Caçador de Pipas

 

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khaled hosseini o caçador de pipas romance traduÇÃo de maria helena rouanet 14° impressão editora nova fronteira

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título original the kite runner copyright © 2003 by khaled hosseini direitos de edição da obra em língua portuguesa no brasil adquiridos pela editora nova fronteira s.a todos os direitos reservados nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar em qualquer forma ou meio seja eletrônico de fotocópia gravação etc sem a permissão do detentor do copirraite editora nova fronteira s.a rua bambina 25 botafogo 22251-050 rio de janeiro rj brasil tel 21 2131-1111 fax 21 2537-2659 http www.novafronteira.com.br e-mail sac@novafronteira.com.br cip-brasil catalogação-na-fonte sindicato nacional dos editores de livros rj h821c hosseini khaled o caçador de pipas khaled hosseini tradução maria helena rouanet rio de janeiro nova fronteira 2005 tradução de the kite runner isbn 85-209-1767-4 1 amizade ficção 2 cabul afeganistão ficção 3 romance afegão i rouanet maria helena ii título cdd 891.593 cdu821.411.21581 3

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este livro é dedicado a haris e farab a noor dos meus olhos e às crianças do afeganistão.

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agradecimentos agradeço aos seguintes colegas por seus conselhos sua ajuda ou seu apoio dr alfred lerner dori vakis robin heck dr todd dray dr robert tull e dr sandy chun agradeço também a lynette parker do east san josé community law center por seus esclarecimentos sobre os procedimentos da adoção e ao sr daoud wahab por compartilhar comigo suas experiências no afeganistão toda minha gratidão ao meu querido amigo tamim ansary por suas sugestões e seu apoio e à turma do san francisco writers workshop por seu retorno e encorajamento gostaria de agradecer a meu pai a meu irmão mais velho e àquela que foi a inspiração para tudo o que há de nobre no personagem de baba minha mãe que rezou por mim e fez nazr em cada etapa da escrita deste livro e a minha tia que comprava livros para mim quando eu era jovem agradeço também a ali sandy daoud walid raya shalla zahra rob e kader por lerem as minhas histórias quero ainda agradecer ao dr e à sra kayoumy meus segundos pais por seu apoio caloroso e inabalável preciso agradecer à minha agente e amiga elaine koster por sua sabedoria paciência e gentileza bem como a cindy spiegel minha editora de olhos argutos e judiciosos que me ajudou a abrir tantas portas nesta história e gostaria de agradecer a susan petersen kennedy que apostou neste livro e a toda a incansável equipe da riverhead que trabalhou nele por fim não sei como agradecer à minha adorável esposa roya em cujas opiniões sou viciado por seu carinho e sua boa-vontade e por ter lido relido e me ajudado a revisar cada versão deste romance pela sua paciência e pela sua compreensão vou amar você para sempre roya jan.

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um dezembro de 2001 eu me tornei o que sou hoje aos doze anos em um dia nublado e gélido do inverno de 1975 lembro do momento exato em que isso aconteceu quando estava agachado por detrás de uma parede de barro parcialmente desmoronada espiando o beco que ficava perto do riacho congelado foi há muito tempo mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado essa história de que podemos enterrá-lo porque de um jeito ou de outro ele sempre consegue escapar olhando para trás agora percebo que passei os últimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto um dia no verão passado meu amigo rahim khan me ligou do paquistão pediu que eu fosse vê-lo parado ali na cozinha com o fone no ouvido sabia muito bem que não era só rahim khan que estava do outro lado daquela linha era o meu passado de pecados não expiados depois que desliguei fui passear pelo lago spreckels na orla norte do parque da golden gate o sol do início da tarde cintilava na água onde navegavam dezenas de barquinhos em miniatura impulsionados por um ventinho ligeiro olhei então para cima e vi um par de pipas vermelhas planando no ar com rabiolas compridas e azuis dançavam lá no alto bem acima das árvores da ponta oeste do parque por sobre os moinhos voando lado a lado como um par de olhos fitando san francisco a cidade que eu agora chamava de lar e de repente a voz de hassan sussurrou nos meus ouvidos por você faria isso mil vezes hassan o menino de lábio leporino que corria atrás das pipas como ninguém sentei em um banco do parque perto de um salgueiro pensei em uma coisa que rahim khan disse um pouco antes de desligar quase como algo que lhe houvesse ocorrido no último minuto há um jeito de ser bom de novo ergui os olhos para as pipas gêmeas pensei em hassan pensei em baba em ali em cabul pensei na vida que eu levava até que aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo e fez de mim o que sou hoje.

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dois quando Éramos crianÇas hassan e eu trepávamos nos choupos da entrada da casa de meu pai e ficávamos chateando os vizinhos usando um caco de espelho para mandar reflexos de sol para as suas casas sentávamos um defronte do outro nos galhos mais altos com os pés descalços pendurados no ar e os bolsos das calças cheios de amoras e nozes secas ficávamos nos alternando com o espelho enquanto comíamos amoras jogando os frutos um no outro entre risinhos e gargalhadas ainda posso ver hassan encarapitado naquela árvore com o reflexo do sol faiscando por entre as folhas no seu rosto quase perfeitamente redondo um rosto de boneca chinesa talhado em madeira de lei o nariz grande e chato os olhos puxados e oblíquos como folhas de bambu uns olhos que dependendo da luz pareciam dourados verdes e até cor de safira ainda posso ver as suas orelhas miúdas dobradas feito conchas e a protuberância do queixo um apêndice de carne que parecia ter sido acrescentado como simples lembrança de última hora e o lábio fendido bem naquela linha do meio em um ponto em que a ferramenta escorregou ou quem sabe foi apenas porque o artesão das bonecas chinesas já estava cansado e se descuidou Às vezes lá no alto daquelas árvores dizia para hassan pegar o estilingue e atirar nozes no pastor alemão caolho do vizinho ele não queria mas se eu pedisse pedisse de verdade ele não me diria não hassan nunca me negava nada e era fera com a atiradeira seu pai ali sempre nos apanhava e ficava furioso ou tão furioso quanto possível no caso de alguém gentil como ali com o dedo em riste mandava que descêssemos da árvore pegava o espelho e repetia o que sua mãe lhe dizia que o diabo também faz os espelhos reluzirem e faz isso para distrair os muçulmanos durante as orações e ri depois que já conseguiu o que queria acrescentava ele invariavelmente olhando para o filho com ar severo está bem pai murmurava hassan fitando os próprios pés mas ele nunca me entregava nunca disse que tanto o espelho quanto as nozes atiradas no cachorro do vizinho tinham sido idéia minha os choupos margeavam o caminho de tijolos vermelhos que levava a um portão de duas folhas todo feito de ferro fundido por seu turno este se abria para a rua que dava

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acesso à propriedade de meu pai a casa ficava à esquerda e tinha um quintal nos fundos todos eram unânimes em dizer que meu pai o meu baba tinha construído a casa mais bonita do distrito de wazir akbar khan um bairro novo e rico ao norte de cabul havia até quem dissesse que era a casa mais bonita de toda a cidade uma ampla alameda ladeada por roseiras conduzia à casa espaçosa com piso de mármore e janelas enormes intrincados mosaicos de ladrilhos que baba escolheu a dedo em isfahan recobriam o chão dos quatro banheiros tapeçarias com fios dourados que baba comprou em calcutá revestiam as paredes e um lustre de cristal pendia do teto abobadado meu quarto ficava no andar de cima junto com o de meu pai e o seu escritório também conhecido como sala de fumar eternamente cheirando a tabaco e canela era lá que baba e seus amigos se reclinavam nas poltronas de couro preto depois que ali tinha acabado de servir o jantar todos enchiam os cachimbos só que meu pai sempre dizia engordar o cachimbo e conversavam sobre os seus três assuntos favoritos política negócios futebol Às vezes eu perguntava se podia ir sentar lá junto com eles mas baba ficava parado na porta agora vá dizia ele isso é coisa de gente grande por que não vai ler um daqueles seus livros fechava a porta e me deixava imaginando por que com ele tudo era sempre coisa de gente grande sentava junto da porta abraçando os joelhos contra o peito algumas vezes ficava sentado ali uma hora outras vezes duas ouvindo as conversas e os risos deles a sala de estar no andar térreo tinha uma parede em arco com estantes feitas sob medida nelas ficavam os porta-retratos com as fotos de família uma foto antiga e desbotada de meu avô com o rei nadir shah tirada em 1931 dois anos antes do assassinato do rei estavam parados junto de um veado morto ambos usando botas de cano alto e com rifles pendurados nos ombros tinha uma foto da festa do casamento de meus pais baba todo elegante em seu terno preto e minha mãe uma princesinha sorridente vestida de branco ao lado baba e seu sócio e melhor amigo rahim khan parados diante da nossa casa nenhum dos dois está sorrindo nessa foto sou um bebê no colo de meu pai que tem um ar sério e cansado estou em seus braços mas é o mindinho de rahim khan que os meus dedos estão segurando essa parede em arco dava para a sala de jantar em cujo centro havia uma mesa de mogno com espaço de sobra para trinta convidados e considerando-se o gosto de meu pai por festas extravagantes era exatamente isto que acontecia quase toda semana na outra ponta da sala ficava uma grande lareira de mármore sempre iluminada pelo brilho alaranjado do fogo durante todo o inverno uma grande porta de correr envidraçada se abria para uma varanda em semicírculo que dava para os oito metros quadrados de terreno e as aléias de cerejeiras baba e ali tinham feito uma horta perto do muro que ficava do lado leste plantaram tomates hortelã pimenta e uma fileira de milho que nunca pegou de verdade hassan e eu chamávamos aquele canto de muro do milho doente na parte sul do jardim à sombra de um pé de nêspera ficava a casa dos empregados uma casinha modesta onde hassan morava com o pai foi ali naquele pequeno casebre que hassan nasceu no inverno de 1964 um ano depois que minha mãe morreu durante o meu parto.

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nos dezoito anos que vivi em cabul só entrei na casa de ali e hassan umas poucas vezes quando o sol começava a se pôr atrás das colinas e tínhamos acabado de brincar nos separávamos eu passava pelas roseiras a caminho da mansão de baba hassan ia para a casinha de pau-a~pique onde nasceu e morou por toda a vida lembro que ela era minúscula limpa e fracamente iluminada por dois ou três lampiões de querosene havia dois colchões em lados opostos da sala um velho tapete herati com uns rasgões no meio um tamborete de três pernas e em um canto uma mesa de madeira onde hassan fazia os seus desenhos as paredes eram nuas exceto por uma única tapeçaria bordada com contas que formavam as palavras allahu-akbar um presente que baba trouxe para ali de uma de suas viagens a mashad foi nesse casebre que sanaubar deu à luz hassan em um dia frio do inverno de 1964 enquanto minha mãe morreu de hemorragia durante o parto hassan perdeu a sua menos de uma semana depois de nascer e para um destino que a maioria dos afegãos considera pior que a morte ela fugiu com uma trupe de cantores e dançarinos ambulantes hassan nunca falou da mãe como se ela jamais tivesse existido sempre me perguntei se sonharia com ela se tentaria saber que aparência tinha por onde andaria ficava imaginando se gostaria de conhecê-la teria saudade dela como eu tinha da mãe que não conheci certo dia quando estávamos indo da casa de meu pai ao cinema zainab ver um novo filme iraniano cortamos caminho pelo acampamento militar perto da escola secundária istiqlal baba tinha nos proibido de passar por aquele local mas nessa época ele estava no paquistão com rahim khan pulamos a cerca que rodeava o acampamento saltamos um pequeno regato e chegamos ao terreno enlameado onde velhos tanques abandonados ficavam acumulando poeira a sombra de um desses tanques havia um grupo de soldados fumando e jogando cartas um deles nos viu fez sinal ao companheiro que estava ao seu lado e chamou por hassan ei exclamou ele conheço você nunca tínhamos visto aquele sujeito antes era um homem atarracado de cabeça raspada e barba por fazer o seu jeito de nos olhar e o sorriso que deu me apavoraram continue andando murmurei para hassan ei hazara olhe para mim estou falando com você berrou o soldado entregou o cigarro ao sujeito que estava ao seu lado e fez um círculo com o polegar e o indicador de uma das mãos depois meteu o dedo médio da outra mão naquele círculo e ficou enfiando e tirando o dedo enfiando e tirando sabia que conheci sua mãe conheci muito bem peguei ela por trás perto daquele riacho logo ali os outros soldados riram um deles fez um barulho que parecia um guincho eu disse a hassan para continuar andando continuar andando que bocetinha gostosa que ela tinha disse o soldado apertando as mãos dos outros rindo mais tarde no escuro depois que o filme já tinha começado ouvi hassan fungando ao meu lado as lágrimas lhe escorriam pelo rosto cheguei mais perto passei o braço por suas costas e o puxei para mim ele encostou a cabeça no meu ombro aquele cara confundiu você com outra pessoa sussurrei confundiu sim.

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pelo que me disseram ninguém se surpreendeu realmente quando sanaubar fugiu na verdade o que deixou todo mundo espantadíssimo foi quando ali um homem que sabia o corão de cor se casou com sanaubar uma mulher dezenove anos mais jovem linda mas sabidamente sem escrúpulos que vivia de sua reputação nada honrosa como ali ela era uma muçulmana shi a da etnia hazara era também sua prima-irmã e portanto seria natural que fosse escolhida para ser sua esposa mas afora isso ali e sanaubar tinham muito pouco em comum principalmente em termos de aparência enquanto os olhos verdes brilhantes e o rosto malicioso de sanaubar haviam segundo consta atraído inúmeros homens para o pecado ali tinha uma paralisia congênita dos músculos faciais inferiores o que o tornava incapaz de sorrir e lhe dava um ar constantemente carrancudo era muito estranho ver ali feliz ou triste pois no seu rosto enrijecido apenas os olhos castanhos e oblíquos brilhavam com um sorriso ou se umedeciam com a tristeza dizem que os olhos são as janelas da alma isso nunca foi tão verdadeiro como no caso de ali que só podia se revelar através deles ouvi dizer que o andar sugestivo e o rebolado de sanaubar faziam os homens sonharem com infidelidade mas a pólio deixou ali com a perna direita atrofiada e torta pura pele colada nos ossos com apenas uma camada de músculos fina que nem papel lembro de um dia quando eu tinha oito anos e ali estava me levando ao bazaar para comprar naan eu ia caminhando atrás dele cantarolando e tentando imitar o seu andar vi que balançava a perna descarnada fazendo um movimento circular vi que todo o seu corpo despencava para a direita cada vez que ele punha esse pé no chão parecia um verdadeiro milagre ele não cair a cada passo que dava quando tentei fazer a mesma coisa quase me estatelei na sarjeta e comecei a rir ali se virou e me pegou imitando o seu andar não disse nada nem na hora nem nunca apenas continuou andando a cara de ali e o seu jeito de andar assustavam algumas das crianças menores da vizinhança mas o maior problema era mesmo com os meninos mais velhos corriam atrás dele na rua e debochavam quando passava cambaleando alguns deram para chamá-lo babalu ou bicho-papão ei babalu quem você comeu hoje gritavam eles em meio a um coro de risadas quem você comeu seu babalu de nariz achatado falavam do nariz achatado porque tanto ali quanto hassan tinham os traços mongolóides característicos dos hazaras durante anos isso foi tudo o que soube a respeito desse povo que descendiam dos mongóis e eram parecidos com os chineses os livros didáticos raramente os mencionavam e só se referiam às suas origens de passagem até que um dia quando estava bisbilhotando as coisas de baba no seu escritório encontrei um dos velhos livros de história de minha mãe o autor era um iraniano chamado khorami soprei a poeira que o cobria levei-o comigo para a cama naquela noite e fiquei espantadíssimo ao ver um capítulo inteiro sobre a história dos hazaras um capítulo inteiro dedicado ao povo de hassan foi aí que fiquei sabendo que meu povo os pashtuns tinha perseguido e oprimido os hazaras li que estes tentaram se rebelar contra os pashtuns no século xix mas foram dominados com violência indescritível o livro dizia ainda que meu povo matou os hazaras expulsou-os das suas terras queimou as suas casas e vendeu as suas mulheres como escravas dizia também que essa opressão de um povo pelo outro se deveu em parte ao fato de os pashtuns serem muçulmanos sunni ao passo que os hazaras são shi a o livro falava de muitas coisas que eu não sabia de coisas que os professores não mencionavam.

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coisas que baba também não mencionava por outro lado falava de coisas que eu sabia como por exemplo que as pessoas chamavam os hazaras de comedores de camundongos nariz achatado burros de carga já tinha ouvido alguns meninos da vizinhança gritarem essas palavras para hassan na semana seguinte depois da aula mostrei o tal livro ao meu professor e indiquei o capítulo sobre os hazaras ele passou os olhos por algumas páginas deu uma risadinha e me devolveu o livro É só isso que essa gente shi a sabe fazer bem comentou juntando os seus papéis posar de mártires franziu o nariz quando pronunciou a palavra shi a como se estivesse se referindo a uma espécie de doença mas apesar de ter a mesma herança étnica e o mesmo sangue de família sanaubar fazia coro com as crianças da vizinhança que debochavam de ali ouvi dizer que não escondia de ninguém o desprezo que sentia pela aparência dele isso lá é homem que se apresente zombava já vi burros velhos que dariam maridos bem melhores afinal de contas quase todos desconfiavam que o casamento tinha sido uma espécie de arranjo entre ali e seu tio o pai de sanaubar dizia-se que ali tinha se casado com a prima para ajudar a salvar um pouco da honra do nome já manchado do tio muito embora ali órfão desde os cinco anos não tivesse nenhum bem ou herança em especial ele nunca tentou se vingar de nenhum dos seus algozes em parte suponho eu porque jamais conseguiria alcançá-los arrastando atrás de si aquela perna torta mas principalmente porque era imune aos insultos dos seus agressores tinha encontrado a alegria o antídoto para qualquer sofrimento no momento em que sanaubar deu à luz hassan foi tudo muito simples sem obstetras sem anestesistas sem aqueles extravagantes aparelhos de monitoramento apenas sanaubar deitada em um colchão manchado e sem lençóis tendo ali e a parteira para ajudá-la e não precisou de muita ajuda pois já ao nascer hassan foi fiel à sua natureza era incapaz de machucar quem quer que fosse uns poucos grunhidos um ou dois empurrões e hassan saiu saiu sorrindo segundo confidenciou a parteira tagarela ao criado do vizinho que por sua vez se encarregou de espalhar para quem quisesse ouvir sanaubar teria dado uma olhada no bebê que ali segurava no colo e ao ver o lábio fendido teria exclamado com um risinho amargo pronto teria dito ela agora você tem esse seu filho idiota para ficar sorrindo para você não quis nem mesmo segurar hassan e cinco dias depois foi-se embora baba contratou a mesma ama-de-leite que tinha me amamentado para cuidar de hassan ali nos disse que ela era uma hazara de olhos azuis natural de bamiyan a cidade das estátuas dos budas gigantes que voz doce e melodiosa ela tinha era o que costumava nos dizer hassan e eu sempre perguntávamos o que ela cantava embora já estivéssemos cansados de saber ele nos contou essa história milhares de vezes só queríamos ouvir ali cantando ele pigarreava e começava de pé no topo da mais alta das montanhas chamei por ali o leão de deus o ali leão de deus rei dos homens,

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traze alegria para os nossos corações que tanto sofrem depois repetia que as pessoas que mamavam no mesmo peito eram como irmãs ligadas por uma espécie de parentesco que nem mesmo o tempo poderia desfazer hassan e eu mamamos no mesmo peito demos os nossos primeiros passos na mesma grama do mesmo quintal e sob o mesmo teto dissemos nossas primeiras palavras a minha foi baba a dele amir o meu nome olhando para trás agora fico pensando que os alicerces do que aconteceu no inverno de 1975 e de tudo o que veio depois já estavam contidos nessas primeiras palavras.

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