Estudo Piloto: a bissexualidade masculina comentada

 

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O presente trabalho versa sobre a identidade bissexual masculina e objetiva refletir sobre os discursos acerca dessa prática sexual. O corpus para análise se constitui de “comentários” realizados em entrevistas virtuais. No tocante aos procedimentos metod

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estudo piloto a prÁtica bissexual masculina comentada1 santos filho ismar inácio2 ppgletras/ufpe/cnpq-brasil ismarinacio@yahoo.com.br resumo o presente trabalho versa sobre a identidade bissexual masculina e objetiva refletir sobre os discursos acerca dessa prática sexual o corpus para análise se constitui de comentários realizados em entrevistas virtuais no tocante aos procedimentos metodológicos a coleta de dados se dá pela observação participante com base no aporte etnográfico/netnográfico e a análise segue as orientações da análise crítica do discurso a partir dos conceitos de significado acional representacional e identificacional a discussão está fundamentada nas pesquisas de defillipo e cunha 2005 fairclough 1997 2003 fernandes 2006 hall 2000 hoffnagel 2006 moita lopes 2003 2004 resende e ramalho 2006 rocha e montardo 2005 seffner 2004 e silva 1999 dentre outros de forma aligeirada podemos dizer que os bissexuais masculinos apontam a prática bissexual como uma outra possibilidade na prática sexual como verificamos na fala de um dos entrevistados está cada vez mais comum homens que nunca tiveram experiências com outros homens descobrir essa possibilidade não excluindo a forma tradicional palavras-chave análise de discurso significado representacional identidade bissexual masculina introdução iniciamos este artigo com a fala É tempo de redescrever a vida social3 do professor moita lopes porque consideramos que ela diz muito sobre as necessidades em tempos atuais de lançarmos outros olhares para o mundo e enxergarmos por outros ângulos a vida social em suas práticas mais corriqueiras esse outro olhar nos ajuda essencialmente a repensarmos a nossa condição de humanos e os papéis que temos assumido no convívio diário e também os sentidos que forjam a nossa existência assim é possível que compreendamos que outros sentidos são sempre possíveis e mais que isso que outros sentidos estão sendo construídos nas nossas práticas e através das práticas discursivas de toda a humanidade os quais as ressignificam neste direcionamento o título deste artigo aponta para a discussão a ser aqui realizada a qual tem por objetivo analisar os discursos sobre a bissexualidade masculina elaborados pelos próprios bissexuais em entrevistas4 realizadas virtualmente 1 este artigo pode ser lido como uma revisão e reorganização/ampliação do texto a construção discursiva on-line da bissexualidade masculina ­ identidade de resistência e projeção santos filho 2008 agradecimentos à professora drª judith hoffnagel pelas leituras e orientações 2 mestre em estudos de linguagem ufmt e doutorando em linguística ufpe bolsista cnpq ­ brasil 3 autógrafo escrito em 19 de maio de 2008 no meu exemplar do livro discursos de identidades obra organizada por esse pesquisador 4 as entrevistas foram realizadas em algumas salas cidades do chat uol nordeste em julho de 2007 considero importante frisar que ao conversar com os sujeitos que ali se denominavam bissexuais o gênero discursivo conversa teclada sofre uma reacentuação bakhtin 1952-1953/2003 pois alguns aspectos desse gênero discursivo se cruzam com outros aspectos do gênero entrevista desta forma a 2

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esclarecemos que essa pesquisa é um recorte bem incipiente da pesquisa para o doutoramento que tem como título provisório a constituição on-line da identidade bissexual masculina contemporânea a participação em conversas tecladas a qual tem como pergunta central o que as conversas tecladas entre homens que se intitulam bissexuais apontam sobre esse grupo social e conseqüentemente sobre as identidades masculinas isto é as masculinidades o texto está apresentado em alguns subtítulos 1 início de conversa as metamorfoses ambulantes no qual abordamos a internet como um dos fluxos de discursos para a reflexividade em relação à identidade sexual apontada por giddens e a concepção que tomamos como parâmetro para a categorização bissexual 2 a coleta de dados item no qual falamos sobre a metodologia de coleta e enfatizamos a netnografia como procedimento vital de pesquisa em ambientes virtuais 3 análise crítica do discurso ­ aporte teórico e metodológico etapa em que resumidamente tecemos um comentário sobre os fundamentos teóricos e metodológicos que embasam a discussão 4 a identidade bissexual masculina ­ representações e identificações parte do texto na qual a análise é realizada e por fim 5 algumas considerações 1 início de conversa as metamorfoses ambulantes e a internet vivemos em uma época na qual muitas das práticas tradicionais têm sofrido interferência de um forte dinamismo fruto da reflexividade apontada por giddens 1991 isto é da constante reelaboração das práticas sociais pelas práticas discursivas locais e globais devido ao fato de que estamos imersos em múltiplos discursos os quais nos apresentam variados modos de ser e estar no mundo assim entendemos que nesse processo de eternas descontinuidades as práticas sexuais afetivas e eróticas entre homens têm ganhado cada vez mais visibilidade contudo parece que essa visibilidade está quase restrita às experiências homossexuais possivelmente apagando ou negando as práticas bissexuais ­ as daquele homem ou daquela mulher que se sente atraídoa ama e faz amor com pessoas de ambos os sexos aquelea igualmente heterossexual e homossexual silva 1999 sobre isso em pesquisa realizada por seffner 2003 entendemos que em época anterior os indivíduos que praticavam a bissexualidade se encontravam isolados nos seus locais de moradia pois não tinham parceiros com os quais pudessem vivenciar a identidade bissexual todavia com o advento da internet e com este a possibilidade de conversas tecladas em chats programas de bate-papo como o windows live messenger e outros atuais como o orkut criaram-se espaços nos quais a bissexualidade pode ser experienciada/revelada ou seja o pesquisador anteriormente citado nos faz ver que o advento da internet é de fundamental importância para os sujeitos que são bissexuais masculinos É salutar também considerar que nesses espaços virtuais essa identidade é discursivamente construída e reconstruída resumindo a internet é um espaço de visibilidade dessa identidade sexual conversa teclada passa a não mais possuir a mesma finalidade/função que antes era possivelmente a de prática sexual com a função de entrevista e assumindo o enquadre de pesquisa passa a promover outras participações do entrevistado e do pesquisador nessas conversas virtuais doravante denominadas de entrevistas semiestuturadas o tópico central foi a bissexualidade e a condição bissexual os turnos de fala são de pergunta-resposta e resposta-pergunta permitindo que o entrevistado comente o que queira 3

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por isso e por acreditarmos com anjos 2000 que essas práticas discursivas entre homens além de serem sexuais afetivas e eróticas são também políticas e ideológicas é que nos aventuramos a estudar os significados que essas práticas assumem nas vidas desses sujeitos que se intitulam e se consideram e estão se reconstruindo discursivamente on-line como bissexuais em virtude disto neste trabalho olhamos para os discursos sobre a identidade bissexual masculina enquanto reorganização da identidade sexual e assim pensamos em questões de cidadania visto que estamos olhando para os sentidos da bissexualidade através dos olhos do próprio sujeito bissexual 2 a coleta de dados para o estudo na coleta de dados usamos o aporte etnográfico/netnográfico sÁ 2001 e rocha e montardo 2005 o qual postula que ao pesquisador cabe a aproximação ao grupo de estudos para que a interpretação dos dados possa passar pela visão do nativo ou seja que a interpretação possa ser fruto de um olhar etnográfico aquele que se constrói imbricado com o olhar dos próprios sujeitos pertencentes àquela comunidade nesta direção foram realizadas visitas às salas virtuais de bate-papo uol nordeste ­ as salas denominadas cidades ­ para uma aproximação com as comunidades ali encontradas que interessava pesquisar antes de realizar as entrevistas com o intento de coletar comentários sobre a bissexualidade passei a conviver durante uma semana em alguns ambientes virtuais as salas cidades uol nordeste para compreender o conhecimento que ali assegura as participações e também para ter noção de quem eram os sujeitos que seriam entrevistados sobre esses espaços e as interações realizadas um aspecto importante a ser considerado é o interesse que se apresenta a partir das conversas ali realizadas É possível afirmar com base nos dados coletados que provavelmente as salas cidades são espaços de encontros sexuais mesmo não sendo salas específicas ou denominadas para esse fim o quadro abaixo com trechos de falas de alguns usuários aponta para o grande interesse comum nessas salas a prática sexual a construção da segunda fala abaixo é muito reveladora do desejo com qual o usuário bebadoafim de fude entrou nesse espaço sua fala reforça a intenção explicitada também no apelido pois quando ele diz com vc ao cueca bi constrói o seguinte enunciado cueca bi estou afim de foder com você 10:28:33afinzão de curtir fala para todos algum cara afim 10:45:59bebadoafim de fude fala para cueca bi com vc 10:50:55quero fuder fala para todos oi para tdos os homens quadro 01 ­ trechos de falas que apontam para o interesse com o qual muitos internautas acessam as salas cidades do chat uol nordeste no tocante ao uso dos apelidos confirmo o que diz magda fernandes 2006 para ela o nickname usado nas salas de bate-papo tem fundamental importância para o usuário pois tem a função de atrair parceiros a partir da primeira forma de construção de identidade nessa virtualidade alguns apelidos são elaborados a partir do nome simplesmente mas detectamos que a construção da apresentação nessas salas é pautada mais por nicknames do que por nomes provavelmente porque os nicknames significam mais que os nomes deffilipo e cunha 2005 nos apelidos usados abaixo indicados algumas características são elencadas tais como a característica física a 4

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idade e algumas intenções ou necessidades das salas visitadas apresento alguns nicknames os quais permitem vislumbrar e denominar essas salas de bate-papo de salas de encontros sexuais marcos hxh ativo thor-hxh paulo bi ativo a3agora hxh cueca bi brother hxhpas julio bi beto bi cam deco bi gustavo a bruno kct diogo ativo gustavo bi 2 em 1 ­ h rapaz/bi sério40hxh hugobi igor.ker.kasado gosto de transex gato bi hxh hh kero ativo agora hxh macho.ker.macho anderson bi quadro 02 ­ nicknames usados nas salas cidades de bate-papo uol nordeste essas visitas proporcionaram perceber como evidenciado nos quadros antes citados que as salas cidades de bate-papo uol nordeste são espaços de encontros sexuais possivelmente de encontros bissexuais visto que muitos nicknames ali utilizados como paulo bi ativo cueca bi julio bi beto bi cam deco bi gustavo bi rapaz/bi hugobi gato-bi hxh anderson bi etc assim como as conversas estabelecidas apontam para esse alinhamento goffman 2002 essa informação se diferencia da informação apresentada por magda fernandes 2006 11 quando diz que nessas salas em geral os homens procuram estabelecer contatos com mulheres e vice-versa com exceção dos salões reservados a homossexuais a heterossexualidade é predominante de posse das informações citadas anteriormente e na tentativa de compreender a construção discursiva sobre a identidade bissexual masculina foram realizadas entrevistas com aqueles que se apresentavam como bi ou que apresentavam interesse em teclar com outro homem e denominavam-se bi essas entrevistas se constituíram espaços para que falassem acerca do que dizem/pensam sobre a bissexualidade nas primeiras tentativas de abordagem nas quais entrei com os nicknames estudante ou pesquisador e apresentando o propósito da pesquisa como vemos no quadro abaixo não obtive sucesso 11:38:58 estudante reservadamente fala para riido cara sou estudante de pos graduaçao e to desenvolvendo uma pesquisa sobre bissexualidade na contemporaneidade na qual a analise será de conversas tecladas no msn no momento to tentando ouvir algumas falas sobre afim quadro 03 ­ primeira estratégia usada para convidar o internauta para teclar ­ aquela com a qual na maioria das vezes não obtive respostas em virtude disso lembrei-me de uma estratégia comentada por iveuta lopes 2006 quando se refere ao seu ingresso na comunidade vila irmã dulce em teresina/piauí a pesquisadora fala que além da não omissão da identidade e do propósito de pesquisa é fundamental que o etnógrafo possua informações sobre a comunidade a ser pesquisada assim resolvi recorrer a uma outra estratégia ao usar os nicknames estudante ou pesquisador para evidenciar os meus propósitos ali passei a fazer também outra abordagem usar as mesmas expressões que os rapazes usam/usavam para convidar os outros para teclar veja quadro 04 e só em seguida quando já possuía a sua atenção é que me apresentava veja quadro 05 essa maneira de me aproximar dos internautas naquele espaço surtiu os efeitos desejados para a pesquisa contudo friso que mesmo com essa outra tática muitos não responderam ao meu convite para teclar 5

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11:41:58 estudante reservadamente fala para todos algum kara bi afim de tc 11:42:30 h18 desanimado/cam reservadamente fala para estudante d ond 11:42:59 thiago_web reservadamente fala para estudante olá quadro 04 ­ segunda estratégia usada para convidar o internauta para teclar ­ aquela com a qual quase sempre obtive respostas imediatas 11:41:58 estudante reservadamente fala para todos algum kara bi afim de tc 11:42:59 thiago_web reservadamente fala para estudante olá 11:43:10 estudante reservadamente fala para thiago_web eae blz 11:43:52 estudante reservadamente fala para thiago_web cara sou estudante de pos graduaçao e to desenvolvendo uma pesquisa sobre bissexualidade na contemporaneidade na qual a analise será de conversas tecladas no msn no momento to tentando ouvir algumas falas sobre afim 11:38:58 thiago_web reservadamente fala para estudante ok 11:38:58 thiago_web reservadamente fala para estudante vc é quem leva o papo quadro 05 ­ trecho inicial de uma entrevista que se efetivou com essa segunda estratégia de abordagem foi possível realizar as entrevistas das quais neste trabalho analiso os comentários de thiago_web e sério40hxh a análise segue as orientações da análise crítica do discurso pois para este arcabouço teórico-metodológico o discurso é uma forma de ação social e porque todo texto independente de sua natureza presta-se aos estudos críticos meurer 2002 no tópico que segue esclarecemos as bases desse aporte 3 análise crítica do discurso ­ aporte teórico-metodológico a análise crítica do discurso é um arcabouço teórico-metodológico para os estudos críticos da linguagem é uma corrente teórica que parte da premissa de que todas as relações sociais nas mais diversas práticas se dão a partir de textos os quais instauram sustentam e podem desconstruir essas relações pois produzem determinados efeitos de sentido os discursos que são entendidos como representação e ação sóciohistórica bem como prática social assim ao se utilizarem desses recursos os atores sociais discursivamente constroem o mundo instituindo/negociando sua posição nas interações deste modo para compreender as nuances da vida social nessa base teórica é necessário realizar uma análise de perspectiva tridimensional prática social texto e discurso a partir da materialidade linguística e das práticas sociais que estão propiciando as interações buscam-se os sentidos produzidos ­ os discursos e as relações de poder fairclough e wodak citados por van dijk 2003 353 direcionam nosso olhar para os aspectos principais do arcabouço teórico-metodológico dos estudos críticos de discursos segundo eles a acd interessa-se a problemas sociais as relações de poder são discursivas o discurso constitui a sociedade e a cultura o discurso tem um funcionamento ideológico o discurso é histórico a ligação entre texto e sociedade é mediada a análise do discurso é interpretativa e explicativa o discurso é uma forma de ação social no mesmo texto van dijk 2003 352 informa-nos que nessas bases critical discourse analysts take explicit position and thus want to understand expose and ultimately resist social inequality sobre essa meta meurer 2005 ao abordar a vertente teórica da acd esclarece-nos que os estudos críticos de discurso objetivam alertar sobre o poder constitutivo e ideológico do discurso 6

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ainda para constituir esse aparato teórico-metodológico em um de seus últimos livros fairclough 2003 propõe a partir da recontextualização das proposições de halliday5 que as análises do discurso sejam realizadas com base em três significados acional representacional e identificacional para cada significado ele relaciona um outro conceito de acordo com esse pesquisador para analisar o significado acional de uma interação o estudo deve ser o de gênero discursivo enquanto faceta regulatória do discurso pois este é entendido como a ação que instaura as interações para a análise do significado representacional é necessário verificar que todo gênero apresenta alguns discursos isto é alguns ditos sobre determinados temas os quais em articulações negam/ofuscam/negligenciam/ostentam o aspecto do mundo abordado possibilitando assim que mundos sejam mantidos construídos e/ou desconstruídos finalmente para a análise do significado identificacional a análise deve ser realizada a partir da materialidade linguística na direção de perceber que identificação o sujeito do discurso tem com os discursos apresentados e também qual o grau de comprometimento apresentado para com a representação esboçada percebendo desta forma a construção e a negociação de identidades no discurso É com base nas proposições antes explicitadas que no item posterior analisamos os comentários sobre a bissexualidade 4 a identidade bissexual masculina representações e identificações ao falarmos em bissexualidade estamos fazendo referência às questões de identidade aqui compreendida como a posição do sujeito hall 2000 ou seja o reconhecimento a auto-avaliação e auto-decifração fischer 2000 enfim modos de ser o modo de ser é um constructo de natureza sócio-política forjado ativamente no discurso em textos e interações para hall 2000 a identidade é uma criação linguística sendo assim é negada a concepção de identidade como uma categoria fixa no sujeito pertencente a uma essência ao contrário a percebemos como efeitos que produzimos pelas coisas que fazemos desta forma quando nos referimos à bissexualidade não estamos tratando-a como algo a priori que faz parte da essência dos sujeitos investigados mas que eles vão em relação às suas práticas sexuais se tornando bissexuais nas interações logo a identidade sexual assim como todas as outras de raça de gênero etc são categorias construídas discursivamente em momentos e lugares específicos portanto fragmentadas e fluidas ainda é importante dizer que a identidade sexual é apenas um dos elementos ou atributos que compõem a identidade social dos indivíduos hoffnagel 2006 a identidade aqui a sexual é como um fio de algodão fino e suscetível a rompimentos e a novas construções em relação à essa discussão moita lopes 2004 comenta que podemos aprender a nos construir discursivamente em termos de desejo sexual de modos diferentes por toda vida a sexualidade é portanto dinâmica o que implica que podemos construir objetos diferentes podemos nos posicionar diferentemente por meio da performance de identidades sexuais diferentes moita lopes 2004 04 a linguagem é um sistema potencial ou seja um sistema de recursos possíveis para fazer sentido e possui três metafunções ideacional interpessoal e textual 5 7

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a partir do dito como já comentamos anteriormente nosso propósito é o de apenas olhar para os discursos sobre a bissexualidade na contemporaneidade através dos olhos dos próprios sujeitos que são bissexuais compreendendo como essa prática sexual é por eles pensada com a análise dos comentários nas entrevistas com thiagoweb de 34 anos e sério40hxh de 40 anos buscamos acessar os significados representacional e identificacional nas proposições de fairclough 2003 É necessário dizer que esses sujeitos veem essa entrevista como papo para o primeiro e ajuda para o segundo assim percebemos como eles se posicionam e o lugar de onde falam pois para o rapaz de 34 anos o que diz parece perpassar pela informalidade uma conversa fortuita e para o segundo fica evidente o contributo que ele está ofertando à pesquisa com base nas orientações da acd para se interpretar o significado representacional em um texto ­ as representações elaboradas e apresentadas sobre um tema ­ é inicialmente necessário compreender que as representações são os ditos entendidos como discursos e que esses constituem parte do recurso utilizado por atores sociais para se relacionarem cooperando competindo dominando resende e ramalho 2006 71 isto é um conjunto de significações construídas socio-histórica e culturalmente segundo celani e magalhães 2002 apud fernandes 2006 34 assim os atores sociais representam e constroem o mundo a partir do que dizem sejam o mundo concreto ou as possibilidades desse mundo desta forma o dizer está atrelado à forma como o mundo é visto e de qual posição é percebido sustentando criando e recriando as relações que são travadas nas práticas sociais logo ao analisar os comentários sobre a bissexualidade buscamos no texto os ditos sobre essa identidade sexual verificando também a interdiscursividade a articulação de diferentes discursos inclusive com aqueles sobre a heterossexualidade na interpretação dos discursos destacamos das entrevistas6 as palavras e expressões usadas para fazer referência à bissexualidade como vemos nos sublinhados nos quadros que seguem quadros 06 e 07 11:47:01 thiago-web reservadamente fala para estudante para mim é prazer 11:47:23 thiago-web reservadamente fala para estudante a sensação de poder conhecer corpos iguais e diferentes sério40hxhdiz cara a bi para mim é o sexo do futuro porque cada vez mais os homens estão descobrindo outras possibilidades de sexo quadro 06 ­ respostas ao questionamento sobre o que é a bissexualidade para pensar sobre as escolhas das palavras e expressões usadas para definir a bissexualidade é importante considerar como comenta moita lopes 2004 que a identidade sexual foi/é o aspecto da identidade social mais essencializado pelo determinismo biológico na tentativa de que a heterossexualidade fosse/seja entendida como a prática sexual verdadeira pura normal e natural e que deste modo qualquer outra identidade sexual fora do projeto da heterossexualidade seria vista como desvio assim as palavras e expressões escolhidas pelos bissexuais entrevistados para significar a bissexualidade como prazer conhecer corpos iguais e diferentes 6 informamos que as formatações diferenciadas para as falas dos dois entrevistados se justificam pelo fato de que a entrevista com thiago_web se realizou no chat uol e a entrevista com sério40hxh aconteceu após a solicitação do entrevistado para a mudança de espaço no msn windows live messenger 8

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sexo do futuro e outras possibilidades de sexo ver quadro acima possivelmente rompem com a normalização/naturalização de uma identidade sexual que se pretende hegemônica pois há nesses comentários a proposição de um olhar não preconceituoso não estigmatizador ao contrário um olhar para as possibilidades no decorrer da entrevista com sério40hxh veja quadro abaixo quando se focaliza a declaração ou não da prática bissexual são feitas outras escolhas de palavras e expressões para definir a bissexualidade as quais nos ajudam a confirmar esse olhar não naturalista/essencialista sério40hxhdiz está cada vez mais comum homens que nunca tiveram experiências com outros homens descobrir essa possibilidade não excluindo a forma tradicional falo com pessoas íntimas amigos irmãs estudante diz e pq naum com pessoas naum intimas sério40hxhdiz porque a gente tem que se preservar acho que é uma evolução no comportamento a sociedade está mais tolerante com os homos e os meios de comunicação principalmente a net contribui para concretizar essa possibilidade ainda não é aceito como uma forma de amar estudante diz entaum e as pessoas mais proximas a vc o que dizem sobre mas para vc eh uma forma de amar ou eh apenas sexo sério40hxhdiz aceitam porque me respeitam é uma possibilidade a mais que os homens têm de encontrar a pessoa certa estudante diz entaum elas aceitam vc e naum a orientaçao em si sério40hxhdiz não interessa discutir a orientação memso porque eu não vou discutir a heterossexualidade porque acho que ela não existe acho que esxistem tendências quadro 07 ­ respostas de sério40hxh ao questionamento sobre a declaração da prática sexual há no discurso de sério40hxh sobre a bissexualidade no jogo com as palavras tradicional vs futuro quadro 07 uma tentativa de negação da heterossexualidade como a única prática sexual possível e o dito que nos dias atuais há a tendência a outras experiências sexuais que vão além da heterossexual para ele a bissexualidade é apresentada como uma evolução em relação a uma forma tradicional a heterossexualidade portanto verificamos que não há nos comentários dos dois entrevistados uma supremacia do discurso de naturalização visto que nenhuma fala explicita a bissexualidade como desvio diferentemente a define como possibilidade pelo exposto parece que a ideia sobre a bissexualidade é a de que é apenas uma prática sexual não tradicional que se constitui da descoberta de corpos independente do sexo logo é somente uma outra possibilidade de prazer não de amar/amor É uma experiência que está se tornando tendência e gerando evolução no comportamento sexual devendo ser encarada como o sexo do futuro por outro lado devemos tentar compreender o que significa dizer que a bissexualidade ainda não é aceita como uma forma de amar pois ao mesmo tempo em que esse entrevistado nega a heterossexualidade enquanto realidade quando diz não vou discutir a heterossexualidade porque acho que `ela não existe parece enfatizar que para tantos 9

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outros ou para o senso comum no tocante às relações afetivas apenas deve existir a prática heterossexual neste momento imbrica-se ao seu discurso o discurso sobre a heterossexualidade como hegemônica com esse outro fragmento da entrevista com thiago-web veja quadro 08 abaixo é também possível perceber que outro discurso existe além do discurso das possibilidades aquele expresso com o uso das metáforas grilo e entrar em pane as quais mapeam/apontam outros significados acerca da bissexualidade desta maneira esse entrevistado deixa dito que diferentemente de sua visão/vivência da prática bissexual outros são bissexuais em confronto/luta com a heterossexualidade com isso diz que a bissexualidade também se configura como uma identidade sexual em conflitos causados por uma ideia que se quer hegemônica arraigada no senso comum a naturalização da prática sexual hétero 11:47:33 estudante reservadamente fala para thiago-web vc assume a sua bissexualidade 11:47:47 thiago-web reservadamente fala para estudante assumo para mim 11:49:09 thiago-web reservadamente fala para estudante ser bem resolvido sobre o tema 11:49:57 thiago-web reservadamente fala para estudante n tenho nenhum grilo 11:52:04 estudante reservadamente fala para thiago-web eae conhece algum cara com esse grilo o q seria esse tal grilo 11:53:19 thiago-web reservadamente fala para estudante sim 11:54:06 thiago-web reservadamente fala para estudante conheço pessoas q sofrem entam em pane por acha q seja preciso uma definição ser ou não ser hetero 11:54:30 estudante reservadamente fala para thiago-web ah e vc naum passou por esse grilo 11:54:51 thiago-web reservadamente fala para estudante por enquanto naum 11:55:12 estudante reservadamente fala para thiago-web e vc atribui isso a que 11:55:45 thiago-web reservadamente fala para estudante penso q é uma questão de maturidade quanto à questão quadro 08 ­ respostas de thiago_web ao questionamento sobre a declaração da prática sexual ainda nos fragmentos antes expostos podemos refletir sobre a identificação desses atores sociais com os discursos apresentados no arcabouço teóricometodológico da acd o significado identificacional pode ser interpretado a partir da análise do estilo entendido como o aspecto discursivo de identidades na releitura que fairclough 2003 faz da linguística sistêmico-funcional aconselha observar três aspectos linguísticos quais sejam a avaliação a modalidade e as metáforas quando se refere à avaliação diz que as escolhas lexicais e morfossintáticas dão um tom ao o que é dito ou seja apresentam a valoração do sujeito do discurso sobre o objeto falado para esse pesquisador a avaliação pode ser marcada subjetivamente pelo uso da pessoa do discurso e pelas escolhas verbais assim podemos pensar que a fala n tenho nenhum grilo de thiago_web pode ser reveladora de uma avaliação positiva que o sujeito tem de sua identidade sexual além de explicitar com o uso da 1ª pessoa do singular a particularidade da posição assumida essa particularidade é também marcada nas falas de sério40hxh pela escolha do oblíquo de eu mim regido pela preposição para nas falas para mim é prazer e para mim é o sexo do futuro a avaliação também pode se dá atraves de um significado presumido quando se deixa ver a avaliação de outros que necessariamente não é a sua como em entam em pane por acha q seja preciso uma definição ser ou não ser hetero de thiago_web quando retoma o termo pessoas da oração anterior pelo processo de 10

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elipse fala da 3ª pessoa e assim indica a existência desse modo de ser bissexual em conflito ao mesmo tempo em que parece se afastar dele quanto à modalidade do discurso outras partes da conversa podem ser úteis para pensar o compromentimento com o dito sobre a bissexualidade a partir dos processos mentais penso q acho q e acredito q como em acho que elas podem existir sem que uma exclua a outra7 de sério40hxh e também da escolha da primeira pessoa do singular entendemos que há a particularização do dito visto que os processos são de atividades cognitivas na percepção do fenômeno desse modo esse discurso sobre a bissexualidade particulariza a percepção acerca dessa prática sexual a análise pode se estender para o uso dos adjuntos adverbiais úteis na função sintática para intensificar ou modificar sentidos como o adverbial de tempo ainda em comportamento ainda não aceito na fala de sério40hxh essa escolha morfossintática aponta para uma ideia de futuro já explicitada nas escolhas das palavras na fala de thiago_web quando comenta sobre a existencia ou não de conflitos em relação à escolha bissexual aparece o adverbial de tempo por enquanto o qual diminui o poder de naum em por enquanto naum ao diminuir o sentido de naum o entrevistado deixa ver que a identidade sexual comentada é por ele pensada como provisória e assim deixa supor que é possível existir conflitos em sua vivência dessa prática sexual 5 algumas considerações como explicitado na introdução deste artigo nossa intenção é a de olhar para a vida social e os sentidos que a ressignificam na contemporaneidade nesta direção nossa discussão se propôs a estudar os significados apresentados pelos próprios bissexuais sobre a bissexualidade masculina e a partir destes tecer considerações acerca da reorganização desta identidade sexual assim um dos primeiros interesses elencados no texto é o de apontar mesmo que minimamente quem são os sujeitos desta pesquisa pelas interpretações aqui desenvolvidas frutos de nossa tentativa de um olhar etnográfico podemos afirmar que os sujeitos entrevistados fazem parte de um grupo que acessa salas de bate-papo com um forte interesse sexual com um grande interesse bissexual como demonstrado nos quadros 01 e 02 nos quais analisamos as falas e os nicks usados pois é nesse espaço virtual o das conversas tecladas como compreendemos com seffner 2003 que eles podem experienciar e revelar a bissexualidade no que se refere ao nosso foco de estudos os significados sobre a bissexualidade pelos próprios bissexuais entrevistados tecemos considerações sobre as nossas interpretações apresentadas nos quadros 06 07 e 08 essas interpretações são compreensões dos significados representacional e identificacional da bissexualidade masculina i e são modos de enxergar o dito nas entrevistas e o comprometimento com esse dito a partir da análise das escolhas de palavras e expressões para dizer a bissexualidade entendemos que o sentido instituído para essa prática sexual rompe com a percepção do determinismo biológico rompe com a ideia de essência e naturalidade da identidade sexual desta forma thiago-web e sério40hxh apresentam a bissexualidade como uma outra possibilidade na prática sexual negando a heterossexualidade como a única prática sexual possível mais que isso deixam 7 sugerimos que essa leitura leve em consideração que as escolhas morfossintáticas aqui destacadas devem ser entendidas também como pertencentes ao estilo do gênero discursivo entrevista 11

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entender que essa prática sexual é considerada como uma evolução em relação à heterossexualidade percebida como pratica sexual tradicional ainda quando dizem a bissexualidade trazem imbricado aos seus discursos o discurso da heterossexualidade como prática hegemônia esse outro discurso aparece para evidenciar que os outros o senso comum e mesmo alguns outros bissexuais não veem a bissexualidade como forma de amor/amar e que a ideia da biologização ainda provoca conflitos em sujeitos bissexuais entretanto os dois entrevistados se afastam do sentido de desvio que essa identidade ainda assume no seio social esse afastamento também está claro porque eles representam essa prática sexual através de uma avaliação positiva mesmo assim quando expressam o comprometimento com o dito sobre a bissexualidade evidencia-se a provisoriedade do não conflito em relação ao exposto consideramos importante refletir que esses dizeres são fruto da imagem que esses sujeitos de uma identidade sexual ainda marginalizada tem de si e do outro o pesquisador e também da situação uma conversa para coleta de dados em pesquisa logo o espaço e o momento do dizer propiciaram a chance de fazer ver a bissexualidade pelo ângulo da não marginalização visto que compreendem que o dizer terá outros olhos e ouvidos além dos do pesquisador finalmente consideramos que através dos comentários sobre a bissexualidade há a construção de uma imagem de uma identidade sexual que resiste à hegemonia da heterossexualidade todavia consideramos que o dito pelos bissexuais nas entrevistas muito mais do que resistir à heterossexualidade visto que também são heterossexuais forja um projeto de identidade aquele no qual a bissexualidade é apenas mais uma opção de prática sexual além das comumente percebidas a heterossexualidade e a homossexualidade nesse projeto identitário os bissexuais redefinem sua posição no espaço social pois se apresentam não mais como desviados assim a partir desses comentários estão constituindo um recurso na luta por mudanças sociais estão lutando por menos assimetrias no que tange à prática sexual referências bibliográficas anjos gabriele dos identidade sexual e identidade de gênero subversões e permanências sociologias porto alegre ano 2 nº 4 jul/dez 2000 p.274-305 bakhtin mikhail estética da criação verbal [tradução de maria ermanita galvão g pereira 2ª ed são paulo martins fontes 2003 defillippo juliana e cunha patrícia por que nickname escreve mais que realname uma reflexão sobre gêneros do discurso in freita maria tereza a leitura e escrita de adolescentes na internet e na escola belo horizonte autêntica 2005 p 97-115 fairclough norman analysing discourse textual analysis for social research london routledge 2003 fairclough norman discurso mudança e hegemonia in pedro emília r org análise crítica do discurso lisboa editorial caminho 1997 p 77-103 fernandes claudia sousa representações e construção da identidade do professor de inglês dissertação [mestrado em linguística aplicada e estudos da linguagem pontifícia universidade católica de são paulo são paulo 2006 12

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fernandes magda alguém afim de tc comigo refletindo a família e as relações de gênero no ambiente virtual disponível em http www.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/pdf/2002/gt_gen_st30_fernandes_texto.pdf acesso em agosto de 2008 fischer rosa maria bueno mídia estratégias de linguagem e produção de sujeitos in candau v m et al linguagens espaços e tempos no ensinar e aprender rio de janeiro dp&a 2000 p.75-88 giddens antony as conseqüências da modernidade são paulo ed unesp 1991 goffman erving footing ribeiro b t e garcez p m orgs sociolinguística interacional 2ª ed são paulo edições loyola 2002 p 107-148 hall stuart a identidade cultural na pós-modernidade trad tomaz tadeu da silva e guacira lopes louro 4ª edição rio de janeiro dp&a 2000 hoffnagel judith linguagem e construção da identidade de gênero revista do gt linguística de texto e análise da conversação nº 00 p 78-84 jun/2006 lopes iveuta a cenas de letramento sociais recife programa de pós-graduação em letras da ufpe 2006 meurer josé luiz uma dimensão crítica do estudo de gêneros textuais in meurer j l e motta-roth désirée org gêneros textuais bauru sp edusc 2002 p 17-29 meurer josé luiz gêneros textuais na análise crítica de fairclough in meurer josé luiz bonini adair e motta-roth désirée org gêneros ­ teorias métodos e debates são paulo parábola editorial 2005 p 81-106 moita lopes luiz paulo org discursos de identidades discurso como espaço de construção de gênero sexualidade raça e profissão na escola e na família campinas sâo paulo mercado das letras 2003 moita lopes luiz paulo discursos sobre gays em uma sala de aula no rio de janeiro é possível queer os contextos de letramento escolar in a questão social no novo milênio anais do viii congresso luso-afro-brasileiro de ciências sociais coimbra 2004 resende viviane e ramalho viviane análise de discurso crítica são paulo contexto 2006 rocha paula jung e montardo sandra portela netnografia incursões metodológicas na cibercultura e-compós dezembro de 2005 disponível em www.compos.com.br/e-compos acesso em maio de 2007 sÁ simone pereira netnografias nas redes digitais trabalho apresentado ao grupo de trabalho tecnologia informacionais de comunicação e sociedade x compós unb brasília 2001 santos filho ismar inácio a construção discursiva on-line da bissexualidade masculina ­ identidade de resistência e projeção in anais do colóquio nacional representações de gênero e de sexualidades campina grande realize editora 2008 13

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seffner fernando representações da masculinidade bissexual um estudo a partir dos informantes da rede bis brasil in cÁceres carlos fernando at al ciudadania sexual en america latina abriendo el debate lima peru universidad peruana cayetano heredia 2004 p 219-238 silva valdeci gonçalves faca de dois gumes percepções da bissexualidade masculina em joão pessoa dissertação [mestrado em sociologia universidade federal da paraíba 1999 van dijk teun critical discourse analysis in schiffrin deborah tannen deborah hamilton heidi e the handbook of discourse analysis oxford blackwell 2003 p 352371 14

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