TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. (2ª Parte)

 

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TEMPLOS E ESPAÇOS SAGRADOS DAS ILHAS DE QUERIMBA. ACHEGAS PARA O SEU ESTUDO. (2ª Parte) Por Carlos Lopes Bento

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memÓrias das ilhas de querimba templos e espaÇos sagrados das ilhas de querimba achegas para o seu estudo 2ª parte por carlos lopes bento 1

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templos e espaÇos sagrados das ilhas de querimba achegas para o seu estudo 2ª parte por carlos lopes bento continuação capela/igreja de sÃo joÃo baptista da ilha do ibo pedro resende1 forneceu a indicação da existência em 1631 de uma igreja e de um frade na ilha do ibo recorde-se que por vezes as armadas que iam para a Índia invernavam nesta ilha e que na 1ª década do século xvii nela permaneceu um vice-rei da Índia o que justificava a existência de um templo religioso após esta data apenas depois de fundada a vila do ibo voltaram a aparecer informações acerca da capela na dita ilha em 1766 o capitão general informava as autoridades do reino de que o 1º governador e capitão-mor alberto caetano júdice entre as várias obras realizadas em 1764 construíra uma pequena igreja2 que no ano seguinte na descrição geral de todas as igrejas assim paroquiais e conventuais como capelas curadas da capital de moçambique e suas conquistas surgia com a denominação de capela de são joão baptista e a indicação de que havia sido novamente fundada no ibo esta capela funcionava como capela militar3 servindo de apoio à guarnição militar até à construção da fortaleza de são joão baptista 1789-1794 entre 1796 e 17984 foram feitos vários enterramentos na capela do ibo debaixo do coro junto aos bancos de acordo com o status social que cada defunto tivera enquanto vivo era a afirmação social dos familiares vivos com a ajuda dos seus mortos para acabar com os danos que tal prática acarretava para a saúde pública a carta régia de 14/1/18015 proibia o enterramento de cadáveres em templos e igrejas logo que para o efeito fossem construídos cemitérios em cumprimento desta disposição real mandava-se levantar um cemitério na ilha do ibo o governador6 achava a providência de grande utilidade para as ilhas em virtude dos templos existentes serem pequenos e existirem apenas dois onde se costumava fazer enterramentos afim de obviar este inconveniente e cumprir aquela disposição legal propunha a construção de dois cemitérios um no ibo e outro na querimba em pedra e cal e não de madeira material que exigia reparações anuais e permitia a entrada de animais nocturnos perguntava ao mesmo tempo quem suportaria as despesas com os materiais que seriam de elevados montantes a resposta do capitão general7 era negativa ao determinar que os cemitérios deveriam fazer-se de madeira o mais rapidamente possível e de maneira a evitar a entrada neles de animais por se tratar uma obra de interesse e benefício públicos caberia aos moradores contribuir com materiais e mão-de-obra escrava uma vez que não haver cabimento para despesas extraordinárias solicitava ainda aquela autoridade o envio de dados estatísticos anuais sobre o número de católicos que morriam e se enterravam nas igrejas e se havia livro do estado da Índia cit p 440 a.h.u doc av moç cx 27 docs 134 e 138 carta de 19/8/1767 cit 3 idem ibid cx 57 doc 31 carta de 14/4/1789 do cap gen para o cap das ilhas 4 idem códice 1488 fls 5v e 6 receita do vigário cit 5 idem doc av moç cx 92 doc 81 e códice 1478 fls 175v a 176v carta de 23/2/1802 do cap gen para o cap das ilhas 6 idem códice 1478 fls 176v carta nº 299 de 23/3/1802 do cap das ilhas para o cap gen 7 a.h.u doc av moç cx 93 doc 46 e códice 1478 fls 178 carta de 21/5/1802 1 2 2

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probabilidades de aumentar o número de cadáveres de modo a poder infeccionar os ares e causar epidemias como acontece nas cidades populosas desconhece-se se tais obras foram ou não concretizadas mas a construção de um pequeno cemitério em 1846 junto à igreja do ibo dedicada a são joão pode levar a concluir pela negativa em 1816 com o ataque dos sakalava em 21 de outubro a capela do ibo ficou reduzida a cinzas8 depois desta data terá sido aumentada passando a designar-se por igreja de são joão baptista fig viii igreja de são joão baptista com cemitério anexo crédito carlos bento 1971 os enterramentos tiveram lugar primeiro no interior da capela depois na igreja e posteriormente naquele pequeno cemitério ainda existente em 1974 no último quartel do século xix mais precisamente em 1889 foi erigido o cemitério de munaua para cristãos e não cristãos9 fig e na sua capela foi benzida em 1892 a imagem do santo africano benedito pintado de preto fig um caso típico de sincretismo religioso a igreja de são joão baptista com muitas alterações na traça com um recheio de grande valor artístico constituiria até 1974 um ex-libris da vila fig 10 também na capela militar da capital do ibo foi por provisão de 14/3/178211 erigida uma irmandade do senhor santíssimo sacramento com um fundo de 600 cruzados o respectivo compromisso composto por 13 capítulos tem a data de 24/8/178112 o corpo da mesa compunha-se de 1 presidente 1 padre capelão militar ou vigário 1 procurador 1 escrivão 1 tesoureiro e 6 irmãos que serviriam durante um ano com pureza de coração zelo e piedade cristã obrigando-se a abolir todo o capricho e intriga particulares idem códice 1478 fls 248 carta de 4/12/1816 do cap das ilhas para o cap gen em algumas datas o padre gerards p 3 refere ter a igreja ter sofrido no século xix muitas mudanças e reparações 9 depois dos meados do século xix como prova de afirmação social surgiam na ilha uma capela fig.59e vários cemitérios de família que ainda existiam embora inactivos em 1974 na dita capela apenas com as paredes e sem telhado encontravam-se algumas sepulturas dos seus proprietários e familiares dizia o povo que com elas haviam sido sepultados escravos jovens na ilha do ibo também se encontravam cemitérios de outros credos religiosos figs.61,62 e 63 nomeadamente um crematório encontravam-se também algumas campas de chineses que no século passado vieram apanhar holutúrias makojojo que depois de preparadas exportavam para o seu país 10 no interior desta igreja encontram-se mais de uma dezena de epitáfios com datas compreendidas entre 1850 e 1897 11 a.h.u códice 1486 fls 86 carta de 20/5/1782 12 idem ibid fls 73 as actas estão registadas neste códice entre 20/5/1782 e 12/11/1848 8 3

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a clivagem social também se fazia sentir no seio desta confraria a presidência e cargos mais importantes eram desempenhados pelos moradoresfilhos do ibo que detinham mais poder e prestígio na terra juiz vereadores feitor oficiais13 diferenciação social também presente na morte os irmãos e irmãs que falecessem tinham direito a ser acompanhadas desde a porta da sua casa até à sepultura com opas e tocheiros presidente 10 tocheiros procurador escrivão e tesoureiro 6 e irmãos 4 nas missas a mandar rezar o presidente tinha direito a 10 e os restantes irmãos a 514 nos primeiros anos de 1970 a igreja de são joão baptista tanto interior como exterior encontrava-se bem conservada capela militar de sÃo joÃo baptista da ilha do ibo fica situada no interior da fortaleza de são joão baptista em 1795 foi aí colocada a imagem daquele santo15 e devidamente ornamentada com 1 crucifixo 1 cálice de prata dourada com pé de estanho 1 colherinha de prata 1 patena de prata dourada 1 missal dourado 1 pedra d ara 2 castiçais de latão pequenos 1 caldeirinha com o seu isopo de cobre branco 2 frontais de damasceno branco e encarnado entre outros16 fig ix capela de são joão baptista capela de famÍlia na ilha do ibo a prosperidade socioeconómica atingida por algumas famílias da vila do ibo como resultado do próspero e clandestino comércio designadamente de escravos permitiu como modo de mostrar o seu elevado status social a construção de alguns monumentos religiosos singulares como capelas e cemitérios de família das capelas chegaram até ao terceiro quartel do século xx aa ruínas de uma capela de família pertença da família figueiredo de origem goesa local onde foram sepultados alguns dos seus membros 13 entre os tesoureiros indicam-se nicolau luís da graça manuel antónio carrilho antónio frazão antónio fernandes códice 1487 fls 6 7 8 e 11 o inventário dos ornamentos e objectos da confraria encontramo-lo no códice 1488 fls 99v datado de 10/2/1846 14 em 1893 não existia no ibo qualquer confraria religiosa estando as despesas do culto a cargo da câmara municipal sousa rosário op cit p 705 15 a.h.u doc av moç cx 72 doc 91 carta de 20/12/1795 do cap das ilhas para o cap gen segundo cunha sebastião op cit p 21 esta capela foi benzida em 23/11/1795 e ficou subordinada à igreja de querimba 16 idem códice 1478 fls 65 e 65v carta de 24/12/1795 do cap das ilhas para o cap gen 4

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fig x capela de família nos subúrbios da vila dos cemitérios de família em maior número darei conta mais adiante capela de sÃo miguel na ilha de matemo desconhece-se a data da sua fundação mas em 1796 ainda estava funcional pois nela foi enterrado um crioulo de diogo miguel de meneses 17 serviria especialmente a família meneses a mais prestigiada família da matemo de descendência indo-portuguesa nas caminhadas que fez através da ilha o autor deste trabalho não viu nem ouviu qualquer referência à localização desta capela possivelmente estaria instalada no seu centro norte onde as condições de solos permitem o povoamento apenas encontrou junto da ponta ne ruínas de alvenaria que os moradores diziam ser de uma antiga mesquita apenas futuras investigações poderão trazer novos dados para esclarecer o assunto fig xi ruínas de capela ou mesquita crédito carlos bento 1972 capela de sÃo domingos na ilha de macaloÉ 17 a.h.u códice 1478 fls 4-6 relação de receitas de 1796 a 1798 cit 5

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segundo informação prestada pelo padre sebastião da cunha que informa ter nela existido a capela de são domingos nada mais existe que permita conhecer em concreto a sua fundação e desactivação em 1634 antónio bocarro indicava pertencer a mateus delgado que fez nela uma casa assobradada que servia de forte as últimas indicações sobre o povoamento da ilha são de 1744 e mesmo nesta data o número de habitantes era insignificante pois o foreiro e seus colonos viviam nas terras firmes em pangane e ongué mais propícias à actividade agrícola e ao comércio o incremento das trocas comerciais a partir do 2º quartel do século xviii a ilha deixaria de todo de ser funcional para a actividade comercial e de perder toda a importância como baluarte defensivo e passaria apenas a servir de refúgio aos comerciantes franceses e suaílismouros da costa É de admitir pois que a capela de são domingos fosse construída primeiro na ilha e depois transferida para as terras firmes provavelmente para a povoação de pangane local da nova residência dos foreiros do prazo que manteve sempre enquanto existiu a denominação de macaloé e sua morimas igreja de nossa senhora do rosÁrio da ilha de amisa a sua instalação na ilha de amisa deve ter tido lugar logo após a chegada dos frades dominicanos às ilhas foi paróquia até 1815 data em que anexada à paróquia da querimba o seu estado de conservação era em 175318 muito precário afirmando-se estar descoberta e paredes arruinadas em 1766 entre as necessidades consideradas prementes estavam o terrado da igreja e a construção de uma cisterna junto dela19 para fornecer água aos militares do destacamento sempre muito carente dela e também passando fome por não terem um coxe para poderem passar às terras firmes e aí comprarem mantimentos até àquele ano a vida decorria sem grandes sobressaltos na amisa e sua circunscrição religiosa paroquiavam nesta freguesia religiosos da sagrada ordem dos pregadores e vendo as contínuas desordens e vários absolutos que experimentavam daquele povo mais cafreal ainda quando habitavam homens de chapéu desistiram da dita e entraram os clérigos seculares e só foram dois que pouco tempo residiram nela nesta ainda habitavam seguros na ilha de amisa a igreja e as casas paroquiais eram de pedra e cal persistia nela o comandante e um destacamento militar e todo o povo vivia obediente e sujeito aos seus superiores20 no entanto um acontecimento à primeira vista banal verificado nos princípios daquele ano viria a alterar profundamente a vida religiosa dos cristãos da freguesia da amisa depois de ter naufragado na ilha longa em 7/3/1766 e de dar à costa uma pala de damão foi saqueada pelos moradores da amisa para castigar esta rebeldia e recuperar o material roubado foi organizada a partir do ibo uma expedição militar comandada pelo mestre de campo joão de morais que provocou a fuga dos moradores que se dispersaram pelo mato ficando assim arruinados e a terra devoluta a.h.u doc av moç cx 9 doc 3 carta de 20/12/1753 cit idem ibid cx 26 doc 95 carta de 26/6/1766 do cap das ilhas para o cap gen mandada de bringano residência do mestre de campo joão de morais 20 idem ibid cx 35 doc 17 representação de janeiro de 1781 do vigário da amisa padre francisco josé de azevedo e carta de 25/9/1781 cx 37 doc 26 do governador eclesiástico de moçambique para o reino 19 18 6

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face a este evento agregava-se a paróquia da amisa à capelania do ibo passando o seu pároco a residir na capital dos territórios de cabo delgado pelo que ficou a ilha deserta a igreja e as casas destruídas21 e pelo decurso do tempo tudo veio abaixo restando as paredes em parte para ajudar a cristandade moradora na parte continental ou terras firmes transferiu-se o templo para as terras firmes uma rápida solução predominantemente prática surgiria fabricou-se na terra firme uma pequena barraca de 5 braças de comprido por 2,5 de largo de madeira coberta de palha sem sacristia e cómodo algum e nela está colocada a imagem de nossa senhora do rosário toda comida de muxém no único altar feito de mataca e este também inclinado para uma parte sem pias baptismal e de água benta os ornamentos todos velhos e indecentes não há razões nem preparos para administrar o sacramento da eucaristia sem cipio e o pequeno que há está quebrado não podendo os moradores pela sua pobreza pôr cobro a tudo isto não há rendimento da fábrica por que quase todos os que falecem serem enterrados nos cemitérios a este fim erigidos pela dificultosa condução para a igreja pela distância das suas moradias22 procuravam em 1781 ainda subterfúgios para enterrarem os defuntos na igreja23 desta foi roubada em 1796 uma imagem grande de nossa senhora do rosário supõe-se por uma tripulação de mouros da costa que durante o dia haviam pedido para entrar na igreja para conhecerem os seus santos aconselhava-se então para evitar casos semelhantes e sempre que as paróquias não tivessem vigários a utilização de altares portáteis para assim não ficarem as imagens sagradas expostas entre bárbaros numa igreja que segundo o capitão josé amado da cunha viu é uma intemba com chave de pau 24 de moçambique recomendava-se que fossem feitas todas as possíveis diligências para descobrir e segurar o delinquente causador do malefício ao mesmo tempo que se informava que o vigário da vara iria tomar as providências necessárias para resolver o problema do mau estado da igreja25 nos princípios de 1797 a imagem ainda andava por mãos alheias mas algumas esperanças ainda pairavam na mente do governador esperava que sendo os roubadores de quiloa ou zanzibar a imagem seria restituída26 desconhece-se o resultado final deste caso mas tudo leva a crer que jamais tenha sido devolvida a imagem desaparecida tempos difíceis que se adivinhavam exigiam outras preocupações as invasões dos sakalava no início do século xix que iriam prolongar-se até 1817 em 1818 entre as 16 paróquias e 10 coadjutorias da prelazia de moçambique contava-se as paróquias de querimba e da amisa e respectivas coadjutorias27 capela de santo antÓnio de mulÚri palma velho na sua carta corográfica localiza ruínas e um poço na ponta ocidental da ilha representação cit fls 1v em 1811 o cap gen informava o reino cx 135 doc 30 carta de 16/1 que algumas igrejas de moçambique se achavam indecentíssimas cobertas de palha e indignas de se celebrar a missa 23 idem ibid cx 38 doc 8 carta de 24/9/1781 cit 24 idem ibid cx 75 doc 48 carta nº 178 de 25/9/1796 do cap das ilhas para o cap gen do capitão referido falou-se ao abordar-se a cartografia 25 idem ibid cx 76 doc 61 carta de 7/12/1796 do cap gen para o cap das ilhas 26 idem ibid cx 77 doc 20 carta nº 206 de 19/1/1797 do cap das ilhas para o cap gen 27 idem ibid cx 75 doc 48 carta de 13/9/1818 cit 22 21 7

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na povoação de mulúri que fica situada nas terras firmes fronteiriças à ilha de amisa passou a estar sediado o pelotão destacado na parte mais norte do território antes instalado na própria ilha É de admitir que a citada construção provisória da igreja se situasse em local próximo da capela de santo antónio já então existente e destinada a servir os cristãos moradores nas terras firmes estas e outras dúvidas levantadas anteriormente só poderão ser esclarecidas em futuras investigações nas terras firmes não foram erigidos mais do que dois templos e mesmo estes de pequena dimensão um a sul em arimba outro a norte em mulúri aliás em terras muito povoadas agricolamente ricas e próximas de rotas comerciais enquanto em ilhas foram edificadas 3 igrejas e 5 capelas era nelas que se concentrava a população cristã de todos os estratos sociais locais ideais para se sobreviver com escassos recursos financeiros e humanos e diminutas forças militares desconhece se ainda existem vestígios desta capela e respectivo cemitério em princípio no seu interior onde era costume enterrar os defuntos das famílias mais ilustres da área igreja de nossa senhora do rosÁrio em mocÍmboa da praiasec xix a geografia dos templos religiosos que serviriam de lugares de culto aos cristãos das ilhas vem mais uma vez confirmar a importância geo-estratégica das diversas ilhas do arquipélago das quirimbas nos processos de colonização e de aculturação para além destes templos cristãos existiam na ilha do ibo várias mesquitas que serviam os moradores que professavam a religião islâmica predominante a partir do primeiro quartel do século xix devido aos ataques dos sakalava e ao abandono das ilhas por parte de muitos católicos À descrição anterior das principais igrejas e capelas construídas nas ilhas de quirimba e terras adjacentes segue-se a inventariação dos cemitérios dos vários credos religiosos que por falta de informação fica limitada à ilha do ibo 8

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