Revista Barbante - Ano II - Num. 09 - 27 de agosto de 2013

 

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sylvia cintrao, filipe couto, christina ramalho

Popular Pages


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revista ano ii nº 09 27 de agosto de 2013 liberdade para ser ouvir e ler ainda que tardia

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fotopoema de flávio chapevida

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editorial nesta edição apresentamos artigos sobre literatura christina ramalho reflete sobre a poesia épica de autoria feminina considerando sua importância na trajetória épica da literatura ocidental o riso ou a comicidade na obra de ariano suassuna é o tema do artigo escrito por Éverton de jesus mayara menezes e joilma santos escrevem sobre a imagem da mulher moçambicana no romance balada de amor ao vento da moçambicana de paulina chiziane a poesia de augusto dos anjos cheia de imagens que nos levam à reflexão sobre as doenças e a morte é contemplada pelo olhar de sandra erickson este número também reúne crônicas e um cordel sobre as manifestações que escreveram novas páginas nos livros de história do brasil revelando jovens que foram às ruas em busca de um país melhor e mais justo em síntese caros leitores esta é uma edição reivindicadora de uma literatura livre com espaço para letras femininas e masculinas dos mais diversos recantos e épocas e mais ainda da liberdade de busca pela poesia das ruas com semáforos abertos rosângela trajano editora

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fotopoema de flávio belezcura artigos

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a imagem da mulher moÇambicana no romance balada de amor ao vento de paulina chiziane joilma de lima cruz santos graduanda ufs mayara menezes santos graduanda ufs resumo o presente trabalho consiste na análise da imagem da mulher em moçambique a partir da obra balada de amor ao vento de paulina chiziane tendo em vista a atuação da mulher como fonte de sustento da família num ambiente de valores contrastantes no qual cultura e tradição se fundem e se tornam muito fortes dentro de uma sociedade patriarcal e poligâmica palavras-chave paulina chiziane moçambique crítica feminista abstract the present work is to analyze the image of women in mozambique with a view to its operations as a source of livelihood of the family environment in contrasting values in which culture and tradition merge and become very strong within a patriarchal and polygamous keywords paulina chiziane mozambique feminist critique introduÇÃo a obra balada de amor ao vento 1990 de paulina chiziane retrata o contexto feminino em moçambique África e tem como narradora sarnau a própria personagem principal que descreve liricamente a lembrança da infância de um amor adolescente que modifica constantemente os rumos de seu ambiente cultural marcado por casamentos tribais poligâmicos negociados através do lobolo o romance traz questões sobre o regime patriarcal e a poligamia existentes em algumas tribos moçambicanas e aborda também aspectos culturais que regem as mulheres que têm seu papel bem definido na sociedade desde o nascimento a base cultural da mulher moçambicana é de caráter comercial e isso se vê no romance em que substituída por 36 vacas sarnau deixa suas raízes familiares e passa a representar a rainha de nguila da família zucula ela representa o ser feminino em busca da construção de sua identidade na condição de ser humano rompendo com as tradições culturais de seu país através de ações que representam a angústia de seus desejos e sentimentos reprimidos num ambiente de valores contrastantes a análise que aqui propomos busca dar destaque ao enfretamento de sarnau como representante metonímica da mulher moçambicana às sobredeterminações de uma sociedade patriarcal e opressora para a mulher 1 moÇambique breve retrato histÓrico e polÍtico moçambique é um país localizado na costa oriental da África banhado pelo oceano Índico É

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constituído por três regiões a zona norte centro e sul nas quais se distribuem as províncias maputo capital sofala manica gaza tete niassa zambézia cabo delgado nampula e inhambane seu ambiente natural é muito diversificado niassa é a maior província desse país onde ainda é possível encontrar áreas cobertas de selva natural em contraste com as praias de areia branca e águas transparentes a ilha de moçambique em nampula é considerada patrimônio cultural da humanidade com edifícios de pedra de coral o museu de arte sacra a fortaleza de são sebastião o monumento a luís de camões que ali viveu dois anos e escreveu parte de os lusíadas esses edifícios dentre outros são vestígios da passagem por moçambique de vários povos e culturas ao longo dos séculos inclusive árabes indianos holandeses e europeus a ocupação desse território africano ocorreu por meio das migrações dos povos guerreiros bantos dominantes da agricultura da pesca do uso do fogo e do ferro que afastaram a população primitiva de caçador-coletores e iniciaram as construções de reinos cuja expansão provocava a subdivisão de seus clãs tribais dentre muitos impérios destaca-se o congo monomotapa luba e lozi antes da chegada dos portugueses os bantos já tinham contato com os árabes e com eles aprenderam a navegar e a comercializar através da língua franca o suahílis uma fusão das línguas africana e árabe cujo objetivo era comercial essa influência era marcada pelo sultanato que eram locais de luxo bem planejados e detalhados com casas bem mobiliadas de ouro e marfim louças de porcelana oriundas da china irã iraque síria egito além da influência das línguas inglesa e indiana e a língua nativa dos bantos o nígero-congolês a língua portuguesa tornou-se oficial após a colonização da ilha de moçambique que se iniciou em 1507 cada conquista era marcada pela criação de colônias comerciais e feitorias como a cidade de queliname localizada em torno do rio dos bons sinais em zambézia onde inicialmente vasco da gama acreditava estar a rota certa para a Índia falam-se em moçambique cerca de 43 línguas incluindo as línguas nacionais do país com os avanços territoriais sucederam-se as construções de catedrais fortalezas e mesquitas a dominação evoluía da comercialização do ouro 1505 a 1693 para a sua produção nos garimpos por meio do sistema de prazos em que os comerciantes portugueses ocuparam a terra que havia sido doada ou conquistada depois há a fase do marfim 1693 a 1750 e o comércio de escravos 1750 a 1860 cujas vítimas mais afetadas eram os macuas-lómué exportados principalmente para cuba com a abolição dos prazos criam-se condições para o surgimento de estados militares e a comercialização de escravos se torna mais intensa mesmo após a abolição em 1842 a opressão e o regime fascista colonial português auxiliados pelos jesuítas na catequese 1544/1546 obrigam os amistosos moçambicanos a lutar resistindo contra a colonização houve inúmeras resistências a partir do momento em que os portugueses expandiam a posse de territórios 1530 e 1544 para o interior da ilha de moçambique por exemplo com o falecimento do imperador chicuio os portugueses fundam a cidade de sena 1530 e com o enfraquecimento de outros reinos fundam lourenço-marques atual maputo tete cabo delgado a dominação ocorria também por meio de batizados para evangelização por exemplo o de um príncipe africano 1558 do monomotapa mupunzagatu com doações de oferendas 1561 do rei mavura que passa

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a se chamar d felipe i 1629 além de alguns africanos serem obrigados a ceder a pressões colonialistas como no caso da rainha chicova que oferece as minas de prata em troca de uma trégua e de várias especiarias 1607 do mesmo modo se dá a influência dos portugueses nos povos xonas para que estes rompessem o comércio com os árabes objetivando conquistar o comércio do ouro e do marfim desse império a partir desses acontecimentos crescem as revoltas africanas entre 1575 e 1589 dos povos jagas xonas bororos rongas macuas quintangonha e outros diversos a frente de libertação de moçambique frelimo inicia a luta pela liberdade de moçambique 25/09/1964 em cabo delgado o sucessor da primeira presidência da frelimo samora moisés machel proclamou a independência de moçambique em 25 de junho de 1975 no entanto essa história de lutas sucessivas pela libertação deixou a maior parte da população viver em extrema pobreza a economia chega a atingir 15 de crescimento em contrapartida às riquezas geradas na ilha principalmente após a colonização no início dos anos 80 o país sofre com um conflito armado dirigido pela resistência nacional de moçambique renamo com o apoio do regime apartheid sul-africano fazendo vítimas e destruindo a economia do país que chega ao fim em 1992 com um acordo geral de paz além da assinatura de um tratado pondo um fim a guerra civil de quinze anos as desigualdades sociais são alarmantes e exigem a implementação de políticas neoliberais negociadas por financeiras internacionais e sustentadas por doações ou financiamentos externos somente depois de quase duas décadas percebem-se algumas mudanças positivas em relação ao turismo principalmente na capital maputo moçambique é um país democrático constituído por um sistema político multipartidário cuja moeda é metical sua constituição republicana consiste no princípio da liberdade de associação e organização política dos cidadãos da separação dos poderes legislativo executivo e judiciário e a realização de eleições livres o atual estado político do país permite que novos horizontes sejam vislumbrados e direciona moçambique a uma evolução social e econômica 2 sobre o romance balada de amor ao vento balada de amor ao vento 1990 é o primeiro romance da escritora moçambicana paulina chiziane1 e abordar esse romance é sem dúvida penetrar na cultura moçambicana de forma direta pois tal como afirma freitas uma literatura em que o escritor se apropria da cultura local para legitimar uma conduta política solidária através de um discurso impregnado por uma simbologia integrada à religião pela língua pela etnia entre outros segmentos culturais que constroem um país a 1 segundo freitas 2012 p 62 paulina chiziane nasceu em gaza no dia 4 de julho de 1955 na vila manjacaze moçambique É filha de pai operário e mãe camponesa aos seis anos paulina saiu da zona rural e foi morar em lourenço marques atual maputo capital de moçambique fez sua formação primária em uma escola missionária católica situada em um bairro de pretos aculturados porém seus pais moravam em chamacuto um bairro habitado por pretos não aculturados começou o curso superior de lingüística na universidade eduardo mondlane mas não concluiu atualmente a escritora vive na zambézia zona nobre de moçambique.a crítica literária a aponta como a primeira mulher moçambicana a escrever um romance mas a autora se considera uma contadora de estórias e não uma romancista pelo fato de se inspirar nos contos em volta da fogueira o que a escritora considera como primeira escola de arte.

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partir da noção de moçambicanidade 2012 p 26 entendendo o romance de chiziane a partir dos elementos culturais nele presentes no decorrer da narrativa encontramos questões acerca do regime patriarcal e da poligamia existentes em algumas tribos moçambicanas bem como aspectos culturais que conduzem as mulheres moçambicanas cuja atuação social seu papel é demarcada e carregada sob certos aspectos de sofrimento submissão e dor o romance é composto por vinte capítulos os quais são narrados em primeira pessoa por uma voz feminina a protagonista sarnau personagem principal do enredo que é contado a partir das lembranças do passado da mesma fazendo um fluxo de memória inserido no tempo/espaço intercalando passado e presente apresentado ainda um tempo psicológico orientado pela espera dor e angústia mostrando a submissão e a inferioridade da mulher perante o homem/marido sarnau inicia a narrativa por meio das recordações que envolvem a cultura de rituais para as moças na busca de pretendentes nos ritos de iniciação para os rapazes entre esses rapazes está mwando de origem católica que quebra seus votos de sacerdócio ao se relacionar com sarnau contudo ele acaba assumindo uma postura cultural conflituosa ao seguir os costumes católicos de um casamento monogâmico arranjado pelos pais sumbi era uma moça rica e cristã sarnau prometo ser bom pai terás de mim tudo o que quiseres casar é que não compreende sarnau é o desejo dos meus pais e de todos os defuntos eu debatia-me com todas as forças,n quero amor tenho fome de amor p 23 a crise de sarnau em meio à impossibilidade de viver o encantamento desse amor a faz perder sua condição humana a tentativa de suicídio põe fim à vida que crescia em seu ventre e a presença de uma curandeira impermeabiliza qualquer presença desse ser símbolo da quebra de uma cultura multifacetada marcada intensamente pela imposição masculina o lago subiu-me até aos ombros até aos maxilares hesitei uns instantes e reflecti rápido vou quero morrer quero ser fantasma para atormentar esse mwando em todas as noites de lua cheia.» p 25 sarnau volta à condição social imposta à mulher moçambicana ao ser escolhida pela rainha para ser a primeira mulher de seu filho nguila o lobolo valor destinado à família de sarnau por conta do casamento retrata o valor comercial da mulher nesse ambiente africano sarnau a partir desse casamento arranjado passa a compor o papel de procriadora da família zucula num casamento poligâmico tal qual como o valor de mercadoria similar ao valor das vacas deixadas como pagamento do lobolo como se vê em o meu marido assinou o livro com uma caneta de ouro e eu apenas marquei o sinal do meu dedo p 34 ou em sarnau o lar é um pilão e a mulher o cereal como o milho serás amassada triturada torturada para fazer a felecidade da família como o milho suporte tudo pois esse é o preço da tua honra p 35 na cultura moçambicana a mulher está repleta de obrigações que tornam o espaço conflituoso e sarnau vivencia esse conflito em busca do amor sarnau aceita sua condição escrava e as novas esposas de nguila a demora para engravidar faz nguila rejeitá-la e seu conflito existencial compromete seu papel social embora ela tardiamente cumpra seu papel de mãe o que lhe provoca temporária sensação de harmonia alguns trechos revelam o tipo de vida a que sarnau se submeteu a partir do casamento e da realidade poligâmica:

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meu marido está ao lado de outra mulher mesmo na minha cama sorriem suspiram envoltos nas minhas capulanas novas meu deus eu sou cadáver eu gelo abre-te terra engole-me num só trago sarnau o teu homem é o teu senhor caminhei vencida para a fogueira e aqueci a água para o banho deles p 41 hum parece que choraste morreu alguém arremessou-me um violento pontapé no traseiro enviou-me uma bofetada impiedosa que fez saltar um dente sentei-me ao pé da fogueira e o sangue corria da boca em abundância p 42 o casamento poligâmico tribal está envolto de feitiçarias que envolvem disputas entre as esposas phati a quinta de sete esposas de nguila tenta destruir sarnau por meio de maldições e doenças de feitiçarias com inveja de sarnau pelo poder de rainha e por ela ser dona das riquezas do reino zucula cedidos sempre à primeira esposa a phati anda doida de ciúme envolveu-se em cenas de pancadaria com três das nossas irmãs foi ao curandeiro dela para nos enfeitiçar mas qual é o curandeiro capaz de matar seis esposas do rei só para satisfazer os caprichos de uma perversa crapulosa e ciumenta?» p 70 assim que descobre a traição de sarnau e mwando que ocasionalmente se reencontram nessa busca constante da pureza daquele amor do passado phati os delata para nguila sarnau tardiamente arrependese e foge com mwando por temer pelas suas vidas e pela vida de seu terceiro filho fruto de sua traição que é obrigada a deixar com nguila sem revelar que o filho era fruto de sua traição por outro lado com mwando sarnau pensa em reviver o amor que tanto buscava até mesmo em meio às diversas frustrações de seu casamento contudo por sua condição da mulher subjugada ao «poder marital» em lugar de felicidade destacam-se a relação de poder do homem sobre a mulher e o fato de ser tratada como mercadoria no decorrer de sua vida conjugal na continuidade do romance homens contratados para matar sarnau e mwando se aproximam e por medo mwando a deixa novamente sarnau grávida novamente sem seu berço familiar e sem amor sobrevive como prostituta em mafalala adquire doenças sexualmente transmissíveis engravida novamente e sozinha começa a vender tomates mwando reaparece convencendo sua filha e o filho de sarnau a aceitá-lo como pai «atacou-me com a arma que extermina todas as fêmeas do mundo colocou-se ao lado dos filhos fez a guerra e venceu viverá comigo tenho casa tenho negócio tenho dinheiro hei-de alimentá-lo.» p 116 nesse sentido balada de amor ao vento trata especificamente da cultura moçambicana e do papel da mulher que não visa propriamente a romper com as tradições de seu país mas repensá-las e revê-las de modo a ter uma posição igualitária na sociedade em que vive de certo modo recolhe-se do romance de chiziane uma crítica ao próprio comportamento das mulheres e sobre isso afirma freitas o mapeamento geográfico que chiziane faz de moçambique de acordo com os valore s sociais vigentes no norte centro e sul do país faz-nos entender que a escritora em suas obras ao mesmo tempo que mostra as idiossincrasias e as particularidades de uma tradição na qual as mulheres são menos privilegiadas também desenvolve uma crítica aopúblico feminino que ainda alimenta o sistema patriarcal levando-as a entender que mesmo a sociedade punindo-

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as por conta de suas lutas por mudança elas são seres humanos que trazem seqüelas de uma longa história de sofrimento por conta da sujeição feminina ao masculino e nem por isso estas mulheres deixam de cumprir os rituais de uma tradição que se ensina em suas tribos principalmente no que diz respeito ao aspecto religioso 2012 p 85 nesse sentido no romance sarnau se descreve como uma jovem de pouca beleza mas com características da mulher moçambicana que é destacada como fonte de sustento da família a mulher moçambicana representada inicialmente por sarnau vive no campo lutando para que não falte água milho e lenha no campo é mais belo o rosto queimado de sol são belas as pernas fortes e musculosas os calcanhares rachados são mais belas as mãos calosas os corpos que lutam ao lado do sol do vento e da chuva para fazer da natureza o milagre de parir a felicidade e a fortuna p 31 através da ativação da memória sarnau se inscreve e se constitui no universo feminino desarticulando as concepções de gênero cristalizadas nas culturas tradicionais moçambicanas mostrando a força de uma mulher oprimida mas determinada a se refazer mesmo depois de todo sofrimento vivido buscando na sua emancipação uma identidade cultural como mulher moçambicana visualizando possibilidades para sua trágica existência estou simplesmente recordando recordando estou dispersa uma parte de mim ficou no save outra está aqui nesta mafalala suja e triste outra paira no ar aguardando surpresas que a vida me reserva eu tenho um passado esta história que quero contar p 10 após a sua primeira experiência amorosa tudo começa no dia mais bonito do mundo beleza característica do dia da descoberta do primeiro amor p 10 sarnau atravessou a juventude e experimentou todas as contradições do universo feminino moçambicano que marcaram sua vida com muito sofrimento e poucas alegrias o amor adolescente o casamento poligâmico o ressurgimento do amor da adolescência a traição ao marido a fuga solitária e sua sobrevivência na mafalala onde passou pela prostituição adquiriu doenças mas sobreviveu em meio à luta de quem se viu dividida entre um amor que conheceu ainda na adolescência e um pensamento questionador sobre o papel social da mulher em moçambique foi em mambone saudosa terra residente nas margens do rio save que aprendi a amar a vida e os homens foi por esse amor que me perdi para encontrar-me aqui nesta mafalala de casas tristes paraíso de miséria p 9 nesse cenário sarnau movida por seus desejos e sentimentos desenvolve ações que representam não só os anseios e as angústias da mulher que busca uma identidade suprimida num ambiente de valores contrastantes mas também a esperança de dias melhores adquire um caráter desbravador que vai além de suas forças e de suas virtudes estabelecendo o papel da mulher que rompendo com a tradição e a cultura do seu país esboça um novo perfil na sociedade moçambicana enterrei o passado puxei o candeeiro soprei apagou-se mergulhamos na escuridão da paz no silêncio da paz no esquecimento de todas as coisas naquela ausência que encerra todas as maravilhas do mundo p 117 em função de sua atuação como mulher-personagem metonímica da condição feminina em moçambique sarnau dimensiona os próprios sistemas sociais moçambicanos conforme aponta freitas os sistemas sociais moçambicanos são questionados pela personagem sarnau narrando em primeira pessoa confronta os costumes e as tradições frente a uma mulher que tem desejos e sentimentos que a fazem viver um mundo de diretrizes perigosas o amor adolescente o casamento poligâmico o ressurgimento do amor da adolescência a traição ao marido a fuga solitária a sobrevivência na mafalala entre outros 2012 p 92

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consideraÇÕes finais balada de amor ao vento é um romance que destaca a voz feminina que busca repensar os conceitos patriarcais existentes em moçambique além de tratar das especificidades culturais moçambicanas o romance trata de problemáticas universais tais como a exploração feminina o preconceito o poder e a miséria pela primeira vez a crítica à monogamia e à poligamia é feita do ponto de vista da mulher moçambicana que mostra que não há muita diferença entre monogamia e poligamia uma vez que ambas estão inseridas num sistema que tem por finalidade a submissão das mulheres nesse breve estudo destacamos a importância de se ter acesso a obras representativas da cultura moçambicana como modo de compreender com mais profundidade o modo de ver e de sentir inerentes a essa cultura referÊncias bibliogrÁficas chiziane paulina balada de amor ao vento maputo associação dos escritores moçambicanos 1990 freitas sávio roberto fonseca de a condição feminina em balada de amor ao vento de paulina chiziane tese de doutorado joão pessoa ufpb 2012 disponível em http bdtd.biblioteca.ufpb.br/tde_busca/arquivo php?codarquivo=2353 consulta realizada em 31/06/2013 laranjeira pires literaturas africanas ou expressão portuguesa lisboa universidade aberta 1995 ramalho christina balada de amor ao vento representações do universo familiar moçambicano rio ufrj secco carmen lucia tindó ribeiro síntese da pré-história e da história de moçambique até a dominação total dos portugueses 1895 rio de janeiro ufrj 1997.

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fotopoema de flávio mangal

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a poesia épica de autoria feminina convergÊncias e divergÊncias christina ramalho ufs ramalhochris@ufs.br introdução em um tempo no qual as mulheres são bem sucedidas na superação de barreiras impostas pela ordem patriarcal que por sua vez deu forma às relações humanas no mundo a experiência da escritura épica abriu uma grande área de atividade literária para as mulheres uma vez que o épico por sua complexidade estrutural e suas ligações com a história mito e cultura em geral pode ser uma ferramenta para o dimensionamento de questões como a identidade nacional o significado da palavra cultura o conceito de heroísmo na contemporaneidade entre outros ou seja por meio do texto épico mulheres escritoras tomaram para si questões de âmbito cultural que lhes permitiram refletir fora do espaço do intimismo lugar onde suas falas pareciam adequadamente instaladas como a observação do cânone literário ocidental pode ratificar contudo dado o mesmo peso da tradição canônica que define a circulação de obras literárias logo surge uma questão contundente há poemas épicos escritos por mulheres centrada na observação da produção épica escrita por mulheres pude após anos de pesquisa afirmar categoricamente na tese de doutorado vozes épicas história e mito segundo as mulheres ufrj 2004 que havia e há sim poemas épicos escritos por mulheres ainda que a tradição ou o cânone épico não aponte para o reconhecimento dessa contribuição no âmbito de um gênero literário marcado teoricamente por um caráter bélico masculino e desejavelmente isento de subjetividade a novidade da afirmação foi tal que hoje quase dez anos depois ainda chega a surpreender a ideia de que há mulheres escrevendo o épico sustentada portanto por dados colhidos ao longo de mais de quinze anos de investigação sobre a poesia épica e pelo fator relevante para uma análise crítica que é a adesão ao épico por parte de escritoras a partir do século xx esta apresentação tem como objetivo mostrar aspectos convergentes e divergentes relacionados aos dados colhidos e analisados usando como exemplos epopeias escritas por algumas brasileiras pela chilena gabriela mistral e pela mexicana carmen boullosa o estudo iniciado em 1996 resultou em uma extensa análise da produção épica ocidental na tese buscando estabelecer um paralelo entre a produção épica de autoria masculina e a de autoria feminina abordei dezessete poemas épicos escritos por homens incluindo odisséia a divina comédia os lusíadas entre outros e dezessete de autoria feminina como as obras brasileiras a lágrima de um caeté e romanceiro da inconfidência e a epopeia chilena poema de chile de gabriela mistral o número de escritoras épicas que encontrei durante a investigação a me permitiu dimensionar como o épico ganhou forma a partir dos pontos de vista das mulheres sobre as matérias épicas que integram a cultura humana no entanto a pesquisa também destacou uma marca temporal que define esta produção a contemporaneidade a questão assim ganhou outra feição por que só nos séculos xx e xxi com raras exceções as mulheres escritoras se interessaram pela produção de poemas longos em cuja estrutura se percebem motivações de ordem histórica e mítica responder a esta pergunta me forçou a procurar rotas teóricas me permitissem defender a idéia de que a escrita épica foi uma conquista das mulheres no sentido de por meio dela contribuir eficazmente para as práticas revisionistas que procuram por meio de um novo olhar renovar também o que se entende como história nesse sentido os pensamentos de donna haraway elizabeth fox-genovese h aram veeser homi k bhabha joseph campbell julia kristeva lucia santaella michel maffesoli milton santos avram noam chomsky stuart hall terry eagleton umberto eco e zygmunt bauman constituíram a base para a abordagem ao crescimento do interesse de escritoras por poemas longos de feição épica enfoques teóricos a aspectos como o existencialismo a sexualidade o erotismo a psique a identidade o colonialismo o feminismo e o multiculturalismo e a conceitos como nação história e mito fizeram-se importantes no sentido de permitir a elaboração de respostas possíveis a esse novo domínio do feminino por outro lado independentemente da questão de gênero envolvida na autoria literária abordar o épico como um gênero literário vigente tornou-se bastante problemático uma vez que a crítica em geral também com algumas exceções deu o épico por morto após o século xviii e o máximo que a visão tradicional ainda diz é que poema longo com tom histórico e mítico produzido após esse decreto de falecimento resultaria em

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uma anacrônica épica lírica assim como base para abordar um gênero literário problemático eu recorri à semiotização épica do discurso teoria desenvolvida na década de 80 pelo pesquisador brasileiro anazildo vasconcelos da silva a partir das categorias discriminadas pela teoria e de algumas pesquisas sobre o heroísmo o sujeito pós-moderno e o mito na sociedade contemporânea desenvolvidas por mim durante a investigação tornou-se possível reconhecer a identidade épica dos poemas selecionados resumidamente a partir da teoria épica uma epopeia é caracterizada como uma manifestação discursiva e literária híbrida na qual são reconhecidos a dupla instância de enunciação lírica e narrativa configurando o eu-lírico/narrador a presença de três planos estruturais o histórico o maravilhoso e o literário a presença de uma matéria épica tema definido pela fusão das dimensões real e mítica o centramento em um sujeito ou vários sujeitos que integrando história e mito realiza o feito heróico o deslocamento espacial ou simbólico que normalmente define uma viagem e finalmente o uso de elementos tradicionalmente ligados ao gênero épico como a proposição a invocação e a divisão em cantos todavia está na matéria épica o principal ponto de partida para a compreensão de um poema longo como um épico feitos esses esclarecimentos iniciais parto para um maior detalhamento dos resultados da investigação e das convergências e divergências observadas dando destaque aos necessários aspectos teóricos envolvidos na abordagem ao épico e à produção épica de autoria feminina em si e a algumas das epopeias de autoria feminina que hoje integram a história da epopeia brasileira além da já citada obra de mistral e da obra la patria insomne de carmen boullosa 1 convergências e divergências em torno da tradição épica a matéria épica a dupla instância de enunciação os planos histórico maravilhoso e literário o heroísmo e os aspectos épicos originários da tradição dedicatória proposição invocação e divisão em cantos são elementos que devem ser observados quando se entra em contato com um poema longo para que se torne possível entendê-lo ou não como uma manifestação épica do discurso cuja origem inclusive remonta às tradições orais uma matéria épica resulta da fusão de duas dimensões uma real outra mítica inerentes por sua vez ao epos entendido um conjunto de manifestações materiais que são fruto do processo contínuo e encadeado de transmissão do repertório ideológico imaginário histórico e mítico que integra uma identidade sociocultural1 essa fusão produz uma temática épica passível de ser tomada para a elaboração de um poema longo identificado como epopeia entretanto é imprescindível salientar que a sociedade humana com sua grande diversidade oferece um sem número de matérias épicas passíveis de serem eleitas como temas tanto por poetas/isas épicos as como por poetas/isas líricos/as romancistas contistas dramaturgos/as pintores/as escultores/as etc ou seja não somente as epopeias contêm uma matéria épica em vista disso para chamar um texto de epopeia deve-se observar além da matéria épica a presença da dupla de enunciação lírica e narrativa evitando o equívoco de chamar de epopeia qualquer obra que contenha uma matéria épica ou seja uma das divergências envolvidas na abordagem à épica contemporânea reside na precariedade das bases teóricas acerca da evolução do gênero durante o estudo e já considerando os séculos xx e xxi como as marcas temporais relacionadas à presença em grande escala da expressão épica de autoria feminina destacou-se o fato de que o painel da historiografia ocidental a partir do século xx refletiu uma preocupação significativa com a dimensão do privado sabe-se que esta nova abordagem à história humana levou ao surgimento de várias histórias da vida privada e no âmbito da produção literária justificou o destaque do gênero ensaístico memórias biografias autobiografias crônicas etc por sua feição não mimética e mais atrelada à dimensão histórica do real quanto à autoria o claro privilégio do homem escritor eurocêntrico branco e de uma classe social privilegiada foi pouco a pouco implodido por uma realidade indiscutível o número cada vez maior de escritoras expressandose nos mais diferentes gêneros literários e contribuindo para o caráter cada vez mais híbrido as artes em geral a produção épica portanto deixou de ser reduto de uma elite canônica ou de segmentos privilegiados no seio da cultura humana mundial para se tornar meio de expressão de minorias que na verdade são maiorias hoje a produção épica não se restringe mais à tradição clássica e ao contexto europeu assim como não são mais apenas os homens que assumem a autoria épica ao contrário parece crescer a demanda do épico em nações em desenvolvimento e subdesenvolvidas como forma mesmo de abrir um espaço representativo 1 definição própria.

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para que suas culturas ganhem visibilidade tal fato se comprova com os estudos de ana mafalda leite sobre a modalização épica em países africanos e as importantes investigações de lilyan kesteloot sobre a épica em África e na Índia e igualmente cresce o interesse de mulheres escritoras por esse tipo de manifestação tal como se deu com teresa margarida da silva e orta século xviii nísia floresta século xix gabriela mistral e cecilia meireles século xx só para citar algumas escritoras que antecederam o atual quadro de múltiplas inscrições épicas femininas como pertinentemente observou lynn keller ao estudar modernos poemas longos americanos de autoria feminina a necessidade de se revistar a história a circulação mais democrática de epopeias e o caráter híbrido das produções artísticas contemporâneas pareceram contribuir para o retorno do épico que tanto se vincula à história como é uma manifestação literária híbrida que mescla recursos do gênero lírico e do narrativo de outro lado em tempos de globalização e multiculturalismo o épico ganha relevância como expressão que se alia aos movimentos contraculturais dando continuidade à abordagem aqui referenciada a análise de poemas épicos escritos por homens sustentou conclusões que definem convergências em torno dessa expressão em geral as conclusões sobre a produção épica da autoria masculina foram a a terra aparece normalmente antromorfizada e a ela é atribuída uma sexualidade feminina geralmente associada à virgindade e à posterior fecundação originada pela ação transformadora do homem responsável portanto pelo ato da criação de uma nova terra culturalizada b são constantes as referências a nossa senhora em suas diversas manifestações como a protetora das ações dos homens no masculino mesmo sobre a terra o que de algum modo permite inferir que o papel de nossa senhora reproduz o das deusas clássicas mediadoras das relações entre os seres humanos e a divindade nas epopeias clássicas ou de influência clássica c é igualmente constante a alusão ao ato sexual nas descrições do caminhar do herói pela terra há um centramento na imagem do falo como a força motriz da ação do homem no espaço físico d existe uma forte alienação principalmente no âmbito da produção épica moderna e pósmoderna escritas por homens no que se refere à inscrição da mulher na dimensão real como mão-de-obra ou força-de-trabalho e o corpo feminino é constantemente referenciado notadamente em imagens relacionadas ao ventre ao útero às entranhas e aos seios com o intuito de reforçar a sexualidade da mulher-fêmea e a predestinação da mulher-mãe f a circularidade cultural das imagens míticas tomadas ainda que não discutida com profundidade em cada obra é muitas vezes bastante perceptível ou seja o uso das imagens míticas parece reforçar a tendência ideológica impressa na proposição dos poemas g musas ninfas deusas e sereias compõem o quadro mais constante e mais superficial porque meramente alegórico entre os recursos épicos tradicionais mais utilizados nos poemas h são raros os momentos em que à mulher é dado o duplo acesso aos planos histórico e maravilhoso da epopeia ou seja são raros os momentos em que também a mulher na condição de personagem recebe uma condição heroica i a presença de mulheres nos poemas épicos escritos por homens é em geral inexpressiva se comparada por exemplo à presença de ações bélicas fenômenos da natureza relatos históricos etc j no plano histórico das epopeias são as mães as figuras mais recorrentes ao lado das amantes e das prostitutas k as dicotomias homem/mobilidade x mulher/imobilidade e homem/mente x mulher/corpo são duas das oposições sêmicas mais constantes nesses poemas l a figura do poeta como representante dileto de uma nação e sua cultura é no poema épico a figura de um homem m de modo surpreendente são as epopeias modernas e pós-modernas as que trazem índices mais visíveis das injunções patriarcais reforçadas por construções e imagens sexistas e preconceituosas evidenciando a necessidade de uma afirmação do masculino talvez decorrente da nova situação do homem no conjunto das experiências humano-existenciais dos séculos xx e xxi.

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