O Ouvinte e a surdez - sobre ensinar e aprender a LIBRAS

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O ouvinte e o desconhecido mundo da surdez… Mútuo desconhecimento! Do ouvinte — que convive com um mundo que desconhece — e da surdez — que desconhece o ouvinte e o mundo dele. É difícil para os ouvintes aprenderem a libras? Como aproximar a distância

Popular Pages


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série estratégias de ensino 1 2 3 4 5 6 7 8 9 o ensino do espanhol no brasil joão sedycias [org português no ensino médio e formação do professor clecio bunzen márcia mendonça [orgs gêneros catalisadores letramento e formação do professor inês signorini [org a formação do professor de português que língua vamos ensinar paulo coimbra guedes muito além da gramática por um ensino de línguas sem pedras no caminho irandé antunes ensinar o brasileiro respostas a 50 perguntas de professores de língua materna celso ferrarezi semântica para a educação básica celso ferrarezi o professor pesquisador introdução à pesquisa qualitativa stella maris bortoni-ricardo letramento em eja maria cecilia mollica marisa leal 10 língua texto e ensino outra escola possível irandé antunes 11 ensino e aprendizagem de língua inglesa conversas com especialistas diógenes cândido de lima [org 12 da redação escolar ao texto um manual de redação paulo coimbra guedes 13 letramentos múltiplos escola e inclusão social roxane rojo 14 libras que língua é essa audrei gesser 15 didática de línguas estrangeiras pierre martinez 16 a sentença e a palavra estudo introdutório ronaldo de oliveira batista 17 coisas que todo professor de português precisa saber luciano amaral oliveira 18 gêneros textuais ensino a paiva dionisio a r machado m a bezerra [orgs 19 as cadeias do texto construindo sentidos cláudia roncarati 20 produção textual na universidade désirée motta-roth graciela rabuske hendges 21 análise de textos fundamentos e práticas irandé antunes 22 dicionários escolares políticas formas usos orlene lúcia de sabóia carvalho marcos bagno [orgs 23 inglês em escolas públicas não funciona uma questão múltiplos olhares diógenes cândido de lima [org 24 dicionários na teoria e na prática como e para quem são feitos claudia xatara cleci regina bevilacqua philippe humblé 25 gêneros textuais reflexões e ensino acir mário karwoski beatriz gaydeczka karim siebeneicher brito 26 letramentos de reexistência poesia grafite música dança hip-hop ana lúcia silva souza 27 pesquisar no labirinto a tese um desafio possível francisco perujo serrano 28 o território das palavras estudo do léxico em sala de aula irandé antunes 29 multiletramentos na escola roxane rojo eduardo moura [orgs 30 leitura e mediação pedagógica stella maris bortoni-ricardo et alii [org 31 numeramento aquisição das competências matemáticas michel fayol 32 letramentos no ensino médio ana lúcia silva souza ana paula corti márcia mendonça 33 neologia em português margarita correia gladis maria de barcellos almeida 34 língua e literatura machado de assis na sala de aula alexandre h t guimarães ronaldo o batista 35 o ouvinte e a surdez sobre ensinar e aprender a libras audrei gesser

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editor capa e projeto gráfico editoração revisão imagem da capa conselho editorial marcos marcionilo andréia custódio jonathan ferreira karina mota european day of languages http edl.ecml.at ana stahl zilles [unisinos angela paiva dionisio [ufpe carlos alberto faraco [ufpr egon de oliveira rangel [puc-sp gilvan müller de oliveira [ufsc ipol henrique monteagudo [universidade de santiago de compostela kanavillil rajagopalan [unicamp marcos bagno [unb maria marta pereira scherre [ufes rachel gazolla de andrade [puc-sp roxane rojo [unicamp salma tannus muchail [puc-sp stella maris bortoni-ricardo [unb cip-brasil catalogaÇÃo na fonte sindicato nacional dos editores de livros rj g332o gesser audrei 1971o ouvinte e a surdez sobre ensinar e aprender a libras audrei gesser são paulo parábola editorial 2012 23 cm estratégias de ensino inclui bibliografia isbn 978-85-7934-050-5 1 língua de sinais 2 surdos meio de comunicação 3 surdos educação 3 surdos linguagem i título ii série 12-4867 cdd 419 cdu 81 221.24 direitos reservados à parábola editorial rua dr mário vicente 394 ipiranga 04270-000 são paulo sp pabx [11 5061-9262 5061-8075 fax [11 2589-9263 home page www.parabolaeditorial.com.br e-mail parabola@parabolaeditorial.com.br todos os direitos reservados nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios eletrônico ou mecânico incluindo fotocópia e gravação ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão por escrito da parábola editorial ltda isbn 978-85-7934-050-5 © do texto audrei gesser setembro de 2012 © da edição parábola editorial são paulo setembro de 2012

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sumario trajetórias percorridas 9 ensinar e aprender línguas 13 16 22 26 34 1.1 abordagens de ensino 1.2 por um ensino reflexivo 1.3 modelos de aprendizagem 1.4 Últimas palavras quem é o aluno ouvinte 37 2.1 interesses e necessidades 2.2 estilos de aprendizagem 2.3 estratégias de aprendizagem 2.4 culturas de aprender 2.5 crenças sobre a natureza da libras 2.6 crenças sobre o professor surdo 2.7 crenças sobre aprender a libras sumário 44 50 57 64 67 72 75

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o ou v in te e a sur dez s obr ee nsina r e aprender a libras quem é o professor surdo 81 e 4 audr i gess er 3.1 um pouco de história 3.2 a língua de sinais como objeto de luta 3.3 formações culturais e identitárias 83 90 95 3.4 culturas de ensinar 102 3.5 crenças sobre a natureza da libras 105 3.6 crenças sobre o aprendiz ouvinte 110 3.7 crenças sobre ensinar a libras 114 ensinar libras para ouvintes 121 4.1 o que trabalhar nas aulas 127 4.2 vocabulário gramática e datilologia 138 4.3 instrução com base em textos 153 4.4 recursos e materiais didáticos 168 considerações finais orientações para aprendizes ouvintes referências anexo alfabeto da libras 8 183 189 190 177

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9 trajetórias o percorridas omecei a aprender a língua de sinais em 1997 no contato com meu primeiro professor surdo a experiência foi fascinante tive que me permitir experimentar outra forma de me expressar em uma língua absolutamente estrangeira paralelamente ao aprendizado formal da língua iniciei pesquisas sobre as questões surdas e a língua brasileira de sinais libras em florianópolis sc numa época em que havia poucos interlocutores e carência de materiais e de bibliografia especializada lembro-me da primeira vez em que ouvi a língua de sinais é uma língua como outra qualquer frase dita pelo professor pedro m garcez no curso de pós-graduação e de minha surpresa imediata pois essa constatação me deu a possibilidade de falar uma língua com as mãos percebi também como eu estava inscrita em uma narrativa hegemônica e popular eu achava que os surdos falavam por meio do alfabeto manual e que seus gestos não passavam de mímica contexto em que era possível concluir que não seriam capazes de expressar ideias abstratas na trajetória em que eu ia construindo conhecimento acadêmico e mantendo o contato com a libras nos momentos possíveis paralelamente se redefinia minha visão da surdez da língua de sinais e dos surdos desde o princípio todavia e antes mesmo de trajetórias percorridas c

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o ou v in te e a sur dez s obr ee nsina r e aprender a libras e 4 audr i gess er iniciar minhas aulas de libras uma pergunta me interessava como seria o ensino e a aprendizagem de uma língua espaçovisual como professora de inglês interessava-me também observar em que os contextos de línguas de sinais poderiam ser diferentes ou iguais aos contextos de línguas orais e principalmente como os alunos ouvintes iniciantes nessa aprendizagem estabeleceriam a interação e a comunicação em sala de aula com seus professores surdos gesser 1999 quando passei a aprender a libras senti na pele muitas vezes por desconhecimento os medos anseios angústias e frustrações pelos quais passa a maioria dos ouvintes nos primeiros contatos com um surdo e a língua de sinais mas não nego que aprendizes brasileiros por exemplo em contato com uma língua estrangeira oral também passem por essas mesmas sensações o fato é que com a língua de sinais esses sentimentos parecem se ampliar e outra relação se estabelecer ora por conta das crenças e preconceitos que muitos ouvintes têm sobre a realidade surda gesser 2009 ora pelo distanciamento que se instaura entre as línguas do professor e as dos alunos por conta da própria modalidade linguística da língua de sinais aprender uma língua cujo canal de comunicação é totalmente alheio e diferente causa um estranhamento aos olhos e mãos dos ouvintes e esse estranhamento é ampliado e agravado quando se compartilha a convicção cem por cento equivocada de que os surdos são deficientes e anormais ou de que as línguas de sinais não são línguas questionamentos do tipo a libras é a gesticulação do português como vou me fazer entender com o professor surdo teremos um intérprete não seria melhor termos um professor ouvinte ensinando a libras o surdo é falante natural da língua de sinais mas ele sabe ensinar ou para que fazer prova de libras são discursos externados inúmeras vezes por aprendizes ouvintes por todos os lugares onde cursos de libras para iniciantes são realizados gesser 1999 2006 10

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11 por outro lado percebo que professores surdos têm desenvolvido diversas estratégias na relação com os ouvintes no intuito de aproximar e estabelecer a comunicação essas estratégias eu diria são construídas emergencialmente no ato de sobrevivência cultural de certeau 1994 mas não são suficientes para afirmar que os surdos por sua vez não sintam também medo angústia anseios e frustrações na interação com ouvintes os ouvintes acham que o surdo não é capaz às vezes os ouvintes não me respeitam como professor acho engraçado o jeito desengonçado com que os ouvintes sinalizam parece que eles não respeitam a cultura surda e o meu jeito de ensinar eu proponho uma atividade e muitos ouvintes demonstram desinteresse os ouvintes conversam demais nas aulas de libras e não conseguem fechar a boca o ouvinte e a surdez o ouvinte e o desconhecido mundo da surdez mútuo desconhecimento É o que está exposto no genitivo ao mesmo tempo objetivo e subjetivo desconhecimento do ouvinte que convive com um mundo que desconhece e desconhecimento da surdez que desconhece o ouvinte e o mundo dele uma diferença passa quase despercebida trata-se do ouvinte da surdez e de mundos mutuamente desconhecidos esse mundo aí da segunda pessoa do outro ambos são outros este livro vem refletir sobre alguns aspectos das práticas pedagógicas e algumas cenas de sala de aula e busca relatar algumas trajetórias percorridas para servir de experiência situar sensibilizar e por que não dizer para aproximar esses dois mundos mundos de aprendizes ouvintes e de professores surdos que se encontram para aprender e ensinar a língua brasileira de sinais o leitor encontrará no primeiro capítulo a apresentação de algumas discussões sobre ensinar e aprender línguas buscamos referenciar algumas teorias da literatura de línguas orais com o objetivo de pôr em cena questões pertinentes para pensar também possibilidades nos contextos de línguas de sinais em quem é o aluno ouvinte os interesses e necessidades dos aprendizes são abordados pontuando-se a importância de se ter em trajetórias percorridas

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o ou v in te e a sur dez s obr ee nsina r e aprender a libras e 4 audr i gess er mente que a abordagem de ensino do professor e os conteúdos devem contemplar a perspectiva do aprendiz nisso se inclui a importância de o professor contemplar os estilos e estratégias de aprendizagem bem como de ele conhecer as crenças que os alunos têm em relação ao professor surdo do que significa para eles aprender a libras o capítulo subsequente quem é o professor surdo faz o contraponto com o capítulo anterior e aborda elementos relevantes para que o aprendiz ouvinte tenha conhecimento do que diz respeito a seu professor surdo e a sua cultura o objetivo dessa discussão é sensibilizar os ouvintes a partir do entendimento das perspectivas históricas culturais e políticas vividas pelos surdos finalmente no capítulo quatro ensinar libras para ouvintes aponto sugestões e caminhos considerando minhas experiências como professora de inglês como aluna de língua de sinais americana e brasileira e também com base em pesquisas na área para a promoção de um ensino comunicativo que vise à aprendizagem da libras para situações reais de uso além disso enfatizo a importância de o professor considerar as habilidades e competências linguísticas a serem ensinadas a partir de uma instrução com base em textos e com um olhar crítico na escolha dos livros didáticos essa discussão nos remete ao segundo capítulo e à importância de considerar as necessidades individuais do aprendiz língua para comunicação geral ou para fins específicos por fim algumas orientações para ouvintes aprendizes iniciantes da libras são sugeridas com o objetivo de minimizar as tensões ansiedades e frustrações com que se deparam alguns ouvintes quando estão em contato com o idioma pela primeira vez É útil e prático refletir sobre algumas dessas orientações mas é válido ressaltar que a experiência de cada um é única individual e singular por isso mesmo bela a todos os leitores que por sua vez venham a sentir a libras em suas mãos ou que já estejam em contato inicial com a língua sugiro que se permitam abrir os olhos para esse aprendizado e para esse mundo visual 12

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