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memÓrias das ilhas de querimba fortificaÇÕes militares na ilha do ibo moÇambique a fortaleza de sÃo joÃo baptista do ibo por carlos lopes bento 1
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memÓrias das ilhas de querimba fortificaÇÕes militares na ilha do ibo moÇambique a fortaleza de sÃo joÃo baptista do ibo por carlos lopes bento1 na continuação do trabalho anterior que teve como objecto o fortim de s josé ocupar-me-ei hoje da maior fortificação construídas pelos portugueses na ilha do ibo a fortaleza de s joão baptista a sua total ruína verificada por volta de 1785 e as fracas possibilidades de defesa que oferecia o fortim de são josé como consequência da sua má e irregular construção e implantação em terreno arenoso impróprio e das despesas avultadas exigidas para a sua restauração aconselhavam a fazer-se antes outro forte novo em terreno melhor para segurança da mesma construção como vantajoso para a defesa dessa ilha e sua barra do que reparar-se a ruína do velho v.m proporá a construção de um novo forte no sítio vantajoso 2 no entanto anos mais tarde num novo contexto geopolítico o velho forte viria a ser reactivado de acordo com os objectivos traçados o governador das ilhas escolheu o local desenhou a planta3 e propôs a construção de uma fortaleza em forma de pentágono regular com as oficinas que devia conter fig i esta figura geométrica era a mais vantajosa por ser a que melhor se acomodava ao terreno ficava menos dispendiosa à fazenda real defendia os edifícios a construir no seu interior permitia uma posterior ampliação e protegia a vila de qualquer ataque de mouros ou macuas que é o inimigo com quem presentemente nos defrontamos para além de recuperar o comércio nas mãos dos mouros da costa e usurpado pelos de quiloa pate mombaça e zanzibar 4 e dos europeus especialmente dos franceses 1 administrador do concelho do ibo entre 1969 e 1972 doutor em ciências sociais pelo iscspda utl e prof universitário 2 a.h.u códice 1478 carta de 2/5/1789 do cap gen para o cap das ilhas 3 idem doc av moç cx 63 doc 17 carta de 20/5/1792 do cap das ilhas para o cap gen em que se dá conta que foi encarregado de tirar plantas da fortaleza nova e da ilha do ibo o capitão carlos josé dos reis e gama plantas que não se encontraram 4 idem ibid cx 58 doc 36 carta de 17/7/1789 do cap das ilhas para o cap gen 2
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fig i planta pentagonal original e foto de 1972 de cbento autores como pierre verin e amaro monteiro estabelecem uma ligação directa entre a construção desta fortaleza e as incursões dos sakalava5 que tiveram lugar nas costas de África a partir de 1785 e nas ilhas de querimba desde de 1800 É possível que a presença destes povos de madagascar contribuísse para acelerar o processo mas de acordo com as evidências factuais atrás apresentadas dificilmente se poderá compreender que constituísse o principal factor responsável entre as obras a construir no seu interior contava-se quartéis com 27 palmos que permitiriam abrigar 120 praças e os seus oficiais e sargentos a cisterna ou poço que deveria ser construída no seu interior como era habitual e havia sido recomendado por moçambique não foi incluída na planta então traçada por se poder fazer fora um depósito para as águas da chuva a pouca distância do forte no lugar que pretendo abrir uma pedreira na qual pode ser que apareça água nativa mas quando não apareça sempre a cavidade que se fizer pode servir para cisterna que se fará e se lhe pode encaminhar as águas dos terrados dos edifícios do mesmo forte e não é defeito grave ficar fora a água sendo em distância de tiro de mosquete como insinua mrs blon e cavaleiro de ville 6 esta informação do governador das ilhas é clara e esclarecedora e vem acabar com certas dúvidas levantadas por alguns estudiosos portugueses que se têm debruçado sobre este assunto e procurado sem êxito no interior desta obra defensiva a cisterna para abastecimento de água recordam-se entre outros os historiadores alberto iria e alexandre lobato que nas visitas à mesma fortificação afirmavam estarem convictos da existência de tal reservatório sendo necessário encetar pesquisas no local para a encontrar tarefa que na verdade não seria fácil pois em sua substituição construiu-se um poço a cerca de 80 metros da fortaleza ainda existente em 1974 para o qual no período dos ataques dos sakalava e com receio da sua água considerada então a melhor da ilha ser envenenada pelo inimigo se recomendava a construção de 2 muros com 2 palmos de largura e 10 de altura7 que fariam a sua ligação com a dita fortaleza que via assim aumentar a sua segurança e defesa não existem vestígios visíveis destes muros sendo bem provável dada a continuação das pressões dos piratas malgaxes que tivessem sido construídos também é pouco provável que alguns estejam enterrados considerando a pouca espessura do solo e ser frequente o 5 verin 1972 op cit p 81 e monteiro f amaro e verin pierre sites e monuments de madagascar et de l ocean indien in bulletin de madagascar oct nov 1970 p 294 6 a.h.u doc av moç carta de 30/5/1792 cit 7 idem códice 1478 carta de 12/11/1808 fls 215v do cap das ilhas para o cap gen 3
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aproveitamento da pedra de obras arruinadas em novas edificações mas a última palavra caberá à arqueologia a envergadura e a importância de uma construção como esta exigiam um conjunto de trabalhos preliminares indispensáveis ao seu bom andamento e completo êxito para além da necessidade de pessoal especializado a recrutar em moçambique e de serventes a contratar nas ilhas e do respectivo pagamento e alimentação mandou-se localmente extrair e talhar pedra de coral cortar paus de mangal e outras madeiras e fabricar cal para suportar todos estes empreendimentos seriam necessárias avultadas despesas bem difíceis de obter considerando o estado decadente das finanças de moçambique para ultrapassar estas dificuldades imaginou-se um processo expedito e fácil cujos lucros permitiriam custear em 50 o total das despesas a realizar8 bastaria para o efeito pagar o pessoal a fato mantimento e bebida aos quais seria atribuído um valor muito acima do seu preço de custo as obras principiaram em 25/5/17899 com a ajuda de oficiais cabouqueiros e serventes vindos de moçambique e de serventes e gente de picareta que eram soldados adimos ou cafres forros e escravos de alguns moradores e do dito comandante tigre 10 fazendo-se o seu pagamento em milho aguardente fato e dinheiro e estavam em vias de conclusão nos finais de 179411 embora existam 2 lápides réplicas situadas sobre a porta de armas ver fig ii e sobre o túnel de entrada que apontam para data diferente na primeira pode ler-se sendo governador e capitão general deste estado o iiimo e exmo snr antónio manuel de melo e castro se fez esta fortaleza no ano de 1791 enquanto que na segunda o capitão de granadeiros antónio josé teixeira tigre comandando estas ilhas fez esta fortaleza no ano de 1791 fig ii réplica da lápide colocada por cima da porta principal.foto 1972 de cbento razões manifestas e latentes de ordem pessoal profissional e política estarão estado na base deste desencontro de datas a.h.u códice 1478 carta de 17/7/1789 cit idem ibid cx 58 doc 31 mapa geral de toda a defesa realizada de 25 de maio a 28 de dezembro de 1789 remetido a moçambique com a carta de 16/7/1789 e cx.59 doc 54 carta de 6/10/1789 que enviou a relação de oficiais e serventes 10 idem ibid cx 74 doc 7 carta de 9/5/1789 do cap gen para o cap das ilhas e autos de inquirição de testemunhas 11 idem ibid cx 70 doc 10 carta de 14/1/1795 do cap das ilhas para o cap gen afirmando nela que as obras estavam quase prontas e a tropa para lá se mudou ver também cx 67 doc 71 carta de 27/5/1794 do cap das ilhas para o cap gen em que se dão indicações sobre as obras em curso em 1798 dois dos pedreiros gentios regressavam definitivamente a moçambique cx 80 doc 42 carta nº 241 de 23/2/1798 nesta data também dois pedreiros fugidos de moçambique são tirados aos mouros da costa e foram enviados para a amisa 9 8 4
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os originais das lápides encontravam-se no museu histórico e militar de lourenço marques hoje maputo inventariados sob os nas 262 e 265 respectivamente12 esta fortaleza dedicada a são joão baptista padroeiro da ilha do ibo foi construída em pedra talhada extraída localmente13 tendo no seu interior sido erguida uma capela militar fig.iii que depois de ali ser colocada a imagem daquele santo14 foi convenientemente ornamentada15 fig iii capela militar de s joão baptista para além da pedra talhada técnica já utilizada nesta costa de África quando da chegada dos portugueses e que teria sido difundida pelos imigrantes persas e shirazianos também os terraços foram construídos com materiais da terra de acordo com os padrões de construção praticados pelo povo suaíli sendo utilizados os barrotes de mangal e laca-laca vindos por barco da arimba16 e a cal fabricada na ilha do ibo17 na impossibilidade de os recrutar localmente onde segundo as palavras do governador das ilhas18 moravam apenas um único carpinteiro branco menos mau se não fosse achacado e preguiçoso e um serralheiro que além de quebrado era achacado e cheio de usagra deslocaram-se da ilha de moçambique para o ibo vários mestres e oficiais mecânicos alguns dos quais cativos da relação dos oficiais a embarcar para trabalharem nas obras da fortaleza do ibo19 constava 8 indivíduos com jornas previamente fixadas20 de acordo com a sua classificação profissional a discriminação salarial existente fazia-se com base na diferenciação social estabelecida entre trabalhadores livres e trabalhadores escravos no caso concreto os 12 ver oliveira octávio rosa boletim da sociedade de estudos vol xxxv nas 114-145 1965 fls 222 13 a.h.u idem cx 58 doc 37 carta de 17/7/1789 do cap das ilhas para o cap gen estes factos desmentem as afirmações dos que defendem ter vindo a pedra do reino servindo de lastro aos navios talvez uma pequena parte 14 idem ibid cx 72 doc 91 carta de 20/12/1795 do cap das ilhas para o cap gen 15 idem códice 1478 fls 65 e 65v carta de 24/12/1795 de moçambique que inclusa manda a relação dos ornamentos que vão para a dita capela a referenciar no próximo capítulo 16 a.h.u doc av moç cx 66 doc 9 balanço da feitoria do ibo de 31/12/1793 17 idem ibid cx 58 doc 37 carta de 17/7/1789 do cap das ilhas para o cap gen 18 a.h.u doc av moç cx 57 doc 16 carta para o cap gen datada de 20/2/1789 19 a.h.u códice 1478 fls 30v carta de serviço de 11/5/1789 do cap gen os cativos eram propriedade particular uma parte destes trabalhadores chegou ao ibo em 6/10/1789 cx 59 doc 56 20 os salários praticados na ilha de moçambique com excepção dos cabouqueiros 400 réis eram mais elevados oficiais de carpinteiro pedreiro ou de ferreiro $500 e outros oficias e serventes $200 ver os preços dos viveres efeitos e mão-de-obra na capital do estado na relação do almoçatil de moçambique de 29/7/1794 doc av moç cx 68 doc 40 5
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dois pedreiros um de condição livre com um salário de $500 e o outro de condição escrava com menos 100 réis por dia exceptuando a proveniente da ilha de moçambique que representava uma pequeníssima percentagem em relação à sua totalidade a mão-de-obra utilizada nesta fortaleza foi recrutada localmente tanto na ilha do ibo como nas outras ilhas especialmente nas mais próximas como matemo e quirimba apesar da pesquisa documental exaustiva realizada apenas foi possível encontrar dois documentos relativos a salários pagos os quais devem pertencer ao processo de contas justificativo das despesas com a mesma obra possivelmente arquivado inadequadamente perdido ou destruído referimo-nos ao resumo das férias vencidas nas obras reais da fortaleza de são joão baptista de 25 de maio a 30 de setembro e ao mapa geral de toda a despesa realizada nas obras reais da fortificação de são joão baptista relativas ao período entre 25 de maio e 31 de dezembro de 1789 21 o pagamento dos salários foi feito em cachaça milho fato e dinheiro a análise dos dois documentos permite e ajuda-nos a conhecer aspectos sócioculturais significativos da construção desta obra defensiva seja entre outros alguns nomes de trabalhadores local de recrutamento condição social religião categoria profissional salários diários e dias de trabalho prestados no que toca ao resumo de férias verifica-se que a quase totalidade dos nomes e apelidos dos oficiais e serventes eram de origem portuguesa facto que confirma a utilização especialmente de gente forra verificando-se a existência de alguns nomes próprios avulsos isto é sem sobrenome ou apelido apenas aparecem dois nomes supomos de origem mwani por outro lado surgem apelidos ligados à origem étnica de trabalhador às circunstâncias do seu nascimento ou à sua profissão ainda que tivessem obrigatoriamente um nome próprio de matriz portuguesa mas sem sobrenome ou apelido dado no acto do baptismo cristão os trabalhadores de condição escrava pelo seu elevado número 108 cafres e 106 bichos não eram identificados individual e nominalmente os jornais como já foi referenciado eram pagos em efeitos milho e cachaça e em fato e dinheiro tendo 28,4 dos trabalhadores recebido estes e 71,6 apenas alimentação e bebida não existia uniformidade na distribuição do milho e da cachaça enquanto a alimentação com excepção de um foi fornecida a todos os trabalhadores o mesmo já não acontecia com o fornecimento de aguardente que não contemplava uma grande parte deles designadamente os serventes talvez devido à sua condição servil as quantidades distribuídas diariamente apontam de um modo geral para 1 canegal de milho22 e para os que bebiam um copo de aguardente fornecidos ao preço unitário de 50 réis para cada produto a retribuição de uma parte do salário em milho e bebidas e o pagamento em fato traziam óptimos lucros à fazenda real afirmava o governador das ilhas que ver ahu doc av moç cx 59 doc.54 de 5/10/1789 e cx 58 doc 31 sem data que aparece incorrectamnte com a correspondência de 16/7/1789 22 lembra-se que esta medida valia 1/15,999 do alqueire isto é 1 alqueire valia cerca de 16 canegais para os cereais 1 panja igual a 1,5 alqueires de portugal equivalia a 12 canegais e a 6 panos 21 6
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o milho era comprado à razão de 3 alqueires por 4 cruzados e foi dado à razão de 3 por 6 cruzados em que sua magestade lucra 50 para além do acréscimo da medida pois foi comprado por um alqueire de 40 porcelanas e vendido aos trabalhadores por outro de 32 a cachaça foi dada aos oficiais à razão de 3 cruzados o frasco custando nessa capital menos de 2 lucra sua magestade 50 o fato foi dado aqui pelo preço da feitoria em que sua magestade lucra também 25 pelo menos 23 também os produtos da terra eram mais baratos na capital das ilhas do que na ilha de moçambique muitos deles eram provenientes delas o que justifica os diferenciais de preços indicados para os salários o milho custava nas ilhas 400 réis o alqueire contra 600 réis em moçambique e a aguardente do brasil era comprada a 600 réis o frasco24 as dificuldades de trocos para satisfazer aos jornaleiros os quebrados dos seus vencimentos 25 causaram alguns problemas e para os ultrapassar foi reclamada a moçambique a remessa de 3 ou 4 cruzados de moedas de bazaruco ou 15 até 20 maços de velório grosso no período considerado os 299 trabalhadores prestaram 4022 dias de trabalho que custaram ao erário público um total de 620$400 assim distribuído 1691 copos de bebida no valor de 84$550 3529 canegais de milho no montante de 171$745 cifrando-se em 364$375 o fato e o dinheiro vencidos encontra-se uma variação significativa entre oficiais e serventes não escravos e serventes escravos quanto ao número de dias de trabalho prestados entre 25 de maio e 30 de setembro enquanto os primeiros num total de 85 forneceram no mesmo período e em média por trabalhador 34,2 dias os segundos que quase triplicavam essa relação baixa para 5,2 dias a explicação para este fenómeno encontra-se na estrutura e funcionamento da própria sociedade onde os escravos tinham obrigações específicas para com os seus senhores e proprietários quer na agricultura caça pesca ou comércio quer no serviço doméstico e apenas quando livres dessas tarefas poderiam ser cedidos para as obras reais enquanto novos factos não vieram desmentir esta realidade há que não enfatizar demasiado a utilização da mão-de-obra escrava na construção desta fortaleza para além das despesas com mão-de-obra há a considerar as feitas com o material necessário gasto e utilizado nas mesmas obras no período referenciado foram consumidas 13 arrobas e 17 arráteis de ferro 12 arráteis de aço e 4 arrobas de cairo e usadas uma grande variedade de ferramentas sejam alavancas marrões picaretas cunhas palmetas esquadros pás enxadas machados serras sortidas enxós verrumas martelos formões bigornas fornos limas malhos tarrachas tenazes brocas diamantes foles e algaratises26 sendo de 153 a totalidade das ferramentas utilizadas27 a.h.u doc av moç cx 59 doc 58 carta de 12/10/1789 do cap das ilhas para o cap gen a porcelana era uma medida já referida ao tratar-se dos meios de pagamento 24 idem ibid citada relação de preços 25 idem ibid cx 59 doc 61 carta de 17/10/1789 do cap das ilhas para o cap gen 26 tubos de ferro fundido por onde passa o ar que vai para o fole na forja do ferreiro 27 a.h.u doc av moç cx 58 doc 17 carta de 11/7/1789 do cap das ilhas para o cap gen este material relacionado não aparece contabilizado 23 7
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por insuficiência de evidências factuais não há possibilidades de calcular com inteira precisão o custo total da fortaleza de são joão baptista também um cálculo aproximado com base nos dados existentes acabados de analisar e nos anos de duração das obras não é tarefa fácil tendo em atenção um conjunto de factores imprevisíveis que teriam afectado o ritmo normal das obras e de se encontram poucos registos há indicações seguras que passados 4 anos após o seu início a fortaleza estava com as paredes levantadas e na fase de enchimento mas com dificuldades em pedra e cal susceptíveis de paralisar as ditas obras28.se o ritmo das obras continuasse como o verificado em 1789 e a relação entre oficiais e serventes não sofresse desvios significativos seria de admitir que nos 6 anos de construção as despesas totais poderiam atingir entre os 12 a 15 000$000 importância que deve ser considerada pouco significativa para a dimensão e complexidade da obra a contribuição e participação dos diferentes estratos sociais da população local na construção da fortaleza foi variável ao contrário dos foreiros que não prestaram o ajuntório esperado pelas autoridades locais a gente forra do ibo ofereceu valiosa colaboração às obras reais trabalhando nelas com muito afinco outra ajuda valiosa foi dada pelo governador das ilhas expressa nas palavras do seu superior hierárquico concorreu com os seus escravos para o serviço de arrancar pedra sem levar jornais alguns e fazendo com os demais trabalhadores que os vencem os lucrarem justamente sem perderem tempo inutilmente para o que assiste diariamente a fazêlos trabalhar e no fim de cada semana à conferência das suas férias vencidas para que nem estes nem a fazenda real possam ser prejudicados29 esta meritória acção do governador viria a ser contraditada e a posta em causa numa carta de um morador das ilhas escrita a solicitação do capitão general a respeito da fortaleza que v senhoria me fala isto melhor seria para uma devassa porque eu não acho capacidade de contar tudo quanto nela acontecia o que sei é que cada burro ganhava dez tostões por dia e os seus cafres burros um tostão cada um isto é notório a todos do serviço que eles faziam É o que posso informar v srª30 as suspeitas contra aquela autoridade seriam confirmadas e tornaram-se realidade quando a junta da fazenda de moçambique se recusou a visar as contas do feitor das ilhas por apresentarem irregularidades e ilegalidades de vária ordem algumas das quais ligadas à apresentação das folhas de férias relativas às obras da fortaleza de que em vez das próprias folhas foram enviados resumos este procedimento levantava sérias dúvidas que era necessário esclarecer através das estruturas estabelecidas no cumprimento das suas funções de zelador da ordem e da legalidade o capitão general como atrás se referiu mandou que fosse esclarecida a verdade através de uma devassa solicitando para o efeito a inquirição de testemunhas verídicas que possam dar razão aos seus depoimentos 31 idem ibid cx 65 doc 23 carta nº 101 de 7/10/1793 do cap das ilhas para o cap gen a.h.u doc av moç cx 65 doc 45 folha de serviços do governador antónio josé teixeira tigre 30 idem ibid cx 60 doc 1 de janeiro de 1790 de manuel antónio carrilho juiz das ilhas para o ouvidor de moçambique os asininos eram frequentes nas ilhas e neste caso particular terão servido para transporte de materiais especialmente pedra e cal do local da preparação para a obra e de entulho para a mesma 31 idem ibid cx 74 doc 7 carta do cap gen para o cap das ilhas datada de 9/5/1796 o feitor era nicolau luís da graça 29 28 8
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dos dois quesitos a que os inquiridos deveriam responder o primeiro pretendia apurar a verdade sobre a realidade das supraditas férias averiguando se com efeito trabalharam nas obras reais todos os obreiros que tiveram vencimento nelas a quem pertenciam os escravos trabalhadores e se pelo trabalho de animais se contavam e quantos jornais de homens 32 recorda-se que para instrução do processo foi nomeado o governador das ilhas por o juiz ordinário ser também o feitor visado e para escrivão um oficial de patente iniciado em 20 de maio de 1796 foram chamadas a depor 22 testemunhas os autos mostram ter ficado provado que o governador tigre empregava grande número dos seus escravos nas obras que venciam férias diferentes uns os escravos ladinos que faziam algum milando os castigava mandando-os trabalhar de picareta ao preço de 3 tostões por dia 300 réis outros os cafres de 25 a 30 e negros em número de 40 que mandava comprar à macuana ilhas e suas morimas33 os tinha de assistência à fortaleza vencendo 1 tostão por dia também os seus cativos ladinos venciam jornais pelo trabalho de irem buscar lenha todas as tardes ao mato para consumo da sua habitação para além da utilização dos escravos empregava nas obras 4 burros sua pertença34 que venciam 40 tostões por dia 10 cada o que correspondia ao trabalho de 10 negros os factos demonstram que nem sempre as autoridades tiveram em vista o interesse do rei e dos povos que estavam sob a sua autoridade aproveitando-se do exercício do poder para colher rendosos benefícios pessoais35 a fortaleza mal acabada de concluir devido às deficientes condições de construção e às impiediosas invernadas foi dada como arruinada a primeira derrocada surgia na invernada de 179836 seguindo-se outras sucessivamente nos anos seguintes logo se reclamou a verba necessária para a sua reconstrução que tardou e a concedida era insuficiente para suportar as pesadas despesas indispensáveis à sua funcionalidade em 1802 o estado geral da fortaleza era desanimador e de completa ruína tendo então sido feitas pequenas reparações e solicitadas a moçambique providências37 para solucionar tão grave problema as pressões e os sucessivos e destruidores ataques dos sakalava iniciados em 180038 aumentaram a inquietação e o mal-estar dos moradores e das autoridades do território ao outro quesito já se referiu quando se tratou do comércio dos franceses e da escravatura há uma testemunha que afirma ter o dito governador 150 escravos sua propriedade no período entre a chegada ao ibo e a sua venda aos franceses ou remessa para moçambique alguns eram de etnia makhwa e ajawa ou yao 34 possuía 16 ou 17 burros que mandou comprar à ilha de pate 35 uma das testemunhas ouvira dizer que o capitão general afirmava que quem quisesse aprender a ganhar dinheiro perguntasse ao governador tigre que era um mestre na matéria 36 a.h.u doc av moç cx 81 doc 28 carta nº 246 de 6/6/1798 do cap das ilhas para o cap gen 37 idem códice 1478 carta de 26/2/1802 fls 173 do cap das ilhas para o cap gen 38 nesta data como foi assinalado no princípio do presente capítulo propunha-se a construção de um reduto com 4 peças de artilharia na ilha de amisa cx 58 doc 11 carta nº 266 de 13/2 cit 33 32 9
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em o cumprimento de ordens emanadas do reino carta régia de 6/4/1805 e de moçambique carta de 5/4/1805 são convocados todos os colonos das ilhas com a finalidade de colaborarem na subscrição pública aberta pelo senado da câmara cujos fundos se destinariam ao conserto geral da fortaleza já em curso atendendo à notória pobreza dos seus habitantes as ofertas tiveram um valor diminuto arrecadando-se 1309 cruzados para além do serviço pessoal oferecido por muitos daqueles que não dispunham de fundos foram 44 os ofertantes cabendo as maiores dádivas ao governador com 150 cruzados aos vogais da câmara com 80 ao mestre de campo com 60 ao capitão-mor com 50 oferecendo os restantes quantias entre 10 e 30 cruzados39 os quantitativos doados reflectiam claramente a estratificação social existente e a posição social que cada um ocupava no seio da sociedade colonial para aumentar a defesa e a segurança da vila e da população propõe-se a construção junto à praia de 2 pequenos muros com 20 passos de comprimento onde se poderiam acolher amparados pela artilharia mais de 1 500 pessoas40 as obras e a subscrição pública realizadas não resolveram os problemas da conservação da mesma fortaleza que nos anos seguintes continuou especada caindo algum dos seus terraços41 chegando a capela de são joão baptista a servir de armazém da vistoria realizada pelo juiz ordinário feitor e escrivão da fazenda real aos seus quartéis constatou-se a completa ruína de todo o complexo e sendo avaliadas as reparações necessárias em 2 000 cruzados para cal madeira obreiros e alimentação para os cativos42 dos moradores ao construir-se esta fortaleza tinha-se pensado nos ataques dos inimigos vindos do mar não se imaginando que um dia seria necessária também a defesa das ameaças provenientes da própria ilha do ibo aconteceria com os sakalava que por terra tentaram mais de uma vez tomá-la de assalto com receio de novas investidas foi construído um fosso junto e em volta deste bastião defensivo43 que seria desnecessário por pouco tempo depois de ser levantado terem terminado definitivamente os ataques daqueles piratas do mar também se mandaram limpar os terrenos anexos às duas fortificações e derrubar palhotas e quintais de laca-laca que se encontravam perto da fortaleza44 que impediam uma visão correcta da vila demorando a no da vila do ibo assenta em rocha firme junto ao mar mede 3,80 metros de altura e 1,36 metros de parapeito e cada uma das 5 estrelas do pentágono tem 50 metros de extensão a sua área total é de 6400 metros quadrados a.h.u doc av moç cx 114 doc 51 carta nº 352 de 30/1/1806 do cap das ilhas para o cap gen a relação dos ofertantes tem a data de 1/12/1805 40 idem códice 1478 carta de 12/11/1808 fls 215v do cap das ilhas para o cap gen 41 idem doc av moç cx 134 docs 1 e 2 carta de 23/2/1813 e cx 144 doc 55 carta de 11/6/1813 e códice 1478 carta de 12/3/1814 fls 236v todas do cap das ilhas para o cap gen 42 idem ibid cx 168 doc 4 carta nº 309 de 5/3/1820 do cap das ilhas para o cap gen 43 idem ibid cx 153 doc 86 carta de 14/6/1817 do cap das ilhas para o cap gen 44 a.h.u doc av moç cx 134 doc 34 carta nº 434 de 17/11/1810 do cap das ilhas para o cap gen 39 10
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nos anos finais da sua construção45 a nova fortaleza juntamente com o forte velho dispunham das seguintes peças de artilharia 2 de calibre 2 6 de cal 3 3 de cal 4 1 de cal 6 8 de cal 8 2 de cal 9 e 1 de cal 12 num total de 23 como pertenciam ao forte velho 10 peças restavam para a fortaleza de são joão baptista 13 algumas delas em mau estado por já terem sido usadas em navios em 1810 estava equipada artilharia de vários calibres46 constantes do quadro viiic nos meados do século xix estava guarnecida com 15 peças de artilharia de ferro e 2 de bronze47 e no início do último quartel da mesma centúria tinha montadas 13 peças de ferro e 1 de bronze48 nos últimos anos do regime colonial português serviu de prisão política e de local de tortura e de mortefig.iv fig iv fortaleza servindo de prisão politica foto de carlos bento de 1971 no futuro constituirá uma excelente oportunidade para o desenvolvimento do turismo da ilha do ibo e demais ilhas do arquipélago das illhas de querimba ou de cabo delgado idem ibid cx 66 doc 35 relação das peças de artilharia existente em 30/1/1794 ver também o balanço da feitoria de 31/12/1794 cx 66 doc 9 e cx 76 doc 5 carta nº 180 de 1/10/1796 do cap das ilhas para o cap gen 46 idem ibid cx 133 doc 48 carta nº 440 de 31/7/1810 do cap das ilhas para o cap gen 47 romero j op cit p 10 que vilhena e op cit p 212 refere 48 meneses,j op cit p 177 45 11
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