Revista Mediação - Edição 23

 

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revista de educação do colégio medianeira nÚmero 23 ano viii issn 1808-2564 mais alto do que o céu ela permeia Ética inácio de loyola recriado pela arte disciplinas todas as em nome da leitura um discurso apaixonado educar-se é preciso 1 mediação terceira idade

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mil m2 de Área verde no colÉgio medianeira fotos paulinha kozlowski m2 estÃo reservados para o seu filho o colégio medianeira está instalado em 147 mil metros quadrados de área verde são 60 metros quadrados de contato com a natureza por aluno com 56 anos o medianeira faz parte da companhia de jesus presente no mundo todo e que atua no brasil desde 1549 ao todo os jesuítas reúnem aproximadamente 1500 unidades de ensino em mais de 60 países com mais de 2 milhões e 500 mil alunos colégio medianeira excelência humana e acadêmica 41 3218-8000 www.colegiomedianeira.g12.br 2 mediação jesuitasbrasil.com companhia de jesus

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expediente diretor pe rui körbes s.j sumário revista de educação editada e produzida pelo colégio medianeira issn 1808-2564 diretor acadêmico prof adalberto fávero 4 8 12 15 22 28 33 39 em nome da leitura paulo venturelli diretor administrativo gilberto vizini vieira coord comunitário e de esporte prof francisco alexandre faigle coordenação editorial cezar tridapalli a autonomia ética dos saberes alexandre martins revisão cezar tridapalli redação diego zerwes projeto gráfico liliane grein cinema e escola patricia melo ilustração e imagens shutterstock carlos dala stella e paulinha kozlowski colaboraram nesta edição paulo venturelli alexandre martins patricia melo celso luis podlasek eloy fassi casagrandre júnior valdemiro ruppenthal carlos dala stella flávio stein ana paula abranoski edilson ribeiro leonora comego francisco carlos rehme o design emocional celso luis podlasek e eloy fassi casagrandre júnior tiragem 3500 papel capa papel reciclato 180g miolo papel reciclato 90g hepatites um informe esclarecedor valdomiro ruppenthal numero de páginas 52 impressão gráfica radial tel 3333-9593 fragmentos de um inácio carlos dala stella equipe pedagógica supervisão pedagógica claudia furtado de miranda danielle mari stapassoli juliana cristina heleno mayco delavy e fernando guidini educação infantil e e fundamental de 1º a 5º ano coordenação profª silvana do rocio andretta ribeiro sobre o [duplo desafio da mediação de leitura flávio stein ensino fundamental de 6º e 7º ano coordenação profª eliane dzierwa zaionc ensino fundamental de 8º e 9º ano coordenação profª ivana suski vicentin a educação para a terceira idade ana paula abranoski ensino médio coordenação profº marcelo pastre coordenação de pastoral pe guido valli s.j coordenação de midiaeducação cezar tridapalli 42 47 faxinais desenvolvimento sustentável e escola edilson ribeiro e leonora comegno comunicação e marketing vinícius soares pinto o hipopótamo e a restinga francisco carlos rehme os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do colégio nossa senhora medianeira a reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria linha verde av josé richa nº 10546 prado velho curitiba/pr fone 41 3218 8000 fax41 3218 8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediação@colegiomedianeira.g12.br mediação 3

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editorial c aro leitor mentário a respeito das etapas da criação também em primeira mão publicamos o discurso de posse do escritor e ex-professor do medianeira paulo venturelli na academia paranaense de letras um discurso comovido e comovente que mostra como a leitura transformou a vida do menino tímido e aparentemente sem perspectivas ainda no sempre fértil terreno da leitura flávio stein fala sobre o papel do mediador entre o leitor iniciante e o livro que função teria um terceiro elemento o mediador você também encontrará uma bela experiência de utilização da linguagem do cinema e do vídeo na escola pública e uma reflexão acerca do design emocional que em vez de estimular o consumo sem freios pode reverter a descartabilidade dos objetos no campo da filosofia o professor alexandre martins questiona os porquês de a Ética ficar confinada a uma disciplina e separada da vida e dos outros saberes Ética afinal deve permear todas as relações e as diferentes disciplinas você sabe o que é um faxinal aprenda aqui e veja o quanto por meio do envolvimento de alunos e dos educadores edilson ribeiro e leonora comegno é possível melhorar a qualidade de vida da população hepatite uma doença comum mas pouco conhecida e a educação de idosos em um país que está envelhecendo são outros artigos que nos fazem pensar e ressignificar temas conhecidos porém pouco aprofundados para encerrar como cereja no bolo uma crônica deliciosa que viaja na geografia e na relação de um pai com seu filho uma boa leitura e escreva pra gente um abraço cordial cezar tridapalli o número 23 da revista me diação chega até suas mãos e à sua tela buscando levar conteúdos que contribuam para tecer a sempre inacabada teia do conhecimento e nesta edição trazemos assuntos muitíssimo variados mas esperamos unidos pela ideia de que educação é tema vasto vastíssimo como o mundo de drummond com rimas problematizações e vá lá algumas soluções o que passa na cabeça de um artista em pleno processo de criação teremos o privilégio de ler os fragmentos de carlos dala stella enquanto elaborava o belíssimo mural inácio de loyola instalado no início de 2013 dentro do colégio medianeira junto com suas elaborações discursivas acompanhe desenhos esboços do que mais tarde iria se transformar na obra em cimento estrutural com mais de 20 metros quadrados uma dica preciosa vá até o youtube.com e digite mural inácio de loyola veja um pequeno docu envie sugestões e comentários para mediacao@colegiomedianeira.g12.br procure as edições anteriores que podem ser lidas na íntegra no nosso www.midiaeducacao.com.br 4 mediação

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cartas olá informo que recebi os dois exemplares parabenizo a equipe pelo comprometimento com a educação e o empenho da organização produção da revista muito feliz em ter nosso artigo contemplado nesse número 22 estamos divulgando grande abraço e também meu muito obrigada daniele melo para o lixo de pia como as de mercado para o lixo de banheiro ou da cozinha e as sacolas grandes de lojas para o lixo reciclável que é maior por esse motivo acredito que o melhor não seria banir as sacolas plásticas mas investir na educação das pessoas quanto à sua utilização assim como é feito com a separação do lixo sei que não é fácil mas tenho minhas dúvidas quanto à coolá sei que já faz algum tempo desde a publicação mas só agora tive tempo para comentar o artigo sobre o uso das sacolas plásticas mediação 22 entendo perfeitamente o artigo mas gostaria de dizer que não acho que as sacolas plásticas sejam as vilãs o problema é o uso que se faz delas ou a falta dele sempre que vou ao supermercado pego sacolas plásticas apenas não deixo pela metade como muitos encho o suficiente para não arrebentarem e uso todas sem exceção como sacos de lixos desde as pequenas brança pelo uso das sacolas o texto se refere ao custo que isso significa na contabilidade dos hipermercados mas sinceramente alguém acredita que esse valor será abatido do valor dos produtos da minha parte acho apenas que vou ter que comprar os sacos de lixo que hoje aproveito das compras entendo que muitas pessoas deixarão de usar as sacolas devido ao valor mas ainda acho que direcionar o uso seria a melhor solução um abraço eliane debarba mediação 5

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artigo em nome por paulo venturelli da leitura inesquecível professor de literatura do colégio medianeira o escritor paulo venturelli agora é membro da academia paranaense de letras e mediação transcreve o seu discurso de posse uma defesa apaixonada da leitura em suas múltiplas potencialidades 6 mediação

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v enho de longe venho de um menino encurralado pelos maus tratos físicos e psicológicos um menino frágil tímido e gago como o garoto de mishima em o pavilhão dourado um menino que devaneava sentado numa forquilha de uma alta goiabeira no terreiro de sua casa sonhando o mundo pelo pedaço de brusque que conhecia ali aquele menino sem saber aprendia um exercício fundamental para quem quer escrever observar os detalhes as cores as nuances do entorno venho de um menino recolhido num internato católico onde a repressão imperava sobre todos os quesitos da mente e do corpo o pecado era o grande espantalho a nutri-lo de culpas que nunca foram apagadas de todo mas como a realidade é dialética foi neste inferno que o menino conheceu o céu por meio de um professor de português o menino descobriu a literatura e a leitura e de tanto ler com a mente prenhe de imagens começou a escrever seus textos eram bem vistos e o menino pela primeira vez em sua curta vida teve aprovação social para o que era e o que fazia então o menino levantou a cabeça do fosso onde sempre rastejara e decidiu ser escritor por ver na literatura não só um caminho mas um modo de vida que se coadunava com a sua forma tímida e reclusa de ser este menino gostava de ir até o rio e contemplar o verde e o azul das águas batendo nas rochas prolongando o exercício que aprendera no alto da goiabeira e antecipando o que o adulto faria isolar-se para pensar para analisar para fazer analogias e assim alimentar a mente que depois se extravasa nos textos diários louvo este menino corajoso que optou pela arte num meio hostil e totalmente filisteu que optou pela arte num ambiente que a renegava porque só quem sabia jogar futebol tinha valor ali e para tais tarefas práticas o menino era emperradamente inepto venho de longe do menino que se negou a crescer desde que descobriu que fruindo a arte podia também fazer alguma coisa em arte ainda tudo muito canhestro e primitivo mas valia o empenho para fugir da massa para não ser acomodado como todos para não se contentar com a pobreza e a estreiteza de um cotidiano chão chulo e limitado desde cedo este menino aprendeu que seria diferente e por esta razão chamaria muita incompreensão sobre si que teria uma ordem de valores dificilmente encontrável entre seus pares que teria aspirações que iriam muito além daquelas coisas rasteiras que sideravam a todos carro dinheiro roupas de marca e toda a quinquilharia daquilo que ele não sabia chamar-se indústria cultural este menino optou por um caminho difícil no qual nunca encontraria apoio e companhia louvo-o por isto ele não foi apenas corajoso foi atrevido aprendeu aos poucos a superar os rasos paradigmas da sociedade consu mista e hedonista a quebrar e ultrapassar os tabus a vencer os preconceitos a cutucar nas verdades prontas para saber o que havia do outro lado este menino em sua fragilidade nunca aceitou o teatro pronto do mundo e desconfiava que nos bastidores poderia haver outros elementos para outras peças e ele ousou ir até lá e buscar novos arranjos que não corroboravam o que todos acreditavam como a verdade este menino mesmo arriscando a própria cabeça começou a discutir com quem representava o poder ­ os professores ­ e sofreu na própria carne as represálias e os boicotes que se estendem até os dias de hoje este menino pretendeu crescer eu o impedi queria manter o seu frescor e a paixão com que se empenhava em tudo em especial no ler/escrever e este menino aquiesceu ficou lá no meu dentro mantendo a curiosidade aguçada e sempre fazendo perguntas quando outros se conformavam ao quietismo das manadas se um dia ele resolveu ser escritor precisaria fazer um curso em que aprenderia a aprofundar as técnicas da arte de escrever ilusoriamente escolheu o curso de letras pensando que nele se formaria como escritor homem de letras triste ilusão se acreditava que ler tornava as gentes melhores encontrou no curso a massa pungente de alienados que não tinham no livro seu motor de vida como ele tinha encontrou professores que mesmo lidan mediação 7

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do com literatura eram pessoas azedas egoístas mesquinhas andando nos altos tamancos do narcisismo porque ostentavam títulos e dispunham de uma carreira em que semideuses se achavam no direito de ser donos da razão absoluta o menino já mais taludinho também enfrentou e discutiu aquelas aulas medíocres já que sempre lendo muito tinha bom estofo e queria momentos mais suculentos em que pudesse saborear as letras de um ângulo até então inusitado eram os anos de chumbo quando o tacão militar silenciava todas as vozes o menino gritou esperneou teve problemas dentro da casa dos estudantes como os astros o protegiam o menino escapou ileso das arapucas que lhe armavam e começou a trabalhar como professor única profissão que se conciliava com suas ambições literárias e no magistério o menino inquieto colocou todas as suas garras de fora e outra vez atrevido resolveu mudar os caminhos que todos trilhavam por onde passou inovou revolucionou trouxe novos padrões para o ensino de língua e literatura no começo recebeu o espanto a incredulidade a apatia daqueles que achavam que mudanças no ensino eram impossíveis o menino insistiu com denodo porque descobrira uma nova paixão ensinar não conteúdos mas a prática de leitura para que outros tivessem a chance de passar pelas mesmas venturas e aventuras pelas quais ele passara conseguiu algum resultado deu exemplo com a própria vida e até hoje há aqueles que lhe agradecem pelos anos de convivência e contato com os textos todorov em livro recente diz o seguinte hoje se me pergunto por que amo a literatura a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é porque ela me ajuda a viver não é mais o caso de pedir a ela como ocorria na adolescência que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais em lugar de excluir as experiências vividas ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão primeiro nossos pais depois aqueles que nos cercam a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e por isso nos enriquece infinitamente se a literatura enriquece então aquele menino acumulou riquezas impossíveis de medir pelos olhos viciados num cotidiano chinfrim e rotineiro em que de cara contra a parede não sabem o que um livro poderia lhes proporcionar terry eagleton num pequeno e denso livro afirma que as obras literárias não são misteriosamente inspiradas nem explicáveis simplesmente em termos da psicologia dos autores elas são formas de percepção formas específicas de se ver o mundo e como tais elas devem ter uma relação com a maneira dominante de ver o mundo a ´mentalidade social´ ou ideologia de uma época e o menino já havia aprendido isto literatura é trabalho não dom dos deuses nem inspiração dos céus porque neste caso a obra nasceria pronta não precisando de tanto amadurecimento de burilar detalhes as eternas reescrituras que não acabam mesmo depois do livro estar publicado se toda arte surge de uma concepção ideológica do mundo segundo terry eagleton o menino absorveu que se estava ligando a algo muito sério não bastava sentar-se e escrever uma história ou um poema os elementos no papel não viriam só de sua cabeça mas de toda a rede que formava com as leituras ao longo da vida e para isto os estudos de bakhtin foram fundamentais porque lhe ajudaram a dar forma àquilo que intuía em suas nebulosas descobrindo que a literatura é um exercício de reflexão e experiência e que sendo assim responde a um projeto de conhecimento do homem e do mundo palavras de compagnon o menino foi aprendendo sobre o ser humano muito mais na literatura do que nos manuais de comportamento fazendo eco ao que engels reconhecera há muito tempo quando afirmou que aprendera muito mais com balzac lendo sua portentosa comédia humana um conjunto de mais de 90 romances do que 8 mediação

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com os historiadores e sociólogos de sua época assim temos a literatura senhores e senhoras uma arte que não lida apenas com a emoção e a razão mas que dialoga com todas as linguagens do mundo e as absorve transformando-as em algo novo por isto ler forma e desenvolve inteligência por isto ler forma sensibilidade e no áspero mundo de hoje a literatura tem um papel fundamental fazer frente a todos os mecanismos de alienação que principalmente por meio de novas tecnologias nos emparedam num mundo egoico em que nos conformamos a ser quem somos e até já dispensamos o contato humano porque nosso narcisismo virtual nos torna fantoches de nós mesmos e achamos que precisamos do outro apenas como instrumento de nosso prazer egoísta e animal e foi por estes caminhos que cheguei aqui e recebo a homenagem de ser eleito para a academia paranaense de letras foi o menino vivo e irrequieto que me trouxe aqui se devo agradecimentos a muita gente é a ele que agradeço em especial porque teve a audácia de puxar o fio da meada e se sou escritor devo à sua inquietação ao seu fervor à sua dedicação em todas as horas do dia as alegrias e sombras de lidar com a palavra num mundo que se faz cada vez mais superficial e vazio navegando nas tecnologias como se elas fossem a solução para tudo quem escreve aprende desde cedo não há solução somos obrigados a conviver com nossa incompletude e é por sermos incompletos que precisamos da arte para pelo menos arriscar a saber que somos finitos precários frágeis e limitados encontrando força para superar esta consciência na criação anônima de todo dia enfurnados entre nossos livros usufruindo do silêncio para montar mais uma história que nos deixará plenos por alguma horas até sentirmos a necessidade de começar outra 25.2.13 comente este artigo mediacao@colegiomedianeira.g12.br paulo venturelli é escritor doutor em literatura usp e professor da universidade federal do paraná É autor entre outras obras de fantasmas de caligem travessa dos editores meu pai kafka edições visita à baleia editora positivo fica a dica fantasmas de caligem fantasmas de caligem autor paulo venturelli travessa dos editores livro com 21 contos trata-se de um ousado projeto literário venturelli a exemplo do que paulo soethe sugere no texto de apresentação é um ser de linguagem e a linguagem o trabalho com a linguagem é um dos pontos altos deste livro repleto de pontos altos a linguagem é adequada a cada tema tratado nos variados contos Às vezes nem enredo há e isto é resolvido com linguagem muita linguagem Às vezes há enredo e então os temas de cada um dos contos dizem respeito a questões caras ao humano a literatura de venturelli entre tantos efeitos dialoga e transforma o leitor visita à baleia autor paulo venturelli editora positivo o livro visita à baleia conta a história do menino césar que foi chamado pelo pai para ver uma baleia na praça da cidade brusque em santa catarina como podia acontecer aquilo numa cidade do interior longe do mar como esse animal foi parar lá a notícia sobre a baleia logo despertou a atenção de todos não demorou muito para que o povo saísse para ver o tal animal e descobrir o mistério que envolvia o estranho fato o olhar e a imaginação do menino vão costurando de forma simples e mágica a história conduzindo a narrativa para um final surpreendente mediação 9

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considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo assim como conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes blaise pascal por alexandre martins 10 mediação

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p or que na atualidade a ética se tornou uma disciplina isolada dos outros saberes existe algum conhecimento que não passe pelo questionamento ético e esteja acima do bem e do mal se recorrermos aos manuais que procuram definir o que seria ética perceberemos que ela é considerada como uma ciência porque tem objeto próprio leis próprias e método próprio mas e os outros saberes não pressupõem da mesma forma esta propriedade ética o problema é que desprovidos de valoração os diversos saberes passam a não considerar seu impacto social sua inserção contextual além dos interesses motivadores e em alguns casos financiadores das produções de conhecimento pelo simples fato de que acreditam estar lidando com um conhecimento puro para tanto dos saberes científicos mais técnicos aos conhecimentos primários ensinados nas escolas quase sempre percebemos esta autonomia poderíamos tomar como exemplo um simples exercício de matemática cujo objetivo fosse ensinar porcentagem e para tanto num problema fosse criada a situação de um pai que divide de modo desigual a herança com seus filhos para que os alunos calculassem quantos por cento cada um ficou do montante final até aí tudo bem pois justifica-se que o objetivo do problema é a porcentagem que resulta proporcionalmente da divisão no entanto se algum aluno notasse que a divisão da herança se deu de modo desigual seria na maioria dos casos automaticamente desconsiderado o fato de que o enunciado do problema apresenta um dilema ético pois nesta perspectiva acredita-se que a matemática está isenta de qualquer compromisso valorativo afinal de contas ela se presta unicamente a ensinar cálculos descontextualizados e desprovidos de qualquer realidade social mas seria esta de fato a função da matemática ensinada nas escolas número de hiperespecializações pessoas que sabem cada vez mais de objetos nas suas mais diversas especificidades em contrapartida isso se dá à custa da dissociação deste objeto com seu meio esta cisão para morin é um verdadeiro obstáculo ao claro conhecimento dos fatos e fenômenos pois atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão eliminando assim as oportunidades de um julgamento corretivo ou de uma visão a longo prazo este saber fragmentado é uma das grandes características dos nossos tempos estreitando o conhecimento em disciplinas e desarticulando-o da ecologia dos seres e dos atos neste caso o que podemos perceber debruçando-nos brevemente sobre a história ocidental é que houve um longo processo de separação entre a produção das ideias e a ética que as envolvia norteava e lhes dava sentido resultando na existência atual desta separação tão evidente caracterizada por morin como uma atrofia da compreensão e da reflexão se tomarmos como referência a grécia antiga berço da civilização ocidental e de acordo com o filósofo hans-georg gadamer referência de retorno a nós mesmos encontramos outro panorama de reflexão o pensamento era sinônimo de política ou seja voltado para manutenção e desenvolvimento da pólis cidade estado dos gregos num contexto de compreensão de que o humano era por excelência um animal político aristóteles consigna à o saber e a ética e o saber ético existe uma clara porém nem sempre observada distinção entre o saber e a ética e o saber ético a noção estabelecida pelo saber e a ética compõe dois campos distintos de conhecimento ou melhor duas ciências independentes uma vez que na modernidade o saber está num campo próprio pelo qual aparentemente não existe problema ético ou moral nos seus enunciados afinal de contas não faz parte de seus propósitos e daí a pretensão de autonomia de valor do saber ou seja uma independência dicotômica entre conhecimento e valoração enquanto no segundo caso o do saber ético parte-se de outro princípio o de que o saber envolve um contexto e consequentemente um compromisso ético o pensador francês edgar morin segue a mesma linha crítica ao dizer que na atualidade o conhecimento tornou-se fragmentado e a partir disto distante de seu contexto cresceram com os anos o mediação 11

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vida política o fim mais elevado vive-se na e pela cidade não por cega fatalidade ou mero acaso mas porque o agir humano determinado pelo bem supremo se aperfeiçoa no superlativo exercício da cidadania É por isto que toda experiência humana exercida no contexto da pólis visa o bem supremo para aristóteles portanto o conhecimento se configura como um saber ético muito diferente da crítica de morin ao se reportar à atualidade o mesmo acontece com platão mestre de aristóteles e referência do pensamento filosófico para platão a educação chamada de paideia consistia num ideal do cultivo e da conduta instrução educação capacidade para aprender talento para repartir o aprendizado e multiplicá-lo curiosidade intelectual desejo de saber e de comungar do saber com o outro mais uma vez se confirma a ideia de que a formação do indivíduo deveria necessariamente prever a base ética de cidadania se de um lado havia o aspecto do conhecimento de outro havia a preocupação de que este conhecimento fosse desenvolvido de modo solidário em prol da pólis enquanto a educação antiga se caracterizava essencialmente como um saber ético na modernidade começaram a surgir indícios desta separação nicolau maquiavel 1469-1527 na obra o príncipe despontará como um destes separatistas quando nos referimos a alguém que é ardiloso ou astuto costumamos dizer que é maquiavélico não por acaso esta palavra deriva do nome deste que é um dos mais importantes filósofos modernos da filosofia política isto porque ele foi um dos primeiros a escrever de modo claro e objetivo que a política não deve ser necessariamente ligada a questões éticas ou seja propôs por meio de suas argumentações que a política deveria ser um saber autônomo maquiavel não demonstra preocupação em argumentar como ser bom administrador ou político mas como parecer ser bom diante daquilo que realmente funciona de fato quando investigando sobre quais seriam seus conselhos se o príncipe deveria cumprir seus compromissos e honrar suas palavras ele afirma que um príncipe sagaz não deve cumprir seus compromissos quando isso não estiver de acordo com seus interesses e quando as causas que o levaram a comprometer sua palavra não existam mais seria portanto necessário que um príncipe soubesse muito bem disfarçar sua índole e ser um grande hipócrita e dissimulador pois na grande maioria os seres humanos julgam mais pelo que veem e ouvem do que pelo que sentem todos veem o que parece ser mas poucos realmente sentem o que é reforçando esta ideia conclui que as pessoas comuns são sempre levadas pelas aparências e pelos resultados e é a massa vulgar que constitui o mundo mais do que escrever esta obra maquiavel conseguiu como ninguém sintetizar os novos ideais modernos emergentes que delegavam independência dos saberes se a política não deveria relacionar-se com a ética o mesmo gradualmente aconteceu com as outras ciências deste longo e demorado processo resulta o fato de hoje termos estes conhecimentos autônomos inclusive propagados nas escolas nas mais diversas disciplinas práticas educativas e estratégicas pedagógicas desde o simples exemplo matemático enunciado na introdução deste artigo até os dilemas mais complexos parece não ter cabimento sair do saber fragmentado e querer relacioná-lo com outros saberes contextualizá-lo ou ainda valorá-lo de acordo com a filósofa viviane mosé a escola deve ser um corpo vivo logo torna-se urgente retomarmos a difícil complexidade que é viver pensar criar conhecer todas as coisas se relacionam não há nada realmente isolado cada gesto produz desdobramentos incalculáveis um saber uma escola uma pessoa não existe sem um contexto a prática de ensino está muito além da transmissão do conhecimento portanto este corpo vivo assume uma dupla responsabilidade 12 mediação

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se compromete com o desenvolvimento cognitivo na mesma medida em que deve garantir que os saberes norteadores não podem desconsiderar o compromisso ético que em suas especificidades cada um representa a autonomia ética dos saberes é na realidade um total descomprometimento com a realidade resultante de um longo processo histórico e que ainda hoje se reproduz de modo despercebido e silenciosamente se sustenta nas mentalidades inclusive de muitos educadores se maquiavel dissociou a política da ética e por muito tempo foi visto com maus olhos hoje sequer precisaria justificar o porquê desta separação uma vez que se confundiria com outros tantos pensadores e produtores de saber comente este artigo mediacao@colegiomedianeira.g12.br alexandre martins é licenciado em filosofia e história utp pós-graduado em filosofia pucpr e mestre em filosofia pucpr professor das faculdades integradas santa cruz de curitiba e do colégio nossa senhora medianeira fica a dica a cabeça bem-feita repensar a reforma reformar o pensamento autor edgar morin editora bertrand a proposta de edgar morin se fundamenta na reforma do pensamento e do ensino uma vez que ambos preconizam uma só realidade para tanto é preciso ir além de um conhecimento fragmentado que por tornar invisíveis as interações e relações com o contexto anula a complexidade essencial que cada saber comporta a partir daí toma corpo a crítica as grandes finalidades do ensino que a seu ver precisam promover sujeitos engajados na sociedade formados com uma cabeça bem feita o príncipe autor nicolau maquiavel editora dpl nicolau maquiavel na obra `o príncipe empenhou-se em alargar o campo da ciência na política distinguindo os interesses políticos primários das classes mas confundindo-os ao mesmo tempo em uma monstruosa razão de estado pela qual o povo é apenas matéria plástica nas mãos do governante para tanto já não haveria sentido pensar numa política que dependesse estritamente da ética uma vez que os fins seriam capazes de justificar os meios mediação 13

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cinema e escola 14 mediação curta-metragem transforma alunos em protagonistas da comunicação por patricia melo lar É difícil até de imaginar mas nélio spréa e vinicius mazzon não só imaginaram como também colocaram essa história em um roteiro de cinema que vem conquistando o público além de importantes festivais como a 11ª mostra de cinema infantil de florianópolis e a 14ª mostra londrina de cinema o curta-metragem o fim do recreio produzido pela parabolé ­ educação e cultura de curitiba pr contou com protagonistas que vivem mais do que ninguém o dia a dia de uma escola os próprios alunos j á pensou se um dia os alunos não tivessem mais o recreio esco-

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lançado em 2012 o fim do recreio é protagonizado por estudantes de verdade não atores da escola municipal lauro esmanhoto em curitiba deixando o resultado final de braço dado com a realidade mesmo sendo um produto de ficção o grande diferencial é que o filme traz uma história sob o ponto de vista da criança com humor e sensibilidade mas com uma pegada documental a dinâmica mistura a interpretação dos alunos com os momentos que aconteciam de fato o recreio que aparece no curta-metragem é o recreio real por isso nélio spréa diretor do filme explica que o mundo de códigos do ambiente escolar é o foco do trabalho a linguagem adotada dialoga bem com esta faixa etária e discute questões que são de interesse dos estudantes e dos profissionais da escola É um filme sobre infância mas uma infância circunscrita pelo processo de escolarização que não apenas se modela a partir da cultura es colar mas que também impacta essa cultura diz spréa a história o roteiro fala de um projeto de lei que pretende acabar com o recreio um dos momentos mais esperados pelos alunos mas ao mesmo tempo em uma escola pública um grupo de crianças se mobiliza para mudar toda essa história com animadas brincadeiras infantis o curta-metragem é direcionado para todos os públicos utiliza uma fotos de divulgação parabolé educação e cultura mediação 15

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