Terceira Margem - nº 5

 

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revista terceira margem 1 terceira margem revista literária da unesp ibilce ano iii nº 5

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revista terceira margem 3 terceira margem revista de literatura da unesp ibilce ano iii nº 5 universidade estadual paulista júlio de mesquita filho instituto de biociências letras e ciências exatas campus de são josé do rio preto comissÃo editorial bruna flávia rodrigues venâncio letras iv diurno christian jhulian braga quesada letras iv noturno isaac de faria ruy letras v noturno leandro oliveira freitas letras v noturno marcos rafael neviani ppg letras marcos vinícius biagi letras v noturno consultores acadÊmicos prof dr luis augusto schmidt totti dell prof dr vanildo luis del bianchi deta tiragem 200 exemplares impressão gráfica potirendaba diagramação christian j b quesada imagem de capa a menina de lá isaac ruy são josé do rio preto sp setembro/2010

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4 revista terceira margem editorial as águas da terceira margem do rio o menino era ligado em despropósitos quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos a mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio falava que os vazios são maiores e até infinitos com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira no escrever o menino viu que era capaz de ser noviça monge ou mendigo ao mesmo tempo o menino aprendeu a usar as palavras viu que podia fazer peraltagens com as palavras e começou a fazer peraltagens foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto no final da frase foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela o menino fazia prodígios até fez uma pedra dar flor a mãe reparava o menino com ternura a mãe falou meu filho você vai ser poeta você vai carregar água na peneira a vida toda abrimos nossa quinta edição com os versos do poeta manoel de barros trecho do poema `o menino que carregava água na peneira 1999 pois ilustram muito bem o trabalho da revista ao longo desses três anos de existência tem sido uma luta constante manter a terceira margem em circulação nossa última edição levou mais de um ano para ser impressa não por falta de textos aliás o volume e a qualidade dos textos e imagens que recebemos têm nos animado muito não faltam planos e projetos para ampliar e melhorar a revista nos anos que virão já nesta edição conseguimos ampliar o número de páginas coloridas p.31 nosso blog é um outro bom exemplo agora você pode acessar e baixar todas as revistas mas todo esse trabalho precisa ter continuidade e para isso precisamos de pessoas que estejam dispostas a carregar água na peneira a comissão editorial.

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revista terceira margem 5 [textos miguel arcanjo lembranÇa portuense se saudades tens É porque és um tanto de fiapos a voar conforme o vento portugal se assim as chamo És a terra de onde parte Úmida e incompleta esta brisa lacrimosa mentira sofia mentira sofia mentira tua metade do beijo é o abraço da alma e quando me tomaste não foi por compaixão mentira sofia o que tu dizes saber a verdade não importa que verdade isso teria.

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6 revista terceira margem o quadro marcos biagi ela para o que há o que há o que há por trás daqueles olhos daquele toque em seguida vem o beijo a imersão em gostos e cheiros talvez mais uma fuga uma quebra de tabu quiçá não se sabe para e ao erguer os pés e mexer o pescoço um pouco para o lado fugindo da cabeça que beijava procura-o e pensa `ele está lá será que ele viu não talvez não enquanto está imersa em pensamentos o outro sai de cena eis que seu olhar cruza-se com o daquele em quem pensava não fixa o olhar seu olhar agora é fugitivo e não penetrante como fora há segundos atrás não pensa e nem fala age pondo-se a marchar em direção oposta a dele ação essa sem sentido pudor ou direção premeditada que não seja a oposta age como quem sabe de tudo e de nada de passos em passos deixa mais uma vez a obra mal acabada um quadro com meia mulher meio homem e um meio desejo de se aproximarem quando lhes apetece um quadro com excessos no mínimos contornos que torna-o pesado desde os primeiros traços não se permitindo com aquela densidade traços seguintes para-se no peso para-se na força do traço e não na leveza da composição através do pincel em contato com a tela traços grossos grosseiras feições apague esse quadro pinte outro meio desejo meio homem e meia mulher meio tudo e meio nada o quadro com tela branca e moldura é quadro o quadro permite flores frutas sangue guerra sexo caos devaneios e também permite-se e permite mudar-se o quadro aceita e absorve no seu interior aquilo que é proposto por quem o encara e o leva a sério É leal àquilo que se propõe a ser permitamo-nos um quadro a quatro mãos onde os traços sejam mais finos o desejo terá traços mas suaves porem mais longos e assim menina mais duradouros ao olhar atento que se demora a acompanha-lo centímetro por centímetro a meia mulher e o meio homem podem ser mais suaves e coexistirem como uno mesmo sendo de vez em quando e assim o já formado desejo mais leve e mais franco pode unir-se a eles já que a densidade não mais os repele e a suavidade,

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revista terceira margem em essência os sustenta e rege essa dança simples falar e difícil fazer para ti pintora ainda continua andando quando é pega suavemente pelo braço É ele profere palavras que unidas constituem uma única lamúria silêncio nova separação ele com o rancor ela com o pesar para ambos lágrimas as mesmas bocas que os unem pelo beijo os separam quando a fala é produto do medo o medo dissolvido em fala é grosso traço no quadro quanto mais a fala estiver carregada mais grosso o traço mais pesada a obra suaviza-se o medo afina-se o traço suaviza-se o traço dá-se sustentação pelo todo harmonia do quadro devaneio proposto equilíbrio esperado futuro sempre incerto 7 atrevimento luly [num bilhete numa sala de aula sabe garoto você me irrita profundamente por isso se um dia eu voar no seu pescoço e te der um beijo na boca não reclame que a culpa é sua sem mais a [dois rostos corados nem sinal de beijo na boca]

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8 revista terceira margem narrativa do eu juliana tokita sou um sujeito e tantos outros imersos num corpo que muda um corpo que anda pela paisagem urbanóide cinza e caótica que teima em colocar uma plantinha no canto do escritório e recicla o lixo moro dentro de uma mente que não assenta nem se acalma descanso navegando na web lendo sobre desgraças e moda preciso de uma cafeteria twenty-four-seven escolho mesmo superando esta tão confrontante tarefa mas depois des-escolho acho que não estava certo são tantas as opções o que fazer se gosto de literatura mas queria trabalhar como chefe de cozinha vou surfando em minha insegurança e faço terapia fico triste em pensar que a mtv não é a mesma minha cidade já tem trânsito e minha coca-cola hoje é zero mas meu coração logo palpita quando ouço creedence em meu novo blackberry eu mudo eu renovo corto o cabelo e recomeço de novo uma nova vida isso até merece uma nova tatoo escolho uma outra trilha sonora e carrego meu ipod logo logo vou enjoar mesmo mas quando chegar a hora baixo um outro som no e-mule o youtube do meu notebook mais parece uma torre de babel são tantos pops rocks clássicos e desconhecidos-conhecidos que nem sei mais o que postar no meu blog!

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revista terceira margem sou um ser mutante sou um sujeito des-centra-lizado sou eu moderno em atitudes arcaico em sentimentos tradicional nas decisões mas irreverente quanto à minha condição sou você seu big brother sorria pois estão te filmando andróide humano pós-moderno 9 um cafÉ um cigarro e um amor gustavo andrade deixe o cigarro o café que me restou nada se não a fé agora eu vou sigo meu caminho sem nada em mente sem nenhum cantinho sem nenhuma vertente eu perdi tudo meu café meu cigarro minha vida meu mundo e pelo que raro É raro como o homem apaixonado cego pelo amor não vê que o que realmente tem É um pouco de dor com outro sabor.

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10 revista terceira margem a maÇÃ do acaso sidnei olívio nosso caso foi breve algo assim entre um relâmpago de vaidade inusitada e a flechada de um cupido sonolento nosso caso foi breve algo assim entre o insipidamente simples e o simplesmente imponderado você ainda tentou relativizar fisicamente mas apenas me lembro de sua cara enquadrada na janela do trem mostrando a bífida língua cobra que no éden promoveu o desenlace depois entre as partes partidas braços laços jardins corações

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revista terceira margem repartiu-se em horas ensaiando o convencimento de tudo que maçã do acaso jamais existiu figura acromática desse drama incorporei o personagem risório de fellini e o antipersonificado da quadrilha drummondiana algoz assim entre o motociclista em fuga e j pinto fernandes que não tinha entrado na história 11 o verbo ars sant arde na varanda da escuridão esta chama acessa atenta a meditar grita deseparadamente grit oo mud o surd no olho do mund-o umbigo solid ­ ã ­ o

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12 revista terceira margem parte 3 dejejum kim ramos o cheiro do café fumegante vai entrando pelas frestas da porta do quarto e você então sente os olhos abrindo descolando como se abre uma caixinha de chocolates você reclama calada da minha breve ausência mas logo compreende num longo bocejo que o aroma de maracujá que parece estar saindo da cozinha explica juntamente com a bandeja servida de pães quentinhos ainda à beira da cama que eu devo ter chegado na madrugada ou pior pela manhã aí então você conclui numa espreguiçada que as cestas com cajus e acerolas de enorme suculência uma xícara de seu chá preferido a manteiga fresca num prato e as geléias de amoras e morangos são um afago um carinho de um puto boêmio e canalha que passa a noite debaixo de um rabo de saia na beirada de mais um copo fazendo carícias para que você o perdoe por mais uma noite lascada seria interessante que fosse assim você pensa seria melhor que aquele pêssego que você me vê descascando à faca fosse mais uma doce mesura para lhe agradar seria mais amargo pensar que eu poderia despir qualquer uma com o mesmo labor que vou deixando a fruta nua você ri talvez de uma pequenina dor que a imagem lhe traz nossos sorrisos vão se desculpando pela traiçoeira visão que você provoca desanuviando como um olho chorando depois de uma verdadeira guerra para se conseguir chorar você acha mais sensato aceitar a xícara de chá É um presente que nunca vi você recusar você ri talvez porque aquela dorzinha vai se transformando em dor jubilosa.

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revista terceira margem e um abraço mais raro do que as noites que você inventa na sua imaginação você me dá lhe enlaço como a seda abraça um pêssego protegendo-o dos choques das sacolas da feira as risadas provocam cócegas e não o contrário com as mãos feito facas roçando na pele da ameixa madura vamos escorregando um no outro puras polpas de tenro caldo deixando ser sugadas pelas nossas bocas não percebemos o café que transborda da garrafa assim como nosso corpo rindo transbordando alegria 13 versus in porta latrinae scribendi t h abrahão luzes ofuscam luzes cruzando rastros pelos fatos da estranheza do futuro cacos que se quedam indevidos sem lamentos quanto à sorte de sua queda.

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14 revista terceira margem boca suja huélinton cassiano riva prólogo de antemão aviso que não haverá senão aquilo que se considera palavrão [e aparentemente não combina com um poema nesse sórdido improviso tudo aquilo que é escatológico renegado pelos mais prudentes [e ausentes escritores os escrementos dos cavalos subservientes os dejetos humanos deixados atrás das torres as conivências dos bispos [será quem ninguém sabe o que acontece a luxúria de cada rainha a imundice do rei [também ausente nunca saberei saiam da linha de frente renegados peões medíocres porque nessa fétida sociedade andar uma casa é pouco subir um degrau de cada vez é nada viva o jeitinho brasileiro [isso sim é expressão chula um vida para os puxa-sacos os oportunistas os que traficam influência eu sou mero peão.

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revista terceira margem 15 [sinal fechado lucas casagrande de trinta em trinta segundos pessoas se encontram em um determinado cruzamento da cidade umas vendem balas outras bilhetes premiados algumas desencargos de consciência estas abordam os motoristas de maneira mais direta em estado deplorável não dizem nada apenas aparentam ser o que são e com a mão direita estendida ganham seus pesos enquanto isso as que vendem arte ficam se apresentando ou com tochas de fogo ou com bolas de borracha sempre ligadas no tempo para conseguir recolher dinheiro dos mecenas e não serem atropeladas quando abrir o caminho neste fluxo de interações desinteressadas motocicletas desviam de retrovisores e de todos e eu com meus longos oito anos de vida observava sentado comportadamente no banco de trás do carro com meu pai no volante se dirigindo o olhar para o sinal e escutando um antigo cassete do roupa nova com um volume relativamente alto pois nem percebeu o entregador de panfleto oferecendo uma confortável casa em um condomínio fechado com a cabeça confusa eu a querer saber o porquê para aquelas pessoas o sinal sempre estará fechado sendo este o único tempo fugaz usado para sobreviver entre as cabeças de óleo combustível à ar refrigerado e sempre sendo julgadas de marginais por quem vive na margem dessa desigualdade ofuscada pela luz do sol escaldante refletida por vidros e espelhos um barulho de buzina o carro se movimenta uma placa nÃo dÊ esmolas dÊ futuuu

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