nível  de  precipitação,  estima-­‐ se   que   as   alterações   para   a   Região   Demarcada   do   Douro   sejam   relativamente   baixas   ou   moderadamente  elevadas,  em  função  do  cenário  e  período  temporal.  Prevê-­‐se  que  as  alterações   em   termos   de   precipitação   média   anual   variem   entre   zero   e   até   menos   21,6%   no   cenário   A1B   em   2080.  A  maioria  das  alterações,  na  precipitação,  é  esperada  durante  o  ciclo  vegetativo,  estimando-­‐ se  uma  diminuição  na  ordem  dos  10-­‐42%  em  2080.  As  projecções  futuras  para  o  clima  na  região   resultantes  desta  avaliação  estão,  em  termos  gerais,  em  sintonia  com  outros  estudos  conduzidos   para  a  Europa,  a  Península  Ibérica  e  Portugal.   As  regiões  vinícolas  evoluíram  ao  longo  do  tempo  de  modo  a  adaptarem-­‐se  da  melhor  forma  às   condições   ambientais   locais,   permitindo   uma   maturação   genericamente   consistente   das   castas   consideradas   mais   adequadas   às   regiões.   Uma   vez   que   a   estrutura   climática   global   das   regiões   determina   a   aptidão   e   a   variabilidade   climática   influencia   de   forma   decisiva   as   variações   na   produção  e  qualidade  vindima  após  vindima,  a  taxa  estimada  e  magnitude  das  futuras  alterações   climáticas   trará   consigo   muito   provavelmente   inúmeros   potenciais   impactos   para   a   indústria   vinícola.   No   entanto,   a   Região   Demarcada   do   Douro   é   rica   em   características   fisiográficas   e   vegetativas   que   poderão   ajudar   a   mitigar   os   efeitos   nefastos   das   alterações   climáticas.   Em   primeiro   lugar,   a   geomorfologia   da   região   e   seu   relevo   contribuem   para   múltiplas   situações   de   meso   e   microclima,   que   poderão   criar   estratégias   de   adaptação   espacial.   Para   além   disso,   a   fisiografia   proporciona   aos   viticultores   várias   opções   em   termos   de   técnicas   de   cultivo,   permitindo-­‐lhes  gerir  a  dimensão  ecofisiológica  do  meio.  Um  aspecto  que  se  revestirá  de  grande   importância   será   a   forma   como   os   viticultores   irão   adaptar   a   paisagem   e   a   vinha   para   ajudar   a   equilibrar  globalmente  a  actividade  fotossintética  da  videira  e  as  perdas  de  água  por  transpiração.   Um  factor  de  grande  importância  na  gestão  das  mudanças  que  venham  a  ser  impostas  por  via  das   alterações  climáticas  reside  no  património  genético  do  material  vegetativo,  sobretudo  nas  castas   e  respectivo  comportamento  enológico.  Ainda  que  a  nível  dos  porta-­‐enxertos,  tenham  vindo  a  ser   estudadas  características  e  aptidões  para  a  resistência  à  secura,  é  sobretudo  no  vasto  património   das  castas  cultivadas  na  Região  Demarcada  do  Douro,  que  residirão  algumas  das  ferramentas  com   maior   potencial   ao   dispor   do   viticultor,   quer   pela   diferente   exigência   térmica   das   variedades   e   elasticidade  de  comportamento  fenológico,  quer  pelas  diferentes  respostas  fisiológicas.  Mediante   a   adopção   de   estratégias   sustentáveis   e   uma   abordagem   inovadora   de   todo   o   sistema   de   produção,   a   Região   Demarcada   do   Douro   conseguirá   indiscutivelmente   reduzir   a   sua   vulnerabilidade   e   aumentar   a   sua   capacidade   de   adaptação   perante   um   clima   em   mudança.     4

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho   INTRODUÇÃO   O   clima   é   um   factor   indissociável   do   sucesso   de   todos   os   sistemas   agrícolas,   ao   influenciar   a   adaptação   de   uma   casta   a   uma   determinada   região   e   controlar   a   respectiva   produção   e   qualidade,  potenciando  assim  a  sustentabilidade  económica.  Em  nenhuma  outra  actividade  agro-­‐ alimentar   a   influência   do   clima   é   mais   evidente   do   que   na   vitivinicultura,   sendo   especialmente   crítica  em  termos  globais  no  amadurecimento  do  fruto  com  vista  à  obtenção  das  características   óptimas  para  a  produção  de  um  dado  tipo  de  vinho.  Qualquer  análise  climática  para  a  produção   de   vinho   terá   de   considerar   um   grande   número   de   factores   que   atuam   a   diferentes   escalas   temporais   e   espaciais.   Concretamente,   a   influência   climática   pode   ocorrer   à   macroescala   (clima   sinóptico),  à  mesoescala  (clima  regional)  à  topoescala  (clima  local),  à  microescala  (clima  ao  nível   da  videira  e  da  vinha).  Para  além  disso,  a  influência  climática  depende  quer  de  condições  gerais,   quer  de  fenómenos  meteorológicos  singulares,  que  se  manifestam  através  de  várias  variáveis,  tais   como   a   temperatura,   a   precipitação   e   a   humidade.   Para   compreender   o   papel   do   clima   na   vitivinicultura   há   que   considerar   1)   a   estrutura   meteorológica   e   climática   necessária   à   obtenção   das   características   óptimas   de   qualidade   e   produção,   2)   a   aptidão   climática   para   as   diferentes   castas,  3)  a  variabilidade  climática  em  regiões  vinícolas  e  4)  a  influência  das  alterações  climáticas   na  estrutura,  adequação  e  variabilidade  do  clima.     ESTRUTURA  M ETEOROLÓGICA  E  CLIMÁTICA  PARA  A  QUALIDADE  E  PRODUÇÃO  DE  VINHO   A  nível  mundial,  são  as  condições  climáticas  médias  das  regiões  vinícolas   que  determinam   em   larga   escala   as   castas   que   aí   podem   ser   plantadas,   enquanto   a   produção   e   qualidade   dos   vinhos   é   influenciada   por   factores   específicos   do   local,   decisões   ao   nível   da   cultura   e   a   variabilidade   climática   de   curto   prazo   (Jones   e   Hellman,   2003).   Os   vários   factores   meteorológicos/climáticos  que  afectam  a  vitivinicultura  e  a  qualidade  do  vinho  incluem  a  radiação   solar,   a   temperatura   média,   os   extremos   de   temperatura   (tais   como   gelo   no   inverno,   geadas   primaveris   e   outonais,   e   stress   térmico   no   verão),   a   acumulação   de   calor,   o   vento,   a   precipitação,   a  humidade  e  características  do  balanço  hídrico  do  solo.  Apesar  da  ocorrência  de  inúmeros  efeitos   individuais   e   interactivos   entre   estes   factores   climáticos,   a   caracterização   mais   comum   do   mesoclima   em   regiões   vitícolas   pode   ser   feita   matematicamente   em   função   da   temperatura,   o   que  permite  o  cálculo  de  índices  bioclimáticos  (Fregoni,  2003;  Jones  et  al.,  2010).  Estes  índices  são   geralmente   determinados   ao   longo   de   um   período   de   tempo   importante   para   o   crescimento   e   produção  da  videira  (habitualmente  os  6  ou  7  meses  do  ciclo  de  crescimento  e  desenvolvimento   da   videira).   As   relações   entre   a   acumulação   de   calor,   o   crescimento   da   videira   e   o   potencial   de   maturação  foram  postuladas  por  A.P.  de  Candolle  no  século  XIX  a  partir  da  observação  de  que  o   crescimento   da   videira   iniciava   quando   a   temperatura   média   diária   atingia   os   10°C.   À   medida   que   foram  sendo  criados,  os  vários  índices  foram  geralmente  relacionados  com  a  tipicidade  dos  vinhos   passíveis   de   produção   com   classes   associadas   a   vinhos   de   castas   de   climas   frios,   até   vinhos   de   castas   de   climas   quentes,   até   vinhos   generosos   e   uvas   de   mesa.   Desenvolveram-­‐se   variadas   formas   destes   índices   bioclimáticos,   nos   quais   se   incluem   a   formulação   dias-­‐grau   do   Índice   de   Winkler  (Amerine  e  Winkler,  1944),  formas  distintas  de  um  Índice  Heliotérmico  (Branas,  1974;  e       5

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho Huglin,  1978),  o  Índice  de  Qualidade  de  Fregoni  (2003),  um  Índice  Latitude-­‐Temperatura  (Jackson   e  Cherry  1988;  Kenny  e  Shao,  1992),  e  um  índice  de  temperatura  média  do  ciclo  vegetativo  (Jones,   2006),   todos   eles   contribuindo   para   aferir   a   aptidão   de   uma   região   para   a   plantação   de   determinadas  castas.   Face  à  importância  de  que  se  reveste  para  o  equilíbrio  da  videira,  a  qualidade  e  produção   do  fruto,  bem  como  a  pressão  de  doenças,  o  conhecimento  das  relações  hídricas  assume  grande   relevo  para  qualquer  região  vinícola.  Como  tal,  estes  factores  deverão  ser  avaliados  sob  diferentes   perspectivas:  1)  humidade  do  ar,  2)  frequência  e  distribuição  temporal  da  precipitação  local,  e  3)   capacidade   de   retenção   de   água   do   solo.   Para   além   disso,   cada   um   destes   aspectos   da   disponibilidade   de   água   pode   também   ser   avaliado   em   termos   de   um   balanço   hídrico.   Uma   precipitação  intensa  na  fase  inicial  do  ciclo  vegetativo  é  benéfica  (Jones  e  Davis,  2000a,  2000b),   mas  durante  a  floração  pode  reduzir  ou  retardar  a  abertura  dos  botões,  e  durante  o  período  de   crescimento   dos   bagos   pode   aumentar   a   probabilidade   de   ocorrência   de   doenças   fúngicas,   continuando  durante  a  maturação  a  potenciar  os  fungos  responsáveis  por  doenças,  e  provocar  o   amarelecimento  e  a  diluição  dos  bagos,  e  dessa  forma  reduzir  os  níveis  de  açúcar  e  sabor,  e  limitar   consideravelmente  a  respectiva  produtividade  e  qualidade  (Mullins  et  al.,  1992).  Uma  análise  das   regiões   vitícolas   espalhadas   pelo   mundo   sugere   que   não   existe   um   limite   máximo   para   a   quantidade   de   precipitação   necessária   ao   óptimo   crescimento   e   produção   da   videira   (Gladstones,   1992).   Por   outro   lado,   a   viabilidade   da   videira   parece   estar,   em   alguns   climas   quentes,   condicionada   por   níveis   de   precipitação   inferiores   a   500   mm,   apesar   disto   poder   ser   ultrapassado   por   irrigação   periódica,   se   possível.   Eventos   meteorológicos   extremos,   como   é   o   caso   de   tempestades   com   ocorrência   de   trovoadas   e   de   granizo,   apesar   de   pouco   frequentes   na   generalidade  das  regiões  vitícolas,  são  altamente  prejudiciais  para  a  cultura.  Estes  eventos  podem   danificar   gravemente   folhas,   gavinhas   e   bagos   durante   o   seu   crescimento.   No   período   de   maturação,   podem   ainda   conduzir   ao   fendilhamento   dos   bagos,   provocando   oxidação,   fermentação  precoce  e  uma  redução  considerável  do  volume  e  da  qualidade  da  vindima.   Integrando  uma  série  de  parâmetros  climáticos,  um  balanço  hídrico  do  solo  considera  as   variações   sazonais   da   temperatura,   a   precipitação   e   a   humidade   do   solo   disponível   visando   calcular  as  necessidades  em  termos  de  água  (seja  ela  de  origem  natural  ou  irrigada).  No  essencial,   um   balanço   de   água   define   as   necessidades   hídricas   das   plantas   e   da   atmosfera   em   qualquer   região.   A   maioria   das   regiões   vitícolas   regista   entre   o   final   do   outono   e   final   da   primavera   um   período  com  um  excedente  de  água  no  solo,  a  que  no  verão  se  segue  um  período  de  diminuição   da  humidade  do  solo  através  de  evaporação  (pela  atmosfera)  e  transpiração  (pelas  plantas),  que   se  estende  até  ao  início  do  outono,  altura  em  que  a  precipitação  dá  início  à  reposição  dos  níveis   no  solo.  Um  bom  restabelecimento  da  humidade  no  solo  durante  a  primavera  pode  fomentar  o   crescimento   da   videira   e   potenciar   uma   floração   e   um   vingamento   mais   eficazes   (Williams,   2000).   Apesar   da   existência   de   alguma   humidade   no   solo   durante   o   período   de   crescimento   no   verão   poder   reduzir   o   stress   térmico,   uma   humidade   demasiado   elevada   pode   resultar   num   incremento   excessivo   do   crescimento   vegetativo   e   numa   maturação   inadequada   (Matthews   e   Anderson,   1988),  acompanhados  de  um  atraso  na  queda  da  folhagem,  que  torna  a  videira  mais  vulnerável  a   eventos  de  geada/gelo  no  final  do  outono.       6

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho APTIDÃO  CLIMÁTICA  PARA  AS  CASTAS   A   aptidão   de   uma   casta   a   uma   dada   região   é   determinada   pelo   clima   de   base.   Historicamente   têm   sido   utilizados   inúmeros   sistemas   de   medição  com   base   na   temperatura   (por   ex.  dias-­‐grau,  temperatura  média  do  mês  mais  quente,  temperaturas  médias  do  ciclo  vegetativo,   etc.)   para   definir   climas   óptimos   para   as   várias   castas   (Gladstones,   1992).   À   escala   global,   os   limites  gerais  que  determinam  uma  aptidão  climática  para  viticultura  situam-­‐se  entre  os  12-­‐22°C   para   o   ciclo   vegetativo   em   cada   hemisfério   (Gladstones,   2004;   Jones,   2007;   Figura   1).   Como   se   depreende  da  Figura  1,  a  delimitação  climática  de  12-­‐22°C  ilustra  genericamente  uma  aptidão  de   média  latitude  para  a  produção  da  uva,  sendo  que  várias  zonas  subtropicais  a  tropicais  em  cotas   mais   elevadas   também   se   inserem   nessas   zonas   climáticas.   Além   disso,   qualquer   representação   geral  de  temperaturas  médias  irá  também  incluir  zonas  extensas  habitualmente  não  associadas  ao   cultivo  da  vinha.  Isso  mesmo  se  depreende  da  Figura  1,  em  que  vastas  áreas  da  Europa  de  leste,   do  oeste  da  Ásia,  da  China,  do  centro-­‐oeste  e  leste  dos  Estados  Unidos,  do  sudeste  da  Argentina  e   do  sudeste  da  África  do  Sul,  bem  como  o  sul  da  Austrália,  se  inserem  nos  limiares  12-­‐22°C.  Apesar   destas   regiões   apresentarem   temperaturas   propícias   ao   cultivo   da   vinha   no   ciclo   vegetativo,   outros   factores   condicionantes,   caso   das   temperaturas   mínimas   no   inverno,   das   geadas   primaveris   e   outonais,   da   curta   duração   das   estações   de   crescimento   e   da   disponibilidade   de   água,  colocariam  entraves  à  maioria  das  regiões  mapeadas  em  função  das  condições  médias.   Figura   1:   Regiões   vinícolas   globais   e   zonas   com   isotérmicas   de   12-­‐22°C   para   o   ciclo   vegetativo   (Abril   a   Outubro   no   Hemisfério  Norte  e  Outubro  a  Abril  no  Hemisfério  Sul).  As  regiões  vinícolas  derivam  de  delimitações  definidas  pelas   entidades   dos   diversos   países   (por   ex.,   as   "American   Viticultural   Areas”   nos   Estados   Unidos,   “Geographical   Indications”  na  Austrália  e  no  Brasil,  e  “Wine  of  Origin”  na  África  do  Sul)  ou  são  áreas  de  cultivo  da  vinha  identificadas   por   detecção   remota   (por   ex.,   “Corine   Land   Cover”   para   a   Europa)   ou   por   imagens   aéreas   (por   ex.,   Canadá,   Chile,   Argentina  e  Nova  Zelândia).  (Jones  et  al.,  2012).     Analisando   em   mais   pormenor   a   aptidão   climática   de   muitas   das   castas   mais   difundidas   pelo  mundo,  Jones  (2006)  mostra  que  a  produção  de  vinho  de  alta  qualidade  está  condicionada   por  temperaturas  médias  do  ciclo  vegetativo  na  ordem  dos  13-­‐21°C  (Figura  2).  A  zonagem  clima-­‐ maturação   na   Figura   2   teve   por   base   o   clima   e   ciclo   vegetativo   de   muitas   castas   cultivadas   em   regiões  frias  a  quentes,  nas  zonas  de  referência  para  essas  vinhas  em  todo  o  mundo.  Apesar  de       7

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho muitas   dessas   castas   serem   cultivadas   e   utilizadas   para   a   produção   de   vinho   fora   dos   limites   individuais   ilustrados   na   Figura   2,   trata-­‐se   predominantemente   de   vinhos   a   granel   (de   grande   produção)  para  um  segmento  inferior  de  mercado,  que  geralmente  não  atingem  a  tipicidade  ou   qualidade   que   essas   mesmas   castas   revelam   quando   se   desenvolvem   no   seu   clima   ideal.   Além   disso,  temperaturas  médias  do  ciclo  vegetativo  inferiores  a  13°C  estão  habitualmente  limitadas  a   castas   híbridas   ou   de   maturação   precoce   que   poderão   não   ter   um   forte   apelo   comercial.   Nos   limites   de   clima   superiores   pode   encontrar-­‐se   também   alguma   produção   com   temperaturas   médias   no   ciclo   vegetativo   superiores   a   21°C,   não   obstante   esta   consista   quase   exclusivamente   em   vinhos   generosos,   uvas   de   mesa   e   uvas   passas.   Pesquisas   recentes   conduziram   ao   mapeamento   destes   limites   climáticos   na   Europa   (Jones   et   al.,   2009),   na   Austrália   (Hall   e   Jones,   2010)   e   na   zona   oeste   dos   Estados   Unidos   (Jones   et   al.,   2010),   detalhando   no   âmbito   da   adequação   climática   da   região   os   tipos   de   clima   frio,   temperado,   pouco   quente   e   quente.   Este   estudo   contribui   para   a   representação   da   estrutura   climática   espacial   efectiva   das   regiões   vinícolas,   em   substituição   da   prática   comum   de   recorrer   às   estações   meteorológicas,   que   claramente  não  caracterizam  com  rigor  os  climas  sentidos  nas  regiões  de  plantação  de  vinha.   Castas:  agrupamentos  clima  /  maturação Frio Intermédio Temperado Temperatura  média  do  ciclo  vegetativo  (HN  Abr-­‐Out;  HS  Out-­‐Abr) Quente e Comprimento  do  rectângulo  indica  o  espaço  estimado  de  maturação  da  variedade   Figura  2:  Agrupamentos,  clima-­‐maturação,  baseados  nas  relações  entre  requisitos  fenológicos  e  temperaturas  médias   no   ciclo   vegetativo   para   a   produção   de   vinho   de   qualidade   alta   a   premium   nas   regiões   de   referência   em   todo   o   mundo  para  muitas  das  castas  mais  comuns  a  nível  mundial.  A  linha  pontilhada  na  extremidade  das  barras  indica  que   poderão  ainda  ocorrer  ajustes  à  medida  que  ficarem  disponíveis  mais  dados,  sendo  altamente  improváveis  alterações   superiores  a  +/-­‐  0,2-­‐0,5°C  (Jones,  2006).         8

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho VARIABILIDADE  CLIMÁTICA  EM  REGIÕES  VINÍCOLAS   Enquanto  a  estrutura  climática  média  de  uma  região  determina  genericamente  a  aptidão   das   castas,   a   variabilidade   climática   influencia   questões   do   foro   do   risco   de   produção   e   qualidade   relacionadas   com   a   equidade   do   clima   ano   após   ano.   A   variabilidade   climática   nas   regiões   vinícolas  tem  impacto  sobre  a  produção  da  uva  e  do  vinho  através  de  extremos  da  temperatura   mínima  durante  o  inverno  em  algumas  regiões,  a  frequência  e  severidade  de  geadas  na  primavera   e   no   outono,   eventos   de   temperaturas   elevadas   durante   o   verão,   precipitação   ou   granizo   intensos,  assim  como  condições  de  seca  espaciais  e  temporais  generalizadas.  Os  mecanismos  de   variabilidade   climática   que   influenciam   as   regiões   vinícolas   estão   associados   a   interacções   atmosféricas   e   oceânicas   de   larga   escala   que   atuam   em   escalas   espaciais   e   temporais   distintas   (Figura  3).  O  maior  de  entre  estes  é  o  fenómeno  de  larga  escala  El  Niño-­‐Oscilação  Sul  na  zona  do   Pacífico  (ENSO)  (Glantz,  2001),  com  ampla  influência  nos  climas  das  regiões  vinícolas  da  América   do  Norte,  Austrália  e  Nova  Zelândia,  África  do  Sul,  América  do  Sul  e  Europa  (Jones  et  al.,  2012).  No   entanto,   a   dimensão   dos   efeitos   do   ENSO   na   variabilidade   climática   das   regiões   vinícolas   varia   grandemente,   podendo   apresentar   um   sinal   contrário   em   função   da   localização   da   respectiva   região  vinícola,  e  estando  frequentemente  aliado  a  outros  mecanismos  regionais  mais  influentes   (Jones  e  Goodrich,  2008).   Figura   3:   Regiões   vinícolas   globais,   mecanismos   da   variabilidade   climática   e   suas   áreas   de   influência   conhecidas,   conforme  descrito  no  texto.  ENSO  –  El  Niño-­‐Oscilação  Sul,  PDO  –  Oscilação  Decadal  do  Pacífico,  NAO  –  Oscilação  do   Atlântico   Norte,   IOD   –   Dipolo   do   Oceano   Índico,   AO   –   Oscilação   Ártica,   AAO   –   Oscilação   Antártica,   SST   –   Temperatura   da  Superfície  do  Mar.  As  regiões  vinícolas  são  as  descritas  na  Figura  1  (Jones  et  al.,  2012).     No   que   se   refere   à   Europa,   o   mecanismo   de   variabilidade   climática   dominante   é   a   Oscilação   do   Atlântico   Norte   (NAO;   Figura   3),   que   exerce   uma   grande   influência   climática   sobre   o   Oceano  Atlântico  Norte  e  as  massas  de  terra  adjacentes  (Hurrell,  2003).  A  NAO  está  associada  a   alterações  nos  ventos  de  oeste  ao  longo  da  superfície  do  Atlântico  Norte  devido  a  uma  oscilação   de   larga   escala   na   massa   atmosférica   entre   a   alta   subtropical   e   a   baixa   polar.   O   índice   correspondente  que  caracteriza  numericamente  a  NAO  varia  de  ano  para  ano,  sinalizando  todavia   uma  tendência  para  permanecer  numa  mesma  fase  por  períodos  que  duram  vários  anos.  A  fase   positiva   do   índice   NAO   revela   um   centro   de   alta   pressão   subtropical   mais   forte   do   que   habitual       9

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho (anticiclone   dos   Açores)   e   uma   depressão   excepcionalmente   mais   intensa   na   Islândia.   A   maior   diferença   de   pressão   sobre   o   Atlântico   Norte   resulta   em   tempestades   de   inverno   mais   fortes   e   frequentes   sobre   o   Oceano   Atlântico   numa   latitude   mais   a   norte.   No   que   toca   à   Europa,   a   fase   positiva   traduz-­‐se   em   invernos   mais   quentes   e   húmidos   nas   regiões   a   norte   e   condições   mais   quentes   e   secas   ao   longo   da   bacia   do   Mediterrâneo.   Para   além   disso,   o   norte   do   Canadá   e   a   Gronelândia   assistem   a   invernos   frios   e   secos,   enquanto   o   leste   dos   EUA   regista   condições   de   inverno   amenas   e   húmidas.   A   fase   negativa   do   índice   NAO   revela   uma   alta   subtropical   e   depressão   da   Islândia   pouco   intensas,   sendo   que   o   menor   gradiente   de   pressão   resulta   em   tempestades  de  inverno  menos  fortes  e  frequentes  com  um   trajecto  mais  orientado  de  este  para   oeste.  Regra  geral  isto  reflecte-­‐se  em  condições  de  advecção  de  ar  húmido  e  maior  precipitação   no  Mediterrâneo,  bem  como  condições  de  frio  e  seca  no  norte  da  Europa.  A  costa  leste  dos  EUA   assinala  mais  vagas  de  ar  frio,  que  se  traduzem  em  condições  meteorológicas  de  neve,  ao  passo   que  a  Gronelândia  conta  com  temperaturas  de  inverno  mais  amenas.   As   relações   entre   a   NAO   e   o   cultivo   da   vinha   na   Europa   são   pouco   claras,   revelando   no   essencial  pouca  ou  nenhuma  correlação  (Jones,  1997).  Isto  deve-­‐se  provavelmente  ao  facto  de  a   NAO  ser  em  larga  medida  um  mecanismo  de  inverno,  com  efeitos  decrescentes  ao  longo  do  ciclo   vegetativo.   No   entanto,   há   indícios   de   que   a   fase   positiva   da   NAO   fomenta   estações   de   crescimento   mais   secas   na   Península   Ibérica   e   no   Mediterrâneo,   que   se   traduzem   numa   menor   qualidade   e   produtividade   (Esteves   e   Manso-­‐Orgaz,   2001;   Grifoni   et   al.,   2006).   Ambas   as   fases   podem   acarretar   problemas   para   as   vinhas   do   norte   da   Europa,   sendo   que   uma   NAO   positiva   importa  numa  maior  precipitação  e  pressão  de  doenças,  enquanto  a  fase  negativa  apresenta  um   risco  de  geada  mais  acentuado  durante  a  primavera.  Além  disso,  recorrendo  a  dados  históricos  de   vindimas   no   nordeste   de   França   e   na   Suíça,   Souriau   e   Yiou   (2001)   demonstraram   correlações   significativas   entre   esses   dados   das   vindimas   e   a   NAO,   recomendando   a   utilização   do   registo   “como  um  instrumento  interessante”  para  reconstruir  a  NAO  recuando  no  tempo.  Não  obstante  o   ENSO   desempenhar  um  papel  importante  na  determinação  da  variabilidade  climática  interanual   em   latitudes   inferiores,   a   sua   influência   no   clima   europeu   é   reduzida   (Mathieu   et   al.,   2004)   ou   dificilmente  distinguível  dos  efeitos  da  NAO  (Rodó  e  Comín,  2000).   Sem   desconsiderar   o   impacto   óbvio   das   alterações   climáticas   nas   condições   climáticas   médias   das   regiões   vinícolas   a   nível   mundial   (ver   abaixo),   não   pode   no   entanto   ser   igualmente   descurada  a  importância  da  variabilidade  do  clima.  Uma  intensificação  da  variabilidade  climática   de  uma  dada  região  iria  acentuar  os  riscos  associados  aos  extremos  climáticos,  o  que  por  sua  vez   ameaçaria   a   viabilidade   económica   da   produção   de   vinho   em   qualquer   região.   Ambas   as   observações  e  modelos  sugerem  que  os  climas  sofrem  alterações  quer  em  termos  de  temperatura   média  quer  em  termos  de  variabilidade  das  temperaturas  nas  regiões  vinícolas  e  restantes  zonas   (Jones,   2007).  Por   exemplo,   se   a   reacção   às   alterações   de   um   aquecimento   climático   só   ocorresse   ao   nível   da   média,   haveria   menos   tempo   frio   e   mais   tempo   quente   e   recordes   de   calor.   Por   outro   lado,  o  acentuar  da  variação  da  temperatura,  por  si  só,  resultaria  em  mais  tempo  frio  e  quente,   bem  como  condições  recorde.  No  entanto,  as  evidências  deixam  antever  que  um  aumento  quer   na  média  quer  na  variabilidade  teria  como  consequência  menos  eventos  de  tempo  frio  e  muitos   mais  eventos  de  tempo  quente  e  recordes  de  calor  (IPCC,  2007).  Schär  et  al.,  (2004),  por  exemplo,       10

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GREGORY JONES | UMA AVALIAÇÃO DO CLIMA PARA A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO uma análise das condições climáticas do passado, presente e futuro para a produção de vinho demonstraram  que  a  estrutura  climática  europeia  no  verão  deverá  sofrer  um  aumento  acentuado   na   sua   variabilidade   ao   longo   dos   anos   em   reacção   aos   gases   com   efeito   de   estufa.   Sendo   as   ondas  de  calor  provocadas  por  padrões  entranhados  de  alta  pressão  e  bloqueio,  um  tal  aumento   na  variabilidade  poderia  explicar  o  verão  europeu  atípico  de  2003,   reflectindo-­‐se  fortemente  na   incidência   futura   de   ondas   de   calor   e   períodos   de   seca.   Também   Jones   (2005)   e   Jones   et   al.   (2005a)  encontraram  indícios  para  uma  mudança  na  variabilidade  climática  em  regiões  vinícolas,   na  medida  em  que  o  coeficiente  de  variabilidade  nos  climas  das  estações  de  crescimento  em  todo   o   oeste   dos   EUA   e   muitas   outras   regiões   vinícolas   tem   vindo   a   aumentar   globalmente   ao   longo   dos   últimos   50   anos.   Jones   et   al.   (2005a)   constataram   ainda   que   as   projecções   do   modelo   até   2050  mostram  um  crescimento  contínuo  do  coeficiente  de  variabilidade  das  temperaturas  no  ciclo   vegetativo  em  20  de  27  regiões  vinícolas  globalmente  consideradas.   ALTERAÇÕES  CLIMÁTICAS,  VITICULTURA  E  VINHO   Da   abordagem   anterior   à   estrutura   climática,   aptidão   e   variabilidade   associadas   à   produção   de   vinho   regional   a   mundial,   depreende-­‐se   claramente   que   as   regiões   vitícolas   se   localizam   em   áreas   geográficas   e   climáticas   relativamente   restritas.   Acresce   a   isso   o   facto   de   as   castas  apresentarem  grandes  diferenças  a  nível  da  aptidão  climática,  o  que  vem  limitar  a  presença   de  certas  vinhas  a  zonas  ainda  mais  restritas  adequadas  à  sua  plantação.  Estes  pequenos  “nichos”,   sinónimo  de  qualidade   e   produção   óptima,   tornam   a   plantação   de   vinhas   para   produção   de  vinho   mais  susceptível  à  variabilidade  climática  de  curto  prazo  e  a  alterações  climáticas  de  longo  prazo   do   que   outras   culturas   realizadas   em   extensões   maiores   (Jones,   2007).   Regra   geral,   em   termos   globais   o   tipo   de   vinho   produzido   numa   determinada   região   é   resultado   do   clima   de   base,   enquanto   a   variabilidade   climática   determina   as   diferenças   de   qualidade   a   nível   da   vindima.   As   alterações   climáticas   reflectem-­‐se   quer   na   variabilidade,   quer   nas   condições   médias,   podendo   portanto   provocar   alterações   nos   tipos   de   vinho   (Jones,   2007).   O   nosso   entendimento   das   alterações   climáticas   e   respectivos   potenciais   impactos   na   viticultura   e   produção   de   vinho   reveste-­‐se   de   importância   crescente   à   medida   que   o   sistema   terrestre   é   sujeito   a   ciclos   e   flutuações  naturais,  bem  como  a  variações  nas  concentrações  dos  gases  com  efeito  de  estufa  e  a   alterações  nas  características  da  superfície  terrestre,  as  quais  modificam  o  balanço  de  radiação  da   Terra,  a  circulação  atmosférica  e  o  ciclo  hidrológico  (IPCC,  2007).  As  tendências  de  aquecimento   observadas  ao  longo  dos  últimos  cem  anos  têm-­‐se  revelado  assimétricas  relativamente  aos  ciclos   sazonais  e  diurnos,  com  aquecimento  mais  acentuado  durante  o  inverno  e  a  primavera  e  à  noite   (Karl  et  al.,  1993;  Easterling  et  al.,  2000).  As  tendências  observadas  a  nível  das  temperaturas  têm   sido   associadas   à   viabilidade   da   produção   agrícola,   uma   vez   que   influenciam   a   potencial   resistência  ao  inverno,  a  ocorrência  de  geadas  e  a  duração  das  estações  de  crescimento  (Carter  et   al.,  1991;  Menzel  e  Fabian,  1999;  Easterling  et  al.,  2000;  Nemani  et  al.,  2001;  Moonen  et  al.,  2002;   Jones,  2005).   Para   situar   a   vitivinicultura   no   contexto   da   aptidão   climática   e   do   potencial   impacto   derivado  das  alterações  climáticas,  a  Figura  2  fornece  o  enquadramento  para  a  análise  do  actual   potencial  de  amadurecimento  clima-­‐maturação  para  castas  de  primeira  qualidade  cultivadas  em   climas   frios,   temperados,   pouco   quentes   e   quentes   (Jones,   2006).   A   Cabernet   Sauvignon,   por       11

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