TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. (3ª Parte)

 

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TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO. (3ª Parte) Por Carlos Lopes Bento

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memÓrias das ilhas de querimba templos e espaÇos sagrados das ilhas de querimba achegas para o seu estudo 3ª parte por carlos lopes bento 1

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memÓrias das ilhas de querimba templos e espaÇos sagrados das ilhas de querimba achegas para o seu estudo 3ª parte por carlos lopes bento1 nesta 3ª e ultima parte deste trabalho que intitulei templos e espaços sagrados das ilhas de quirimba abordarei alguns dos problemas levantados à missionação das populações das ilhas de cabo delgado logo na sua primeira viagem à Índia vasco da gama verificou não serem fáceis as relações com as autoridades islâmicas do indico as primeiras surpresas surgiram na ilha de moçambique aqui o almirante português e a sua tripulação foram por engano recebidos cordialmente pelo xeque da cidade havendo troca mútua de presentes o relato de uma dessas surpresas por Álvaro velho 1 administrador do concelho do ibo entre 1969 e 1972 e de porto amélia de 1972 a julho de 1974 doutorado em ciências sociais pelo instituto superior de ciências sociais e políticas da universidade técnica de lisboa antropólogo e prof universitário 2

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e isto foi enquanto lhe parecia que nós éramos turcos ou mouros de alguma outra parte porque eles nos perguntaram se vínhamos da turquia e lhes mostrássemos os arcos da nossa terra e os livros nossa lei e depois que souberam que nós éramos cristãos ordenavam de nos tomarem e matarem à traição 2 depois de outras tentativas destinadas a fazer abortar a viagem3 a armada rumou em direcção ao norte e no dia 1 de abril de 1498 sofria nova cilada mas desta vez tendo por cenário o sul das ilhas de querimba fomos com umas ilhas que estão bem perto da terra e à primeira das ditas ilhas puseram o nome ilha de açoutado porque o piloto mouro mentiu ao capitão dizendo-lhe que estas ilhas eram terra firme e por esta mentira que lhe disse o mandou açoutar 4 sobre as ilhas de cabo delgado deixou-nos em 1592 frei joão dos santos5 preciosas informações sobre as populações das ilhas e as relações interculturais de amizade existentes afirmava então existir em cada uma das ilhas habitadas cabras m funvo querimba ibo matemo macaloé xanga melinde e cabo delgado uma povoação de mouros e a morar nas ilhas sujeitas à freguesia de querimba para além dos ditos mouros gentios e cristãos6 constata-se que então eram 9 as ilhas habitadas entre as coisas que observou e condenou foram alguns usos e costumes e as relações amistosas estabelecidas entre moradores maometanos e moradores cristãos uns e outros na sua opinião prejudiciais às sagradas leis cristãs observou e registou na sua obra abusos e cerimónias que proibiu praticados alguns deles com a ajuda dos próprios cristãos o primeiro abuso estava relacionado com o rito de passagem denominado circuncisão7 que as populações islâmicas faziam aos seus filhos nas terras dos cristãos a cerimónia então como em 1974 era acompanhada de grandes festas e banquetes e para ela eram convidados familiares e amigos os mouros fidalgos e honrados convidavam quantos mouros honrados havia por todas estas ilhas que chegavam à ilha onde tinha lugar a cerimónia em embarcações enramadas 8 a operação da circuncisão era praticada por um caciz dos mouros 9 sempre um dignatário da religião islâmica tendo lugar depois dos sete anos de idade o vigário frei joão dos santos sem dúvida a principal autoridade políticoadministrativa e religiosa após ter sido alertado pelos primeiros preparativos para a cerimónia tanger de tambores e cornetas logo mandou chamar o nosso meirinho e o escrivão e mandei notificar ao dito maçuço que não circuncidasse o seu filho na nossa ilha nem com festas nem sem elas sob pena de 100 cruzados e de o mandar preso para moçambique 10 apesar de choros e rogos e da amizade existente entre aquele mouro e frei joão dos santos e até do oferecimento de 100 cruzados de esmolas para a igreja não se consentiram as cerimónias na referida ilha velho Álvaro roteiro cit p 24 prata a p a influência do português sobre o suahili p.p 143-146 4 velho a op cit p 28 5 etiópia oriental cit vol i p 275 6 op cit vol ii p.p 243-246 7 em kimwani designada por kumbi a cerimónia correspondente ao sexo feminino denomina-se riga a primeira era grupal e a segunda individual estes dois ritos no caso concreto das ilhas constituíam uma prática obrigatória para todo o crente do islão conferiam novos direitos e obrigações aos novos membros da comunidade e a sua potencial integração na sociedade como elementos adultos 8 santos joão dos op cit vol ii p 244 a ilha era a de querimba 9 o denominado n kanga curandeiro ou doutor 10 santos joão dos op cit vol ii p 244 3 2 3

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a proibição não significou o fim deste rito de passagem para os habitantes islâmicos da ilha de querimba do facto deu testemunho o próprio frei joão dos santos e quando algum mouro agora quer circuncidar os filhos vai-se à terra firme dos cafres e lá secretamente o faz sem solenidade alguma nem haver cristãos que lhe autorizem as suas festas como dantes faziam11 muitos cristãos homens e mulheres tinham larga intervenção na cerimónia do kumbi comportamento pouco do agrado e bem expresso pelo dito frade e o pior de tudo era serem para isso favorecidos dos cristãos seus amigos particularmente das mulheres que para estes dias emprestavam as suas jóias cadeias e vestidos para se as mouras ornarem naquelas festas e não faltava a certos cristãos mais que serem padrinhos do mouro circuncidado12 a convivência entre elementos das duas comunidades que não ficava circunscrita ao rito do kumbi extravasava para outros domínios inclusive o religioso neste se integrava outro costume dos mouros ligado ao ramadã um dos mandamentos e o mais sagrado dos meses para os maometanos a sua caracterização nos finais do século xvi segundo o autor da etiópia oriental o segundo costume que tinham estes mouros era no tempo da sua quaresma a que chamam ramedão a qual dura toda uma lua inteira e os mouros jejuam todos os dias dela sem comer nem beber coisa alguma desde que sai o sol até que se põe mas tanto que é noite comem e bebem até pela manhã e tais ficam que o mais dia dormem de modo que não sentem o jejum13 depois de prestar alguma informação sobre a natureza móvel desta festa religiosa o frade dominicano que se vem citando forneceu indicações importantes sobre as manifestações profanas que realizavam no primeiro dia do ramadão que ao que parece se perderam no tempo o dia em que hão-de começar estes jejuns que responde ao dia de entrudo entre nós fazem os mouros muito maiores desatinos que os cristãos porque todos se embebedam e andam despidos pelas ruas pintados com almagre e gesso pelo corpo e rosto e cada um faz de si os maiores momos que pode outros com tambores e buzinas andam atroando todas as povoações em que moram que parecem andando assim ministros do diabo14 era costume estas festas terem lugar em todas as ilhas e dentro das povoações dos cristãos as quais favoreciam recolhendo os mouros as suas casas para lhes oferecer mais vinho e os acabar de embebedar também estas festas foram proibidas e defendidas com penas e com prisão de alguns mouros as quais se tornavam extensivas aos cristãos que dessem consentimento e recolhessem os referidos mouros em suas casas ou os favorecesse em tal tempo porque em certo modo era autorizar-lhe as suas festas e aprová las 15 idem ibid p 245 santos joão dos op cit vol ii p 244 13 op cit vol ii p 245 nesta altura bem poucos seriam os trabalhadores livres por conta de outrem e daí ser mínimas as repercussões sociais do mês de jejum no mundo do trabalho sobre este assunto ver moreira padre gomes ramadã boletim do museu de nampula vol ii p.p 56 e segts o padre moreira faz uma análise pormenorizada do ramadã ou ramadão 14 santos joão dos op cit vol ii p 246 15 santos joão dos op cit vol ii p 246 12 11 4

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e finalmente o terceiro costume que muito preocupava o representante dos cristãos nas ilhas também se relacionava com as relações de convivência que existiam entre os crentes das duas religiões o qual era em nossos domingos e santos de guarda virem as mouras visitar as cristãs suas amigas e todos juntas cantavam bailavam comiam e bebiam tão amigavelmente como se fossem todas mouras no que havia demasias mui escandalosas e esta mística conversação era muito danosa e perigosa para a nossa cristandade16 ao contrário dos dados que são fornecidos pelo frade joão dos santos pouco esclarecedores quanto à distribuição geográfica dos fiéis dos diferentes credos praticados nas ilhas a relação geral dos habitantes das ilhas e povoações e terras firmes dos seus distritos datada de 31/1/1799 mas respeitante a 31/12/1798 dá-nos indicações precisas e pertinentes sobre o assunto segundo esta relação a população das ilhas e terras firmes era em 31.12.1798 de 8902 habitantes que se distribuía diferentemente pelas sete capitanias17 em que estava dividido o território insular e continental da capitania-mor das ilhas de composição heterogénea ela era constituída de população livre1753-19,69 de população livre adimos 1156-12,99 descendente de escravos e de população escrava5993-67,32 isto é apenas cerca de 1/3 era de condição livre e os restantes 2/3 de condição escrava dos 2 909 habitantes de condição livre arrolados 48,85 eram cristãos 29,43 maometanos e 21,73 gentios pertencendo a esta categoria todos os habitantes não incluídos numa das duas primeiras as maiores percentagens de cristãos distribuíam-se pelas capitanias do ibo na própria ilha com 97,96 da amisa em muironvi murendere molúri e quetumbo da arimba em arimba e mitacata querimba na própria ilha e em maxeia e matemo própria ilha com 55,33 dos distritos apenas com cristãos havia a salientar bringano moroga napata ilhas da quisiva e m funvo todos da capitania da arimba ilha de querimba e maxeia capitania de querimba pemba capitania do ibo ongue capitania de macaloé e roque capitania da amisa verifica-se assim que o maior número de cristãos vivia para sul do rio messalo 67,44 e nas terras firmes 54,17 estando as maiores concentrações implantadas por ordem decrescente na ilha do ibo ilha de matemo arimba ilha de querimba e pangane povoações que no seu total englobavam quase 2/3 da totalidade dos cristãos 58,55 a população de credo islâmico com um peso significativo no cômputo geral da demografia do território distribuía-se também de modo irregular pelas diferentes capitanias mais de 1/3 estava fixada na capitania da querimba principalmente em mussomero e quissanga seguindo-se-lhe as de matemo ilha e quirimize macaloé pangane e moenesse arimba nasimba arimba e terras firmes da ilha de cito e amisa missangue todas elas com valores muito aproximados de salientar a existência de alguns distritos somente povoados com maometanos os mais significativos eram namerumo napa minlongola capitania de querimba mussemuco capitania do mesmo nome quirimize capitania de matemo e paqueo capitania de macaloé 16 17 idem ibid p 246 arimba ilha de quirimba ilha do ibo mussemuco ilha de matemo ilha de macalóe e ilha da amisa 5

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tal como acontecia com a população cristã 67,44 mas agora com um maior desequilíbrio a maior percentagem de crentes do islão 87,97 ocupava um espaço geográfico situado a sul do citado rio messalo nas terras firmes habitavam 83,61 dos maometanos contra 54,17 dos cristãos no entanto a maior povoação de maometanos vamos encontrá-la na ilha de matemo 44,67 precisamente aquela onde antigamente houve uma grande povoação de mouros cujas ruínas o mostram ainda hoje porque têm portais e janelas de muitas casas guarnecidas de colunas bem lavradas 18 a qual tinha do passado sido a cabeça de todas as outras seguia-selhe as de mussomero quissanga paqueo e pangane todas nas terras firmes sitas entre a arimba e o rio messalo menor expressão quantitativa cabia às populações que não tinham aderido às doutrinas cristã e islâmica representando apenas 1/4 da globalidade da população de condição livre elas distribuíam se em 1798 somente por 4 capitanias concentrando-se no entanto nas duas capitanias que limitavam o território a norte e a sul a da amisa 81,01 e arimba 17,72 onde habitavam essencialmente populações makonde e makhwa respectivamente os principais núcleos da população em análise sediados no norte eram molúri banuala i motumba mossimboa banuala ii muinrovi e funzi e no sul terras firmes da ilha de cito arimba mitacata miogo e quidembe em resumo em 1798 os grandes bastiões do cristianismo estavam implantados no ibo arimba matemo e querimba e do islamismo em matemo mussomero e quissanga a distribuição e o peso do islamismo e do cristianismo constatados em 1798 viriam a sofrer algumas profundas alterações ao iniciar-se o século xix as invasões dos sakalava que atingiram e devastaram o território entre 1800 e 1817 foram em grande parte responsáveis pela perda de influência da religião católica que ficou praticamente restringida à capital a vila do ibo os cristãos procuraram refúgio na ilha de moçambique e terras firmes sendo nestas a assistência religiosa nula e os maometanos nas terras do firmes do interior depois desta data os católicos passaram a ser uma minoria e a ficar restringidos à ilha do ibo a acção missionária dos dominicanos tinha sido fecunda até aos meados do século xviii de acordo com o testemunho de frei joão dos santos entre os religiosos da ordem mandados para as ilhas contava-se o padre frei pantaleão da silva que considera grande religioso e servo de deus o qual nas ditas ilhas fez muitos cristãos e outros serviços a deus e com a sua vida muito austera e persistente mostrou bem ser verdadeiro filho de são domingos 19 quanto à sua missão levada a efeito durante 2 anos como pároco das ilhas de quirimba frei joão dos santos testemunha ter nelas ter feito 694 cristãos assim dos gentios como dos mouros destas ilhas entre os quais baptizei um sobrinho de el-rei de zanzibar e os seus antecessores convertido e baptizado até ao ano de 1592 18 santos frei joão dos etiópia cit vol ii p 274 esta ilha que o autor do presente trabalho conheceu bem por a ter percorrido a pé de lés-a lés povoada até 1974 por população maometana apenas ali residia um casal de cristãos ambos filhos da terra mas não dela naturais 19 op cit vol ii p 188 6

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mais de 16 000 gentios e alguns mouros como constam de livros dos baptizados desta cristandade 20 o êxito assinalado pelos frades dominicanos que num período de cerca de 30 anos terão convertido e baptizado aproximadamente 500 pessoas por ano ficou a deverse principalmente ao facto da tão elevada cópia de escravos existentes nas ilhas que obrigatoriamente tinham de ser baptizados mesmo aqueles que estavam na posse de mouros estava-se perante um sucesso que nas palavras do capitão pedro resende tinha algo de aparente os cafres são gente bárbara natural muito cruel e pouco dados ao culto divino e só os que são nossos cativos se fazem cristãos por esse respeito durando-lhe a cristandade enquanto lhe dura o cativeiro sendo que não repugnam muito a nossa santa fé católica21 não se pense que neste primeiro período houve apenas sucessos na acção missionária dos religiosos da ordem de são domingos por volta de 1580 o visitador das igrejas de moçambique costa de melinde e ilhas de querimba emendou muitos erros e castigou muitas culpas 22 praticados por alguns dos frades daquela ordem contudo a acção dos frades dominicanos influenciada por novos factos económicos e político-sociais tornou-se a partir dos meados do século xviii mais polémica contestada e conflituosa contribuíram decisivamente para esta mudança a escassez quantitativa e qualitativa de missionários o seu modo de vida menos conforme as expectativas estabelecidas e exigidas aos religiosos a degradação das relações entre autoridades civis e religiosas os conflitos de jurisdição entre ambas e o comportamento dos cristãos cada vez mais interessados nas coisas materiais em detrimento das espirituais no que respeita aos recursos o administrador episcopal de moçambique em 175323 chamava a atenção das autoridades régias para o estado de desamparo em que se encontrava a cristandade sob a sua responsabilidade e para os abusos praticados no seio da comunidade religiosa tanto por parte dos cristãos como do clero também lamentava profundamente a falta de igrejas de curas e de párocos verificada desde as ilhas de cabo delgado até moçambique onde não existiam mais do que as igrejas das ilhas de querimba e da amisa a desta sem telhas e de paredes arruinadas e ambas então sem pároco ou qualquer outro sacerdote a partir da última década do século xviii a falta de clérigos a instabilidade política e a falta de segurança como resultado dos ataques dos franceses makhwa e sakalava levariam a que algumas vezes apenas um vigário que passava a residir no ibo ficasse com a responsabilidade das paróquias da querimba e amisa e da capelania do ibo24 dizia missa interpoladamente em cada domingo no ibo e querimba e ia quando tal era possível anualmente à amisa sempre que adoecia25 20 idem p p 255 e 256 qualitativo que relativamente a 1591 subia para cima de 20 000 nos distritos de cuama entre os quais se englobavam os encosses que eram capitães ou cabeças dos lugares e alguns régulos dos sertões ver nazareth prelazia de moçambique cit p 171 21 resende pedro barreto livro do estado da Índia cit p 381 22 brÁsio a a igreja em moçambique cit p 287 o visitador era frei estevão da assunção 23 a.h.u doc av moç cx 9 doc 3 carta de 20/12/1753 24 a.h.u doc av moç cx 76 doc 31 carta nº 197 de 28/10/1796 do cap das ilhas para o cap gen 25 idem ibid cx 133 doc 30 carta nº 443 de 28/7/1810 7

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as coisas complicavam-se depois do ataque dos corsários franceses ao ibo por o capelão ter sido feito prisioneiro e depois assassinado solicitava-se a sua substituição por outro que porventura chegasse da Índia26 a panorâmica geral da cristandade em moçambique continuava em 1813 a ser muito sombria em toda esta costa de África se experimenta uma total falta de sacerdotes achando-se sem eles os portos subordinados como cabo delgado sofala e baía de lourenço marques e a pouca cristandade que ali existe não tem quem lhe administre os sacramentos27 À escassez de missionários juntava-se o problema relacionado com a remuneração e sustento factores decisivos no prestígio e desempenho das suas funções a fazenda real remunerava em 175828 cada sacerdote em serviço na colónia com 250 cruzados por ano que somados a alguns dízimos devidos à igreja se tornavam insuficientes para as necessidades da paróquia e do seu pároco os padres das ilhas29 em 1760 recebiam 140 mil réis/ano ou seja 350 cruzados quanto ao capelão militar do presídio percebia em 1787 segundo a respectiva folha civil e eclesiástica a importância de 300 cruzados na tentativa de alcançar um remédio para este problema de penúria o administrador episcopal de moçambique dava conta à rainha de portugal da situação de muitos párocos que explicava não tinham rendimentos suficientes para seu sustento e explicava as razões a igreja não lhe rende coisa alguma das igrejas que experimento com esta indigência pela repugnância que os eclesiásticos têm de os ocupar a 1ª é de amisa uma das igrejas sitas nas ilhas de cabo delgado é a última e a mais remota de moçambique para a parte das ditas ilhas e como tal a mais solitária e que for costume se diz ter muitos poucos homens de chapéu e como todos os paroquianos a maioria são cafres ou outros da mesma qualidade que são cristãos enquanto o querem e não são oprimidos procuram subterfúgios para não enterrarem os seus defuntos na igreja 30 a situação por falta de solução continuava em aberto o vigário paroquial da igreja de nossa senhora do rosário da ilha de querimba e encarregado de toda a cristandade da ilha do ibo em virtude dos emolumentos da igreja serem muito ténues e não chegarem para sustento de um pároco requeria em 180831 para ser provido na capelania do ibo cujo cargo estava vago ao solicitar providências ao soberano o bispo de são tomé prelado de moçambique32 expunha claramente e de novo o problema idem ibid cx 76 doc 69 carta de 16/12/1796 do cap das ilhas para o cap gen idem ibid cx 145 doc 3 carta de 1/10/1813 do cap gen para o reino idem ibid cx 14 doc 34 carta de 8/8/1758 do administrador episcopal para o reino 29 a.h.u doc av moç cx 22 doc 49 folha eclesiástica do pagamento do soldo de 7/7/1763 que inclui os vigários da querimba frei josé carlos e da amisa frei manuel tomás 30 a.h.u doc av moç cx 38 doc 8 carta de 24/9/1781 31 idem ibid cx 123 doc 4 petição de 2/5/1808 feita pelo padre josé xavier raposo 32 idem ibid cx 159 doc 11 plano do estado actual da prelazia de moçambique p 4v o capelão do presídio mantinha o ordenado de 300 panos/ano p 5 a carta régia de 13/2/1797 fixou o côngrua anual dos prelados de moçambique em 3000 cruzados cx 79 doc 20 carta de 27/11/1797 do cap gen para o reino 27 28 26 8

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o pároco da ilha de querimba tem a mesma côngrua de 350 cruzados paga umas vezes na referida moeda nesta capital outras em panos na feitoria daquelas ilhas e neste 2º caso são 280 panos isto é 350 braças de pano grosso que vestem os negros e outros efeitos de que eles usam que é a moeda com que se compra o necessário nada se pode dizer dos seus rendimentos porque à excepção de uns 120 panos que tem de 2 festividades quando eles se celebram não percebem senão de ano a ano algumas vezes de mais tempo 1 ou 2 ofertas por ocasião de 1 baptizado ou enterro de pessoa de maior distinção os outros ou não pagam o que devem ou o fazem em géneros tão insignificantes que não podem entrar em razão de vendas o que não procede da pobreza em que vivem os habitantes dessas ilhas o mesmo se deve dizer da paróquia da amisa que se acha vaga daqui se segue que os párocos destas 2 freguesias que não têm do seu não podem subsistir com os rendimentos da sua estola sobre as receitas da paróquia de querimba apenas se encontrei relações de 1792 a 1798 a relativa ao período de 21/5/1796 a 31/8/179833 que pela sua importância se transcreve na íntegra · por vários enterramentos na igreja de querimba debaixo do coro da mesma · de um crioulo de diogo miguel de meneses na capela de matemo · de manuel antónio carrilho sargento-mor junto dos bancos da igreja de querimba · várias pessoas por não se desobrigarem · de joão menor debaixo do coro da capela do ibo · de diogo domingos baptista capitão-mor e foreiro da ilha de querimba no alpendre da igreja da ilha de querimba · de dona ana de meneses no cruzeiro · de inocência calado junto dos bancos da capela do ibo · de isabel calado na igreja de querimba cova · de luís de meneses na igreja de querimba · de cecília junto dos bancos cova e cruz · de antónio gomes junto aos bancos na capela do ibo · de inácia inocente junto aos bancos na capela do ibo · de joão de menor idade na capela da arimba 0:000 12:000 56:000 4:000 2:200 36:000 31:000 11:000 10:000 16:000 6:000 6:000 3:200 5:000 33 a.h.u códice 1488 fls 4-6 no mesmo códice fls 51 na receita de 8/7/1792 até 31/1/1796 está registada com data de 16 de dezembro as importâncias de 31 cruzados relativa ao enterramento de joão de morais da arimba e de 4 cruzados pela condenação de joão vicente amorete por se não desobrigar 9

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· de joana soares na capela do ibo 16:000 a falta de residência para os párocos considerada então como um direito divino34 constituiria mais um factor de repulsão apenas em 1798 se adquiriu uma morada de casas para os frades habitarem as dificuldades para os mesmos párocos agravar-se-iam ainda mais com a destruição pelos sakalava da igreja da querimba em 180835 e da igreja do ibo em 181636 as duas ficaram reduzidas a cinzas no relatório do governo de cabo delgado de 1880 afirma-se serem as cerimónias do culto celebradas com regularidade mas sem a pompa devida e que a igreja matriz de s joão na sua primitiva construção com paredes baixas e coberta de palha foi modificada alteando-se-lhes as paredes e cobrindo-se a telha a custas do luís joão gonzaga sofreu graves danos com o tremor de terra de 26 de agosto de 1879 que levaram ao seu encerramento realizando-se o culto na capela da praça de s joão seria reaberta em 23 de fevereiro de 1881.37 oito anos depois segundo o governador major francisco moura a situação continuava difícil para a igreja católica em todo o distrito existe apenas uma igreja com a invocação a são joão baptista na sede do distrito com um uúnico pároco predominando em todo o distrito a religião muçulmana 38 já no século xx o governador ernesto vilhena voltava a referenciar o persistente problema os padres nas suas pouco rendosas paróquias longe da tutela dos superiores utilizam os seus escravos que passam de seus neófitos a serem seu arrimo colimam caçam pescam carregam-no no andor transportam madeira para a igreja cristãos por momentos breve se tornam aos seus feitiços e superstições39 a opinião que havia em moçambique dos missionários que chegavam da Índia geralmente expressa pelos capitães generais e seus subordinados dos governos subalternos não era das mais favoráveis quanto às suas virtudes e preparação para o desempenho das funções relacionadas com o seu ministério que algumas vezes atingiu o estado de insubordinação o primeiro caso de insubordinação declarada tivera lugar na década de 40 do século xviii e como protagonista o frade joão xavier de meneses também foreiro e comerciante o apelo do governador de moçambique aliás o segundo ao vice-rei da Índia para a sua expulsão das ilhas não oferece qualquer tipo de dúvidas e pelo que respeita às ilhas por ora só se me oferece dizer a v exª segunda vez que fará v exª um grande serviço a deus e a el-rei na extracção de frei joão de idem ibid cx 78 doc 8 carta de 24/9/1781 cit cunha sebastião notícias históricas cit p.p 28 e 29 os baptismos entre 2/9/1808 e 1/4/1809 foram administrados no ibo 36 a.h.u códice 1478 fls 248 carta de 4/12/1816 do cap das ilhas para o cap gen 37 relatório do distrito de cabo delgado de 1880 bom de 18.2.1882 p 79 35 34 38 39 relatório de cabo delgado relativo ao ano económico 11887-1888.bom 39 de 21.1.91888 p 598 vilhena e de tete a quiloa cit p 46 10

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meneses e seu filho antónio da costa para fora das ilhas e ainda de toda a descendência 40 quase um quarto de século depois apontava-se outro caso concreto desta vez relacionado não com um mas com dois frades dominicanos vigários das ilhas de desobedecerem à ordem de recolha que lhes foi dada pelos seus superiores que pela sua gravidade chegava ao conhecimento de lisboa tendo-lhe chegado os dois padres seus sucessores e tido embarcação em que com segurança viessem para esta praça para se transportarem para goa nesta presente monção de agosto o não fizeram deixando-se ficar ambos na ilha de amisa adonde me consta vivem tão esquecidos do seu estado que cuidam mais de escandalizar o público do que edificá-lo com o emprego de comerciantes que usam com violência notória e com a mesma obrigam as embarcações que passam por tal ilha a contribuir com uma porção de cauri a título de senhorio dela por parte da sua religião que querem que lhe pertença de que não têm título algum41 para além destes frades também mereceria atenção especial pelos escândalos públicos que praticou na querimba o frade estalisnau são domingos torres que na opinião do governador e capitão-mor42 que por estar ainda muito rapaz para paroquiar devia antes ter ido para um convento aquela autoridade levantou-lhe devassa43 pela indignidade do seu comportamento mas nem toda a acção dos dominicanos seria negativa e condenável para além dos desvios praticados por alguns frades que devem ser entendidos e explicados no contexto próprio onde tiveram lugar havia a prática cultual diária dos deveres religiosos e de outros actos relacionados com a ajuda ao próximo que por constituírem uma prática normal e quotidiana não mereceram a atenção do poder político as muitas das críticas tendo em consideração a sua origem não seriam algo exageradas torna-se necessário consultar o arquivo geral da ordem dos dominicanos existente em roma aliás escasso em informação sobre as missões da África oriental para se conhecer a verdadeira dimensão das acusações feitas pelos detentores do poder político colonial aos missionários de são domingos44 na verdade foram muitos os missionários piedosos instruídos de boa conduta que davam provas de serem santos da sua veneranda ordem 45 mas a sua meritória obra por não entrar na história oficial não mereceria por razões óbvias divulgação e relevo públicos a sua acção estava em conformidade com as expectativas esperadas pelo poder político e pela sociedade civil integrantes da situação colonial também foram vários os vigários que ofereceram sacrificaram as suas vidas ou sofreram de violências físicas e morais graves quando desempenhavam a sua obrigação e zelavam pela observância da lei de deus lm-115-44 p 169v carta de 14/8/1742 cit a.h.u doc av moç cx 12 doc 6 carta de 18/8/1756 do cap gen para o reino os frades envolvidos eram o padre pedro dos mártires e cunha vigário da amisa e o padre josé de santa teresa vigário da querimba 42 idem ibid cx 73 doc 27 carta nº 140 de 4/2/1796 cit 43 idem ibid ibid doc 42 devassa de 23/2/1796 por carta nº 152 de 27/2/1796 cx 71 doc 47 em que informava o cap gen ter sido mandado fazer devassa para conhecer a verdade 44 o arquivo histórico dominicano português da ordem existente no porto não possui dados relevantes segundo o especialista frei antónio do rosário contactado para o efeito o maior acervo documental embora limitado encontra-se disseminado pelos vários arquivos públicos 45 a.h.u doc av moç cx 75 doc 60 carta nº 179 de 28/9/1796 cx 76 doc 53 carta de 2/12/1796 cx 157 doc 12 carta de 15/5/1818 as duas do cap das ilhas para o cap gen 41 40 11

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· frei nicolau do rosário46 por ter negado na quaresma de 1637 sacramentos ao foreiro da ilha de querimba filho da terra mas de pai português por o mesmo apesar de muitas vezes ter sido admoestado continuar separado da sua própria mulher e com escândalo público ligado a várias mulheres mouras a vingança não tardou atraído à rua numa noite foi-lhe tirada a vida às estocadas pelo dito senhorio que viria a morrer desterrado e perseguido · frei gaspar de são miguel47 envenenado em 1663 por um suspeito de ter participado nos desacatos verificados na quinta-feira santa na igreja da querimba · frei manuel de são alberto48 vigário da amisa ao zelar pelas suas obrigações por prender uma moura amancebada com um cafre cristão viu levantados todos os moradores que depois de a libertar da sua residência a dita presa o puseram numa embarcação com os seus homens expulsando-o da paróquia · frei alberto de são josé49 vigário da amisa quando numa festa por se ter negado a servir as bebidas pretendidas os cafres se revoltaram e lhe deram muitas pancadas com uma acha de lenha tirada do fogo · frei josé de sousa50 coadjutor na amisa por obrigar os moradores a cumprir os seus deveres de católicos aqueles foram a sua casa amarraram-lhe as mãos atrás das costas e depois lhe dar uma cutilada nos lábios colocaram-no meio da sala roubando todos os haveres levando consigo ornamentos do altar o cálice e patena e com ele tomaram as suas bebidas examinada a exiguidade de recursos humanos e materiais colocados ao serviço da evangelização será ocasião de se conhecer os principais destinatários e alguns dos seus costumes no caso concreto os cristãos moradores no território recorde-se que a população cristã das ilhas integrava reinóis indo-portugueses filhos da terra brancos mestiços e negros de condição livre e escravos de proveniências e etnias diversas com a ajuda da doutrina e ensinamentos evangélicos os portugueses procuravam de algum modo levar a boa nova a toda a parte e criar sociedades com valores muito próximos da cultura ocidental de matriz cristã onde a integração social tinha como base a igualdade de todos os homens aglutinando tudo num só grupo dividido interiormente por estatutos diferenciados 51 esta componente humanista e cristã que acompanhou sempre a acção colonial portuguesa teve por influências exteriores também as suas quebras de autenticidade por parte dos vários intervenientes na formação das novas realidades sócio-culturais governantes religiosos e colonos um pouco atrás deu-se relevo aos comportamentos dos cristãos nas relações com os mouros que frei joão dos santos considerou de desviantes por não estarem em consonância com as expectativas culturalmente idealizadas que deviam cumprir todos os cristãos mas com o desenvolvimento acelerado do tráfico de escravos verificado a partir do 1º quartel do súculo xviii emergeriam novos interesses na sociedade colonial que levariam ao aparecimento de novas condutas desviantes tanto as relacionadas com os poderes económico e político-administrativo como também as ligadas ao poder sousa frei luís história cit p 1164 idem ibid p 1164 a.h.u doc av moç cx 26 doc 95 carta de 28/6/1766 cit do comandante da amisa 49 a.h.u doc av moç cx 26 doc 95 carta de 28/6/1766 cit do comandante da amisa 50 a.h.u doc av moç cx 26 doc 95 carta de 28/6/1766 cit do comandante da amisa 51 moreira adriano gilberto freire o luso-tropicalismo in ensaios p 57 para além desta interpretação clássica sobre a acção da igreja como fenómeno humanizador da colonização defendida especialmente por serafim leite e adriano moreira contrapõe-se outra que vê as missões a acção dos missionários como pura e simplesmente um agente do colonialismo para maior conhecimento desta temática ligada à teologia da libertação consultar moreira adriano de bandung aos problemas nortesul in ensaios p.p 233-248 47 48 46 12

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religioso os colonos cristãos como parte de um todo mais vasto também seriam influenciados na sua vida religiosa o administrador episcopal de moçambique em 1753 em carta dirigida a el-rei de portugal ao dar conta do estado e desamparo em que se encontrava a cristandade no território moçambicano afirmava nas casas dos portugueses principalmente nos rios de sena se observam muitos abusos ritos superstições cerimónias gentilezas e outros bárbaros costumes dos cafres assim nos nascimentos dos seus filhos e parentes como nos casamentos enfermidades e morte deles não querendo admitir morte natural em nenhuma idade ou de nenhuma enfermidade senão por feitiços e assim logo que adoece alguns deles mandam chamar cafres advinhadores que vivem destes imbustes para quem advinham quem são os culpados no malefício e esta é a melhor ocasião em que uns se vingam dos outros 52 a situação no entanto não ficava limitada à categoria de população indicada atingindo pelo contrário todos os cristãos como o comprova as palavras do capitão general que em 1767 confessava a sua preocupação sobre o futuro do cristianismo em moçambique esta conquista nunca poderá ter êxito feliz no desgraçado viver de uma cristandade que a cada passo se vai fazendo cafreal e desterrando de si o preceito da religião católica 53 o grito de alarme não provinha somente das autoridades civis também as autoridades religiosas ao verificarem que o edifício da virtude e da piedade cristã estava a ser minado por ritos cerimónias e supersticiosos abusos usados sob o pretexto de costumes úteis lícitos e toleráveis com grande escândalo em muitas partes de moçambique procuravam cortar o mal pela raiz a iniciativa com mais impacto espacial pertenceu à inquisição de goa que fez publicar nesta cidade em 21/1/177154 em edital mandado publicar ler e explicar em alta e inteligível voz em português e língua local aos fiéis de todas as paróquias de moçambique quando aos domingos e dias santos estivessem reunidos o documento eclesial reprovava e proibia para todo o sempre vários ritos e usos e costumes entre os quais se salientavam a circulação de panos ou de sinais manifestativos do primeiro coito completo entre noivos utilizado como prova da virgindade da noiva55 as cerimónias ligadas ao aparecimento nas raparigas da 1ª menstruação56 práticas mágicas por ocasião do parto e do baptismo das crianças com a finalidade de as livrar dos perigos futuros a colocação de uma figura humana devidamente revestida e ornada junto ao gémeo falecido para que a morte não viesse buscar o irmão vivo57 o enterramento de escravos junto dos seus senhores e dar a beber o mortífero supersticioso e integral muave58 em juramentos ou qualquer circunstância a população católica das ilhas não fugia à regra o seu comportamento religioso não se diferenciava do verificado nas restantes vilas de moçambique os factos o comprovam claramente as suas virtudes cristãs não eram nada abonatórias depois a.h.u doc av moç cx 9 doc 3 carta de 20/2/1753 idem ibid cx 27 doc 85 carta de 19/8/1767 do cap gen para o reino 54 chronist de tissuary nº 13 janeiro 1867 fls 273 e 274v 55 ainda se observava essa prática durante o tempo em que o autor deste trabalho esteve nas ilhas 56 trata-se da riga já referida 57 neste caso como no anterior estava-se perante processos em que jogavam as leis mágicas da simpatia contiguidade e similaridade enunciada por mauss marcel esboço de uma teoria geral de magia in sociologia e antropologia vol ii p.p 127 e segts 58 planta utilizada em ordálios 53 52 13

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da fundação da vila do ibo em 1764 as mais altas autoridades de moçambique afirmavam ser a pequena igreja construída desnecessária aos filhos da terra porque em religião e bons costumes são mais virtuosos os cafres 59 alguns anos volvidos condenavam-se o pagamento de certas cabeças que pagam certos homicidas e o bárbaro uso da bebida muave 60 práticas contrárias à religião cristã em que acreditavam os portugueses reinóis anteriormente referidas acrescentava-se depois serem os cristãos habitantes das ilhas mouros em costumes e abusos61 pouco cumpridores dos seus deveres religiosos sendo os maometanos mais cumpridores da sua seita do que os denominados cristãos 62 o eram da religião católica caberia no entanto ao frade estanislau xavier da conceição religioso da ordem dos pregadores filho da província de são domingos de portugal comissário do santo ofício e bula vigário paroquial e da vara das ilhas de cabo delgado e seus distritos a condenação formal e concreta do comportamento repreensível e pouco digno dos habitantes das ilhas feita através de carta pública de que se transcreve um excerto nem nos séculos de ferro nem tão pouco os de heresia foram tão molestos à igreja santa nossa mãe e filho de jesus cristo como tem sido n este tempo uma grande parte de seus filhos nessas ilhas de querimba o desprezo escandaloso dos preceitos da igreja como do jejum missa confissão e censuras e de todas as suas forças o continente geral a íntima e intestina familariedade com os mouros e infiéis a venda que a estes fazeis dos escravos assim baptizados como não baptizados o desprezo dos sacramentos a escuridão que vos arrasta para tudo o que cheira a superstição e ritos gentílicos já nos casamentos e baptizados já nas raspaduras e furos das orelhas de vossos filhos já nas bárbaras e desonestas cerimónias e instruções praticadas nas ocasiões da menstrua engomas e matangas em uma palavra o consenso comum de em nada obedecer a deus e ao rei são por certa forma o vosso distintivo e a vossa grandeza eu que sou o vosso pastor médico e mestre disposto por deus para vos ensinar para curar as vossas enfermidades e manter-vos de posse da vinha do senhor nada tenho conseguido de vós e as minhas ordens e mandados têm sido por nós apreciados de nenhum rigor 63 nas primeiras duas décadas do século xix continuava a constatar-se que embora baptizados muitos dos filhos das ilhas dizia-se quase todos acreditavam na seita de mafoma64 tendo-se alguns deles se tornado perfeitos maometanos65 esta ideia era igualmente partilhada em 1822 por frei bartolomeu dos mártires66 quando afirmava viverem quase todos os habitantes filhos da terra segundo os usos e costumes dos mouros com quem vivem e frequentemente se misturam passando muitas vezes para a sua infame lei para assim gozarem das mouras 59 60 a.h.u códice 1321 fls 191 carta de 20/8/1766 do cap gen para o reino idem códice 1484 fls 36 e 36v carta de 12/5/1784 cit do ouvidor geral para o juiz ordinário 61 andrade nogueira estado cit p 142 62 a.h.u doc av moç cx 77 doc 29 carta nº 211 de 16/2/1797 do cap das ilhas para o cap gen 63 sousa l s rosário relatório da paróquia cit p.p 700 e 701 que transcreve na íntegra a dita carta datada de 13/12/1796 feita na residência do ibo 64 a.h.u doc av moç cx 121 doc 105 carta nº 373 de 22/12/1807 do cap das ilhas para o cap gen 65 idem ibid cx 172 doc 11 e códice 1478 fls 293 carta nº 616 de 5/10/1820 do cap das ilhas para o cap gen 66 memórias cit fls 40 14

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nos finais do mesmo século o pároco rosário e sousa autor do relatório sobre a paróquia de são joão baptista da vila do ibo elaborado em 189367 encontrava ainda os seculares costumes condenados pela igreja desde o início da ocupação das ilhas · vícios pagãos entre os cristãos dos dois sexos · católicos não praticantes que acreditavam bastar o baptismo para a sua salvação · muitos divertimentos denominados batuques68 que se destinavam a festejar vários acontecimentos entre os quais se destacavam os ritos de passagem como o baptismo a riga o casamento arusi e a matanga69 estes três últimos com base em costumes cafreais · a substituição do casamento católico mesmo entre os europeus pela desgraçada união de mancebia denominada casamento cafreal ou à moda da terra 70 os costumes de que nos deixou relato e explicação o padre rosário e sousa continuariam a praticar-se com todo o vigor e rigor no início do presente século o governador ernesto vilhena nos seus relatórios e memórias sobre os territórios da companhia do nyassa deu expressivo relevo aos usos e costumes do povo do ibo ligados à religião É já grande o número de mestiços e negros que frequentam as igrejas e seguem ainda que pouco rigorosamente os produtos da religião católica no ibo o isolamento em que se tem estado a população permite que esses usos e costumes arreigados não só entre os mestiços e negros se praticam ainda em toda a sua antiga pureza a religião da generalidade dos mestiços e gente com eles em contacto é uma mistura dos preceitos gerais do catolicismo com outras formas primitivas de adoração assim é vulgar ver-se uma regular concorrência aos ofícios divinos e o casamento e o baptismo fazerem-se frequentemente na igreja mas a par disso o casamento gentílico à maneira da terra é vulgaríssimo a ideia de deus o muenhezimungo dos indígenas anda estritamente associada à veneração pelas sepulturas dos antepassados ou de uma forma mais geral de qualquer indivíduo com forma de santo ou virtuoso71 o casamento à moda da terra ou mancebia há muito que constituía uma prática usual muito arreigada entre os habitantes das ilhas facto que preocupava de igual modo as autoridades locais os padres dominicanos lutaram com todas as suas forças para extirpar esta prática negando a desobriga da quaresma a todos os cristãos amancebados condicionandoos ao casamento monogâmico e ao cumprimento das suas regras todos aqueles que tivessem mais de uma manceba havia casos de duas ou mais seriam obrigados a casar com uma delas e abandonar as outras72 a exigência por contrariar os valores essenciais em que assentavam as alianças conjugais mais comuns originou reacções violentas que recaíram essencialmente sobre os ditos frades p.p 710-723 para além da riga ringueré e quiburi considerados de repelentes o autor enumera o quissene mussanjo maréaé denguerá nibia e quibanga faz-se uma descrição sumária dos 3 primeiros durante a sua estadia nas ilhas o autor deste trabalho realizou um levantamento dos seguintes riga rewa n caxa dikiri masimba izizi dobé n chepe marabo usungo aiauaní babu mecalina assane majini jimi kitassa nandenga bata iani muanjuma estes diabos ficam dentro do diabo massimba que é considerado o rei dos diabos muanhe cuáho gacia muarabo matari maxeia 69 conjunto de cerimónias ligadas à morte 70 sousa rosário op cit p 710 71 op cit p 234 72 a.h.u doc av moç cx 26 doc 95 carta de 28/6/1766 cit o comandante da amisa afirmava então que um morador simão leite amancebado com 3 mulheres e por esse facto os vigários negavam-se a desobrigá-lo 68 67 15

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