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universidade federal da bahia reitor naomar de almeida filho vice-reitor francisco mesquita pró-reitor de pesquisa e pósgraduação antonio alberto lopes coordenador de ensino de pós-graduação marcelo embiruçu de souza coordenador de pesquisa rogério hermida quintela docentes Ângela reis antonia pereira coordenadora armindo bião catarina sant anna cássia lopes ciane fernandes cleise mendes daniel marques denise coutinho dulce aquino eliana rodrigues eliene benício eloisa domenici Érico oliveira evelina hoisel ewald hackler fernando passos gláucio machado hebe alves ivani santana jacyan castilho joão de jesus paes loureiro lúcia fernandes lobato luiz cláudio cajaíaba luiz marfuz maria albertina betti grebler meran vargens sérgio farias sonia rangel vice-coordenadora suzana martins representante discente mara lúcia leal secretária daiane milene carvalho ramos conselho editorial da repertÓrio teatro danÇa andré helbo université libre de bruxelles bélgica antonia pereira universidade federal da bahia ufba brasil armindo bião cnpq universidade federal da bahia ufba brasil editor responsável bernard müller École des hautes Études en sciences sociales paris frança carlos alba instituto politécnico de leiria portugal cássia lopes universidade federal da bahia ufba brasil cássia navas universidade estadual de campinas unicamp brasil cleise mendes universidade federal da bahia ufba brasil christian marcadet université panthéon sorbonne paris i frança denise coutinho universidade federal da bahia ufba brasil fernando mencarelli universidade federal de minas gerais ufmg brasil rodolfo obregon universidad nacional autónoma de méxico unam méxico hans-thies lehman goethe universität frankfurt am main alemanha idelette muzart-fonseca dos santos université de paris ouest nanterre la défense paris x frança jean-françois dusigne université de picardie jules verne amiens frança jean-marie pradier université vincenne saint denis paris viii frança jorge das graças veloso universidade de brasília unb brasil josette féral université du quèbec à montreal canadá lucas robatto universidade federal da bahia ufba brasil luiz cláudio cajaíba universidade federal da bahia ufba brasil luiz freire universidade federal da bahia ufba brasil mário fernando bolognesi universidade do estado de são paulo unesp brasil marta isaacsson sousa silva universidade federal do rio grande do sul ufrgs brasil michel maffesoli université rené descartes paris v frança nara keisermann universidade federal do estado rio de janeiro unirio brasil nathalie gauthard université de nice sophia antipolis frança paulo filipe monteiro universidade nova de lisboa portugal samuel araújo universidade federal do rio de janeiro ifrj brasil sonia gomes pereira universidade federal do rio de janeiro ifrj brasil sérgio farias universidade federal da bahia ufba brasil sílvia fernandes universidade do estado de são paulo usp brasil organização deste número cleise furtado mendes e cássia lopes diagramação nádia pinho imagem da capa elaine cardim em policarpo quaresma foto isabel gouvêa revisão poliana nunes patrocínio fundação de amparo à pesquisa do estado da bahia fapesb tiragem 500 exemplares
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issn 1415-32-03 ano 12 nº 12 2009.1 repertÓrio teatro danÇa
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© 2009 programa de pós-graduação em artes cênicas da ufba ppgac ufba escola de teatro avenida araújo pinho 292 campus do canela 40110-150 salvador bahia brasil telefone 55 71 3283 7858 ppgac@ufba.br www.teatro.ufba.br/ppgac repertório teatro dança é um periódico semestral do ppgac ufba estruturado em proscênio artigo ou conjunto de artigos de diversos autores sobre a temática central do número equivalendo ao que em outros periódicos é denominado de dossiê peça ou peças textos originalis de dramaturgia de espetáculo teatral coreográfico ou correlato relativo ao proscênio sala de ensaios artigo ou conjunto de artigos de diversos autores sobre temas variados necessariamente inéditos relativos a música artes visuais literatura ciências sociais artes e ciências do espetáculo equivalendo ao que em outros periódicos é denominado de varia persona artigo sobre ou entrevista com personalidade do mundo artístico e acadêmico relativos à temática abordada no proscênio ou em sala de ensaios bastidores texto ou conjunto de textos sobre espetáculos publicações e grupos artísticos equivalendo ao que em outros periódicos é considerado como resenhas e relatos aos interessados em terem trabalhos publicados repertório recomenda 1 envio do original em microsoft word times new roman 11 interlinha 1,5 texto justificado títulos palavras-chave e resumos na língua original e em inglês bem como notas de pé de página em times new roman 10 interlinha simples texto justificado com o mínimo de duas e o máximo de 20 páginas com imagens até 25 de acordo com as normas da abnt acompanhado de declaração autorizando a publicação e cedendo seus direitos autorais para repertório que se compromete a enviar aos autores publicados três exemplares da revista contendo seu artigo 2 uso do sistema de chamada autor-data da abnt e inclusão de notas de pés de página estritamente necessárias e das referências ao final do texto imprescindíveis 3 as ilustrações gráficos fotografias quadros esquemas etc devem ser designadas como figuras numeradas no texto de forma abreviada e acompanhadas de legenda e indicação da fonte e ou autoria 4 qualquer parte desta revista poderá ser reproduzida desde que citada a fonte 5 os conceitos emitidos em textos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores dados internacionais de catalogação na publicação cip biblioteca nelson de araújo teatro/ufba ba brasil repertório teatro dança universidade federal da bahia escola de teatro escola de dança programa de pós-graduação em artescênicas ano 11 n 11 2008 salvador ufba ppgac 2008 86 p 21 cm periodicidade irregular issn 1415-32-03 1 teatro periódicos 2 dança periódicos 3 música periódicos i universidade federal da bahia ii programa de pós graduação em artes cênicas iii título
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editorial encenação contempo rânea a mú sica não serve apenas à ilus tração ou ca racterização de atmosferas ou mesmo à criação de cenários acús ticos situando personagens e situações a força dos efeitos sono ros pode exer cer-se de vá rias formas como contra ponto deslo camento antítese ou comentário irônico da ação a parte intitulada ensaios oferece ao leitor tanto a reflexão dos próprios artistas sobre sua contribuição musical às artes cênicas quanto a visão de pesquisadores que se debruçaram sobre gêneros do nosso cancioneiro e sobre aspectos técnico-científicos da audição musical a terceira parte persona traz entrevista exclusiva com o músico e compositor tuzé de abreu na qual o artista desenha sua multifacetada trajetória como arranjador diretor musical e sobretudo autor de canções que estão diretamente associadas ao sucesso de vários filmes e obras cênicas em cenário brindamos o leitor com a beleza visual de policarpo quaresma num ensaio fotográfico do espetáculo do núcleo de teatro do tca com direção de luiz marfuz a partir de adaptação de marcos barbosa para o romance de lima barreto este número da revista repertório traz para a luz do nosso proscênio um conjunto de reflexões sobre o trabalho que em geral faz-se nos bastidores e na rotina dos ensaios para depois irromper e irradiar-se em cena com toda sua força sugestiva sob a forma de imagens sonoras salvo nas modalidades de encenação em que a música é executada ao vivo a contribuição de músicos arranjadores compositores de canções e trilhas musicais em geral integra o todo da construção dramatúrgica na feitura de peças e roteiros dentre as artes que tecem o complexo sistema cênico de um espetáculo a música possui um estatuto muito particular pois o caráter não figurativo do signo musical estabelece uma tensão contínua com os demais elementos da representação esse aspecto por si só aponta para a particular influência de qualquer efeito musical sobre as obras cênicas mas de um ângulo histórico é preciso considerar também que o papel da música em cena vem se transformando à medida que novas perspectivas foram abertas à sua intervenção na dança no teatro e no cinema na
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repertÓrio repertÓrio proscÊnio o agudo do ganzÁ cássia lopes persona tuzÉ de abreu entrevista de fernanda veloso a voz da mulher que chora em algum lugar do passado as canÇÕes dos filmes de almodÓvar guilherme maia a musicalidade da cena jacyan castilho grand ouverture leonardo boccia a cantiga do boi encantado e outras cenas operÍsticas de elomar figueira mello simone guerreiro 9 13 20 26 35 42 47 53 61 67 71 74 82 83 cenÁrio policarpo quaresma bastidores lÁbaro estrelado dramaturgia e mpb cleise furtado mendes intermediaÇÕes sobre lÁbaro estrelado eneida leal cunha em agosto o balÉ folclÓrico da bahia comemorou 20 anos e levou obra prima de stravinsky para o palco do tca em salvador release 20 anos ensaios ensaio sobre o samba juvino alves dos santos filho amigos para sempre luciano bahia o que É isto audiÇÃo musical mário ulloa minha mÚsica em cena tom tavares
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o agudo do ganzá cássia lopes1 conceição regina e maria barbosa em apresentação no percpan com gilberto gil em 2000 disponível em http/www.bornotubeblind.com resumo trata-se da leitura do filme a pessoa é para o que nasce documentário voltado para a realidade de três cegas cantadeiras residentes em campina grande na paraíba investiga-se a importância da música como forma de acesso social e ao mesmo tempo de construção da narrativa do brasil para tanto utiliza se o termo refestança cunhado por gilberto gil em sua poética que se amplia neste ensaio a partir da leitura do filme palavras-chave música cinema cegueira refestança brasil construction of a narrative of brazil for that purpose reference is made to the term refestança refeasting coined by gilberto gil in his poetics which this essay expands through the reading of the film key words music cinema blindness refestança brazil abstract this is a reading of born to be blind a pessoa é para o que nasce a documentary film regarding the life conditions of three blind street singers living in campina grande paraíba the importance of music is researched here as a medium through which social accessibility can be achieved as well as the a música em cena conquista os corredores da história do brasil e movimenta os quadros da película do cinema para marcar o horizonte da refestança nas esquinas do país criada por gilberto gil em sua poética a constelação sêmica do termo refestança abarca neste ensaio três estrelas do filme a pessoa é para o que nasce este documentário move-se em torno da realidade de três cegas cantadeiras 1 ensaísta profa dra do instituto de letras da ufba docente do programa de pós-graduação em artes cênicas e do programa de pós-graduação de letras e linguística da ufba colopes@ufba.br repertÓrio 9
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proscênio empenho biográfico acaba por expandir as canções entoadas em muitos lugares do nordeste com as quais se mandam os recados para o brasil dessa maneira a visão perdida mostra-se como crítica à cegueira diante da formação de um país que aceita o artefato social ancorado na mesma escrita da nação ao esconder os nordestinos na imagem dos vencidos pela seca ou pelo subdesenvol vimento agrário o filme a pessoa é para o que nasce objetivamente não funciona como uma epopéia do povo nordestino nem como uma vertente trágica da cegueira diante dos sertões do brasil trata-se sobretudo da possibilidade de pensar o nordeste considerando suas representações e suas possibilidades o nordestino foi produzido como reduto anacrônico deste país no contraponto aos olhos que se dirigiam para além-mar reafirmavam-se assim as malhas defi nidoras do colonialismo interno quando a residentes em campina grande na paraíba.2 essas três mulheres sobreviviam graças à esmola e usavam o canto como foco atrativo a exemplo de tantos outros cegos nordestinos em frente à esquina da livraria barbosa as três irmãs nomeadamente maria regina e conceição mais conhecidas como maroca poroca e indaiá respectivamente traduzem em seus versos a força do ganzá e sua resistência diante da pobreza e de seus destinos os acordes exigiam-lhes o sen timento de compatibilidade de propósitos a aliança de vontades e a inflexão melódica em comum embora o título do filme sugira a marca do determinismo associado às amarras da trama fisiológica e social desvenda a brecha por onde se ressalta a reinvenção da cegueira pelo canto os enquadramentos fílmicos centralizam-se na história dessas três mulheres e desse ângulo reacendem não somente o tema da exploração humana e social em diversas cenas assiste-se ao abandono ao regime de mendicância desde os primeiros anos de vida quando uma das irmãs contava apenas 7 anos e a outra 9 outros membros da família como a mãe e o companheiro ao lado de outros parentes usufruíam do trabalho das três cegas resta aprender como essas três irmãs transformam a história de sofrimento diante da cegueira e da mendicância em narrativas de si e do brasil pela via musical dos seus encantos segundo o depoimento do diretor roberto berliner o filme fala de amor fala de amor à vida 3 sem o estilo patético e de vitimização das três ceguinhas de campina grande reescreve-se a biografia das três irmãs no registro de suas memórias quando ao mesmo tempo possibilita-se a reinvenção de si próprias e de suas narrativas esse repertÓrio maneira de enxergar a geografia brasileira espelhava-se no mesmo modo de interpretar as colônias pelos seus colonizadores a eles a pessoa é para o que nasce direção roberto berliner produção riofilme roteiro maurício lissovsky música hermeto pascoal apoio cultural ancine e petrobrás 2003 3 depoimento extraído do dvd do filme na parte dos extras que compõe o menu 2 10
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caberia a missão de civilizar a barbárie ou de levar o desenvolvimento nesse contexto o canto das três cegas permite questionar o mesmo traçado que associa as regiões sudeste e sul à vertente do brasil moderno contrapondo-se ao atraso dos grotões nordestinos o recado musical impresso nas cantigas das três cegas espalha-se amplamente através do cinema e extrapola a tela o festival percpan sensível aos sons da rua ciente dos músicos anônimos que circulam pelas esquinas brasileiras volta a sua atenção para as três irmãs em salvador no ano de 2002 as ceguinhas sobem ao palco ao lado de gilberto gil para fazer ecoar as suas canções e dizer da constituição polimorfa do brasil como nação elas trazem em seus corpos o desafio para o retrato do mapa político deste território não mais restrito à visão ufanista nem determinista se o título do filme a pessoa é para o que nasce incomoda pela ambivalência de sentido entre o determinismo e a reinvenção esse mesmo gesto ambivalente traduz o conflito de destinos e de interpretações sobre a geografia brasileira nesse limite físico instaura-se a força simbólica da música popular que vem para rever os contrastes demarcados histori camente na cartografia nacional cujo processo de naturalização de valores funda o nordeste e muitos de seus atores sociais assim na fronteira entre o mar e o sertão entre a cidade e o campo faz-se da refestança de gilberto gil um signo de leitura das diferenças que compõem o tecido social de vidas que foram segregadas e excluídas são os sertanejos as mulheres os afrodescendentes os índios e tantos cegos nordestinos silenciados na selvageria de uma demarcação geográfica e cultural a refestança no entanto abre as veredas do sertão para outras narrativas contadas e recontadas pelo magma vital e performativo da música popular do ritmo do corpo que desata os nós e os cintos de segurança de uma identidade consolidada e hegemônica da nação brasileira no desdobramento de cantos no capítulo seis do documentário assiste-se ao registro da voz de gilberto gil compondo os versos que apresentariam as três cegas ao público da concha acústica do teatro castro alves em salvador dos mistérios do universo a luz e a escuridão fazem pôr verso e reverso nos percursos da visão/a luz que corta qual faca afiada e bem precisa e a escuridão faca cega que só apalpa e alisa 4 as três cegas cantam para quase quatro mil pessoas com a naturalidade de quem se sabe pertencente ao mundo de quem fez das esquinas a descoberta da vocação para a música de quem reconhece a promessa guardada na rede de recados impressa no seu ganzá quase incansável a faca cega somente apalpa todavia revela na lisura da superfície dos cantos outra maneira de cortar a realidade brasileira de expandir outros sentidos entre a luz dizível da câmera que corta qual faca amolada as cenas expostas e o indizível da faca cega captado nas vozes das três mulheres por ocasião do percpan gilberto gil traz o depoimento do engenheiro de som sobre a apresentação das três irmãs de campina grande este teria perguntado será que não dava pra aquele caxixi delas ser menos agudo ser menos barulhento o engenheiro de som referia-se ao ganzá das cantadeiras ao que o cantor baiano respondeu não aquilo é o olho da canção com aquele caxixi é que elas vêem o som e tal elas têm de tocar e cantar daquele jeito ali não há retoque É aquilo mesmo 5 nestas frases note-se a operação de quem sabe entender o agudo do ganzá no pulsar corporal das três cegas o ganzá é o olho das três irmãs uma extensão de suas vozes da absorção concreta de sua música e da expressão de seus corpos o ganzá sinaliza para a faca cega que atravessa o silêncio do palco e revela um modo muito próprio de se fazer ouvir no brasil versos extraídos da apresentação do próprio cantor durante o percpan 2000 conforme cena apresentada no filme 5 a pessoa é para o que nasce op cit 4 repertÓrio 11
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proscênio barker anthony david o poder e a persistência dos estereótipos aveiro ed da universidade de aveiro 2004 breton david le o corpo enquanto acessório da presença revista de comunicação e linguagens lisboa p 69 2004 corpo técnica e subjetividade hobsbawn eric ranger terence a invenção das tradições trad celina cardim cavalcanti rio de janeiro paz e terra 1997 macedo helder reconhecer o desconhecido in partes da África lisboa editorial presença 1991 marcos maria lucília cascais antónio fernando orgs corpo técnica subjetividades lisboa reló gio d´Água editores 2004 martin marcel a linguagem cinematográfica trad paulo neves são paulo brasiliense 1990 mignolo walter d la colonialidad a lo largo y a lo ancho el hemisferio occidental en el horizonte coloni al de la modernidad in lander edgardo org la colonilidad del saber eurocentrismo y ciencias sociales perspectivas latinoamericanas buenos aires clacso y unesco 2000 p 55-85 ortiz renato cultura brasileira e identidade nacio nal são paulo brasiliense 1994 santos boaventura de sousa org entre próspero e caliban colonialismo pós-colonialismo e inter identidade in ramalho maria irene ribeiro antónio sousa orgs entre ser e estar raízes percursos e discursos de identidade porto afrontamento 2002 tatit luiz a canção eficácia e encanto são paulo atual 1986 cinco anos depois da apresentação no teatro castro alves em novembro de 2004 assiste-se à cena das três cegas adentrando o palácio do planalto em brasília para receber a insígnia da ordem do mérito cultural as três irmãs são recebidas com todas as cerimônias recepcionadas pelo presidente luiz inácio lula da silva e sua esposa ao lado do então ministro da cultura gilberto gil segundo o porta-voz da cerimônia vocês que recebem essa medalha e esses diplomas são o brasil 6 logo depois as três cegas entoam o hino nacional nem elas sabiam que suas cantigas as levariam a pisar os tapetes do planalto nem o próprio gilberto gil tinha consciência de que seria também pela força de sua arte o ministro da cultura ali estava uma cena não prevista que ironizava o próprio título do filme assim nas dimensões do documentário trabalhado seguem-se os caminhos projetados pelo olhar do artista baiano atento à magia do ganzá e das sanfonas imerso no projeto da refestança do brasil as imagens na película esforçam-se por traduzir aquilo que não é dizível no empenho de retratar as marcas guardadas nos objetos e nos corpos de tantos sujeitos anônimos no final do filme as três cegas finalmente encontram as águas do mar sonho projetado para tantos personagens que vivem nos grotões do sertão mas a nudez exposta das três irmãs também permite pensar o papel da música posta em cena capaz de fazer da cegueira uma leitura atenta dos sons esquecidos e vedados nas ruas de tantas cidades brasileiras filmografia em dvd e vhs a pessoa é para o que nasce direção roberto berliner produção riofilme roteiro maurício lissovsky música hermeto pascoal apoio cultural ancine e petrobrás rio de janeiro riofilme 2003 1 dvd 85 min color referências almeida miguel vale de um marinheiro num mar pós-colonial in um mar da cor da terra raça cultura e política da identidade oeiras celta 2000 p 227-245 o corpo antropológico revista de comunicação contemporânea lisboa relógio d Água p 49-64 2004 corpo técnica e linguagem aumont jacques a imagem trad estela dos santos abreu campinas sp papirus 1993 discografia lee rita gil gilberto refestança direção de produção guto graça melo direção artística joão augusto gravação ao vivo [s.l emi-odeon brasil som livre 1977 1 cd remasterizado em digital em 1995 6 a pessoa é para o que nasce op cit 12 repertÓrio
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resumo o artigo examina as canções dos filmes do diretor pedro almodóvar flagra um modo especialmente engenhoso de utilizar as músicas como fios do tecido narrativo e observa um autor empenhado em imprimir uma marca de identidade em seus filmes por meio da aplicação sistemática de rancheiras boleros merengues mambos e canções flamengas interpretadas por grandes estrelas latinas dos anos 1940-60 palavras-chave cinema canção popular análise fílmica pedro almodóvar abstract the article examines director´s pedro almodovar film songs it detects a special ingenious way of using music as wires of the narrative tissue and observes an author who is engaged in imprinting an identity stamp on his films by means of a systematic application of boleros merengues mambos and flamingo songs interpreted by great latin stars of the 1940´s-60´s key -words cinema popular song film analysis pedro almodóvar em algum lugar do passado as canções dos filmes de almodóvar a voz da mulher que chora la música la elijo directamente con el corazón pongo estas canciones porque me gustam y también porque hablan de los personagens están destiladas o filtradas por las necessidades de las películas.2 as canções inscritas na obra do diretor pedro almodóvar são como bem sabem os fãs e os estudiosos da obra do diretor manchego dispositivos especialmente relevantes habilmente imbricadas na própria estrutura do roteiro as canções de almodóvar participam da composição do perfil dos personagens fornecem ao espectador um índice de latinidade ou mais precisamente de um modo latino de expressar sentimentos e operam por meio das letras muitas vezes como uma espécie de fala cantada não é incomum encontrar em artigos e críticas sobre os filmes de almodóvar comentários que atribuem ao fato de ele utilizar canções cujas letras trazem comentários poéticos das situações dramáticas o status de uma marca autoral importante3 mas a singularidade do uso que almodóvar faz das canções não está propriamente neste modo de fazer que em verdade já é estratégia recorrente do cinema e podemos também flagrar guilherme maia 1 1 compositor doutor em comunicação ufba e mestre em musicologia unirio professor da unijorge e da ftc 2 declaração do diretor a frédéric strauss em strauss frédéric pedro almodóvar un cine visceral madri ediciones el país 1995 p.126 3 a pesquisadora da universidad de salamanca dra matilde olarte em palestra proferida em 2002 na holanda intitulada música española en el cine español la banda sonora en almodóvar detém-se especialmente sobre esse ponto e valoriza essa função que nomeia como metatexto revista eletrônica arvo net http www.arvo.net/pdf/m%c3%9asica%20espa%c3%91ola.htm consulta realizada em 12/07/2007 em abordagem semelhante mark allinson valoriza como importante característica da obra almodovariana o fato de existirem canções cujas letras falam pelos personagens allinson mark a spanish labyrinth the films of pedro almodóvar londres/nova iorque i.b tauris 2001 p 201 repertÓrio 13
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proscênio francesa da primeira metade do século passado É curioso como esse esforço de imaginação que constrói um objeto sem referente no mundo real do cinema é capaz de revelar muito sobre a graça das escolhas musicais de almodóvar diariamente nas telenovelas 4 o que é de fato distinto nas canções em almodóvar são em primeiro lugar elas mesmas ou seja o repertório eleito pelo diretor rancheiras boleros merengues mambos canções flamengas e canções românticas internacionais que fizeram grande sucesso entre os anos 1940 e 60 aproximadamente interpretados quase sempre por cantoras consideradas grandes estrelas da canção de língua espanhola com foco no que diz respeito apenas ao repertório portanto as canções de almodóvar são de um tempo passado 5 como muitas vezes o espectador ouve gravações originais antigas6 essa paisagem sonora do passado se impõe com bastante veemência À exceção dos rocks dos primeiros filmes e de alguns outros desvios pontuais praticamente todas as canções escolhidas pelo diretor foram lançadas nas vozes das chamadas grandes estrelas da canção popular latina com harmonias bem simples melodias sentimentais de fácil memorização e interpretação vocal de acentuada dramaticidade a maioria das canções utilizadas por almodóvar poderiam ser do ponto de vista de um brasileiro contemporâneo classificadas como pertencente ao universo popularesco que costuma atrair os adjetivos brega ou cafona É como se aspectos melódicos harmônicos e rítmicos almodóvar portanto dá ênfase a um determinado conjunto de gêneros que podemos reunir sob o signo de canção romântica latino americana com destaque maior para boleros e rancheras produzida aproximadamente entre os anos 1940 e 60 do século passado recortado dentro desse contexto o que se ouve são clichês harmônicos elementares de acordes triádicos e encadeamentos tonais que se afastam bem pouco da região da tônica muitas vezes limitando-se apenas aos acordes de tônica subdominante e dominante as melodias são simples motivos curtos facilmente cantáveis e memorizáveis estruturadas em unidades rítmico-melódicas simétricas e reiteradas as melodias desenham contornos tonalmente orgânicos ou seja aquele tipo de melodia que se interrompida subitamente sabemos uma forma de completá la mesmo que estejamos ouvindo a música pela 4 a letra de as times goes by está é claro conectada com o envolvimento dos personagens interpretados por humprey bogart e ingrid bergman em casablanca assim como a letra de pretty woman pode ser considerada como a própria fala do personagem interpretado por richard gere no filme homônimo da canção não há riscos em afirmar que na grande maioria dos filmes que fazem uso de canções as letras estabelecem conexões diretas de sentido com situações dramáticas construídas pela encenação sobre isso é ilustrativo o que diz carlos polimeni referindo se ao uso do bolero no filme de salto alto la primeira película trás el cambio de la década fue tacones lejanos de 1991 la historia sobre uma relación enferma de uma madre com uma hija construída al ritmo de uma colección de boleros y viejas piezas románticas que sonambam a declaración de princípios em um mundo que santificaba lo nuevo y em el que parecia revolucionária la música electrónica para ser moderno el realizador miraba hacia atrás polimeni carlos pedro almodóvar y el kitsch español madri:campo de ideas 2004 p 96 como nos mostra mark allinson em capítulo dedicado à música nos filmes de almodóvar é estratégia poética do diretor pesquisar em sebos de discos canções antigas para utilizar em seus filmes sobre isso ver allinson mark ob cit p 195-205 ver também holguÍn antonio pedro almodóvar madri ediciones cátedra 1994 p 189-206 5 imaginássemos a obra de um diretor brasileiro de grande prestígio no momento atual que utilizasse na música de todos os seus filmes de modo recorrente e quase exclusivo a canção romântica de Ângela maria dalva de oliveira e isaurinha garcia por exemplo ou pensássemos em um diretor francês que fizesse o mesmo com as grandes intérpretes da canção romântica 14 repertÓrio 6
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