Revista Barbante - Ano I - Nº 04 - 15 de outubro de 2012

 

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revista ano i nº 04 15 de outubro de 2012 infância

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uma criança não deve ter senão a prudência de uma criança e não deve transformar-se num imitador cego ora uma criança que apresenta as máximas do senso próprio de homens feitos está fora do caminho traçado para a sua idade e não faz senão imitar ela deve ter apenas a inteligência de uma criança e não deve por-se em evidência muito cedo immanuel kant.

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as crianças pobres e frágeis ensinaram-lhe quão incômodas podem ser as características que possuem e sobretudo que estas podem irromper em momentos impróprios walter benjamin

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com um lápis na mão eu desenho

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art 15 a criança e o adolescente têm direito à liberdade ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis humanos e sociais garantidos na constituição e nas leis estatuto da criança e do adolescente

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a pequena pianista alderico leandro Álvares aleandroalvares318@gmail.com eurídice era uma menina de apenas sete anos de idade em sua casa tinha um piano cujo dono era o seu pai que recebeu por herança de sua mãe pianista nas horas vagas porque no seu tempo o piano era o melhor instrumento de sua época vez que não havia rádio quando muito havia gramofone e a então mocinha se deleitava ao piano tocando peças para a sua família que se agradava de ouvir as melodias suaves de concertos sinfonias e suítes quando o pai de eurídice herdou o instrumento o deixou encostado em um canto da sala e nunca mais ouviu nenhum som do piano pois a sua mãe morrera muito cedo e ele não se aventurou em tocar piano certo dia eurídice quando entrava na sala ouviu alguém falar para com a menina que de imediato teve um leve susto a voz dizia ­ psiu venha até aqui e toque-me as teclas ­ disse a voz que eurídice não sabia de onde vinha ­ quem está falando ­ perguntou a menina meio assustada ­ sou eu estou aqui olhe toque alguma coisa minhas teclas estão ficando idosas e as minhas cordas quase que não servem mais ­ respondeu a voz ­ mas onde é que você está ­ voltou a perguntar a menina ­ aqui bem na sua frente venha mais para perto de mim estou tão melancólico ­ respondeu a voz bem suave ­ mas aí só tem o piano ­ respondeu eurídice um pouco admirada.

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­ sou eu mesmo nunca mais alguém veio me despertar de meu sono letárgico ­ respondeu o piano de seu modo taciturno ­ e piano fala ­perguntou a menina um pouco chocada ­ fala quer dizer Às vezes fala com as meninas que apreciam música ­ respondeu o piano ­ eu nunca ouvi você falar comigo ­ respondeu eurídice meio acanhada ­ É verdade nunca falei com você É que eu estava com medo de chamar você sabe ­ disse o piano à menina ­ a questão é que eu não sei se posso tocar em você está todo fechado ­ falou eurídice encabulada do seu modo de ter que dizer que não sabia nem tocar piano ­ pode sim e se não souber eu ensino ­ respondeu o piano sorrindo ­ e como é que eu abro você ­ pesquisou eurídice como quer e não quer ­ assim olhe abra esse negócio que tem aí na frente parecendo uma tampa lá dentro você encontra o teclado são 85 teclas as brancas e as de cor preta as brancas são de notas naturais e as de cor preta são as acidentais entendeu ­ perguntou o piano sorrindo ­ não não entendi coisa alguma ­ reclamou eurídice envergonhada ­ não tem importância com o tempo você aprende o negócio é me fazer tocar belas melodias para o seu deleite ­ respondeu o piano cheio de entusiasmo ­ mas eu não sei fazer isso ­ argumentou a menina envergonhada ­ eu já disse que te ensino então eu vou te ensinar ­ sorriu o piano.

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­ e como eu faço para você me ensinar ­ perguntou eurídice um pouco entusiasmada ­ sente aqui nesse banquinho que tem na minha frente ­ respondeu o piano cheio de entusiasmo ­ esse banco velho está cheio de poeira ­ respondeu eurídice ao olhar um banco ­ não tem nada não você passa um pano nele ­ respondeu sorrindo o piano ­ nesse caso eu vou lá dentro buscar um pano velho ­ replicou eurídice ­ não não não espere um pouco você limpa com seu vestidinho ­ sorriu o piano ­ meu vestido você acha que eu sou doida ­ indagou eurídice com cara de espanto ­ deixa pra lá você faça como quiser afinal eu não tenho muito tempo de vida ­ chorou o velho e maltratado piano ­ tá bom não precisa chorar eu limpo com o meu vestidinho mesmo ­ respondeu a menina constrangida com o choro do piano ­ eu sabia que podia contar com você agora abra para ver o meu teclado cuidado lá embaixo tem três pedais você tem pernas curtinhas e não pode mexer com eles ­ respondeu o piano desconsolado ­ posso sim quem disse que não posso ­ indagou atrevidamente eurídice ­ eu pensei que não podia ­ reclamou o piano meio acuado ­ e que tem nesses pedais ­ perguntou a menina desconfiada ­ É o seguinte o da direita permite que as cordas que eu falei que tinha dentro de mim vibrem livremente com o prolongamento do som os da esquerda desviam ligeiramente a posição dos martelos,

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fazendo três cordas soarem mais suavemente sei que isso é muito complicado para ensinar a uma menina e eu que já estou muito velho aí é que não dá para ensinar ­ É mesmo não entendi nadinha e tem um no meio pra que serve ­ perguntou eurídice ­ esse é o sustenido mas deixa pra lá só queria que você abrisse para ver como eu estou velho muito velho nem as teclas me servem mais ­ falou o piano quase dormindo e a menina eurídice nem teve tempo de acordar aquele velho piano ela fechou a portinha das teclas e o deixou dormir para sempre o piano já estava no final da vida.

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nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças fernando pessoa

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perninha

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o latim dos cães [tânia lima do livro berimbau de lata maracatu palavras chegou aos fiapos no portão da vila uma senhora saiu de dentro com seus oitenta e oito anos a caminho viu o cachorrinho aos trapos molhado de sangue cuidou mimou banhou o bichinho para que ele sarasse no quente e tudo sarou de repente apenas a perna traseira que ficou meio torta quase manca para encurtar a vida e como não sabia o nome do cãozinho apelidou de perninha todos na vila chamavam perninha e ele atendia com o rabinho todo faceiro até que um dia apareceu na vila uma senhora reclamando a paternidade do cãozinho a dona da casa disse que não tinha mais idade para brigar pelo cachorrinho e que ele,perninha decidiria com quem realmente gostaria de ficar neste instante a verdadeira dona do cão chamou o bichinho pelo antigo nome nicolau o cachorro indiferente estava e indiferente ficou de repente ouviu-se um simples suspiro em diminutivo perninha e foi pernas pra tudo quanto é lado feliz como quem reconhece a própria sombra sem dono de longe ouvia-se em latim um som de felicidade anônima e toda vila ficou peralta.

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aqui também fui feliz quando menina.

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a casa de tia marina rosângela trajano em infância a casa da minha tia marina era meu abrigo casinha pequena parecia de boneca café quentinho saindo do fogão de carvão em tarde de dezembro a dezembro li com meus olhos a vida de tia marina seu expedito e suas filhas neve solange e ivone fui feliz sem ter notícias do que era felicidade era meu único passeio ir à casa de tia marina ver as meninas trançando punhos de rede para ganhar um dinheirinho a sopinha quente de tia marina a luz de querosene as redes ainda armadas no quarto das meninas e o penico cheio de xixi ainda escuto nossos sorrisos baixinhos no sofá cheio de buracos ah naquele tempo eu não tomava remédios para ser feliz a felicidade era o remédio da minha juventude tia marina passava a roupa da família com ferrinho de brasa o banheiro ficava do lado de fora da casa Água friazinha da jarra de barro em caneco de alumínio descia não para meu corpo mas para minha alma eu sou aquela água eu neves solange e ivone a riscar terra em desenho de sol chuva fazer parar em dia de sábado elas me levavam à praia eu tinha um biquini amarelo lindo e gostava de pisar na areia da praia quando seu expedito bebia cachaça ninguém saía pra ver a noite as casas fechavam portas e janelas ele era o homem mais bravo do mundo com seus quase dois metros de altura parecia um gigante em fúria brigava até com quem não via sua faca peixeira queria fazer justiça nunca se soube de quê mas era um homem doce sem cachaça no corpo o meu gigante de verdade nessa vida de conto de fadas para chegar à casa de tia marina a gente atravessava um beco escuro cheio de lama mas esse é o caminho mais lindo que tenho nas minhas lembranças a casa de tia marina era um lugar encantado nunca chorei lá só me lembro de sorrisos não consigo encontrar uma lembrança triste no meu pensar a gente tomava banho de mangueira aos domingos enquanto solange lavava roupa e eu dizia ainda falta muito solange e ela duas blusas três calças e dois lençóis eu sentada ao batente da casa de tia marina olhava o dia hoje continuo a olhar o dia mas ele já não é o mesmo tem cheiro de solidões no café da tarde era gostoso comer brote com café eu usava um vestido azul da cor do céu tínhamos de falar baixinho para não acordar seu expedito que estava de ressaca da cachaça bebida em noite passada tudo era pouco na casa de tia marina menos o amor ela costumava comprar três ou quatro colheres de sopa de açúcar que vinha embrulhado em papel e eu não tinha a grande preocupação de pensar no amanhã nunca ninguém fingiu ser meu amigo nunca ninguém mentiu para mim nunca ninguém me deixou triste na casa de tia marina tinha tudo menos poesia e foi lá que aprendi a poetizar.

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xilogravura de erick lima

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