Revista Barbante - Ano II - Num. 07 - 18 de abril de 2013

 

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literatura infantil, monteiro lobato, dia nacional do livro infantil

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revista ano ii nº 07 18 de abril de 2013 literatura infantil mitos contos de fadas boneca emília histórias da vovó meninos versos.

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editorial nesta edição exploramos o mundo da literatura infantojuvenil com colaborações que vão da beleza da poesia à importância dos contos de fadas passando ainda pela experiência do projeto baú da leitura que estimula crianças a um pensar crítico na região nordeste do brasil através da leitura e da interpretação de textos no mês de aniversário do nascimento de monteiro lobato o grande incentivador da literatura infantojuvenil no nosso país trazemos um pouco das memórias da boneca emília e seu discurso narrativo que proporciona às crianças uma consciência fictícia de narração em que o faz de conta se aproxima das brincadeiras infantis convidamos você leitor para uma viagem através do mundo da literatura infantojuvenil da revista barbante que nesta edição brinca de historiar e explorar bons textos para crianças e adolescentes rosângela trajano editora

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tiriba-de-testa-vermelha artigos

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trabalho e infância na literatura infantil e juvenil contemporâneas por georgina martins há muito que sabemos ser o conceito de infância tal qual é conhecido hoje por toda a humanidade uma reinvenção da modernidade ocidental o cuidado o interesse e a preocupação com os pequeninos seres a que chamamos crianças foram reengendrados a partir do século xvii principalmente na frança e na inglaterra países que diante das inúmeras atrocidades cometidas contra as crianças se viram obrigados não só a cuidar das suas como ainda a refletir sobre o lugar que a infância deveria ocupar naquele cenário recém-saído do contexto medieval período em que a diferença entre adulto e criança restringia-se ao tamanho e a força física o que levou o historiador philippe arries1 a cunhar a expressão adultos em miniaturas para nomear a infância da idade média sobre a qual se debruçou em suas pesquisas dada a morte exagerada de crianças no século xviii o estado francês resolveu protegê-las criando algumas medidas que pudessem assegurar suas vidas parteiras reconhecidas como feiticeiras brancas e orientadas pelo poder público tinham a missão de proteger os recém-nascidos em função disso os pais foram proibidos de dormir com os filhos e o aleitamento começou a ser incentivado no entanto paralelo a essas medidas o estado em virtude da facilidade de arregimentar crianças sem família passou a capitalizar a condição de abandono em que se encontravam as crianças pobres utilizando-as como mão-de-obra barata no povoamento das colônias francesas o que acabou por provocar o protesto de vários pensadores sobretudo os que defendiam as idéias humanistas como rousseau que teve um papel importante nesta discussão já que defendia a proteção da infância como forma de preservação das famílias.2 o abandono o trabalho forçado e a violência cometida contra a infância um século antes de rousseau já havia mobilizado na inglaterra o filósofo empirista john locke famoso por publicar da educação das crianças defendia a tese de que a criança era como uma tábula rasa um papel em branco que deveria ser escrito pelos adultos para transformar-se em um exuberante livro e que por conta disso necessitava de cuidados especiais já o pensador francês defendia que as crianças só cresceriam saudáveis se fossem protegidas contra a rigidez do processo educacional rousseau as via como um ser importante em si mesmo e não como um meio para se alcançar um fim como antes pregara locke3 teses decisivas sobre a importância desse estágio da vida humana para o pleno desenvolvimento da civilização que resultaram em formulações que ora enxergavam a criança como um ser não civilizado carente da orientação dos adultos para se desenvolver ora como metáfora da natureza da planta que deveria crescer de forma orgânica e natural sem a interferência rígida do processo educativo a fusão dessas duas concepções foi de extrema importância para que as sociedades pudessem repensar um outro conceito sobre a infância foi a partir dela que virtudes como espontaneidade pureza vigor e alegria domadas por uma disciplina rigorosa puderam ser reconhecidas e cultuadas como valores intrínsecos e fundamentais do comportamento infantil idéia que passou a nortear não só a educação como também toda produção impressa cuja finalidade era a de contribuir para a formação dessa infância que acabava de surgir desse modo nas páginas de toda a produção destinada à criança começaram a figurar não só regras e conselhos para uma boa educação como também personagens de um mundo maravilhoso que por força da tradição oral pôde ser organizado compilado e preservado em belíssimas publicações dirigidas a esse novo público que despontava no cenário da europa moderna livros moralistas e edificantes foram largamente 1 arries philippe história social da criança e da família rio de janeiro guanabara 1978 2 donzelot jacques a polícia das famílias rio de janeiro gradil,1986 3 postman neill o desaparecimento da infância.rio de janeiro graphia 2001.

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produzidos nesse período além de livros de fábulas de contos de fadas de histórias de aventuras e livros de gravuras que se constituíram como importante alimento do imaginário infantil mas se por um lado no século xviii os europeus se empenhavam em cuidar da infância por outro a revolução industrial reponsável por arregimentar na inglaterra os filhos dos pobres para o trabalho nas fábricas a partir de quatro anos de idade fez cair por terra os limites ainda frágeis que separavam o mundo infantil do mundo adulto forjando uma nova geração de adultos em miniaturas cujas obrigações superavam as mais insólitas tarefas impostas às personagens dos contos maravilhosos que figuravam nos livros de histórias afora isso as punições reservadas às crianças pobres em nada diferiam das dos adultos crianças podiam ser severamente punidas e até mesmo enforcadas quando pegas em faltas consideradas muito graves no brasil o processo de industrialização das grandes capitais no início do século xx assim como na inglaterra colocou nas fábricas muitas crianças meninos e meninas obrigados não só a contribuir para a renda de seus familiares como em muitos casos a garantir o sustento desses somente no estado de são paulo no ano de 1919 37 da mão de obra nas fábricas têxteis era de crianças e adolescentes4 comprometidos com uma jornada de trabalho de 9 horas por dia situação que descumpria a lei estadual nº 1596 do ano de 1917 que estabelecia uma jornada de trabalho de 5 horas diárias para menores entre 12 e 15 anos o decreto estadual nº 233 de 1894 estabelecia que crianças só poderiam trabalhar a partir dos 12 anos limite nunca respeitado pelas indústrias que arregimentavam crianças de quase todas as idades bastava que fossem segundo parâmetros regidos pela ambição ao lucro consideradas aptas ao trabalho como é o caso da fábrica de tecido mariângela do empresário italiano francisco matarazzo que nesse período investiu na aquisição de máquinas menores a fim de que seus pequenos trabalhadores pudessem manejá-las com mais destreza 5 apesar disso aqui no brasil também a construção de uma idéia de infância é herdeira da fusão das teses de locke e rousseau trazidas no século xvi pelos padres jesuítas que imbuídos da missão de catequizar aqueles que consideravam selvagens utilizavam como estratégia de ação a conquista dos indiozinhos realizada através da literatura principalmente da leitura e da representação de autos e recitais de poesia tal qual flautista de hamelin josé de anchieta principal personagem desse processo seduzia os indiozinhos para a coroa portuguesa arrancava-os de casa e os transformava em grandes aliados no processo de aculturação dos pais conforme trecho de uma carta do próprio jesuíta ao rei de portugal de são vicente a 15 de março de 1555 creio que sabereis estarmos alguns da companhia em uma terra de Índios chamada piratininga cerca de 30 milhas para o interior de são vicente temos uma grande escola de meninos Índios bem instruídos em leitura escrita e em bons costumes os quais abominam de seus progenitores 6 nesse sentido aqui no brasil também a literatura destinada à infância até o início do século xix se manteve atrelada às concepções didático/pedagógicas que pensavam a criança como tábula rasa como cera virgem passível de ser moldada pelos adultos logo junto com os contos maravilhosos europeus foram produzidos toda sorte de livros cujo principal objetivo era incutir valores edificantes somente com monteiro lobato em 1920 é que essa produção conseguiu se libertar e o sítio do pica 4 moura esmeralda blanco b mulheres e menores no trabalho industrial petrópolis vozes 1982 5 idem ibidem 6 anchieta josé cartas informações fragmentos históricos e sermões belo horizonte itatiaia 1988 p 89.

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pau amarelo tornou-se um divisor de águas da literatura infantil lúcia a menina do narizinho arrebitado passou a representar uma infância que além de usufruir o direito ao lúdico e à fantasia no paradisíaco sítio de sua avó ousava colocar em xeque as certezas do mundo adulto o que nos permite afirmar que apesar de não refutar de todo as idéias de locke lobato escolheu as de rousseau como norte para a criação de suas personagens no entanto a menina do narizinho arrebitado em nossa avaliação representou tão somente uma parcela muito pequena da infância brasileira porque a outra se falarmos apenas de são paulo no período compreendido entre a criação e publicação do sítio de lobato era incorporada ao trabalho penoso das fábricas diferente de lúcia as crianças paulistanas pobres não tinham tempo para brincadeiras elas participavam de uma outra aventura que não a do reino das àguas claras mas a do enfrentamento do trabalho pesado e perigoso que quando não matava deixava graves seqüelas desse modo os seres maravilhosos que freqüentavam o sítio de dona benta sequer chegaram a conhecer essa outra infância que se achava travestida de adulto uma infância brasileira que até hoje é muito pouco representada pela literatura infantil literatura que optou por incorporar quase que exclusivamnete os elementos líricos de uma infância idealizadamente feliz mas se a literatura infantil conseguiu libertar-se das amarras do pensamento pedagógico tornando-se apenas literatura não podemos dizer o mesmo de uma parcela muito significativa de nossas crianças até hoje atrelada a sua herança medieval de adultos em miniatura e que por conta disso não pode ser apenas criança infância que permanece invisível aos olhos de escritores que ainda fazem questão de perpetuar a idéia de uma infância inteiramente idealizada diante disso é que livros como serafina e a criança que trabalha7 e açucar amargo8 foram escolhidos para representar essa outra infância que apesar de não habitar o mundo da fantasia merece figurar no universo ficcional autores como cristina porto yolanda huzak jô azevedo e luiz puntel nas obras citadas não só se dispuseram a pesquisar sobre a dureza do cotidiano de crianças trabalhadoras como ainda a manipular os elementos dessa realidade para transfomá-los em matéria de ficção livros que por hora nos dispomos a analisar 7 8 azevedo jô et ali serafina e a criança que trabalha são paulo Ática 1999 puntel luiz açúcar amargo são paulo Ática 2005.

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serafina e a criança que trabalha trata-se de um livro dirigido à criança cujo foco principal é a denúncia do trabalho infantil narrado em primeira pessoa pela menina serafina o texto nos coloca em contato com a dura realidade dos pequenos trabalhadores do país de maneira comovente e ágil serafina conta aos seus leitores tudo que aprendeu sobre essa realidade no livro que sua professora levou para a escola tudo começou com um livro grande bonito cheio de fotos coloridas que a professora levou pra gente ver na classe era um livro sobre crianças que trabalham foi ai que o livro começou a parecer feio quero dizer foi aí que a gente começou a perceber que bonito era só o jeito a forma de mostrar essas crianças 9 são histórias de crianças e de suas famílias recolhidas pela professora durante uma viagem de pesquisa sobre o tema eram histórias muito especiais pois as crianças existem mesmo a dona catarina tinha conversado com elas e com suas famílias em uma viagem que fez por várias regiões do brasil 10 o cárater interativo do texto somado ao espanto e à indignação vigorosa com que serafina narra as histórias são responsáveis pela cumplicidade que se estabelece entre leitor e narrador logo nas primeiras páginas do livro vínculo que é capaz de promover o envolvimento dos leitores no combate ao trabalho infantil intenção primeira do texto mas que no entanto não o transforma em mero instrumento de contestação em seu relato serafina se utiliza de várias referências do cotidiano infantil recurso que contribui para dar leveza ao texto como por exemplo o diálogo que estabelece entre a história da cinderela e as de crianças que trabalham na colagem e costura de sapatos sou capaz de apostar que até este momento a única história ou pelo menos a história mais famosa de sapatos que você já tinha ouvido falar era a da cinderela não era ?11 ou ainda quando se refere a ingênuos e previsíveis acidentes como espetar um dedo na roseira para falar sobre a dificuldade que as crianças trabalhadoras do sisal são obrigadas a enfrentar as histórias dos pequenos trabalhadores são por serafina pontuadas pelo seu cotidiano de criança que não precisa trabalhar estratégia utilizada pelas autoras para minimizar o choque que a crueldade do trabalho infantil pode provocar nos pequenos leitores diferente daqueles trabalhadores serafina pode brincar ver televisão ouvir música estudar e ainda deliciar-se com suas guloseimas preferidas como o bolo de laranja feito por sua mãe e por falar em fura-bolo vou interromper a viagem e parar um pouco para comer um pedaço do bolo de laranja molhadinho que a minha mãe fez acho que só assim consigo tirar da cabeça essa história tão dolorida12 a interatividade do texto já mencionada por nós além de gerar a cumplicidade entre leitor e narrador dá forma a uma narrativa instigante que mesmo extensa é capaz de prender a atenção até mesmo dos leitores mais preguiçosos principalmente porque lhes desperta a curiosidade conforme podemos observar no trecho em destaque 9 10 11 12 aposto que você não sabia que o carvão é a lenha do eucalipto queimado em fornos chamados azevedo op cit p 7 idem ibidem p 12 idem ibidem p 31 idem ibidem p 19.

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« rabos quentes » sabia ?e se não sabia disso também não deve saber que rabo quente é uma espécie de iglu já viu como é a casa de esquimó feito de tijolo e barro que arde e estala com fogo aceso durante três dias.13 pelo fato de o tema em questão ser praticamente desconhecido das crianças leitoras do livro a menina narradora na intenção de elucidar seu discurso lança mão de vários tipos de comparações como essa do iglu o que não só facilita o entendimento como ainda contribui para a formação geral de seus leitores o tom de reportagem que identificamos em diversos momentos da narrativa resultado de extensa pesquisa sobre o trabalho infantil sugere que as autoras não pretendiam construir uma obra unicamente literária mas sim um texto que fosse capaz de provocar reflexões sobre a situação de milhares de crianças que se vêem obrigadas a trocar a infância pelo trabalho no entanto o perfeito equilíbrio entre os elementos constitutivos da realidade que podemos chamar de matéria de extração histórica14 e a manipulação do discurso literário nos permite afirmar que serafina e a criança que trabalha faz jus ao título de obra literária para crianças e jovens longe de uma mera descrição sobre os horrores dessa forma de exploração infantil o texto convida os pequenos leitores a acompanhar serafina em sua viagem imaginária pelas diversas regiões do país que exploram a mão de obra infantil no entanto a fim de não se distanciarem do foco principal da obra que em nossa avaliação é a denúncia dessa realidade as autoras ao final da narrativa optaram por reproduzir as fotografias que fizeram durante o período da pesquisa bem como dos endereços das entidades que em vários países lutam para banir o trabalho infantil unindo dessa forma a proposta de denúncia ao projeto estético de construção de um texto ficcional 13 14 bastos alcmeno introdução ao romance histórico rio de janeiro eduerj 2007 idem ibidem p 16.

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açucar amargo novela do escritor mineiro luiz puntel dirigida ao público jovem cuja trama é baseada nos episódios do ano de 1984 que marcaram a greve de cerca de cinco mil cortadores de cana da cidade de guariba no interior de são paulo revoltados contra os baixos salários o regime de semiescravidão e a mudança do sitema de colheita os cortadores de cana aliados aos colhedores de laranja tomaram as cidades de bebedouro e guariba para protestar contra os usineiros durante dois dias essas cidades foram palco de várias manifstações que só cessaram depois do acordo de jaboticabal assinado em 17 de maio e estendido a todos os municípios da região motivando outros trabalhadores rurais a exigirem seus direitos15 narrado em terceira pessoa açucar amargo16 tem como personagem principal a menina marta filha de trabalhador rural em catanduva interior de são paulo a trama se inicia com uma conversa entre marta e suas amigas na saída do colégio sobre a impossibilidade de a menina participar de um trabalho em grupo por conta da dificuldade de morar longe em uma fazenda onde seu pai é colono afora essa dificuldade o pai de marta não aprova que a filha estude além de não hesitar em demonstrar a sua predileção pelo filho mais velho principalmente porque este o ajuda na labuta diária marcada por uma personalidade forte marta resolve enfrentar todas as dificuldades para continuar seus estudos e mesmo quando recebe a notícia de que a família tem de deixar a fazenda para se aventurar em busca de trabalho em outro lugar não desiste mas se a vida de marta já era difícil na fazenda as coisas pioram muito quando o pai e o irmão se vêem obrigados a trabalhar como cortadores de cana em bebedouro culminando com a morte do irmão no acidente com o caminhão que transportava os bóias-frias até o canavial revoltado com a morte repentina do filho o pai de marta resolve procurar outro tipo de trabalho mas se dá conta de que não restava outra alternativa a não ser o corte da cana e muda-se com mulher e filha para guariba marta não só para ajudar sua família mas principalmente para provar ao pai que era merecedora de carinho e atenção resolve também trabalhar na cana disfarçada de homem a menina surpreende a todos dada a sua disposição e ligeireza no corte até que a situação no canavial acaba por obrigá-la a revelar a verdadeira identidade participante ativa da greve dos trabalhadores rurais marta acaba por salvar a vida do pai que muito arrependido e comovido reconcilia-se com a filha muito mais do que retratar a exploração nos canaviais do interior de são paulo luiz puntel construiu uma narrativa capaz de propiciar um entendimento mais amplo sobre essa questão uma vez que tendo como mote os conflitos de guariba o texto não perdeu a dimensão política do problema diferente de serafina e a criança que trabalha cuja personagem principal dedica-se a narrar as histórias de crianças exploradas sem preocupar-se com a construção de um enredo açúcar amargo pela voz oniciente de seu narrador configurase como uma trama que acompanha a trajetória de marta tendo por enredo a exploração de trabalhadores dos canavias paulistas apesar de deixar claro que sua novela é baseada em fatos reais sua intenção não nos parece ser dada a construção do texto unicamente denunciar a crueldade do trabalho infantil mas sim a de engendrar uma obra literária que fosse capaz de provocar reflexões sobre o tema no entanto em nossa avaliação ao manipular a matéria de extração histórica a revolta dos trabalhadores de guariba para transformá-la em objeto ficcional luiz puntel pesou a mão em construções carregadas de clichês e de exteriótipos acabando por comprometer a qualidade literária do texto conforme podemos observar em uma das falas de marta sem estudo 15 16 http www.estadao.com.br/rss/economia/2005/nov/25/9.htm luiz puntel açúcar amargo são paulo Ática 2005

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a gente não consegue muita coisa na vida17 frase feita que não comprometeria a qualidade literária se proferida apenas pelas personagens já que estas por se acharem inseridas em um contexto adverso dificilmente conseguiriam dominar um rico acervo vocabular mas quando também o narrador se utiliza de clichês como no momento em que descreve o estado de espírito de marta utilizando a gasta expressão balde de água fria a nossa tese acerca da qualidade literária parece se comprovar À noite marta surpreendeu-se aquela notícia era como um balde de água fria em seu entusiasmo 18 trata-se de um narrador que ao longo de toda trama não deixa quase espaço para as manifestações das personagens o que em nossa avaliação demonstra um exercício exagerado de sua oniciência afora isso o autor não explora as inúmeras possibilidades da língua fazendo pouco uso das metáforas o que resulta em uma narrativa muito previsível suas personagens possuem muito pouca densidade dramática para o papel que desempenham e mesmo marta a protagonista é explorada à luz de exteriótipos que servem para caracterizar indistintamente todo e qualquer adolescente pobre de sua idade em nossa avaliação tudo isso contribui para que a obra do ponto de vista literário seja pouco atraente o que já não podemos afirmar em relação à importância que desempenha para o desvelamento de questões complexas como o tema da exploração pelo trabalho nesse aspecto o autor conseguiu produzir de maneira competente e criteriosa um importante documento sobre a exploração dos bóias frias do canavial nesse sentido nos permitimos afirmar que tanto açúcar amargo quanto serafina e a criança que trabalha dada a complexidade do tema bem como do comprometimento social de seus autores devem figurar como acervo obrigatório das escolas de ensino fundamental e médio desse país a fim de que as crianças e os jovens que não necessitam trabalhar tomem conhecimento de que existe uma parcela bastante significativa de crianças que não têm direito à infância 17 18 puntel luiz op cit p 36 idem,ibidem p 37.

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alguma conclusão É no mínimo curioso que o tema abordado neste ensaio quase não apareça nas produções literárias contemporâneas dirigidas à crianças e jovens sobretudo se pensarmos na forma como o mesmo foi representado nos contos maravilhosos medievais compilados e narrados desde o século xvii durante praticamente toda a idade média na europa principalmente na frança o pânico dominava a população que presenciava impotente a morte exagerada de crianças e é neste universo que proliferam os contos É singular a correspondência que guarda este contexto com a realidade contemporânea em nosso país as sucessivas descaracterizações promovidas ao longo dos tempos imprimindo aos contos um caráter premeditadamente adocicado e omitindo questões cruciais da existência morte sexo fome desejos impedem por vezes que essa relação seja facilmente observada.19 tome-se a história da cinderela como exemplo trama que retrata um período em que a morte exagerada de mulheres era representado na literatura pela figura das madrastas das irmãs postiças e conseqüentemente pela rejeição àqueles que poderiam significar uma ameça como a pequna órfã obrigada a executar os trabalhos pesados da casa também o pequeno polegar é fruto dessa época adversa cuja obrigatoriedade de pagamento de impostos à realeza fazia com que os camponeses para conseguirem pagá-los se vissem muitas vezes obrigados a expulsar de casa seus próprios filhos na esperança de que eles pudessem sobreviver por conta própria e quem sabe ainda trazer algum dinheiro para casa o que fazem pequeno polegar e seus sete irmãos assim que conseguem libertar-se do malvado e poderoso ogro até mesmo a inocente chapeuzinho vermelho é capaz de denunciar a época em que a criança desde muito pequena já desempenhava as tarefas domésticas a despeito de todo perigo a que estivesse exposta em grande parte dessas histórias o trabalho infantil aparece como testemunho de um momento social e econômico em que a mão-de-obra dos pequenos era utilizada desde muito cedo e graças a esse testemunho é que temos hoje na literatura maravilhosa um vasto material de pesquisa sobre trajetória social e econômica da infância ao longo dos séculos daí o nosso espanto diante de uma literatura que ainda insiste em cultivar o mito da infância feliz 19 darton robert o grande massacre de gatos rio de janeiro graal 1988.

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bibliografia anchieta josé informações fragmentos históricos e sermões belo horizonte itatiaia 1988 aries philippe história social da criança e da família rio de janeiro guanabara 1978 badinter el l`amour en plus histoire de l`amour maternel xviie xxe siècle paris flamarion 1980 bastos alcmeno introdução ao romance histórico rio de janeiro eduerj 2007 cÂndido antônio literatura e sociedade são paulo cia editora nacional 1976 carpentÍer alejo a literatura do maravilhoso são paulo revista dos tribunais 1987 darnton robert o grande massacre de gatos rio de janeiro graal 1986 delumeau jean história do medo no ocidente são paulo companhia das letras 1990 donzelot jacques a polícia das famílias rio de janeiro graal 1986 eagleton terry teoria da literatura são paulo martins fontes 1983 freyre gilberto casa grande senzala rio de janeiro record 1989 le goff jacques dir o homem medieval lisboa editorial presença 1989 marcÍlio maria luíza história social da infância abandonada são paulo hucitec 1998 mollat michel os pobres na idade média rio de janeiro campus 1989 moura esmeralda blanco b mulheres e menores no trabalho industrial petrópolis vozes 1982 postman neil o desaparecimento da infância rio de janeiro graphfia editorial,1999 o fim da educação.rio de janeiro graphia editorial 2002 priore mary del história da criança no brasil são paulo contexto 1998 georgina martins especialista em teoria e crítica da literatura infantil e juvenil doutora em literatura brasileira escritora de livros para crianças e jovens e professora do curso de pós-graduação em literatura infantil da faculdade de letras da ufrj

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leitura prazerosa em sala de aula a literatura infantil no projeto baÚ de leitura sanadia gama dos santos ufs 1 introduÇÃo a história é dinâmica e produto da construção de várias pessoas em um determinado tempo a partir do contexto social econômico político cultural e ambiental movido por interesses que determinam os rumos da sociedade todo esse contexto teve muita influência no processo de educação do brasil assim implantou-se uma educação e leitura que favorecessem apenas a dominação os colonizadores desse modo não poderiam permitir e assim o fizeram o acesso e a disseminação de outras leituras que não fossem as deles e precisavam de pessoas que obedecessem quem resistia era reprimido ao extremo no final do século xix a escola assume o monopólio da escrita na verdade escolarizando uma modalidade específica de uso do sistema de escrita de escola para elite progressivamente se transforma em escola de massas para indivíduos que mergulhados nos seus afazeres diários vivenciam situações nas quais o recurso do texto é uma espécie de habilidade de sobrevivência ocasional na ausência de outros meios menos penosos o alfabetizado pode tentar traduzir o escrito em oral essa oralização do texto é até hoje a visão da escola sobre leitura é essa a habilidade a que a alfabetização se propõe a desenvolver a outra modalidade de leitura e uso da escrita ­ literária reflexiva e erudita ­ firma-se como uma prática de distinção social herança de um privilégio a partir do contexto histórico de educação e de leitura no brasil nasce o projeto baú de leitura pbl projeto centrado na oralidade no cotidiano das pessoas na viagem ao mundo da fantasia da imaginação a partir de livros de literatura infanto-juvenil com o desejo de mudar para melhor a vida de milhares de crianças adolescentes e de todos situado no tempo e no espaço e em suas especificidades de poucas experiências de incentivo à leitura lúdica reflexiva contextualizada significativa e crítica essa oralidade dá-se em decorrência da leitura literária evidenciada em todas as suas competências ler/compreender interpretar re significar expressas em forma de arte ler o mundo inserir-se nele a partir do autoconhecimento do reconhecimento das identidades pessoais étnicas relacionais sociais conseqüentemente induzindo as crianças à participação efetiva na sala de aula e também na comunidade nos espaços de arte na sociedade enquanto sujeito de análise reflexão e ação transformadora da realidade contextualizar a leitura é situar as informações para dar-lhe sentido descortinando uma realidade a partir da cultura do jeito de ser e de fazer a leitura de um mundo de um povo no estado de sergipe o projeto está inserido em 43 municípios em sua maioria na zona rural e nos programas de erradicação do trabalho infantil peti o presente artigo pretende mostrar até que ponto a leitura em sala de aula através da metodologia e experiência do projeto baú de leitura são capazes de produzir impactos e mudança na vida das crianças e adolescentes e de outras pessoas e da comunidade proporcionandolhes melhor qualidade de vida e de projetos de futuro que os impulsionem a continuar acreditando na vida e em um mundo melhor.

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2 surgimento do projeto baÚ de leitura o projeto foi desenvolvido com o apoio técnico e financeiro do unicef no brasil a iniciativa foi criada em 1999 na região sisaleira da bahia com o objetivo de qualificar as atividades complementares à escola oferecidas para estudantes de 6 a 16 anos de idade atendidos pelo programa de erradicação do trabalho infantil peti nas chamadas unidades da jornada ampliada uja o projeto pretendia visitar as escolas do campo e as unidades de jornadas ampliadas do peti programa de erradicação do trabalho infantil para fazer um trabalho diferenciado de leitura com as crianças proporcionando momentos de prazer leitura e reflexão com os bons resultados alcançados ultrapassou as fronteiras do estado além de ser realizada em 98 municípios da bahia também acontece em 43 municípios do sertão sergipano promovida pelo centro dom josé brandão de castro cdjbc e em 18 municípios alagoanos como parte das atividades de um novo pontão de cultura em palmeira dos Índios coordenado pelo movimento pró-desenvolvimento comunitário o projeto contribui para o desenvolvimento e a capacidade de escrita e de interpretação de textos de crianças que estudam em escolas públicas da zona rural de sergipe monitores capacitados desenvolvem atividades com meninas e meninos utilizando o conteúdo do baú que dispõe de material didático dicionário e dezenas de livros de histórias infanto-juvenis a ideia é contribuir para que essas crianças melhorem seu desempenho escolar e estimular sua capacidade crítica desde seu lançamento o projeto já garantiu o direito de aprender a mais de 30 mil crianças e adolescentes na bahia beneficiando cerca de 1.600 famílias de comunidades rurais esse projeto nasceu provocado pela unicef que sugeriu ao moc movimento de organização comunitária que realizasse experiências que estimule a leitura de forma lúdica e reflexiva com as crianças do peti com ampliação do projeto houve a necessidade de buscar novos parceiros como comissão estadual de erradicação do trabalho infantil do estado da bahia as setras secretaria estadual de trabalho e ação social prefeituras através das secretarias de ação social assim o projeto criou forças para atuar e levar o baú as crianças e adolescentes do campo e da cidade como estÁ organizado o bÁu são diferentes baús a ao m com variados títulos de literatura infanto-juvenil selecionados para contribuir com o desenvolvimento das pessoas o projeto visa incentivar educadores e crianças em uma prática prazerosa de leitura como instrumento para conhecer a sua própria história comunidade família e desenvolver a imaginação criatividade linguagem também de construir seu conhecimento de forma participativa consciente e crítica ajudando-as a refletir sobre suas vidas e interagir no espaço em que vivem caracterÍsticas do baÚ os títulos variam com a designação do baú a b c d e f g h i j l m todos contêm os livros com abordagem dos motes temas de identidade meio ambiente e cidadania estes vários tipos foram

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