Chicos 38

 

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E-zine literária de Cataguases - MG

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chicos n 38 julho 2013 e-zine de literatura e ideias de cataguases ­ mg um dedo de prosa capa esta é a edição número 38 de 31 de julho de 2013 estamos em festa josé antonio pereira um dos nossos editores lança no dia 10 de agosto de 2013 seu livro de crônicas fantasias de meia pataca crônicas apareceram em primeira mão aqui no chicos abrimos a edição com kajal ahmad uma interessante poeta curda um dos povos que também perdeu seu território outra poeta presente é a nossa amiga flau ronaldo cagiano em seu incrível trabalho de mapeamento da poesia contemporânea argentina nos presenteia com a tradução de césar cantoni a poesia cabo-verdiana se apresenta com corsino forte como também funchal do poeta sueco tomas tranströmer numa tradução de alberto acosta publicamos em espanhol o poema cataguases do ascânio lopes adelto gonçalves apresenta um magnifico texto sobre a poesia de claudio sesín grande amigo divulgador da poesia brasileira na argentina e colaborador aqui no chicos eltânia andré em seu caminhar pela itália nos fala de dante e sua divina comédia antônio jaime em o nome da rosa em jf nos fala das peripécias nada ortodoxa dele e da sua trupe teatral em um seminário em juiz de fora mais adiante noutro texto fala do belo livro de fernando abritta recentemente lançado detalhe do azulejo as fiandeiras de portinari foto de vicente costa algumas de suas ronaldo brito roque em zoom passeia pelas artes em cataguases a última entrevista de manuel bandeira concedida a pedro bloch é incrível e bela compartilhamos com vocês em setembro a peça a quarta parede de carlos sérgio bittencourt inicia carreira em cataguases e muito mais vocês encontrarão por aqui desfrutem editores emerson teixeira cardoso josé antonio pereira colaboradores desta edição uma boa leitura para todos adelto gonçalves alberto acosta antônio jaime antônio perin eltãnia andré emanuel medeiros flausina márcia da silva ronaldo cagiano ronaldo brito roque sebastião nozza bielli lotti os chicos fale conosco em cataletras.chicos@gmail.com visite-nos em http chicoscataletras.blogspot.com secretaria municipal de cultura e turismo de cataguases biblioteca ascânio lopes e a livraria casa do livro convidam para o lançamento do livro fantasias de meia pataca de josé antonio pereira dia 10.08.2013 às 19.30hs

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sumário kajal ahmad direções e outros poemas flausina mÁrcia da silva feliz ano treze cÉsar cantoni jantávamos esta noite e outros poemas corsino fortes emigrante emanuel medeiros inventar antÔnio perin as reticências do tempo e outro poema ascÂnio lopes cataguases emerson teixeira cardoso poema que não realizei tomas tranströmer funchal antonio jaime nome da rosa em jf josÉ antonio pereira uma carta e seus destinos eltÂnia andrÉ antes de ler divina commedia adelto gonÇalves claudio sesín o poeta dos ocasos catamarquenhos emerson teixeira cardoso carteira de cronista antonio jaime sobre o caso da menina que perdeu a voz ronaldo brito roque zoom em cataguases sebastiÃo nozza bielli lotti propriedade particular uma entrevista a última entrevista de manuel bandeira teatro em cataguases a quarta parede de carlos sérgio bittencourt 03 10 11 13 16 17 19 21 fotos de vicente costa 22 23 24 25 27 29 30 31 33 34 38 as fiandeiras ­ candido portinari painel em azulejos

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kajal ahmad É uma poeta que escreve em curdo nascida em kirkuk no curdistão iraquiano em 1967 kajal ahmad começou a publicar sua poesia na idade de 21 anos ela já publicou quatro livros benderî bermoda 1999 wutekanî wutin 1999 qaweyek le gel ev da 2001 e awênem ikand 2004 kajal ganhou uma considerável reputação pelo seu trabalho admirável comovente e desafiador em todo o universo da língua curda seus poemas foram traduzidos para o árabe turco norueguês e inglês direções sempre que ele estava nas montanhas onde quer que ele tirasse os sapatos eles sempre apontavam para sua cidade mas nunca pensou que isso significasse que sua terra natal seria liberada agora que ele está na sua cidade onde quer que ele deixe os sapatos eles apontam para terras além da sua mas nunca ele sonha que um dia poderá vir quando sem ver a miragem de que no exílio sempre vê sem qualquer direção dos sapatos ele viajará através do coração de seu país a loja o mito na caixa de madeira de sua avó e no porão de uma casa feliz fechar muitas portas coloridas sobre ele como as portas de suas histórias de infância.

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pássaros de acordo com a mais recente classificação curdos agora pertencem a uma espécie de ave é por isso que ao longo das rasgadas páginas amareladas da história eles são nômades marcados por suas caravanas sim os curdos são pássaros e mesmo quando não há nenhum lugar à esquerda não há refúgio para a sua dor voltam-se para a ilusão de viajar entre o calor e o frio de sua terra natal então naturalmente eu não acho estranho que os curdos possam voar eles vão de país para país e não podem realizar seus sonhos de sedimentação de formar uma colónia eles não constroem ninhos nem mesmo em seu pouso final eles visitam mewlana para consultar a sua saúde ou curvar à poeira no vento suave como nali refere-se a uma famosa linha de nali poeta do século 17 eu sacrifico-me a sua poeira você vento suave mensageiro familiarizado com toda a sharazoor!

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gravidez ao contrário de seus amigos ela não pode se gabar de uma cintura fina seus quadris não balançam e balançam ela não se atreve a montar a roda e o navio de serchnar como fazia quando ela estava noiva ela está grávida por isso que ela é mais bonita do que as meninas a sua volta mais bonita do que os homens que à tarde passar por seu lamento entre as mulheres do bairro ela parece mais o amor-golpeado e mais animados olhando para ela faz muito tempo para melancia e você aprende a sonhar do choro de um bebê ou o riso como você tricotar um meia ou jumper um pouco sua cintura não é tão fina como uma harmônica mais o tempo para saias se expande e para jeans desaparece batom está agora ignorada juntamente com saltos altos e espelhos seus tempos áureos por usar vestidos de baile e maiôs é longo agora ela conversa ao seu próprio ventre sem saber de nós ou de si mesma que deus torne-o bom esta busca de nove meses nas estradas da vida e da morte que deus faça-o bom este destino que as mulheres enfrentam.

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mais generosa do que miriam marias do meu país quando a morte se torna uma necessidade vamos enfrentá-lo primeiro mães e não os nossos filhos nossa nação está tão solitária como o pai adão foi antes da fértil chegada de eva a mãe nossa nação está solitária e eu sou solitária o tédio cresceu como fungo no meu coração mas eu não estou cansada meu sorriso algumas vezes foi como pão quente na boca agora ele enrola nas bordas ah os poetas eu tenho sido como uma mulher grávida mas eu não aborto meus poemas nem tem poesia abortada de mim jesus quando é que você vem eu estou em pé no sirat a ponto de cair da ponte eu chorei tanto na casa do amor e da poesia que o conjunto de minhas lágrimas é coberto de algas.

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com ou sem poesia eu estou esperando esperando para atravessar esperando por você falando em vão e quem sabe se é tudo sobre mim ou sobre a terra depois de uma onda de náusea você caiu da ferida de minha boca você era uma folha de luz após seu nascimento palavras sangraram e nunca mais pararam sangue fez de mim uma poeta a louca poeta miriam antes de você nascer eu vim e construí em mim uma ponte entre a terra do meu coração e o céu do seu crânio o sangramento ainda continua será que para sempre naquele tempo a cruz não o tinha encontrado ainda ela procurou por toda parte se eu soubesse que seria indelicado ali mesmo em seu nascimento eu teria lhe dito para voltar para o útero seguro de sua mãe se eu soubesse que iriam chamá-lo o filho de deus eu nunca teria deixado você vir em primeiro lugar.

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como deus pode ser o pai do meu filho se eu nunca passei uma única noite em seus braços e se eu tiver por que me chamar a virgem mãe diga-me luz dos meus olhos quem você acha que é a mais pura eu ou miriam quem é mais no amor É a ferida no meu coração mais profunda do que a dela não é para eu dizer mas você a luz dos meus olhos ama a cantora jesus me diga não me chame de miriam você vai machucar o meu orgulho e meu coração vai quebrar certamente como uma mãe eu sou gentil miriam e eu diferimos no seguinte se eu fosse incapaz de comprar sua vida com a minha eu preferiria ficar cega a manter meus olhos eternamente abertos se eu não podia ser crucificada em seu lugar como eu poderia sentar-me complacentemente em um canto e nisto também que diferimos ao contrário dela eu não poderia desistir de você não para ninguém nem mesmo a deus o meu coração não me deixaria.

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deus não é a mãe cujo coração queima com piedade e que se aflige com a perda de um filho a maternidade é uma triste sepultura me tornando uma mãe enquanto eu ainda era virgem desde que dei à luz cristo você duvida de minha virgindade eleva suas facas eu não me importo jesus de areia jesus pai o que estou fazendo aqui se não para expor as mentiras do mundo eu não vou esperar por você para morrer só desta vez meu único filho em vez de manter sua cinza e guitarra de luto abraçadas ao cadáver de sua mãe eu vou morrer primeiro eu vou ter certeza disso eu não vou viver para ver o dia que a sua morte estará no meu colo versão antônio perin

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flausina márcia flausina márcia da silva poeta nascida em cataguases e radicada em belo horizonte onde trabalhou na secretaria de cultura de minas gerais publicou entre outros livros vagalume e sua casa minha cruz feliz ano treze esse ano que a chuva não recebeu entrado seco vai querer lágrimas esse ano ai que não amadureceu sofre verde de desencanto amarelo esse ano joga pedras búzios cartas embaralha presságios confunde a razão esse ano bem que o calendário podia passar sem ele dar a volta nele desmenti-lo esse ano que eu não pedi aos deuses chega pagão deve tudo pra todo mundo esse ano ai com essa terminação é sem reticências é tresandado esse ano bem que vou gostar de passar sem ele dar a volta nele desmenti-lo.

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césar cantoni nasceu em la plata 1951 argentina onde vive É autor dentre outros de confluências 1978 linaje humano 1984 continuidad de la noche 1993 la salud de los vigorosas mais significantes que quando estão inseridas em outros discursos trata-se de um poeta cuja proposta estética é ressonância de uma visão aguçada da realidade de seu país em cuja arte uma visão crítica sem engajamento ou sectarismo não se afasta de uma pulsão lírica nem de uma inquietação existencial e metafísica eis uma poesia de forte conteúdo reflexivo e profunda imersão nos dilemas humanos pois como já reconheceu josé di marco o realismo em perspectiva faz da poesia de cantoni um ato político poesia política mas não panfletária pedagógica ou moralizante condenados 2004 intemperie e otros poemas 2006 e el fin ya tuvo lugar 2012 seus poemas foram traduzidos para o inglês francês italiano e catalão para o professor escritor e ensaísta osvaldo picardo em césar cantoni o poema desata a consciência dos fenômenos da contemporaneidade que em sua manifestação concreta contradizem os grandes relatos da história e da metafísica segundo luis benítez ao ler cantoni as velhas e usadas palavras catellhanas parecem renovadas mais jantávamos esta noite a néstor mux jantávamos esta noite em uma taberna quando uma ratazana desceu do teto atravessou rapidamente o salão e fugiu pela porta da cozinha É só uma entre tantas disse o poeta néstor mux enquanto a menina da mesa vizinha saltava e gritava horrorizada em um surto de histeria quem sentia mais pavor a menina ou a ratazana em sua fuga desesperada pouco acrescenta saber vivemos em um mundo estranho envolvido pela desconfiança coletiva.

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veterano das malvinas a gustavo caso rosendi e martín raninqueo não é estranho que uma bomba inimiga me desperte no meio da noite enchendo de fragmentos minha lembrança felizmente a mulher que dorme comigo tem um ar sereno e protetor e seu contato liberta-me do pesadelo entrincheirado nos lençóis afundo então meu rosto no sulco de seus peitos e novamente durmo como um menino até que outra bomba venha despertar-me no dia de são patrício no dia de são patrício enquanto bebo com os irmãos irlandeses que habitam este solo ­ mulheres e homens convocados pelo padroeiro da ilha ­ e brindo em honra dos poetas caídos nas cruzadas de libertação começando pelo bravo pádraig pearse eu te declaro minha guerra sem quartel e para sempre inglaterra Às vezes me pergunto Às vezes me pergunto se de tanto ler williams não acabarei escrevendo como williams a mim no fundo gostaria escrever de um modo pueril e inocente como cummings quanto ao resto não se incomodaria que alguém dissesse alguma vez que escrevo como sandburg tradução ronaldo cagiano

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corsino fortes corsino antónio fortes são vicente 1933 é um escritor e político cabo-verdiano É licenciado em direito pela universidade de lisboa 1966 integrou vários governos na república de cabo verde país de que foi embaixador em portugal presidiu à associação dos escritores de cabo verde 2003/06 autor de obras como pão e fonema 1974 ou Árvore e tambor 1986 a sua obra expressa uma nova consciência da realidade cabo-verdiana e uma nova leitura da tradição cultural daquele arquipélago emigrante todas as tardes o poente dobra o teu polegar sobre a ilha e do poente ao polegar cresce um progresso de pedra morta que a península ainda bebe pela taça da colónia todo o sangue do teu corpo peregrino mas quando a tua voz for onda no violão da praia e a terra do rosto e o rosto da terra estender-te a palma da mão da oral maritima di ilha de pão pão feita ajunturás a última fome à tua fome primeira do alto virão rostos-e-proas-da-não-viagem assim erva assim mercuro arrancar-te as cruzes do corpo

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o grito das mães leva-te agora À sétima esquina onde a ilha naufraga onde a ilha festaja a sua dor de filha e a tua dor de parturiente que toda a partida É potência na morte todo o regresso É infância que soletra já não esperamos o metabolismo polme de boa fruta fruta de boa polpa a terra aspira teu falo verde e antes que teu pé seja árvore na colina e tua mão cante lua nova em meu ventre vai e planta na boca d amílcar morto este punhado de agrião e solver golo a golo uma fonética de frescura e com as vírgulas da rua com as sílabas de porta em porta varrerás antes da noite os caminhos que vão até às escolas nocturnas que toda a partida é alfabeto que nasce todo o regresso é nação que soletra aguardam-te os cães e os leitões da casa de chota que no quintal emagrecem de morabeza

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